sábado, 13 de agosto de 2011

Da Lat


No meu autocarro para Da Lat, que eu tivesse percebido, só iam mais dois estranjeiros. Mas o resto podia ser de outro país asiático. Mas ainda assim, pá, onde é que andam os vietnamitas mais pobres? Perguntei nas agências de viagens onde eram os autocarros locais, mas disseram que é isto. E eu ainda não estou convencido. É que os autocarros são sempre muito bons, ar-condicionado e essas pandeleirices todas das quais não preciso mas de que acabo por usufruir, e que acabo por pagar. Mas ok, se calhar é isto.
               
A viagem passou-se bem, paisagens deslumbrantes, e quando chegámos, já de noite, perguntei aos estranjeiros se não queriam partilhar um táxi. Disseram que sim, e lá fomos. Eram belgas, o Klaas e o Kon. Eu tinha apontado um hotel que tinha tirado do guia, e pedi ao taxista para nos levar para lá.
               
Eis que aconteceu algo inédito na minha viagem.
               
Como toda a minha viagem foi na época baixa, nunca tive problema em encontrar lugar num hotel. Mas agora é Julho, e apesar de ser época baixa para a estranjeirada, é época alta para os vietnamitas. Por isso mesmo, quando cheguei a esse hotel, estava cheio. Foi o primeiro hotel que encontrei que estava cheio em toda a viagem. O pior é que estava esse e os dez seguintes onde perguntámos.
               
Sabia que, de uma maneira ou de outra, ia encontrar um sítio. E assim foi. Encontrámos um quarto por dez dólares, e ficámos lá os três. Tinha só duas, mas eu pus o olho num colchão que vi na escadaria, e acabei por trazê-lo para o quarto e dormi nele. Instalámo-nos e fomos comer qualquer coisa.
               
O Klaas está quase a fazer 25 anos e acabou agora os seus estudos. É um rapaz porreiro, com um problema qualquer no estômago que faz com que tenha de comer extremamente lentamente, e que faz com que o Kon coma metade da sua comida em cada refeição, sendo que o pobre Klaas não consegue acabar. Também benificei, em termos alimentares, desta sua condição, um par de vezes. É um rapaz mais calado, mas porreiro, boa onda. O Kon é o extrovertido daquela aliança belga. Alto, fortezinho, não muito, cabelo louro comprido, fala numa mistura de sotaque americano e belga, fala bastante, gosta da sua festa, e é professor de liceu, de Física e História. Um par muito fixe com quem passei essa noite e o dia e noite subsequentes.
               
Depois de jantar encontrámos um barzito chamado “The Hangout” e sentámo-nos a beber uams cervejas a com aquelas conversas iniciais de quem se está a conhecer. A dada altura apareceu um casal inglês e sentou-se lá num canto. O rapaz tinha daqueles cortes de cabelo apandeleirados, via-se que tinha tendência a engordar mas que, para compensar isso ia ao ginásio. Tinha uma t-shirt meio metro-sexual. A rapariga tinha um aspecto tipicamente inglês.
               
Até era um casal simpático. A dada altura o rapaz juntou-se a nós a jogar bilhar e ficámos nessa onda socialzinha uma horita, até que a rapariga, na única tacada que deu, marcou, à sorte, uma bola com uma tabela. Surpresos, todos soltámos um pequeno grito de congratulação, e isto fez com que, não mais que cinco minutos depois, aparecesse uma cota vietnamita a tripar verdadeiramente com o dono do bar. Foi uma situação um bocado cómica, tenho de dizer, porque a maneira como a senhora protestava dava a entender uma situação mais grave, como se o dono do bar lhe devesse a renda há seis meses, ela tivesse vindo receber após ele prometer que pagava, e ele ter dito que afinal gastou o dinheiro em apitos.
               
A miuda inglesa tinha um sotaque terrível. Quer dizer, o seu sotaque era inglês, como ela era. Mas, já tinha reparado, e acontece especialmente nas raparigas, há destas que têm um sotaque soa extremamente a gaja burra. Com gajos acontece também mas não é tanto na maneira como falam, mas mais pelo que dizem, ao passo que com as miudas elas têm a perder nos dois campos. A miuda até é porreira e tudo mais, mas aquela maneira de falar... não consigo pensar num exemplo português.
               
