domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Partida



Terça-Feira, dia 4 de Fevereiro! O dia de partida! Depois de tantos meses, era aquele o dia em que, finalmente, ia bazar. Há milhões de anos atrás, quando andava pela Ásia, comecei a fantasiar com uma viagem do Alasca à Patagónia sem voar. Tinha curtido tanto o conceito de longas viagens por terra que queria continuar. Depois comecei mesmo a curtir o conceito de “Daqui Ali”, e pensava em ir de Portugal ao Leste da Rússia, apanhar um barco para o Alasca (se fosse possível, não sei se é), e depois ir daí à Patagónia.
               
Mas comecei a pensar... e percebi que eu queria mesmo era visitar o mundo todo. E África faz parte do mundo, ainda que às vezes não pareça. Estamos sempre a ouvir coisas assustadoras deste continente, e supostamente é o mais exigente para se viajar. Ora estas estórias do quão terrível é deixou-me com vontade de o ir conhecer. Será que é mesmo assim? Nasceu aí o bicho africano em mim. Não só comecei a pensar em lá ir porque queria ver se era mesmo assim tão mau, mas também porque se realmente fosse assim tão difícil, eu queria atravessá-lo o mais cedo possível, enquanto sou esta pessoa que não tem grandes exigências em termos de conforto, que tem a estaleca jovem que lhe permite... qualquer coisa. Nem sei se este último argumento não será uma desculpa esfarrapada, pois só deixarei de ser esse jovem se me permitir. Mas pode ser que me apeteça, mais cedo ou mais tarde, adoptar um estilo diferente. Não quero ser refém de mim mesmo e prometer-me que sempre andarei a viajar em baixo custo, à boleia e a dormir no chão se for preciso. Neste momento isso faz um sentido enorme para mim, mas não sei o que me reservo.
               
Estava então decidido que ia para África. Mas como? À boleia, claro está. Quando tempo? Um ano. Para dar a volta toda. Parecia-me bem. Contudo, em Abril, pouco depois de ter lançado o meu livro sobre as viagens asiáticas, fui a um encontro de viajantes organizado pelos escuteiros, em que várias pessoas falavam acerca das suas aventuras. Era num Domingo, e calhava mesmo bem, porque no dia anterior apresentaria o meu livro na Cineteka do Parque das Nações. A mesma viagem servir-me-ia dois propósitos.
               
Com duas horas de sono à pala da noite lisboeta fui para o Cais do Sodré contar as minhas estórias e ouvir as dos outros. Foi um dia cheio e porreiro, e tive oportunidade de ouvir o Rafa e a Tânia a falar da sua viagem de bicicleta de Portugal a Macau. Notava ali algo de diferente e de apelativo. Depois foi o Idílio falar da sua viagem, também de bicla, do Canadá à Patagónia. Okay, estava a confirmar-se que algo nascia dentro de mim. Tinha que dar uma voz interna àquela vontade... “Foda-se, vou até à África do Sul de bicicleta!”. Não havia volta a dar, estava decidido.

Ainda tinha muito caminho pela frente. Tinha decidido que ia em Janeiro do ano seguinte, ainda tinha muito tempo para preparar tudo. Mal sabia que prepararia tudo em três ou quatro dias, e que partiria, nessa Terça de Fevereiro, a sentir que já ia atrasado.

No dia de partida fui de manhã com o Santi a Sangalhos buscar uns alforges para trás e o porta-alforges para a frente à Majori Bikes. Quando cheguei a casa, depois de preparar uns livros para enviar por correio enquanto o Santi instalava o porta-alforges, e de almoçar com o meu irmão, chegou o João, o Pipita, o Miguel e a Ausra para me darem a despedida. Tinha-lhe dito que bazava às onze da manhã. Depois às duas, depois às duas e meia. Estes amigos ajudaram-me a preparar tudo, desde meter a luz, a buzina, fazer a mala, instalar o conta-quilómetros, e o meu pai tinha chegado há meia hora quando eu estava pronto para partir, passava o relógio das quatro. Da sala a minha mãe expressava a sua incompreensão em eu querer ir naquele dia em que São Pedro parecia querer castigar os meus pecados. Chovia e o Vento rugia. O meu pai também não percebia. Aliás, todos me aconselhavam a ficar. Mas eu tinha que ir! Já queria ter ido na Segunda e não tinha dado. E queria chegar a Portalegre no dia 10 para o aniversário da Graciete, e as minhas contas a 40km por dia obrigavam-me a partir naquele dia. Tinha de ir! Não podia deixar que, logo no primeiro dia, circunstâncias externas a mim, como o clima, me travassem.
               
