quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Femi



Aguardava-me grande surpresa nessa noite. A Ema tinha-me dito que o Femi Kuti, filho do Fela Kuti, ia tocar no Shrine, e perguntou-me se queria ir ver. Disse que sim, mas mais interessado em sair um bocado e beber um copo do que ver um méne de quem tinha ouvido falar só uma ou duas vezes.
                 
Saímos de casa e demorámos três quartos de hora a lá chegar. Pensava que a cena era num concerto tipo em Portugal, por isso comprei, cá fora, uma garrafita de 30cl de Bitters para beber lá dentro. Contudo, entrámos e, depois de pagarmos o bilhete de dois euros e meio, percebi o que aquilo era realmente.
                 
Uma shrine costuma ser uma pequena sepultura onde estão as cinzas de alguém. Aquela shrine não era isso, mas era, ainda assim, um sítio em homenagem ao falecido Fela. Um pavilhão enorme com um palco ao fundo, uma área frente ao mesmo para o pessoal dançar, e um monte de cadeiras e mesas entre a pista de dança e os bares, ao fundo, onde ninguém ia porque o pessoal ia servindo à mesa. Havia estes a quem as pessoas podia pedir as bebidas, havia aqueles que passeavam com petiscos na mão e ainda aqueles que vendiam pequenos saquinhos de erva. As paredes estavam decoradas com réplicas de recortes de jornais gigantes, quadros e fotografias. Sentámo-nos com uma amiga da Ema e outra rapariga que estava com ela, pedi uma cerveja, virei o meu bitters num copo e apreciei. Iá, era fixe. Alguém tocava, provavelmente para abrir o concerto do Femi. Dei um gole e a amiga da Ema perguntou se eu queria uma sanduíche. Comi a sanduíche na tranquilidade e fui apreciando o ambiente ao meu redor, fui olhando para o palco com mais atenção. “Que som, que potência”, começava a pensar. “Não, isto é bom demais para ser uma abertura...”.
                
 - Quem é que está a tocar? – perguntei.
- O Femi – respondeu. “Bem me parecia”, pensei. No palco via o homem que ia, ora cantando, ora tocando piano, ora tocando saxofone. Do seu lado direito quatro mulheres, vestidas com trajes laranja que pareciam típicos de uma tribo qualquer, dançavam como se o futuro de África dependesse disso. Do seu lado esquerdo, na ponta do palco, com pinta de quem tinha, simplesmente, decidido ir dançar da pista de dança para o palco, outro homem fazia o mesmo. A cena em África é que, mesmo que, efectivamente, alguém no palco seja um méne qualquer que decidiu ir dançar para lá, nós nunca sabemos ao certo porque dançam sempre muito bem. A acompanhar o som o Femi tinha um baterista, um baixista, trompetes, saxofones, guitarra e três ou quatro rapazes a tocar djambé. Era uma mistura explosiva, com um som que nos entrava corpo adentro, apenas um tudo-nada abaixo de um volume que nos rebentaria com a alma de uma só vez. Entre as músicas ia falando connosco no inglês que os nigerianos falam entre eles e que nem sempre é fácil de entender. Entendi, no entanto, quase tudo e deixei-me levar pela inteligência e mordacidade daquele homem que não tinha quaisquer pudores em criticar o governo e o povo comum, numa mistura de activista com humorista, interpretando sempre com excelências as pessoas com quem gozava ou os sentimentos que lhe ocorriam.
                 
Como alguém que gosta de música de várias gerações, acontece-me várias vezes pensar em tempos idos e imaginar como seria ter estado ali a ver aquelas bandas. Ver os primeiros concertos de Bruce Springsteen em bares de New Jersey, estar em Chicago e ver performances de Dizzie Gillespie num bar fumarento a beber um whiskey, em Los Angeles a ver os The Doors. Dantes as cenas eram mais puras. Agora é tudo muito etéreo. Adoro concertos, e continuarei a acompanhar estas pessoas que me inspiram e me fazem ser mais eu. Mas hoje há muito mais consciência por parte dos artistas acerca de como fazer as coisas da melhor das formas para durar o máximo de tempo possível, maximizar os lucros e fazer com que as coisas corram conforme previsto. Iá, não são todos, mas às vezes sinto que a música vai perdendo um pouco da sua alma na generalidade. Há tretas que são feitas de propósito para um gajo curtir. E um gajo curte! Há cenas que são feitas de régua e esquadro para se adaptarem exactamente a este ou àquele segmento e com estas merdas todas toda a gente ouve mais música mas cada vez menos ouvem a música. Entre num ouvido, sai pelo outro, sem passar pelo coração, porque quando foi feita também não passou por aí.
                 
Pois quando eu estava ali sentado, lançado com a sobriedade num bolso roto, a olhar para aquelas miúdas a mexer-se de maneiras que não sabia ser possíveis ao som de um gajo que era filho do Fela mas que tinha todo o seu próprio direito pela maneira como se expressava com um sorriso do tamanho do Níger, senti que, naquele momento, eu estava ali. Eu estava naquele tempo que eu curtia ter vivido mas que não vivi por ter sido há muito tempo. Senti que aquele meu presente ia ser, sem dúvida, um tempo diferente, a ser recordado. “Hei, lembras-te dos primeiros anos da Shrine?”, imaginava o pessoal a comentar, em 2034, quando esse espaço tinha sido já comprado por uma rede qualquer de discotecas e agora todo o som que tinha vinha de mp3 ou outra cena qualquer inventada na altura. Ali havia almas penduradas nas paredes que viviam um pouco mais quando o ar tremia com a vibração de toda a brutalidade que vinha do palco. Eu estava ali, naquele presente.

2 comentários:

  1. Méne (pq és tu!, senao seria man, q é aquilo q sai d dedos) é isto mm. +coisa-menos coisa, mas s calhar ate + p - q + p +, eheheheh. Mt nice. + inveja. eheheh. Força. anonimo, mas n o d cima

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