terça-feira, 12 de maio de 2015

Apreensão

Méne, méne, méne...

Estou em Matadi, na República Democrática do Congo. No Auberge Nationelle, o mais barato que encontrei, depois de uma noite naquela albergue de luxo onde se pagava um extra para dar um mergulho. Estes quinze dólares de hoje deram-me para uma cama bem larga, uma televisão que não funciona, duas cadeiras e um ar-condicionado que parece uma besta indomável. São oito e vinte e uma da noite e escrevia sobre a minha entrada neste país. Mas depois começou, aleatoriamente, a Creep, dos Radiohead, e os sentimentos afloraram. Decidi tentar por no “papel” a sinceridade de sentimentos que me têm visitado.

Não sei bem que se passa comigo, mas está a ser interessante a análise. Vejo estes sentimentos e ideias como se fosse um espectador e não tivesse nada a ver comigo. Sinto-os como se tivessem tudo a ver comigo, como têm, mas tento sair um bocado de mim para pensar neles.

Tenho-me sentido como se não tivesse viajado muito. Acho que a RDC é um cocktail de estórias contadas (nunca boas), misturado com a sua intensidade própria, as constantes tentativas de extorsão ao branco, a polícia corrupta e o o facto de eu ter estado quatro meses em Portugal. Caminho pelas ruas de manhã, à tarde, ou à noite, na boa, sem problema. Não me sinto ameaçado. Mas sinto-me atento e vigilante. As primeiras vezes que vi polícia na rua passei para o outro lado. Depois deixei de o fazer, mas esse comportamento primário diz algo. E amanhã vou para o tipo de aventura que, mesmo no melhor dos momentos desta viagem, sempre me geraram alguma apreensão – a passagem de fronteira. Acontece que vou passar a fronteira de dois países manifestamente corruptos. Ora eu até agora só paguei o suborno de entrada neste país, mais uma espécie de gratificação para a segunda entrada em Brazzaville. Mas sinto-me mais perto de quebrar amanhã se tal mo for exigido. Como se as pequenas frustrações ao longo dos tempos se tivessem juntado e me puxado para baixo um pouco... E o mais estúpido é que eu estou farto de saber que se nós temos determinada expectativa acerca do nosso próprio comportamento, é mais provável confirmá-la! Mas ainda assim, assim me sinto. Sinto-me com menos autoconfiança, porque sinto que tenho mais a perder. Estou entre a espada e a parede, na verdade, e isso não ajuda. Se me apertarem os calos e eu resistir e não me deixarem sair deste país, só tenho mais um dia no meu visto. O mesmo se não me deixarem entrar em Angola.

Depois paro de repente. “Foda-se”, penso, “Será que não estou a fazer grande filme?”. E fico sem saber. Penso em relatos que li e não fico muito agradado com as estórias de pedidos de suborno. Anima-me um bocado ler como as pessoas se safaram sem pagar, mas depois penso que talvez quem não se tenha safado não se tenha dado ao luxo de partilhar a estória.

Sei isto... sei que, sinta o que sentir, o que importo é o que faço. E o que vou fazer é estudar a situação e tentar passar para o lado de lá sem dar um chavo. Estou consciente de que as minhas estranhas e talvez raras circunstâncias sentimentais talvez me atrasem um pouco, mas tentarei manter-me à tona apesar dos seus pesos.

É isto a viagem, méne... carrossel do sentimento, foda-se!

Que venham.

20h33, 3ª, 5 de Maio 2015
Matadi, RDC

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