Meti o capacete, vesti o casaco, meti a mochilas às costas e outro caso por cima da mesma, tirámos umas fotos, e meti-me na bicicleta. Comecei a deslizar, sorri abertamente para a estrada e gritei para os meus amigos e família “HASTA LUEGO!!”. Estava em viagem, e tinha saído da porta de minha casa, o que eu mais queria.

O João tinha dito que o meu pai ia comigo até Águeda. Pensei que estava no gozo. Mas não só veio até Águeda como ainda fez comigo o trajecto Figueiró dos Vinhos – Proença-a-Nova e Proença – Portalegre, de onde agora escrevo. Foi ter comigo à rotunda quem sai de Vale de Cambra, e já estava eu encharcado. Ora como estava de bicicleta não podia ir por nenhuma via rápida, pelo que tive que ir pelas terriolas entre Vale de Cambra e o concelho de Oliveira de Azeméis. O problema de viver num Vale é que tem, bem... montes. Vários. E isso de bicicleta não é nada fácil. Especialmente se há rajadas de Vento daquelas que quase nos mandam abaixo da bicicleta, se está a chover tanto que nos custa conduzir de olhos abertos, se o máximo que já andámos de bicicleta num dia foi 24km ou se a última vez que fizemos desporto foi há... olha, parei agora de escrever e olhei para o tecto, enquanto coçava o queixo a ver se me lembrava. Nada feito. Mas ainda assim lá fui seguindo, com muito esforço, subindo bastante, quilómetro após quilómetro, com o meu pai calmamente atrás de mim de carro.
               
Chegámos à nacional, parei no semáforo e o meu pai diz-me que “só” faltam 26km. A partir daí, como não podia vir atrás de mim, ora me ultrapassava, ora o ultrapassava eu. Ele dizia que vinha caso eu caísse, porque à chuva é mais perigoso e não sei quê, mas acho que ele quis vir mais por fazer parte deste projecto e para ir dando um lento “até já”. E no fundo foi fixe. Nesse dia foi fixe porque deu-me outra pujança para conseguir chegar a Águeda, e noutros dias foi fixe porque foi fixe.
               
Foi um esforço colossal. Pedalava com as forças que ia buscar a todo de mim, sentia o cabelo molhado a bater nos lábios, tinha de cerrar os olhos ao máximo para não me cegar com as gotas atacantes, o rabo ia-se queixando, as mãos doíam e não podia levantar muito o pescoço senão tinha uma cãimbra enorme. Às vezes questionava se aguentaria, mas visualizava a África do Sul ali à frente. Repetia baixinho “África do Sul” e mandava umas caralhadas e lá seguia, com outra pujança. Quando vi, pela primeira vez, “Águeda” numa placa comecei aos berros “ÁGUEDA CARALHO!! VAMOS LÁ CARALHO, TU CONSEGUES!!!”, tanto que fiquei um bocado rouco ao fim. E foi assim que me fui apercebendo que, talvez até mais do que força física, um desafio destes requer força mental. Porque iá, eu não tinha preparação física nenhuma, mas é verdade que me considero muito forte psicologicamente, e isso vai valendo. “Sabes porque é que conseguiste?”, perguntava-me o João, ao telefone, chegado eu a Águeda, “Porque és um teimoso fodido!”. Teimoso, forte psicologicamente... Bem, são termos que por vezes se cruzam...

