quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ko Jum (Parte II)


Nesse primeiro dia em Ko Jum, instalei-me no meu bungalow e conversei um bocado com o Louis, que estava no bungalow ao lado. O meu bungalow tinha muita, muita coisa – uma cama e um mosquiteiro, txara! Chega. O quarto de banho era ali cem metros à frente, e proporcionava-nos daquelas chuveiradas divinas. Era um quadrado de cimento, tapado por uma cortinita, sem tecto. Assim um gajo quando tomava banho às onze da noite tinha um milhão de estrelas como espectadoras.
           
Fomos jantar, e escolhi um livro para ler, que li nessa noite e dois dias. Sue Miller, While I Was Gone – um livro bastante instrospectivo com uma narrativa e enredo interessante. Curti, apesar de me parecer um bocado livro de mulher de meia idade.
           
A comida no Boadeng, o nome daquela “resort” era mais carota daquilo a que estava acostumado, mas muita fixe. Nessa noite comi cajus fritos com não sei quê, e curti bastante.
           
No dia seguinte perguntei ao Loius o caminho para a vila, e acabei por ir com ele, o seu filho, e a outra senhora com cara de enjoada que estava com eles. Não percebi muito bem a cena deles. Ela era mais ou menos da idade dele, viajava com ele, e acho que era mãe do miudo de dezoito anos. No entanto estavam em bungalows separados, e quando comemos, nessa tarde, um gelado tailandês de dez cêntimos, cada um pagou o seu. A mulher não dizia nada e estava sempre com cara de quem estava farta de lá estar. Só impressões.
           
O Louis é um cota fantástico. Às vezes procuro, sem na verdade o fazer
(mais um “esperar-encontrar”) um cota que ache parecido comigo, para saber que é possível envelhecer e manter a características que quero manter. Tenho medo de envelhecer. E às vezes aparece alguém muito porreiro e interessante, e falamos horas e horas, e ao fim dizem cenas que estragam tudo tipo “no fundo, as mulheres são todas umas putas”, ou “nunca gostei muito de pretos”, e eu fico naquela “hei méne, estava a gostar tanto de ti pá, e tinhas de dizer uma coisas destas...”. Mas o Louis não disse nada disto. Era um sueco de sessenta e um anos que nascera no Sri Lanka, e já tinha viajado um pouco por todo o lado. Já tinha estado na Tailândia mais de duzentas vezes e vivido em inúmeros países. Falava sueco, alemão, inglês e francês.
           
- A minha irmã às vezes diz-me que eu vivo a minha VIDA como se estivesse de férias – dizia. – E eu pergunto-lhe “tu quando estás de férias não és feliz?” Ela diz que sim. E eu pergunto porque é que não havemos de viver a nossa VIDA de forma a que estejamos felizes? – nem mais! Às vezes sinto que curtir parece ser pecado. Quando alguém tem a habilidade de levar a sua VIDA de uma forma que não custa muito e não traz muita mágoa ou rancor, o pessoal vem com aquela moral de sanita de “ai tu não sabes o que é a VIDA... é, é... tu? tu? tu devias era dar no duro para ver o que é a VIDA!” – hei pá como odeio isto!
           
Nessa tarde fui lá com eles à vila, que é uma estrada com casitas ao redor, restaurantes e outros serviços. Acho que normalmente não é assim tão isolada como naquela altura, por isso tive sorte em estar em low-season. Já na Europa, apesar do frio, curti ter viajado em low-season. Gosto de conhecer outros viajantes e tudo mais, mas se tiver de escolher entre ruas cheias de estranjeiros e ruas sem nenhum deles, escolho a segunda opção. É paradoxal, este pensamento, porque ao estar num sítio, estou a contribuir para algo que não curto – a cena do turista. Isto é, digo “ai não curto quando um sítio está cheio de turistas”, mas ao estar ali, eu estou a contribuir, com mais um turista. Entendem?
           
A caminho o Loius falou-me das cobras da ilha, e confesso que fiquei um bocado cagado, e depois me custo mais um bocado a adormecer, quando olhava para aqueles pedaços de madeira partida no bungalow por onde as cobras venenosas da ilha podiam entrar. É que aparentemente Ko Jum está cheia, mas cheia de cobras venenosas que não são nada tímidas em ir dar uma olhadela aos bungalows da malta. E em caso de mordidela, o antídoto está em Bangkok, nunca chegando em três horas (o tempo suficiente para ir visitar Jesus) à ilha. Mas não se deve considerar isso um risco que nos impeça de visitar a ilha – afinal de contas, há uns poucos milhares de pessoas que lá vivem sem terem sido atacadas.
           
Uma vez de volta, passei a tarde a escrever, e à noite jantei, e fui ler. No dia anterior tinha-me deitado às dez e tal, e tinha adormecido sem problemas. Se calhar a ultima vez que isto acontecera foi após uma directa, ou quando era criança – um dos encantos daquela ilha. Nessa noite li um bom pedaço e depois fui dar uma volta de meia hora na praia. Estava tão tranquilo, que tirei os boxers e caminhei nu, na paz, debaixo do céu pesado de estrelas.
           
