sábado, 22 de março de 2014

até Casablanca



Por vezes, ser eu, é uma maldição. Sempre fui um bocado cabeça no ar, nunca sei onde ponho nada. Mas nesta viagem está a ser a loucura. Já deixei a mochila para trás duas ou três vezes, outras tantas em que me lembrei mesmo no último minuto. A mochila que tem o passaporte, iá... Já perdi que tempos à procura dos meus elásticos em Coimbra, já perdi os meus calções de banho e as minhas luvas para pedalar.

E na Quinta, dia vinte e seis, não sabia dos meus raios. Tinha ido dar uma vista de olhos à roda da bicicleta, e descoberto que mais um raio, o terceiro, tinha rebentado! Tinha trazido dez de Espanha, tinha rebentado três e perdido outro. Bem, naquele momento tinha perdido todos. Lá desfiz a tenda e encontrei os coitados debaixo da mesma. Com algum custo substituí o raio, mas tinha de fazer algo. Arranjei um saco de plástico e uns elásticos e improvisei um alforge à frente com algumas cenas mais pesadas. Não voltei a ter raios partidos! Boa, Pedro! Ainda assim preciso de uns alforges em condições para a frente... mas uma coisa de cada vez.

Nesse dia a nossa ideia era ir até Casablanca. Tínhamos enviado alguns pedidos através do couchsurfing e até então, nada. Apetecia-me uma cama. Estou a habituar-me cada vez mais a isto de estar sempre fora, que no fundo é o que significa acampar, mas é fixe ter uma cama e um duche. O que mais me custa é não me sentir muito limpo. Ter de usar a mesma roupa quatro ou cinco dias seguidos é algo a que se custa habituar. Curtia arranjar uns calções de banho daqueles tipo boxers para poder lavar na boa, vestir e siga!

Agora escrevo de Safi, e depois de amanhã devo chegar a Essaouira, onde vou descansar uns dias. Tal como já comecei a fazer com as fotografias e a escrita, conto aí arranjar um sistema que me permita andar mais limpo. Um deles passa por pedir a alguém para me escrever num papel, em Árabe algo como “Sou de Portugal e estou numa viagem de bicicleta até à África do Sul. Por um preço justo agradecia se me pudesse lavar a roupa e pô-la a secar, e venho cá buscá-la amanhã.” Acho que era fixe. Aliás, pensei em vários cartões a dizer também “Posso acampar no seu terreno? Deixarei tudo limpo, não tem nada com que se preocupar” ou “Pode dar-me um preço justo e fazer negócio, ou dar-me um preço para turistas e não fazer negócio nenhum”.

É fixe ter começado em Marrocos porque isto é África para principiantes, e dá para um gajo se ir habituando às cenas. Aliás, Marrocos é super, super tranquilo! Estou muito impressionado com este país. Tão perto aí da Lusitânia e tão diferente! Quase todas as pessoas, em quase qualquer país, têm, a tendência a ser mais simpáticas para estrangeiros. Mas aqui é uma loucura. Toda a gente sempre a dizer “bem-vindos”, apesar de estar longe de qualquer aeroporto e já termos andado quase setecentos quilómetros para Sul. Aliás, no início eu levantava o braço e dizia sempre olá aos milhares de pessoas que o fazem à medida que vamos passando. Depois passou para um aceno e agora limito-me a simpaticamente sorrir e levantar a cabeça. Marrocos é também daqueles sítios onde, se perguntamos as direcções a alguém e essa pessoa não sabe, aparece sempre alguém que quer ajudar. Às vezes é demasiado, porque às vezes um gajo não precisa de ajuda nenhuma e acabamos por perder tempo, mas ‘tá-se bem.

Quanto ao trafego, o meu irmão, que vem a Casablanca com frequência, tinha-me advertido, dizendo que conduziam como malucos por estes lados. Pois, tirando alguns autocarros a ultrapassar como se fossem carros, acho o trânsito aqui super tranquilo. Seja no campo ou nas cidades, em que por vezes temos uma rotunda com bastantes carros e não se ouve uma única buzina ou um único protesto. Marrocos é tão tranquilo, tão África para principantes, que me está a preparar mal, talvez. Ainda há pouco fui ao super-mercado em Safi e tinha que me concentrar para deixar as minhas cenas debaixo de olho. Isto é, não sentia o instinto de olhar pelas minhas cenas, tinha de decidir conscientemente fazê-lo. A única cena em que os Marroquinos falham, por vezes, é nos preços que nos dão, parece-me.

