terça-feira, 11 de março de 2014

Sevilha, Arcos e Jemenas

Como a Graciete vinha de carro, e isso implicava várias esperas, ficou com a família Bergano, em Barrancos, a almoçar, e eu fiz-me ao caminho, já com a capinha de gel para o selim que o Luís, simpaticamente, me oferecera. Deixei Barrancos e Portugal pela última vez neste ano, passei Ensinasola, e tinha andado p’rai 20km quando o Kidus apareceu.

A minha ideia era ir até Santa Olalla, mas acabei por ficar em Cala. Mais uma vez tive de me meter serra adentro, o que não foi fácil mas, tendo chegado lá cima, foi uma corrida muito porreira durante uma hora ou duas. Curto quando vai subindo e descendo mas sem nenhuma destas ser muito acentuada. Uma cena que não curto e que experienciei durante uma boa meia hora foi, antes de chegar à serra, uma ventania tremenda, contra mim, que me fazia sentir completamente inútil no pedal, sendo que caminhando era quase tão rápido.

Tinha pedido à Graciete para ir à frente a ver se arranjava um sítio para ficarmos. A miúda tinha ido até Cala, tinha já escurecido, e pelos vistos não havia onde ficar. Tinha enviado mensagem e estava a ficar preocupada. Tanto que quando vejo o seu renault clio e me aproximo, vejo ali umas lágrimas a coroar aquela face da tristeza que ia aparecendo de mão dada com a constatação da minha partida. Custava-me vê-la assim, e sentia que estávamos a perder alguns dos bons momentos que podíamos ter nestes últimos dias quando havia aquela nuvem cinzenta a pairar.

- Vamos fazer um reset, Kidus? – pedia eu, na esperança de que ela se pudesse animar mais um bocado. Mas não é assim que as cenas funcionam, e talvez estivesse a ser um bocado insensível à frustração e tristeza de quem fica, vendo alguém com quem se quer estar metendo-se por outro continente adentro. A verdade é que nesses momentos sentia-me eu próprio um pouco frustrado por, mais uma vez, haver um clima pesado quando podia haver a alegria para que cada desses últimos segundo fossem algo para recordar com sorrisos.

- Sinto que estou chateada contigo! Não estou, mas sinto como se estivesse... – disse-me, mais tarde, no hotel onde ficámos. Estávamos sentados na cama a fazer qualquer coisa, depois de jantarmos. Eu percebia mais ou menos o que a Graciete queria dizer com aquilo. Sentia-se como se estivesse chateada comigo sem estar. Sem estar porque não lhe tinha feito nada de mal, mas estando porque me ia embora. Deixei cair os ombros um bocado e aí senti-me um bocado distante, a deslizar um bocado para aquele sítio onde eu próprio começaria a ficar chateado com estarmos outra vez naquilo. “Para méne”, pensei, “Não vás p’raí porque não tens direito a isso! Tens aqui a melhor miúda que existe no mundo todo e que gosta mais de ti do que alguém alguma vez vai gostar. E está triste”. E tentava dar um bocado a volta à situação e confortá-la. Sentia-me um pouco artificial ao fazê-lo, porque o meu instinto era outro, talvez, mas que interessa para onde o nosso instinto nos manda se a nossa razão se demonstra rainha em determinado momento?

Apesar de tudo, bebemos uns copos e comemos uma sanduíche e o panorama mudou. Foi como se, realmente, tivessemos feito um reset, pois voltámos àquela onda tão nossa e a luz voltou a habitar o Kidus.

- Olha, eu vou contigo até onde der! – disse a Graciete, com um sorriso, no dia seguinte. Tinha ficado para trás um pedaço e eu tinha seguido, e dizia-me isto na primeira vez que nos encontrámos depois de eu ter partido. Sorri abertamente com a possibilidade de ainda não termos de nos despedir, e fui assim a voar até Sevilha, numa etapa quase sempre plana, que me permitiu chegar à minha cidade preferida espanhola bem cedo. Tinha perguntado ao Ivo, que lá tinha vivido, se sabia de alguém que me pudesse albergar. Deu-me o contacto do Alfonso, com quem falei e que disse estar ocupado. Foi um mal entendido qualquer, pois afinal podia albergar-me e fá-lo-ia nas duas noites seguintes. Mas nessa noite fui para um hostel.