Entrei por Águeda Norte e passado dez minutos parava a bicicleta à beira do rio. Tinha conseguido. Sentia um orgulho fixe. Na verdade, sentia-me um bocado como se fosse o maior. É o que acontece quando nos propomos a algo, a meio achamos que não vamos conseguir, mas encornamos e conseguimos mesmo.
               
O meu pai desapareceu assim meio de repente. Tinha pedido direcções a uma senhora e havia alguns carros atrás dele e teve de bazar, nem nos chegando a despedir. Eu perguntei à mesma senhora onde era a D’Orfeu, onde contava ficar, e lá fui. Aquilo estava fechado e fui para o Bar à frente, o Johnny 101, à espera do Lima e da Rita. O Lima fazia anos e vinha de Famalicão buscar a Rita a Águeda para jantar. Eu calhei de lá estar e calhei de ir.
               
Deixei a bicicleta lá fora, pedi um café, e sentei-me, a pensar o que ia fazer à minha VIDA. Estava encharcado, e poucas coisas na minha bicicleta não estavam do mesmo modo. Pensei em ir ao quarto-de-banho mudar-me, mas não sabia onde estava nada. De repente lembrei-me que pedir ajuda aos meus amigos para fazerem a minha mala não foi das melhores ideias. Como também não sabia das chaves dos cadeados, pedi ao Johnny para deixar a bicicleta na zona de fumadores do bar, uma parte lá fora, oposto a quem entra, e com mais que espaço para não dar nas vistas.
               
- Porquê?... – perguntou com um sorriso meio foleiro.
- Porque eu não sei das chaves do meu cadeado. Mas... incomoda-o?
- Incomoda – respondeu. Agradeci de qualquer maneira, sem perceber muito bem a cena, e voltei a sentar-me. Entretanto liga-me o Lima a perguntar se eu confirmei com o pessoal da D’Orfeu. Quando digo que não ele põe-se a disparatar a dizer que aquilo não era um dormitório e não sei quê. Ora tinham-me dito que dava para lá ficar, eu disse “Fixe, obrigado”, pensei que fosse isso. Mas não era, e não estavam a contar comigo, pelo que fiquei sem saber onde ficar. Entretanto chegou o meu amigo e a sua namorada, e fomos até aos Bombeiros. Perguntei se dava para ficar, que qualquer local era bom, mesmo o chão, mas disseram que quem estava a receber peregrinos era a Cruz Vermelha. Para lá fomos. Chegados, disseram que iam ver. Tive o cuidado de dizer que qualquer local dava, mesmo o... chão.
- Desculpe, mas só temos lugar para dois peregrinos e já cá temos dois... – responderam, para minha frustração. Não fiquei zangado, porque não tenho o direito de exigir nada, mas fiquei um bocado desiludido com a falta de vontade e improviso que o pessoal às vezes tem.
               
A partir daí foi ver no couchsurfing, perguntar a pessoal no facebook, e a opção mais viável parecia eu ficar em Aveiro em casa doutro amigo. Sempre íamos para lá jantar, assim ficava em casa do Hugo e no dia seguinte apanhava autocarro para Águeda e seguia de lá. Estávamos já no restaurante de Sushi com o meu irmão, que veio lá ter, e dois amigos do Lima e da Rita quando a namorada do meu amigo diz que afinal podia ficar em casa da Léa. Excelente!
               
Chegados a Águeda ainda fomos beber uma cerveja com a miúda. O pessoal bazou e fui para casa da Léa com a mesma e o Rui, seu namorado (não curto o termo “companheiro”). Ficámos umas duas horas no paleio a beber chá e cama. No dia seguinte, ainda com tudo molhado, Coimbra!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As Compras Pré-Partida



- Que bicicleta é que tens? – perguntou-me a Cáti, na última Quinta-Feira antes de partir. Tinha-a convidado para o meu jantar de despedida nesse Sábado, mas como a miúda ia para o Brasil, disse para ir jantar a casa dos pais dela, para o aniversário surpresa do seu pai.
- Não tenho bicicleta ainda... – respondi, inocentemente. As gargalhadas demoraram um pouco a parar.

