terça-feira, 20 de setembro de 2011

Lijiang e Shangri-La



Chegámos a Lijiang dia vinte. O casal foi fixe, levou-nos até ao centro, e depois andou lá às voltas connosco à procura do nosso hotel até que começou a ser demasiado tempo e eu e o Ilia agradecemos e dissemos que tínhamos encontrado a nossa estadia. Eles foram à sua VIDA e nós andámos às voltas à procura de um sítio barato, e a Mama Naxi (que tinha visto no Lonely Planet) se possível. Parecia que cada cidade era mais cara que a anterior. Eventualmente passámos pelo Stone The Crow, um bar onde entrámos para pedir ajuda. O Ross, um galês calmo e simpático levou-nos à Mama Naxi, onde havia um quarto à nossa espera por cerca de três euros e meio cada um.
               
Curti aquele hostel. O quarto era razoável e a internet muito fraquinha, mas havia boa onda ali. Bons viajantes, e um staff muito porreiro, especialmente a própria Mama Naxi, que de vez em quando andava a distribuir beringelas em pão ralado ou bananas. Antes de bazarmos deu-nos também um fio para p;or ao pescoço com um saquinho de bom cheiro. “Para dar boa sorte”, disse, como que adivinhando que íamos precisar de sorte à boleia.
               
Sobre os “bons viajantes”, comentava ontem com o Ilia que os turistas na China são muito diferentes daqueles no sudeste asiático. São mais viajantes do que turistas, de acordo aqui com o meu dicionário. Para começar, há muito menos ingleses. Depois, não há aquela chavalada toda a dar estrondo e, acima de tudo o que mais me irrita, a queixar-se de tudo – porque isto é lento, ou aquilo está sujo, ou aquela cena não faz sentido. Enfim, essas cenas todas que se ouve no sudeste em qualquer viagem de autocarro.
               
Demos uma volta pela parte velha, tudo o que me parece valer a pena conhecer em Lijiang. É fixe, talvez mais fixe do que Dali, mas também cheio de turistas. Mas, também tal como em Dali, a grande maioria dos turistas são chineses. A parte velha ainda é bastante grande, e é super fácil perder-se por aquelas ruas de calçada ladeadas por lojas de esculturas de madeira, lojas de vinis com o staff a cantar e tocar djambé, ou os inúmeros restaurantes.
               
Voltámos para fazer uma cena qualquer ao hostel, e estávamos sentados cá fora à espera não sei de quê, quando ouço “Dud!e”>. Quem era? O Nick, australiano, que tinha conhecido em Bangkok mais de dois meses antes. Que cena. Encontro no Laos um casal que conheci no Paquistão, e encontro na China um méne que conheci na Tailândia. Após o nosso primeiro momento de estupefacção a malta apresentou-se. Ele estava a viajar com o Philippe, franco-canadiano, a Tanya, australiana de origem asiática, o Tim, holandês, e o Ian, americano. Um grupo muito porreiro. Eu e o Ilia íamos jantar ali ao lado, então combinámos encontrarmo-nos logo. Eles queriam jogar Power Play, um jogoinventado pelo Nick e o Tim e que envolve um bilhar mas que não se pode dizer que é um snooker convencional.  Fomos comer ao meu restaurante preferido, com umas Dan Dan Noodles que curti tanto que comi três ou quatro vezes, a malta apareceu, juntamo-nos a eles e demos uma volta pela cidade. Tanto quanto conseguimos, sendo que aquilo estava apinhado como o metro em hora de ponta em Kuala Lumpur quando fui roubado.
               
Posto isto, seguimos para o Stone The Crow. O Power Play envolve beber cerveja, e a cerveja lá era um bocado cara. Mas com um “contracto” para beberem um número razoável, conseguimos baixar o preço cinquanta por cento. Então qual é a cena do Power Play? Prometi que ia partilhar as regra do jogo, por isso aí segue.
               
Para já, é um jogo que só visto mesmo é que se percebe a intensidade da cena. Mas vou tentar explicar duma forma concisa. Duas equipas de dois elementos (digamos, numa equipa os elementos são A e B, e noutra X e Y), um taco por equipa. Uma mesa ao lado do bilhar com as cervejas dos elementos. Se não der para estar ao lado, então que estejam duas (de elementos da mesma equipa) numa mesa numa ponta, e outras duas (dos outros dois) noutra ponta. Ao abrir o jogo, as bolas nunca podem estar organizadas no triângulo convencional – que seja um quadrado, um triângulo de lado, ou outra cena qualquer. Basicamente seguem-se as regras normais do snooker, mas após as bolas pararem de rolar, a próxima pessoa só tem três segundos para jogar (toda a gente conta alto, mas não é obrigatório, claro). Geralmente quando a malta falha os três segundos falha p’rai por um segundo e acaba por jogar na mesma. Mas como demorou mais do que três segundos, vai a correr dar dois goles da sua cerveja, não sem antes passar o taco ao companheiro de equipa. Sempre a correr, porque o pessoal joga tão rápido que quando alguém tem de ir beber, muitas vezes quase já não chega a tempo para jogar sem violar a regra dos três segundos. Se o elemento A mete a branca fora, vai beber, e o elemento X põe a bola no sítio mais perto de onde saiu e continua a jogar, mas tendo duas tacadas por castigo para a outra equipa. Iá, não se saca. As penalidades são duas tacadas para a outra equipa. Outra cena é que mal se entra no bar, já se sabe quem vai buscar as cervejas e quem vai organizar o jogo, e quem vai abrir, de forma a que seja uma entrada de rompante. Bem, é mais ou menos isto. Eu não joguei por causa duns ferimentos nos dedos dos pés (é muito fácil ser calcado) mas é uma moca, muito fixe. Experimentem.
               
Essa noite foi fixe. Entretanto a malta bazou e eu fiquei até às quatro à conversa com uma norueguesa e um italiano. Tinha-me esquecido que o hostel fechava a porta à meia-noite, uma da manhã mais tardar. Por isso cheguei, ainda equacionei dormir à porta, mas bati um par de vezes e uma senhora com cara simpática deixou-me entrar. Cool.
               
No dia seguinte demos mais umas voltas pela cidade. Eram umas sete, e estávamos na descontra no quarto, quando conheci o oitavo português desta viagem. O Mário tinha acabado de chegar, estava a fazer o check-in quando o gajo do hostel, de acordo com o Mário visivelmente excitado, lhe disse que tinham outro português – o que era raro. Assim o Mário apareceu, e juntou-se a mim e ao Ilya nessa noite e nos quatro dias seguintes.
               
O Mário, gajo muito boa onda e conversador, calmo sem ser aborrecido, está a tirar um mestrado em Tóquio, e já lá vão dois ou três anos, o tempo suficiente para já dominar o japonês confortavelmente. Aos dezoito anos foi estudar escultura para a Itália, fez lá o curso todo, e depois disto apareceu uma bolsa do governo japoês, uma oportunidade que ele não deixou escapar. Já andou pelo sudeste asiáico também, noutras férias, e agora passava umas semanas na China. Era para ficar em Lijiang, mas acabou por decidir vir para Shangri-La connosco. Não literalmente, sendo que nós íamos boleiar e ele ia de autocarro, mas combinámos encontrarmo-nos lá p’rás seis no hostel.
               
Acordámos às sete e tal no dia segiunte e pusemo-nos a caminho. Não foi fácil, mas tambémnão foi difícil. A cena é que na China cada quilómetro parece que vale p’rai quatro ou cinco. E foi por isso que precisámos de oito boleias para fazer setenta quilómetros. Oito! E nem foi aquela cena de estar sempre a andar um bocadito e sair. Em alguns carros andámos um bom pedaço, mas por alguma razão, a nossa percepção não conseguiu discernir aquelas distâncias. Tínhamos chegado à vila do Tiger Leaping Gorge, um percurso de trekking que faríamos dois dias depois, quando começamos a equancionar apanhar um autocarro. Já eram quatro e tal e o caso estava mal parado. Até que apareceu uma família bué de fixe que nos levou direitinhos a Shangri La. E que cenários pessoal. Sempre montanha acima até estabilizarmos nos três mil e duzentos metros, parando de vez em quando para fotografias. Antes de vir para a China não sabia bem o que esperar. Ainda assim, o que tenho visto não tem nada a ver com qualquer ideia que tenha tido. Nessa viagem começei a apaixonar-me pela China. E foi interessante perceber a curta distância a que estávamos do Tibete. As pessoas vestiam-se de uma maneira completamente diferente dos outros sítios onde tínhamos estado e tinham trços diferentes também. Não tanto os traços, porque para mim às vezes é difícil perceber as diferenças entre etnias asiáticas, mas mais a tez da pele. Apesar de Shangri-La ser cada vez mais turístico, sentia que tinha ali um retrato da verdadeira China.
               
