segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

As Compras Pré-Partida



- Que bicicleta é que tens? – perguntou-me a Cáti, na última Quinta-Feira antes de partir. Tinha-a convidado para o meu jantar de despedida nesse Sábado, mas como a miúda ia para o Brasil, disse para ir jantar a casa dos pais dela, para o aniversário surpresa do seu pai.
- Não tenho bicicleta ainda... – respondi, inocentemente. As gargalhadas demoraram um pouco a parar.

Na verdade, quando na Sexta acordei, olhei para a minha mesinha de cabeceira, do meu lado direito, e ali estava a única cena que tinha comprado para esta viagem – um tubo de filtrar a água para poder beber do rio em África! Não tinha bicicleta, utensílios, e o meu passaporte só estava pronto na Quarta, partindo eu na Terça. “’Táss bem”, pensei. Porque na verdade ‘tava-se bem. Em minha defesa, tinha muito recentemente apenas sabido que podia ir de bicla, pelo que não pude arranjar nada. É certo que o soube na Terça e até então não tinha arranjado nada. Mas cada um tem o seu estilo e a sua cena. O meu estilo e cena passa um bocado por levar com o cepticismo do pessoal que me rodeia. “Vais quando? Algum dia!? Não tens nada pronto! É-me difícil levar este teu projecto a sério porque não arranjaste nada! Estás a tratar das cenas irresponsavelmente! Não fazes a mínima ideia disto e daquilo!”, e frases do género, que eu lá ia ouvindo, deliberadamente deixando entrar num ouvido e sair noutro, por sentir tais afirmações como precipitadas ou injustas.

Por ter uma maneira de ser bastante desprendida e relaxada, acho que às vezes o pessoal confunde isso com toleirice. Sei lá, algo do género. Acho que às vezes não me dão muito crédito, é isso. Não digo isto com rancor ou mágoa, pois se tanta gente o diz realmente devo emitir uma onda qualquer de desorganização. Que não corresponde necessariamente à realidade. Pois o que interessa é que as coisas aconteçam! Para que é que eu precisava de ter tudo com duas semanas de antecedência?

Assim, depois de ter reflectido a olhar para aquele tubo, liguei para a Veloculture, uma loja de bicicletas em Matosinhos que o Rafa 2numundo me tinha aconselhado. Falei-lhes do que ia fazer, eles aconselharam-me a Raleigh Royal e predispuseram-se a fazer-me um desconto de dez por cento como forma de apoio. Liguei ao Miguel e fomos lá buscar a bicicleta que baptizarei de Bicicleta. Okay, já tinha uma bicla, excelente!

O resto ficaria para Sábado. Liguei ao João e ao Lima, que tinham dito que vinham comigo comprar as cenas e, juntamente com o Filipe, que tinha vindo de Lisboa para o meu jantar de despedida, lançámo-nos para a Decathlon de Aveiro. Três horas e 525€ saíamos de lá com quase tudo o que eu precisaria nesta viagem. Ficou a faltar um fogão de vários tipos de combustível e os alforges.

Nesse dia tive o meu jantar de despedida. Foi fixe juntar no mesmo restaurante do costume tanto amigos quanto família, e foi uma noite demais. Tão fixe que só fui dormir no dia seguinte às nove da noite...

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Evitar Pôr-se De Cócoras



Terça-Feira, dia vinte e oito de Janeiro, levanto-me no Porto, com a cabeça a zumbir um pouco. Tinha chegado de Portalegre no dia anterior, disse ao Santi para aparecer na Invicta e aproveitei Segunda à noite para ir cortiré com ele, a Valentina e duas erasmus que estavam a ficar em casa da minha amiga.
               
Debaixo daquele clima tão portuense, enfiamo-nos no Mitsubishi do careca e ele deixa-me em Santa Maria da Feira, a caminho de São João da Madeira, onde vive. Corro para o Campos Costa e entregam-me o meu destino numa saca de plástico. Apanho um autocarro para o Porto, saio na Batalha, caminho um pedaço e almoço, a pensar no que o médico diria. Pago, saio, e chego ao consultório nas calmas, onde espero um pedaço.
               
