sexta-feira, 15 de abril de 2016

Campanha Crowdfunding - "Sobre a Campanha" sem limitações de espaço.

Um dia decidi tentar dar um passo em frente. Não sabia muito bem onde ia dar, mas decidi que queria dar tudo por tudo por ter experiências memoráveis. Agarrar a VIDA pela raiz e deixá-la tomar conta de mim.

Tive esta realização numa pequena viagem de duas semanas à Índia, em 2009. Voltei a Inglaterra, onde trabalhava como psicólogo, despedi-me, e decidi lançar-me.
Fui de Portugal a Singapura e daí de volta à nação, numa epopeia de 50.000km por terra, 20.000 dos quais à boleia.

Já tinha percebido que viajar era uma paixão, e que escrever também o era. Percebi aí a paixão de os combinar e escrevi o "Daqui Ali - De Portugal a Singapura Por Terra", que publiquei em 2013.

Vim assim dessa viagem, e por isso não tardou a ter de ir novamente. Queria ir para um sítio novo, e de uma maneira nova para mim. Ia ser África, e ia de bicicleta! Aceitei tudo o que as boas intenções me disseram acerca de como ia morrer e ser assaltado mil vezes mas não fiz caso suficiente para deixar de ir, e parti em Janeiro de 2014, mesmo da porta de minha casa, em Vale de Cambra, com o Cabo da Boa Esperança na minha mente.
Em 15 meses atravessei 21 países da África Atlântica.

O que é que tu podes retirar deste livro?
  • É possível!
Foi uma viagem difícil, com vários obstáculos que por vezes pareciam intransponíveis. Mas difícil não é o mesmo que impossível. Antes desta viagem o máximo que tinha pedalado num dia tinha sido 12km. 12km! Só. No entanto isso não me impediu de ir. Claro que me custou habituar-me mas, como ser humano que sou, habituei-me!
  • É perigoso?
Não, não é perigoso, e nada como ouvir os relatos de alguém que passou por situações que antes de aparecerem se afiguravam como tal. O mundo é um lugar seguro e a grande, grande maioria das pessoas não quer nada senão o nosso bem-estar. Foi isto que encontrei África fora, e são essas experiências que partilho aqui.
  • Inspiração
Sinto-me sempre um pouco constrangido em estar aqui a afirmar que te posso inspirar pois, afinal de contas, quem sou eu, não é? Pelos vistos, sou só uma pessoa. Mas as pessoas que são só pessoas podem inspirar outras pessoas, tal como outras me inspiraram a mim. Talvez a maneira como eu te possa inspirar seja mostrando o quão fácil é partir a partir do momento em que tomámos essa decisão, se é isso que queres mesmo fazer. Não acho que toda a gente deva viajar, acho sim que as pessoas devem fazer seja o que for que as faz felizes. Para mim é isto, e quem sabe se ao ler estes passos que eu tomei para me libertar das correntes da normalidade tu próprio/a não estarás mais próximo/a disso...
  • Truques
Depois de ter visitado mais de 80 países em várias viagens ganhei algumas experiência, aprendendo alguns truques, maneiras de nos safarmos de algo. Não vais ficar a saber tudo, pois eu também não o sei, nem nunca o saberei mas, da mesma forma que eu beneficiei também de conselhos de outros viajantes, tu também podes com este livro.


O que aconteceu nesta viagem?
  • Atravessei o Deserto do Sara;
  • Passei uma tarde com revolucionários pela independência do Saara Ocidental;
  • Andei no comboio mais longo do mundo na Mauritânia, num louco desvio deserto adentro;
  • Atravessei a fronteira da Guiné-Bissau para a Guiné-Conacri por carreiros pelo meio da selva;
  • Fui detido na Serra Leoa por polícias totalmente bêbedos à meia-noite;
  • Fui parado pela polícia 23 vezes na Nigéria, confundido com terroristas dezenas de vezes e detido umas horas;
  • Fiz de xamã numa alucinante cerimónia com uma tribo na floresta do Gabão;
  • Estive a cinco metros de um gorila na floresta do Gabão enquanto pedalava;
  • Foi-me recusada a entrada na República Democrática do Congo, tendo de vir a Portugal a meio por isso;
  • Atravessei Angola num mês despendendo apenas 10€;
  • Atravessei o Deserto do Namibe;
  • ...cheguei ao Cabo!
E tantas, tantas outras experiências que são tão mais difíceis de explicar numa linha repentina.

Tal como na minha primeira viagem, o que aprendi com este périplo africano não cabe nestas palavras, neste site... mal cabe em mim. Mas o que cabe eu partilhei neste livro, que escrevi e agora aguarda a edição. Aprendi um pouco mais acerca do mundo, acerca das pessoas e dos corações que por elas palpitam. Como os nossos.

VEM NESTA VIAGEM COMIGO!

domingo, 7 de junho de 2015

Bons Dias

Que dias bons tenho tido. Dias em que sorrio, em que estou presente em mim, em que consigo viver apenas tudo o que me rodeia sem pensar no fim de nada. Dias em que sinto que estou vivo e sereno. Dias em que a serenidade tem tons de rebeldia e emoção, não se sabe como. Dias em que paro a Bicicleta, respiro fundo, fecho os olhos um bocadinho e penso “Estou aqui. Eu estou aqui. Agora mesmo”. Dias em que não me esqueço de viver, dias em que existo tanto, tanto, que me faz querer chorar.

Hoje.

Hoje cheguei a considerar ir até à Namíbia. Mas ia chegar tarde, e decidi ficar-me pelo velho costume de passar fronteiras longe das horas da escuridão. Segui então em direcção a Ondjiva, nas calmas. Ao almoço cometi o luxo de cortar umas cebolas e uns pimentos em vez de mandar só lata de sardinhas e polpa de tomate. Comi ali debaixo daquela árvore, sentado naquela tronco cortado, com o pessoal que não falava português a aparecer de vez em quando.

Depois, mais tarde, a estrada para Ondjiva não era a que ia para Santa Clara, a fronteira. Davam as duas, soube mais tarde, mas decidi prescindir da capital de província e vir pela que seria a fronteira na certa. A ideia era acampar numa povoação qualquer. Não tão certo de que haveria povoações andei uns quilómetros e olhei com novos olhos para aquelas espécies de aldeamentos que apareciam às vezes. A toda a volta troncos de árvore ao alto, lá dento cubatas com telhado de capim. Estava reticente. Talvez fosse malta tanto à margem da sociedade que me rejeitassem a estadia, não por mal mas por receio.

Meti a Bicicleta pelo areal, aproximei-me. Uma porta estreita mostrava um longo corredor de mais paus ao alto. Sem saber se deveria entrar ou não, esperei um minuto, e nas minhas costas apareceram o senhor de chapéu de couro e chiba longa, a senhora sem dentes da frente em cima, touca africana e sorriso onde cabiam marinheiros e a outra que se esquecia e falava comigo na língua local. Expliquei-me e perguntei se podia montar a tenda lá dentro, alegando que lá fora podia sempre aparecer um animal. Percebo agora que o que eu queria era conhecer este tipo de espaços, este tipo de gentes, os animais eram as menores das minhas preocupações. Com a pergunta veio a surpresa. Reparei que a senhora da touca africana era quem teria algo a dizer. Sem nunca deixar de sorrir deu-me a entender que não percebia muito bem porque é que eu haveria de lá querer ficar e no segundo seguinte disse “Claro que sim”.

Entrei, passei o corredor e ao fundo, um pouco à esquerda, dois pequenos jangos. À direita o canto onde pedi para meter a tenda. Eles disseram que sim mas queria alisar o terreno. “Não é preciso, obrigado”. Perguntei se havia água enquanto montava a tenda. Estava a acabar de montar o meu palácio quando o senhor de chapéu de couro me disse, quase pedindo desculpa: “Você quer água agora? É que nós estávamos ali a conviver”. “Não, não, é na boa, não se preocupe”, respondi, ficando-me no ouvido a bela palavra: Conviver.

Meti as coisas dentro da tenda e passou a senhora com uma grade de N'Gola, perguntou se queria uma. Aproximei-me e ela passou-me uma garrafa, dizendo que não estava tão fria, “ali” é que estava fria, apontando para lá do embondeiro, lá fora. “Eu vou já lá ter, obrigado”, respondi.

Passei o embondeiro e encontrei-os sentados em cadeiras de plástico ao lado do estabelecimento da senhora, uma divisão com chapa de zinco. Lá dentro um balcão, cervejas em baldes de água fria, vinho, salsichas, latas de atum e pastilhas elásticas. Comprei uma N'Gola e sentei-me com o pessoal. Lá atrás putos jogavam à bola. Olhava para eles e via as balizas de pau e ao fundo todo um cenário de árvores. Onde é que eu estava? Passei duas horas com os meus amigos. Depois de ter bebido um copo de vinho de palma, a senhora veio com uma garrafinha de vinho português (O Magnata) e quando perguntei quanto era disse que era oferta.

Só havia sorrisos ali. Apareceu o António, camionista, que amanhã ia buscar cebolas à fronteira para levar para Benguela, o filho da senhora, o filho da outra, os futebolistas cansados. E eu sentia-me bem. Encostava-me para trás e apreciava o facto de falarem entre si em português só para eu perceber, saboreava o vinho que deixava borra no fim e ia sentindo o ar arrefecer, o sol a desaparecer.