No meu último dia na ilha, fui até à vila outra vez, para almoçar mais baratinho. Caminhava devagarinho, sorvia as curvas, os putos na escola, os velhos a dormir, cada detalhe entrava directamente na minha memória para não mais a deixar. Aquela ilha está gravada em mim. Estive lá um pedaço, voltei. Perguntei ao Loius onde se podia nadar tranquilamente, sendo que na praia à frente havia demasiadas rochas, e ele mandou-me para onde eu tinha acabado de vir. Lá voltei para trás, com calma, a ouvir Regina Spektor, e depois deixou que o mar me abraçasse sem timidez. Curti tanto...
           
Saí da praia, deitei-me numa rede ali mesmo à frente à espera do pôr-do-sol. Ia ouvindo música e tirando umas fotografias. O sol ia desaparecer por detrás de umas nuvens que ameaçavam estragar a fotografia. Mas não conseeguiram, pois deram-me nada mais nada menos que um leque de cores que me deixou em êstase. O tempo parou, para mim. Ouvia música, via o céu como se um qualquer deus tivesse deixado cair no seu tapete celestial o seu estojo de tintas, tudo estava perfeito.
           
E no fundo foi um bocado isto que senti em ter estado em Ko Jum – como se o tempo tivesse parado, como se algo me tivesse oferecido a possibilidade de, por dois ou três dias, não ter nada senão a mim mesmo, a ocasional companhia de outros viajantes, e todos estes pensamentos que me assaltam a cada segundo, que pediram tréguas e foram beber um fino uns com os outros. Estava feliz.
           
À noite conversámos um bom pedaço, depois do jantar. Foi quando o Dave teve aquela ceninha em que mandou o calar o Jean, e foi quando o Louis me disse que a irmã pensava que ele vivia a sua VIDA como se estivesse de férias. Falámos acerca de fronteiras, nacionalidades, e de toda a treta que, no fundo, reside em cada um destes conceitos. Despedimo-nos, trocámos contactos, e no dia seguinte voltei para Phuket, para ir ter com o meu irmão.

13h30-s-2-7-11
Kuala Lumpur, Malásia

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ko Jum (Parte I)


Dia dezanove mandei-me para Krabi. Tinha visto um postal que me parecia porreiro, por isso decidi ir ver a cena. Não estava a curtir muito Phuket e todo o seu turismo algarvio, e o meu irmão só chegava passados uns dias. Não queria ficar lá duas noites à espera.
               
Ora a Bianca, uma rapariga que conhecemos em casa do Wes, nosso anfitrião de Bangkok e que a Sofia dissse que pareceia minha filha (por ser mais novita e toda descontraída, viajante) tinha dito que havia este e aquele sítio que eram muito fixes, um deles na Tailândia, outro no Caboja. Decorar as cenas é sempre para esquecer (literalmente) por isso pedi-lhe para me mandar uma mensagem. Foi o melhor que fiz, porque acabei por me mandar para Ko Jum, que ela tinha recomendado, e ficou essa ilha aqui registada como dos melhores sítios que já visitei neste planeta!
               
Tinha saudades da boleia e a minha carteira estava a queixar-se um bocado da Tailândia. Então decidi boleiar. Pedi lá ajuda ao Dizzy, o canadiano Vegan, e o gajo até ajudou, mas achei piada a como fazia questão de dizer que já tinha boleiado para Numseionde não sei quantas vezes. Acho que um bom exemplo do que senti vindo dele é o seguinte: perguntei-lhe se falava tailandês, e ele disse que sim. Depois perguntei se ele sabia escrever, e ele disse que sim, não sabendo que eu estava a pedir-lhe para ele me escrever uma cena. Quando eu lhe pedi ele ficou um bocado atrapalhado, escreveu dois caracteres, depois perdeu-se a ver como se escrevia Krabi e acabou por esquecer o assunto. Pois.
               
De todo o modo, sob o sol e os seus trinta e tal graus de brinde, lá saí do hostel. Até Krabi eram só três euros e tal, mas que se lixe, fui na mesma. Fui caminhando para norte, para sair da ilha, mas ainda faltava um pedaço. Mas apanhei algumas boleias, até que estava na estrada que, sempre em frente, sairia da ilha. Depois apanhei uma boa boleia p’rai de um quarto de hora, e estava já mesmo quase. E pronto, apareceu aquele bacano, levou-me quase uma hora, deixando-me p’rai a trinta quilóemtros de Krabi. Aí, almoçei num daqueles restaurantezinhos de estrada, tomei café, e segui caminho. Apanhou-me logo um senhor cheio de tiques! Tinha de me esforçar para não me rir. O gajo a conduzir não conseguia ter as duas mãos ao mesmo tempo no volante! A esquerda saltitava entre o volante e o manípulo das mudanças a cada três segundos, não chegando nunca a tocar, e a direita entre o volante e o botãozito de abrir o vidro, onde também nunca chegava a tocar. Enfim, cenas...
               
O cota deixou-me em Krabi, onde fui procurar um computador, pois ainda não sabia bem onde é que ia, tinha de ver como lá chegava. “Ko Jum, ok, siga...”, pensei, ao ler a mensagem da Bianca. Dei lá umas voltas, à procura de um barco que lá me levasse, mas era low-season, por isso nada feito. Tive de apanhar um taxi por sessenta cêntimos que me levou vinte minutos e outro de quarenta cêntimos a seguir que me deixou no portozito, se é que se pode chamar porto àquilo. Já estava a curtir. Não se via nenhuma cara pálida por aqueles lados, havia já algum pessoal muçulmano, sentia que estava mais numa Tailândia que era mais autêntica e real.
               
