segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sevastopol, Crimeia


Era o dia da mulher quando cheguei a Sevastopol. Aqui o pessoal dá mais importância a isso, ainda que seja um bocado fachada, como disse a Alina, a minha anfitriã.

- Cheguei ao escritório e tinha uma flor na minha mesa. Sem mais nada escrito, só uma flor. Não gosto deste dia porque é daqueles dias em que o pessoal decide “vamos ser simpáticos para as mulheres um dia por ano” e depois já está... – queixava-se. É como o dia dos namorados... convenções...

Quando cheguei, meti-me num forgão e saí passado meio hora na paragem que a Alina me tinha dito. Pedi o telefone a um rapaz, liguei-lhe e ela apareceu passado cinco minutos. Morava ali mesmo ao lado. Não falava perfeitamente inglês e às vezes não sabia o que significavam palavras simples como “complicado” (percebo agora a ironia desta frase) mas dava para conversar bem sem problemas. É uma rapariga magrinha de olhos verdes, que ao início parece um bocado estranha, mas que acaba por se revelar muito porreira e sorridente. Entrámos em casa e ela saiu outra vez para ir buscar um casal moscovita que também ia ficar em sua casa. Assim, passados dez minutos apareceu o Serge e a Masha. Ambos com rastas, era um casal bacano que estava a tentar escapar do frio da capital russa. O Serge tocava numa banda que me mostrou e que era muito fixe, e trabalhava numa empresa qualquer de entregas as domicílio, e a Masha tinha recentemente mudado de curso, estudando agora “estudos orientais”.

Sentámo-nos os quatro na cozinha enquanto a Alina preparava uma comida típica ucraniana. Uma sopa com várias cenas, porreirinha. Contrariamente a um dos estereótipos acerca dos russos e ucranianos, a Alina, tal como o meu anfitrião ucraniano anterior, não bebia nem saía à noite. Quando é o caso, às vezes receio que vá apanhar um bocado de seca, mas muito raramente assim acontece. Está certo que há várias maneiras de uma pessoa se divertir, e foi o que aconteceu – apesar de nessa noite ter bebido uns vinhos com os russos.

A grande parte dos meus anfitriões não me dá visitas guiadas, o que é na boa, não é algo com que conte. Já a Alina, não só o fez, como o fez à noite. Eu e os russos comprámos uns vinhos, metemo-nos num forgão e saímos uns minutos depois. Avançámos uma cerca e estávamos no meio de umas ruínas altamente mesmo à beira-mar. Foi uma cmainhada inesperada e talvez também por isso muito fixe. A lua estava cheia e dava-nos toda a luz que precisávamos. Passámos por uma igreja altamente (curto muito a arquitectura das igrejas ortodoxas), sentámo-nos um bocado a olhar para o mar, sempre a falar disto e daquilo. Curti especialmente a Masha, uma rapariga engraçada e porreira. O Serge é um bocado mais reservado, mas fiquei abismado quando me disse que não tinha e-mail e só usava a internet para procurar música. Altamente. Não que seja algo altamente por si só, mas por significar que este gajo só faz o que lhe apetece e não faz cenas porque são moda.

No dia seguinte os russos bazaram, iam mais para sul e voltariam alguns dias mais tarde. Almoçei qualquer coisa com a Alina e fomos para o centro. Encotrámo-nos com o Leoz, um amigo dela com quem fiquei e fui dar uma volta. Caminhei toda a tarde por Sevastopol. Fui lá parar só porque foi o único sítio onde encontrei, atempadamente, um anfitrião, mas curti bastante. É uma cidade pacata à beira-mar, com bastantes edifícios porreiras, e bastante acidentada, o que eu curto, porque permite boas paisagens.

Quando o sol foi dormir fui para um cafézito e encontrei-me depois com a Alina num restaurante onde fomos jantar umas cenas típicas ucranianas. A propósito, nunca vi tanto restaurante de sushi como na Ucrânia, não percebo. Nessa noite o que bebi foi um sumo bué de esquisito, que era feito basicamente pondo frutos a ferver e depois retirar o líquido. Não era mau de todo. A comida foi algo que soa como varniki e é tipo rissóis pequeninos, mas com uma massa e recheio diferente. Jantámos calmamente e ela foi-me contando algumas cenas acerda da Ucrânia.