Foi ela que me disse que a Amy Winehouse tinha morrido, o que não tinha acontecido muitas horas antes, acho. Fiquei um bocado chocado, apesar de ter chegado a dizer, com as palavras todas e mais que uma vez, que infelizmente achava que a Amy não ia aguentar muito tempo. E claro que não disse nada de original, sendo que estava à vista de quem pensasse um bocado. Juntou-se ao grupo dos 27.
               
Dei por mim a questionar-me, já não sei porquê, se era preferível que morresse de overdose um gajo qualquer tipo um pasteleiro de Ribeira de Frades ou uma pessoa famosa. Sem saber mais nada de ambas as pessoas além disto, primeiro pensei que seria preferível o pasteleiro, pois perdendo a pessoa famosa íamos estar a perder alguém com talento e influência na VIDA de outras pessoas. Mas depois pensei que a maior parte das pessoas famosas não tem talento nenhum e seria então preferível morrer um famoso em vez do pasteleiro pois, pelo menos alertava para onde exageros podem levar. Mas depois lembrei-me que a Amy era efectivamente muito talentosa. Isto parece assim um bocado descabido, mas a razão pela qual dei por mim a pensar nisto foi porque sempre me meteu confusão a maneira como ficamos mais afectados se morrer o Angélico, um rapaz que a maioria de nós não conhece de lado nenhum e que não era exactamente alguém que tivesse tido um contributo inigualável para a humanidade,  do que se um autocarro na Índia se despistar e resultar na morte de trinta pessoas. Vale a pena dizer que, infelizmente, enquadro-me nisto que critico. E claro que sei enunciar uma, duas ou três razões pelas quais isso acontece, mas continua a ser estúpido.

No dia seguinte alugámos uma scooter cada um. Enchemos o depósito e partimos à descoberta, munidos de um mapa. Foi um dia muito porreiro, apesar de termos demorado três vezes mais tempo a descobrir as localizações do que era necessário. Foi um dia repleto daqueles momentos em que o tempo para, tu olhas à volta e pensas: “fónix, está a chover torrencialmente; estou com o kispo, algo que nunca pensei ter de usar no Vietname, e ainda assim estou a tremer de frio; dói-me os olhos de conduzir com a chuva a bater; mas estou a adorar cada segundo!”. Iá, foi isso. Demo-nos ao luxo de nos perdermos propositadamente um par de vezes, descambando no meio do mato numa casita e num campo com uma senhora a gesticular fortemente para nos pormos a andar.
               
Primeiro vimos a Casa Maluca (The Crazy House), uma atracção razoavelzinha. Basicamente uma arquitecta que bate muito mal fez uma casa impressionante e a malta pode ir visitar. Dá uma olhada, Nuno, é em Da Lat. Não percebi se aquilo era suposto ser um hotel ou o que era. Mas dei por mim a imaginar que uma criança teria uma infância em cheio a crescer numa casa daquelas. Depois, enquanto procurávamos uma cascata, fomos dar a uma onde até era preciso pagar (mas passámos de fininho) e era uma bela porcaria. Um esgoto bonito. Depois demos com um monte de templos perto de um lago muito fixe e parámos aí uma horita.
               
Entretanto parámos um par de vezes para nos abrigarmos um bocado, até que desistíamos e lançavamo-nos no dilúvio outra vez. Algumas horas mais tarde tive o melhor duche de toda a viagem, porque estava cheio de frio e entrei na água quente. A razão pela qual estava tanto frio tem que ver com a altitude do sítio. Quanto à chuva, não é raro seja onde for.
               
Eventualmente demos com a cascata. Era gira e tudo, mas nada de especial também. Mas a verdadeira cena foi chegar até lá, por isso não há crise. Voltámos à cidade e procurámos o jardim, que também demorámos quase uma hora a encontrar. Demos mais umas voltas. É um sítio porreiro, mas nada como o sonho que descobriria no dia seguinte.
               
Nessa mesma tarde eles tinham comprado um bilhete de autocarro para Nha Trang. Eu não queria ir porque tinha lido que era muito giro e tal, resorts e praia e não sei quê, e não me apetecia muito. Também não sabia se iria à boleia ou não, por isso não comprei nada. É que os preços até Hoi An, onde tinha em mente ir, eram 10 euros...