Após negociar o preço, esperei uma horita e lá fui no barco. Demais. Quarenta e cinco minutos a navegar as pacíficas águas daquele mar aque abraçava um sem número de ilhotas, umas habitadas, outras não, outras com apenas uma barraquita ou outra.
               
Quando cheguei, fui perguntando onde era o Boadeng, o hostel que a Bianca me tinha aconselhado. Estraditas de terra, não vi nenhum carro. Selva e mar. Caminhei p’rai uma hora. Caiu-me o coração a dada altura, e foi uma contradição com o meu estado de espírito, onde reinava a alegria, ao ver um gatito que, imagino, já não vive agora. Chamei-o, ele veio, e depois reparei que tinha um grande cagalhão (não sei como hei-de usar só uma palavra para dizer isto e ao mesmo tempo não dizer uma asneirita) preso ao rabo. Dei uma olhada e era o seu recto que estava a sair. Tentei ajudá-lo com um pauzito (para confirmar se era mesmo o recto e não era o tal cagalhão) mas nada feito. Mas pronto, segui caminho.
               
Meti-me matao adentro, seguindo as instruções, e fui dar à praia, que tinha bué de “resorts” de bungalows, mas não se via ninguém. Digo resort, mas o que quero dizer é grupos de bungalows, sendo cada grupo um, digamos, hotel. Lol que riso só de ver a palavra hotel associada àquilo. Pois procuro por alguém e aparece um méne que me diz que os bungalows são a sete euros e tal o mais barato, longito do mar (prai a cem metros). Sete euros? Depois pergunto onde é o Boadeng, e ele diz que é “já ali”, e vou lá ver.
               
O Boadeng é um grupo de Bungalows. Tem um restaurante no meio, onde a comida é mais cara do que aquilo que costumo comer (2,20€ uma refeição muito bem servida) mas ainda assim acessível. Tem o mar ali mesmo à frente, muitas palmeiras em todo o lado, como de resto assim acontece por toda a ilha, e uma casita maior, onde vive a Rosa e as irmãs, que com outro méne gerem aquilo. Tem umas cadeiritas aqui e ali, espalhadas mais ou menos aleatoriamente, e daqueles sets de bacos e mesa onde um gajo se refastela a ler, ou a comer.
               
Estava lá no meio quando apareceu a senhora que creio ser a Rosa, com o Dave, um inglês de sessenta e poucos anos que vive ali. O gajo ia-lhe mostrar uma boia que dera à costa, e perguntar se estava presa ou uma cena assim qualquer. Tinha uma bengala. Vivia lá há oito anos, e aparentemente teve um acidente no ano passado, e envelheceu bastante desde então, disse-me o Louis, o meu vizinho de bungalow, que já o conhece há anos. Era um verdadeiro hippie dos anos sessenta, fez os trilhos hippies todos, viveu com nómadas no Sudão. E agora vivia ali, um cota interessante mas um bocado arrogante. Não posso dizer que o tenha curtido. Mas deixou-me a pensar... pode parecer o paraíso para muita gente... reformar-se seja de que VIDA for, e passar os dias numa ilha paradisíaca, sem ninguém a nos chatear, bom clima o ano todo, praia o ano todo. Mas o gajo, no fundo, está ali sozinho. Há-de estar feliz, caso contrário não estaria ali... é a cena dele. Mas não entendo esse abdicar de todas as relações que se tem. Deve conhece centenas de pessoas, muitas delas interessantes, mas não são amigos. São pessoas que vêm e vão, pessoas a quem é impossível apegar-se seja de que forma for...
               
Sou o primeiro a dizer que a nossa felicidade não deve depender dos outros. Deve vir de nós, de dentro. Não devemos responsabilizar os outros por aquilo que vai dentro de nós. E por isso mesmo acho interessante a minha dificuldade em perceber este gajo. Porque, ao mesmo tempo, acho que precisamos, ou melhor, que preciso, de estar inserido num qualquer grupo, com pessoas que gostam de mim e de quem eu gosto, para ser feliz.
               
Não fui miuto com a cara do gajo. Primeiro são cenitas, e nós até nos achamos ridículos por termos estes sentimentos. Mas às vezes confirmam-se. Tipo, para mim foi a maneira como ele me perguntou, ao jantar, há quanto tempo estava na Tailândia, e o que disse subsequentemente. Quando disse que estava lá há catorze dias, o gajo diz “muito más maneiras...”. E eu tenho de perguntar o quê, para ele me dizer que era considerado más maneiras jantar sem t-shirt. Não curti a maneira como o gajo disse isso, não que eu seja aqui um sensivelzinho. Tanto que foi só uma cenita, e pedi desculpa e fui buscar uma t-shirt.
               