Quando chegámos a casa estivémos à conversa a beber chá. Ela esteve a contar-me algumas cenas da sua VIDA e eu a ouvir. Estava com um sono valente mas até é fácil conversar com a rapariga, pelo que fui ficando acordado.

No dia seguinte fui a Yalta. Yalta era supostamente o sítio que eu mais queria ver na Crimeia, mas nem curti assim tanto. Como disse, acho que tive sorte em ter sido albergado em Sevastopol, porque foi a cidade que mais curti das três que vi na Crimeia. Apanhei um autocarro de hora e meia e quando cheguei pus-me a caminho. É uma cidade à beira-mar, agradável, com uma marginal de ponta a ponta onde está o pessoal do costume, a vender pipocas, gelados, com barracas para darmos tiros numas latas, a alugar patins em linha, entre outras cenas. Caminhei para oeste até não ter muito mais para andar e deparar-me com dezenas de prédios em construção, o que retira um bocado a beleza àquilo tudo. Não encontrei um palácio que supostamente é muito bonito e vale a pena visitar, mas não era isso que me ia fazer amar aquela vila que apreciei. Porque nunca é uma cenazita que muda a impressão de um sítio, mas várias cenazitas que acabam por definir o sítio em si.

Quando voltei, comprei o meu bilhete de comboio para Kiev no dia seguinte e fui ter a casa da Alina, onde estava o Leoz também, a fazer umas cenas quaisquer para sobremesa. Tinha passado por uma lojita onde comprei algumas cervejas e algo para comer. Passámos um serão porreiro, à conversa e a ver um filme. O Leoz é um gajo fixe também. Tem um sentido de humor apurado e isso é sempre algo que um gajo aprecia.

Adormecemos lá p’ras duas e muito e o Leoz acordou para ir fazer yoga numseionde com a Alina, que não dormiu.

No dia seguinte fui com a Alina para a estação de autocarro, onde apanharia o autocarro para Simferopol, e daí o comboio para Kiev. O Leoz apareceu para se despedir, e segui caminho.

quinze e treze, segunda, doze de Março de dois mil e doze
Kiev, Ucrânia

terça-feira, 8 de maio de 2012

Até à Crimeia


Chegámos de manhã cedo a Simferopol, a capital da Crimeia. A Crimeia é uma república, com o seu parlamento, hino e essas cenas todas que define uma república. Mas pertence à Ucrânia sem problemas ou atritos e tanto quanto eu sei não há movimentos separatistas.

Já que estava em Simferopol, pensei que podia dar uma volta por lá. Mas estava um bocado partido, e se perdesse o próximo comboio tinha de esperar p’rai cinco horas. Uma porção do grupo com quem tinha viajado ia também para Sevastopol. Mas não o Sergey e a Lena, os meus anfitriões de Odessa, pelo que nos despedimos aí.

Esse pessoal ficou um bocado admirado pelo meu mínimo interesse em dar umas voltas por Simferopol e recomendaram-me passar em vez disso por Backsisharay. ‘Tá-se bem, siga. Entrei no comboio com eles, mas eles seguiram para Sevastopol, e eu fiquei nesta vila. No comboio, as carruagens estavam carregadas de outros alpinistas e havia sempre alguém a vender alguma coisa. Fossem broches artesanais, mapas ou simplesmente pessoal a tocar guitarra e acordeão com um amplificador e muita esperança.

Saí em Backsisharay e andei meio perdido um bocado. Perguntei pelo centro e uns gajos mandaram-me “p’ráli” mas eu senti que estava no caminho errado, pelo que voltei para trás. Voltei a perguntar e mandaram-me no sentido oposto. Voltei a perguntar e uma cota caminhou comigo até à estação de autocarros, esperou comigo e depois foi à sua VIDA. Pensei que também fosse para lá e que me tivesse levado consigo até à estação, o que já era simpático, mas não, a cota tinha lá ido só para me levar e tinha falado com o condutor para me avisar quando chegasse ao destino.