A família deixou-nos na parte velha, e estávamos a caminho do hostel onde combináramos encontramo-nos com o Mário, quando o vimos a acenar do Dragon Hostel. Fixe, ficámos lá. Um dormitório por três euros e meio. Mas era um hostel muito bacana, com uma sala para o relax muito fixe. O Mário tinha conhecido o Tom, e fomos jantar os quatro. O Tom é australiano, formou-se em ciências políticas mas está à espera agora da resposta de uma universidade de medicina para onde concorreu. É um gajo com mais de um metro e noventa, um vozeirão que mete medo, e um sentido de humor mordaz e inteligente. Gajo muito fixe, que curtia ver outra vez.
               
Depois de jantarmos e andarmos, em vão, à procura de um sítio com bilhar, voltámos para o hostel. Apostámos dez cêntimos cada um e jogámos Jenga durante quase duas horas. Foi um serão descontraído, ligeiro.
               
No dia seguinte andámos por Shangri-La. O Mário já tinha bazado (aparentemente esperou até às dez  e depois foi à sua VIDA – não tínhamos nada combinado). Despedimo-nos do Tom, que ia para Numseionde, e fomos dar uma volta, depois de almoçarmos num tasco muito porreiro e barato ali pertinho. Bem, porreiro p’ra mim, porque para o Ilya nem por isso. É que ele mostrou o seu papelinho onde está bem explicado, em chinês, que é vegetariano e que quer algo sem carne ou peixe, e ainda assim carne ele levou. Mas a senhora foi fixe e não o fez pagar. Ele não pagaria de qualquer maneira. E agora lembrei-me de um episódio em Lijiang que não foi muito fixe, e que acho que não contei. Certo dia fomos almoçar e eu, como de costume, apontei para uma comida com um preço porreiro à frente e pedi isso. Era algo que custava cinquenta cêntimos. Comi nas calmas, ia a pagar, e a mulher diz-me que era um euro. Eu aponto para o que pedi, e para o preço, e estendo-lhe os cinquenta. A mulher começa a fritar e começa aos gritos a apontar para a galinha. Eu, com uma calma que pelos vistos me é característica, tentei explicar que não pedi nada mais do que aquele prato por cinquenta, e que não ia pagar mais nada. Que faz ela? Faz-se à minha máquina fotográfica. Então estamos ali os dois, com as mãos na máquina, entrentato aparece também a filha e estão as duas entre a mesa e a parede a tapar-me a saída, e o Ilya atrás a tentar ajudar mas em saber bem o que fazer. Numa esticada consigo tirar a máquina, e tento sair, mas a mulher não me deixa sair. Agarra-me e só consigo passar mesmo à força com ela a agarrar-me a t-shirt. Um stresse dos mais estúpidos que tive. E nunca pagaria aquele preço, por mais irrisório que fosse, e por mais rico que eu fosse. Pois pagando ia estar a contribuir para aquela treta.
               
 De volta a Shangri-La. Primeiro andámos pela parte mais nova duas ou três horas, aquele caminhar sem destino. Chocou-me um bocado o mercado. Quem estiver na dúvida entre ser vegetariano ou não e vir um mercado daqueles muda na hora. Dizer que metia nojo a maneira como tratavam a carne é algo que fica aquém...
               
Foi fixe andar pela cidade, ainda que por sítios nem por isso muito interessantes como é a parte nova, e não ver estranjeirada em todo o lado como no sudeste asiático. A dada altura começamos a ficar cansados, e fomos ao hostel fazer uma pausa. Lá encontrámos o Mário e passado um pedaço continuámos, desta feita pela parte velha. Acho que gosto mais de Shangri La do que Dali e Lijiang. É mais esotérico, ali nas montanhas, com aqueles chineses de outra etnia, as vestimentas rústicas... o Tibete tão perto.
               
Quando já estávamos cansados para andar mas ainda era cedo para ir jantar, fomos jogar bilhar. Fomos a um sítio que tínhamos encontrado na noite anterior, jogámos uma horita (ganhei vinte cêntimos) efomos jantar. Quando voltámos ao hostel, a malta estava a ver um filme na sala de estar. Juntámo-nos ao pessoal.

No dia segiunte, Tiger Leaping Gorge.

dez e cinquenta e três-d-vinte e oitro de agosto de dois mil e onze
algures entre Numseionde e Emeishan



domingo, 18 de setembro de 2011

Kunming II e Dali



O Neri é um personagem interessante. É de Florença, está na China há três anos, fala bem chinês e o seu domínio da escrita não é nada mau. E note-se que, apesar de já ter visto caracteres chineses no passado, nunca tinha realmente prestado atenção para o quão complicados são. É uma loucura mesmo.
               
-Já te sentiste perdido, Pedro – perguntou-me na segunda noite, os olhos fixos no computador. Felizmente acho que nunca me encontrei nessa situação, ainda que a perceba perfeitamente. Se bem que é preciso passar por algumas cenas para as perceber. Ao longo da minha curta VIDA, já me senti preso, ansioso devido às circunst;ancias que vivia, mas acho que nunca me senti perdido. Quando me comprometi a ficar dois anos na Inglaterra, por vezes sentia-me preso. Tinha-me comprometido apenas verbalmente, e podia bazar a qualquer altura, mas não faz o meu estilo acobardar-me e procurar o conforto imediato. É daqueles paradoxos. Acho que devemos manter a nossa palavra. Também acho que devemos fazer aquilo que nos faz felizes. E por vezes a minha felicidade se calhar passava por dar o meu período inglês como esgotado e partir para outra. Mas nunca estive infeliz de estar ali. Acho que era aquele lado mais mimado, que quer o conforto imediato, a falar. Fiquei, cumpri, e hoje estou feliz com isso.
               
E serve isto tudo para dizer que, apesar de tudo, e até ver, sempre soube mais ou menos o que queria, e como a alcançar. E por isso nunca me senti assim perdido. Aguarda-me agora uma grande indefinição em Portugal. Tenho ideias, planos, cenas para fazer e algum dinheiro para não ter de depender de outras pessoas por um par de anos. Mas ao mesmo tempo, não faço ideia o que vai ser de mim em termos profissionais. Mas estou pronto para isso. Seja o que for, que venha. Uma coisa é certa, não me vou entregar à depressão de estar em casa a comer batatas fritas à procura de um emprego. Vou dedicar-me às minhas ideias, escrever, planear, viver de uma forma que não me faça sentir como se estivesse a morrer por dentro. E depois vê-se. Até vejo com bons olhos um retorno, após quase quatro anos fora. Meio ano na Noruega, dois anos e um mês na Inglaterra, nove meses em viagem, três meses em Portugal aí pelo meio. Talvez me vá sentir um bocado asfixiado passado algum tempo, mas se assim for, farei algo para lidar com isso.
               
Apesar de tudo isto, respondi de uma forma mais abrangente ao Neri. Da maneira como ele perguntou deu a entender que ele se sentia perdido. E por isso não quis dizer “não, pá, és só tu”. Não sei se foi o psicólogo em mim, mas não queria aprofundar qualquer sentimento que pudesse ter acerca de se sentir perdido, por fazê-lo sentir que isso era exclusivo a si. Porque não é. Quando lhe perguntei o porquê da questão, ele disse “that’s all that can be said”, enigmaticamente.
               
É um gajo calmo, muito porreiro e prestável, mas que me parece um bocado triste. Às vezes acho as pessoas como ele um bocado aborrecidas, mas com o Neri é uma cena diferente. Das pessoas que fala disto e daquilo, mas que não se abre muito – daí a minha surpresa com a sua questão acerca de se sentir perdido. Foi um anfitrião porreiro, que não tem problemas em albergar três ou quatro pessoas de uma vez. Cozinhou para nós e não nos deixou lavar a louça.
               