Havia lá um francês, o Jean, p’rai de cinquenta e muitos anos, que me dava a entender ser um gajo meio solitário. Daqueles que fala muito e aborrece toda a gente. E ainda por cima falava em francês a maior parte do tempo, o seu inglês não era excelente. Mas eu não tinha coração para o mandar calar ou dizer que não estava interessado. E não acho isto hipocrisia, simplesmente estava a dar um pouco de mim a quem, às tantas, precisava, nem que fosse precisar apenas de alguém que manifeste algum interesse. Pois certa noite, em que estamos todos no restaurante (o alpendre de uma casa), o senhor francês ia falando com quem o queria ouvir. A dada altura, começa a encaminhar-se para casa. Mas este senhor é daqueles que demora p’rai meia hora a ir embora de qualquer lado, cada passo é marcado com quatro ou cinco frases. Eu estou num canto, a ler, o Dave noutro canto, a comer. O francês passa por ele, devagarinho, e o Dave faz um sinal com a mão: o braço esticado para a frente, e a palma da mãe para baixo. O braço ia para cima e para baixo. Eu percebi o que ele queria dizer, mas o francês não. Ele estava a mandar o francês calar-se, mas o pobre pensou que ele o estava a convidar para se sentar com ele. Como o francês reagiu rapidamente! Via-se que lhe agradava imenso o convite e ia-se sentir, e o Dave, muito frio, diz “no, no”, e levas a mão aos lábios, dizendo para ele se calar, e seguir caminho. Como o odiei naquele momento! A sério! Tive mesmo pena do pobre Jean. Mas paciência.
               
Estes são dois dos personagens que lá conheci.
               
Fim da Parte I.

1h34-3ª-28-6-11
Georgetown, Malásia

terça-feira, 28 de junho de 2011

Phuket


O plano era ir à boleia para a Malásia, onde eu já tinha um sofá confirmado. Mas sabia que ia ser difícil. Apanharíamos o barco às sete, depois o autocarro às onze e só chegávamos à vila depois do meio dia. Com tudo isto, íamos começar a boleiar tarde. Por isso mesmo avisei a minha possível anfitriã que não tinha a certeza.
               
Quando chegámos a Surat Thani vimos os preços para Penang, na Malásia, e era tudo muito caro. Assim, decidimos tentar a nossa sorte à boleia, com a Sofia muito na dúvida se deveria ir ou não. Foi um tormento até chegarmos à estrada que queríamos. Ninguém percebia o que queríamos fazer, porque o inglês era muito limitado e o conceito de boleiar nem por isso muito popular. Apanhámos um tuk-tuk que andou à volta do quarteirão e nos deixou perto de um autocarro nada longe de onde já estávamos. Depois fomos nesse autocarro, pois tinham-nos garantido que nos levava à estação de comboio e daí podíamos apanhar um autocarro para o aeroporto (na estrada que queríamos para boleiar). Nada feito. Comemos qualquer coisa e eu fui investigar, acabando por descobrir que afinal, mesmo a pé, estávamos só a dez minutos de uma das estradas que eu queria.
               
Lá chegámos e esticámos o dedo. Passados dez minutos entrámos no primeiro carro, que nos levou um bocado, até que aparecia a estrada número 4, a que ia direitinha até à Malásia. Porreiro. Saímos, esperámos dez minutos e estávamos na parte de trás de uma carrinha de caixa aberta, que nos levou dez minutos, até que chegou a altura de sairem da estrada. Esta altura coincidiu com o choro das nuvens. As senhoras deixaram-nos debaixo de uma pontezita, mas não se conformavam. Diziam, no pobre inglês, que não havia carros, que era melhor um autocarro. Coitadas, estavam mesmo preocupadas. Depois voltaram ao carro, e eu estava à espera que bazassem para eu me meter à chuva com o dedo esticado. Mas elas não iam embora. Por isso tive de ir na mesma. Dei uma corridita e meti-me lá com o dedito. Estive p’rai cinco minutos até que alguém, numa estrada que não nos interessava, deu uma apitadela. Aproximei-me e era um casal simpático que ia só uns quilómetros na nossa direcção. Mas pouco mais pouco é igual a muito, por isso pedi para nos levar. Acho que me levava na mesma mesmo que “my friend” fosse um rapaz, mas reparei na prontidão do sim quando disse que era a minha “girlfriend” (não é, mas às vezes dá jeito dizer que somos namorados, ou até casados).
               
Qual não foi o meu espanto quando, ao me virar para chamar a Sofia, vejo a senhora que nos tinha trazido até ali, à chuva a pedir aos carros para nos levarem. A Sofia estava cheia de pena, mas eu curto bué. Vejamos – não curto que a senhora esteja a perder o seu tempo, e muito menos que esteja à chuva por causa de um par de mafarricos que não querem pagar um autocarro. Mas curto imensamente que ela tenha escolhido fazê-lo. Porque gosto de ver a bondade das pessoas. É estranho, para mim, porque estou um bocado desiludido com a humanidade, em geral, e não sei se o mundo caminha para melhores ligações, não sei se o Homem trabalha para que o mundo deixe de sangrar do nariz (como diz a Spektor). Mas ainda assim, amo cada pessoa individualmente. É verdade que talvez amplie os feitos positivos e os veja como eventuais tendências, ao passo que possa ver os negativos como “um mau momento”, mas é assim que, de momento, escolho ser.
               
O casal que nos ia levar um bocado ia para Phuket. E aí está uma das cenas fixes da boleia. O imprevisto. Já não era nada cedo e ainda tínhamos p’rai 700km para fazer. Além disso estava a chuver.
- Queres ir até Phuket? – perguntei à Sofia.
- Quero.
- Can we go with you to Phuket? – perguntei ao senhor.
- Yes, sure – e lá seguimos para Phuket. I isto foi uma grande coisa, para dizer a verdade! É que o meu irmão ia estar em Phuket, e eu ia encontrá-lo aí. Mas a cena é que me confundi com a data em que aí estaria. Assim, caso eu conseguisse boleia até à Malásia, ia ter de voltar para trás dois dias depois, apenas para depois voltar para baixo. Quer dizer, não tinha de fazer nada, mas quereria.
               