Voltámos a casa, tomámos banho, descansámos um bocadinho a ver tv, e fomos jantar. Pegámos na scooter, passámos por alguns sítios mas a média da comida era 1,5€ então seguimos. Eventualmente parámos “num daqueles” e jantámos lá, pelo preço que costumo pagar – 0,70€. Eles comentaram, com um sorriso, que por andarem comigo andavam a gastar mais dinheiro. Mais tarde nessa noite, a festa foi rija, e voltaram a comentar, com um sorriso maior, que o dinheir poupado tinha ido para cerveja.
               
Depois de jantar voltámos ao The Hangout. Eles jogaram bilhar enquanto eu via umas cenas na net, depois jogámos um jogo de scrabble e depois eu e o Kon começámos a jogar daqueles joguinhos do bufo. Estávamos a jogar a pirâmide quando dois ingleses e uma inglesa entraram no bar, a quem eu perguntei de imediato se não se queriam juntar a nós. Assim lá ficámos duas ou três horas numa festa porreira. O meu espanto foi que os ingleses tinham 18 e 19 anos! A miuda acertou na minha idade e disse, quando eu manifestei espanto, “porque pareces tão velho!”.

No dia seguinte, sem saber bem para onde ia, e como ia, decidi infiltrar-me no minubus que veio buscar os belgas ao nosso hotel. Sabia que à partida ia até à estação de autocarro, e aí podia ver o que fazer. Não queria boleiar porque o tempo estava de chuva, e tinha na pele a memória da molha do dia anterior. Agora a mesma cena com uma mochila às costas com p’rai quinze quilos de roupa e outra mochila à frente com as tecnologias (máquina fotográfica, computador e carregadores) afigurava-se como muito difícil.
               
Assim, dei parte fraca (e sensata) e comprei um bilhete de dez euros para Hoi An. Bem, aquele autocarro é o mais luxuoso onde já estive – tirando este, onde estou agora mesmo, que é igual mas com quarto-de-banho. A viagem foi o explendor do costume, no que diz respeito às imagens com que eu era brindado pela janela.
               
14h de viagem até Hoi An.

21h19-6ª-29-7-11
algures entre Huei e Hanoi

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Saigão II


No dia seguinte acordei, nas calmas. Vi um episódio de Flight of the Conchords, pus-me a caminho da cidade. Apanhei o autocarro 34, em vez do 102, e passei por lugares mais típicos do Vietname. Demais mesmo. Quer dizer, se tirasse fotos e as mostrasse, um gajo ficava naquela tipo “o que é que é demais aqui?”, mas é mais que isto, é ver as cenas sem ser por uma lente ou num ecrã, e permitir-lhes deixar a sua marca no nosso coração.
               
Após comer qualquer cena, fui aos correios. Já andava com o saco-cama da Sofia há p’rai uma semana, e não fazia muito sentido andar a carregá-lo de um lado para o outro. Então, contrariando a minha tendência natural, não deixei para depois e fui tratar disso. Era 25 dólares, mais do que a Sofia me tinha dito para gastar, por isso o saco-cama ficou em Saigão.
               
Depois disto fui ao Museu dos Restos da Guerra (americana). Tenho de dizer que fiquei chocado com o que vi. Tão brutal que gostava de ver um museu semelhante, mas de uma perspectiva americana. Se bem que os americanos é que se meteram por estes lados, tentando evitar com que o comunismo, sistema que ainda hoje aqui impera, se espalhasse pelo resto do sudeste asiático. Eles meteram-se aqui e mataram centenas de milhares de civis e em vastas regiões espalharam aquilo que é conhecido como “agente laranja” que faz com que, ainda hoje, um sem número de crianças nasça com más-formações genéticas. Desde isto a grupos de soldados que iam a vilas e assassinavam todos os civis que viam, fossem homens, mulheres ou crianças, é incontável o número de atrocidades. Tanto que alguns americanos vêm para o Vietname fazer trabalho voluntário para, à sua maneira, compensar o mau que foi feito. E isto deixa-me um bocado sem saber bem o que pensar. Acho de louvar qualquer tipo de trabalho voluntário. Nem que o pessoal faça isso só para depois ir dizer que o fez, ao menos fê-lo, e ao menos, posteriormente, não estará, nem a mentir com a sua gabarolice, nem a gabar-se de cenas como ter fodido aquela gaja. O que me deixa sem saber o que pensar é o factor nacionalista que aqui entra. De várias maneiras rejeito o conceito de nacionalismo.