No segundo dia de Kunming andei com o Ilias pela cidade. Deixamo-nos ir, caminhámos p’rai quinze quilómetros. Curto o gajo. É muito expressivo, daquelas pessoas que se exprime mais por caretas e onomatopeias do que por frases. Tem trinta anos e já anda a viajar há mais de três anos. Ou semi-viajar, sendo que viveu na Índia três anos, e vai voltar para lá. Alugou uma casa com um amigo em Goa, depois arrendou dois quartos que pagam a renda da casa toda, e se alguém quiser dormir numa tenda no telhado não paga nada.
               
Já passámos alguns dias juntos, e tem sido fixe, tranquilo. Sem querer etiquetar, o Ilias deixou de beber há meio ano, porque nos últimos cinco anos bebia quase todos os dias. E por isso mesmo, porque é a cortiré que gasto mais dinheiro, estou na China há cinco dias e ainda me sobra dinheiro dos trinta euros que trouxe do Laos. Fixe. Tirou um curso relacionado com tecnologias de informação e economia, trabalhou alguns anos em Moscovo, a sua terra-natal, num escritório, até que se despediu, acabou com a namorada de dez anos, e bazou.
               
-Mas gostava de encontrar um sítio onde pudesse chamar “casa” - confessou. – Passado algum tempo começar a apetecer. Tem também um pequeno apartamento nos arredores de Moscovo que arrenda por seiscentos euros, e isso ajuda muito. Seiscentos euros por um pequeno apartamento nos arredores de uma cidade onde os salários auferidos, apesar de superiores aos do resto do país, são ainda assim baixos. Incrível. Mas já sabia que Moscovo é uma das cidades mais caras do mundo.

O Neri tinha-nos ajudado a desenhar umas letras num cartão a dizer “Por favor dê-nos boleia” e também escreveu no meu caderno a mensagem do costume: Sou da Europa e estou numa longa viagem pela Ásia, e por isso não tenho muito dinheiro para andar sempre de autocarro. Vou para XXX. Se for nesta direcção, pode levar-me e deixar-me a caminho? Obrigado”. Assim, no dia dezoito, acordámos às seis da manhã, e pusemo-nos a caminho para o que seria a minha primeira experiência boleiante chinesa.
               
Tinha visto no google maps onde apanhar o autocarro que nos deixaria perto da autoestrada. Caminhámos quase uma hora, apanhámos o autocarro, e percebi logo que algo ia mal, porque não estava a ir pelo percurso que o google maps mentiroso tinha dito. Deixou-nos numa vila qualquer, uma hora depois. Mas eu tinha visto um sinal a dizer o nome de uma cidade qualquer que ficava a caminho de Dali, o nosso destino. Pusemo-nos a caminho, e íamos mostrando o sinal, sem grande convicção. E duas raparigas apanharam-nos. Deixaram-nos num cruzamento, caminhámos mais um pedaço e chegámos a uma via rápida. Aí um senhor apanhou-nos e levou-nos dez minutos, mas já estávamos dentro da autoestrada. Uma cena diferente aqui é que a malta lê o sinal e depois diz que não vai para onde eu quero ir. Tenho sempre de insistir, e dizer “só um bocadinho”, com o polegar e o indicador juntos. Não sei se não se dão ao trabalho de ler a última linha onde digo que basta irem nessa direcção, se o sinal está mal escrito, ou o que é...
               
Depois deste senhor, apareceram dois rapazes passado p’rai dez minutos de espera. Não estavam muito p’raí virados, mas um gajo tem de aproveitar os momentos de indecisão e reflexão, sorrir, dizer obrigado, e suavemente pegar na mochila preparado para entrar. Estes deixaram-nos na maior espera. Estávamos numa das entradas para a autoestrada, mas passava muito pouco carro. De vez em quando paravam, mas liam o sinal e bazavam. Esperámos p’rai hora e meia, mas valeu a pena. Tamb+em tive de insistir um bocado, mas lá nos levaram, e ficámos a quarenta quilómetros do destino. Aqui, mal saímos do carro, entrámos logo noutro. Deixou-nos em Dali, apanhámos uma tuk-tuk que supostamente nos levaria para a parte velha, mas que andou um pedaço e nos deixou à beira do autocarro. ‘Tá-se bem, fomos meio enganados, mas como não partilhávamos nenhuma língua não dava para protestar muito bem. Apanhámos um autocarro e estávamos na parte velha em meia hora.
               
Dali já é daqueles sítios que um gajo curte. Não tem prédios. Mas tem turistas. E quantos! É uma cidade velha protegida a toda à volta por uma muralha com uma pomposa, bela e muito chinesa entrada em cada quadrante. Em algumas ruas tem um ribeirinho que em alguns sítios parece um mini-canal. É uma vila agradável onde não se vêem muitos estrangeiros, mas para onde, pelo menos nesta altura, parece que toda a China se desloca.
               
Quando chegámos estivemos um pedaço na descontra no quarto e depois fomos dar uma volta. Ficámos num quarto duplo por sete euros para os dois. Conseguimos baixar um bocadinho, de oito. Mas era porreiro, tinha água de graça e umas pinturas bacanas nas paredes. Andámos pela cidade, jantámos, andámos mais um pedaço até não fazermos ideia onde estávamos e voltámos p’ró quarto lá p’rás dez e tal.
               
No dia seguinte acordámos tarducho. Alugamos uma bicicleta para cada, pedalámos até ao lago, almoçámos num tasco, e fomos descobrir as redondezas do décimo sétimo maior lago de água doce da China. Curti muito. Fomos andando sempre o mais próximo possível do lago, por estraditas de terra, uma ou outra de alcatrão, pelo meio de campos, escada acima escada abaixo; passámos por um sem número de pequenas aldeias, onde notei nitidamente que os chineses eram mais simpáticos, respondendo quase sempre ao meu “niáo”.
               
“Puff, fíííííí”, ouvi. Pela primeira vez na minha VIDA rebentara-se-me um pneu. E estava bué de longe de Dali. Já me estava a ver a caminahar duas ou três horas. Mas felizmente havia ali uma oficina a trinta metros. Grande timing, sorte dentro do azar. O gajo mudou-me aquilo, perdeu ali p’rai meia hora e levou-me cerca de cinquenta cêntimos.
               
Pedalámos até encontrarmos a estrada principal e, já cansados, voltámos para trás. Estávamos a dez quilómetros de Dali. Mas tinha sido mais custoso do que parece, porque tínhamos feito essa dist;ancia por caminhos deveras turtuosos. Descansámos uma hora e tal no quarto, o suficiente para eu ler tudo acerca da vergonha do Mourinho. Incrível como é possível ser tão estúpido. Para quem gosta de se orgulhar dos feitos de outros tugas deve estar a começar a sentir-se um bocado embaraçado com estas atitudes. Disse o meu querido Artur Agostinho uma vez numa entrevista à RTP, poucos meses antes de morrer: “Irrita-me quem não sabe ganhar. Mais do que quem não sabe perder, irrita-me quem não sabe ganhar.”. Este gajo, cujo valor táctico reconheço, nunca soube nem ganhar nem perder. Nunca soube ganhar por manter aquela arrog;ancia à qual o pessoal (eu incluido(( às vezes até acha piada, não sabe ganhar pela maneira como (não(( festejou a Liga dos Campe:oes pelo Porto (e não me batam couros de Pintos da Costa e não sei quê((, pela maneira como após ganhar a Liga dos Campe:oes pelo Inter diz logo, ainda se bebia champanhe, que queria ser o primeiro a ganhar a Liga com três equipas diferentes. E perder. Nunca soube, mas aí não tem estilo nenhum, parece um puto. “A Supertaça de Espanha não é um troféu importante”. Peço desculpa, sei que isto é tudo menos um blog desportivo.
               
Descansados, fomos dar uma volta, conhecer o resto da vila que nos escapara no dia seguinte. Iá, curti, mas não é daqueles sítios de tirar a respiração. Encotrámos um sítio fixe para comer, comemos, bebemos um chá à conversa, e voltámos para o quarto.

