domingo, 8 de junho de 2014

Tiroteios em Bo e A Minha Experiência Na Esquadra

                Que viagem! Que viagem...
                Lembro-me quando andava por Marrocos que estava a gostar bastante, mas o pessoal perguntava-me se estava a adorar, e não podia dizer realmente que sim. Talvez por eu ter visto Marrocos mais como um ponto de passagem até chegar a vivências como tenho tido. Talvez porque aquilo que eu queria era o que muitos chamam de “África a sério”.
                Pois estou em Njaluahun, na Serra Leoa, e sei que é isto que queria. Não consegui fazer os cento e cinquenta quilómetros até à fronteira, penei com as subidas e descidas, com as poças de água que às vezes faziam com que tivesse de sair da bicicleta e o meu jantar foi um saquinho de amendoíns. Mas, ainda assim, é isto. Não é o não comer, nem o sofrimento de pistas mais complicadas. Não é o desconforto que tornas as coisas mais reais. Simplesmente esses desconfortos são efeitos colaterais que bem valem a pena os momentos de improviso que tenho todos os dias.

                Ontem fui levado para a esquadra em Bo.
                A Celia tinha-me dado o contacto do Morie, alguém que ela dizia que era “lovely”, algo que se traduz mais ou menos como amoroso, simpático, por aí. Quando estava a caminho desta cidade enviei mensagem ao gajo e ele disse que era na boa. Quando disse “Okay, a ver se consigo chegar, porque ainda falta um bocado e estou cansado” ele respondeu, comicamente, “Tu consegues, és de Portugal!”.
                Pensando em todas as outras vilas por onde passei, e pensando na segunda maior cidade da Guiné-Conacri, Boké, pensava que Bo, a segunda maior cidade da Serra Leoa, fosse um par de ruas. Mas não, era muito mais do que isso. Cheguei, perguntei pela torre do relógio, e depois pelo Kama, e encaminharam-me para o espaço do meu anfitrião. Ocupava todo o rés-do-chão de uma casa. Do lado direito tinha uma reprografia e um cyber-café ao fundo, no meio um restaurante por abrir e à esquerda um bar que se estendia para dentro, um pouco austero, com um balcão até ao fim e uma sala ao fundo mais porreira, com papel de parede bege e sofás vermelhos. O Morie era um rapaz de quarenta e cinco baixinho, com bigode e pera e um sorriso muito simpático. Sim, realmente parecia amoroso e simpático. Apresentámo-nos e fui a casa tomar banho, seguindo o irmão dele na bicicleta. A casa era porreira. Grande com vários quartos, e um para mim.
                Arranjei-me e apanhei uma mota para ir usufruir do facto de ter um anfitrião com um cyber-café. Estive na net até às nove, altura em que ia ficando na hora do rapaz fechar. Bebemos uma cerveja cá fora e ele contou-me um bocado do seu trajecto de VIDA. Pouco antes da guerra, quando era um jovem adulto, foi para os Estados Unidos com o irmão e a mãe. Esteve lá catorze anos, tendo vivido algures na Virginia, e em São Francisco, que curtiu bués. O irmão casou-se, teve filhos americanos e, a dada altura, a mãe quis voltar, pedindo-lhe que voltasse com ela.
                - E voltei! Em catorze anos nunca vim à Serra Leoa, visitar, nem nada... e quando vim foi para ficar! Adoro o meu país, a minha mãe queria que eu viesse com ela, disse que sim! Comecei com a reprografia, depois o bar, restaurante... Estou bem. Não tenho dinheiro no banco
                - Mas ‘tás confortável
                - Sim, estou confortável Os meus filhos estão bem, está tudo bem  – dizia, enquanto puxava de um cigarro. Perguntei-lhe acerca dos miúdos e da mãe – Estou divorciado há um ano. Pá, eu sou viciado no trabalho, chegava sempre a casa para lá das dez... No início ela entendia, mas de repente começou a não tolerar isso e olha... agora tenho os meus filhos ao fim-de-semana – tom triste.
                O carro não pegava e fomos dar uma volta, bebendo uma cerveja aqui, outra ali, e parámos no bar da Torre do Relógio. Bebíamos cá fora, debruçados sobre a cerca que separava o passeio da rotunda, quando apareceram dois ménes com quem foi interessante falar. Momentos antes eu estava a contar ao Morie como era abordado por prostitutas várias vezes. Isso fazia com que às vezes eu dissesse logo “Sei o que tens em mente, acho que deves saber desde já que não estou interessado”, acabando, talvez, por ser indelicado com alguém que simplesmente queira falar. Os rapazes devem ter ouvido qualquer coisa antes de se juntarem à conversa, e a dada altura criticavam a sua nação à força toda.
                - Aqui na Serra Leoa cem por cento... noventa e cinco por cento – acho que ele corrigiu a percentagem porque se apercebeu que isso também o incluiria a ele – das pessoas só se interessam por aquilo que tu tens!
                - É verdade! Ele está a dizer a verdade – dizia o Morie.
                - Não há amor genuíno, o pessoal só tem interesse se a pessoa tem dinheiro, carro, cenas do género. Mas com os brancos é diferente. Os brancos não se importam com isso, os brancos são capazes de gostar mesmo de alguém simplesmente – continuava.
                - Não tem a ver com ser branco... – disse – Se o que dizes é verdade, isso talvez tenha que ver com as diferentes condições económicas que o pessoal na Europa tem, e que o pessoal aqui tem, que acaba por criar uma cultura de busca de estabilidade. Mas um preto na Europa tem a mesma mentalidade que um branco na Europa, por exemplo, não tem a ver com ser branco ou preto...
                - Sim, mas o preto tem essa mentalidade na Europa porque aprendeu com os brancos!
                - O que eu quero dizer é só que não tem nada a ver com a cor da pessoa. Não está nos genes dos pretos ser assim, nem no dos brancos. Se viesse aí um cataclismo qualquer e os papéis fossem invertidos, talvez as atitudes também fossem invertidas!
                - Okay, estou a ver... Além disso, aqui em África as pessoas vivem muito para o bling bling. As pessoas preocupam-se em mandar cenário. Tipo, tu tens mais dinheiro que eu
                - Assumes tu – interrompeu o Morie.
                - Sim, eu assumo que tu tens mais dinheiro que eu. Mas eu tenho sapatos Gucci, esta pulseira, este blazer... e tu estás de chinelos, calções e uma t-shirt do avesso! – dizia, rindo-se de si próprio.
                - Eles estavam todos contentes de estar a falar contigo – dizia-me o Morie, quando bazámos. – O pessoal aqui curte ter a atenção de um branco. E se é um branco porreiro como tu ficam contentes. Viste como no fim disseram que se eu alguma vez fosse ao bar deles era vip? Porque estava contigo, e por associação de repente também era fixe. Mas são bons miúdos, pensam acerca das coisas e percebem o mundo à volta deles. Eu estou um bocado no meio entre a mentalidade daqui e a do Ocidente. Ter passado tanto tempo nos Estados Unidos mudou-me muito.
                - Em quê?
                - Olha, para começar, não tenho esse fascínio pelo branco como as pessoas daqui têm. Se alguém é porreiro, é porreiro, mas não vou ter com brancos na rua na esperança de que falem comigo como esta malta toda que te vem dizer que pareces Jesus Cristo. Depois em termos de privacidade também. Aqui em África não há privacidade nenhuma. Tudo é de toda a gente, as pessoas aparecem em casa umas das outras sem anunciar, sabem tudo de tudo. Eu, por exemplo, mal falo com os meus vizinhos. Não me quero envolver assim tanto – e já estávamos noutro bar onde, no dia seguinte, a polícia apareceria para me levar para a esquadra. O Morie era, definitivamente, famoso por Bo. Já o tinha reparado não só por algumas pessoas com quem tinha falado saberem o que era o Kama, o seu estabelecimento, mas também quando o ouvi a apresentar-se a um ou outro que dizia “Sim, eu sei quem és”. Nesse último bar, quando chegámos estavam quatro ou cinco gajos, nitidamente fora a dançar, um deles com um colete de motocross, algo do género. O rapaz do bar disse para nos sentarmos ali ao lado e veio atrás de nós com duas cadeiras e uma mesa.
                - O gajo é prestável! – notei.
                - Ele conhece-me. Tipo ele agora está ali – do outro lado do muro, encostado ao mesmo – porque o bêbedo do colete queria falar connosco, e ele está ali para evitar que isso aconteça – realmente o gajo era confortável em mais do que uma maneira. Quanto ao outro não poder falar connosco, não fiz caso, imaginei que o Morie não quisesse ter aquela típica conversa com um borrachão.
                Regressámos a casa e ainda comemos uma sanduíche e bebemos uma cerveja no seu alpendre com um jardim ao lado da estrada. Ele gostava de me ter ali e eu sentia-me bem por isso.
                - Há muito, muito tempo que não me sentava cá fora com alguém, sabes... A casa é grande, às vezes sinto-me um pouco sozinho – dizia. Curtia o gajo. Enviei mensagem à Celia nessa noite a dizer que o Morie, mais do que “lovely”, era fixe, mesmo – Às vezes estou aqui a brincar com os meus putos, e as gajas vêem do outro lado da estrada e passam-se.
                - Porquê?
                - Tem a ver mais uma vez com ter estado tanto tempo fora. Relaciono-me com os meus filhos de uma forma que aqui não é normal, e as mulheres quando vêem ficam interessadas.
                - Interessadas?
                - Sim. Tenho uma vizinha com quem quase me envolvi. A gaja é casada. Mas acabei por não fazer nada. E durante algumas semanas ela ficava ali, do outro lado da estrada, a olhar para a minha casa. Meio marada...