Não me quero sentir orgulhoso de ser português se um português descobrir a cura para o cancro, da mesma forma que não me quero sentir humilhado se um português matar duzentas pessoas com uma bomba em Paris. Digo “não quero”, porque há uma parte de mim que sente essas coisas, mas é algo mais intrínsico, e de que não consigo fugir, não sei porquê. Mas essa pequena parte que sinto, não me apoquenta.

Então, ligando a este pessoal, eles estão a pagar as contas dos erros de outros, só porque nasceram no mesmo sitio que eles. É certo que estão a pagar por opção, mas estão a pagar ali, naquele país, porque os americanos lá estiveram. Não estão em Angola, na América so Sul, estão ali. Mas ok, estão ali seja por que razão for, e louvo isso. Não quero sobre-analizar a cena e acabar por tirar o valor esse feito.

Quando, com o passar das horas, não recebi a chamada do pessoal do dia anterior, que queria que eu ajudasse a sua irmã, foi a confirmação de que, com toda a certeza, aquilo era um esquemazinho.

Depois do museu dei mais umas voltas, mas estava meio cansado. Voltei para casa, “fui jantando” com a Rebecka, pão alemão muito bom e queijo. Éramos para sair, mas bebemos umas cervejas em casa, e ficou por aí.

No dia seguinte, Da Lat. Tinha decidido na noite anterior, e por isso não tinha bilhete ainda. Aqui no Vietname há um sistema de “open tour” em que um gajo compra um bilhete e esse bilhete dá para as viagens de autocarro para sítio X, Y, Z, etc. Ainda que pague mais um bocado, não quis esse bilhete, porque não curti a antecipação de saber que tenho tudo planeadinho. Prefiro ir decidindo para onde vou, à medida que vou.

Tomámos o pequeno-almoço nas calmas, apanhei o autocarro para o centro da cidade, e apanhei o autocarro que me deixaria em Da Lat sete horas mais tarde.

23h35-4ª-27-7-11
Huei, Vietname

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Saigão I


Dia 20 de Julho acordei com o Vietname nos meus planos. Após arranjar as cenas e me despedir do Martin, fui até à estação de autocarros. Por alguma razão, o preço para chegar até Saigão tinha baixado um dolar, ficando nos 9 dolares que tinha visto no meu primeiro dia, mas que entretanto desapareceram. Acho que depende de a quem se pergunta. E já nem me espanta minimamente.
               
Esperei um bocado na estação, lendo A Short Story of Nearly Everything, do Bill Bryson, e meti-me no autocarro. Dei o meu passaporte p’rá mão do gajo e seguimos. Chegámos à fronteira, eles iam chamando os nomes, passei, quae comprei um cartão SIM mais caro do que realmente valia, voltei ao autocarro e voilá, benvindo ao Vietname!
               
Felizmente tinha anfitrião em Saigão, a Rebecka, uma miuda alemã. Não tem acontecido muito ultimamente, em parte porque aqui não é tão fácil de arranjar, e em parte porque não tenho pedido com a antecedência suficiente. Quando cheguei arranjei um sítio com internet, pedi a password apesar de não consumir nada, e tentei ver o que faria. Comprei um cartão SIM para comunicar com a Rebecka, vi as direcções e segui caminho. Caminhei mais de uma hora até chegar à estação de autocarros onde apanharia um para sua casa, mas não havia nada. Por alguma razão, depois do pôr-do-sol aquele autocarro cessava actividade. Boa... e na mensagem dela, ela dizia que a alternativa era apanhar um táxi por 7 dolares, o que é caríssimo! Porém, apareceu um méne que disse que me levava de mota por 50000 dong (2,5 dolares), eu, sem saber que por acaso esse até é o preço normal (paga o justo pelo pecador, às vezes), consegui baixar para 40000 e lá fui. Entretanto tinha-lhe mandado mensagem, por isso estava tudo encaminhadinho.
               
Como a grande maioria dos expatriados, a Rebecka vivia num complexo de luxo. Um condomínio com várias torres e um grande passei no meio. Corri esse passeio todo, porque não sabia onde estava a sua torre, e passei por lojas, agências de viagem, piscinas, jardins, campos de ténis e parques infantis. Estava bué de gente cá fora, a passear o cão, fazer desporto ou brincar com os filhos.
               