- Tenho aqui 578 chamadas não atendidas! – diz-me o simpático e baixito ortopedista.
- É por causa do Falcão?
- Pois...
- Acha que ele se safa para o Mundial?
- Acho que sim – responde, estranhando eu, sendo que tinha lido uma entrevista sua em que dizia que a esticar um bocado havia uma possibilidade de cinquenta por cento. Falamos um bocado acerca da sua fotografia com o jogador de futebol e o presidente da Colômbia até que nos lembramos para que é que eu lá estou, ele saca de um papel escrito em mediquês e diz, com um tom de quem acha graça àquilo “Então quer ir até à África do Sul de bicicleta, não é?”. “Pois, se der, quero...”.
               
Uma ou duas semanas antes tinha lá estado para ver se tinha capacidades físicas para desafio. Já lá podia ter ido mais cedo, sendo que esta lesão tinha acontecido em Agosto quando, lá p’rás duas da manhã eu e o Sam decidimos fazer um círculo na areia numa praia croata e lutar Sumo. Ganhei 4-1, mas perdi um joelho. Quando fui fazer a ressonância que o médico aconselhara na primeira vez que o vira, tive um raro acesso de vergonhita, e quando o técnico me perguntou como me tinha aleijado disse-lhe que tinha sido a fazer luta Greco-Romana. Não sei qual das opções é a mais foleira, na verdade.
               
Pois com o joelho direito de uma forma que não o conseguia dobrar completamente, não sabia se conseguiria pedalar quinze mil quilómetros África abaixo. Começava a constatar que esse recém-sonho estava em vias de cair, e começava a pensar em alternativas. Desde ir de Famel a ir de burro, tudo esteve em cima da mesa.
               
Até que eu fui lá naquela Terça-Feira, para o homem ver a ressonância. Abriu aquilo, olhou como quem olha para um livro infantil, virou-se para trás e apresentou-me um modelo de um joelho.
               
- Pois... você tem os meniscos diferentes... ‘tá a ver não-sei-quê e não-sei-quê? Costuma ser assim e assado e você tem-nos assim desta forma. Podia ser operado, mas assim daqui a uns dois ou três anos o mais provável é ter artroses...
- Mas... isto é genético, é isso? – perguntei, lembrando-me que mesmo antes do episódio da luta de Sumo, tinha dificuldade em pôr-me de cócoras e levantar-me sem ficar com cãimbras.
- É. E dando-se uma rotura fica assim. Evite pôr-se de cócoras.
- P’ró resto da minha VIDA?
- Olhe, eu desde os 24 que não dou uma corrida – responde-me, talvez tentando demonstrar alguma empatia, mas eu sentindo como se ele achasse que só me estava a pedir para evitar fazer pinos só com uma mão na Tunísia.
- Então e em relação a África, dá?
- Ah, sim, dá, numa bicicleta não tem problemas... evite é pôr-se de cócoras...

Quando saí do consultório tinha em mim sentimentos ambivalentes. Se por um lado tinha tido a confirmação de que poderia fazer algo que queria mesmo fazer, por outro lado tinha descoberto que tinha um problema genético e que tinha de ter cuidado como dobro os joelhos para... sempre. Pá, claro que pôr-se de cócoras não é assim uma cena que um gajo faça todos os dias, mas não é só pôr-se de cócoras, é fazer desporto e estar sempre preocupado em não cair mal. São algumas cenas que me deixaram um bocado abatido durante alguns minutos. Até que vem aquela onda... de me aperceber que há pessoas com problemas muito piores, e que estar ali feito coitadinho a ter pena de mim próprio não valia de nada. O que interessava era que sim, ia conseguir.
               
Ia para África de bicicleta. Agora era arranjar tudo... pois não tinha nada. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A Compra do Henry, o Bólide

Cheguei a Budapeste todo partido. Tinha feito os meus oito turnos em Birmingham e fui da Comunidade Terapêutica para a estação de autocarro por volta da meia-noite. O melhor vôo que tinha conseguido partia do aeroporto de Stansted às oito e meia da manhã, pelo que tinha de apanhar um autocarro de Birmingham à uma, estar no aeroporto às quatro, e depois anhar até à hora do vôo. Detesto este tipo de vôos, passar noites no aeroporto... e é sempre a mesma merda. Chego lá decidido a não dormir, com medo de não acordar para o avião, aguento-me na boa a ver séries, e p’rai duas horas antes do vôo começo a prepositadamente dormitar, sempre a acordar sobressaltado a cada cinco minutos convencido de que o vôo já partiu. Nunca aconteceu.
           