Saí mesmo à frente do palácio do Khan, um palácio de estilo marcadamente muçulmano. Mas tinha ambas as minhas mochilas não me apetecia andar p’ra trás e p’rá frente com aquele peso todo. Encontrei um restaurante mesmo em frente e pedi à cota para lá deixar a mochila. Tentei ser o mais claro possível a explicar que não ia pagar por aquilo, mas mais tarde a mulher queria-se afinfar. Paciência.

A vila é porreira. É mesmo uma vila. Fui primeiro ao palácio. O parque cá fora é de livre acesso, mas depois para se entrar no palácio o bilhete eram cinco euros. Sorte a minha que não estava ninguém à entrada. Como havia lá um grupo numa excursão, ia andando com eles e ninguém percebeu que eu não pertencia ali. Isto até eu me fartar de estar a ouvir uma mulher falar em russo ou ucraniano e seguir sozinho. Uma cota perguntou-me “não sei quê, não sei quê excursão”. Eu respondi que sim e segui. Depois passei pela galeria de arte, pobrezinha. As restantes horas passei a passear pela vila de estradas rudimentares e casas antigas. É uma vila simpática e pelos vistos tinha outras cenas interessantes para ver mas eu não sabia muito bem como lá chegar, e quando encontrei um sítio com internet que me permitisse investigar, já estava perto da hora do meu comboio para Sevastopol.

Na estação de comboio tive o desprazer de ver os bêbedos locais. Não é como na Mongólia, o país onde vi mais bêbedos, mas também há muito burraxola aqui. Um deles, p’rai de cinquenta anos, estava a vomitar, limpou os beiços na manga da camisola e continuou a beber a sua cerveja. Outro deles veio pedir-me dinheiro e perguntou se eu era muçulmano.

Entrei no comboio e fui para Sevastopol.

treze e vinte e três, segunda, doze de Março de dois mil e doze
Kiev, Ucrânia

terça-feira, 1 de maio de 2012

Odessa


Curti muito Odessa.

Estava a dormir o meu soninho naquele sofá-cama quando a Lena me acordou. A noite de sono anterior tinha sido meio penosa, pelo que curtia dormir mais. Mas ‘tá-se bem, a miúda no fundo estava a ser fixe, porque queria ir mostrar-me as cenas.

Tomámos café e fomos dar uma volta. A Lena é uma rapariga girinha, de cabelo longo e amarelo e um tom de voz engraçado, tipo de velhinha. Acho que é por não estar à vontade com o inglês. Porém, se no dia anterior não tinha dito mais que três ou quatro palavras, nessa manhã conseguimos conversar um bocado. Ela lá se safava, e eu tenho já experiência em descortinar o que o pessoal quer dizer quando não consegue encontrar as palavras na língua da raínha.

Fomos até à praia, que é razoável. A água é cristalina e o areal (mais pedral) não é muito extenso, mas é porreiro. Fica sempre bem numa cidade, tipo em Barcelona. E pelo menos aqui no registo de memória que tenho, curti mais esta praia de que a da capital catalã.

A miúda teve de ir trabalhar e deixou-me entregue a mim mesmo, e eu fiz o que faço melhor – caminhar quase em zig-zag em direcção a cada edifício bacana que vejo. Como me deixou no centro histórico o meu trabalho estava fácil. Iá, é uma cidade muito fixe. E tenho sempre de pensar que é ainda melhor, porque Fevereiro não é exactamente aquele mês espectacular para visitar cenas. Naquela zona mais histórica é organizadinha, limpa e com edifícios bonitos e de aspecto antigo mas lavado. Caminhei todo o dia. Fiz uma pausazita para uma cola e ligar para a ordem dos psicólogos. Aceitaram a minha experiência profissional.