Tomei banho e fui jantar com a Graciete. Efectivamente, nessa noite, já a sentia diferente. Como se nas últimas três ou quatro noites tivesse sofrido o adeus e agora estivesse disposta a sentir mais o estar do que o não-estar. Nem tem a ver com tristeza, exactamente, porque isso há sempre. É mais o tipo de tristeza e como esta se manifesta. Há tipos de tristeza, ou outros sentimentos em geral, que tornam a pessoa que a sente numa pessoa um bocadinho diferente. Ou, bem, completamente diferente. Mas há também a tristeza, ou outros sentimentos em geral, que por maior que seja a onda com que venham, deixam a pessoa que os sente intacta em termos de identidade, parece-me. E nessa última noite sentia a Graciete como inteiramente ela de uma forma que não tinha sentido algumas vezes nos dias anteriores.
                 
Comemos umas tapas e bebi duas cervejas numa espalanada e fomos para o parque subterrâneo, onde estava o carro da miúda e onde nos despedimos. Saindo, voltei à ponte, que atravessei lentamente meio deslocado de mim mesmo. Sentia-me triste, melancólico, egoísta, orgulhoso da pessoa que tinha como minha parte maior. Dei umas voltas pelo rio, comi uma sanduíche, fui até ao hostel, sem saber bem que fazer.
                 
Liguei o computador e vi uma mensagem do Alfonso, a dizer que ia haver em encontro de cerveja e tapas. Bota. Fui ter ao bar onde era suposto aparecerem às onze horas, mas estava fechada. “Nada feito”, pensei. Contudo, à medida que ia descendo essa rua, vi um grupo onde alguém falava inglês e lembrei-me de perguntar se eram do couchsurfing. Eram. Lá fiquei com a malta um pedaço, até que bazaram quase todos e fiquei só eu e o Said, um cipriota que estava um mês e meio em Sevilha em investigação. Fomos beber mais uns finos, o Said bazou, e eu fui perguntar a um grupo se me podia jantar a eles. Era o grupo do João, um português com quem tinha trocado duas palavras anteriormente, de muito boa onda e cem por cento lisboeta, desta feita no melhor dos sentidos. Foi uma noite porreira, mas às quatro estava no hostel.
                 
Fiquei mais duas noites nesta cidade, em casa do Alfonso e da Ana, sua mulher, e do Alfonso e da Ana, seus filhos de oito e dez anos de uma ternura simpática. Aproveitei para escrever um bocado, relaxar, e comprar algumas cenas, como câmaras de ar e um pneu suplente.
                 
Daí parti para Arcos de la Frontera, onde tinha uma anfitriã. A viagem foi fácil e bati nesse dia o meu recorde de quilómetros, tendo feito 118. Tive a melhor visão da viagem até agora. Se bem que estou em Marrocos, e já vi coisas mais fixes, mas mais fixes por estar em Marrocos. Se retirarmos os elementos psicológicos, ter visto aquele monte em Arcos, com duas igrejas no meio e casas brancas a toda a volta e um grande arco-íris a circundar tudo foi demais.
                 
Fiquei com a Silvia, uma espanhola de Granada que era educadora de infância em Arcos, e que vivia numa casa no meio de lado nenhum. Passámos um serão descontraído, comendo algumas sanduíches e no paleio.
                 
De Arcos bazei para San Martin de Tesorillo. Pelo menos era essa a minha ideia. A cena é que havia a hipótese de San Martin de Tesorillo, a 85km daí segundo o google, ou Jemenas de la Frontera, a quarenta e tal. Pelo sim pelo não arranjei estadia em cada um dos sítios. Quando dei por mim a atravessar mais uma serra, ao quilómetro trinta pensei “Bem, mais dez ou quinze quilómetros e fico em Jemenas, porque já estou todo partido!”. E estava todo rebentado. Caminhei que nem um ateu por lá cima, porque aquilo eram seis à hora na bicicleta ou quatro a caminhar, mais valia caminhar!
                