Hoje acordámos, caminhámos até à estrada, apanhámos uma mini-boleia em meia hora. Depois outra de meia hora, e finalmente a tercira, de onde agora escrevo, que acho que nos vai levar direitnhos até Lijiang. Fixe.

vinte de agosto de dois mil e onze, catorze e vinte e dois
algures entre Dali e Lijiang

as fotos ficaram tortas, mas agora nao posso corrigir isso. desculpem... inclinem a cabeca







sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Kunming


o meu teclado flipou um bocado. entretanto arranjei um sistema de o corrigir, mas este texto nao foi corrigido. mas nah ha crise.

Dia quinze acordei... ahaha, esquece, não acordei nada, porque não dormi. Com a cagufa de não conseguir acordar (sendo que não tinha despertador((, fiquei acordado toda a noite, a ver a minha série-metadona (sou um bocado viciado em séries, e quando não consigo as minhas mata-se o vício com outras que noutras circunst;ancias nunca veria((, a escrever, corrigir e ordenar fotografias e vídeos, pesquisar cenas na net. E essas cenas todas.
               
Quando me arranjei, saí lá p’ra fora, onde me sentei à espera. Via os monges budistas ao fundo da rua na sua rotina matinal de ir buscar a comida a quem a oferece. Não é o mesmo que esmola, e o que eles fazem não é pedir. A primeira vez que vi foi na Tail;andia. E o que mais me interessou foi, não só a prontidão, mas também a preparação da malta em dar. Isto é, os monges não aparecem e o pessoal vai tipo “hei, ok, já que queres comida, toma lá” - ao invés, o pessoal muitas vezes já os espera e tem uma banquinha com a comida.
               
Tive uma conversa interessante com a Sofia em Bangkok, que não sei se cheguei a partilhar aqui. Vendo a chavalada vestida de laranja, a Sofia questionou a eventual escolha, ou a falta da mesma, daquele estilo de VIDA. Eles vão para o mosteiro quando são jovens, não escolhem ir, não escolhem ter aquele estilo de VIDA. É justo? É, acho que sim. É que, em primeiro ligar, ser budista não é algo horrível e que cabe aos desafortunados, malucos ou inadaptados à procura de uma escapatória fácil. Um budista é alguém que, à partida, se foca em existir, primordialmente. Tem como prioridades a consciência da existência de uma forma que não haja como muitos de nós, roboticamente; e levar uma VIDA que não implique o sofrimento de outros seres para que a felicidade seja alcançada. É um milhão de vezes mais profundo que isto, mas só quero elucidar o que está por detrás de algo que em Portugal não entendemos. Lembro-me de ser puto e um filho de um amigo do meu pai tornou-se Hare Krishna. Apesar de nunca ter conhecido o méne, lembro-me de, na minha inocente ignor;ancia, pensar quase como se o gajo tivesse morrido. Tipo “hei coitado, porque é que será que enveredou por um caminho assim?”>. Concerteza na altura não sabia usar palavras como enveredar, mas de todo o modo, acho que reflecti um bocado a mentalidade que temos para alguém que segue por caminhos diferentes. Eu era um puto, e apesar de me gabar de sempre ter tido uma mente própria, nessa altura era tão novo que acho que reflectia apenas algumas características da nossa sociedade e cultura que nos são impostas.
               
Agora se é justo que os putos não possam escolher ir, ou não, quando novos, para uma escola budista... Pensemos assim... É justo que não tenhamos tido escolha nenhuma em levar um estilo de VIDA muitas vezes marcado pelo consumismo, pela inevetável associação a dinheiro e felicidade, por uma dieta que implica a morte ou abuso de milh:oes de animais e do esgotamento dos recursos naturais da terra, que vivamos numa constante competição uns com os outros pelo melhor carro, casa ou hábitos? Não, não é lá muito justo.

Enquanto observava a chavalada apareceu uma senhora a vender arroz. Só isso, arroz. Se calhar por causa do sono, só negociei um bocadito e comprei p’rai um quilo por quase um euro. Comi quase tudo. É que o arroz no Laos é fixe. Chama-se sticky rice, que em português seria algo como “arroz pegajoso”. Eu sei, é um termo que não agrada muito. Mas basicamente são nacos de arroz que um gajo come sem problemas com a mão. Pode amassar e fazer uma bola e morfar aquilo. Curto.
               
Chegou o tuk-tuk e levou-me p’rá estação, onde esperei quase uma hora pelo autocarro. Ui como me deitei confortavelzinho naquilo. Não era tão pax-pix como os que apanhei no Vietname, mas tinha mais uns centímetrozinhos para as pernas que faziam toda a diferença. Ah, e em vez de um cobertor tinha um edredão. Excelente. Deitei-me embrulhei-me e dormi com qualidade de sono de cama, p’rai seis horas.
               
A fronteira do Laos para a China foi a mais sofisticada por onde passei. Qual preencher aqueles papéis com a nossa informação? Um gajo mete o passaporte na máquina e o papel sai já preenchido. Além disso um gajo pode avaliar o desempenho da pessoa que controla o nosso passaporte, carregando num botãozinho com uma escala em smiles. Fixe.
               
Entrámos na China, e passado um pedaço parámos uma hora numa vila qualquer. Nada a ver com o sudeste asiático, muito menos com o Laos. Parecia uma vila portuguesa, só que na China. Não curti. Jantei por cinquenta cêntimos e seguimos caminho.
               
Cheguei a Kunming, a minha primeira paragem chinesa, às cinco e tal da manhã. Viajar aqui não é tão fácil como noutros sítios. É que está tudo em chinês e é, para já, o pior país que visitei em termos da malta falar inglês. Perguntei a uns miudos para onde ia aquele autocarro, eles não me percebiam, mas apareceu outro méne que até falava inglês. Disse para entrar, e esse autocarro, que ele pagou, deixou-nos perto da estação de comboio. Eu sabia que autocarros tinha de apanhar até o meu destino, mas não sabia onde. O meu “amigo” perguntou a um homem que queria que eu pagasse para me levar à paragem. Ódio pelo oportunismo – check. Eu disse que não, mas o meu “amigo”, passado um bocado, deu-lhe uma nota qualquer, e lá fui com o cota. Comi qualquer coisa e apanhei o autocarro. Não estava, e não estou ainda, impressionado com a simpatia chinesa – não tenho visto muitos sorrisos, e muitas vezes o pessoal nem me ouve. Não falam inglês, ok, mas há outras maneiras de comunicar.
               
Pedi a um rapaz para me dizer quando era a minha parada, e quando ele assim o fez, saí. Estava onde o Neri, o meu anfitrião italiano, me tinha dito para o esperar. Tentei ligar-lhe mas o gajo não atendia. Quando mostrava o papel com o número, uma senhora reparou na morada, uma linha abaixo, e apontou p’ráli. Fui caminhando e perguntando, até que fui ter à porta. Bati e vi o Neri a abrir, surpreso. Achei piada àquilo, porque geralmente eu não sou nada bom em orientação, e tanto ele quanto a malta que lá estava ficaram bastante impressionados com eu ir ter direitinho ao apartamento. E fiquei a pensar nisso. É que sei que nós agimos de acordo com a estória que nos escrevemos. Algures ao longo do caminho, muitas vezes devido a acontecimentos aleatórios, decidimos que é assim que somos e não só nos entregamos às (aparentes(( evidências, como até temos algum orgulho em ser assim – tipo aquelas falhazinhas que achamos que precisamos de ter para ter mais personalidade e ser alguém mais singular. E desse dia até hoje, tenho prestado atenção, e tirando hoje que me enganei numa direcção por quarenta e cinco graus, tenho estado bastante bem. Vou mudar.
               
E quem é qiue estava no apartamento, quem? A Lena, outra vez. Acaba por ser curioso... Comunicámos primeiro no Camboja, mas não nos encontrámos porque ela andava dois dias À minha frente.. Encontrámo-nos depois no Vietname, em Hánoi. Depois outra vez em Vientiane, no Laos. Depois em Vang, Vieng, ainda no Laos. E na China, por acaso, estávamos a ser albergados pelo mesmo gajo!. O Neri estava a albergá-la e também ao Ilias, seu amigo e a Amy, uma canadiana de vinte e dois anos muito bacana. A Amy ia apanhar um avião na madrugada seguinte para Hong Kong, e a Lena e o Ilias iam apanhar o autocarro para Nanning. Deixei as cenas, e saí com eles, para ir comprar uns sapatos e dar uma volta pela cidade.
               