                Quando acordei, depois de tomar banho, escrever um bocado e rever o Argo, grande filme, apanhei uma mota para o centro. Perguntei se não havia problema não levar capacete e o gajo disse que era na boa. Mal sabia eu que o pessoal em Bo andava aos tiros por causa de problemas relacionados precisamente com... o capacete.
                Cheguei ao centro e reparei que havia muita polícia no meio da rotunda, e muita malta do outro lado da estrada. Mas, curiosamente, não me parecia um cenário fora do normal em África, e segui o meu caminho e entrei num restaurante ao lado, onde almocei magistralmente. Ia ouvindo pessoal aos berros mas, mais uma vez, não me parecia fora do normal. O pessoal aqui parece que está sempre a tripar mas a maior parte das vezes está na boa. Demorei um chisco a habituar-me mas já nem reparo. Ainda assim, quando saí e vi dezenas de motas estacionados e pessoal no meio da estrada, percebi que havia mesmo qualquer cena, e perguntei a um rapaz.
                - A polícia está a agredir-nos! Nós estamos a manifestarmo-nos pacificamente e eles começaram à pancada!
                - Estão a manifestar-se porquê?
                - Porque começaram a multar-nos por tudo e por nada, e já não aguentamos mais! E estacionámos as motas todas ali.
                - Estão em greve?
                - Sim, em greve! – respondeu o rapaz, chateado.
                - Grande alvoroço lá fora – comentei com o Morie, cinco minutos depois, estava ele sentado ao seu computador e eu debruçado sobre o balcão de vidro.
                - Sim eu sei. Há bocado passaram aí alguns polícias atrás de uns gajos e estavam aos tiros! – disse, para minha surpresa. Pois, soube mais tarde, que pouco antes de eu ter chegado a polícia tinha andado a disparar também bombas de gás lacrimogénio e dois gajos foram para o hospital porque foram baleados. Com balas reais, não há cá merdas com estes gajos. Quem mo disse foi o Will e a Laura, que conheci ao final da tarde. Andava às voltas à procura de informação para o visto da Costa do Marfim, que à altura da escrita parece muito difícil de obter, e o Morie disse que, quando eu estivesse pronto, me gostava de apresentar uns amigos da Celia. Jantei, fui ao bar, e sentei-me com eles. O Will estava descansadinho no seu escritório essa tarde quando olhou pela janela e viu a bófia com as bombas de gás lacrimogénio.
                Se na noite anterior não esperava ficar a pé até às três com o meu anfitrião, nessa noite também não esperava cortiré com o Morie e três ingleses e acabar a noite na esquadra da polícia. Com o Will e a Laura estava o Sandy, um inglês de ascendência indiana que estava em voluntariado internacional e nesse momento treinava outros miúdos que tinham acabado de chegar. “Estão a enviar-me mensagem a perguntar se é seguro sairem de casa amanhã”, dizia. Comemos uma sanduíche no bar, bebemos umas cervejas, e fomos conversando. O Will era advogado de defesa criminal.
                - Já defendeste alguém que sabias ser culpado? – perguntei.
                - Já. É o que tenho de fazer – respondeu. Dantes eu julgava as pessoas que o faziam. Mas deopis pensei melhor e alguns factores fizeram-me mudar de opinião. Não há defesa para quem sabe que o seu cliente é culpado e fabrica provas ou testemunhas para o safar. Mas nos restantes casos, toda a gente tem direito a defesa, e cabe ao ataque fazer o seu trabalho e provar que a pessoa é culpada. Um factor que para mim importante é o facto de que se um advogado rejeita alguém que lhe diz que é culpado, em última instância as pessoas começam a deixar de dizer ao advogado que são culpadas e o advogado, pensando que a pessoa é realmente inocente, acaba por fazer, sem saber, um trabalho diferente, e eventualmente não-ético, para a defesa. – Se sei que alguém é culpado e eles querem que eu invente álibis ou coisas do género aí digo que precisam de procurar outro advogado. Quando sei que a pessoa é culpada limito-me a procurar buracos nos argumentos do ataque – conclui o rapaz que namorava com a Laura há catorze anos, desde os dezoito. A miúda era enfermeira e estava lá a prestar auxílio e a treinar as parteiras locais. Estava a salvar VIDAS, no fundo, porque a quantidade de bebés e mulheres que morre por estes lados por razões estúpidas é  muito elevada, e às vezes este tipo de pessoas que os auxilia e ensina traz consigo o dom da VIDA.
                As pessoas são diferentes, e eu e a Graciete somos diferentes. Somos diferentes mas temos um juizo que nos permite aceitarmos as nossas diferenças e integrá-las dentro de cada um, e dentro da relação. A maior diferença, naturalmente, prende-se com esta minha necessidade de partir, de ir ver o outro lado. É apenas natural que assim seja, porque o meu modo de viagem é tão extremo que acaba por se tornar no maior ponto de diferença entre mim e muita gente. Assim, sei que, à partida, nunca vou viver com a Graciete noutro país. Estou pacífico e na boa com isso, porque sei que isso não implica que não possa continuar com as minhas viagens no espaço de tempo que temos mais ou menos combinado, muito menos que não possamos viajar os dois. Contudo, e questiono se é justo partilhar a nossa relação a este ponto nestas linhas, adorava viver um, dois, três anos, fosse o que fosse, na Tanzânia, no Equador, no Belize. Ela é enfermeira, podia fazer muito, e eu, bem... podia escrever os meus livros. Há muitos entraves a este sonho, o maior sendo que não lhe passa pela cabeça tal empreitada, seja por simplesmente não querer, não se ver, e outros como poder voltar a encontrar trabalho como enfermeira com facilidade quando regressasse, a língua, entre outros. Dá sempre para dar a volta a isto tudo, mas só dá para dar a volta quando realmente se quer. Prefiro noventa vezes mantermo-nos assim do que ela dar um passo destes só para me agradar, razão pela qual, apesar de o referir vez por vez, não me deitar a convencê-la.
                Do bar do Morie fomos para o bar da rotunda, onde nos sentámos cá fora a beber umas. “E é assim, estamos aqui na boa a beber uma cerveja, e há horas atrás andava aqui malta aos tiros”, comentou o Will. E agora que escrevo penso se terei lidado com todo este tumulto por já estar um bocadinho africanizado ou se é por, realmente, não ser algo que me toque, daí que não tenha de ter medo? Se houvesse tiros e eu estivesse na rua não ia ficar lá a comer um gelado porque podia ser atingido acidentalmente. Tirando isso, não vejo por que razão aquilo me tocaria.
                - Mas porque é que os gajos se quiseram manifestar? – perguntei.
                - Porque desde há algumas semanas para cá a polícia começou a multar tudo e todos. Já apanhaste alguma mota? – perguntou-me a Laura.
                - Já.
                - Então sabes que é extremamente barato. Eles levam mil leones – dezassete cêntimos – por corrida, às vezes dois mil se demora mais que cinco minutos, e a polícia multa-os por quinhentos mil! – quinhentos mil! “Filhos da puta”, pensei, especialmente porque era mais que certo que o dinheiro era para essa máfia. Reparo agora que estar em África faz-me detestar ainda mais autoridade. Pelo que faz às pessoas, pela aleatoridade com que é atribuída. Estou a falar de polícias, mas o que não falta é contínuos de escola, directores, chefes, dirigentes, que só porque têm uma determinada posição pensam que são chocolate branco e podem tratar os outros como lhes apetece.
                Dei-me muito bem com o Will. Conversámos acerca de vários assuntos, e ele encorajava-me com toda a força a ver a série Cosmos, do Carl Sagan, que tinha mudado a perspectiva dele sobre tudo, quando era tempo de partir.
                - Adorava ficar para mais uma, mas a Laura está cansada. Mas a sério, podes esquecer tudo o que eu disse, mas não te esqueças disto - vê o Cosmos! – disse, categoricamente. Contudo, ainda não nos despediríamos aí, porque os gajos da mota estavam de greve! Ah, claro! E logo nesse dia o Morie não tinha trazido carro. O meu anfitrião encontrou um táxi ao cabo de vinte minutos e a ideia era seguirmos todos no táxi, deixar o Will, a Laura e o Sandy em casa e eu e o Morie irmos ainda beber mais uma.
                Deixámos os rapazes e voltámos à rua do último bar da noite anterior. Tinha muito mais gente e um gajo, mal saí do táxi, veio perguntar se eu não me lembrava dele.
                - Não, não é ele! – respondeu o Morie – Não é mesmo ele – e depois começou a falar em crioulo mas, pela cara do méne, a olhar para o chão meio envergonhado, e por uma ou outra palavra que apanhei, percebi que, provavelmente, o gajo me estava a bater um couro e o Morie tinha-o apanhado de imediato. Esta cena do “lembras-te de mim” é uma praga. Foi aparecendo pessoal que se aglomerava em semi-circulo a ouvir a conversa e a olhar para mim, que estava mais ou menos no meio do semi-círculo, quase encostado ao táxi, mas na boa. De repente, olho para a minha direita e vejo uma carrinha da polícia a parar, e tenho um polícia de capacete e kalashnikov na mão a um metro de mim, todo bêbedo!
                - Que é que se passa aqui? Que é que se passa aqui – gritava um
                - Tu, és quem? – perguntava-me outro.
                - Olá, eu sou o Pedro – respondi, com um sorriso. Nesta altura, que me lembre, estava lá o de capacete, o sargento, um homem dos seus sessenta também todo fora, e outro cavalão, que disfarçava melhor mas que também estava a beber.
                - És de onde?
                - Portugal, a terra do Pedro da Sintra!
                - Tens autorização de residência? – “lá vamos nós”, pensei.
                - Não, porque não resido aqui, estou só de passagem.
                - Tens de ter! – disse o méne, já com cara de mau.
                - Porque é que está a falar com este homem? – perguntou o Morie ao polícia.
                - Ele não tem permissão de residência, tem de ter, vou levá-lo para a esquadra! – A partir daqui as coisas deram um salto. Falava com o homem, tranquilamente, a dizer que tinha o meu visto, e que não precisava de ir dentro quando, não sei que se passou, ele queria ir ali ao fundo. Para isso tocou no Morie.