Na verdade, quando na Sexta acordei, olhei para a minha mesinha de cabeceira, do meu lado direito, e ali estava a única cena que tinha comprado para esta viagem – um tubo de filtrar a água para poder beber do rio em África! Não tinha bicicleta, utensílios, e o meu passaporte só estava pronto na Quarta, partindo eu na Terça. “’Táss bem”, pensei. Porque na verdade ‘tava-se bem. Em minha defesa, tinha muito recentemente apenas sabido que podia ir de bicla, pelo que não pude arranjar nada. É certo que o soube na Terça e até então não tinha arranjado nada. Mas cada um tem o seu estilo e a sua cena. O meu estilo e cena passa um bocado por levar com o cepticismo do pessoal que me rodeia. “Vais quando? Algum dia!? Não tens nada pronto! É-me difícil levar este teu projecto a sério porque não arranjaste nada! Estás a tratar das cenas irresponsavelmente! Não fazes a mínima ideia disto e daquilo!”, e frases do género, que eu lá ia ouvindo, deliberadamente deixando entrar num ouvido e sair noutro, por sentir tais afirmações como precipitadas ou injustas.

Por ter uma maneira de ser bastante desprendida e relaxada, acho que às vezes o pessoal confunde isso com toleirice. Sei lá, algo do género. Acho que às vezes não me dão muito crédito, é isso. Não digo isto com rancor ou mágoa, pois se tanta gente o diz realmente devo emitir uma onda qualquer de desorganização. Que não corresponde necessariamente à realidade. Pois o que interessa é que as coisas aconteçam! Para que é que eu precisava de ter tudo com duas semanas de antecedência?

Assim, depois de ter reflectido a olhar para aquele tubo, liguei para a Veloculture, uma loja de bicicletas em Matosinhos que o Rafa 2numundo me tinha aconselhado. Falei-lhes do que ia fazer, eles aconselharam-me a Raleigh Royal e predispuseram-se a fazer-me um desconto de dez por cento como forma de apoio. Liguei ao Miguel e fomos lá buscar a bicicleta que baptizarei de Bicicleta. Okay, já tinha uma bicla, excelente!

O resto ficaria para Sábado. Liguei ao João e ao Lima, que tinham dito que vinham comigo comprar as cenas e, juntamente com o Filipe, que tinha vindo de Lisboa para o meu jantar de despedida, lançámo-nos para a Decathlon de Aveiro. Três horas e 525€ saíamos de lá com quase tudo o que eu precisaria nesta viagem. Ficou a faltar um fogão de vários tipos de combustível e os alforges.

Nesse dia tive o meu jantar de despedida. Foi fixe juntar no mesmo restaurante do costume tanto amigos quanto família, e foi uma noite demais. Tão fixe que só fui dormir no dia seguinte às nove da noite...

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Evitar Pôr-se De Cócoras



Terça-Feira, dia vinte e oito de Janeiro, levanto-me no Porto, com a cabeça a zumbir um pouco. Tinha chegado de Portalegre no dia anterior, disse ao Santi para aparecer na Invicta e aproveitei Segunda à noite para ir cortiré com ele, a Valentina e duas erasmus que estavam a ficar em casa da minha amiga.
               
Debaixo daquele clima tão portuense, enfiamo-nos no Mitsubishi do careca e ele deixa-me em Santa Maria da Feira, a caminho de São João da Madeira, onde vive. Corro para o Campos Costa e entregam-me o meu destino numa saca de plástico. Apanho um autocarro para o Porto, saio na Batalha, caminho um pedaço e almoço, a pensar no que o médico diria. Pago, saio, e chego ao consultório nas calmas, onde espero um pedaço.
               