Quando voltei a senhora veio perguntar se eu queria água quente para tomar banho. Disse que não mas quando fui para o quarto-de-banho que me improvisou entre uma cubata e a parede com dois lençóis de cada lado percebi que me aqueceu a água de qualquer maneira. Tomei banho com uma linha cor-de-laranha e azul escura lá ao fundo dando lugar ao negro, e tudo estava bem, tudo estava calmo. A noite sentou-se à mesa e eu sentei-me no tijolo que me dera à frente da tenda para cozinhar. Nem tudo é perfeito e o meu fogão deixou funcionar. Jantei duas cebolas cruas, dois pimentos crus e seis ou sete salsichas. Mas tudo bem, pode ser que amanhã dê.

E agora estou na tenda, a curtir tanto esta simplicidade de VIDA. Sem qualquer tipo de condescendência aprecio a simplicidade desta gente, que dorme em casas de madeira e me pergunta se vou acordar às quatro da manhã quando digo que vou acordar cedo amanhã. Sinto que vivo plenamente as razões pelas quais viajo, pelas quais existo.

20h05, 4ª, 3 de Junho 2015
Lucando, Ondjiva, Angola




segunda-feira, 25 de maio de 2015

Sinto-me só.

Ouço as trágicas músicas do Moby nesta praia deserta e sinto-me só. Não sei bem que hei-de fazer comigo mesmo. À minha volta só escuridão e um mar que vai enchendo, que vai esvaziando, que me vai dando uma banda sonora ao menos apaziguadora. Nem a lua me faz companhia. Mandou tudo às favas e não se passeia por estes lados.

Irónico... esta é daquelas situações que eu idealizei... eu, sozinho na praia, a cozinhar, a olhar para o mar, algures numa costa africana, sentado depois a ouvir música, a escrever... Mas este dia em que a vivo sinto-me distintamente só. Não sei se por ter passado ontem e hoje na companhia de um grupo neste mesmo cenário, se por não falar com a Graciete há uns dias, ou se por mera casualidade. Pois este sozinho que hoje me deixa a sentir só já várias vezes me assaltou sem só me fazer sentir. Assim sou, assim somos, mais ou menos... uns mais constantes, previsíveis ou controlados, outros mais tempestuosos e relâmpago, mas assim somos, assim andamos, cada um à deriva tentando aprimorar o nunca perfeito leme.

Quando me sinto assim, só, assalta-me a mente as limitações da minha VIDA. Aquele desespero de saber que acabará um dia afunda-me o estômago um pouco e penso em coisas bonitas para não me deixar levar. Penso em tudo o que já aconteceu, em tudo o que acontecerá e procuro um significado qualquer que una isto tudo. Não o encontro mas espero que me vá distraindo na procura.

São sete da tarde e a noite é escura e estelar. Com esta música que não ajuda, assaltam-me desejos assim de querer chorar um bocadinho, e sinto uma falta enorme dela. Penso no que fará neste preciso momento, em que pensará, penso que podia estar aqui, que eu podia estar lá.

Acho isto tudo profundamente, tristemente bonito. Estes sentimentos que aparecem inesperados, que não são apreciados, estas ideias e pensamentos que são imprevisíveis como sempre, todos estes bailares que me deixam, por vezes, estafado.

Mas agora estou aqui. E é só isso. Agora podia estar em quase qualquer canto do mundo, mas estou aqui, a ouvir os caranguejos à cata de possíveis restos de comida, o Moby e o mar. Sinto-me só e não me queria sentir assim. Mas é aqui que eu estou, e é assim que me sinto.

19h10, d, 17 Maio 2015
Cabo Ledo, Angola


quinta-feira, 14 de maio de 2015

Amor

Como é que tu consegues?”, ouço tantas vezes. “Como é possível ir viajando e manter uma relação tanto tempo?”, o pessoal vai dizendo. Às vezes, em vez de perguntarem, exclamam qualquer coisa. Eu penso um bocado e analiso. Valerá a pena explicar ou dever-me-ei ficar pelo normal de “Ela é mesmo fixe”? Vou dentro e fora no pensamento e explico algo que sai na altura. O pessoal na maioria das vezes dizendo que sim com a cabeça, entendendo eu que não percebem realmente.

Como os posso julgar se eu próprio não o percebo assim tão bem?

Quis-me eu ser um rapaz lógico. Não pensando eu nisso, a lógica que me quis sempre me disse que haverá sempre um lugar melhor, um momento melhor... haverá sempre algo melhor para o lado de lá. E eu sempre fui andando, sempre à procura de algo melhor, algo mais bonito, algo mais fascinante. Nunca procurei uma namorada melhor, e ainda bem, pois tampouco a encontrei. Mas a lógica com a qual posso conversar diz-me que não tem grande sentido as milhares de raparigas que eu conheci não serem melhores do que aquela que encontrei num baile de finalistas do nono ano. Não, a lógica alia-se à lei da probabilidade, e depois àquela minha velha amiga que é a minha própria razão, o meu próprio sentido de ser que diz Tu não assentarás por comodidade.(Que alguém se livre de tal)

A minha razão. Aquela que me impele a ir, aquela que me impele a conhecer o mundo todo, aquela que me fode a cabeça de manhã à noite por não saber o que quer mas que o que quer estará naquela linha do tudo o que existe. Essa razão que eu tenho tem poucas certezas. Das poucas que tem, algumas são parvas, algumas meramente histórias. Outras tão fortes quanto o sentimento da beleza de ter um ser tão colado ao meu que me deixa perder os limites da minha própria pele.

Lógicas e leis matemáticas e razões perdem-se na inevitabilidade da realidade que vivo. Agora bêbedo, tantas vezes bêbedo, questiono os meus desígnios, a minha sorte. E depois tudo o que é real chove em mim e eu percebo que, não obstante tudo, o meu Amor não é o mesmo que naquela noite do nono ano. Que é algo que se vai alimentando de si mesmo, através de sorrisos, tropeções ou frases como “És um riquezo” que vão acontecendo e atropelando-me pelo caminho. Que a pessoa que me veio pedir para dançar nessa noite é a matéria prima da alma que a partir daí se formou. Que o que existe aqui existiria de qualquer maneira mas, quem sabe, e espero eu, sem a mesma graça.

E perguntam-me como é possível, podendo eu apenas questionar-me como seria possível desligar-me de alguém que me mantém vivo de tal forma. Como seria possível ter tudo na mão e decidir que preferia só um pouco de cada coisa?



Há noites em que adormeço e estou em casa. Outras em que adormeço tão longe. Neste tão longe de Luanda não há noite em que não ansiasse pelo conforto daquela perna de seda em cima da minha.

Villa Sul, Luanda, Angola
2h47, 4ª, 14-5-15


[Zé, desculpa a razia às Nocal's]

terça-feira, 12 de maio de 2015

Apreensão

Méne, méne, méne...

Estou em Matadi, na República Democrática do Congo. No Auberge Nationelle, o mais barato que encontrei, depois de uma noite naquela albergue de luxo onde se pagava um extra para dar um mergulho. Estes quinze dólares de hoje deram-me para uma cama bem larga, uma televisão que não funciona, duas cadeiras e um ar-condicionado que parece uma besta indomável. São oito e vinte e uma da noite e escrevia sobre a minha entrada neste país. Mas depois começou, aleatoriamente, a Creep, dos Radiohead, e os sentimentos afloraram. Decidi tentar por no “papel” a sinceridade de sentimentos que me têm visitado.

Não sei bem que se passa comigo, mas está a ser interessante a análise. Vejo estes sentimentos e ideias como se fosse um espectador e não tivesse nada a ver comigo. Sinto-os como se tivessem tudo a ver comigo, como têm, mas tento sair um bocado de mim para pensar neles.

Tenho-me sentido como se não tivesse viajado muito. Acho que a RDC é um cocktail de estórias contadas (nunca boas), misturado com a sua intensidade própria, as constantes tentativas de extorsão ao branco, a polícia corrupta e o o facto de eu ter estado quatro meses em Portugal. Caminho pelas ruas de manhã, à tarde, ou à noite, na boa, sem problema. Não me sinto ameaçado. Mas sinto-me atento e vigilante. As primeiras vezes que vi polícia na rua passei para o outro lado. Depois deixei de o fazer, mas esse comportamento primário diz algo. E amanhã vou para o tipo de aventura que, mesmo no melhor dos momentos desta viagem, sempre me geraram alguma apreensão – a passagem de fronteira. Acontece que vou passar a fronteira de dois países manifestamente corruptos. Ora eu até agora só paguei o suborno de entrada neste país, mais uma espécie de gratificação para a segunda entrada em Brazzaville. Mas sinto-me mais perto de quebrar amanhã se tal mo for exigido. Como se as pequenas frustrações ao longo dos tempos se tivessem juntado e me puxado para baixo um pouco... E o mais estúpido é que eu estou farto de saber que se nós temos determinada expectativa acerca do nosso próprio comportamento, é mais provável confirmá-la! Mas ainda assim, assim me sinto. Sinto-me com menos autoconfiança, porque sinto que tenho mais a perder. Estou entre a espada e a parede, na verdade, e isso não ajuda. Se me apertarem os calos e eu resistir e não me deixarem sair deste país, só tenho mais um dia no meu visto. O mesmo se não me deixarem entrar em Angola.