Lá chegámos a Phuket. Ele tinha-nos perguntado onde queríamos ficar e eu disse na zona de backpackers (mochileiros). E ele deixou-nos no Backpacker Phuket. Não era baratíssimo (4€ cada um) mas a essa hora não podíamos ir de autocarro para a zona mais barata. Além disso, era fixe, por isso lá ficámos. Ah, e dava direito a uma cerveja, que riso. Estávamos todos partidos, por isso essa noite foi relax.
               
No dia seguinte fizemos as malas e apanhámos o autocarro para Patong Beach, supostamente a zona de festa, ainda que não fosse exactamente a festa que um gajo procurasse. Lá encontrámos o hostel que procurávamos, Cheap Charlie’s, talvez o mais barato de Phuket, onde pagámos 2€ por noite. Deixamos as cenas e fomos para a praia. Tenho a dizer que, apesar de ter passado uma boa tarde, bem que podia estar no Algarve. Pelo menos aquela parte de Phuket, não a aconselhor a ninguém que queira ir à Tailândia. Se alguém curtir o Algarve, como todos curtimos, de uma forma ou de outra, e quiser só dizer que esteve na Tailândia, esse é o sítio. Mas Phuket é grande, e certamente terá cenas diferentes. Mas ali, méne é exactamente como Portimão, mas de vez em quando vê-se algo escrito em tailandês (nem é assim tão frequente).

Estivemos na praia e quando chegámos éramos os únicos na areia. Estava toda a gente nas espreguiçadeiras, que custavam dois euros por pessoa. Depois um grupo de cinco pessoas se deitou perto de nós. Mas os únicos. Mesmo ao nosso lado podia-se fazer aquela cena em que se vai com um para-quedas puxado por um barco. Perguntei a uma rapariga quanto era e ela disse serem 33€. No instante seguinte o méne que estava com ela veio ter comigo e disse que me fazia a cena por 22€. Quer dizer que a miuda nem tentou negociar. E ok, é a cena dela. Eu acho um preço ridículo por uma corrida de dois minutos e meio (contámos), mas sei que isso sou eu que ando numa viagem low-cost. E já paguei 20€ na Polónia por bungee-jumping (que dura ainda menos tempo) e se calhar havia alguém ali a pensar o mesmo que eu penso desses 33€ por esta actividade. Tudo relativo.
               
No nosso hostel conhecemos um gajo interessante. Mal chegámos ele, com o seu sotaque super vincado (era canadiano mas o sotaque é aquele mesmo americano) atravessou o beliche que nos separava para nos dar um abraço. Chama-se Dizzy, tem 50 anos, e é vegan. Para quem não sabe os Vegan não comem nenhum produto animal – nem leite ou ovos, nada. As razões são válidas, mais que válidas, por mais que a malta queira negar, mas não as vou referir agora. A cena é que o gajo, tal como muitos vegan ou vegetarianos, tinha um bocado aquela cena de achar que os vegan são seres superiores. De certa forma, se a pessoa A for igualzinha à pessoa B mas a pessoa B for vegan e a outra não, pode-se afirmar que a B é uma pessoa melhor, porque contribui mais para um mundo sustentável. Mas, apesar da importância de não comer carne, nós somos mais do que “comedores”, e daí desaprovo a assuncção de imeadiato que os vegan são algo assim tão especial. O gajo fez-nos ver uns videos (demasiado) realistas sobre a maneira como as galinhas eram tratadas para dar ovos (horrível e um abre-olhos). Ok, estava a impor um bocado a sua cena, mas ainda assim ok. Mas depois todo o seu discurso – tipo sá aceitava amigos no facebook que fossem vegetarianos ou, se calhar, até vegan, não me lembro. Hã? Que caralho! É a cena dele, é verdade, mas também é a minha cena achar isso ridículo. Apesar de tudo o gajo era interessante, e eu até partilhei consigo esta minha ideia de que muitos vegan se acham superiores, e até lhe disse que ele soava assim, e ele deu umas desculpas quaisquer sobre já ter demasiados amigos no facebook e não sei quê. E a dada altura...

- Tive agora uma conversa mesmo agradável – diz o gajo, vindo de um quarto contíguo, de onde eu o ouvia a falar no skype.
- E longa – respondi, com um sorriso.
- Pois foi. Foi om uma amiga. Mas fui para ali porque eu gosto de falar em privado sobre os nossos assuntos vegan – achei isto o máximo. Mas ok. Outra cena interessante é que o gajo só comia fruta. Aquele dia era o dia da banana. E estava ali como o aço. Magrito mas bem constituído.

Não se passou muito mais nesse dia. Vi o Revolutinary Road que me tocou sobejamente, mas já escrevi sobre isso e publiquei.

No dia seguinte acordei com Krabi (uma terra) na mente! Siga!

18h15-3ª-21-6-11
Ko Jum, Tailândia

domingo, 26 de junho de 2011

Pokhara, Nepal, Há um mês, mais ou menos

http://www.youtube.com/watch?v=sgpt_tqtTUw

clica no link acima, n tou a conseguir por o video aqui

Ko Pha Ngan (Parte II)


Acordei na quarta-feira lá p´rás duas, preparado para tudo menos a Full Moon Party. A noite anterior tinha sido agressiva aqui p’ró estômago – é que whiskey tailandês não é propriamente Johnny Walker Black Label...
               