- Tenho aqui 578 chamadas não atendidas! – diz-me o simpático e baixito ortopedista.
- É por causa do Falcão?
- Pois...
- Acha que ele se safa para o Mundial?
- Acho que sim – responde, estranhando eu, sendo que tinha lido uma entrevista sua em que dizia que a esticar um bocado havia uma possibilidade de cinquenta por cento. Falamos um bocado acerca da sua fotografia com o jogador de futebol e o presidente da Colômbia até que nos lembramos para que é que eu lá estou, ele saca de um papel escrito em mediquês e diz, com um tom de quem acha graça àquilo “Então quer ir até à África do Sul de bicicleta, não é?”. “Pois, se der, quero...”.
               
Uma ou duas semanas antes tinha lá estado para ver se tinha capacidades físicas para desafio. Já lá podia ter ido mais cedo, sendo que esta lesão tinha acontecido em Agosto quando, lá p’rás duas da manhã eu e o Sam decidimos fazer um círculo na areia numa praia croata e lutar Sumo. Ganhei 4-1, mas perdi um joelho. Quando fui fazer a ressonância que o médico aconselhara na primeira vez que o vira, tive um raro acesso de vergonhita, e quando o técnico me perguntou como me tinha aleijado disse-lhe que tinha sido a fazer luta Greco-Romana. Não sei qual das opções é a mais foleira, na verdade.
               
Pois com o joelho direito de uma forma que não o conseguia dobrar completamente, não sabia se conseguiria pedalar quinze mil quilómetros África abaixo. Começava a constatar que esse recém-sonho estava em vias de cair, e começava a pensar em alternativas. Desde ir de Famel a ir de burro, tudo esteve em cima da mesa.
               
Até que eu fui lá naquela Terça-Feira, para o homem ver a ressonância. Abriu aquilo, olhou como quem olha para um livro infantil, virou-se para trás e apresentou-me um modelo de um joelho.
               
- Pois... você tem os meniscos diferentes... ‘tá a ver não-sei-quê e não-sei-quê? Costuma ser assim e assado e você tem-nos assim desta forma. Podia ser operado, mas assim daqui a uns dois ou três anos o mais provável é ter artroses...
- Mas... isto é genético, é isso? – perguntei, lembrando-me que mesmo antes do episódio da luta de Sumo, tinha dificuldade em pôr-me de cócoras e levantar-me sem ficar com cãimbras.
- É. E dando-se uma rotura fica assim. Evite pôr-se de cócoras.
- P’ró resto da minha VIDA?
- Olhe, eu desde os 24 que não dou uma corrida – responde-me, talvez tentando demonstrar alguma empatia, mas eu sentindo como se ele achasse que só me estava a pedir para evitar fazer pinos só com uma mão na Tunísia.
- Então e em relação a África, dá?
- Ah, sim, dá, numa bicicleta não tem problemas... evite é pôr-se de cócoras...

Quando saí do consultório tinha em mim sentimentos ambivalentes. Se por um lado tinha tido a confirmação de que poderia fazer algo que queria mesmo fazer, por outro lado tinha descoberto que tinha um problema genético e que tinha de ter cuidado como dobro os joelhos para... sempre. Pá, claro que pôr-se de cócoras não é assim uma cena que um gajo faça todos os dias, mas não é só pôr-se de cócoras, é fazer desporto e estar sempre preocupado em não cair mal. São algumas cenas que me deixaram um bocado abatido durante alguns minutos. Até que vem aquela onda... de me aperceber que há pessoas com problemas muito piores, e que estar ali feito coitadinho a ter pena de mim próprio não valia de nada. O que interessava era que sim, ia conseguir.
               
Ia para África de bicicleta. Agora era arranjar tudo... pois não tinha nada. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A Compra do Henry, o Bólide

Cheguei a Budapeste todo partido. Tinha feito os meus oito turnos em Birmingham e fui da Comunidade Terapêutica para a estação de autocarro por volta da meia-noite. O melhor vôo que tinha conseguido partia do aeroporto de Stansted às oito e meia da manhã, pelo que tinha de apanhar um autocarro de Birmingham à uma, estar no aeroporto às quatro, e depois anhar até à hora do vôo. Detesto este tipo de vôos, passar noites no aeroporto... e é sempre a mesma merda. Chego lá decidido a não dormir, com medo de não acordar para o avião, aguento-me na boa a ver séries, e p’rai duas horas antes do vôo começo a prepositadamente dormitar, sempre a acordar sobressaltado a cada cinco minutos convencido de que o vôo já partiu. Nunca aconteceu.
           