Eis que finalmente cheguei ao Porto de Galiz, parei para tomar café e percebi que ainda faltavam mais de trinta quilómetros para Jemenas! Felizmente, a partir daí foi muito fixe. Subia um pouquito, descia um pouquito, passava por rios, vales, uma viagem que nos deixa a sentir bem. Cheguei a Jemenas, encontrei net num café para contactar a Geraldine, e passado uma hora estava em sua casa, já de banho tomado, a beber uma cerveja enquanto a minha anfitriã francesa cozinhava. Jemenas era uma vila muito pequena, bastante acidentada e plena em casinhas brancas que davam um ar pitoresco e singelo ao local. E a minha anfitriã, que já correra o sudeste asiático, estava por lá a trabalhar num hotel, vivendo numa casa toda janota de dois quartos e um terraço onde só pagava 250 euros por mês!
                 
Jantámos e ficámos no paleio um pedaço, até que a miúda quis ir dormir. Eu já estava um bocadito lançado e fui beber um fino ao Marylin, o bar dos simpáticos bêbedos lá da zona.
                 
O dia seguinte seria o último no Velho Continente.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Mais Contigo

Ontem os teus olhitos andaram por aqui. Andaram por este hostel, pelo quarto lá em cima, pelas ruas sevilhanas, por aquele restaurante onde comemos aquelas tapas. E depois a outra. Os teus olhos andaram por aqui a olhar para mim, atravessaram aquela ponte e pediram uma, ou duas, ou três, ou quatro fotografias, até não ficar desfocado. Fica sempre desfocado. Os teus olhos andaram por aqui e ao fim, naquele parque de estacionamento, fizeram-me um buraco na garganta. Os teus olhos de ontem tinham uma tristeza mais bonita que a dos dias anteriores, em que a exasperação e solidão toldavam, por vezes, partes da pessoa por quem me apaixonei. Os teus olhos de ontem, naquele parque de estacionamento, entraram dentro de mim e fizeram-me esquecer ser. Como posso ser todo se te amo assim? Amar-te assim é sentir que estou a fugir de ti. Sentir que estou a ir contra tudo o que é suposto fazer. Sentir que para cada lado há uma ponte a ruir. Mas amar-te assim é, também, virar tudo de pernas para o ar. É saber que posso ir ser eu sem arriscar que o meu amor se torne em fumo ou o teu em cinzas. Amar-te assim é deixar-te ali, atravessar a ponte lentamente a pensar nos teus abraços. É caminhar à beira-rio e sentar-me a pensar no quanto vou sentir a tua falta. No quanto vou sentir falta que te enrosques em mim e adormeças em três minutos. Amar-te assim é saber que posso olhar para dentro de mim e fazer aquilo que tenho de fazer sem arriscar que caias num poço desconhecido. Só contigo poderia ser quem sou desta forma. Só contigo posso gentilemente destruir todas as convenções e não me importar com o que esperam de mim. Porque contigo eu faço sempre as coisas porque as quero fazer, nunca porque as tenho de fazer. Contigo eu sou completo e vertical, posso levantar-me e ver a VIDA da perspectiva de quem tem o coração livre de frustrações; aprisionado, quiçá, pelas contrariedades de diferentes vontades, mas nunca refém de adiamentos de momentos felizes. Assim, por tua causa, o meu coração já bateu mais vezes do que as que tem direito. Por tua causa o meu coração vive, tanto dentro do teu olhar marítimo, como no meu olhar dos sítios que me permites viver.

Agarrando-me como me agarras permites-me voar para sempre, e sou muito mais porque te trago comigo.

18h25, d, 16-2-14 


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Portalegre, Olivença e Barrancos


Quando bazei de Proença-a-Nova fui tentando lembrar-me do caminho que o Luís me tinha mostrado no dia anterior, e lá fui seguindo tranquilamente. Depois de uma subida mais agressiva, a cena estabilizou e o caminho foi porreiro, planinho, permitindo-me deslizar bem.
                 
O meu pai apareceu quando subia uma estrada qualquer, depois de descer para o rio Ocreza. Dei-lhe a mochila para levar no carro, e depois tive a brilhante ideia de lhe dar tudo o que tinha. Alforges, tenda, tudo. Já me tinha provado a mim mesmo que conseguia fazer isto. Tinha tido um tormento de Vale de Cambra a Águeda e um super tormento de Coimbra a Figueiró e, apesar de ter custado, tinha conseguido. Por isso não havia necessidade de estar ali a castigar-me só porque sim. Mal me voltei a por na Bicicleta, ui, quase que voava. Até demais... porque tive o meu primeiro contratempo técnico. Estava a chegar às Portas de Rodão, uma descida espectacular apresentava-se à frente. Sorri e segui. E depois deixei de sorrir, porque queria deixar de seguir. É que os travões, que de si já estavam mal afinados, estavam húmidos, e travando com toda a força estava a ganhar velocidade! Um bocado assustador. Tive de meter o pé a zorrar no chão, aguentar a dor no gémeo esquerdo, e parar.