Mas pronto, um gajo tinha vindo para Ko Pha Ngan para a FMP. E mesmo que não tivesse vindo e a nossa presença fosse uma casualidade, nem uma perna partida me impediria de lá ir.
               
Quando acordei, lembro-me de estar na praia uma bocado, à conversa com a Sofia. Rica Sofia, gosto muito da rapariga, sempre gostei. A conversa flui como se tivesse VIDA própria. Posto isto, um gajo lá se arranjou, foi comer, e depois começaram os preparos. Fui comprar a minha garrafinha de whiskey e aconselhei a Sofia a fazer o mesmo, sendo que valia mais a pena do que os baldes que eles vendiam lá. Claro que não era uma garrafa inteira de whiskey, e nem era dos mais fortes do planeta. Comprámos a garrafinha, bebi um redbull e começamos a fazer sinais às scooters que passavam, para não termos de pagar os dois euros de táxi. A Sofia iria primeiro e eu de seguida. Não demorámos mais de cinco minutos até que apareceu um francês que a levou. Eu fui p’rai dez minutos depois com um tailandês. Cheguei e fui o mais rápido possível para o nosso ponto de encontro, onde estive mais de duas horas à espera da chavala. É que ele estava lá, mas não era muito visível, e ela tinha entrado por outro sítio. Enfim, desentendimentos. Mas na boa. Estava à espera mas estava tranquilo, ia bebendo o meu whiskey e fazendo conversa com a malta. A dada altura já era conhecido naquele sítio específico, o pessoal passava e perguntava se a minha amiga já tinha aparecido e chegavam a dizer “se alguém se perder encontramo-nos no Pedro”. Isto para dizer que, não obstante a espera, eu estava na festa. E como era a festa? Xauzinho! Incrível. Mal cheguei à vila senti o boom. Quando cheguei à rua que dava para a praia foi o delírio. Rua cheia, praia de cheia de malta a bombar. Até de falar nisso agora me dá aqui uma cena e quero voltar. Há bué de cenas que um gajo pode criticar e tal – assim como eu não sou propriamente apreciador de sítios muitos turísticos, um gajo pode aplicar o mesmo, vezes mil, à FMP, mas para mim é diferente. É um evento onde um gajo se perde dentro do que se está a passar. Dezenas de milhares de pessoas na praia, quase toda a gente pintada com cores luminescentes, t-shirts cor-de-rosa choque ou amarelo flurescente, uma fluência de fazer “amigos” incrível. Está tudo a cortiré a cem por cento, o mundo pára naquelas oito ou dez ou doze horas em que aquilo dura.
               
Quando a Sofia apareceu à minha beira já vinha lançadinha e boa parte da garrafa já estava espalhada pelo seu sistema sanguíneo. Mas estava fixe, muito fixe. Eu, que minutos antes tinha dito o seu nome cem vezes, na esperança de que isso resultasse, fiquei em êxtase, porque por mais fixe que estivesse a ser estar ali, era tempo de ir dar uma volta pela praia. Entretanto já tínhamos arranjado um grupinho, composto por um inglês de 35 anos que aparentava 25, dois mexicanos e mais não sei quem. Que dizer mais? Andámos toda a noite de espaço em espaço, a dançar, cortiré, falar com pessoal daqui e dali, até que o sol raiou.
               
A dada altura, já não sei porquê, reparei que a grande maioria dos chinelos perdidos eram do pé esquerdo. E não sei porquê eu e a Sofia começamos a apanhar os chinelos todos que encontrávamos, até que, talvez 25 chinelos depois, os expusemos na praia, numa espécie de perdidos e achados. Eu, que precisava de comprar uns, levei uma havaiana azul tamanho 41-42 e uma branca do pé direito tamanho 39-40, com as quais ando agora. Até tínhamos pares méne! Havia uma secção para pés esquerdos, outra para direitos e uma pequena com dois ou três pares iguais. O pessoal vinha, experimentava, e podia levar, se quisesse.
               
Quando decidimos ir para casa, eu não sabia o que me esperava. Tínhamos combinado que voltaríamos da mesma forma, à boleia, primeiro a Sofia, depois eu. Mas a chavala não queria, queria caminhar. Ok, o seu argumento até era válido – não queria apanhar boleia dum bêbedo. Assim, foi uma caminhada, sei lá, p’rai de hora e meia, que queimou ali o álcool todinho que o corpo reserva p’rá ressaca. A caminho encontrei uma carta de condução, um cartão bancário e um cartão de estudante de uma Victoria. No dia seguinte liguei para o banco dela, pedi para a contactarem a dizer que tenho as cenas, com o meu e-mail, e até agora nada.

No dia seguinte não me lembro muito bem que fizemos, mas acho que estivemos na net no nosso restaurante um bom pedaço.

Sexta-feira acordámos antes das seis para apanhar o barco. A ideia era ir à boleia até à Malásia.