                - Hei, não me empurres, estás a empurrar-me porquê? – perguntou. Não foi agressivo, mas foi um bocado despropositado, porque o que o sargento tinha feito foi pegar-lhe no braço com a intenção de mover o meu amigo para o lado, mas não foi propriamente à bruta. O homem não curtiu e começou aos berros com ele. Depois apareceu o cavalão também aos berros. Estava a ver que aquilo ia dar raia.
                - Tu no teu país não respeitas a polícia? – perguntou-me o cavalão, com uma cara como se tivesse sido eu a dizer ao outro para não me empurrar.
                - Sim, sim... não leve a mal, ele ficou nervoso – respondi. Às tantas já não sabia onde estava o Morie, e o cavalão veio dizer-me que já não ia para a esquadra. Foi tudo muito rápido e no meio de umas trinta pessoas, que se iam juntando, cada vez mais.
                - Ficas em paz. Estás bem? – perguntou.
                - Sim, estou bem, não se preocupe.
                - Só te queremos proteger! Estás bem?
                - Sim, estou bem, a sério, pode ir à sua VIDA.
                - Okay, ficas aqui então – finalizou. Ou antes tivesse finalizado. Não sei que se passou, o sargento apareceu outra vez a perguntar-me o meu nome pela terceira vez e se eu tinha a minha permissão de residência. Lidar com pessoal de outras culturas, seja de que canto do mundo seja, é muito mais fácil do que lidar com bêbedos. A mesma conversa, o gajo disse que me ia levar dentro, conversámos mais um bocado, e ele disse que eu podia ficar. Era como se me estivesse a desviar de balas. Pois o Morie voltou a aparecer, o sargento começou a tripar com ele, o Morie voltou a desaparecer, para não o mandar para o caralho e o sargento, não curtindo esta, disse que, afinal de contas, me ia levar dentro.
                - Espera, espera, não entres – dizia o Morie, que tinha reaparecido, desta vez de outro lado, enquanto esperava que lhe atendessem o telemóvel. O sargento puxava-me de um lado e o Morie do outro, e quando o sargento empurrou o Morie eu disse ao meu amigo para ter calma que eu ia mesmo. Se resistisse aquilo ia mesmo correr mal. E polícias que, de tarde, provavelmente sóbrios, andavam aos tiros, à noite com a bebedeira não iam ler romances de amor.
                - Olá! – disse a dois civis que estavam nas traseiras da carrinha e a uma polícia gorda, que estava encostada para trás de cerveja na mão. Os civis bazaram, o sargento e o do capacete entraram para a frente e seguimos. “Os gajos nem tentam disfarçar”, pensei, ao ver o cavalão a conduzir e a beber cerveja, enquanto a carrinha avançava noite dentro. Eu estava num misto de tranquilidade com nervosismo, se é que tal existe. Não sentia nenhuma bola de fogo a arder no peito, mas sentia todo o meu ser cem por cento alerta. De repente estava sóbrio como um canário.
                Chegar àquela esquadra foi um momento inesquecível.
                Saí da carrinha e parecia que tinha chegado a uma festa. Música, malta cá fora a fumar e a beber, dois a jogar damas encostados à parede. Quando lá chegámos o sargento perguntou-me o meu nome e perguntou-me se eu tinha a minha permissão de residência. O cavalão tentava convencê-lo a deixar-me ir, em vão. Estou eu a tentar explicar que não é preciso tal permissão, como se ele não soubesse, quando apareceu um mais novo, à civil, com um pequeno maço de notas na mão.
                - Pessoal, eu tenho dinheiro! – e aqui estava a cena. O gajo viu-me rodeado de polícias a pedir os meus papéis e pensou que eles pensavam que não havia dinheiro para copos, e decidiu vir lá numa de “caguem no gajo que já temos dinheiro”, dinheiro esse provavelmente oriundo dos bolsos de um pobre táxi-mota. Filhos da puta!
                - Não tem nada a ver com dinheiro! – disse um deles. Eu ia procurando aliados. Já tinha percebido que o cavalão me queria mandar embora, havia outro rapaz que também era mais simpático, havia o sargento, imprevisível mas que talvez desse para manipular, a gorda, cuja única frase foi dizer-me que eu parecia Jesus Cristo mas que olhava para mim com olhos de fome, e outro que apareceu mais tarde, quando o sargento já tinha decido deixar-me ir. Vi neste puto de vinte e dois ou vinte e três o mesmo que me tentou chular depois de ter entrado no país. “Este homem anda por aí sem papéis?!”, perguntou, com a maior cara de cabrão-a-tentar-intimidar que alguém já fizera. Alguém lhe disse para esquecer isso e ele desapareceu por momentos, voltando de vez em quando para tentar instigar os outros a não desperdicar a oportunidade de se aproveitarem de mim.
                Não sei quanto tempo passou até eles me terem dito que eu podia ir. “Liga para o táxi, diz para te vir buscar. Se não podemos levar-te a casa. O que importa é que estejas seguro. Nós estamos aqui para a tua segurança. Não te queremos envergonhar. Envergonhamos-te?”, diziam. Acho que essa de “envergonhar” foi perdida na tradução da língua nativa deles, talvez. Acho que eles queriam mais perguntar se me tinham assustado. Eu disse que não e agradeci. Não queria dizer que estava na boa e que todo aquele celeuma era escusado. O táxi nunca mais chegava, e eu estava mesmo a ver que ia dar outra panca ao sargento, pelo que tinha de o distrair. Alguém falou no Ronaldo e eu comecei a falar da carreira dele, do Manchester, do Real, que estava lesionado, sempre em torrente. A minha ideia era falar sem parar até chegar o táxi, meter-me nele e hasta luego. Mas chegou o puto cabrão, disse qualquer coisa e o sargento perguntou o meu nome e pediu o meu passaporte. O puto perguntou se eu tinha uma carta do meu governo a dizer que sabiam que eu estava lá. Depois apareceu outro a perguntar se eu tinha ido anunciar à polícia que estava na Serra Leoa. Era só merda, só merda! “Bem, ao menos agora sei as cenas que pedem, talvez possa falsificar algumas”, pensei, pensando ao mesmo tempo que corja daquelas encontra sempre qualquer coisa. Eu ia-me tentando desviar. Já tinha ligado ao Morie três vezes, a instrução dos polícias que deviam estar fartos de esperar, e o Morie dizia que o táxi estava a camihho. O meu amigo não viria, explicou-me mais tarde, porque estava demasiado transtornado com aquilo tudo e se viesse as coisas iam correr muito mal. Se, por um lado, acho que se podia controlar e vir ajudar-me, por outro aprecio a constatação de que isso é, naquele momento, uma impossibilidade e então mais vale estar quieto. Ligava, desligava, dizia que o táxi devia estar mesmo a chegar, e sentia que o sargento estava a virar outra vez. E virou, o cabrão! Foi uma cena surreal. Apesar de eu estar sempre naquele limite de estar na boa mas sem parecer que não os levo a sério, de repente foi como se lhe tivesse chamado aquilo que pensava dele e o gajo diz, com potência “Vais passar aqui a noite! É mais seguro para ti! Não tens papéis!”. O gajo estava tão fora que tinha dificuldade em encontrar a razão pela qual eu lá ia ficar.
                - Mas então... tinha dito que eu podia ir! – disse-lhe. O cavalão voltou e começou aos berros com o sargento.
                - Eu é que sou o sargento, eu é que mando! – gritava o velhote de farda militar cinzenta.
                - Ande lá, não vale a pena ficar aqui. Eu estou bem, estou seguro!
                - Não! – gritou – Anda! – e tocava-me no braço. Eu ia caminhando devagar a tentar perceber o que fazer. Apareceu o outro de há pouco que era mais simpático e trocámos um olhar. Ia seguindo o sargento, mas devagar, e quando entrou na esquadra chamou-me. Os outros todos, que eram p’rai quinze, discutiam o meu caso, uns sentados debaixo de uma árvore, outros de pé.
                - Vamos perguntar ao nosso chefe o que fazer contigo, espera! – disse o mais simpático. O sargento tinha desaparecido para dentro da esquadra, e voltava de vez em quando para tripar com o cavalão. Dizam um ao outro que o outro não o respeitava. O chefe era um dos que jogava damas calmamente ao longo de todo aquele processo. Era um rapaz dos seus trinta e cinco, vestido de azul com um gorro. Olhou de lado para mim e perguntou-me o que estava a fazer. Cumprimentei-o e expliquei de onde vinha, para onde ia. Para não me voltarem a perguntar a minha missão disse que era fotógrafo, e um terço de segundo depois de o ter dito, pensando que podiam entrar em paranóia que era jornalista, completei que fotografava natureza, uma actividade muito menos propensa a gerar tensão – Que fazemos com ele? – perguntou o simpático.
                - Não ouviste o homem? Deixa-o ir – respondeu o chefe. O táxi já lá estava. Virei-me e fui direito ao carro, mas nesta altura já sabia que as coisas mudavam a qualquer segundo. Tinha acabado de fechar a porta quando apareceu o sargento.
                - Não te vais embora sem fazermos o registo! – queria ter a última palavra, ao que parecia, e tinha sido aquilo que tinha encontrado. Saí do carro, entrei finalmente na esquadra, e um rapaz do meu lado esquerdo, sóbrio, do outro lado do balcão abriu um livro.
                - Escreve aí... – disse o sargento ao sóbrio – Como é que te chamas? – perguntou-me. Soletrei o meu nome e ele continuou – foi preso para questionamento. Foi libertado e manteve todas as suas possessões. Está seguro e partiu com o táxi... qual é a tua matrícula? Okay, com o táxi tal tal tal – depois virou-se para mim. – Estás bem?
                - Estou.
                - Isto é para tua segurança?
                - Sim, eu sei – menti. Num segundo pensei no esforço de dizer sempre a verdade e em como, em situações destas, não dá mesmo. Dá, mas não é a maneira mais inteligente ou segura de gerir uma situação destas.
                - Envergonhamos-te?
                - Não – respondi, quando o que eu queria dizer é que, na verdade, envergonharam-se a eles mesmos. À grande. Entrei no táxi e desta vez não voltei para trás.
                Estava a delirar um bocado com a pecularidade de toda aquela situação, e sentia-me também contente por achar que tinha lidado com tudo da melhor maneira possível. É que, depois de ter sido acusado de não ter mil documentos, a verdade é que eu nem o meu simples passaporte cheguei a mostrar! Não mostrei um único documento! Sempre que mo pediam eu ia falando, às vezes fazia o gesto de que o ia tirar e acabava por não o fazer. Sim, se por um lado é difícil lidar pessoas bêbebas com álcool e autoridade devido à sua imprevisibilidade e fúria mais fácil, por outro é mais fácil distraí-las.