Mas iá, mais uma vez desconfirmo as ideias que o pessoal tem. Se o tinha reparado noutros países muçulmanos, aqui em Marrocos, fazendo uma viagem destas, em que não me limito a viajar para Marraquexe, ir à Medina e andar de camelo, fazendo uma viagem que me permite atravessar centenas de povoações e ir interagindo com a malta, sinto como injusta a ideia que me parece que temos em Portugal sobre esta gente. Trafulhas dos tapetes, mais ou menos. Falei com pessoal muito na boa que me dizem que têm um irmão ou um tio na Itália, ou em Portugal, ou seja onde for, e penso se o irmão dessa pessoa será das pessoas que nesses países são olhadas com alguma desconfiança porque andam nas marginais das praias a vender chapéus luminosos. Aliás, acho que desrespeitamos este pessoal para caramba em Portugal. Iá, às vezes são chatos. Mas muitas vezes estão lá na deles, perguntam se queremos alguma cena e levam com trombas. Habituamo-nos a ver as pessoas como vindas todas no mesmo molde. Se somos abordados a primeira vez por um marroquino, dizemos que não educadamente. À segunda menos, à terceira menos ainda, e por aí fora. E à décima vez reagimos com arrogância, por ser a décima vez em não sei quantos dias que somos abordados por um marroquino, como se fossem todos a mesma pessoa! Pá, e estou a falar de marroquinos porque estou aqui. O mesmo vale para os africanos sub-sarianos, muitos deles que arriscaram a VIDA para poder vir para a mágica terra de oportunidade que é Portugal para andarem a vender cenas na rua para enviar dinheiro para a malta em África.

Agora o que é estúpido é o pessoal não se aperceber que isto é uma cadeia incrível... porque já ouvi comentários depreciativos de alguns marroquinos sobre outros povos, por exemplo. E, como disse, já ouvi comentários tugas sobre os de Marrocos. E sei que já comentários depreciativos sobre os tugas noutros países para onde estes emigram. E quando sabemos disso podemos sentirmo-nos agastados, sem sequer perceber que fazemos o mesmo! Ah, é ridículo! Toda a gente, seja em termos individuais ou em características comuns a nações, raças, deficiências, seja o que for, tem algo que se possa apontar. E se não queremos que peguem nessas nossas cenas, porque pegamos nós nas outras? Porque é que temos de ser tão falíveis e julgar, e separar e, de certa forma, odiar?

Cenas.

Estou aqui com algumas dificuldades na linha do tempo. Acho que estou a perder um dia algures ou então a confundir os dias da semana, mas não me apetece ir ler para trás.

Quando chegámos a Casablanca arranjámos um cafézito para ver se tínhamos tido alguma sorte com o couchsurfing. E tínhamos! O Abdul podia albergar-nos. Ainda deixei uma mensagem no grupo de Casablanca do couchsurfing a ver se podia usar a máquina de lavar de alguém, mas quando me responderam já tinha bazado...

Fomos dar uma volta pela movimentada cidade de Casablanca, comprando um biscoito aqui e ali, enquanto caminhávamos lentamente a caminho do nosso ponto de encontro com o Abdul. Quando este apareceu, era logo todo boa onda e boa pinta. Primeiro fingiu ser alguém que simplesmente nos queria cumprimentar. Depois lá disse que era ele mas mesmo assim estava sempre na brincadeira.

- Invejo-vos, pá! As pessoas dizem que me invejam por causa do meu trabalho, mas eu invejo-vos a vocês! – dizia o nosso anfitrião com o seu sorriso que me pareceu de imediato ser-lhe característico. Era um rapaz bem parecido, cabelo penteadinho para o lado e trabalhava numa empresa estrangeira, gerindo uma equipa de engenheiros. Entrámos no seu apartamento e estavam lá dois rapazes a enrolar um charro. O apartamento era simples. Tinha uns sofás na sala, uma televisão, e alguns elementos marroquinos, como uma abóbada e umas colunas com uns azulejos castanhos. Sentámo-nos e estivémos à conversa, maioritariamente com um dos seus amigos, que só falava espanhol, e que nos perguntou que fé tínhamos. Eu disse que não acreditava em nada e ele fez em esgar do tipo “iá, estes ocidentais e o seu ateísmo”, mas sem ser má onda. Eu disse que até gostava de crer, pois a minha VIDA seria mais fácil e teria mais sentido, dizendo ele que sim com a cabeça. O Abdul também era crente, apesar de não praticante, tal como o seu amigo de trinta anos. Surpreendeu-me um bocado o facto do nosso anfitrião ser crente, porque não tinha pinta disso, se é que há uma pinta disso.

Eu tenho muito a dizer sobre religião, mas quando conheço alguém que é crente num contexto destes não me vou por a dizer que acho tudo uma parvoíce, que um livro tenha vindo dos céus e cenas do género. É sempre preciso um gajo perceber o contexto e saber como dizer as cenas. Não devemos nunca ir contra aquilo em que acreditamos, mas podemos dizê-lo de várias maneiras. Na verdade, a maneira como o amigo do Abdul e o próprio Abdul eram religiosos, ou como me pareceu, não me faz confusão nenhuma, porque cada um tem a sua cena. Porém, as imposições e restrições sem sentido a que a religião obriga é das cenas que para mim não tem sentido. “O Corão tem tudo! É um mapa para como ser”, dizia o amigo do Abdul. Ora eu sei que o Corão, tal como a Bíblia, tem passagens muito brutais. Cenas más, mesmo. Contudo, nunca li realmente este livro, apesar de ser essa a minha vontade, para poder argumentar com conhecimento de causa, pelo que não fui por aí. Também tem cenas fixes, como alguns dos mandamentos da bíblia, por exemplo...