O meu pai, claro, disse logo para por a bicicleta no carro e seguir. Disse que não e tentei ir de novo. Não ia dar. A única opção foi por-me a pé. Numa descida espetacular! A pé! Como não tinha onde ficar em Nisa, o meu destino desse dia, tinha pensado em seguir sempre até Portalegre. Mas assim não ia dar. O mais estúpido é que dei por mim a ansiar por subidas!

Lá cheguei às Portas de Rodão, e o meu pai avisou-me que vinha aí uma grande subida e não sei quê, e que eu podia muito bem meter a Bicicleta no carro. Que raios! Não era isso que estava a fazer, mas parecia que estava a testar-me. Recusei mais uma vez, depois de ter ligado ao Santana a perguntar que fazer, e comecei a tal subida. Na verdade aquilo foi grande empreitada, mas fez-se bem. Entretanto a Bicicleta secou e já podia depois descer bem o que se aproximava.

Chegando-se ao Alentejo, andar de bicicleta é outra coisa. Parece mesmo que aquela linha fluvial impõe à geografia a plenitude. Tanto que voei até Nisa. Voei e passei! Tinha a Graciete na cabeça e queria mesmo vê-la nessa noite. Ainda faltavam uns quarenta quilómetros até lá, mas com as asas do amor voa-se fácil. Passou Alpalhão e depois a dúvida se podia andar no IP ou não. Achando que não, mais um desvio até ao Crato, e depois fazer o ângulo recto em direcção a Portalegre. A última hora foi a dez, com pequenas subidas a parecerem paredes. Mas consegui. Fiz p’rai noventa quilómetros nesse dia, e consegui estar com o meu Kidus!

Foi fixe estar em Portalegre, claro. E agora que escrevo de Algeciras, gostava de lá estar outra vez com a Graciete. Mas se lá estivesse ia querer estar em viagem. Complicado.

Fez os 30, o meu Kidus, e fomos jantar com os amigos dela. Tentei tratar de algumas cenas enquanto lá estive e bazei na Quarta, depois de três dias parado. A ideia era a Graciete ir comigo de carro, como se o meu pai lhe tivesse passado a estafeta.
  
De Portalegre fui para Olivença, a cidade mais ou menos portuguesa, mais ou menos espanhola. Tinha pedido à Graciete para lá estar quando eu chegasse, para ter arranjado um hostel e eu poder descansar e tomar banho mal chegasse. Porém a miúda, que até queria encontrar-me a meio, em Elvas, não conseguiu. Os atrasos da Graciete são a maior fonte consistente de stresses que temos.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço no hostel, demos uma voltita por Olivença e seguimos. Queria passar por Barrancos, que implicava um desvio de apenas dez quilómetros, porque tinha curiosidade de conhecer a vila. Por isso, antes de sair de Olivença fui ao grupo da terra do facebook e enviei mensagem à moderadora do mesmo a explicar a minha cena, e a pedir para ela publicar no grupo a ver se arranjávamos guarida. De repente era só malta a responder e já tínhamos mais que um sítio! Altamente!

Foi uma etapa muito madrasta. Subiu bués e doeu-me o rabo como nunca. Tinha de ir parando de vez em quando, outras vezes a caminhar. Mas lá cheguei a Barrancos, a primeira vila portuguesa de quem vem daquele lado, que se vê ao longe, bela ao cimo de uma colina. Enviei mensagem à Ana, encontramo-nos lá no centro e foi levar-nos aonde ficaríamos. 

Quem nos albergou foi uma família que, pelos vistos, é a família cuja casa recebe toda a gente. Uma família cuja casa tem sempre a porta aberta e onde se respira boa onda logo ao entrar. Pois o João, um dos filhos, tendo visto a mensagem no facebook, ligou à mãe e a Maria prontamente disse que sim, mesmo confundindo e pensando que ia albergar um sul-africano em vez de um português que vai para a África do Sul! “Se vêm de bicicleta devem ser hippies”, tinha dito o Luís à sua mãe, na brincadeira. “Pois se forem, são, não há diferença”, respondera a matriarca.
 