                Quando cheguei a casa o Morie estava num caco. Sentámo-nos no alpendre a beber um campari e ele dobrava-se sobre os seus joelhos com as mãos na cabeça.
                - Méne, quem devia estar assim sou eu, não és tu! E se eu estou aqui na boa, não fiques tu a bater mal! – dizia.
                - Eu queria ir ajudar-te, mas estava tão transtornado que só ia correr mal! Depois liguei ao director da polícia e ele estava a dormir, disse que lidava com isto amanhã. Mas também sabia que ias lidar bem com a coisa... a outra malta toda estava pronta para aquilo dar para o torto. Podíamos ter sido os catalistas... eles estavam prontos para dar na polícia – eu pensava no massacre que podia ter ocorrido ali se aquilo desse pancada e os polícias começassem ao tiro. – Quando foste na carrinha estavam todos impressionados contigo.
                - Porquê?
                - Pela maneira como estavas calmo.

                - Lembras-te de quando te contei a cena da fronteira? Mesmo que a ferver por dentro, na boa por fora.

domingo, 25 de maio de 2014

Entrada na Guiné-Conacri


Lá fora há relâmpagos e trovões a saldo. Está na hora da chuva. E eu estou aqui dentro, no quarto do Mohamed, a ouvir Lisa Ekdahl, com o computador ao colo, enquanto ele foi rezar. Estou, definitivamente, numa nova etapa desta viagem. E estou a adorar! O Senegal, ah Senegal, foi muito bom, mas agora percebo que foi fácil, muito fácil. África a sério? Sim. Mas não tanto, talvez. Se bem que, que sei, eu que estou ainda na Guiné-Conacri?
                