Depois paro de repente. “Foda-se”, penso, “Será que não estou a fazer grande filme?”. E fico sem saber. Penso em relatos que li e não fico muito agradado com as estórias de pedidos de suborno. Anima-me um bocado ler como as pessoas se safaram sem pagar, mas depois penso que talvez quem não se tenha safado não se tenha dado ao luxo de partilhar a estória.

Sei isto... sei que, sinta o que sentir, o que importo é o que faço. E o que vou fazer é estudar a situação e tentar passar para o lado de lá sem dar um chavo. Estou consciente de que as minhas estranhas e talvez raras circunstâncias sentimentais talvez me atrasem um pouco, mas tentarei manter-me à tona apesar dos seus pesos.

É isto a viagem, méne... carrossel do sentimento, foda-se!

Que venham.

20h33, 3ª, 5 de Maio 2015
Matadi, RDC

terça-feira, 21 de abril de 2015

Os Primeiros Dias no Togo

Cheguei a Lomé às cinco da manhã de Sexta para Sábado, depois de ter esperado umas horas em Casablanca. Conheci um Francês no autocarro que vai da gare para o avião que disse que talvez pudesse ir no táxi dele. Não iria. Provavelmente ele já tinha visto por isso não teve de esperar, como eu. Depois, quando pedi o visto, e enquanto aguardava, conheci um Português que trabalhava com o Ventura, que já tinha conhecido por estas terras. Um homem de aspecto vivido, bigode farto, tatuagens cansadas e rugas fortes na cara. Quando passei para o lado de lá e tentava negociar os sete mil francos que me pediam vi-o e perguntei se não se importava que eu fosse no táxi que a empresa dele tinha mandado, caso ele passasse pela minha zona. Ele disse que sim, mas não devia estar com grande vontade pois quando perguntei ao taxista se passava em Avenou o tuga disse um “Não”, tipo “Não, pois não?”, apesar de me ter dito anteriormente que não sabia onde era. Estava com sono, certamente, mas vá, podia ser mesmo a caminho.

O Remy veio para o Togo, tal como outros franceses para outros países, numa espécie de voluntariado pago, ensinando a juventude local a trabalhar com computadores e a programar. Devia ter bazado já há um ou dois meses mas este rapaz queria deixar um legado, pelo que vai ficar até Julho. Através de entrevistas aos seus estudantes seleccionou cinco ou seis e dá-lhes aulas todos os dias da semana, aos Sábados e alguns Domingos, sem já ganhar nada. Quando lhe sugeri regressar a França sem voar quando isto acabasse e me disse que não ia ter dinheiro, e lhe perguntei se não podia usar o dinheiro que tinha ganho aqui, disse que não ia ter muito porque ia comprar-lhes computadores e cenas. Para que esse seu legado seja uma empresa registada em actividade que os seus estudantes possam levar em bom rumo.

- Ela diz que eu não devia fazer isso, que é muito complicado – dizia-me, há meses, falando de uma francesa que andava por África a inspeccionar o trabalho dos voluntários – e que não vai resultar. É aquela mentalidade... tipo vem-se para aqui, ajuda-se um bocadito para se sentir melhor, mas mais não, mais eles não conseguem...

Passei o meu primeiro Sábado em casa de volta dumas cenitas enquanto o Remy estava com os seus alunos e depois fomos córtiré. Partiu tudo. Não sei muito bem como deu a volta que deu, mas o que é certo é que, num momento estava num bar a beber cerveja e a ver um rapaz sem perna a dançar espetacularmente num palco com uma música que quase impossibilitava o discurso e no outro estava dentro uma loja de madeira com telhado de zinco com o Remy e mais seis ou sete togoleses a cantar, um méne a fazer de um bidão amarelo ao contrário um djambé, outro com uma faca e uma garrafa vazia a marcar ritmo.

No Winners Bar, esse primeiro do rapaz sem perna, não estava a curtir tanto. Estava com o Remy sentado numa mesa de plástico, íamos vendo o pessoal a dançar no palco, ouvindo música, mas não dava para conversar muito. Entretanto apareceu o Achille e o Coco, amigos do Remy que já conhecia. Bebemos mais umas e quando aquilo começou a dar ares de fechar mudámos de sítio. Daí fomos a pé para um bar onde, não sei bem porquê, nos meteram uma mesa nas traseiras. Ficámos lá umas horas a beber rodeados de vasilhame. Quando bazámos foi quando apareceu a música. Eu já estava bem lançado, e às vezes quando estou assim começo a cantar. Se alguém se junta é o diabo daltónico. Já não sei bem como foi, mas primeiro juntou-se um, depois outro, depois outro, e depois estávamos naquela lojita a dar show. Agora que penso nisso acho que foi um bocado má onda para a senhora que lá estava a dormir, mas paciência, foi o que foi. Daí enfiamo-nos por umas ruas de terra, sempre de terra, como qualquer rua que não seja principal em Lomé, e fomos ver uma malta que estava a acordar para a VIDA. Serviram-nos fufu e shots de uma cena qualquer com gengibre. Eu bebi meio e deixei ficar. Já tinha mandado o greg, discretamente no bar das traseiras, não queria fazê-lo outra vez. O Achille e o Coco, por outro lado, por eles ainda lá estava a mandar shots daquela cena. Já o sol raiava quando bazámos. O Remy mandou também o seu greguezito e apanhámos uma mota. Só tínhamos trezentos francos para os dois mas o senhor foi porreiro e levou-nos.

Na Segunda-Feira fui prolongar o meu visto. Tinha pago dez mil francos pelo visto de uma semana no aeroporto e podia prolongá-lo para um mês gratuitamente. Habituado a surpresas nem sempre agradáveis, decidi jogar pelo seguro e fui fazê-lo. Fui buscá-lo na Terça e na Quarta fui fazer o visto do Benim. Ou ia, sendo que, como é costume, as regras estão sempre a mudar. Quando cheguei lá a secretária perguntou-me se eu tinha carta de convite. Surpreso, disse que não, e ela mandou-me falar com a cônsul. Esta cônsul, tal como muito pessoal das embaixadas, era a simpatia em pessoa. A mesma pessoa que me tinha dito, anteriormente, com cara de quem lhe tinha cuspido, que eu devia ter escrito “Portugaise” em vez de “Portugais” para a minha nacionalidade, mal olhava para mim ao falar comigo, preferindo olhar para o ecrã do computador, falava de uma forma que me fazia querer dar-lhe um microfone e colunas pelo Natal... e dizia-me que agora precisava de uma carta de convite autenticada pelo notário ou de uma reserva de hotel com o carimbo do mesmo. Saí de lá meio agastado. África a dar-me na cabeça outra vez. E decidi aí que desta vez vai ser mesmo. Se eu não conseguir ir a pedalar sempre até à África do Sul, não pedalo, paciência. Se tiver de apanhar alguns autocarros, apanho. E estou em paz com isso. Porque quero, quero mesmo, estar na Cidade do Cabo dia 7 de Agosto. Não é daquelas cenas que se pode adiar. No dia sete ou oito quero apanhar um avião para o Camboja para encontrar o meu Kidus. Não vou pedalar até à Namíbia, voar para o Camboja e depois voltar outra vez para a Namíbia para acabar. Vai ser assim.
Não queria pedir ao Arthur que perdesse horas de trabalho para ir ao notário por isso tinha de fazer uma reserva de hotel. A minha ideia era partir Sexta, quando eles entregavam os vistos, mas se fizesse a reserva para Sexta e eles não enviassem o carimbo, impossibilitando assim a obtenção do visto, já não dava para cancelar. Assim, jogando pelo seguro, reservei para Domingo. Fiz a reserva e vim para casa, preocupado com o facto de um hotel tão barato provavelmente não ter carimbos e essas cenas. O Remy e a Maryse aconselharam-me a fazer reserva num hotel melhor, ter o carimbo e depois cancelar, mas não me apetecia. Uma coisa era fazer a reserva e cancelar, como fiz para o visto do Gabão, outra coisa era pedir a alguém que se desse ao trabalho de carimbar, digitalizar e enviar e depois cancelar. Não me sentia bem com a cena. Na Quinta fui à net e tinha um e-mail deles a confirmar a reserva. Mas era só um e-mail, sem carimbo nem assinatura como lhes tinha pedido. Ia ter de dar. Fui pedir o visto e deu mesmo! Tinha entrada no Benim para esse Domingo. Não sabia era o que aconteceria aqui com os meus interiores.