Entrei no avião meio torto e nem cheguei a ouvir as senhoras a dizerem para usarmos coletes amarelos e não stressar. Nunca as ouço, na verdade... como tenho um amigo que faz, ou já fez, essa parte, sinto-me um bocado mal por isso, mas a verdade é que acho que essas cenas já estão gravadas em mim... e depois há aquele argumento meio fatela de que se um avião cair... caiu. Não me lembro de ver nenhum sobrevivente a dizer “ui pá, por acaso o que me salvou foi ter saído ordeiramente pelas saídas de emergência depois de ter mandado o meu oxigéniozito da máscara que caiu!”.
           
Saí do avião ainda mais torto. “Foda-se, agora tenho de ver como é que vou ter ao caralho do parque automóvel para comprar o carro”, pensei. O Gabor já me estava a sair uma bela peça. Co-organizador do Black Sea Run, o húngaro tinha prometido que ia ter comigo e outra equipa ao parque para nos ajudar a comprar o carro. Éramos as duas únicas equipas, de treze ou catorze, que ainda não tinham carro. E vim a descobrir que a outra já o tinha comprado no dia anterior. Okay, os tugas, os últimos a comprar o carro. Os tugas e o Sam, que se entugueceu para, e ao longo, da viagem.
           
Tinha a morada do parque apontada num papel, que entreguei ao taxista. Doze euros depois, o méne deixou-me num parque que tinha uns dois mil carros. Duas horas de sono nas trombas, um mochilão às costas e o céu a armar-se em esperto. “Não me digas que vai começar a chover”. Tínhamos combinado que, no máximo dos máximos, daríamos quatrocentos euros pelo carro, já com o registo, que custava quase duzentos euros, e assim, munido desta ideia, pus-me a perscrutar a cena. Mil, setecentos, mil e tal, seiscentos, alto! Um clio por quinhentos e noventa! Estava-me a passar com aquela cena. Tínhamos visto carros privados (sem papéis) por cem euros, e o caralho do Gabor tinha-me dito que depois de os registar e tal, que o preço ficava mais ou menos o mesmo. E ali estava eu, a ver carros com aqueles preços terríveis.
           
Continuei a andar, sempre a andar, acho que vi os carros todos, e depois de alguma negociação, o carro mais barato que encontrei foi um carocha por quatrocentos e cinquenta euros. Curti o bicho, mas aquilo era apertado para quatro, quanto mais quatro com quatro malas. Troquei algumas mensagens com o João, ele a chatear-me para continuar a ver, eu frustrado por já ter visto tudo o que havia para ver. Continuei a caminhar até que vi um Suzuki Maruti branco todo giro cujo preço ainda não tinha inquirido. Perto do carro estava um gordo meio transpirado e outro gordo com cara simpática. Perguntei quanto era o carro, mas já estava tomado. Reparei que o simpático se desenrascava em inglês e comecei a falar com ele, na esperança de que traduzisse para o outro. “Black Sea?”, perguntou o transpirado. Estranhei, até que o simpático me disse que o Maruti tinha sido precisamente comprado pela outra equipa a quem faltava um bólide. Perguntei por quanto e quando o simpático perguntou ao transpirado, reparei que o gajo fez cara de “hei pá, que os chulaste tanto!” - tinha sido mais de setecentos euros!
           
- Podes dizer ao gajo que eu quero o carro mais barato possível? Todos estes carros são demasiado caros para mim... – pedi ao simpático.
- Ele diz que tem um Ford Escort por quinhentos euros... ele ligou a um amigo para o trazer – respondeu. Detesto quando fazem isto! Não tinha pedido nada e o gajo mandou logo o carro vir, deixa comigo uma pressão desnecessária.

- Ui, quinhentos euros é bués! – disse o João.
- Iá, mas tirando o carocha, onde não cabe nem um besouro, é o mais barato! Mas até curtia o carocha...
- Não pode ser, méne...
           
Continuei, em vão, à procura, e voltei aos gordos. O simpático começou a ver carros na internet, dizendo-me que o que o transpirado pedia pelo Escort era muito. Na internet havia carros privados a cem euros... a cena é que vinham sem papéis... e a outra cena é que se quiséssemos legalizar o carro ia demorar dias, e o rally começava daí a dois dias.
           