A dada altura o Abdul dizia que, de acordo com o Islão, não nos devemos zangar com nada, porque isso faz parte do plano de deus. Eu sou todo a favor de não nos zangarmos com nada, porque a tranquilidade deve imperar sempre. Faz-me sentir melhor. E a todos, acho, apesar de muita gente não saber como o fazer. Contudo, depois, quando falávamos de céu e inferno, eu questionei o facto de, se tudo faz parte do plano de deus, como é quer algumas pessoas vão para o céu e outras para o inferno? Pois se eu tivesse nascido noutro ambiente, talvez acabasse por ser uma pessoa terrível... e se deus me pôs lá, a responsabilidade não devia ser dele? Não estou aqui a dizer que quem faz cenas más não deve ser responsabilizado. Mas quando falamos do plano de deus, há peças que não encaixam.

- Eu também tenho questões como tu... – dizia o Abdul – Tipo... Já pensei que, se eu nascesse nos Estados Unidos, por exemplo, será que era muçulmano?
- Não eras – disse.
- Pois, não sei... Mas ainda assim, há uma fé cá dentro, que não tem explicação! – e é aí que os crentes me perdem. A cena da fé! O conceito de fé para mim também não tem sentido nenhum. Porque ter fé é acreditar em algo sem provas, e ainda que tudo leve a crer o contrário. É como um jogo de putos em que alguém diz “É assim porque eu disse que é assim!”.

Quando perguntei ao Abdul acerca dos seus sonhos, falou-me em ir para os Estados Unidos. E já não era a primeira vez que mo diziam. Parece que por estes lados há um bocado de febre americana. “Engraçado”, comentava, mais tarde, com o Joel, “Há Ocidentais que se apaixonam por estes modos simples de VIDA e querem algo mais assim... e o pessoal aqui quer algo mais como o que lá está”. Como se andássemos sempre atrás daquilo que está do lado de lá.
               
Fomos comer qualquer coisa, que o Abdul simpaticamente pagou, e acabámos o serão na descontra a comer umas sanduíches e a ver uns episódios.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Conciliar

De repente, apeteceu-me chorar. Não saiu daqui nada, tudo continua na mesma. Os velhos atrás de mim continuam a ver o rei na televisão, o escuro ainda persiste lá fora, e os meus olhos ainda estão secos. Mas, quando clicando para a próxima fotografia, te vi a aparecer em Sevilha, senti  como se me tivesse esquecido como respirar por um segundo e um fogo subiu ao meu olhar. Penso em ti, miúda.
 
Todos os dias mais longe, mas penso em ti. Queria-te aqui comigo, queria que pudesses, ou quisesses, ou seja lá o que for –lembro-me como ficaste quando disse que não querias–, viver estas coisas comigo. O mundo tem mais piada quando estou a vê-lo, e a minha VIDA tem mais piada quando o vejo contigo.
 
Mas estás agora longe... ou estou eu agora longe... e penso naquilo que o futuro nos reservará, e em como vou conciliar tudo o que existe fora de mim com tudo o que existe lá dentro. O mundo sempre me chamará, isso já percebi. Acho que já percebemos. Espero que tu nunca precises de fazê-lo.
 
Preocupa-me, por vezes, como vou estar com estes chamamentos, o silencioso e o estrondoso...
                 
Não é muito justo para ti, eu sei... Sei que me percebes, mas não sei se, no fundo, gostarias que fosse diferente. Mais igual. 

Detesto a ideia de estares à minha espera. Se não gosto que esperem por mim para encontros, que sentir se a pessoa mais mundo que tenho esperasse por mim para a VIDA? Detesto esse sentimento com um medo visceral de que seja real, e sonho com este futuro que anda por aí perto, um futuro em que eu consiga estar contigo, viajando em sonhos, esperando as alturas em que se tornam realidade, sem que o tempo de espera seja uma intermitência da VIDA.
                 
Quando estou contigo nunca estou em intermitência. Há sonhos e viagens que vão acontecer, mas quando te estou a tocar estou ali. Quero, para sempre, convidar-te para cada sonho. Quero, para sempre, que haja uma viagem ao virar da esquina, e que sejas tu a estrada e eu próprio ao mesmo tempo e nunca o edifício que nos separa.