Sexta-Feira fui jantar com o Remy ali um tascozito de beira de estrada. Salada com massa, maionese, tudo altamente. Até trouxe um extra para comer em casa. Quando acordei no Sábado um pouquito abananado. O Remy queria ir ver uma palestra sobre o sistema educativo no Togo, mas comemos uma sanduíche, vimos um episódio de Spartacus, depois outro, e depois já era tarde. Ainda assim fomos mais tarde, ia haver rap. Sentia-me estranho. Chegámos, pedimos duas cervejas e sentámo-nos a ver o pessoal com músicas de crítica ao governos e cenas do género. Convenci-me que estava tudo bem e pedi outra cerveja. Sentia-me ourado, ou como se tivesse acabado de acordar depois de quatro horas de sono quando precisava de doze. Estávamos prontos para bazar quando alguém meteu conversa connosco. Durante aqueles dez minutos só me apetecia gritar “Por favor, caralho, vamos embora!!!”, mas a maneira como nos sentimos, seja emocionalmente ou fisicamente, nunca pode ser desculpa para sermos uns trouxas. Mas foi difícil para caramba. Queria bazar. Havia uma portuguesa que tinha contactado o Remy e a ideia era irmos beber um copo com ela. Eu curtia mas começava a perceber que talvez não desse. Quando bazámos e fomos jantar e eu só conseguir menos de metade do meu prato de massa percebi que, definitivamente, algo não ia bem.

Estávamos também com uma amiga do Remy que tinha de ir a casa dele deixar a mala. Fomos na mesma mota e mal entrei, por volta das dez, fui directo à cama. Acordei três ou quatro vezes em duas horas para mandar esguicho pelo rabo e quando cheguei à cama depois da última e comecei a sentir tudo quente percebi que ia acontecer, pela primeira vez, algo que eu pensava que já teria acontecido várias depois de tanto tempo em África. Nunca tinha vomitado! Certo, tinha vomitado no Sábado anterior, mas isso foi por ter bebido um pouco demais. Mesmo assim tinha sido a primeira vez. Esta seria a primeira vez que vomitaria por ter comido algo que me fizeram mal. Provavelmente por ter passado três meses e ter ido logo directo para o Togo, em vez daquela suave transição que tinha feito anteriormente.

Custou como se me pegassem no esófago e o enrolassem à volta da traqueia, mas lá vi a salada do dia anterior a sair. “'Tou fodido”, pensei. “Era por isto que me sentia inchado”. Essa noite foi uma sucessão de viagens ao quarto-de-banho. Talvez vinte vezes. Acordei Domingo e sabia que não ia dar para chegar a Cotonou no mesmo dia. Eram só quatro ou cinco horas, é certo.

Em 2009 fui à Índia duas semanas. A viagem que mudou a minha VIDA. Numa das minhas últimas noites estava em Hampi, na boa, a curtir com os meus recém amigos. Comi dois pratos de carbonara e uma panqueca no fim. Ovos, leite, natas. Acordei a meio da noite a pensar que ia morrer. A minha cabeça pesava vinte quilos e durante essa mesma noite devo ter cagado umas vinte vezes e vomitado umas dez. Não seria tão mau senão tivesse uma viagem de catorze horas num autocarro indiano em estradas indianas. E tinha mesmo de ir. Como tudo o que entrava saía, estive umas 36 horas sem comer e umas 24 sem beber. O autocarro tinha daqueles bancos que vão para trás completamente até ficarem horizontais. Deitei-me e tentava permanecer hirto, como se tivesse em penitência. Se mexia uma perna um bocadito vinha uma cólica que só meu deixava a ver-me a cagar-me no autocarro. Tinha de aguentar. O autocarro sempre aos saltos. Suava da testa, respirava fundo, contraía o esfíncter, não podia cagar-me no autocarro! A meio parámos para o pessoal ir ao quarto-de-banho. Eu estava tão mal que, após ter esperado que as sete pessoas à minha frente se aliviassem e chegasse a minha vez, caguei a um metro da sanita. Não aguentei até à sanita! Verti água para limpar, limpei-me, sequei-me com os boxers e deixei-os lá. De volta ao autocarro, mais sete horas de tormento. Até que cheguei a Panjim! Tinha conseguido! Achava eu.

Entrei numa riquexó, pedi para me levarem a um hotel barato qualquer. Quando chegámos o méne veio comigo ao balcão. A cena da minha estupidez é que em viagem sou tão baixo-orçamento às vezes que até o sou quando estou prestes a cagar-me! Não aceitei o preço que me fizeram e caminhei estrada fora, devagarinho, com as pernas esticadas. “Pode voltar, eu convenci-os a fazerem-lhe um preço melhor!”, dizia o condutor da riquexó, confuso por ver-me parado no meio da estrada com cara de galinha com ovos de avestruz. “Não, vá-se embora, por favor”, supliquei. Não sei se ele chegou a ver, mas o que é certo é que me caguei em pé, no meio da estrada. Uma triste conclusão para todo aquele heroísmo de me ter aguentado no autocarro. Ninguém se caga em pé a menos que não tenha chance, mas talvez eu me tenha aguentado mais no autocarro em respeito aos meus colegas viajantes.

Até ter sido preso no Laos, essa tinha sido a pior experiência da minha VIDA.

O que legitimava a minha renitência em não me querer enfiar num táxi de quatro ou cinco horas até Cotonou estando assim. Passei então Domingo entre viagens ao quarto-de-banho, séries, água, bananas, e um bocado de arroz ao fim do dia. Falei com a Graciete e quando lhe disse que tinha febre desaconselhou-me a tomar imodium o mesmo medicamento que tomei nessa aventura na Índia e que me tapou durante três dias. Porque se tenho febre é porque há uma bactéria, e não se deve interromper a tempestade, parece...


A minha ideia era ir hoje, Segunda. Estou melhor, é verdade, mas ainda não consigo estar três horas sem ir ao quarto-de-banho. E se amanhã for cedíssimo pode ser que ainda consiga chegar a tempo de fazer o visto da RDC, não perdendo assim nenhum dia...

domingo, 12 de abril de 2015

Um Novo Começo

De volta a África. Lomé, o mesmo sítio onde, há pouco mais de sete meses, escrevia sobre estar há meio ano na estrada. Depois disso ainda voltaria uma segunda vez, contrariamente ao que esperava. Saindo dessa segunda vez pensava ainda menos que algures em Abril de 2015 aqui estaria. Mas aqui estou, de volta. De volta.

De volta ao bafo que deixa a pele a reluzir de transpirada, de volta aos saquinhos de água para beber, a comer com as mãos, a tomar banho com um baldezinho, de volta a ter de ir a sítios para ter internet, a deslocar-me com moto-táxis, de volta a dormir com o zunido de uma ventoinha quando tenho sorte ou o corpo húmido quando não tenho.

Onde estive estes últimos três meses?

Num mundo diferente. No meu mundo onde passeei cem dias a fio, entre reencontros, festas, carícias, viagens, alegrias e frustrações. Apreciei a estadia, mas era como se nunca fosse eu a cem por cento. Sim, eu estava ali, e talvez dissesse o que diria de qualquer maneira ou agisse como fosse agir. Mas sentia-me incompleto. Sentia-me a meio. Vivi tanto desta viagem que ela entrou directamente em mim, misturando-se comigo. Como assim foi, deixá-la a meio como deixei durante três meses fez-me sentir, a mim próprio, a meio.

Quando lá estava parecia que África tinha sido um agradável sonho vívido que tinha tido, hoje sinto o mesmo acerca desses três meses. Agora aqui apercebo-me de como falava de África, contando estórias como se fossem episódios, deixando tanto daquilo que é preciso ver para se sentir de fora. Agora aqui, de novo, reparo como falei muito mais da experiência surreal do Gabão, ou de ter sido detido na Serra Leoa, do que a minha travessia da Guiné-Conacri, dos meus dias aparentemente banais em Bissau, da praia de Bureh na Serra Leoa, daqueles dias a chover na Libéria, da Costa do Marfim, do primeiro hotel a três euros no Gana, sei lá... todas essas vivências parece que assumiram um segundo plano perante as mais evidentes. É normal, eu sei, é normal... um gajo acaba por contar as experiências mais marcantes, as pessoas assim o perguntam. O que não sei se é normal é o facto de agora que estou aqui olhar para um mapa ali na sala, ver os países, e ter todas essas memórias muito mais presentes em mim, como se me definissem num novo nível, do que quando estava em Portugal.

Seria demasiado frustrante estar sempre a recordar-me destes pequenos prazeres estando num país que deles me afastava? Não sei.

Mas não quero que isto me aconteça nunca mais. Não quero nunca ter sentimentos ou memórias dormentes. Gosto tanto de viver que me atormenta o facto de me esquecer do que senti. Que digo? Falo como se isso também não me fascinasse.

Quando conheço um novo amigo e passámos dias em harmonia, sinto que seremos grandes amigos para sempre. Contudo, ao despedir-me, apesar de esperar reencontrá-lo um dia, sei que há uma probabilidade de tal não acontecer. Acho isso bonito. Acho bonito tanto a partilha fugaz que acaba em nunca mais como um reencontro passados trinta e seis anos, como um reencontro passado nove semanas. Acho tudo bonito, só é necessário encontrar a janela que me permitirá vê-lo. Assim vejo as experiências. Quando as vivo sinto que me vou lembrar delas para sempre, mas quando parto sei que há uma probabilidade de as perder algures no meu avanço. Se as retiver comigo elas fundem-se comigo. Se só me lembrar que existiram sem ter a precisão de detalhes ou sentimentos, como quem só se lembra do nome de um amigo, guardo isso, sabendo só algures em mim que foi bom.
Sinto, e espero que, acabando esta viagem, uma memória geral de grandes dias vividos se instale em mim. Mas que sei eu, que estou sempre a ser surpreendido por estas terras vermelhas?