Não sei se vou procurar trabalho porque o quero ou se porque sinto pressões para o fazer. A minha actual condição é a seguinte: trabalho um fim-de-semana por mês em Birmingham, quarenta horas. E depois tenho o resto do mes para fazer o que quiser, seja viajar ou trabalhar. O dinheiro que recebo não me dá para poupar, mas acho que dá para evitar ir às poupanças. Não é uma cena que dê para um futuro mais prolongado, entendo isso, e é preferível algo em Portugal mais porreiro. Mas a ideia que não curto é simplesmente a do trabalho rotineiro. Quando penso em “vinte e quatro dias de férias por ano” até me passo. Estou mal habituado, por um lado, mas por outro lado, não é impossível um gajo arranjar um trabalho que nos permita ter a liberdade que hoje em dia tenho. Estou mais ou menos certo de uma coisa... que se calhar não me interessa partilhar aqui. De todo o modo, procurarei cenas, concorrerei, e continuarei, certamente, com a filosofia de levar um dia de cada vez.

Passei a tarde também a caminhar. Deixei aquela zona e fui seguindo até que fui parar ao mercado. Os mercados são sempre sítios interessantes para uma pessoa conhecer a cultura local. A maneira como as pessoas falam umas com as outras, como reagem, como vivem e sobrevivem. Passei pela estação de comboio e ao fim da tarde estacionei num café a escrever qualquer coisa e a procurar sofás para os dias seguintes.

A Lena tinha-me dito que o Sergey estaria em casa entre as sete e as oito. Eu apareci às sete e vinte, esperei uma hora e depois liguei-lhe da internet. Eles estavam ocupados com os preparos para uma espécie de retiro de alpinistas que iam ter e estavam a arranjar as cenas. Tinham p’rai mil quilos de comida. Depois de jantarmos, salada outra vez, fui ver o Benfica a um café. Achei fixe do gajo ter arranjado carne para mim, não que eu me importasse, e muito menos que tivesse pedido. A cena é que... parece que a concepção dele de comida é de, ou super saudável, ou má para o sistema como alicates. É que a par da salada ele meteu-me um pratinho à frente com umas tiras brancas. Era gordura de bacon. Só gordura mesmo. Comi um bocado a custo p’rai sete ou oito... não é que saibam mal, mas um gajo toda a VIDA ouve que aquilo é mau e enão sei quê, e depois tem um prato que consiste apenas daquilo... é dose. Sei hoje que, pelos vistos, é uma cena típica ucraniana...

Tirei o dia seguinte para me organizar um bocado. Ainda dei umas voltas, meio à procura de sítio com internet, meio a ver as vistas. Tenho uma panca jeitosa... mas que até faz sentido. Para mim o sítio ideal com internet é um café sem muita gente, preços acessíves e muitos lugares. Porque não curto estar horas e horas num café qualquer tendo só consumido uma vez, muito menos se o café está cheio e eu estou a ocupar um lugar... é um bocado panca, eu sei.

Nessa noite iria para a Crimeia. Tinha pensado em boleiar, mais uma vez, mas depois o Sergey disse-me que talvez tivesse um bilhete grátis para mim. Ora, porreiro. Mas como só no dia seguinte é que o saberia, eu tinha de ficar por Odessa durante o dia e depois saber se ia à borla ou não. Acabei por ter de pagar. Mas ‘tá-se bem. Boleiar com este frio não é muito conveniente, especialmente porque aqui não há um sistema de auto-estradas com estações de serviço como as nossas. Ficar no meio de uma vila qualquer, ou no meio de lado nenhum com graus negativos não é uma cena que dê muito jeito. Além disso o bilhete eram sete euros para uma viagem que durava a noite toda.

Fui ter a casa lá p’rás seis e tal, depois de arranjar onde ficar na Crimeia. A Alina aceitou albrgar-me em Sevastopol. Tinha enviado pedidos para quase todas as cidades desta região, e decidi então ir para esta cidade. Depois de jantarmos e de eles arranjarem as cenas fomos para a estação de comboio. Encontrámo-nos com os amigos alpinistas com quem eu fiquei, porque o meu bilhete era cok eles, e seguimos. Um dos amigos dele falava inglês, e um ou outro arranhava um bocadito e quando se sentiram mais confiantes tentaram, e fomos à conversa um par de horas, com eles a contarem-me cenas da Ucrânia e também outro gajo a perguntar-me sobre futebol e os ucranianos em Portugal.