21h03, 6ª, 28-2-14
A caminho de Essaouira, Marrocos

domingo, 16 de março de 2014

Problemas Com a Bicicleta e a Hospitalidade Marroquina



Bazei de Tanger com o Joel em direcção a qualquer lado. Ia acampar pela primeira vez nesta viagem, e guardava algum entusiasmo por isso, sendo que tenho em mente fazê-lo umas cem vezes. O continente africano não é exactamente como o asiático no que toca a preços, pelo que acampar se torna uma opção bastante porreira. Além disso, quero que esta viagem seja esta viagem. Quero que seja diferente, e quero entregar-me ainda mais aos sítios. Dormir cá fora parece-me uma boa maneira de o fazer.

Como a nossa viagem do dia anterior tinha sido um pouco custosa para mim, estava com receio que fosse atrasar o Joel. Mas, na verdade, seguimos tranquilamente, e andando em plano até curto ir um bocado mais rápido do que o meu amigo.
                
Mal saímos da grande área de Tanger, Marrocos começou a dar uns ares diferentes da sua graça. Chegámos à praia rapidamente, e com uma suavidade incrível pedalámos sempre. O sol na mente e a bicicleta no futuro. Parávamos de vez em quando para tirar fotografias ou comprar algumas cenas para comer. Como em Assilah, onde comprámos uns vegetais e uns biscoitos perto de um castelo português.
                 

Tínhamos feito 68 quilómetros quando o Joel abrandou e sugeriu entrarmos mato adentro por ali. Caminhámos com as bicicletas ao lado p’rai vinte minutos e lá assentámos arraiais. Posto isto cozinhámos. Ora uma grande cena que me faltava era um fogão. Queria comprar um de vários tipos de combustível, porque para cenas tipo camping gás não é muito fácil arranjar recarga por África. E como tinha de ser todo estriquinaine, acabei por não trazer nada. Ainda tentei em Espanha, mas nada. Pois o Joel também não! O que ele tem é uma lata de cerveja! P’rai dois centímetros do fundo de uma lata de cerveja, e mais o topo da mesma. No topo faz uns vértices para dentro. Põe em cima do fundo, mete álcool etílico e temos um fogão! Adorei aquilo! Se conseguir arranjar garrafas de álcool (nem que tenha de comprar sete de cada vez) África fora esta é a melhor cena de sempre!
                 
O Joel cozinhou a massa enquanto eu cortava uns tomates e um abacate. Comemos bués e estava fixe. Antes disto ainda tínhamos tentado fazer uma fogueira, mas hora e meia depois o fogo ainda não queria nada connosco, pelo que desistimos. Estava a gostar do Joel. Tínhamo-nos conhecido às três pancadas e, se por um lado não andávamos já aos abraços como quando recém-amigos apanham a primeira bebedeira juntos, por outro ‘tava-se bem, não havia grandes cenas. Éramos educados um com o outro, mas genuinamente. “Por mim posso ir p’ráli ou p’ráli, que achas?”, perguntava um. “P’ráli”, respondia outro. E lá íamos.

Metemo-nos a caminho no dia seguinte, e fomos desaparecendo da costa. Na verdade, correcta ou erradamente, tinha a nítida sensação de que já tínhamos subido bastante, pela geografia dos locais, mas não o estava a sentir. Andávamos bem, ao nosso ritmo, e parámos ainda faltava uma hora e tal para o sol se pôr. O Joel curte (ou curtia, sendo que esta noite, por exemplo, estamos bastante à vista) acampar em sítios onde ninguém veja. A mim não me faz diferença. Pensando que o meu amigo o preferia por uma questão de segurança, lembrei-me de sugerir simplesmente pedirmos a alguém para acamparmos no campo deles. Depois de termos jogado uma futebolada de dez minutos com uns putos, andámos uns quilómetros, e parámos na primeira casa com alguém cá fora. Tentei começar em francês com aquele homem p’rai de trinta e tal anos e os dois adolescentes, mas vi logo que não ia dar, pelo que, ao que me parecia bastante bem executado, expliquei que queríamos dormir com a nossa tenda ali, no campo deles. Os gajos eram só sorrisos e ‘tá-se bem, pelo que lá nos afastámos, quando começava a ficar desconfortável estar ali em silêncio a sorrir e olhar uns para os outros, e comecei a tirar as cenas. Eis que aparece uma senhora de bandolete e pijama cor-de-rosa e vem dizer que não tinham quartos. Iá, foi o que os outros ménes tinham percebido – que estávamos à procura de um quarto! Expliquei a nossa cena, e a mulher pede-nos a identidade. Pediu desculpa, que há pessoas de bem e de mal e não sei quê, eu disse-lhe para não se preocupar, enquanto lhe estendia o meu cartão do cidadão. Ora como a senhora não tinha ali nenhum scanner para ver em quantos países éramos procurados, não percebi muito bem a necessidade daquilo. Talvez ela quisesse estudar a nossa reacção quando nos pedisse a identificação – se hesitássemos, era porque éramos procurados por termos queimado doze igrejas em Bratislava! No final de tudo apercebi-me de que tinha tido uma conversa em francês sem problema nenhum. Ter jeito para línguas é demais!
                 