16.00, s, 11-4-15

Lomé, Togo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Primeiro Fim - De Volta a PT Por 2 Meses



Véspera de Natal.
Sentado numa cadeira de vime à porta do meu quarto cor-de-rosa em Brazzaville a ouvir Stranger Things Have Happened dos Foo Fighters vezes sem conta, escrevo o meu último texto desta viagem para os próximos tempos.
Vou a casa. Vou ter de ir a casa.

Ontem tive talvez o dia mais stressante desta jornada. Do início ao fim, sempre aos tropeções em problemas e complicações. Acordei às seis e tal da manhã, Kinshasa avizinhava-se. Tomei banho, meti as coisas nas bicicleta, despedi-me da família do Gauthier e saímos. Sentámo-nos lá fora, na beira da estrada de terra, a comer um iogurte e um pão com chocolate enquanto esperávamos o táxi que nos levaria ao cais. Quando chegou tirei o pneu da frente da Mónica, metemo-la na mala e seguimos. Atravessámos a cidade, parámos na garagem onde o meu amigo trabalhava e atravessámos os campos à beira-rio que o pessoal cultivava, saíndo do outro lado no cais. Kinshasa sorria do outro lado do Rio Congo.

O Clovis, um homem magrito de t-shirt vermelha que falava inglês, abordou-me, eu disse que queria levar a bicicleta, ele disse que o barco maior que a podia levar viria daí a uma hora. Geralmente trato eu das cenas, não costumo ir com a malta, muitos deles estilo-abutre que nos vem vender bilhetes inflacionados ou permissões das quais não precisamos, mas decidi ir na onda do homem. Esperámos uma hora, duas.

- Onde tiraste o teu visto para Kinshasa? - perguntou-me, estávamos encostados ao muro. Choviscava e ele fumava um cigarro.
- No Benim.
- Ui... isso vai dar complicações... - respondeu, com má cara.
- Porquê?
- Porque eles exigem que o visto tenha sido tirado no país de residência.
- Mas... o meu visto é válido.
- Pois, mas eles lá do outro lado são duros... espera, eu ligo a um conhecido meu do outro lado. Posso ligar do teu telemóvel? - passei-lhe o meu Samsung branco e ele disse que o conhecido pedia duzentos dólares para me deixar entrar.
- Nem pensar! O meu visto é válido! - atirei, sem pensar duas vezes.
- Pois, mas eles do outro lado são assim... - ia dizendo. O homem em Kinshasa, um tal de Henry, deu um toque, ligámos, e ele pediu cento e cinquenta dólares. Eu sabia que este tipo de coisas acontecia. Muita da polícia e outras autoridades em África aproveitam-se para fazer dólares extra em qualquer situação. E como eu tinha um visto perfeitamente válido, não quis ceder e fazer parte desse sistema sujo. Teria de resultar, desse por onde desse. Mas tinha ficado em mim um nervoso miudinho. E se não desse? Que faria? Enviei mensagem aos meus pais, pedi-lhes para me enviarem o número da Embaixada de Portugal, talvez eles me pudessem ajudar. Entretanto o Clovis ia sempre falando acerca do quão maus eles eram do outro lado e que, quando eu chegasse, tinha de ser forte, firme, e corajoso. Ele queria ajudar, mas estar sempre a bater na mesma tecla não me estava a ajudar muito... só meu deixava mais apreensivo.

O tempo continuava a passar e eu não percebia exactamente do que estava à espera. Entrei pelo portão que dava acesso ao cais e fui dar os meus dados e levar o carimbo de saída do país. Voltei e o Clovis disse que eles estavam a pedir cinquenta euros para levar a Bicicleta. Nem pensar. “Eles estão a dizer que a bicicleta não pode ir, que precisa de autorização”, disse. A situação ia mudando, como se tivesse VIDA própria. Havia donos de barcos a mandar preços para o ar, trabalhadores do cais e pessoal que trocava dinheiro, todos tinham algo a dizer. Para tentar resolver pelo menos o problema da autorização levámos a bicicleta aos escritórios da alfândega e eles disseram que não era preciso nada. Voltámos ao cais mas ninguém a queria levar. A menos que pagasse cinco bilhetes. Ou seja... a cena da autorização só era um problema caso eu não quisesse pagar um preço estúpido, como não queria. Andámos para trás e para a frente, falámos com doze ou treze pessoas. Foi de cinco para três bilhetes. “Mas a bicicleta é bagagem!”, tentava dizer, “As pessoas podem levar bagagem sem pagar! Se eu comprar dois bilhetes há espaço de sobra! Para mim, para a minha bagagem, para outra pessoa que não vai e para a bagagem dessa pessoa!” Mas as palavras caíam no vazio de quem queria fazer mais uns francos. O sol apertava, as horas iam passando e não encontrávamos uma solução. “Vamos à alfândega outra vez”, disse o Clovis. “Trazemos um papel qualquer”. Mas, quando lá chegámos, eles disseram que uma autorização custava cento e cinquenta euros, e não era preciso para a Bicicleta. “Mas não podem só escrever num papel à mão a dizer que estivemos aqui e que vocês disseram que a Bicicleta não precisa de autorização?”. Não. “Então podemos dizer para eles telefonarem para confirmar?” Podem.

Voltámos e o Clovis disse para irmos esperar o chefe a um restaurante improvisado encostado a uma rede de arame. Estivemos lá uma hora, ele bebeu uma cerveja, não apareceu chefe nenhum e voltámos para a beira do Gauthier, que pacientemente guardava a Bicicleta. Entrámos pelo portão para quem vai embarcar, o Clovis falou com alguém que lhe deve ter oferecido uma opção que parecia mais viável. “Pagas um bilhete pela Bicicleta, ela vai num barco de carga e espera-te do outro lado!”, disse. Okay, tudo bem. Não adorava a ideia de me separar assim da Bicicleta, indo ela com alguém que eu nem conhecia mas, apesar de toda a corrupção africana e de muitas vezes o pessoal querer o dólar extra, ainda não tinha sido roubado nenhuma vez, por isso alinhei. Iá, e estava farto daquilo. Comprei o meu bilhete, despedi-me do Gauthier e passámos para o outro lado do portão. Tinham passado mais de três horas desde que tínhamos chegado. “Dá-me então onze mil francos para eu levar a Bicicleta ao barco”, disse o Clovis. Não tinha trocado, dei-lhe quinze mil. “Tive de pagar quatro mil ao guarda do porto”, disse, quando voltou. Fiquei com bastantes dúvidas e, mais tarde, quando falei com o Gauthier, ele assegurou-me que ele não tinha pago nada quatro mil. O que era irónico, sendo que o Clovis estava sempre a criticar o pessoal que só queria dinheiro, só queria dinheiro. “Porque lá do outro lado em Kinshasa eles só querem dinheiro!”

- Estou sim?
- Sim, fala da Embaixada de Portugal?
- Sim!
- Viva. Eu sou um português que está em Brazzaville prestes a embarcar para Kinshasa. Eu tenho um visto válido mas estão aqui a dizer-me que se o visto não tiver sido tirado no meu país de origem não posso entrar. Isso é verdade?
- Ah, pois é.... então porque é que você não o tirou em Almada? Tem lá um consulado... e eles nem são muito chatos.
- Pois... o problema é que eu saí de Portugal em Fevereiro... e se o tivesse tirado lá já tinha expirado – respondi. A senhora passou-me o cônsul. Perguntei-lhe o mesmo.
- O seu visto foi tirado num consulado oficial ou num consulado honorário? É que há consulados honorários em África que passam vistos e não podem... e se for esse o caso não posso fazer nada por si.
- Não, foi numa embaixada mesmo!
- Então pode entrar, pode!
- Não preciso de pagar nada?
- Não, seja firme! Diga que já falou com o cônsul e diga que ele falou com o Joe Cottongolo e que não há problema. Diga esse nome! E se for preciso ou vou lá buscá-lo! - respondeu. Sentado na minha mala olhei para Kinshasa, lá ao longe, e senti-me mais aliviado. Esperei mais uma hora e tal. Levantava-me, ia dar o passaporte para o manifesto do barco, voltava a sentar-me. Levantava-me outra vez para ir ao escritório para verem a minha cara, voltava. Depois o Clovis vinha chamar-me para pagar uma taxa nem sei bem de quê. Mais mil e quinhentos francos e mais um bilhete na mão. Depois desaparecia e aparecia pedindo quinhentos francos para pagar o saco que ele tinha trazido para meter as minhas malas que tinha todo o aspecto de ter sido apanhado do lixo. Desaparecia e chamava-me outra vez e dizia-me, pela enésima vez, para eu ser firme do outro lado e para ligar ao embaixador se fosse preciso. Eu dizia que já tinha falado com ele mas ele repetia-se tanto que era quase como se não acreditasse em mim. E entretanto a Bicicleta já estava do outro lado.