O Neri deixou-nos e fomos primeiro ao hostel onde a Amy tinha dormido na noite anterior. É que a miuda anda a viajar com o Tom, um chinês que estuda consigo no Canadá, mas tiveram uma tripe e ela bazou. A Amy está há dois meses na China e vai viajar dois anos. E o Tom veio com ela e volta ao Canadá brevemente. Aparentemente o rapaz é um bocado demasiado protector, e quando ao longo da sua viagem, eles econtraram outros viajantes com quem beberam uns copos e curtiram, ele ficou um bocado ciumento. “Eu nem te conheço!”, disse ele, a dada altura, chocado por ela gostar de passar um bom bocado. São daquelas diferenças...
               
Uma vez, em Birmingham, alberguei uma rapariga adorável, de Shanghai. A pessoa mais pura que já conheci. Demo-nos bem, ela curtiu os meus amigos, e acabou por se juntar à nossa trupe no Algarve, quando fomos todos passar dez dias no meu apartamento em Quarteira. Aos vinte e um anos a miuda era virgem, não sabia quem eram os Nirvana, uma banda que, goste-se ou desgoste-se, qualquer jovem conhece, não sabia o que era Martini e não sabia como funcionava um isqueiro. Incrível! Mas segundo ela, é normal na China. Acho que ela viu no nosso grupo uma lufada de ar fresco, e sem ser encorajada, permitiu-se experimentar isto e aquilo, num seio onde se sentia à vontade e protegida. E disse-nos que os amigos chineses ficariam fora de si se vissem o nosso estilo de VIDA. O meu pai já se deve estar a passar ao ler isto. Mas como disse, a rapariga queria experimentar, por exemplo, ficar alegre – eu não sou pai dela, tudo o que eu podia fazer era adverti-la para ter cuidado se era a primeira vez, para não tombar p’ró lado.
               
Talvez para se redimir, o Tom apareceu na esplanada do hostel com uma garrafa de vinho e amêndoas. Ficámos lá um bocado na descontra e depois fomos ver a cidade. Nada a apontar. Mesmo. Ora aí está um sítio onde nunca mais voltarei – Kunming. É uma cidade com prédios. Demos umas voltas, eu comprei umas sapatilhas por quatro euros, mais umas voltas, comemos, fomos ter com o Neri.
               
-Que fazer, que fazer? – disse o Ilias. O gajo tinha bom feeling. Batalha um bocado com o inglês, mas não o suficiente para impedir uma conversa.
-Pá vamos andando e vendo a cidade – respondi, ainda que a sua questão tivesse sido mais retórica.
-Não, não é isso... não sei se vou para Nanning ou fico mais um dia... – respondeu. Quando referi o facto de já ter comprado o bilhete, disse que não era assim tanto dinheiro que perdia.
-Além do mais... acho que ela [a Lena[[ já não está muito a fim de andar comigo...
-Porque é que dizes isso?
-É uma sensação.... não disse nada, mas é o que sinto... – eu disse-lhe que, se ele ficasse, eu ia daí a dois dias para Dali, e ele podia vir, se quisesse. Adverti-o que ia boleiar, e ele disse ok. E acabou por ficar. De certa forma, é como se lhe tivesse roubado o amigo.
               
Costumo dizer que sou uma puta emocional. Se não vou com a cara de alguém, essa pessoa pode falar comigo um minuto e chega para eu passar a gostar dela. Não posso dizer que morra de amores pela Lena, mas nesse dia aligeirou um bocado o que sentia. Mas continuo a achar que tem cenas que não curto, tipo uma pequena arrog;ancia e alguma estranheza. No dia seguinte, quando ia para o parque com o Ilias, perguntei-lhe que é que tinha sido aquela cena em Vang Vieng, quando passou por mim e não disse nada. Ele disse que quando passaram, ela disse que achava que era eu. Quando ele disse para irem confirmar, ela disse que não, para seguirem. Voltaram para trás após a insistência dele.
               
-Ela é meio estranha... – disse. Enfim, cenas. Sem import;ancia.

vinte de agosto de dois mil e onze-sábado-catorze e trinta e quatro
algures entre Dali e Lijiang

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Luang Prabang



No dia onze apanhei uma minivan de volta a Vientiane. Tinha ficado mais tempo do que tinha planeado em Vang Vieng, e agora só ia dar para ir a Luang Prabang. Sentia já de antemao que ia ter de voltar brevemente, pois o Laos é um país muito especial, com muito para oferecer, e sinto risquei apenas um bocadinho da superfície.
               
Quando cheguei à capital liguei ao Noy, que me veio buscar às seis e tal. Disse-me para dizer o mesmo a um espanhol chamado Firmin que estaria à espera no mesmo sítio que eu. Nao foi difícil perceber quem era o Firmin. É um miudo de dezoito anos de Almeria, calmo, porreiro, estuda biologia. Ficámos um bocado à conversa até que apareceu o Noy.
               
Quando chegámos a casa sentámo-nos à mesa a comer. Um pote ligado à corrente eléctrica e mandar peixe, especiarias e vegetais lá pra dentro. Curto. Curto a maneira de comer no Laos. E a comida era sublime. O Firmin batalhava um bocado, tanto com os pauzinhos chineses como com as especiarias. Já eu, à conta destas voltei a estar com a Manuela. É uma cena um bocado embaraçosa, mas que se lixe. A Manuela é uma hemorróida que eu conheci uma vez, algures numa queima das fitas qualquer em que tive a audácia de p;or tanto piri-piro no arroz que ficou cor-de-laranja. Nunca mais a tinha visto, mas nestes dias apareceu para dizer “olá”. Mas está tudo sob controlo, à data em que escrevo já está quase de partida.
               
Depois do jantar sentámo-nos fora de sua casa juntamente com o irmão do Noy, dois amigos e a sua irmã,  e estivemos umas horas no convivio.

No dia seguinte, a custo, acordei cedo para ir buscar o meu passaporte. O Noy levou-me até ao consulado, mas tinha de pagar em dolares. Ou seja, deixou-me no centro, tive de trocar dinheiro, alugar uma bicicleta e voltar. Andar de bicicleta com a Manuela – muito giro. Tão giro que fui de bicicleta sentado para lá, mas andei a pedalar em pé o resto do dia.
               
Já com o passaporte com o meu vistinho autorizado fui até casa. Não me estava a sentir muito bem. Tinha sono, a Manuela queixava-se da bicicleta e além disso tinha, e tenho ainda, duas feridas nos nozes dos dedos grandes dos pés que me provocavam uma dor lancinante ao caminhar. Sò hoje é que comecei a ver algum progresso.
               
Dormi um bocado, vi umas cenas na internet e bazei. Entretanto já tinha comprado o meu bilhete para Luang Prabang, uma viagem de dez horas que me ficou por cerca de treze euros. O Noy queria pagar, mas desta vez não aceitei. Antes de apanhar o autocarro, às sete, andei a ver mais um bocado da agradável, mas longe de espantosa, cidade de Vientiane.
               
Apanhei o autocarro às sete, se não me engano. Correu tudo fixe, até que às quatro da manhã paramos.
               
-Sabes porque é que parámos? – perguntou-me uma rapariga.
- Não sei... talvez uma pausa para um cigarro... – tentei adivinhar. Voltei para o autocarro e dormi descansadinho até que acordei, lá prás nove, com alguém a dizer “se calhar o melhor é irmos agora, porque só vai começar a ficar mais e mais quente”. “Hã, que se passa?, pensei, e perguntei”. E não é que tinha havido uma derrocada e estávamos ali à espera há cinco horas? E o plano do pessoal era atravessar a pé e apanhar um autocarro do outro lado. “Perfeito, mais nota que vou ter de largar, depois de todo o guito que tenho gasto”, foi o que me passou pela cabeça. E o pior é que só tinha um dólar e mais o equivalente a um euro.
               
Fui ver se dava para passar pela estrada, normalmente. Imaginei que estivesse só parcialmente bloqueada ou algo assim. Muito me enganei. Estava um desastre. Nem dava para ver onde era suposto a estrada estar. Nunca tinha visto uma cena assim. E pelo menos duas casas, ou bungalows, foram-se. Do tipo que teria provocado algumas mortes, se alguém estivesse ali à hora errada.
               