Ontem, aquele grande dia que, tanto me faz sentir inveja como pena do meu eu dessa jornada, parti de Saltinho com a ideia de mudar de país. Estava a quarenta ou cinquenta quilómetros da fronteira, e depois tinha Boke a setenta e poucos quilómetros daí. Daria para fazer tudo no mesmo dia? Daria. Se estivesse em Marrocos, na Mauritânia, Senegal... Mas aqui a estória é outra, aprenderia.
                
De manhã sentia-me um bocado em baixo, meio tristonho. Não estava a curtir muito a dificuldade de encontrar água ou o que comer, e questionava-me se seria assim daí em diante. Havia algo mais, mas não sei bem que era. Chuviscava, e pensava também no que faria quando começasse a chover à grande. Havia ainda algo mais, mas não sei... talvez aquela tristeza que aparece sem grande razão. Topei-a logo quando me senti irritável logo de manhã com algo que um gajo fez, já nem me lembro, o que quer dizer que não foi nada de especial.              

O alcatrão deixou-me a uns vinte ou trinta quilómetros antes da fronteira, quando dei o meu passaporte para o pessoal carimbar do lado da Guiné-Bissau. E depois também me deixou a estrada, pouco antes de chegar à Guiné.
- A fronteira é para ali, não é? – perguntei a uns militares que bebiam chá, apontando para a continuação da estrada de terra batida.
- Não, é para ali! – responderam, apontando para umas casas de telhado cónico de palha. Meio confuso, segui, e realmente vi um caminho, mas não podia ser aquilo.
- A fronteira é por aqui?
- Sim, é – responderam. Aquilo era um trilho pelo meio da floresta. Tão espetacular quanto incómodo. Mas que se lixe, vamos! Lá fui pelo rego até que vi uma bandeira parecida com a da França e assumi ser a fronteira. Olhei à volta e vi um militar, depois outro, numa casita sem janelas. Aliás, era um muro a toda a volta, um telhado de palha, uma cama e uma secretária. Entreguei o meu passaporte ao homem que, confuso não sabia bem que fazer. Ia aparecendo um ou outro para dar o seu bitaite e o gajo às tantas começou a escrever no passaporte. Fiquei um bocado de pé atrás com aquilo, até que ele lá desencantou um carimbo de dentro de uma gaveta da secretária. Coisas com carimbo são sempre mais credíveis.
                
Enquanto tudo isto se ia passando eu comia o meu almoço, uma baguete com uma lata de sardinhas e uma garrafa de água de litro e meio que um guarda me tinha oferecido. A fome apertava, e quando perguntei, do lado de Bissau, se havia restaurantes do outro lado da fronteira, um guarda disse-me “Sim há muitos, há muitos!”. Pois ele se calhar pensou que eu estava a perguntar do outro lado da fronteira tipo no país inteiro. No país inteiro realmente há bastantes. Não há muitos, mas há bastantes. Do outro lado da fronteira mesmo, é que não havia nenhum!
                
Despedi-me dos simpáticos senhores e pedalei um bocadinho vila dentro, até que encontrei uma senhora que vendia umas cenas tipo umas bolas de berlim sem açucar ou creme. Não era lasanha, mas achei que provavelmente não ia encontrar muito mais até fosse onde fosse que eu ia. Comprei dez, a pensar que ia ser isso o meu jantar. Continuei mato adentro, embasbacado com o cenário e com aquela estrada. “Então por isso é que a estrada era apresentada a tracejado no lonely planet”, pensei. Ainda encontrei uma senhora que vendia bolachas, mas só tinha francos da Guiné suficientes para um, que trouxe.
                
Estava com vários sentimentos ambivalentes dentro de mim. A tristeza da manhã permanecia, talvez exacerbada pela dificuldade em pedalar por aqueles lados. Ao mesmo tempo, essa mesma surpresa com todo o meu ambiente, também me deixava tão admirado, que não tinha como não traduzir isso por vezes num sorriso. Esse sorriso entrava dentro de mim e lá me amenizava. A estrada alaranjada estava a custar bastante. Subia e descia constantemente, e tinha de pedalar com cuidado entre calhaus e pedritas. Ao mesmo tempo, eu estava no meio da floresta. Mesmo no meio da floresta. Estava com alguma fome, tanto no estômago, como na mente, pensando que não sabia como me ia safar. Mas ao mesmo tempo sabia que algo haveria de acontecer.
                 
Quando vi o rio delirei. Tinha feito uns quinze quilómetros em p’rai hora e meia. Vi o rio ao longe mas nem me passou pela cabeça não ter ponte, e perguntei a um  guarda por quem tinha passado se se podia nadar. Ele, não entendendo a minha pergunta, até porque “nadar”, em francês, não deve ser “nadê”, disse que eu chamava o rapaz da piroga e ele vinha-me buscar. Aproximei-me então e lá vi o rapaz, lá ao fundo. Tinha à minha frente um belo cenário. A estrada descia com alguma agressividade e acabava no rio que, calmamente, seguia para a esquerda. Mesmo à minha frente uma piroga boiava, ao longe via um camião no meio da água, que mais tarde percebi estar abandonado sob um transporte. Do outro do rio casitas com telhado de palha.
                
Foi aqui que o dia começou realmente a virar. Foi quando estava naquela piroga, que o rapaz de t-shirt que já foi branca há muita terra atrás comandava, e olhava à minha volta, piscava o olho à Mónica a ver se não ia mesmo cair ao rio, e tocava ao de leve na água com as mãos, que comecei a apreciar a loucura daquilo tudo. Eu estava ali! Eu estava ali! No meio da floresta, com aldeias de dez ou vinte pessoas de vez em quando, de pessoas que vivem indo apanhar fruta! Eu estava ali! Saí da piroga, os putos acenavam, um ou outro choravam por ver um branco. Encostei a bicicleta, tirei as botas, as meias, os calções e a t-shirt e entrei! Livre! Se aquele rio me tinha começado a carregar as baterias quando o avistei, naquele momento, dentro dele, todo eu era outro. Apercebi-me, mais que nunca, que vivia um momento único.
               
Com a minha nova VIDA, deixei a aldeia. Não andei muito até que começou a chover. A primeira  chuva africana. “Tenho de parar no próximo sítio”, pensei. Virei à esquerda, e eis que dou com, sei-o hoje, Kissomayo, uma pequena aldeia. Abriguei-me debaixo de um coberto de palha, e a canalha rodeou-me logo, também o fazendo um senhor com cara de simpático, a quem perguntei se podia meter a minha tenda ali. Iam chegando mais putos com mangas, que me entregavam. O homem disse que ali não era bom, e levou-me para outro, que não só não tinha uma fenda no meio, como também tinha um plástico por dentro e tudo! Era o sitio perfeito! Apareceu outro a dizer que eu devia ficar à beira da polícia que estava ali ao fundo, mas disse que não havia problema.
                