Talvez estivéssemos à espera que nos viessem oferecer um chá ou algo assim, mas nada feito. Na verdade, e apesar de já ter estado em Marrocos, estava a curtir este povo. Guardo simpatia pelos povos muçulmanos. Como já viajei um bocado, sinto-me no direito de tirar ilações das minhas experiências, e a verdade é que sinto o povo muçulmano mais simpático e hospitaleiro do que os restantes. Mas pode ser que isto advenha de, também na generalidade, serem países menos desenvolvidos. E posso estar então a confundir conceitos, numa falácia de lógica. A simpatia a ser uma característica comum aos países menos desenvolvidos também é algo que faria sentido. Porque no Ocidente nós cultivamos o individualismo de uma maneira desenfreada. Regamos todos os dias a planta do nosso ego, e acabamos por achar que somos especiais, incríveis, intocáveis. Achamo-nos tão importantes que acabamos por achar que, por isso mesmo, há muita gente dedicada a nos lixar a VIDA. Somos tão importantes que acabamos por nos proteger de uma maneira que prejudica quem precisa de ajuda. Como quando ando à boleia. O pessoal quer proteger-se tanto da minúscula possibilidade de eu lhe fazer mal, que acabam por não me ajudar. Apenas um pequeno exemplo que, infelizmente, creio ilustrar, de certa forma, o comportamento geral.
               
Na noite anterior, a primeira de campismo, tinha rapado um frio tremendo. Nessa noite, a da senhora da interpol, apesar de não ter tido tanto frio, acordei ao som da chuva. Que lindo! Nada disso! Ainda por cima tinha deixado as minhas botas lá fora! Isto porque o cheiro a rosas que emanava era demasiado intenso.
                 
Saí, cumprimentei o céu chuvoso e as gotas na cara, olhei para o lado e reparei que se metesse um peixe nas minhas botas o gajo conseguia viver, bastava inclinar-se um bocadito. Lá desmontei a tenda, toda molhada, calcei as botas, a fazer chéque chéque, e arrancámos, debaixo de chuva. Estávamos p’rai a cem quilómetros de Rabat, a capital, e na noite anterior tinha enviado mensagem ao Vangelis a pedir-lhe para enviar uns pedidos de sofá em meu nome para esta cidade. Se tivéssemos sofá, ia até Rabat custasse o que custasse. Estava encharcado, queria tomar banho e relaxar um bocado. Se não tivéssemos sofá, íamos até onde desse. Além destas desvantagens, o Vento também não estava a ajudar, e por tudo isto eu estava em modo-missão. Não estava a curtir, queria era chegar ao destino.
                 
Até que o dia fio passando, e a paisagem foi mudando. Chegámos a Kenitra, comemos qualquer coisa e desapareceram duas horas. Foi incrível. Chegámos às duas e pico, comemos, andámos um pedaço e de repente eram quatro e tal. Saímos de Kenitra e o céu começou a abrir. Fomos seguindo sempre e vimos uma estrada que dava para a direita e talvez para... sim, a praia! Já tinha saudade. Afinal de contas tinham passado quase dois dias...
                 
Pedalámos, tentámos meter-nos mato adentro mas não dava. Continuámos e chegámos à vila. Era uma vila constituída por alguns quarteirões e uma marginal com alguns restaurantes e tascozitos onde o pessoal se encontrava e fumava uns valentes canhões. Aliás, este é um factor marroquino. Apesar de já ter noção que era assim, não estava à espera que fosse tanto assim. Aqui fuma-se ganza como quem bebe um fino em Portugal. Um fino talvez não. Fuma-se ganza como quem bebe uma bebida branca em Portugal, em termos de prevalência.
                
Acampámos numa duna. O mar estava ali, a dançar sozinho, e nós a curtir os segundos que passavam da existência de quem está em Marrocos e tem toda uma VIDA para curtir. Fomos dar uma volta pela vila, comendo uma cena aqui, uma cena ali, e regressámos à base passado hora e tal. Descontraímos, comemos uma sanduíche, e depois sentámo-nos cá fora à volta do fogão e debaixo das estrelas a conversar, cozinhar, e eventualmente comer. Na noite anterior tínhamos ficado na minha tenda umas duas horas no paleio. Nesta noite foi a vez da tenda do Joel.

Hoje acordámos às nove e tal. Como ontem, ao chegar, me apercebi que tinha partido um raio, virei a bicicleta ao contrário e comecei a empreitada de o arranjar. A primeira meleita da Bicicleta, que já fez p’rai 1500 quilómetros e ainda não teve um pneu furado! A cena é que carrego todo o meu peso nos alforges traseiros, e isso acaba por ser excessivo. Tenho de arranjar uns alforges para a frente.
                 