Liguei à Rebecka e ela apareceu.
A Rebecka é alemã, tem 30 anos, um curso em engenharia química, e trabalha em Saigão no desenvolvimento de um laboratório de análise da qualidade da comida, para posterior exportação. Já passou um ano na Irlanda como au pair (ama), e depois, mais tarde, voltou para fazer uma cena qualquer na sua área. Esteve desempregada um anito, mais ou menos, e depois conseguiu este emprego no Vietname, país que adora. É uma rapariga muit porreira, faladora, carismática e um tanto ao quanto mística, do tipo que acredita em almas e essas cenas.Senti-me imediatamente à vontade com ela.
               
Mal cheguei, sentámo-nos na varanda com uma cerveja ou duas, e ficámos lá duas ou três horas a conversar e ouvir música. Ambos os seus avós lutaram na segunda guerra mundial, e o seu irmão passou por uma fase de neo-nazismo, algo que, pelos vistos, é mais frequente do que se imagina. Pensava que seria raro enconrtar um neo-nazi nos tempos que correm, mas pelos vistos não é e, dependendo da zona, até se pode encontrar vários. Gostava de conhecer um. Um dia, em Budapeste, estava num bar com a Graciete e um australiano que conheceramos no hostel e apareceu um par de húngaros que meteu conversa connosco e nos pagou um copo. Estava tudo a correr lindamente quando o gajo diz algo que se parece com “(...)  o terceiro reich devia ter ganho a guerra”.
               
- Ahah, engraçado, pareceu-me que tinhas dito que o Hitler devia ter ganho a guerra! – disse eu, genuinamente confuso.
- E disse! – o gajo confirmou. Disse que era uma vergonha a Hungria ter perdido duas guerras seguidas (a primeira e a segunda guerra mundial) e quando lhe perguntei acerca do holocausto, ele negou-o, dizendo que não havia provas e isto e aquilo. Eu, abismado, aprendi algo nessa noite. É que geralmente gosto sempre de ouvir o que o pessoal tem para dizer, sendo que com os extremos também se aprende. Mas nessa noite aprendi que às vezes é preciso marcar uma linha. Porque em vez de estar a falar com o gajo e a tentar perceber, algures, no meio daquela conversa, talvez devesse ter-me retirado, o que foi o que acabou por acontecer, mas por sugestão do Nigel, o australiano.
               
E por mencionar este episódio lembrei-me de como curto viajar com a Graciete. Eu gosto de andar seja por onde for, seja com quem for, está claro, mas curto mesmo andar por aí com o Kidus, e tenho saudades disso, naturalmente. Quem sabe não nos encontramos em Moscovo, ahah!

No dia seguinte entreguei-me a Saigão. Curti bastante a cidade, como me tinha parecido que aconteceria, no dia anterior. Não sei bem porquê, mas há algo que me apraz. O tráfego é uma loucura autêntica. Milhares e milhares de motas que não se importam verdadeiramente com coisas como passadeiras ou sentidos únicos. Um caos que até dá gosto de ver... De resto é enorme, bem organizada e tem alma vietnamita. Apesar dos arranha-céus e tudo vê-se os varredores de rua com aqueles chapéus de palha cónicos super características, velhas na rua a vender velharias ou homens de meia idade, sentados no chão, na rua, a jogar damas, ou algo parecido. Além disso, acho as pessoas muito interessantes de fotografar. Tenho vindo a desenvolver um gosto por fotografia inesperado, e agora já penso em tirar um cursito, aprender cenas. E tenho tirado fotos muito porreiras, de vez em quandinho.

Queria ir pedir o visto chinês, por isso fui a uma agência perguntar onde era a embaixada. As miudas foram muito simpáticas mas demoraram eternidades a imprimir o mapa, procurar a morada, etc, e quando cheguei finalmente a secção consular já tinha fechado e só se podia pedir vistos de manhã. Acho que já não chegava a tempo mesmo que as miudas da agência tivessem sido mais lestas. Deixei o caso – peço o visto em Hanoi. O que mais me preocupa até é o visto russo, só porque não sei ao certo quando é que lá vou estar e é preciso uma carta de convite, que apesar de ser algo até simplezinho, é uma novidade para mim.

Depois da embaixada, fui ao Museu Nacional de Saigão, onde paguei trinta cêntimos para entrar. Foi mais ou menos, nada de especial. E passei o resto do dia assim, de sítio em sítio, a parar de vez em quando para beber uma água ou um café. Isto até que, cerca das quatro da tarde, param duas pessoas numa scooter, e me perguntam onde é o Museu dos Restos da Guerra. Digo duas pessoas porque a que vinha atrás era uma mulher, mas a da frente, apesar de hoje achar que era uma rapariga, na altura não fazia a mínima ideia. Pois eu, na minha simpatia, saquei do mapa, procurei a cena, elas desligaram a mota, sacaram de uma espiga de milho enquanto esperavam até que a mais nova, da frente, disse que eu tinha cara de espanhol. Eu sorri e disse que quase tinha acertado. Depois, de repente, perderam o interesse no Museu e eu era o interesse.
               