Dormi mais ou menos. No dia seguinte estava na Crimeia.

vinte e uma e vinte, domingo, onze de Março de dois mil e doze
algures entre Sevastopol e Kiev, Ucrânia

sábado, 21 de abril de 2012

Chegado a Odessa


Meio estremunhado com o sono levantei-me na segunda-feira finalmente destinado a chegar à Ucrânia. Estudei as minhas hipóteses e fui para a estação de autocarro, os tais furgões. Mal cheguei entrei logo num. Fechei a pestana e só voltei a abrir na fronteira. Foi tudo tranquilo, e lá cheguei a Odessa. Estava um frio tremendo, e meio a tremer fui caminhando rua acima em direcção ao que me parecia ser o centro da cidade. Ia perguntando ao pessoal mas o inglês não é uma língua que abunde por estes lados. Mas iá, lá me orientei. Encontrei um sítio com internet e combinei encontrar-me com o Sergey, o meu anfitrião.

O gajo não tinha sido nada específico quanto ao nosso encontro. “Eu vou aparecer em casa entre as oito e as nove, podes esperar no meu pátio, a morada é esta”. E pronto, lá apareci às oito e estive a gelar até às nove e pico. Mas ‘tá-se bem.

O Sergey não é daquelas pessoas com quem um gajo sai à noite e é uma loucura e de repente ficamos logo manos. Mas isso não quer dizer que não seja um gajo fixe, claro. Porque é. Tem vinte e três anos e vive meio em part-time com a Lena, sua namorada de há três ou quatro meses. Depois dos habituais cumprimentos, entrámos naquele prédio velho, descemos umas escadas e estávamos no seu apartamento, onde eu não me ducharia nenhuma vez nas três noites em que lá estive. Pá, se tenho de tomar banho de água fria na Índia num terraço qualquer, ou na Tailândia à noite numa ilha paradisíaca como aconteceu no passado, manda vir, não há crise. Mas se tenho de tomar banho de água fria na Ucrânia num quarto-de-banho sem aquecimento, prefiro andar a cheirar à homem uns diazitos mais. Entrando na casa damos com a cozinha. O quarto-de-banho está do lado de quem entra, e seguindo em frente damos com um quarto, que está ligado a outro sem porta. O Sergey e o seu colega de casa, que não estava lá naqueles dias, pagam quarenta euros cada um, porque o senhorio é amigo deles. Normalmente seriam duzentos euros, no total. É um bom preço comparado com Portugal, mas é certo que as casas por onde tenho passado não são propriamente modernas.

Sentámo-nos à mesa na cozinha enquanto o Sergey ia preparando a comida. Por “preparando” refiro-me a cortar um alface. Comemos salada, algas, e uma cena que era fixe, tipo pickles, mas tipo massa. Quando perguntei se era vegetariano disse que era vegano cru. Isto é, não só não come carne (vegetariano) como não come qualquer produto animal (vegano) como não come nada que seja cozinhado! Conheço uma rapariga que também aderiu a isto, e não conheço mais ninguém. Mas esta rapariga é alguém que nunca comeu carne na VIDA, passou a ser vegana aos não sei quantos anos de idade e passado alguns anos passou a vegana cru. Já o Sergey há seis meses ainda comia carne! Quando lhe perguntei as razões, sendo que há que o faça pelo ambiente e os recursos que se gastam na produção de matérias animais e há quem faça simplesmente pelos animais, disse-me que o fazia por uma questão de saúde. Ainda comia pão, mas era algo que supostamente desapareceria. Pá, assim sem investigar e dizer só a minha opinião sem mais nem menos, não vejo o propósito. Não sei até que ponto é que é assim tão mais saudável. Mas é a cena dele, e uma muito mais responsável do que a minha, posso dizer... E assim jantámos salada três dias seguidos.