O sol dava o seu melhor para nos fazer sofrer quando alguém finalmente gritou “La Liliane”, o nome do meu barco. Dei dois mil francos ao Clovis, despedimo-nos, ele pediu o meu correio electrónico, e entrei na lancha. A corrente era tão forte que seguíamos na diagonal, como se subíssemos o rio, para andar sempre em frente.

Tinha lido acerca daquela passagem de fronteira. Tinha lido que era o caos total mas que, se uma pessoa mantivesse a cabeça fria, era uma experiência pela qual valia a pena passar. Como mantenho quase sempre a cabeça fria, achei que podia ser algo interessante. Contudo, ao que parecia, os maiores tumultos eram quando havia o ferry que levava mais gente de cada vez e uma pessoa chegava do outro lado como se de um mar desembarcássemos num oceano de gente a pedir para levar as nossas malas, para nos vender isto ou aquilo. O ferry já não existia e, segundo o Gauthier, também não havia mais possibilidades de passar de um Congo para o outro, sendo que todas as outras fronteiras estavam fechadas. De todo o modo, pela experiência ou não, eu precisava mesmo de ir a Kinshasa para fazer um passaporte novo.

“Okay, hora da verdade”, pensei, quando vi o cais do outro lado já perto, lendo “Kinshasa, Capital de la Francophonie”. Saí do barco e vi a Mónica encostada a um muro a quatro metros. Fui buscá-la e estacionei-a frente à La Liliane, recusando simpaticamente a ajuda dos rapazes de bata branca que queria transportar as minhas malas. Meti tudo na Bicicleta e entrei pela ponte de ferro onde um polícia só com um dente em cima e dois em baixo, de boina azul, ao fundo, inspecionava os passaportes. Pegou no meu.

- Tens carta de residência do Benim? - perguntou.
- Não.
- Tu tens de tirar o visto no teu país de residência! - aqui vamos nós!
- Sim, mas eu deixei Portugal já em Fevereiro... eu já falei com o cônsul e ele falou com o senhor Joe Cottongollo e ele disse que não havia problema – respondi.
- Não... há problema, sim – respondeu, secamente. Mandou-me descer as escadas e quando o fiz apareceu um méne a vender não sei quê e outro a pedir-me o cartão de vacinas. Dei o meu cartão, ele passou-lhe a vista e eu percebi que ele estava à procura de alguma coisa, para me dizer algo do género de “Ah, mais não tens a vacina contra quistos no queixo” e tirei-lhe o cartão da mão.
Fui encaminhado para um escritório onde uns esperavam para ser expulsos e outros tentavam explicar-se para evitar tal desígnio. O guarda que estava responsável por mim devia ter défice de atenção ou algo do género porque tratou do meu caso aos poucos em p'rai vinte tentativas. O pessoal era simpático e senti que ia correr tudo bem. Expliquei que se tivesse tirado o meu visto em Portugal ele teria explicado e que, no fundo, o meu visto tirado no Benim era válido. Se alguém tinha cometido um erro tinha sido a malta de Cotonou em dá-lo. Esperei duas horas, vendo pessoal a entrar e sair, vendo o meu guarda a sair com o meu passaporte três ou quatro vezes. Pediu-me para escrever o meu trajecto e assim o fiz, referindo que de seguida iria para Angola. Talvez se tivesse dito que ia para Portugal as coisas tivessem sido diferentes.

Liguei para a embaixada às três da tarde para perguntar até que horas podia ligar caso as coisas dessem para o torto.

- Pode ligar a qualquer hora.
- Então posso ligar tipo às seis ou sete? - perguntei, sendo que não me admirava que o meu processo se arrastasse.
- Não, ligue até às três e quarenta e cinco – respondeu.
Esperava, esperava, e o homem não me dizia nada. Estava cá fora a comprar um cartão para o telemóvel quando ele me perguntou o que é que eu tinha para fazer em Kinshasa. “Bem... além, de querer conhecer a cidade e de ter de lá passar para seguir viagem, tenho de fazer um passaporte novo na embaixada e depois fazer o visto de Angola”, respondi. Ele voltou a desaparecer e apareceu passado dez minutos a perguntar como é que ia para Angola se não tinha páginas para o visto. “Eu vou fazer um passaporte novo na embaixada”, voltei a dizer. Pensava se deveria ligar ao cônsul e pedir-lhe para vir lá de qualquer maneira, mas as coisas não pareciam estar más e chamar o cônsul podia ser visto como hostil.

Voltei para o escritório, sentei-me na cadeira de plástico e ele voltou, desta vez com cara de quem já tinha uma resolução. “Pronto para seguir?”, perguntou-me um colega dele com um sorriso. “Fixe, estou livre, e nem sequer me pediram nenhum suborno”, pensei. Este pensamento atravessou-me de uma forma muito breve e esbarrou de frente num muro quando percebeu que o guarda que tinha o meu passaporte deu um breve olhar ao seu colega que dizia algo como “Não digas isso!”

- Bem... - disse, com o meu passaporte na mão e uma folha dobrada em dois dentro do mesmo – Tu vais voltar para Brazzaville – voltar para Brazzaville? Com aquele olhar de “Não digas isso” percebi que talvez houvesse algo mais. Mas, ainda assim, aquela notícia foi como se eu estivesse a chegar à meta da maratona e de repente alguém me agarrasse pelos cabelos com tanta força que eu desse uma cambalhota para trás.
- O quê? Mas... não pode ser... o meu visto é válido! - disse, incrédulo. Não acreditava naquilo! Eu tinha tirado dois vistos para Kinshasa! Dois! O primeiro expirou, fui tirar outro, foi o cabo dos trabalhos, mas no final tirei-o e ele era válido! Duzentos e vinte e cinco euros pelos dois vistos! Mas que se foda isso, se eu voltasse para Brazzaville tinha de voltar a Portugal!
- Sim, vais voltar para Brazzaville. Por duas razões. Porque não tiraste o visto no teu país de origem e porque não tens páginas no teu passaporte para o visto de Angola. Se ao menos tivesses o visto de Angola... mas não tens.
- Mas eu... mas eu disse-lhe que ia fazer um passaporte novo e que depois tirava o visto! Espere, espere um minuto... - disse, tirando o telemóvel do bolso. Saí do escritório, marquei o número da embaixada.
- Sim?
- Eles estão a dizer que me vão mandar de volta para Brazzaville! O cônsul pode vir vá? - pedi, a adrenalina a dançar sete valsas no meu sangue.
- Ai, espere aí que ele já vai buscá-lo! - disse a senhora, afogueada.
- Por favor, espere só dez minutos, o cônsul vem aqui e podemos conversar! - pedi, em desespero. Não, eles não me podiam mandar de volta! Que é que eu ia fazer? Não tinha embaixada para fazer um passaporte novo, não podia fazer nada!
- Não, você tem de ir já, o barco está à espera – disse, e levantou-se, pegando-me gentilmente no braço. Eu pedia para esperarem mas apareceram mais dois guardas para me escoltarem. Pegaram na Bicicleta, saímos para fora. Uma mulher saiu de um escritório onde anteriormente eu tinha visto o meu guarda entrar com o passaporte.
- É esse o português? Tens de ir! Nem tens o visto de Angola! - atirou, como se tivesse um prazer mórbido qualquer naquilo. Liguei de novo.
- O cônsul já vai a caminho, aguente aí, espere aí! - gritava a senhora do outro lado, enquanto os guardas me tentavam empurrar para seguir caminho. Estava tudo a acontecer a mil à hora. O cônsul tinha de aparecer e salvar-me no último minuto, tinha de ser, era esse o desfecho espetacular que eu merecia, não aquilo! Ia correr tudo bem!

Ou será que ia?
Ia caminhando devagarinho, sempre pedindo para esperarem só cinco minutos, só dois minutos!
Quando chegámos à ponte de ferro que dava para o barco deixei a Bicicleta tombar de propósito, aqueles segundos podiam ser preciosos. Demorei o meu tempo a levantá-la mas eles disseram a um velho de bata branca para me ajudar. Estava na ponte, o barco estava ali. Entrei no barco. Lembrava-me dos filmes, quando alguém está prestes a morrer e pede que não o matem. Nos filmes penso sempre “Ele sabe que não tem hipótese, porque é que ao menos não aceita isso com dignidade?” Eu não ia morrer... e é certo que não quero estabelecer, de forma nenhuma, qualquer tipo de comparação com o desfecho... Mas o que é certo é que as minhas palavras, os meus pedidos de espera, era também completamente em vão. Mas temos de tentar, sempre.

Entrei no barco. Não, o cônsul não chegaria a tempo.
- Vais ter de pagar pelo transporte disto! - atirou um rapaz.
- Não! - lancei-lhe. Puta que o pariu! Esse barco era o que levava o pessoal que era expulso do país. Muitos deles sem um tostão no bolso. Mas como eu era branco, talvez tivesse dinheiro comigo, e o méne queria ficar com ele.
- Então vou ficar-te com a bicicleta! - disse.
- Vamos ver... - respondi, entre dentes.
E o barco partiu.
Andou dois minutos ao longo da costa, deixou os polícias que me tinham escoltado e largou em direcção a Brazzaville. Sentei-me encostado à janela. Uma rapariga apenas. Perguntei-lhe porque é que não tinha podido entrar, ela disse que não sabia. Mais tarde, quando chegámos, percebi que era porque ela não tinha visto. Dantes não era preciso visto nenhum para as pessoas do Congo-Brazza, agora era preciso um visto de quase cinquenta euros, uma fortuna. Perguntei-lhe se o rapaz lhe tinha pedido dinheiro pela viagem e ela respondeu vagamente, dizendo que alguém a esperava do outro lado.