Como que a fazer de parede tinha, só de um lado, uma mesa de lado. Com a bicicleta já abrigada, pousei os cotovelos na beira da mesa e fiquei a apreciar. Outros cobertos de palha estavam a ser feitos, ou estavam já destruídos. Árvores por todo o lado, e uma estrada que vinha da direita e me tinha visto chegar. Outra, mais abaixo, que vinha de Bissau, vim a saber. Putos. Quinze ou vinte putos a brincar. Chuviscava e eu percebi, neste instante, que estava numa nova fase desta viagem. E estava a adorar. Tinha começado o dia meio cocó, tinha tido uma ou outra mudança, um ou outro baque, e eis que estava a adorar cada segundo não obstante os pés molhados ou não ter perspectiva de jantar nem pequeno-almoço. “É por isto que eu viajo”, pensei. Pelo improviso, pela malta a ser porreira connosco. Até a chuva na testa me agradava, parecia difente. Sim, é água, simplesmente mas, para mim, a chuva em África, por mais igual que seja à da Europa, é diferente, sei-o agora.
                
Olhei para trás e, vendo as seis ou sete mangas num canto dos meus aposentos, lembrei-me do Dizzy, um vegano irritante que conheceram em Phuket, na Tailândia, três anos antes. “Espero que ele tenha razão e um gajo possa mesmo viver só de fruta”, pensei, achando que isso, as bolas de berlim e o pacote de bolachas seriam o meu sustento.
                
Montei a tenda e fui dar uma volta. Desci, segui uns metros pela estrada e um senhor chamou-me. Era o Youssouf, o chefe da polícia. Levou-me para o seu escritório, uma casita de barro também sem janelas, e sentámo-nos para ele apontar os meus dados. Chegou entretanto o Cond, o adjunto, um homem magro, com aperto de mão forte, e daqueles que entra a matar e depois acaba por ser um gajo simpático.
                
- Mas porque é que tu viajas, qual é o teu propósito? Queres fazer o quê? Passas aqui, e vais à tua VIDA!
- Sim, é verdade... eu viajo para conhecer... novos países, novas culturas... também para quebrar barreiras e estereótipos... por exemplo, muita gente pensa que África é muito perigoso. Eu gosto de ir aos sítios, apreender a minha própria realidade, e depois partilhá-la.
- África é perigoso?! O Ocidente é que é perigoso! – e continuou um pedaço sobre o facto de um gajo poder andar em África na boa e no Ocidente é sempre preciso papéis a toda a hora e cenas do género – Tu, por exemplo, estás aqui a falar comigo, mas no teu país estavas-te a marimbar para mim – aqui tive de travá-lo.
- Hei! Tu não me conheces! Não me conheces de lado nenhum! Eu não sou assim. Tu tens uma ideia das pessoas do Ocidente, que não é necessariamente verdade, e pensas que toda a gente é assim. Mas, para mim, uma pessoa é uma pessoa, seja aqui, no Ocidente, ou na China – e senti que aqui o homem aligeirou. Quase parecia que me estava a testar.
- Há algum sítio onde se possa jantar aqui? – perguntei ao Youssouf.
- Tens ali aquele restaurante – respondeu, apontando para o outro lado da pequena rua.
- Que é que eles têm?
- Ovos e café.
- Ah... pois eu queria algo que eu pudesse comer e fazer “aaahhh” – disse, com a mão no estômago. O homem achou piada a isto e disse que comeria com eles, o que para mim foi como se me tivessem dado oito quilos de ouro. Estava safo!

O Cond levantou-se, disse para lhe ir mostrar o meu hotel, e quando chegámos ele disse “Ah, estás bem”, como se eu estivesse realmente no Sheraton, e disse para eu descansar que depois me vinha chamar para comer. “Mas que pessoal é este?”, pensei.

Dormitei um pouco, enquanto uns putos do lado de fora ia chamando “porto, porto!”, aparentemente como se diz “branco” em Peul, e fugiam a sete pés quando eu simulava abrir a tenda, até que o Cond lá me veio buscar. Fora de uma casinha, uma senhora cozinhava com três grandes tachos à frenet, sentada num banquinho. À minha frente tinha uma travessa de arroz com um molho vermelho que dava para três pessoas comerem bem, e dois sacos de água potável. Comi tudo. Quando, no final, perguntei se tinha de pagar alguma coisa, o Youssouf disse “Não, ‘tás em África, isto é hospitalidade!”, enquanto, ao mesmo tempo, a cozinheira gritara um “Eh!”, como se eu tivesse perguntado se os tachos eram feitos de esferovite.

De barriga cheia deitei-me nessa noite, deliciado com o meu caro ser-humano.

Hoje acordei, desmontei a tenda, e fui ter com o Youssouf para trocarmos contactos. Fui ao “restaurante” e tinha acabado de dar a primeira trinca na minha sandes de omolete quando o chefe da polícia passou e disse “Pedro, vamos comer!”.

Tinha setenta e tal quilómetros até Boké, que seriam feitos à justa tendo em conta a estrada que abracei. Apesar do sobe e desce constante, e das inúmeras poças de água, fez-se melhor do que no dia anterior. Só que caí duas vezes! A primeira foi uma semi-queda. Um mero deslize do pneu de trás e fui ao chão, sem me aleijar em lado nenhum. Já na segunda, ia a mais de vinte à hora, falhou-me ali um milímetro na beira de uma poça de água, a roda da frente deslizou e fui de zorro. Rasguei os calções e a minha anca direita ganhou uma nova cor. Cor carne-viva. Mas tudo tranquilo. O mais importante é que a bicicleta continuava impecável. Muito me admirava a Mónica, portando-se como uma campeã apesar de pedalar sobre pedras bicudas e com tanta trepidação que poderia fazer qualquer parafuso saltar.

Estava nas últimas quando cheguei ao alcatrão de Boké. Já andava com um ouvido entupido e já bocejava, os sinais da canseira, que às vezes leva à Matadeira. Fui a um hotel perguntar o preço e o rapaz disse-me que era barato, vinte euros. “Não, obrigado”. Fui até ao centro, e procurava um sítio com internet quando falei com o Mohammed, que dizia não haver um. Perguntei-lhe onde podia comprar um cartão sim e ele levou-me a uma loja. Perguntei onde havia hotéis e ele disse que era lá ao fundo. Perguntei se podia meter a minha tenda em casa dele e ele disse que sim. Assim, sem mais nem quê.

Viemos para casa dele, deixei as cenas no seu pequeno quarto e fomos ao rio para eu tomar banho enquanto ele, por sua iniciativa, lavava a minha roupa. Um muçulmano de trinta e cinco anos que reza cinco vezes ao dia e que, ao que parece, realmente pratica a sua religião.


22h03-3ª-20-5-14

Boké, Guiné-Conacri

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Laayoune e as Conversas Sobre Igualdade

- É na boa eu ficar duas noites? – tinha perguntado ao Bakkar, pouco depois de ter chegado a Laayoune.
- Sim, claro, mi casa su casa! – respondeu.
- Quando é que vais embora? – perguntou, no meu segundo dia.
- Amanhã.
- Não, vais depois de amanhã!
- Hum... posso pedalar amanhã cem quilómetros, depois apanho boleia para trás, fico aqui, e no dia seguinte faço o inverso e continuo...
- Não. Ficas aqui mais uma noite, e depois no dia seguinte vais.
- Hum, okay... – assenti.
- Quando é que vais embora? – perguntou-me, quando acordámos no último dia.
- Vou hoje, pá.
- Não, vais amanhã!
- Não, méne, vou mesmo hoje. Obrigado.

Acordámos depois da primeira noite e tomámos o pequeno-almoço. Passámos a tarde a dar umas voltas, estilo Bakkar. Caminhar um pedaço, cumprimentar alguém, ir à loja de um amigo, passar por casa a ir buscar qualquer cena, ir ao mecânico ao lado de casa da irmã beber um chá. À tarde, depois de comermos qualque cena, voltámos a falar de religião. O meu anfitrião, apesar de não ser muito praticante, era muçulmano devoto, e cria ser mesmo a melhor religião, algo comum aos muçulmanos que conheci. Senti que podia explorar um bocado a cena com o Bakkar, e aconselhá-lo a abrir a mente um bocado. É legítmo questionar-se quem sou eu para pedir tal coisa, mas acho que o tema e a minha posição sobre o mesmo é forte o suficiente para que o possa defender venha quem vier.
                