O Sergey tem vinte e três anos, tal como a sua namorada. São ambos apaixonados do alpinismo e foi assim que se conheceram. Contudo, ele trabalha como informático e ela outra cena assim aborrecida, o que é completamente contrário às pessoas que me parecem ser. E é por isso mesmo que vão mudar de ramo. Ele vai passar a ser tipo guia ou instrutor de alipinismo, o que me parece altamente.

Uma cena que achei estranha foi o sistema militar que têm por cá. Têm de cumprir o serviço até aos vinte e cinco anos de idade. Até aqui nada de estranho. O que é estranho, para mim, é que só se pode tirar um passaporte internacional (sendo que também têm passaporte nacional) se se tiver cumprido o serviço militar.

- Se estás a estudar, por exemplo... podes tirar um passaporte internacional e podes viajar. Mas quando esse expira, se já acabáste de estudar, tens de fazer o serviço militar, caso contrário não podes tirar outro passaporte internacional. Ou seja... com o teu passaporte nacional podes ir à Rússia, e é isso...
- Então que vais fazer tu? O serviço militar?
- Não... o meu pai vai tentar falar com alguém para ver se conseguimos pagar para me safar.
- Tipo... corrupção?
- Sim – respondeu, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Que pelos vistos é, por estes lados.

Depois de jantar eles quiseram ver algumas fotografias da minha viagem Daqui Ali. Fico sempre um bocado naquela, porque não quero aborrecer o pessoal. Toda a gente sabe que não há nada mais aborrecido do que o pessoal que decide que toda a gente tem de ver as suas fotografias. Mas eles curtiram e a Lena ficou cheia de vontade de ir ao Vietname...

dezanove e cinquenta e quatro, domingo, onze de Março de dois mil e doze
algures entre Sevastopol e Kiev, Ucrânia

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Fim-de-Semana em Chisinau


Na quinta-feira fui à Gagáuzia. A Gagáuzia é uma zona autónoma onde o pessoal supostamente fala uma língua diferente, tem uma capital, hino, bandeira, essas cenas todas. Então eu fiquei curioso. Apanhei um autocarro de dois euros e tal e lá fui. Curtia ter-me encontrado com alguém mas não consegui. Talvez tivesse sido diferente, porque a Gagáuzia, ou pelo menos Comrat, a sua capital, não tem nada que ver.

Mas que é que fui lá fazer? Quando cheguei, percebi logo onde tinha ido parar. Dei uma volta pelo mercado, depois caminhei p’rai uma hora e tal, até que chegou a hora do almoço, e com ela um pretexto para fazer uma cena diferente e acabar com “ver as vistas” que não existem. Depois do almoço dei mais uma voltita e ok... constatei que não havia memso nada. Mas que se lixe, foi fixe na mesma. Quando viajo e vou a sítios, até esterqueiros como Comrat acabam por ser fixes. Porque o estado natural é o da fixeza. Se muitas vezes na nossa VIDA o estado natural é o da normalidade e talvez precisemos de estímulos, ou positivos para o fazer fixe, ou negativos para o fazer chunga, quando em viagem o estado normal é o da fixeza.

Mas já chegava de fixeza de Comrat e pus-me a caminho de volta a Chisinau. Tentei a boleia, mas pararam três carros e não aceitaram que não pagasse. É tão fácil boleiar na Moldávia que acaba por ser difícil. E neste caso nem acho mau que me peçam dinheiro. Porque não é naquela de “fónix para o gajo é igual”. Porque não é. Porque há tanta gente à boleia, a usá-la como apenas mais um meio de transporte, que levar-me de graça implica não levar outra pessoa a pagar. Por isso fui de autocarro, que pelos vistos é quase o mesmo preço que se paga à boleia.

Fui ter a casa do Bill e depois fomos a um encontro de couchsurfers onde conheci pessoal muito porreiro. Como a Paulina, uma moldava que esteve a viver na China e nos EUA, a Elena, que já passou alguns meses em trabalho no Paquistão ou a Dani, também moldava, que trabalha com exportações de vinho moldavo para a China, país para onde vai viver brevemente. Encontrei também o Nuno, um português que estava lá um mês e meio num estágio e que vai para a Indonésia de seguida por três meses, o Aba, um nigeriano que trabalha numa organização não-governamental e o Iorguis, que trabalha para a Amnistia Internacional. Enfim, bastante pessoal, cada um com uma estória diferente e interessante para contar, mesmo como eu gosto. Era o primeiro encontro na capital moldava e eles queriam ver se pegava e faziam a cena semanal.