- Achas que se levasse um carro privado sem papéis me lixava? – perguntei ao simpático, que me disse que talvez não mas que não sabia se valia a pena arriscar. Talvez não? Para quem já tinha ido de carro ao Mali, o gajo estava a bater mal! É que nessa viagem acabariam por nos pedir os papéis não só em todas as fronteiras como duas ou três outras vezes só porque sim. Acabei por resistir ao fascínio de comprar um carro tão barato e esperei pelo Ford. Pá, era um carro cinzento com rebordos cor-de-laranja “por causa da neve”, uma roda sem tampão de jante e um tecto de abrir. Dei uma volta, pareceu-me razoável. “Estou a ver que sabes testar carros”, disse-me o dono do carro, só porque testei os travões. O gajo estava numa de me fazer sentir bem... agora que penso nisso, acho que até as luzes me esqueci de testar...
           
Liguei ao João, e o gajo continuava a foder-me a cabeça para encontrar outro, negociar, tirar um do cu, não sei bem que é que o rapaz queria. Ia falando com o méne, e de quinhentos euros consegui que baixasse para quatrocentos e vinte. Outra chamada ao João, que queria esperar para o dia seguinte para depois irmos lá todos e procurar melhor. “Pá, vou ter de tomar uma decisão, ficamos com este carro”, disse. Já lá estava p’rai há seis ou sete horas, e se deixássemos para o dia seguinte, sexta, corríamos o risco de vir o fim-de-semana, atrasarem-se os papéis e perdermos a partida. Ainda consegui baixar mais vinte euros e apertei a mão ao homem. “O quê, quatrocentos euros?”, dir-me-ia o Gabor, na noite seguinte, “Isso não é nada! O vosso carro é o mais barato de todos!” exclamava, para nosso contentamento. “Oh yeah, o carro comprado mais tardiamente e o mais barato de todos”, sorríamos. Na verdade, era mais barato do que qualquer um daqueles dois mil que lá estavam.

Tínhamos um carro.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Daqui Ali - Comunicação Social e Ligações "Interessantes"

Página Geral
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 Televisão/Vídeo

  • MVMtv - 28 de Novembro 2011
        *Entrevista para o programa "Tu Cá, Tu Lá"

 

  • Canal Superior - 12 de Julho 2012
         *Entrevista Sobre Boleiar 

 
  
  • +TVI - Abril de 2013
         *Programa "É a VIDA Alvim!" comigo e a Simone de Oliveira
          [apenas parte de um programa de uma hora]

          Clica Aqui

  • Trailer do Livro

Imprensa & Internet


  • P3 [Público] - 10 de Março 2013

       *"Daqui Ali", um psicólogo à boleia

 

  • Blogue Psicologia 4U - 16 de Abril 2013


  • Jornal de Notícias - 21 de Abril 2013
         *"Não escrevo para ser rico, mas se puder viver disto..."


  • Diário Digital -  22 de Abril 2013

        *António Pedro Moreira: «Tangente» a Bin Laden retratada em livro de português

  •  Fugas [Público] - 24 de Maio 2013

         *De Portugal a Singapura à boleia, 314 carros depois


  • iOnline - 24 de Junho 2013
        *Daqui Ali: "Achei que a melhor maneira era ir ver por mim mesmo"


Rádio

  • Antena 3 - 16 de Maio 2013
         *Prova Oral com António Pedro Moreira, Leandro Morgado e Nuno Alberto


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Cracóvia e o Fim

O pessoal tinha-me aconselhado a passar à frente de toda a gente na espera na fronteira. Não fiz caso e nem me lembrei disso até me ter deparado com o que deparei.

Naquela segunda-feira de dezanove de Março acordei nas calmas, lá p’rás dez horas. Tomei café, despedi-me das miúdas e pus-me a caminho. Apanhei o autocarro, saí onde era suposto, e fui caminhando em direcção ao que me parecia ser a Polónia. Era uma vila muito diferente de Lviv. Assemelhava-se mais àquilo que eu imaginava da Ucrânia antes de lá ter ido, mas era jeitosinha. O pessoal olhava-me de soslaio, talvez por não ver muita estrangeirada naquela altura do ano. Eis que me apercebo que devia estar a mais de quinze quilómetros da fronteira... O tempo ia avançando, e mesmo que caminhasse, a minha VIDA não ia estar fácil... Mas lá fui, de dedo esticado, claro.