- O Corão supostamente é um manual sobre como ser, ao que parece. Mas o Corão foi escrito há quase mil e quinhentos anos... Há muita, muita coisa, que não se adequa! Como a cena do testemunho de um homem valer o testemunho de duas mulheres. Pá, isso é uma cena que, quer queiramos, quer não, não faz sentido nenhum!
                
- Mas, sabes... – dizia o meu amigo – O leite de uma mulher que tem um filho é muito mais forte do que o leite de uma mulher que tem uma filha – Isto demorou algum tempo, porque o inglês do Bakkar não era perfeito e eu não estava a conseguir perceber o que ele queria dizer. – E isso quer dizer alguma coisa...
                
- Não, pá, não quer dizer nada! Em primeiro lugar, acho isso difícil de acreditar, mas que se lixe, não interessa... Mesmo que isso seja verdade, isso não pode nunca, nunca, ser argumento para defender que o homem é mais forte, potente, inteligente ou superior à mulher! Porque se queremos usar argumentos desse género, méne, há mil para cada lado. Eu também podia dizer que é a mulher quem transporta dentro de si o milagre da VIDA e que, por isso, devia ser superior! Mas não digo, porque também não faz sentido nenhum!
                
Daí evoluímos para algo que eu tinha dito anteriormente. Ele tinha-me perguntado se eu preferia Marrocos ou o Saara Ocidental, e eu tinha dito que tinha acabado de chegar ao Saara, e não podia responder com exactidão. Mas, ainda assim, disse-lhe o que me agradava por estes lados, e o que me desagradava, e o que me desagradava, e desagrada, está relacionado com o argumento no Corão sobre o testemunho da mulher valer menos, de certa forma.
                
- Uma coisa que eu não curto aqui é a diferença entre o homem e a mulher. Vais a qualquer café e é só homens! Não vês mulher nenhuma! – disse.
- Mas elas podem ir!
- Será que podem? Quer dizer, eu imagino que não é ilegal... mas isso não quer dizer que possam, no outro sentido da palavra. Como é que era se uma mulher fosse a um café sozinha e estivesse lá a fumar um cigarro?
                
- Ah, o pessoal ia falar... não era bom – exacto! E aqui está uma das razões pelas quais é bom viajar! Eu sei que sou muito crítico em relação à nossa sociedade ocidental, e várias vezes a comparo com estes sítios e a deixo numa luz fraquinha. Mas isso é porque eu almejo a melhor sociedade possível, onde primam a igualdade e o amor, a frontalidade e o respeito, a. E por isso, apesar de não ser nenhum revoltado, continuo a reparar nas coisas que estão mal nos nossos mundos, e talvez falando disso, e sendo eu a pessoa que acho que deveria ser, talvez esteja a fazer a minha pequena parte para melhorar. Ora, com esta cena em particular, da desigualdade que vejo entre homens e mulheres por aqui, digo que é essa uma das boas razões pelas quais devemos viajar, porque quando vemos algo melhor noutros lugares podemos tentar trazer essa qualidade para o nosso lugar, e quando vemos algo pior, apesar de, na grande parte das vezes, infelizmente, não ser o nosso papel tentar mudar, podemos, no mínimo, apreciar o bom que temos. Tenho pensado um bocado nisto... A nossa sociedade está longe de perfeita... as mulheres ganham menos que os homens para os mesmos cargos, há mais homens que mulheres em cargos de maior responsabilidade, os homossexuais não podem adoptar uma criança, o capitalismo, no seu esforço de ver as pessoas como números esquece-se da humanidade de cada um e a corrupção, tanto activa como passiva, é comum. Contudo, há vários campos em que estamos cada vez melhores. Eu acho que devia mudar tudo de uma vez, mas há muitos que dizem que não podem ser. Assim sendo, apesar de não ser de uma vez, as cenas vão mudando. Iá, as mulheres não são tão respeitadas, de certas formas, quanto os homens, mas há vinte anos era pior, e há quarenta o marido dava umas por fora e quem levava nas trombas era a outra! Iá, os homossexuais ainda não podem experienciar a maravilha que deve ser a paternidade, mas há alguns anos era perseguidos e ostracizados! Acho importante dizer que eu acho, mesmo, que devia mudar tudo de uma vez, e tudo o que ainda não alcançamos é vergonhoso e resultado de mentes atrasadas e de cimento que custam a felicidade de muita gente. Ilustro apenas estes pontos de uma luz mais positiva pois estou comparando com o que vejo noutros países e com o que se passava há muitos anos.

O Bakkar tinha dito que eu tinha de ir a casa de um amigo dele ver mais uns vídeos sobre o Saara Ocidental, eventualmente. Estávamos em casa do Sharon quando ele disse para irmos, mas o seu amigo não nos deixava sair. Estava na palhaçada a enrolar um turbante à volta da cabeça, com óculos escuros, ficando a parecer aquela imagem que temos de um terrorista, e quando nos tentávamos levantar ele dizia para ficarmos. Estávamos lá uns dez ou onze. “O Eduardo”, um espanhol que o Bakkar tinha albergado, “disse que este era o grupo de amigos mais maluco que ele tinha conhecido”, disse o Bakkar. É verdade que o pessoal era boa onda e bem disposto, mas não consegui deixar de pensar que o Eduardo, ou era um courista, ou não tinha conhecido muita gente. Atravessou-me assim de repente a mente as festas que tinha em minha casa, em Birmingham quando quase tudo, quase, quase tudo, era possível...
- Vamos lá amanhã! – pedi ao Bakkar.

- Não, vamos hoje! – respondeu o rapaz. E lá fomos. E o méne não tinha os vídeos... Estivémos lá um bocado, bebemos um chá, e bazámos, voltaríamos no dia seguinte, para o que seria uma tarde intensa. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

até Laayoune

Em Tarfaya passei a tarde do segundo dia no café. Troquei umas palavras no facebook com o Santana e contei-lhe dos meus problemas com os furos. “Deves ter algum espeto no pneu”, disse logo, “Vira o pneu do avesso e vê”. Achei que não devia de ser isso, porque já me tinham dito para limpar o pneu, a câmara de ar e a fita da roda, e assim o tinha feito com precisão, e nada. Contudo, a meio da tarde fui ver a miúda, e pensei em, em vez de passar um pano por dentro do pneu como no outro dia, passei o dedo. E eis que apareceu o espeto! E determinado! Tanto que precisei de uma pinça para o arrancar. Pois quando me tinham dito que eu devia ter alguma cena na roda, achei que fosse tipo umas pedritas ou cenas assim que depois com o peso fizessem furo. Nada disso. Senti-me em parte aliviado por ter resolvido o problema, e em parte meio estúpido por não ter pensado logo nisso. Às vezes não dá...


Bazei de Tarfaya em direcção a Laayoune, onde me esperava o Bakkar, a quem tinha enviado um pedido através do Couchsurfing, e que me ligara no mesmo dia. Entreguei o meu passaporte à entrada da cidade à polícia, e estava num país novo! O Saara Ocidental! Não fazia ideia do quanto este território quer e precisa ser um país independente até concluir a minha estadia na sua capital.
                
Estacionei a bicicleta à frente de uma oficina de bicicletas e enviei mensagem ao Bakkar, enquanto comia um rolo de canela que comprara ao lado. Entretanto um senhor amigo do dono da oficina meteu conversa comigo em espanhol e fomos falando um bocado, até que o meu anfitrião apareceu, p’rai uma hora depois. O homem que estava comigo estava a ficar chateado, e queria falar ao telefone com o Bakkar e tudo, algo que eu, delicadamente, recusava. Afinal de contas o gajo ia albergar-me, não queria estar ali a dar-lhe tripe por estar a demorar...
               