Via Kinshasa a ficar mais pequena e percebi que tinha mesmo acabado. Encolhi os ombros e sorri. Não estava contente, mas pensei no dia que estava a ter e achei tudo tão incrivelmente extenuante e potente que tive de sorrir perante aquela merda toda. “Se ao menos tivesse ligado ao cônsul mais cedo”, pensei. Mas não teria feito diferença nenhuma. Porque ele ligou-me passado uns minutos, depois de chegar ao cais e falar com o pessoal, estava eu a chegar ao lado de Brazzaville. “Pois, parece que é mesmo a lei, não poderia fazer nada, desculpe...”, dizia. “É ridículo, eu sei, mas é assim... de todo o modo eu submeti o seu caso para o Ministério de Negócios Estrangeiros. Já agora, se não é indiscrição, quanto é que pagou pelo seu visto? Setenta e cinco mil francos? Sinceramente, pensei que tivesse sido mais. Bem, boa sorte”.

Não teria feito diferença ter-lhe ligado mais cedo. Podia arrumar essa. Mas havia todo um número de erros e acidentes que não podia arrumar de forma tão ligeira. Arrumei-os na mesma, é certo, mas munido de estratégias mentais que me permitiam ver a realidade e não me focar em tudo o que podia ter sido. Toda uma série de erros que tinha levado a isto...

Estive na Nigéria dois meses, um desses meses a escassos quilómetros da fronteira camaronesa à espera que a mesma abrisse, todos os dias a não fazer nada. Podia ter aproveitado a espera para ter dado um salto a Abuja e fazer um passaporte novo na Embaixada de Portugal. Mas, enquanto esperava, a fronteira poderia abrir a qualquer altura, e se abrisse eu passaria para os Camarões, Gabão, Congo, e teria espaço suficiente no passaporte para chegar a Angola, onde faria um passaporte novo. Quando tive de voltar ao Benim por não conseguir entrar nos Camarões podia ter feito um visto do Togo de um mês em vez de chegar à fronteira, fazer o visto de uma semana, gastando uma página, e depois prolongar para um mês, gastando outra página. Mas não sabia que os serviços de emigração do Benim iam estar baixo, que ia lá ficar preso uma semana, e que precisaria de uma página extra para um visto de saída do país... Podia também ter descolado esse mesmo visto no Togo e ter ficado com uma página extra. No Togo descolei-o todo mas voltei a colá-lo, pensando que era melhor usar esta estratégia só quando fosse mesmo necessário. Não pensei que a cola fosse mudar de ideias e agarrar-se de tal maneira que, quando tentei retirá-lo novamente no Gabão, levasse partes da página do passaporte consigo, impossibilitando tal empreitada. Podia ter dito que pagava os tais duzentos ou cento e cinquenta dólares para que me deixassem entrar no Congo-Kinshasa... mas não faz parte da minha natureza ceder à primeira a estes avanços por detestar este tipo de sistema. Tenho de dizer que, se soubesse que o desígnio seria este, tinha pago esse dinheiro, por mais que deteste a ideia. Porém, resisto sempre até ao fim. Acontece que, neste caso, o fim passou por mim e eu nem dei por ele.

Podia ter feito isto tudo, mas não fiz nada, e estou em paz com tudo. A única coisa em que me desleixei mais foi em não ter feito o visto de mês para o Togo no Benim. De resto, são todas circunstâncias que só se tornam evidentes quando tudo já aconteceu. Mesmo essa possibilidade não parecia tão premente quando eu achava que podia contar com a descolagem do visto do Benim e da Nigéria.

Por isso não me massacrei nem castiguei sobejamente. Faz parte da minha natureza retirar aprendizagens de más experiências, mas não de sofrer com elas desnecessariamente.

Agora faltava voltar a entrar no Congo-Brazza, se já tinha um carimbo de saída.
Quando atracámos peguei na bicicleta e segui um homem que tinha o meu passaporte. De acordo com as tradições circenses da África-Burocrática, andámos de escritório em escritório, voltando algumas vezes para o mesmo, e ninguém sabia o que fazer. O homem que tinha o passaporte conseguiu livrar-se de mim, entregando o meu documento a um colega seu e fiquei com o pequenito, que dizia que não sabia o que fazer.

- Aqui diz “número de entradas” - dizia eu – e à frente está em branco, ninguém escreveu nada. Pode querer dizer que são entradas múltiplas. Nesse caso podiam meter-me um carimbo novo de entrada no país e estava feito.
- Não... este visto é só de uma entrada, não podemos fazer isso...
- Então que fazemos? - perguntei. Ele estava confuso. Primeiro falou em eu ter de pagar algo porque tal situação era um prejuízo para o estado do Congo. “Prejuízo em quê?”, perguntei. Ele desconversou e levou-me a outro escritório onde, após explicar a situação, o seu interlocutor ficou em silêncio, contemplando. Foi quando me ligou a senhora da embaixada em Kinshasa, para me tentar dar o número da cônsul honorária em Brazzaville, altura também em que entrou uma mulher aos berros no escritório. Saí para ouvir melhor a minha compatriota e só vi uma data de gente a entrar atrás da mulher, os berros a subirem de volume e punhos a elevarem-se no ar. Não estava fácil. Quando voltei o pequenito disse para eu esperar lá fora um bocado porque ele precisava de reflectir acerca do que fazer. Foi quando eu percebi que não tinha comido nada o dia todo. Comprei um copo de meio litro de amendoins e fui manjando enquanto falava com o meu irmão. Já que teria de voltar a Portugal, achei que podia fazer surpresa, pelo menos, aos meus pais e à Graciete. Não sabia se ia conseguir, porque imaginava a Graciete a ligar e eu a não resistir não desabafar com ela. Mas, pelo sim, pelo não, dei um toque ao meu irmão, que seria o meu cúmplice, e quando ele ligou discutimos hipóteses. Ele ficou de ver alguns voos na internet e desligámos, para eu ir perguntar ao pequenito como é que era esta VIDA. Ele levou-me para outro escritório e disse que eu deveria pagar um valor simbólico para facilitar a situação e que depois estaria livre. Entra aqui a dialética do princípio, novamente. Noutras alturas eu não pagaria nada. Só que tinha tido o dia que tinha tido e estava entre fronteiras e achei, na altura, que o mais sensato para me desenvencilhar de uma forma que fosse minimamente imediata e confortável era não fazer ondas e pagar. Considero-me uma pessoa de princípios a tal ponto que percebo que muitos dos princípios seja de quem for dependem apenas do quão longe eles estão dispostos a ir para os defender. Salvaguardando raras excepções, acredito que qualquer pessoa possa abdicar de um princípio dependendo da situação que o requer. A única diferença é até quão longe estamos dispostos a ir antes de abdicar deles. Parece uma ideia típica de alguém pobre em ideologia, mas basta pensarmos que quase toda a gente é contra o roubo mas, num clássico exemplo, talvez roubasse medicação necessária para um ente querido se não tivesse dinheiro e, mais radicalmente, quase toda a gente é contra o assassínio mas talvez o cometesse se isso salvasse a VIDA dos seus familiares. Há linhas para tudo. 
 
Dei-lhe dez mil francos, quinze euros, e ele disse que eu podia ir embora e estava tudo bem.
- Então e quando eu quiser sair do país e eles virem este carimbo de saída? - perguntei.
- Não tem problema, não te preocupes... - respondeu. Respostas destas, em África, abundam, e eu sabia mais do que isso.
- Não... não me parece suficiente... imagine que eu compro um bilhete de avião, chego ao aeroporto e eles vêm que, supostamente, já saí do país... vai dar raia!
- Não, não dá nada...
- Mas pode dar!
- Queres que escreva em cima do carimbo que está anulado? Eu escrevo – e escreveu “Annulé” em cima do carimbo vermelho.
- Meta o seu nome, por favor.
- Não é preciso!
- Assim eles podem dizer que fui eu a escrever isso.... qualquer pessoa pode pegar numa caneta e escrever “Anullé” em cima de um carimbo!
- Pronto, está bem... - e escreveu C. Erik à frente.
- Meta o seu número de telefone à frente.
- Não é preciso!
- Então dê-me o número de qualquer maneira. Assim se eles duvidarem eu posso ligar-lhe e o senhor explica-lhes que é verdade. E que é que lhes digo?
- Diga-lhe que você tentou apanhar um barco mas era tarde demais, passava das dezasseis, e teve de voltar a entrar no território e nós anulámos o carimbo de saída.
- Não é mais fácil dizer a verdade? Que cheguei a Kinshasa, não me deixaram entrar, e tive de voltar para trás?
- Não, é melhor dizer o que lhe disse – respondeu. Ia ter de me aguentar sem essa certeza até embarcar.