Entrei no avião meio torto e nem cheguei a ouvir as senhoras a dizerem para usarmos coletes amarelos e não stressar. Nunca as ouço, na verdade... como tenho um amigo que faz, ou já fez, essa parte, sinto-me um bocado mal por isso, mas a verdade é que acho que essas cenas já estão gravadas em mim... e depois há aquele argumento meio fatela de que se um avião cair... caiu. Não me lembro de ver nenhum sobrevivente a dizer “ui pá, por acaso o que me salvou foi ter saído ordeiramente pelas saídas de emergência depois de ter mandado o meu oxigéniozito da máscara que caiu!”.
           
Saí do avião ainda mais torto. “Foda-se, agora tenho de ver como é que vou ter ao caralho do parque automóvel para comprar o carro”, pensei. O Gabor já me estava a sair uma bela peça. Co-organizador do Black Sea Run, o húngaro tinha prometido que ia ter comigo e outra equipa ao parque para nos ajudar a comprar o carro. Éramos as duas únicas equipas, de treze ou catorze, que ainda não tinham carro. E vim a descobrir que a outra já o tinha comprado no dia anterior. Okay, os tugas, os últimos a comprar o carro. Os tugas e o Sam, que se entugueceu para, e ao longo, da viagem.
           
Tinha a morada do parque apontada num papel, que entreguei ao taxista. Doze euros depois, o méne deixou-me num parque que tinha uns dois mil carros. Duas horas de sono nas trombas, um mochilão às costas e o céu a armar-se em esperto. “Não me digas que vai começar a chover”. Tínhamos combinado que, no máximo dos máximos, daríamos quatrocentos euros pelo carro, já com o registo, que custava quase duzentos euros, e assim, munido desta ideia, pus-me a perscrutar a cena. Mil, setecentos, mil e tal, seiscentos, alto! Um clio por quinhentos e noventa! Estava-me a passar com aquela cena. Tínhamos visto carros privados (sem papéis) por cem euros, e o caralho do Gabor tinha-me dito que depois de os registar e tal, que o preço ficava mais ou menos o mesmo. E ali estava eu, a ver carros com aqueles preços terríveis.
           
Continuei a andar, sempre a andar, acho que vi os carros todos, e depois de alguma negociação, o carro mais barato que encontrei foi um carocha por quatrocentos e cinquenta euros. Curti o bicho, mas aquilo era apertado para quatro, quanto mais quatro com quatro malas. Troquei algumas mensagens com o João, ele a chatear-me para continuar a ver, eu frustrado por já ter visto tudo o que havia para ver. Continuei a caminhar até que vi um Suzuki Maruti branco todo giro cujo preço ainda não tinha inquirido. Perto do carro estava um gordo meio transpirado e outro gordo com cara simpática. Perguntei quanto era o carro, mas já estava tomado. Reparei que o simpático se desenrascava em inglês e comecei a falar com ele, na esperança de que traduzisse para o outro. “Black Sea?”, perguntou o transpirado. Estranhei, até que o simpático me disse que o Maruti tinha sido precisamente comprado pela outra equipa a quem faltava um bólide. Perguntei por quanto e quando o simpático perguntou ao transpirado, reparei que o gajo fez cara de “hei pá, que os chulaste tanto!” - tinha sido mais de setecentos euros!
           
- Podes dizer ao gajo que eu quero o carro mais barato possível? Todos estes carros são demasiado caros para mim... – pedi ao simpático.
- Ele diz que tem um Ford Escort por quinhentos euros... ele ligou a um amigo para o trazer – respondeu. Detesto quando fazem isto! Não tinha pedido nada e o gajo mandou logo o carro vir, deixa comigo uma pressão desnecessária.

- Ui, quinhentos euros é bués! – disse o João.
- Iá, mas tirando o carocha, onde não cabe nem um besouro, é o mais barato! Mas até curtia o carocha...
- Não pode ser, méne...
           