Banho tomado descemos à sala e estivemos um pouco à conversa com a família e daí fomos para a mesa jantar um entrecosto espetacular. Senti logo de imediato, pelo discurso das pessoas, um grande sentimento de coesão e comunidade em Barrancos. Touradas, se forem como imagino que são, não é algo que me agrade, mas ainda assim foi interessante confirmar o quanto está presente na identidade do local.

Depois do jantar o Luís, o filho mais novo, pegou em nós e, a caminho da Forja, o bar local, e vindo do mesmo, deu-nos uma pequena visita guiada àquela pacata localidade de casas brancas e beirais amarelos.

Foi um pequeno desvio, mas que valeu bem a pena. Seguiria no dia seguinte para a Serra de Aracena, novamente.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Coimbar e Figueiró dos Vinhos

Na Quarta-Feira acordei e, depois de ter tomado o pequeno-almoço com a Léa, fui ter com o Rui, que me abriria a porta da D’Orfeu para ir buscar a Bicicleta. Perguntei-lhe mais ou menos como saía de Águeda, e lancei-me à estrada. Hoje, em que escrevo de Sevilha, acho que esse foi o trajecto mais fácil, ou o segundo mais fácil. Tive algumas subidas fortes, que na altura me pareciam complicadas. Mas iá, hoje sei que não tinha bem noção da realidade. A verdade é que foi quase sempre plano, e só choveu um bocadito. Só a chegar a Coimbra é que tive que ir ali por Trouxemil e esse último troço subiu um pedaço. Quando cheguei ao Mondego estacionei para ligar ao pessoal a dizer que já tinha chegado e que estava tudo bem, e depois fui para casa do Briosa.

Estava sentado nas escadas do prédio quando o rapaz chegou, acompanhado do Raul. Subimos, comemos uma sanduíche, estivemos na conversa um bocado a decidir o que fazer e depois fui tomar banho enquanto ele e o Raul iam comprar cenas para jantarmos em casa. Viria lá ter o Santi de Vale de Cambra, a Maria João, a Joana e claro, a Inês, que vive com o Petiz (=Briosa). Liguei a aparelhagem e aproveitei aqueles momentos sozinho para reorganizar a minha mala. Reavaliar as necessidades de tantas cenas e sobretudo meter tudo a secar. Aquele quarto parecia uma feira, com tudo pendurado por todo o lado. Em vão, pois nada secaria.

Foi um serão porreiro, entre os debates do costume sempre que estou com o Petiz, sanduíches, vinho tinto, cerveja e jogos de cultura geral.

Teria no dia seguinte a etapa mais complicada de toda a vi... – ia dizer “de toda a viagem”, o que é engraçado, sendo que estou em viagem há apenas 12 dias. Então, posso dizer, de toda a viagem até agora.

Acordei e a chuva fustigava como sempre. O Vento abanava as árvores e o meu espírito um bocado também. Não me apetecia nada pedalar à chuva, mas não me apetecia nada ficar! Mas tinha acordado bastante tarde, e isso faria com que chegasse tarde a Figueiró dos Vinhos. Mas queria ir!! “Pá, queria mesmo ir hoje”, disse, ao Petiz, a olhar para a chuva lá fora. “Então vai”, disse-me o gajo. Pronto, certinho direitinho. Almoçámos os restos de frango do dia anterior, dei uma vista de olhos no mapa e por onde me era permitido passar de bicicleta, despedi-me do Petiz e da Inês, e levei as cenas para a cave, onde estava a bicicleta. Estava meio ansioso e irritável. Já eram quase quatro, chovia para carago e eu só ia porque queria caminho, não era porque me apetecia um belo dia de bicla. Depois não sabia de nada. Precisava de não sei quê, dava voltas e mais voltas aos alforges e não encontrava. Encontrava e depois precisava das cordas para prender a tenda. Zero! P’rai vinte minutos para encontrar o caraças das cordas, que estavam num bolso que nem sabia que existia. Quando um gajo está assim convém pararmos um minuto, respirar fundo e começar de novo, ou então nada aparece...