E estava de volta a Brazzaville. Liguei ao Gauthier, ele ainda estava na garagem, fui ter com ele, passando pelos pequenos campos em cultivo. Precisava agora de um cyber-café para comprar um bilhete de avião para o mais cedo possível. Caminhámos um pedaço com alguns amigos seus que tinham arreado e quando parámos “uns minutos” para esperar por alguém eu decidi ir andando e combinei com o Gauthier encontrarmo-nos no cyber.
Comprei um bilhete de avião para o dia vinte e cinco de Dezembro. De Brazzaville para a Etiópia, daí para a Itália e daí para Portugal, chegando vinte e cinco horas depois. Ah... se tivesse chegado dois dias antes podia, ao menos, passar o Natal em casa. Paciência.

Entrámos num táxi e eu comecei a organizar as ideias.
Foda-se, que dia tinha tido! Primeiro as merdas todas com a Bicicleta ao mesmo tempo em que pensava que talvez pudesse não entrar no Congo-Kinshasa pelo que o Clovis me tinha dito acerca do meu visto tirado no Benim. Depois a resolução com a Bicicleta e a suposta resolução com a entrada depois de ter falado ao telefone com o cônsul. Depois a chegada a Kinshasa e as horas todas de espera e a fatalidade de não poder entrar. Depois os problemas em voltar a entrar no Congo-Brazza. Foda-se!... Um dia inteiro com um nervoso miudinho a remoer cá dentro, como um moinho a dar-me, aos poucos, nos veios do coração, fosse por uma merda, fosse por outra... E tudo em vão. Queimei sessenta ou setenta euros, mais duzentos e vinte e cinco para dois vistos do Congo-Kinshasa, mais seiscentos e noventa euros para regressar a Portugal, dois ou três meses de atraso na viagem e o preço de regresso.

Não estava contente, mas nunca dei por mim em real desespero. Sim, quando me disseram pela primeira vez, que ia te de voltar a Brazzaville, pode dizer-se que agi em desespero na medida em que tentei ao máximo ficar. Mas não me ajoelhei no chão a chorar nem me agarrei às grades com todas as forças que tinha. Fora um desespero controlado, se é que tal existe. Porque a verdade é que, e eu nunca me esqueço disto, eu estava ali porque queria. Tudo o que tinha acontecido tinha acontecido porque eu tinha tido o conforto de poder decidir, um dia, que me ia mandar África abaixo. E todas as outras cenitas que tinham acontecido tinham acontecido porque eu, por mais experiente que possa parecer ser, não consegui antecipá-las. Às vezes rio-me um bocado com isto da experiência de viagem... Acho que a experiência de viagem traduz-me, quase exclusivamente, em não bater mal à primeira com o inesperado... de resto, geralmente, sinto que ando tanto aos tropeções como o José que nunca saiu de casa.

Que dia tinha tido... e que mudança de planos tão radical. A viagem ia ser partida ao meio... o que tinha sido uma possibilidade anteriormente. Quando estava em Lagos, na Nigéria, tinha equacionado voltar a casa dois meses... depois quando estive retido no Benim também... mas insisti, queria continuar. E continuei. Mas depois aconteceu-me isto, e não tive mais solução. E por saber que não tinha tido mais solução, estava tranquilo. O que digo é um bocado incoerente, apercebo-me agora. Porque não tinha como não estar tranquilo, sendo que se tivesse opção e decidisse ir a casa, era porque queria ir, então estava tranquilo. Não tendo opção tive de voltar, pelo que estava tranquilo. Méne, estou aqui a embrulhar-me todo. Talvez aquilo que eu queira dizer é que, não tendo opção, sei que não desisti não subir as escadas, simplesmente fui empurrado borda fora. E já que tinha sido empurrado borda fora, ia mergulhar com estilo, foda-se! Comecei a organizar as ideias no meio daquele engarrafamento infernal, dentro daquele táxi verde. Ia estar, no mínimo, dois meses em Portugal. Ia traduzir o Daqui Ali Asiático para inglês e com as vendas pagar, pelo menos, parte da viagem. O que era algo que eu nunca faria se não fosse a casa, sendo que se chegasse de vez era no Daqui Ali Africano que eu me ia focar. Ia começar já a desenhar um primeiro esboço do Daqui Ali Africano, que permitira uma publicação mais breve após o regresso. Ia tentar ir ao 5 Para a Meia-Noite e promover com força o Daqui Ali. O pessoal da televisão é imprevisível e provavelmente nem responderiam a um e-mail meu, mas o que é certo é que já me tinham convidado com data marcada, só que eu estava quase a chegar à Mauritânia e nunca iria a Portugal de propósito. E ia acabar o “Ventre”! O meu longo e grande sonho desde há tanto, tanto tempo... acabar um romance. Tenho três ou quatro romances inacabados, um deles com quase trezentas páginas... a maldição de novas ideias fez-me sempre saltitar. Mas estou a adorar demasiado o “Ventre” e vou acabá-lo! Sei que sim! Já não estou agora sentado na cadeira de vime na véspera de Natal. Estou num avião entre a Etiópia e a Itália a beber copos de vinho e a ouvir música. E sei que, como quero fazer com que estes tempos em Portugal não sejam tempo perdido, vou acabar o romance... a menos que bloqueie totalmente em termos de ideias. Mas não será por falta de horas em frente ao computador. E eis que, com estas ideias todas, estava completamente na boa por ir a casa! Não vou ao ponto de dizer que estava contente por aquilo ter acontecido, não, que se foda isso, mas como tinha já encontrado como não perder aquele tempo, estava na boa.

E todos estes pensamentos e ideias e projectos eram coroados com a certeza de que voltaria. Sim, voltaria, claro que sim! África revelava-se uma amante misteriosa de personalidade fogosa. Dávamos as mãos, subíamos uma árvore e víamos o pôr-do-sol a beber uma garrafa de vinho que tirávamos de um cesto pendurado num ranco. Os seus cabelos dançavam com a brisa à frente da minha cara, às vezes enganchavam-se nas minhas pestanas sem me magoar, outras vezes agitavam-se pacificamente frente às minhas narinas, imprimindo-me um forte aroma a alperce. O ranco partia e o cesto despedaça-se e ríamo-nos, desiquilibrando-nos um pouco. Descíamos da árvore e com o anúncio da noite despíamo-nos e o dia nascia dentro dos nosso corações o serão todo, até trazermos ao nosso olhar a verdadeira noite onde o sonho reinava. Mas doutras vezes África pedia-me que a encontrasse no meio do deserto às duas da tarde e aparecia só às seis. Eu perguntava-lhe porque tinha demorado tanto e ela reagia como se eu lhe devesse alguma coisa ou tivesse feito algo de mal. Mas eu gostava dela, e tolerava isso. Caminhávamos deserto fora e eu, sequioso, desesperava vendo-a verter água sobre os cabelos, como se eles fossem mais importantes que eu, como se tudo fosse mais importante que eu. Chegávamos à estrada, entrávamos no carro e sentávamo-nos em silêncio, eu a pensar no que teria feito de mal.
Mas eu voltaria, sempre. África tinha as mais variadas faces e se as boas, tão frequentes, me faziam sentir bem-vindo, as más, que apareciam apenas de quando em vez, faziam-me sentir posto à prova, fazia-me sentir que ainda não percebia tudo, que ainda não conhecia tudo, que ainda não me tinha testado o suficiente. E, para me conhecer verdadeiramente, preciso de todo o tipo de novas situações. Não quero conhecer nuances de mim que aparecem derivadas de pequenas variações no nível de conforto que experiencio. Não, que se foda isso. Quando alguém atira a minha alma à parede eu quero ver como é que ela cai. Quero conhecer-me todo e isso só me aparece quando abraço tudo o que pode acontecer em situações extremas. Claro que não forço nada disso... porque nos momentos em que me estou a conhecer tudo o que eu quero é que aquilo não esteja a acontecer, tudo o que eu quero é paz e sossego. Porque sou só um humano que, por mais que tenha algum talento em ver o cómico e interessante das vicissitudes da VIDA enquanto elas ocorrem, quer estar bem...

Por isto tudo me lanço em aventuras destas... Porque sei que o mais provável é eu ter experiências incríveis que me deem a volta à cabeça. E porque sei que sofrer um pedaço é o preço que tenho a pagar. E porque esse preço costuma trazer consigo grandes aprendizagens e sorrisos futuros quando em memória. Foda-se, adoro viajar! Conheci uma italiana que vive em Moçambique e fala português há pouco na fila para o raio-x às bagagens. Sentámo-nos a conversar as duas horas que esperámos para embarcar e ela disse que quando falava nas minhas viagens parecia que os meus olhos sorriam. Gostei de ouvir isso.

Estou a sentir-me bem, méne! Talvez o vinho já esteja a dar cartas para os meus neurónios que não sabem jogar póker, mas a verdade é que, neste avião onde nunca pensei estar, me sinto bem. Ouço Ornatos agora e amanhã vou-te fazer chorar. Pela melhor das razões.

00h00, 6ª, 26-12-14
A voar sob o Egipto, a caminho de ti.


FIM DA PRIMEIRA PARTE
(nunca imaginei que fosse haver duas)