Com a bicicleta virada do avesso, apercebi-me que afinal tinha partido dois raios. Tirei a roda, e como estava a sentir-me um bocado Tóino pedi ajuda ao Joel. O rapaz também não sabia o que fazer. Parecia ser preciso retirar o carreto, e isso só numa oficina. Pensámos em ir até Rabat e arranjá-la lá, mas vendo o mapa parecíamos estar mesmo ao lado de Kenitra, novamente, pois para ir para a praia tínhamos andado um bocado para trás. Seguimos pelo mar e fomos dar aos subúrbios desta cidade. Perguntámos ao pessoal e lá fomos ter à loja. O Joel foi procurar comida e internet para enviar uns pedidos de sofá para Casablanca e eu fiquei lá à espera. Quando acabaram de arranjar uma das várias motorizadas que iam aparecendo com problemazitos, os rapazes cheios de óleo na cara dedicaram-se à minha roda. Ia aparecendo malta. Uns que falavam comigo em francês, outro que falava inglês, e um senhor mais velho com cara de simpático que falava comigo em italiano.
                
Tinha aceitado o preço de dois euros pelo reparo. Não sei se foi esticado por não ser de cá. E como não sei, prefiro achar que foi justo. Entretanto o Joel apareceu com comida, e quando me sentei lá no chão encostado à parede a comer apressaram-se a trazer-me um disco de esponja para me sentar e um jarro com água. E não ia ficar por aqui. Quando a bicicleta estava pronta, estendi-lhe cem dirham e o rapaz fez um gesto tipo “daqui a um bocado”. Na verdade, tinham-me perguntado se eu queria chá. E claro, tinha dito que sim. Pois na próxima meia hora o homem dedicou-se ao chá. Desde ir buscar mesa e cadeiras à loja do lado, a fazê-lo e esperar que maturasse. Se por um lado queria fazer-me à estrada, porque já tínhamos perdido algum tempo, por outro ‘tava-se bem ali, e não tínhamos perdido tempo nenhum porque estávamos a viver Marrocos.
                 
Nesse dia quase atropelei uma senhora. Ia atravessar a estrada, tinha olhado para os dois lados mas, por alguma razão, não me viu. A razante foi tão forte que lhe bati nos garrafões que trazia vazios. Tento tirar lições destas cenas. Tipo quando um homem abriu a porta do camião e eu quase levei com ela – agora tento inclinar-me sempre para o outro lado. No caso da mulher, agora uso sempre a minha campaínha.
               
Passámos Rabat, que pareceu ser porreiro, e seguimos sempre pela costa com tranquilidade. Quando o sol amaeaçava pôr-se virámos à direita para um campo antes da praia e pensámos em acampar lá. Perguntei a um senhor, em francês, se dava, mas ele disse que não. Vim a perceber que não me tinha compreendido. Ele tinha apontado “p’ráli”, e para lá fomos. Montei a tenda com alguma dificuldade. Isto porque ainda não a enrolo com perfeição, e no final não há espaço para as varetas. Pelo que tive de as levar em separado. E claro, a meio do caminho só as ouvi a cair no chão. Um rapaz apressou-se a juntá-las, e foi com algum desagrado que percebi que a uma das duas tinha-se partido o elástico, e as peças estavam todas soltas. Pois quando estava a montar a tenda, meti as varetas todas umas nas outras e estava a fazer aquele semi-círculo normal, quando uma ponta deslizou, e isso fez com que elas disparassem em todas as direcções. Perdi assim um e fiquei com a tenda toda torta.

Tínhamos já montado a tenda quando vemos um par de focos a aproximar-se. Um deles era o senhor que nos tinha dito que não podíamos lá acampar, o outro era, o que me pareceu, o seu patrão. Todo simpático começou logo por dizer para irmos acampar para a frente de casa dele. Dissemos que não era necessário, sendo que já tínhamos montado as tendas e o homem logo “sem problema, sem problema!”. Perguntou se tínhamos fome e dissemos que íamos cozinhar daí a pouco. Disse que jantava connosco, que éramos bem-vindos, e quando se foi embora ficámos sem perceber bem se nos oferecia o jantar ou se vinha jantar connosco o nosso jantar. O que era na boa, claro. Não passou mais de meia hora até aparecer o seu empregado/pastor e um puto com um tabuleiro com aquele chá marroquino maravilhoso e duas malgas com umas papas altamente! Faltava um toque destes à hospitalidade marroquina.

Ainda pedalei até a um café, de onde escrevi a primeira parte deste texto, e de onde procurei um sofá para o dia seguinte em Casablanca. Ao pedalar para esse café, sem alforges, apercebi-me que acho que vou continuar a pedalar quando voltar a Portugal. Sem alforges a bicicleta voava!

sábado, 15 de março de 2014

De Algeciras a Tânger



Saí de Jemenas com a ideia de ir até Gibraltar. Tinha ideia de ter visto que lá havia uns hosteis quaisquer a dez ou quinze euros, e estava disposto a essa loucura. Apesar de ter pedido diracções p’rai dez vezes, cheguei ao rochedo bem. Contudo, uma vez lá, estava um bocado à nora. Precisava de internet, para procurar hosteis ou couchsurfing. Mas precisava de deixar a bicicleta em algum lado na rua e ao mesmo tempo ter o olho na miúda. A cena é que não podia ficar em nenhuma esplanada porque estava sem bateria no computador, que tinha deixado a carregar numa tomada que não funcionava.

