quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Entre o Deserto e o Transsiberiano



Tinha combinado com o Mike irmos sair no sábado em que eu voltásse a Ulan Bator. Mas depois de oito dias no deserto, não posso dizer que estivesse a morrer para ir cortiré. Por isso, foi com prazer que... bem, primeiro foi com prazer que entrei em casa, porque não sabia se ele se lembrava que eu chegava nesse dia. Mas lembrava, por isso deixou a porta destrancada. E depois, foi com prazer que vi uma nota que tinha deixado a dizer que tinha ido a Numseionde com a malta do trabalho, e só chegava no dia seguinte. Era mesmo o que eu queria, uma noite a ver filmes, sem fazer nada. Não é que eu seja um gajo que precisa do seu espaço e não sei quê (em Inglaterra vivi p’rai um ano e meio numa sala), mas apetecia-me estar na minha. Vi o Knowing, e não consegui deixar de imaginar o Nicolas Cage a escolher os seus filmes...
               
- Hum – diz ele, com um guião na mão – não... não posso fazer este filme, porque até é decente. Deixa ver se encontro um que seja assim mesmo mau como eu gosto...
               
O momento estranho desse dia foi que, depois de ter tomado o meu primeiro duche em oito dias, estava eu a beber um cházinho, quando alguém bate à porta. Eu abro, e entra-me uma cota mongol apartamento adentro a tripar, quase aos berros, no quarto de banho a apontar para o chuveiro. Eu percebi logo que devia haver uma infiltraão ou uma cena do género. Mas a cota não parava de falar, toda zangada. Começava a irritar-me. Disse uma, duas, quatro vezes, com o auxílio de linguagem gestual, que não falava mongol. Ela na mesma. Levantei a voz e disse-o de novo. E a mulher sempre na sua. Isto prolongou-se p’rai por dez minutos, até que lhe toquei nas costas com a palma da mão e apontei para a porta. Ela bazou. Soube mais tarde que não era a primeira vez que lá vinha.

O Mike chegou no dia seguinte, com a Solongo. Tinham avançado muito na relação nessa semana. Puseram os pontos nos i’s e a Solongo foi de falar com a sua antiga chama três vezes por dia para não falar de todo. Quando eu tomei banho e ia dar uma volta ele disse que eu não precisava de sair só porque a Solongo estava lá, o que foi um bocado estranho. É certo que ela não era a pessoa mais faladora do mundo, e é certo, confesso, que eu preferia quando ela não estava lá, mas vai uma grande distância daí a sair de casa porque a chavala lá estava. Estas palavras sairam-me agora de repente, sem pensar bem. Mas iá, tenho de dizer que é verdade, que prefiria quando ela não estava lá. Não, não tinha ciumes dela, mas custava-me ver como o Mike se rebaixava um bocado na sua presença com medo de pisar uma poça qualquer. Eu imaginava-o num campo de futebol, vendado, com o objectivo de chegar à outra baliza enquanto decorria um terramoto de escala dez, e cem mil possas que se moviam pela sua própria vontade. Impossível não meter a pata na poça. Mas também me parecia que ele é que via as cenas assim, ainda que não fossem dessa forma, muita das vezes. Mas eu sei lá...
               
Passei a tarde no café. À noite vi um filme com o Mike. A Solongo tinha ido para o campo fazer não sei o quê. Passei o dia seguinte no cafe, também, e quando cheguei a casa tinha um bilhete do Mike a dizer que me queria ir levar a beber uns copos, sendo que partia no dia seguinte. Dormi uma sesta e depois ele apareceu com o Ryan, um canadiano com cabelo de um palmo mas organizadinho atrás das orelhas, calças de fazenda, uma camisa de fato e uma camisola com carapuço da adidas. Fomos a um bar beber um par de cervejas e depois fomos procurar um sítio onde o Ryan pudesse comer qualquer coisa. Pelo caminho um parente deu um encontrão no Mike, à procura de pancada, mas seguimos caminho. Como os bares pareciam estar todos a fechar, comprámos algumas bebidas e voltámos para casa, onde estivemos à conversa. O Ryan, aos vinte e três anos, já tinha vivido, a ensinar inglês, na Ucrânia, no México e noutro país asiático além da Mongólia. Não era mau puto, mas tinha uns comentários que de vez em quando deixavam a desejar...
               
- Às vezes dizes cenas que eu não curto pá... tipo comentários meio racistas... – disse-lhe. Usava a palavra “nigger”, o que pelos vistos, na América do Norte, é má onda. Mas isso ainda é como diz o outro, é só uma palavra, não dou tanta importância. Mas iá, o que é certo é que às vezes mandava umas postas de pescada que davam a entender que considerava, efectivamente, os branquelas num nível acima, de certa forma.
               
Terça-feira, dia vinte e sete, tempo de bazar. Despedi-me do Mike, Rússia, aqui vou eu!

catorze e vinte e cinco, quinta, seis de outubro de dois mil e onze
algures entre Riga e Vilnius

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