17h06-3ª-21-6-11
Ko Jum, Tailândia

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Ko Pha Ngan (Parte I)


A viagem de Bangkok até Ko Pha Ngan foi aquela esticada do costume. De Bangkok saímos às 18.00, para chegar a Numseionde às seis da manhã. Lá, esperámos uma hora e meia, apanhámos outro autocarro de uma hora e chegámos ao cais. A Sofia desta vez tinha conseguido dormir mais ou menos bem. Já eu, perto de nada. Nada de novo, portanto. Para ser sincero, ultimamente, até numa cama me custa adormecer. Esperámos no cais cerca de uma hora e apanhámos o barco para Ko Pha Ngan.Foi interessante para mim notar que, até ao Nepal, era(mos) sempre os únicos turistas nos meios de transporte que apanhávamos. Autocarros da última classe, comboios à pinha, etc. Já aqui na Tailândia, em qualquer destes transportes que utilizámos até chegar à ilha, estava tudo sempre lotado de turistas. Não curto tanto. Não é que queira ser especial e tal, mas simplesmente sabe bem quando és o único, ou dos únicos turistas num sítio. Como onde estou agora mesmo, o meu pequeno paraíso. Escrevo sentado no cafezinho do meu hostel, o mar a vinte metros, numa ilha com 8 turistas (que tenhas visto até agora). Mas já lá chegámos.
               
No barco sempre dormi alguma coisa. Sem frescuras, deitei-me no chão, e viajei um bocadinho no sono. Mal chegámos apercebi-me que tinha sido um erro marcar hostel. Mas não foi um erro assim tão evitável. Para não ter de pagar balúrdios, optei por marcar através da net, jogando pelo seguro. Tínhamos duas noites num a 8€ cada noite (para os dois) e duas noites noutro a 14€. Apercebi-me que tinha sido um erro porque via bué de ofertas de estadia, e se havia tantas, não podia ser assim tão caro. Quando saímos do barco fomos, claro, abordados pelas dezenas de taxistas. Como nõs não sabíamos exactamente onde era o nosso hostel, e tínhamos as mochilas, fomos no táxi. Dois euros cada um. Toma!
               
O Secret Hut, o nosso hostel, era fixe, mas era longito da praia (a meia hora a pé). Pousámos as cenas, descansámos um bocado, tomámos banho e fomos dar uma volta. Comemos alguma coisa e percebemos também que não dava para encontrar refeições a 0,60€ como em Bangkok. O mais barato que encontrámos foi lá um prato a 1,10€, o mais barato. Escusado seria dizer que escolhemos esse restaurante como o nosso restaurante de Ko Pha Ngan, e esse prato como o nosso prato. A senhora percebeu logo que éramos contidos e dava-nos água sem perguntar que queríamos beber (já bebo água tailandesa, no problem – até a Sofia já bebeu), e dava-nos descontinhos, como o arroz já vir incluído em vez de termos de pagar à parte. No total devemos ter lá comido umas seis vezes. Além disso tinha wireless e a senhora era fixe. Ela, que lá trabalhava, e o dono, um inglês muito simpático que vivera dez anos em Rabat, Marrocos, e que se mudara para Ko Pha Ngan há dois ou três.
               
De seguida fomos ver a praia. Era fixe mas o mar tinha daquelas rochas que às vezes aleijam. Debaixo da areia tinha também barro (que a Sofia pensou poder ser cocó) mas isso é na boa. Era uma praia fixe, basicamente, mas não era de sonho. O que era fixe eram os bungalows que se estendiam pela costa. Quer dizer – fixe porque tinham boa onda e parecia um sítio fixe para ficar, não muito fixe quando se pensa que estavam a sodomizar a praia à bruta. Perguntámos lá num e descobrimos um preço porreiro – 7€ o bungalow (para os dois, se fôssemos quatro, o preço era o mesmo), e era logo o segundo mais perto da praia. Marcámos para o dia seguinte, não muito convictos de que a senhora tinha percebido. Depois foi desmarcar os outros hostels. Perdemos o depósito (10%) mas ainda assim ficava bastante em conta.
               
Ficámos um bom pedaço na praia e depois fomos para casa, comigo a batalhar um bocadinho para não ir a uma festa no meio da selva – por não me poder dar ao luxo de andar sempre a cortiré.
               
Pá sinto-me mesmo bem neste momento. Este é dos meus sítios preferidos na terra, acho. Este, o norte do Paquistão, e um ou outro que me esteja a escapar. Estamos na época baixa. Mas o clima aqui não varia quase nada, por isso estão p’rai 30 graus. Estou a ouvir Regina Spektor mas, apesar dos fones, ainda se ouve o mar, que está ali mesmo à frente. Só árvores a toda a volta, a senhora alemã com cara de enjoada esposa do Loius (cora super fixe) e o filho, imagino, de ambos, ali à esquerda a ler. E sinto-me apaixonado. A distância que criei entre mim e o destino do que dentro de mim vai serviu incrivelmente para a querer perto mais do que nunca. É um sentimento mais complexo que saudade, algo que se instala para ficar e nos diz como vão ser as coisas, que nos faz querer que esse sentimento seja rei e senhor dos desígnios da VIDA. Sinto-me bem, como toda a VIDA à minha frente. Méne que cena os sentimentos e percepções. Às vezes sinto que a idade é tão ilusória que, mais do que já estar velho, já vivi tudo e morri. Outras vezes sinto que a idade é tão ilusória que o tempo que tenho diante de mim se esticará até ao infinito, tocará cada partícula do universo que me envolve. Umas vezes tudo, outras vezes nada, mas sempre a indefinição que, no fundo, sempre me apaixonará.

No dia seguinte que fizemos? Yes! Alugámos uma scooter! Eu estava mortinho, a Sofia ainda hesitou um bocadinho. Ou se calhar nem hesitou, mas eu estava tanto nessa que qualquer trejeito me poderia parecer uma hesitação. Foi a primeira coisa que fizemos, para que pudéssemos usar a scooter para nos mudarmos para a nossa casa para os próximos dias. Tudo isto demorou uma hora e tal. Depois fomos conhecer a ilha.
               