- Olha nós temos uma irmã que é enfermeira e vai para a Europa. Não te importas de te sentar ali no parque connosco para te fazermos umas perguntas acerca da Europa? – perguntaram.
- Ok, não há crise – respondi, pronto a ajudar. Caminhámos cem metros, elas estacionaram a mota e começaram a bombardear-me com perguntas. Mas às vezes parecia que estavam mais a fazer conversa, e não ouviam as minhas respostas verdadeiramente, sendo que repetiam as questões. Mas até tinham um bom feeling. Eram tailandesas, disseram-me, uma tinha 30 e a outra 28 anos, e estavam de visita a Saigão. Eis que, a dada altura, perguntaram se eu não podia perder trinta minutos da minha VIDA e ir com elas a casa para falar com a irmã delas e também para tranquilizar a mãe que, pelos vistos, estava muito receosa de ver a sua filha partir. Eu estava relutante como um carapau fora de água, mas até queria ajudá-las...
- A cena é... que eu não vos conheço... e vocês pedem-me logo para ir a vossa casa... não sei – disse. Mas olha, que se lixe, disse “tá tudo” e quando dei por ela estava num táxi, com a gaja mais velha sempre a fazer as mesmas perguntas. É estúpido, mas passou-me pela cabeça a típica imagem de eu a acordar numa banheira cheia de gelo, sem um rim. Entretanto, reparei que falavam com o taxista, apesar de dizerem que não falavam vietnamita. Quando inquiri acerca disto disseram que falavam o básico. Outra cena em que reparei foi que quando disse o autocarro que apanhava para ir para casa, a mais velha disse “ah, isso é para o distrito 7”, o que estranhei, porque se estás numa cidade que não é a tua e ainda por cima andas de scooter, não vais saber de cor para onde vão os autocarros.
               
Se quisermos ver a cena de uma forma mais paranóica, eu cometi muitos erros, mas sabia que os estava a cometer e não achei que fosse acontecer nada de mal, como não aconteceu. Tipo dizer que autocarro apanhava para ir para casa, dar o meu número de telemóvel (vietnamita) e e-mail, incluindo dizer quanto ganhava quando trabalhei na Inglaterra. Isto tudo como resposta às suas incessantes questões.
               
Quando chegámos, ainda no centro da cidade, a casa não era daquelas num beco escuro nem nada. Tinhas as portas abertas e putos, de outras casas, a brincar ali ao lado. Apontei a morada no telemóvel, discretamente, e entrei.
               
Agora a questão é: conheci a famosa irmã delas que ia para a Europa? Não! Ao invés, sentei-me com o meio-irmão delas à conversa a beber um café, depois juntei-me às duas irmãs na cozinha para comermos, e depois sentei-me outra vez com o irmão. Qual era a cena? A cena é que o irmão delas trabalha num casino, dá cartas no poker. E ele perguntou-me se eu não queria ser parceiro dele, que me ensinava os seus métodos e podíamos fazer milhares de dólares. Eu, cordialmente, respondi que não estava interessado, apesar de até achar que fosse dar uma estória porreira envolver-me com a máfia de saigão. Depois de comer ele ainda propôs o mesmo duas ou três vezes, e de vez em quando dizia, em voz alta para as irmãs na cozinha “eu quero que ele seja meu parceiro nas cartas mas ele não está interessado, pá...”.
               
- Eu a ti posso ensinar o meu método, porque estás cá, ganhas umas massas, e depois vais embora. Se arranjo um parceiro vietnamita é um problema, apanha os copos e chiba-se logo – disse. Ora eu como rejeitei a sua proposta, não cheguei a saber o seu método. Mas, ou a cena era ficar com os meus 200$ de entrada no jogo e depois eu perder tudo ou, e até mais provavelmente, jogar comigo, dizer-me as suas cartas com truques, e lixarmos o dinheiro dos outros gajos. Ou ainda, como ele dá cartas no poker no casino, dar-me as melhores cartas, ou dizer-me, com um truque qualquer, as cartas dos outros gajos. Nunca vou saber.
               
