quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Andorra



De Montpellier a Andorra tinha trezentos e poucos quilómetros, seria uma viagem mais ou menos tranquila, apesar de ter chegado já de noite.
               
Acordei tarducho, arranjei-me e fui para o metro. Deixei-me ir, sem pagar, até à ´´ultima estação da “linha das rosas”, saí e fui para a portagem. Lá estava uma chavala que se safou de imediato. Estava sem malas e vestida toda pax-pix, parecia que fazia isto com frequência, e só para ir “até ali”. Eu não tive menos sorte. Parou um cota com uma boa pinta, que me levou. Fomos falando de história em francês, mas a meio percebi que também falava inglês, o que é sem dúvida melhor. Ele queria ir levar-me a comer umas ostras, e apetecia-me mesmo, porque curto bués estas ocasiões boleiantes, mas achei melhor seguir caminho.
               
Deixou-me numa portagem, onde esperei quase uma hora. Estava lá uma rapariga e combinámos que, caso um conseguisse, pedia para levar o outro. Eu safei-me com uma senhora de cabelo curto, mas ela não acedeu ao meu pedido. Esta também me falou muito de política, sempre em francês, e acerca dos tristes feitos europeus em África. Deixou-me numa estação de serviço onde tive de esperar um bom bocado. Daí segui com o casal mais calado de sempre, que me deixou perto de Perpignan. Lá fiquei numa portagem, ninguém ia para os lados de Andorra. Resolvi aplicar o golpe de Zurique e de Milão (entrar na cidade e lá tentar perceber como me orientar melhor), mas um casal levou-me uns quilometritos à frente e deixou-me mesmo ao lado de uma placa que dizia “Andorra”. “‘Tou fodido, aqui só com o dedo...”, pensei. Pensei mal. Porque passados vinte minutos estava no carro de outro cota, ainda mais falador que o primeiro, que me levou prai uma hora e meia. Este era mais daqueles que eu não percebia muito bem e dizia que sim com um sorriso. Não comia queijo, não bebia, não fazia nada das cenas que dão tanto prazer, isso percebi bem porque fez questão de o sublinhar. Não gosto quando o pessoal faz isso. Quero dizer, que cada um faça o que lhe apetecer, mas eu não o quero fazer... Vendo cinco anos da minha VIDA pelo prazer de comer queijo, francesinhas e amendoíns à vontade, e não me preocupar com vinhos, whiskeys ou cervejas...
               
Ia escurecendo, e este cota deixou-me a cerca de oitenta quilómetros de Andorra. Deixou-me no meio de uma aldeia que não era nada mais do que cem metros de casas, no meio das montanhas. Estava a adorar aquele cenário. O Outono era todo meu ali na França com um pé em Andorra. Fiquei na beira da estrada, já a apertar o casaquinho, quando um casal parou. Levaram-me prai meia hora, dormi um bocadito. Outra vez na estrada, fui apanhado num ápice por duas espanholas, aquele dia de dedo espetado estava a correr brilhantemente! Tanto que quando me deixaram, não esperei mais que dez minutos até ser apanhado por um carro com um casal e outro rapaz a fumar toda a ganza que podiam antes de atravessar a fronteira. Benvindo a Andorra.

Ia ficar em casa do Dani, que não sabia quem era. Tinha postado na minha página do facebook que ia para Andorra, e a Joana disse que estavam lá uns valecambrenses, e deu-me o contacto do Dani. Como o Dani tinha uma imagem qualquer de snowboard no seu perfil, não sabia quem era. Foi por isso com surpresa que o vi aparecer no McDonalds para vir ter comigo.
               
- Ah, és tu! – tinha-lhe ligado de uma cabine.
               
Passei três noites em Pas de la Casa, e foi muito fixe. Achei aquele ambiente fascinante, não pela sua espetacularidade, mas pelo fenómeno social que é. Tive essa impressão de imediato, e fui  confirmar – Andorra é o país do mundo com maior percentagem de imigrantes, sendo esta de mais de setenta por cento em dois mil e cinco. é incrível, sem d´´uvida. Isto depois do Vaticano, que tem cem por centro de imigrantes... Por razões óbvias, que é o facto de rapazinhos não poderem engravidar.
               
Na primeira noite fiquei um bocado em casa do Dani à conversa com a Verónica, a sua namorada chilena, e depois fomos ter com o Bebé. Pelos vistos tinha havido festa da grossa no dia anterior, e o pessoal estava todo partido. Contudo, ter estado ali com eles naqueles dias deu-me a entender que, com festa ou sem festa para desajudar o descanso, o pessoal trabalha de caraças. Muitas horas, uma folga por semana quando têm esse privilégio.
               
A Veronica veio do Chile para a Espanha há alguns anos à procura de um trabalho que pagasse um pouco mais, aliado à aventura natural de quem atravessa um oceano. Conheceu o Dani já em Andorra e agora partilham um apartamentozinho pequeno mas muito bacano. O outro valecambrense que lá está é o Bebé. Foi fixe ter estado com ele, porque é daquelas pessoas que conheço quase desde sempre mas com quem nunca tinha falado mais que cinco minutos. O Bebé está lá há dois anos, está bem e confortável, mas também trabalha mil horas por dia, mil horas por semana. Pelo que percebi, e me disseram, os portugueses tanto têm má fama por terras andorrenhas, como fama de trabalharem muito. Coisas opostas, mas enfim. O Bebé e o Dani caem claramente na segunda categoria.
               
Na segunda noite fomos dar uma saída. É que na primeira percebi que o Dani queria ir beber uns copos, mas porque eu estava lá e ele queria ser um bom anfitrião. Mas eu disse que não havia crise, e saímos na noite seguinte. Fomos até casa do Bebé, ficámos lá um pedaço, depois saímos para o sítio onde eles costumam ir e conhecem o bartender, um gajo de Viana do Castelo. Mas claro, numa vila com duas mil pessoas, seria era estranho se não se conhecessem quase todos.
               
Pareceu-me, acima de tudo, que Pas de la Casa estava em stand-by. É que toda a gente falava com um sorriso e olhos sonhadores de “quando vier a neve”.
               
- Pá agora não se passa nada, como tu vês... mas na época um gajo pode fazer snowboard todos os dias, está cheio de malta, vêm mais pessoas para trabalhar, não tem nada a ver – diziam, mais do que uma vez. E eu acredito sendo que, efectivamente, não se passava nada ali. Mas é aquela cena, não tem de se passar alguma coisa, se estás com um grupo porreiro de três ou quatro. Foi por isso que apesar de toda a calmaria, chegámos a casa lá   prás cinco da manhã.
               
- Não fiz muito no resto dos dias. Num dia fui dar uma volta, ver um lago que até é bonito e, acima de tudo, descontrair. Saímos mais uma noite, que foi tipo a primeira. E na manhã seguinte, segui para Barcelona.

sábado, treze e cinquenta e oito, vinte e seis de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal




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