Quando finalmente encontrei um café de onde poderia ver a bicicleta cá para fora, percebi que as tomadas eram inglesas! Frustração. Lá me sentei noutra esplanada e tentei com o telemóvel. Percebi que o único hostel que aparecia no hostelworld custava vinte e cinco euros. Pensei um bocado e, que se lixe, bota para Algeciras. No fundo tinha ido a Gibraltar dar uma volta de uma hora.
                 
Não curti a viagem para Algeciras. Também tive de perguntar várias vezes o caminho, e tive de ir um bocado por uma auto-estrada. Pelos vistos era a única alternativa, e não era ilegal, mas é sempre um stresse maior.
                 
Cheguei a Algeciras e quando finalmente consegui ter internet no telemóvel vi que o hostel mais barato também não era assim tão barato. Lá fui para o hostel Lisboa pagar dezoito euros. Podia ter acampado, como estou a fazer hoje, mas já era de noite, e estava mesmo numa de tomar um banho e deitar-me numa cama. Estava um bocado abatido e meio tristonho, e é incrível como, quando um gajo está assim, vê tudo com uma luz completamente diferente! Quando ia na bicicleta, de Gibraltar para Algeciras sem saber onde ficar, de repente a viagem até à África do Sul parecia incrivelmente difícil. De repente tinha tudo para correr mal! Felizmente, sei que assim funciona a mente, e sabendo disso estou um passo à frente para não me deixar levar por essa espiral depressiva.

Estava tão a fim daquela noite numa cama na tranquilidade que nem saí mais do quarto. O meu jantar foi um pacote de bolachas e uma fatia de queijo entre duas fatias de pão.
               
Acordei no dia seguinte a sentir-me melhor. O sol raiava e fui dar uma volta por Algeciras, aproveitando para comprar um cartão que desse para gravar em alta definição na minha câmara. Ainda procurei por um fogão, mas quando percebi que não ia aparecer, fui buscar a bicicleta e fui ter a uma oficina onde tinha estado horas antes. Comprei uns raios e uma ferramenta para os mudar, uma campaínha mais prática e lancei-me para o porto.

Aí, um gajo com pinta de arrumador fez logo por me levar a uma data de lojas que vendiam bilhetes para Marrocos. A maior parte rejeitava-nos, não percebi bem porquê. Ele disse que elas não tiravam bilhetes para bicicletas. E depois disse-me para ir a uma ao fundo e bazou. Pois os gajos tiraram-me o bilhete de vinte euros na boa, e não percebi que é que o outro méne ganhou em andar comigo...

Tinham-me dito para entrar pela entrada dos carros. Cheguei ao porto, confirmaram-me isso, fui para lá, apenas para me mandarem para trás outra vez. “Se não queres pagar pela bicicleta tens de a levar à mão, como se fosse equipamento”, disse-me o velho. Lá fui para trás outra vez. Voltei a entrar no edifício onde me tinham mandado para a entrada dos carros, subi as escadas, e eis que vi uma bicicleta toda equipada.

Sem grande escolha, fui atraído a sentar-me ao lado da mesma, tentando descortinar quem era o seu dono.

Pois não se avistava ninguém, e lá me quedei. Até que, vindo do quarto-de-banho, aparece um rapaz pouco mais baixo que eu, magrito, olhos azuis vivos, barba e pera já de dois meses e um sorriso simpático. “Oh, nice”, diz, com o seu sotaque canadiano. Pegámos no paleio de imediato.

O Joel, de vinte e oito anos, é um aficcionado da bicicleta. Do tipo de malta que vai de bicicleta todos os dias para o trabalho, e que já andou um ano pelos Estados Unidos e México do mesmo modo. Tinha voado para Barcelona, tocando a Europa pela primeira vez, e tinha chegado até Algeciras descendo sempre pela costa, com o objectivo de pedalar até ao Saara Ocidental, onde trabalharia como voluntário num centro de meditação todo estriquiestriquil. Arranjou a cena num daqueles sites onde quem precisa de trabalhadores anuncia, e quem quer trabalhar vai lá e candidata-se. Correndo bem a cena, são aceites, trabalham quatro horas por dia e têm comida e dormida garantida.

- Então se quiseres, podemos pedalar juntos uns dias – sugeri, não tinham passado cinco minutos – Porque eu também vou para Sul. Mas se quiseres ir sozinho ‘tá-se bem, eu compreendo perfeitamente.