Depois de mais um pedaço de conversa as irmãs disseram-me que a outra irmã estava no hospital com a sua mãe, que tinha ido ver a pressão arterial, e que já não ia dar. Metemo-nos num autocarro, elas pagaram o meu bilhete, e ficámos no centro. Mais uma cena estranha... elas se calhar não estavam muito à vontade com o embuste, e queriam evitar caminhar mais cinco minutos comigo. Por isso, em vez de caminharem comigo, disseram que tinha de ir ao hospital primeiro. Despedimo-nos, e eu segui caminho, apenas para passar por elas, que já tinham a sua mota. Ou seja, íamos para o mesmo lado, e elas sabiam disso.
               
No final de contas, não há stresse, porque o embuste é ligeiro – há uma opção por parte do sujeito se entra na cena ou não.
               
Dei mais uma volta e voltei para casa, depois de passar uma hora na internet. A Rebecka foi para a cama cedo, eu estive no computador um bocado e fui dormir.

23h54-2ª.25-7-11
algures entre Da Lat e Hoi An

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Phnom Penh


Apanhámos o autocarro para Phom Penh ao fim da manhã por três euros. Chegámos, demos umas voltitas à procura de um hotel barato, e encontrámos lá um onde podíamos, se ficassemos na mesma cama, pagar menos de dois euros cada um. Mas um gajo anda mal habituado, e eu decidi ir dar uma volta à beira rio, à procura de um sítio ainda melhor. Andei a caminhar p’rai uma hora p’ra nada. Acabámos por ficar naquele hotel com todo o ar de ser onde os locais levam as prostitutas para malhar. E, espantem-se hoje ao abandonar o quarto, arrastei a cama para ver se tinha deixado ficar alguma coisa, e avistei o invólucro de um preservativo. Que classe. Além disto todas as portas tinham um buraquinho muito estranho, tapado por um papelito. E hoje, depois do Martin bazar, eu descansava na cama, nu depois de tomar banho, ouço um barulhito e reparo que advém da queda desse papel no chão. Levantei-me, pus uma toalha à cinta, abri a porta e vi o gajo do hotel lá ao fundo, a disfarçar. Teve bom timing, o pervertido, porque apanhou-me nu.

estou num autocarro a caminho de Hoi An, no Vietname. está a passar um filme asiático a ser dublado só por um gajo, e começou agora a banda sonora – take my breath away, mas numa língua asiática qualquer. priceless

Fomos dar uma volta pela cidade à noite. Caminhámos um pedaço, passámos pelos grupos sem muita qualidade a dançar no parque na esperança de ganhar algum dinheiro, pelas centenas de putos a brincar alegremente no parque, pelos turistas. Foi uma noite tranquila. Quando voltámos ao quarto vimos um filmezito qualquer na tv e dormimos.

No dia seguinte acordámos cedo para ver Phom Penh. Queríamos ir ao S21 e isso era perto da embaixada vietnamita – porreiro. Na noite anterior tinha visto numa agência que os vistos custavam 38 dolares. Pensando que estava a ser esperto, decidi tirar o visto na embaixada, onde não haveria taxa adicionais. Pois o que acontece é que na embaixada o visto era 45 dolares. A cena é que, por alguma razão, a agência dava vistos de 15 dias, ao passo que na embaixada só davam vistos de um mês, no mínimo. Estranho, mas já que lá estava, acabei por pedi-lo na mesma. E desta forma podia bazar no Camboja no dia seguinte, algo que não seria possível se tivesse pedido o visto na agência.
               
Depois de ter conhecido um casal catalão de meia idade, muito porreiro, fui ter com o Martin ao S21. O S21 é um museu que me deixou muito impressionado. É um liceu que, durante o regime do Khmer Rouge, foi usado como prisão. Hoje em dia pode-se visitar por dois dolares, e ter uma ideia mais exacta das barbaridades por que aquele povo passou.
               
A minha ignorância neste assunto era extrema. Sabia que tinha acontecido uma cena qualquer no Camboja e tinha morrido muita gente, mas só isso. E até há um mês ou dois nem sabia quem tinha sido o Pol Pots – o lider do Khmer Rouge que morreu nos anos 90 sem qualquer julgamento.
               