- O meu amigo é muito nervoso... – dizia o Bakkar, sentado à minha direita, no jipe do Ettaleb, onde a Mónica acompanhava, atrás. (Não resisti a dar um nome à Bicicleta. Estava a pedalar, olhei para ela, e de repente surgiu-me... Mónica!) E, na verdade, não passou muito tempo até o Nervous Guy, como lhe chamámos, tripar bués por o Bakkar estar a curvar-se um pouco para falar comigo e estar a tapar o retrovisor. Todo nervoso, a falar mal e a empurrá-lo com a mão direita. Descurti logo a cena.
                
Em casa do Bakkar tomei banho e quando mudei de roupa saímos. O sol já se tinha posto e esperáva-nos lá fora outro amigo do meu anfitrião, com o seu Fiat Punto de matrícula italiana. Entrámos e andámos a fazer nada p’rai duas horas. Conduzíamos para trás e para a frente, devagar, depois parávamos, o amigo do Bakkar ia Numseionde, andávamos mais um bocado, parávamos, caminhávamos um pedaço pelo mercado, voltávamos ao carro, parávamos para comer umas postas de peixe, e assim sucessivamente. Curti a cena, e achei engraçado como eu nunca fazia ideia do que se estava a passar, para onde íamos, durante quanto tempo. O Bakkar ia cumprimentando pessoas sempre um pouco por todo o lado, e ia-me falando da causa sarauí. Entretanto o amigo dele bazou e ficámos na loja de peixe do meu anfitrião. O Bakkar não tem nenhum emprego em particular, mas tinha p’rai três ou quatro. Vendia meteoritos que encontrava no deserto, às vezes por largas centenas de euros, tinha uma loja de peixe que às vezes abria, outras não abria, recebia algum dinheiro de rendas e também fazia negócio com carros comprados na Europa e vendidos lá.
                
Na loja de peixe mostrou-me alguns vídeos da violência ocorrida numa manifestação para um Saara Ocidental livre, dois dias dantes. Via-se manifestantes, poucos deles, no meio da rua, com uns cartazes e o sinal de V nas mãos, e a polícia a investir de forma brutal. Pancadaria para cima deles. Como o assunto era tão novo para mim, custava-me perceber um pouco a potência daquilo. Por ignorância minha, a primeira vez que tinha ouvido falar de um movimento e vontade de independência daquela parte do mundo tinha sido poucos anos antes através de um amigo, e muito ao de leve. Na verdade, não sabia nada. E, ao mesmo tempo, ouvir o Bakkar deixava-me renitente em assimilar aquilo tudo. Isto porque sentia algum ódio do Bakkar em relação aos marroquinos, e questionava se isso não toldaria o julgamento do que realmente se passava. Ou será que esse ódio era uma consequência do que se passava? Viria a descobrir, de certa forma.
              
- Os marroquinos são estúpidos!
- Não podes dizer isso, pá... Os marroquinos não são todos estúpidos, não podes generalizar assim!
- Okay, okay... eu percebo... Os marroquinos são estúpidos no que toca ao Saara Ocidental – lá amenizou. Lembrei-me de imediato da breve conversa que tivera com o amigo do Abdul, que tinha dito que o Saara Ocidental era de Marrocos... porque sim, e porque os sarauís não se sabiam governar, um argumento tão profundo quanto um prato.
                
Ia aparecendo pessoal na loja do Bakkar, e eu curtia aquilo. Havia ali um sentimento de coesão, de bairro e, no fundo, sarauí. Laayoune tem, disseram-me, dez marroquinos para cada sarauí, mas acho que, por andar com quem andava, não conheci muitos.
- Não tens amigos marroquinos? – perguntei.
- Lembras-te daquele gajo que me veio cumprimentar depois de irmos ver as corvinas? – perguntou, referindo-se a quando chegara um homem, abrira as portas da carrinha e logo se juntou uma multidão à volta dos enormes peixes – Era marroquino. E, mais uma ou duas vezes acho que falou com um marroquino na minha presença, fazendo sempre questão de mo dizer a seguir de onde essa pessoa era.
                
Sinto-me um bocado insensível ou até superficial ao admitir que às vezes me fartava um bocado aquela conversa do Saara Ocidental. Quase que me lembrava o vegano que conheci na Tailândia que fazia questão de me mostrar os vídeos de como os animais eram mal-tratados. A verdade é que todo esse celeuma colidia um bocado com o meu despeito pela noção de nacionalismo. Mas esse é o pensamento-reflexo, que deve ser travado. Às vezes temos ideias, ou noções, que sabemos estarem certas, ou assim o achamos, e depois quando aparece algo que vai um bocado contra essa cena custa-nos encontrar empatia e temos logo um instinto de negar. Vale a pena parar um bocado e pensar. Neste caso, por exemplo... Eu acho que o nacionalismo é mais uma cena que existe para nos separar enquanto humanos, ao invés de nos unir. Eu adoro que haja diferentes culturas no mundo, mas não pode ser uma linha criada pelo homem a dizer que este é melhor que aquele e deve ser separado. Ainda para mais quando somos todos um pouco de todo o lado. Para evitar cenas, acho que uma pessoa é de onde se sente, ou onde viveu a maior parte da sua VIDA. Acho que não tem nada a ver com ascendência, porque se assim for, que se encontre a pessoa cujos antepassados são todos do mesmo país. Não tenho dúvidas de que não há... porque o Homem não surgiu em vários sítios no mundo ao mesmo tempo. Sei que isto pode ser interpretado de várias formas, mas acho uma boa filosofia para nos termos a todos enquanto irmãos.
                
Mas também é certo que estas minhas ideias vêm de alguém que vive num país que fala a sua própria língua, que é antigo, muito antigo, e que foi ocupado pela última vez há muito, muito tempo. Nem eu nem os meus antepassados que conheço viram o seu país a ser oferecido a outro a troco de interesses, como foi o Saara oferecido pela Espanha a Marrocos em 1975.

Da loja de peixe fomos para outra casa do Bakkar, onde vivia mais ou menos, sendo que, ora dormia lá, ora dormia onde deixara a bicicleta. Dois dos últimos amigos do Bakkar, o Bashir e o Sidahmed, conhecido por Sharon, ficaram connosco para a noite e fomos para casa. O Bashir, vim a perceber, era o homem do cobertor. Mal chegámos, enrolou-se num, enrolou um charro e lá ficou na sua, a ouvir o resto do pessoal conversar. Na noite seguinte fui com o meu anfitrião ter a casa de uns amigos dele, e lá estava o Bashir com o seu cobertor. Mudámos de divisão por causa do fumo de um carvão para chá mal calculado, e ele levou o cobertor. Fomos para casa de outro méne a seguir, e ele não levou o cobertor, mas quando dei por ela lá estava ele! Assim, passámos esse serão a beber chá, leite a resvalar para o iogurte misturada com água e açucar e pão, que molhávamos em azeite. Tive pena de eu e o Sharon não partilharmos nenhuma língua, porque parecia ser um gajo muito porreiro, dado e engraçado. Aliás... às vezes, quando conheço alguém em circunstâncias imprevistas e essa pessoa, contrariamente ao esperado, fala uma língua que eu falo, penso nas experiências, e nas pessoas que estou a perder por não falar... todas as línguas que existem. Estou certo que no futuro haverá um daqueles peixes de Babel como no Guia do Boleiante Pela Galáxia e nos possamos todos entender. E não tenho reservas nenhumas pseudo-puras de dizer que esse tipo de tecnologia retiraria a genuinidade às coisas. Quão incrível seria se, quando aquele pastor de um braço me convidou a mim e ao Joel para casa dele, eu pudesse tirar um aparelho daqueles do bolso, entregar-lhe, e nós podermos falar? É certo que às vezes não é preciso, e basta apreciar o momento e o silêncio... mas preferia que isso fosse uma opção.