Voltei para trás, e fui atrás da outra malta, que subia um monte para dar a volta. O dinheiro laociano que tinha e que era equivalente aí foi-se logo quando tive de o usar para poder usar um pequeno escadote logo no início do percurso. Eu sei que o pessoal é pobre e tem de fazer pela VIDA, mas este tipo de oportunismo provoca uma reacçao visceral em mim. Mais do que até é suposto, nao sei porquê.
               
A custo lá subi e desci aquilo, com muito cuidado para não escorregar, ao longo de prai meia hora. Do outro lado estava outro pessoal na mesma situação que nós, e diziam que ninguém os levava de graça. Ainda assim, decidi tentar a minha sorte. Caminhei um pedaço para baixo, comecei a acenar aos carros que passavam. Parou logo o segundo, uma pick-up que me levou sem ter de pagar nada. Andei com eles prai uma hora, até que me deixaram no meio de uma localidade prai de trinta pessoas. Estava um calor abrasador, e pus-me a caminho. Estava a quinze quilómetros, tinham-me dito. “Isso s;ao três horas a pé”, pensei. Mas n;ao foi preciso. Em meia hora apareceu um chavalo que me levou de scooter. Estava em Luang Prabang à uma da tarde.

Dei umas voltas à procura de um sítio barato, e depois de perguntar a uma russa com sotaque italiano, fui para onde ela me mandou. Decidi voltar ao modo super-poupança, por isso almoçei uma baguete e seria a única refeição “decente” que teria nesse dia. Cheguei a pensar que estava tramado, porque todos os hostels onde perguntavam levavam no mínimo oito euros. Foi por isso que fiquei contente quando descobri o sítio que a russa tinha indicado, e que levava quatro euros por um quarto individual com chuveiro. Tirando o hotel na Síria onde paguei quinze euros, acho que foi o melhor quarto onde estive em toda a viagem. E tirando o quarto de hotel do meu irmão em Phuket, claro.
               
Descansei um pedaço e fui ver a cidade. É super chill-out, como de resto todo o Laos me parece ser. Não tem prédios ou edifícios com mais de dois andares. Casinhas harmoniosamente distribuídas ao redor de dezenas de templos em plena actividade. É a localidade mais budista onde estive, porque havia templos em todo o lado, e estavam cheios de monges jovens. E passear por volta das seis da tarde a ouvi-los meditar é uma sensaçao única. Gostaria de voltar, e deixar-me ficar mais algum tempo. Poder jantar sem problemas à beira-rio, alugar uma scooter e ir às cascatas. Escrever.

Era para me encontrar com a Mellany nesse dia, mas acabou por não dar. Desencontramo-nos na internet. Mas foi bom, porque tirei o serão para pesquisar sobre os vistos russos e mongolianos. Deu-me um bocado a volta à cabeça, tudo aquilo, e já estava farto de ler cena e mais cenas sobre sítios onde se pode fazer isto, outros onde se pode fazer aquilo, excepç:oes e essas cenas. Conclusão: após pesquisar em vários sítios e obter informação de diferentes fontes, parece que posso tirar o visto da Mongólia no mesmo dia, em Erlian, cidade chinesa fronteiriça – isto faz com que não tenha de passar cinco ou mais dias em Pequim à espera do mesmo. Quanto ao visto russo, segundo o que aprendi, posso tirá-lo em Ulaanbator. Compro um bilhete de comboio por um preço inferior ao esperado (em Julho houve quem comprasse, na hora, um bilhete de Ulaanbator para Moscovo por duzentos e tal euros, e não trezentos e setenta como tinha visto(( e, parece, pago menos de um euro por uma declaração a dizer que vou sair do país dentro do previsto. Com estes documentos vou ao consulado ali ao lado e está feito. Só se as cenas mudaram é que não dá, porque eu li isto em mais que um sítio, e por pessoal que o fez.
               
No dia seguinte, acordei e fui comer uma baguete a um sítio no centro que tinha internet, algo que tinha deixado de funcionar no meu hostel. Enquanto me punha a par das notícias, combinei encontrar-me com a Mellany às duas no meu hostel. A Mellany era do couchsurfing, não me podia albergar, mas podia encontrar-se para irmos dar uma volta, conversar, e para me mostrar alguns sítios.
               
Quando paguei a baguete atravessei a rua para comprar um batido.
- És a Mellany? – perguntei a uma rapariga ao meu lado.
- Sou – respondeu.

Estava a almoçar também – um crepe. Perguntou-me onde queria ir, mas eu não tinha nenhum desejo em particular.
               
- Importas-te de caminhar duas ou três horas? – perguntou.
- Nada! – e lá fomos. A Mellany é uma miuda deveras interessante. Tal como a grande parte dos outros americanos que conheci, fala pelos cotovelos. Reparei que usa muito o “eu” e isto, para mim, costuma dar alerta vermelho, porque acho que é o pessoal que acha que o mundo roda muito à volta deles que costuma assim falar. No entanto, ela não é assim. A cena é que com os seus vinte e dois anos tem uma experiência do caraças, e isso faz com que, de certa forma, quase que tenha de usar a palavra “eu” para falar do que já viveu. Não sei se isto faz algum sentido...
               
A Mellany, americana de tão tenra idade, já viveu um ano na Costa Rica, um ano no Uganda, um ano na China, e estudou algum tempo, não sei quanto, em países como o Taiwan, o México, Índia e Turquia. Estudou, claro, Estudos Globais, e agora trabalha no Laos há dois meses e meio. Dois meses e meio e já fala Laociano. Fiquei muito impressionado. Veio fazer voluntariado mas agora ganha um guitito para se aguentar, tipo cem dolares por mês mais casa, qualquer coisa assim. Trabalha numa ONG responsável por, basicamente, meter a canalhada na escola. No Uganda esteve num projecto de investigação criado por si, que visava analisar a resolução de conflitos numa vila, como aquela onde viveu, que tem quatro religi:oes diferentes. Descobriu que a paz que reina entre a malta de lá prende-se com o facto da canalhada aprender na escola sobre todas as religi:oes. Caminhámos, caminhámos, e conversámos acerca da import;ancia do respeito das culturas locais, da import;ancia de nos oferecermos outras vi:oes que não aquelas de todos os dias.
               
Caminhámos até que abancámos à porta do meu hostel e ela esteve a contar-me acerca do que se passa na Tail;andia e da indústria sexual deste país – contou-me factos, sendo que esteve lá a estudar precisamente isso. É certo que não os verifiquei, mas confio nela. Como sabemos, a Tail;andia é um dos países com maior indústria sexual. É impossível caminhar mais que meia hora em qualquer rua concorrida sem ver uma prostituta, quando o sol começa a pensar em se por. Ora como princípio não tenho nada contra a prostituição, desde que seja por livre e espont;anea vontade da mulher, ou do homem. Isto é raro. Há sempre alguém por trás que se está a aproveitar. E claro que se alguém perguntar a uma prostituta, ela não vai dizer que preferia estar em casa a bordar. Mesmo que não seja raro, mesmo que até metade, digamos, das mulheres estiverem de livre e espont;anea vontade, é um número demasiado elevado para correr o risco de se enrolar com alguma e estar a contribuir para um esquema que promove o abuso e tráfico humano. As situaç:oes são de todos os tipos. Desde raparigas que s:o suportadas pela família e coagidas, por professores e outra figuras de autoridade, nas localidades mais rurais, a mudaram-se para Bangkok para fazerem dinheiro, e depois acabam algures na Birm;ania sem papéis, e daí entregando o seu destino às mãos gananciosas de uma rede que não destingue entre a justiça e o crime, entre a polícia e o v;andalo. Está tudo, de uma forma ou doutra, metido nisto, e se alguma rapariga se aventura a fugir e pedir auxílio à polícia, o mais provável é que este a devolva ao bordel de onde ela fugiu.
               
