domingo, 22 de janeiro de 2012

De Volta a Portugal


No dia seguinte acordei completamente empenado. Era ressaca, era tristeza, era revolta, era nervosismo, um pouco de algeria, sei lá. Tudo me habitava, e as minhas passadas eram longas e esquecidas. Como tenho aquela mania de me fazer sentir pior quando já me sinto mal, meti no leitor de música “This is the End” dos Doors e lá fui a ouvir essa taciturna música pelas ruas de Madrid. Sentia de tudo, como escrevera no dia anterior.

O hitchwiki levou-me até uma estação de serviço ainda dentro da cidade. Dos piores sítios para sair de uma cidade que o site me tinha dado. Lá fiquei, fui perguntando, mas numa hora e meia, nada. Quando perguntei ao pessoal que trabalhava na estação de serviço disseram-me que havia outra lá mais à frente. Sem saber bem o que fazer, segui para aí à boleia de um par de chavalos. Lá não havia carros nenhuns. Até que apareceu o Mikel, com o seu puto com quem comunicava com um walkie-talkie do banco da frente para o banco de trás (última prenda de anos). A cena é que o Mikel ia para Arenas de San Pedro, que apesar de ainda ser a uma distância fixe, era por uma estrada diferente. Ou assim iria ele, sendo que dava para ir em direcção a Portalgre na mesma e virar, mas aí um gajo tinha de pagar. Bem, segui com ele.

Andámos um bom pedaço, parámos para ele comprar tabaco e comermos qualquer coisa, e deixou-me numa estação de serviço muito, muito parada. Depois de interpelar algum pessoal que não ia para muito longe, decidi ir indo, pouco a pouco. Fui andando de boleiazita em boleiazita, aos dez quilómetros de cada vez, passando por Madrigal de la Vera e outras terras chamadas Nãoseiquê de la Vera, até que cheguei, já o sol estava cansado, a Villaverde de la Vera. Não havia maneira nenhuma de conseguir sair dali. Aquela região era, como tantos outros sítios nesta viagem, daqueles lugares onde um gajo nunca, nunca iria em circunstâncias, digamos, normais. Encontrei um cafézito que mostrava o Braga-Benfica, e pedi à senhora para mandar um toque à Graciete. Não tive de insistir, mas tive de pedir mais que uma vez e explicar que não iagastar dinheiro e tal. Ela lá acedeu, mas por alguma razão não conseguia falar com a miuda. Perguntei à cota se havia uma cabine e ela encaminhou-me para o outro lado da vila, que era a dez minutos a pé.
               
- Estou?
- Estou Kidus, – disse eu muito rápido antes que o dinheiro se fosse – olha aponta aí, estou em Villaverde de la Vera, em Espanha,   +rai a duas horas e tal de Portalegre. Podes vir buscar-me?
- Posso, eu peço o gps ao Abreu.
- Ok, fixe. Hum... ainda tenho dez segundos... ‘Tá tudo?
               
Passei algumas horas naquele café. Comi qualquer coisa, vi um filme horrível, e tive de sair porque às dez e tal fechavam.

A Graciete chegou lá                 +rás onze e dez, estava eu sentado na minha mochila na beira da estrada a fazer qualquer coisa no computador. Aquele Renault Clio, o Válter (ou Wally, em inglês), que me tinha levado de Portalegre, o meu último destino tuga, trazer-me-ia igualmente. Que cena. Conduzimos, perdemo-nos, e eram         +rai duas quando estava a atravessar a fronteira. Nove meses e onze dias depois... duzentos e oitenta e quatro dias depois eu voltava ao país que me vira surgir.

Passei duas noites em Portalegre, até voltar para Vale de Cambra. Em Portalegre sentia-me como num sonho, não de tão espetacular que era, mas pela dormência. Sentia-me atordoado, um pouco atafegado, um pouco pressionado. Sentia, acima de tudo, que ainda não tinha chegado. Sentia que o resto de mim andava ainda por aí, perdido numa estrada europeia qualquer, de polegarzito esticado numa valeta, à espera de quem o trouxesse.
               
E sentia-me mal em me sentir assim, porque estava com a Graciete, que tinha esperado por mim, que me tinha ido buscar, e não queria que pensasse que era por causa dela. Queria sentir-me melhor em estar de volta, mas a verdade é que tudo me era muito estranho. Os sentimentos tinham ido dar uma volta e aparecia em mim uma espécie de vazio que eu esperava, e imaginava, ser provisória.
               
Percebi que precisava de largar algo, largar uma ideia que se transformava numa certeza, e senti-me um pouco melhor depois de o fazer. Tinha medo da reacção da Graciete, não queria ver aqueles olhos tristes e com medo do futuro. Mas felizmente, pareceu-me que estava uns metros à minha frente neste domínio, como se já soubesse o que eu lhe queria dizer.
               
- Pá... a cena é que eu acho que batia muito mal se soubesse que nunca mais faria uma viagem destas, dava em doido. Não tem de ser para já, e não tem de ter uma duração assim tão grande. Mas eu preciso disto... é como se um gajo descobrisse um fascínio de VIDA e depois saiba que nunca mais o vai ter. É inconcebível e até cruel. E não tem nada a ver com fugir das minhas circunstâncias, muito menos com fugir de ti, se tu viesses ainda melhor, nem tem nada a ver com ir à procura de quem sou e essas cenas todas... tem a ver com ver em cada dia o potencial infinito que tem... não saber onde se vai estar no dia seguinte, muito menos o que se vai fazer... ter a surpresa sempre ali ao virar da esquina mas não saber qual das esquinas a melhor e ainda assim escolher qualquer uma sem pensar. Não ter de fazer nada senão aquilo que nos apetece. Conhecer pessoas todos os dias que nos trazem novas maneiras de ver, de sentir, de saltar, de voar, de correr, de ser... e que nos ajudam a olhar para dentro e realmente perceber o porquê das cenas, o porquê das nossas maneiras... Apesar de não ser, como disse, acerca de ir à procura de quem sou, é impossível não encontrar, algures por aí nas praias onde nado ou nas estradas que percorro, peçitas do puzzle que cairam da cesta da cegonha quando nos trouxe. Eu estou muito bem em Portugal, gosto de Portugal, da cultura que temos e das relações que tenho... e apesar de toda a merda que se tem passado, com crise            +ráqui, crise      +ráli. Mas gosto, acima de tudo, de estar em Portugal sabendo que me aguarda, num futuro a curto ou médio prazo, uma aventura destas. Gosto de saber que tudo o que sinto agora não são meras versões de outras coisitas só um pouquinho mais diferentes das outras que já senti.

Ela percebeu.

dezassete e cinco, terça, vinte e nove de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal

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