Lá me fiz ao caminho. A subir até Ceira, pim pim pim. Depois de Ceira tinha de ir por Almalaguês. Sempre a subir. “Aquilo tem umas subidas valentes!”, avisara-me a Inês. “Tranquilo, já domino as subidas”, respondi, com a minha arrogância de quem faz uma cena uma vez e pensa que sabe tudo. A verdade é que não estava muito tranquilo. Mas já tinha percebido que não há mal nenhum em levar a bicicleta a pé de vez em quando, e assim, o fazia, p’rai duas horas depois de ter saído de  Coimbra, debruçado sobre o volante, quando recebi uma mensagem que me daria o alento que precisava para chegar até Figueiró dos Vinhos, custasse o que custasse.

“Olá Pedro! Sou a Carina, de Figueiró. Tens casa à tua espera. (: alguma hora prevista pra chegada? Alguma comida que prefiras?”

Antes de sair de casa do Petiz tinha tido a feliz ideia de dar uma vista de olhos no couchsurfing a ver se encontrava alguém que me pudesse albergar. Havia três perfis, mas não tinham grande actividade, pelo que escolhi um, meti o nome no facebook, foi parar a um perfil, e aí sim, enviei uma mensagem. Resultara, e isso era espectacular, já não ia ter de acampar à chuva ou pagar p’rai vinte euros para dormir numa pensão qualquer. Também era fixe ter esse destino marcado. Se não o tivesse, talvez parasse mais cedo. Mas tendo onde chegar, chego!

Não me enganei nenhuma vez, mas isso porque perguntei o caminho p’rai vinte vezes, sem exagero. E isto porque passei em sítios do mais pitoresco e escondido possível. Correndo Portugal por estradas onde apenas bicicletas podem andar vemos um lado diferente do nosso país. Apesar de nem sempre ser fixe, porque sobe bués, apercebemo-nos de que Portugal é ainda mais bonito do que pensávamos, mais autêntico. E tem espaço para carago! É só monte!

Entretanto anoitecia e eu já todo partidinho! Comi duas barras energéticas e continuei, pelo breu. Passei Venda de Moinhos, enviei mensagem à Carina a dizer que estava atrasado. Daí passei por Avelar, a pensar que estava pertinho, e segui sempre. Desci bués para Ribeira de Anges num café para encher a garrafa de água, e depois... a subida. Subiu bués por lá cima, não havia luz nenhuma naquele monte, chovia e o Vento dançava. Passava um carro a cada meia hora, e quando passou uma carrinha de caixa aberta o condutor disse-me que Figueiró era já ali. Bazou, deu a volta, e perguntou se eu queria que me levasse lá cima. “Não, obrigado”, respondi. Não cheguei a pensar que sim, mas pensei em pensar. Ia arrastando a bicicleta a pé e estava a custar-me tanto que de repente aquilo não fazia sentido nenhum. De repente não fazia sentido ir de bicicleta se não tenho preparação, se me canso desnecessariamente, se isto, se aquilo. Mas levantava-me e mandava esses pensamentos para a escuridão, e seguia. Chegado lá cima esperava ver Figueiró. Mas ainda tive uma hora de descidas e subidas, até que vejo a placa. “Consegui!”. Tinham sido oito horas para fazer cerca de cinquenta quilómetros. Tinha sido um tormento, mas nesse momento falava com a Carina, que mandaria o pai dela buscar-me.


Estou no chuveiro, em casa dos meus anfitriões. Sinto a água que desce da minha cabeça deixar um sabor salgado na minha boca. Encosto as mãos à parece e sinto as pernas a latejar. E de repente estou no sítio onde sabia que estaria, o sítio onde afinal tudo faz sentido, e o sítio onde os nossos esforços são recompensados, nem que seja com a mera constatação de que nos superámos.
 
Mas a recompensa não seria só essa. Em Figueiró lavaram-me a roupa suja, secaram-me toda a minha roupa molhada até quase esgotarem os radiadores da casa, deram-me salada, sopa, arroz de pato, vinho e bolo, e deram-me um bom serão de conversa e relax. Até que sentia o João Pestana a aproximar-se, e me despedi na São, o Licínio e a Carina.

No dia seguinte, depois de almoçar e da São me fazer umas sandes de omolete, segui para Proença-a-Nova.