Passou um rapaz que ia com a namorada e já tinham dado boleia a uma chavala. Apanharam-me e deixaram-me mesmo na fronteira. Para sair do país foi tranquilo. Contudo, à medida que me aproximava da fronteira com a Polónia, passei-me um bocado. Milhares de pessoas. Era uma fila estranha, porque o pessoal não estava propriamente encavalitado uns nos outros. Era uma fila de uns seis metros de largura, e parecia que estava dividida mais ou menos informalmente por segmentos. Toda a gente, toda a gente com carrinhos de mão descartáveis. Eram os traficantes. Álcool, tabaco, e sei lá eu o quê... A cena é que não tinham nada nos carrinhos. Muitos deles tinham malas cheias, mas apercebi-me que havia mais pessoal a trazer cenas para a Ucrânia do que a levar. Sendo a Ucrânia um país mais barato, não sei o que pode ser... sei só que são cenas pesadissímas. Reparei como o pessoal arfava e parava para descansar a cada cem metros...

Fui-me enfiando nos buracos e às tantas estava na traseira do segmento da frente. Aquilo ia avançando a passo de caracol, eram três e tal da tarde e eu ainda tinha de chegar a Cracóvia, pelo que passados dez minutos decidi seguir o conselho da Natália. Fiz sinal para os guardas, chamei-os e disse que tinha um avião para apanhar, e a perguntar se podia passar à frente. Inventei mais um bocado e os gajos deixaram-me passar. Passado três quartos de hora estava num furgão que me deixaria na estação de comboio.

Ia ficar em casa do Fernando, que tinha conhecido na internet através da minha página no facebook. Segui as instruções do rapaz e lá p’rás onze estávamos sentados em casa dele a ver o sporting e a bater um papo. O Fernando é um jovem descontraído de Mirandela, e vive em Cracóvia com mais dois espanhóis, um deles, o António, o primeiro espanhol que conheci que fal português. Tal como o meu anfitrião, um gajo muito bacano e calmo. Tinham-se conhecido em erasmus e quis o destino que lá fossem parar novamente. Trabalhavam ambos num call-centre e provavam o amor tinham encontrado por aqueles lados.

Tinha pensado ir a Auschwitz no dia seguinte, mas depois não me apeteceu muito... Assim fui ter com o David, outro tuga que tinha chegado a Cracóvia há umas semanas com um saco na mão e uma incerteza em relação ao seu destino. Felizmente acabou por encontrar trabalho também num call-centre, muito devido ao seu domínio da língua inglesa, fruto da sua infância num país francófono de que me esqueci.

Ao início pareceu-me um rapaz meio nervoso, mas acabámos por nos dar muito bem. Fomos ver um museu que não era mais que as fundações de uma cidade subterrânea na zona da praça principal e depois sentámo-nos num bar no paleio. O David é daqueles que estava farto de estar em Portugal e de sentir a falta de oportunidades, ou as eventuais injustiças mais frequentes do que deviam, como cunhas e cenas que tais. Por isso fez-se à VIDA, e até ver, correu bem. Falámos de política, de música, disto e daquilo, e quando demos por ela já tínhamos mudado de bar e já eram oito e tal da noite...

Um bocado já lançados voltámos a casa do Fernando, jantámos e encontrámo-nos com a Asha, que veio também sair connosco de seguida. Foi uma noite porreira, e uma boa despedida da minha viagem...

Sem pregar olho cheguei ao aeroporto, sem saber que VIDA seria a minha, sendo que não tinha imprimido o meu check-in. Mas há pessoal bacano se pedirmos com jeitinho. Assim, com um sorriso e um chapéu de cabedal à cowboy que tinha encontrado na rua, pedi a um rapaz de um rent-a-car e o gajo lá me imprimiu aquilo.

E assim de repente estava no avião, mais uma vez a sentir tudo aquilo quase como se não tivesse acontecido. Um mês de viagem entre breves dias na Roménia, dez na Moldávia, duas semanas na Ucrânia e duas noites na Polónia. Todas aquelas horas, dias e tempos como se tivessem sido um ano. É o que mais me fascina na viagem. É esta noção completamente maluca e distorcida do tempo. Lembro-me quando comecei, ainda estava na Roménia, e já me parecia que andava na estrada há semanas. Não percebo mas adoro. Não sei se tem que ver com a quantidade de pessoas que conhecemos e quilómetros que fazemos, se dos conhecimentos que adquirimos. Sei que o nosso cérebro como que se mostra cansado e saudavelmente envelhece com a constatação de que há mais VIDA em nós do que a dos segundos que a nossa pele viveu.

catorze e trinta e dois, terça, vinte e nove de Março de dois mil e doze
Portalegre, Portugal