O mundo tem muito de negro se conseguirmos ver bem. Mas é complicada a escolha das lentes. Eu quero ter lentes que vejam muito, e geralmente curto porque vejo toda a beleza que há por aí, desde pessoa a ajudarem velhos a atravessar a passadeira a adolescentes a dar um primeiro beijo; mas isso implica ver também pessoas cujo único pecado foi nascer no sítio errado, putos às três da manhã a vender rosas. Outra rede. Nunca dou dinheiro a estes putos porque não quero contribuir para o abuso que adultos perpretam por detrás dos mesmos. Disse-me a Mellany que se eles não entregam a totalidade do dinheiro que fazem, não comem durante dias. E isso faz-nos querer dar-lhes dinheiro.
               
- Mas se tu não dás dinheiro, ou não compras, podes fazê-lo por bons motivos, mas há toda uma primeira geração que vai sofrer com isso... – dizia-me.
- Sim, é verdade... isto parece horrível de se dizer, mas se toda a gente deixasse de comprar rosas e essas merdas todas, essa primeira geração de crianças se calhar ia sofrer muito, mas quem sabe seria a última – se, se, se, se...
               
Só que geralmente preferimos lidar com algo na hora e fazê-lo desaparecer por uns momentos, e até ficarmos a sentir-nos bem, do que pensar mais à frente. Será assim tão mais confortável?

Nessa noite fomos jantar a casa de uns amigos da Mellany, todos americanos. Sushi, talvez a primeira refeição decente de sushi da minha VIDA. Curti, mas soube a pouco. O serão foi tranquilo, porreirinho.

Não dormi nessa noite. Tinha de acordar às cinco e muito porque vinham buscar-me para me levar à estação às seis da manhã. E eu não tinha telemóvel para me despertar – não queria correr o risco de perder aquele autocarro caríssimo de quarenta e três euros!

Então, dia seguinte - siga p’rá China.

18h32-4-17-8-11
Kunming, China




domingo, 11 de setembro de 2011

Vang Vieng

Estava a pensar boleiar até Vang Vieng, e pedi ao Noy para me levar a um sítio porreiro, não muito longe da cidade mas fora da mesma, onde pudesse ter mais sorte em arranjar um carrinho para me levar. O Noy disse que preferia pagar-me o bilhete do que ir levar-me a fora da cidade. Tinha-o dito no dia anterior, mas eu agradeci, e disse que não era preciso. Todavia, neste dia, saímos de casa, ele deixou-me à porta de uma agência de viagens e disse para eu esperar ali, e que o bilehte estava pago. Bem, agradeci, disse até breve, sendo que tinha de voltar para ir buscar o meu passaporte com o visto chinês, e lá fiquei.
              
Entretanto apareceu a tuk-tuk já com alguma malta, levou-nos à estação e lá apanhámos o autocarro. Foi escurecendo, e já era noite quando cheguei a Vang Vieng. Pelo que tinha ouvido dizer, Vang Vieng era onde o pessoal ia cortiré, por isso esperava assim uma cena tio Phuket, cheia de barulho e turistas. Não é algo que me agrade de todo, mas queria experimentar o tubing, e por isso fui. Para minha agradável surpresa, vi que o sítio era bué chill out. Quando chegámos estava a chover, por isso esperei, nas calmas, que amainasse. Quando asism aconteceu, fui caminhando à procura de um sítio barato. Vang Vieng sao três ou quatro ruas cheias de restaurantes e bares ou com música chill-out, ou com shows de Friends, Family Guy ou Simpsons, e quase todos com aquelas mesas baixinhas e colch:oes onde o pessoal se recosta no ócio. Curti a onda.
              
Tinha visto no Lonely Planet que a pensao Maylyn era fixe e barata. Fui procurando, foi escurecendo, cheguei à ponte, tive de pagar para entrar. Ia tirando o computador de vez em quando para ver o mapa, e lá dei com a cena, já o dia se tinha despedido. Parecia fixe, mas era um  bocado isolada (a única do outro lado da ponte, que me parecesse(( e acima de tudo, carota. Voltei para trás, deixei a minha roupa a lavar (quatro quilos((, e finalmente encontrei a AK Guest House, onde pagava cerca de três euros. Não está mal. No dia seguinte encontrei outra onde pagava cerca de dois e pensei em mudar-me, mas acabou por não acontecer. Não me quis dar ao trabalho.
              
Relaxei um bocado no quarto, peguei no computador e fui comer qualquer coisa. Estive aí umas duas horitas e depois voltei para o quarto para encontrar um postal da Lena a dizer: ““Benvindo ao Laos. Estamos no hostel Champa Laos, na mesma rua. Dos teus amigos Lena e Ilias”“, curti a cena.

No dia seguinte acordei sem saber bem o que fazer. Fui primeiro ao hostel da Lena ver se a encontrava, mas não estava lá. Acabei por ir fazer caving, uma cena que curti tanto que até escrevi um texto sobre isso. Segue:

“Hoje acordei, meu quarto de hotel semi-podre em Vang Vieng, no Laos, e não sabia bem o que ia fazer. É o que acontece muitas vezes. Tanto podia ir fazer tubing, como dar uma volta por aí, como esperar que o Hugo chegasse e ver o que queria fazer...
              
Assim, almoçei nas calmas, aluguei uma bicicleta e fui dar uma volta. Queria ir ver onde era o hostel onde a Elena estava para ver se a encontrava. Fui lá mas ela não estava. Tubing? Na, fica p’ramanhã...
              
Ora tinha alugado a bicileta naquele gajo, e não no outro, porque este oferecia um mapa. Fixe. Peguei no mapa feito à mão, uma daquelas folhas fotocopiadas dezoito centenas de vezes, e vi onde queria ir. Ok, atravesso a ponte, sigo, sigo... iá, deve ser isso.
              
Debaixo dos chuviscos, comecei a pedalar. Num instante cheguei à ponte, onde tive de, mais uma vez e estupidamente a meu ver, pagar quarenta cêntimos para atravessar, passei. A caminho o mapa decidiu que já bastava de estar ao serviço de outros, e tentou o suicídio. Apanhei-o antes que o rio o fizesse, e segui caminho. Num instante já não sabia bem onde estava. Eu não sou muito bom a orientar-me (chego de Portugal ao Nepal por terra, de Singapura ao norte do Laos também por terra sem problemas, mas saio de casa, dou duas voltas ao quarteirão e já não sei bem onde estou) e o mapa também não era dos melhores. E até avisava – “not to scale”. Mas ok, continuo a pedalar entre os campos de arroz e duas chavalitas saltam para o meio da estrada a apontar para a gruta. Fixe, é p’ráli.
              
Saio da bicicleta, preparo-me para me por a caminho e digo, com gentileza, às chavalinhas que não ia precisar de guia. Quem, eu? ‘Tás é maluca! Por acaso nem foi mau de todo. O caminho, por outro lado, não foi dos melhores. Mas é daquelas cenas. Tão “nada a ver com nada” que um gajo adora. Demorei p’rai quarenta minutos p’ra fazer um quilómetro, isto porque tinha de me equilibrar como um trapezista para não deslizar na lama entre os campos de arroz e não cair num destes. Num rasgo de esperteza, deixei as havaianas na bicla, e assim sempre era mais fácil. Porque andar de chinelos num sítio onde te enterras em lama até ao joelho é má ideia.
              
Eventualmente lá consegui sair dos campos de arroz. Tive de passar por uns bambus que estavam ali para ajudar a malta, saltar uma cerca e vi um barraco onde estava um maço de tabaco e um sinal a dizer para pagarmos 10000kip, um euro. Mas o gajo não estava lá! Porreiro. Se calhar tinha ido mijar por isso, pé ante pé, passei pelo barraco e segui sempre em frente. Apenas para voltar vinte minutos depois, pois não encontrava gruta nenhuma. O gajo viu-me, veio pedir-me para pagar, e assim o fiz. Depois caminhou e disse para o seguir. Ele caminhava naqueles seixos como se fosse algodão e aqui o europeuzinho sofria um bocado para o acompanhar.
              
Chegámos à gruta. Estava à espera de uma cena aberta, enorme, mas a entrada era do tamanho de meia pessoa. Cinco inglesas estavam a sair.
              
- Que tal?
- Não sei, não chegámos a descer – respondeu uma.
- É assustador, e eu já me estava a sentir zonza – disse outra.
- Eu ainda fui um bocado, com o guia, mas depois, quando ele ‘tava a descer mais p’ra baixo um escadote partiu e voltámos para trás, ele não queria ir mais – disse a terceira.
              