Continuei, em vão, à procura, e voltei aos gordos. O simpático começou a ver carros na internet, dizendo-me que o que o transpirado pedia pelo Escort era muito. Na internet havia carros privados a cem euros... a cena é que vinham sem papéis... e a outra cena é que se quiséssemos legalizar o carro ia demorar dias, e o rally começava daí a dois dias.
           
- Achas que se levasse um carro privado sem papéis me lixava? – perguntei ao simpático, que me disse que talvez não mas que não sabia se valia a pena arriscar. Talvez não? Para quem já tinha ido de carro ao Mali, o gajo estava a bater mal! É que nessa viagem acabariam por nos pedir os papéis não só em todas as fronteiras como duas ou três outras vezes só porque sim. Acabei por resistir ao fascínio de comprar um carro tão barato e esperei pelo Ford. Pá, era um carro cinzento com rebordos cor-de-laranja “por causa da neve”, uma roda sem tampão de jante e um tecto de abrir. Dei uma volta, pareceu-me razoável. “Estou a ver que sabes testar carros”, disse-me o dono do carro, só porque testei os travões. O gajo estava numa de me fazer sentir bem... agora que penso nisso, acho que até as luzes me esqueci de testar...
           
Liguei ao João, e o gajo continuava a foder-me a cabeça para encontrar outro, negociar, tirar um do cu, não sei bem que é que o rapaz queria. Ia falando com o méne, e de quinhentos euros consegui que baixasse para quatrocentos e vinte. Outra chamada ao João, que queria esperar para o dia seguinte para depois irmos lá todos e procurar melhor. “Pá, vou ter de tomar uma decisão, ficamos com este carro”, disse. Já lá estava p’rai há seis ou sete horas, e se deixássemos para o dia seguinte, sexta, corríamos o risco de vir o fim-de-semana, atrasarem-se os papéis e perdermos a partida. Ainda consegui baixar mais vinte euros e apertei a mão ao homem. “O quê, quatrocentos euros?”, dir-me-ia o Gabor, na noite seguinte, “Isso não é nada! O vosso carro é o mais barato de todos!” exclamava, para nosso contentamento. “Oh yeah, o carro comprado mais tardiamente e o mais barato de todos”, sorríamos. Na verdade, era mais barato do que qualquer um daqueles dois mil que lá estavam.

Tínhamos um carro.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Daqui Ali - Comunicação Social e Ligações "Interessantes"

Página Geral
  • www.daquiali.com
Facebook
  • www.pedroontheroad.com
Canal do Youtube
  • http://www.youtube.com/user/pedroontheroad

 Televisão/Vídeo

  • MVMtv - 28 de Novembro 2011
        *Entrevista para o programa "Tu Cá, Tu Lá"

 

  • Canal Superior - 12 de Julho 2012
         *Entrevista Sobre Boleiar 

 
  
  • +TVI - Abril de 2013
         *Programa "É a VIDA Alvim!" comigo e a Simone de Oliveira
          [apenas parte de um programa de uma hora]

          Clica Aqui

  • Trailer do Livro

Imprensa & Internet


  • P3 [Público] - 10 de Março 2013

       *"Daqui Ali", um psicólogo à boleia

 

  • Blogue Psicologia 4U - 16 de Abril 2013


  • Jornal de Notícias - 21 de Abril 2013
         *"Não escrevo para ser rico, mas se puder viver disto..."


  • Diário Digital -  22 de Abril 2013

        *António Pedro Moreira: «Tangente» a Bin Laden retratada em livro de português

  •  Fugas [Público] - 24 de Maio 2013

         *De Portugal a Singapura à boleia, 314 carros depois


  • iOnline - 24 de Junho 2013
        *Daqui Ali: "Achei que a melhor maneira era ir ver por mim mesmo"


Rádio

  • Antena 3 - 16 de Maio 2013
         *Prova Oral com António Pedro Moreira, Leandro Morgado e Nuno Alberto