- Não, não, companhia é sempre fixe, ‘bora! – respondeu. E fiz assim o meu primeiro amigo/companheiro de viagem. Às tantas metemos conversa com um casal australiano muito porreiro de vinte e vinte e um anos que ia também para Marrocos, e fomos os quatro à conversa no barco.
               
Chegámos a África! Sentia o entusiasmo que esperava em sentir e que tardava em aparecer. Finalmente não estava “com os meus”. Finalmente não estava na casa gigante que é a Europa, onde o nosso Portugalinho até é bastante diferente, mas continua a não destoar assim tanto dos demais países, quando comparámos, por exemplo, com um vizinho tão próximo quanto o marroquino. O Joel que, no espaço de uma semana, tocava, pela primeira vez, num segundo continente, partilhava do meu entusiasmo, e de vez em quando, entre pedaladas, íamos dizendo um ao outro o quanto estávamos felizes e o quanto éramos, e somos, previligiados. Iá, curti logo o chavalo de vinte e oito anos. Boa onda.

Tinha visto no google maps, e o percurso de Tanger-Med, onde desembarcáramos, até Tanger, para onde seguíamos, era sempre pela costa. Pois pensava eu que, por assim ser, era plano. Qual quê! Foram só quarenta e poucos quilómetros até Tanger, mas sofri como um boi. E para mais estava com outra pessoa, e não me sentia tão à vontade para parar como costumava. “Méne,”, disse, “Tu tens mais estaleca que eu para estas subidas, por isso se quiseres ir indo, encontrámo-nos lá”. “Não, eu não tenho pressa, é na boa!”, respondeu o camarada. E lá seguímos, direitinhos à Praça de França, onde encontraríamos o nosso anfitrião. É que apesar de eu já ter conhecido um méne na net que me deixava acampar no campo dele, por vezes é mais fixe ficar debaixo de tecto. E por isso mesmo o Joel tinha pedido ao Sirhan, seu anfitrião, se me podia albergar. E podia. Altamente! Arranjei de repente companheiro de viagem e guarida também!

O Sirhan, estilista, veio ter connosco e fomos para sua casa. E que casa! Eu não vivia lá, porque eu sou eu, e não o Sirhan. É que nunca vi uma casa tão personalizada quanto aquela! O hall de entrada ou me lembrava a Alice no País das Maravilhas, ou o interior de um bolo! Depois o resto das divisões representavam os diferentes elementos. Como me mostraria mais tarde nessa noite, já com alguns copos, o Sirhan, o seu quarto era a água, todo azul, com umas redes nos armários todas janotas e alguns peixes feitos de garrafas de plástico recicladas muito fixes. O quarto-de-banho era a terra, beje e cheio de figuras humanas e animais de brincar, representando os seus habitantes, a cozinha o fogo, vermelho e amarelo, o seu estúdio o ar, acizentado e onde parecia, realmente, que tinha passado um vendaval e levantado tudo. E a sala de espera, para quem lá ia pedir um vestido ou cenas do género, e onde eu e o Joel dormiríamos, era ele próprio, com quadros das suas primeiras coleções.
               
Tomar banho soube como sempre sabe depois de um dia de bicicleta.

Banho tomado, eu e o Joel fomos todos lampeiros comprar cervejas, a pensar que era barato, e arrotámos logo cinco euros cada um para dez cervejas. E depois mais dez para pagar a galinha, salada e outras cenitas que o Sirhan pedira para os três. Tínhamos falado de orçamentos e essas cenas, e estávamos na mesma onda, pelo que esses dez euros foram mais do que o planeado, mas tudo tranquilo. Ainda faltavam os cinco euros que pagaríamos para ir a um bar todo alternativo com o nosso anfitrião. Mas, de certa forma, valeu a pena, pois vimos um lado de Tanger que, ao que me pareceu, só ali! Era um bar-discoteca subterrâneo onde alguns dos seus amigos, artistas de teatro, encenadores, coreógrafos e malta dessas artes, fazia uma festa. Música tribal-psicadélica, pinturas nas faces, malta a comer vegetais, três galinhas numa jaula num canto e um tipo de jaula com canas de bambu no meio da pista onde o pessoal ia dançar. Uma cena meio surreal.

Eu e o Joel estávamos um bocado na nossa, todos partidos e a conversar, mas um bocado conitas, vendo esporadicamente o nosso excêntrico anfitrão a dançar. Mas lá demos as voltas às canetas e, aos poucos, integrámo-nos com aquela excelente malta.

À uma acabou tudo, apanhámos um táxi e acabámos a noite os três na cozinha do Sirhan a bebr uma cerveja cada um e a comer uma sanduíche. Rimo-nos, conversámos, partilhámos ideias e teorias. Curti o Sirhan, apesar de ser completamente diferente de mim ou de todos os meus amigos. Uma pessoa que me parece meter mais do seu coração nas cenas do que os restantes mortais.