Quando cheguei estava a começar um documentário sobre o regime, e encontrei lá o Martin. O documentário contava a história de várias pessoas que morreram às mãos do regime, e também dos únicos seis ou sete, de centenas (ou milhares, não sei bem) que morreram no S21. O que mais me chocou foi ver um homem que costumava trabalhar como guarda a dizer que tinha matado cinco pessoas, mas só porque o director da prisão estava presente. Via-se que o gajo era meio simples, mas de todo o modo, aquilo ficou-me na cabeça. Que se deveria fazer com estes gajos? Se eu ordeno alguém para matar outrém, só eu é que sou julgado?
               
Imagino que, em termos de logística e dinheiro seria algo que o país não aguentaria, julgar toda a gente que matou alguém durante o Khmer Rouge, mas a minha questão, que ainda não consegui resolver, é se estes gajos deveriam ser presos ou não. Nos anos 60 um estudo demonstrou o quão crueis as pessoas podem ser se assim forem ordenadas, por uma figura de autoridade. Basicamente eu tenho um instrumento com o qual posso dar choques eléctricos (de força X a Y) a uma pessoa que está noutro quarto e cujos gritos eu ouço. Primeiro experimento em mim e apercebo-me que aquilo que parece ser uma voltagem mínima pode ser muito dolorosa.  Além disto o senhor de bata branca diz que depois de determinado número pode ser fatal. Eu vou dando choques e ouvindo os gritos. Vacilo mas o gajo da bata branca diz para eu continuar. E por aí adiante, até que a pessoa do outro lado deixa de responder. Vacilo, mas o gajo diz para continuar, e continuo. Perguntaram a alguns psicólogos qual era o seu palpite acerca do número de pessoas que continuaria para lá do limite supostamente fatal, e eles imaginaram que seria menos de um por cento. Engaram-se bem, sendo que cerca de metade dos sujeitos não conseguiram parar.
               
E assim é o Homem – um ser com um potencial enorme mas que, infelizmente, muitas vezes não tem nem inteligência nem os tomates para fazer o que está certo.
               
Quanto ao gajo que matou os outros no S21...
Da maneira como eu vejo as cenas, há três razões para condenar alguém: para castigar, para fazer que com o cárcere, por exemplo, ele não possa continuar com o seu comportamento, e para dar o exemplo e daí fazer as pessoas pensarem duas vezes antes de seguirem em frente com planos maquiavélicos. A segunda e a terceira são, eventualmente, úteis e fazem algum sentido. A primeira não tem utilidade nenhuma. Assim, falando com a distância confortável de quem nunca teve ninguém próximo de si assassinado ou violentamente agredido, acho que, se se soubesse que a pessoa nunca mais ia fazer nada igual, não faria sentido o cárcere, se não fosse pelas razões número dois e número três. Com este ex-guarda da S21, resta apenas a razão um. Isto porque é uma situação tão particular, que nem vai ser tomado como exemplo para comportamentos futuros.

Mas lá está,... ao ver o gajo naquele ecrã, a falar todo contente, questionei severamente a minha lógica.

Quando deixámos o museu, fomos comer qualquer coisa. E o resto do dia, basicamente, passamo-lo a passear pela cidade, tirar umas fotos e actividades afim, até que ao lá p’rás quatro eu fui buscar o meu passaporte com o visto vietnamita.

A noite foi porreira. Era a nossa desta de despedida por isso fomos beber umas cervejas. Como já disse, sudoeste asiático – cerveja. Bebemos um par de jarros lá num sitiozinho bacano, e depois mudámos de sítio, para um sítio um bocado mais caro, mas à beira-rio, com mais cenas p’ra ver. Ficámos lá um par de horas e depois bazámos. Foi aqui que tivemos uma surpresa. Éramos para ir para o hotel, mas já não sei porquê decidimos ir beber mais uma cervejita ali num bar à frente do nosso pouso. Um jarro de cerveja era cerca de um euro e vinte. E foi muito fixe porque aquilo sim, era o Camboja! No primeiro sítio onde tínhamos estado não havia turistas, mas depois à beira-rio já se ouviam as línguas europeias em barda. Mas aquele sítio onde acabámos por ficar uma horita era a verdadeira cena. Um bando de  Cambojanos porreiros e moderadamente bêbedos, na sua VIDA de cortiré, com o ocasional momento em que metiam conversa connosco.
               
No dia seguinte despedimo-nos, e eu segui para o Vietname.

17h25-2ª-25-7-11
algures entre Da Lat e Hoi An