Tinha visto no mapa “Paradise Waterfall”, e lá fomos nós, pascacitos, porque se chamava Cascata Paraíso, tinha mesmo de ser! Não era. Era fixe, muito fixe até, mas não era paradisíaca. Mas isso não interessa! O que interessa é a jornada, e neste caso não é só uma frasezita, é mesmo verdade. Isto porque, andar sem t-shirt, sem capacete, com 30 graus, de scooter na Tailândia é a verdadeira cena. Curto bué! Já em Goa, em 2009, tinha uma scooterzinha todos os dias. Um gajo até pode não ir para lado nenhum, e só mesmo dar uma volta, que vale a pena! Assim, chegámos à cascata, e pensávamos que era “lá em cima”. Percebemos que era mesmo aquilo, mas ainda assim fomos subindo a cena, o que foi fixe. Fomos riacho acima, trepando aqui e ali, parando para nos refrescarmos aqui e ali. Depois voltámos para baixo, ficámos um pedaçito no laguinho principal e seguimos caminho. Fomos dar a uma praia muito fixe. Aquela águazinha daquela cor que se curte, um areal sem aquelas rochas que não se curtem. Ficámos lá meia hora e seguimos caminho. Tínhamos a mota só naquele dia, queríamos fazer render e conhecer um bocado da ilha. A seguir fomos a Coral Beach, e aí senti que cada praia era melhor que a outra. Esta era o relax total. Tinha um cafezito com um ocidental a trabalhar e tocava daquelas musiquinhas dos anos 80 que até são fixes mas naquele cenário ficam excelentes. Uma baíazinha (reparei agora que estou a usar bué de “inhos”) com pouca gente, grande feeling.
               
Algures no meio destas andanças, passou-se algo interessante...
Estou farto de ver malta sem capacete com os filhos na mota, também sem capacete, sentados à frente, agarrados à parte do meio do volante. Às vezes os putos até vão a dormir enquanto agarrados àquilo, como se nada fosse. É normal. Todavia, vi um ocidental com o seu filho da mesma forma, e senti-me reprovador. E de repente, meio segundo depois, reparei na estupidez deste pensamento! Parece que por ele ser ocidental me transportei, de repente, para o nosso mundo, e vi as coisas com os olhos de lá (daí). Quando no fundo, uma VIDA é uma VIDA, e a VIDA de um puto tailandês vale tanto quanto a VIDA de um puto europeu. E não é, claro, que por alguma fracção se segundo eu tenha achado o contrário, simplesmente acho que faz parte ver os putos tailandeses assim, mas quando vi um ocidental, houve algo ali que deixou, momentaneamente, de fazer sentido. Depois fiquei a pensar na peculiaridade da minha reacção um bocado, e segui a minha VIDA.
               
Demos mais umas voltas e voltámos, passando pela base, e seguinte para o outro lado, onde fomos parar à praia da Full Moon Party. Ruas cheias de lojas, Mc Donalds, KFC, t-shirts da Full Moon Party à venda em todo o lado, colares luminescentes, pulseiras, música, promoções de shots. A praia, em si, tem grande ambiente de festa, e também é apelativa, apesar de o ser por razões muito adversas a outras que já enunciei. Não é nada calma e muito menos recatada. Mas tem música, uma fileira que cobre quase todo o arial de bancas onde vendem baldes de vodka/whiskey/etc (20cl, quiçá misturado com água) com uma lata de Coca-Cola (33cl) e uma garrafita de Red Bull por preços que vão dos 2€ a 5€.

Basicamente, Ko Pha Ngan é visitada por centenas de milhares de turistas com o objectivo de irem à Full Moon Party. Se não sabes o que é vai ao google porque agora não tenho net e não sei dizer mais do que isto – é uma festa brutal na praia. Contudo, apesar de toda esta afluência com este intuito, parece-me um sítio onde ainda é possível encontrar praiazinhas recatadas, não muito exploradas. Todavia, note-se que estamos na época baixa.

Voltámos à base, tomámos banho, fomos comer qualquer cena, e lá p’rás dez, munido da minha garrafinha de whiskey tailandês eu fui à festa antecipatória da FMP, que seria no dia seguinte. A Sofia ficou em casa. Foi uma grande noite. Pena foi perder as sandálias que já tinha há dez anos. No final de contas, só umas sandálias. Preferia não as ter perdido, mas não fiquei triste.

Cheguei lá e sentei-me a ver um espetáculo de fogo. Fascinante, mesmo! Foi um bom início de noite, quando um gajo ainda não está muito solto para meter conversa com pessoal à sorte. Então estive aí p’rai meia hora. Havia música em todo o lado, os balcões de baldes a tentar seduzir o pessoal a ir lá comprar, o ocasional espetáculo disto ou daquilo, rodas de malta sentada no chão no paleio. Perguntei a uma malta se me podia juntar a eles e lá fiquei um pedaço. E a minha noite foi assim, mais ou menos, de roda em roda. Passei também uma hora e tal com uns tailandeses a jogar jogos de beber da Tailândia (que são iguais no mundo todo, no fundo, com pequenas variações).

Cheguei a casa às nove da manhã p’raí.

No dia seguinte seria a Full Moon Party.

Fim da Parte I.

16h37-3ª-21-6-11
Ko Jum, Tailândia