Eu não sabia bem o que pensar daquilo. Por um lado isto só me atraía mais, mas por outro já estava a ficar um bocado cagado. Mas ok, siga. O gajo apareceu, deu-me uma lanterna daquelas que se põe na cabeça mas que levei na mão, e entrámos. Ok, sim, estava a ver porque é que diziam que era assustador. Imaginem sinuosos corredores onde um gajo às vezes tem de passar de lado, pequenas poças de água lamaçenta que nos chega à bacia, subidas por uns escadotes completamente podres... era pior que isso. Tanto que passados os primeiro cinco minutos o gajo disse “vamos voltar para trás”. Estive quase, mas tinha de continuar. Ele nem insistiu, bazou logo e lá fiquei, sozinho, na escuridão. Ele tinha bazado antes de descer o tal escadote cujo degrau se tinha partido. Eu segui com cuidado, aguentando-me nas paredes com os cotovelos, tentando não me armar em campeão. Isto porque o solo era mais escorregadio do que os melhores dias da Cicciolina. O próprio gajo escorregou um par de vezes. Agora imaginem escorregar gruta abaixo e estatelar-se todo num sítio de onde será quase impossível retirar-te assim sem mais nem quê.
              
Quando tentava descer o famoso escadote, foi a minha vez de partir um degrau. Um instante apenas. PAU! Não sei como aguentei-me no seguinte e não deixei cair a lanterna. Só pensava “se esta lanterna cai ou fica sem pilhas o próximo filme do Danny Boyle vai ser sobre mim”. Não é bem o mesmo, mas se a lanterna ficava sem pilhas acho que só no dia seguinte é que aparecia alguém, e nos entretantos eu ficava lá encharcado, enregelado, no breu mais breu que o mundo conhece. Mas estou agora a escrever isto, por isso não aconteceu nada, já se sabe.
              
Segui caminho. Queria voltar para trás, e às vezes desejava que depois da próxima curva acabasse. Mas o curioso, é que não o queria verdadeiramente. Uma pequena parte de mim sim, mas a outra parte de mim, ainda que a parte inteira estivesse toda cagada de medo, queria seguir, e aventurar-me o máximo possível. O meu coração batia fortemente e sentia uma adrenalina como não sentia há anos, e naquele momento senti-me plenamente vivo. Naquele momento eu era os meus sentidos. Era um animal, um inteligente animal que cometia a estupidez de ir a um sítio só porque sim. Comparava com a Europa o que me rodeava. A geografia daquela gruta, os escadotes todos podres e a rebentar e aquele solo escorregadio faria com que nunca se sonhasse em fazer aquela cena sem um guia, ou sem butõezinhos ao longo da gruta onde um gajo pudesse carregar quando em apuros. Concerteza haverá cenas destas, mas off-circuit, imagino. Se houver alguns “cavers” por aí, que me corrigam.
              
Apareceu, entretanto, o que seria a etapa final. Já tinha passado, curvado, por zonas onde a água me chegava à cinta. Mas agora era todo um caminho. Volto para trás ou não? Respirei fundo, com dificuldade, e segui. Nadei um pedaço com cuidado para não deixar cair a lanterna e consegui, era esse o fim. Voltei para trás, tentei dominar-me e continuar a ter cuidado apesar de já ter acabado. Saí cá para fora. Passado meia hora ainda estava a tremer.

Foi, sem dúvida, uma das cenas mais fixes que fiz nesta viagem.”

Quando saí da gruta, descansei um pedaço e voltei à bicla. Fui pedalando sem destino pelas terras cheias de lama. Sempre em frente pelas estradas lamaçentas. Virei à esquerda, deixei-me ir. Passei pelas velhas que vinham do campo, às vezes tinha de parar e encostar-me o máximo possível à berma para as vacas, assustadas, passarem. Estava a adorar aquilo. Estava no campo laociano, e isso era demais. Nao havia ali nada senao lama, vacas, erva, campos e laocianos. Fui seguindo e de vez em quando aparecia uma plaquinha a dizer onde a próxima gruta era. Mas apesar de ter adorado estar na gruta anterior, não sei se me queria meter de imediato noutra. Foi muito fixe, e quero voltar a fazê-lo varias vezes para o resto da minha VIDA, mas naquele momento não me apetecia assim duas se seguida. Mas ok, se aparecesse, se calhar fazia-se.
              
A dada altura tive um orgasmo cénico. Abeiro-me de uma cerca, passo e quando levanto a cabeça vejo dois campos separados por uma estrada de terra. Uma montanha lá ao fundo, vacas a pastar no campo à direita, e outras mais rebeldes no meio a fazer o mesmo. Era tudo tao belo, adorei. Foi daqueles momentos em que um gajo para e só quer congelar aquele momento, apreciar aquela felicidade extrema que se sente.
              
Continuei, entrei no campo, apareceu um senhor. Tinha de pagar cerca de um euro para entrar. Estava a começar a chover e eu tinha a máquina fotográfica comigo. Além disso tinha de devolver a bicicleta brevemente. Estava bem, tinha passado uma grande tarde, e chegava-me naquele momento. Assim, voltei para trás, a custo, pois devia ter deixado a bicicleta logo no início do corte. Ao invés trouxe-a até meio e agora tinha de a empurrar pela subida lamaçenta. Que se lixe.
              
Eu próprio estava todo sujo, cheio de lama. Quando cheguei à vila, andei a passear sem rumo meia hora. Ainda tinha esse tempo de sobra. Chovia um bocado mas já tinha deixado a máquina no quarto. Estava encharcado, mas a fruir de cada segundo. Estava bem pá.
              
Deixei a bicicleta, tomei banho, e fui jantar no restaurante do hostel. Eis que passa a Lena com um rapaz, o tal Ilias. Foi bué de estranho. Passa, olha para mim, eu sorrio, ela sorri, mas vira-se para a pessoa que ia com ela, segreda algo, e continua. Depois param num canto e eu consigo vê-los mais ou menos, e vejo claramente o gajo a espreitar. Passado um bocado seguem caminho, e passado outro bocado aparecem.
              
- Que foi aquilo? – perguntei.
- Ah... fomos nós que... estávamos confusos... – respondeu. Não mordi, e não curti. O meu filme foi que a cena entre ela e o Ilias, também russo, estava a correr bem, e ela não estava muito virada para um terceiro elemento. E, sinceramente, nem sabia, ou sei, se gosto assim muito dela. Não desgosto, mas acho que não temos nada a ver um com o outro, e naquele momento achei que seria forçado fazer um esforço para viajarmos juntos só para não estarmos sozinhos quando não há química nenhuma entre nós.
              
Ficámos ali um pedaço na conversa de chacha, mencionei o tubing, a Lena manda daqueles comentários que já tinha percebido lhe serem característicos tipo ““Já fiz coisas muito mais fixes no rio”“, face à minha descrição do que o tubing me parecia ser. Agora em português parece que ela estava a mandar um comentário sexual, mas não foi nessa onda.Contudo, o gajo estava naquela, e eu fiquei de aparecer no hostel deles no dia seguinte a ver se queria vir. Eles queriam jantar e ela perguntou-me se eu queria ir. Disse ok sem me aperceber, e quando começou a chover fiquei contente e usei isso como desculpa para não ir. Sentia que tinha sido um convite só por convite, mas disse que sim sem querer. E agora me reprimendo, pois podia simplesmente ser honesto e dizer ““pá não porque não curti muito aquele filme de há bocado e fiquei com a sensação que estás aqui só para não parecer mal”“. Ao mesmo tempo estranho, porque hoje, que estou a caminho da China, continua a mandar-me mensagens. Não sei.
              
No dia seguinte, depois de ir ao hostel deles só porque tinha dito que ia, e de não os encontrar, entreguei-me ao tubing.

O tubing foi espectacular. Lindo, muito fixe mesmo. Mas esse dia e o seguinte proporcionaram-me uma experiência incrivel, que vos irá surpreender! Mas isso partilharei mais à frente.

Fiquei em Vang Vieng mais uns dias, e no dia onze de Agosto voltei a Vientiane para ir buscar o meu passaporte.

dezanove e quarenta e quatro-segunda-quinze de agosto de dois mil e onze
algures entre Luang Prabang e Kunming, China