O Aba estava a tentar convencer-me a ir à festa que teria em sua casa no dia seguinte, na sexta-feira. Eu disse que não era possível porque ia para a Ucrânia nesse dia. Bem, acabei por vir para a Ucrânia na segunda-feira... o Bill ia ter amigos a visitá-lo, e por isso fiquei, assim sem planear muito, com o Aba.

A festa foi muito fixe. Éramos quinze a transitar entre a cozinha e a varanda e o Aba tinha um sistema musical inovador (para mim), sendo que fazia o ritmo e estilo da música acompanhar o estado de ebriedade em que ele achava que as pessoas se encontravam. Claro que numa altura alguém quis mudar a música e lixou o sistema. Curti a noite, e curti aquele pessoal. E por isso mesmo deixei-me ficar. Dei-me especialmente bem com o Aba, o Nuno tuga e a Diana. No sábado tivémos um serão mais calminho mas ainda assim fez-me acordar no domingo tarde o suficiente para decidir bazar para Odessa só na segunda-feira. Tinha bastante tempo ainda, não havia por que me apressar... O domingo foi passado essencialmente em casa à conversa, saindo só para irmos comprar alguma coisa para comer.

Segunda-feira, Ucrânia...

onze e quarenta e cinco, quarta, sete de março de dois mil e doze
algures entre Odessa e Sevastopol

domingo, 1 de abril de 2012

Em Casa do Bill em Chisinay


Quando cheguei de Orhei Vecchi fui buscar as minhas cenas a casa da Victoria e depois fui ter com o Bill. Estava meio perdido quando entrei num bar a pedir direcções. Um rapaz acabou por me levar lá de carro, o que é sempre porreiro.

O Bill é um americano de Chicago de vinte e oito anos que, pelo seu cabelo ruivo, parece um inglês. Vive sozinho numa casa enorme, com duas salas de estar, uma cozinha, escritório e dois quartos. Diz que os duzentos euros que paga por aquela casa é baratinho porque é de um amigo dele ou uma cena assim. O preço normal seriam trezentos, ou por aí, o que é impressionantemente barato. Imagine-se um casarão a dez minutos a pé do Rossio em Lisboa por trezentos euros...

Sentámo-nos na cozinha com um copo de vinho caseiro moldavo. Curto muito o vinho moldavo, especialmente os vinhos caseiros que bebi. É um gajo muito porreiro, o Bill, e com quem se pode conversar muito tempo sobre um pouco de tudo. Advém de uma família que teve bastantes dificuldades mas que conseguiu que todos os seus filhos seguissem o caminho que quiseram seguir. O Bill tem curso de contabilidade. Esteve um ano em Budapeste e agora está a fazer investigação em Chisinau ao abrigo de uma bolsa de estudo e dá também aulas numa universidade.

- A primeira coisa que disse aos meus alunos foi que o sistema dos envelopes para boas notas não ia funcionar comigo... – dizia.
- Como assim?
- Aqui o pessoal compra as notas. Dão envelopes aos professores. Até há uma espécie de escala... quanto mais dinheiro, melhor a nota.
- Mas... como... como é que isso é possível?
- Olha, é assim... na Ucrânia é pior. Um amigo meu esteve lá e disse que em algumas universidades até há uma gaveta com pastas com os nomes dos professores onde os alunos põem o dinheiro. Uma gaveta só com esse propósito, já viste?... – não, não vi. Que loucura. E estou neste momento num comboio na Ucrânia e um amigo do meu anfitrião acabou de o confirmar. Perguntou-me como era o sistema de educação em Portugal e eu disse que não lhe sabia dizer muito bem porque não tinha muito com que comparar. Ele depois disse que perguntava precisamente acerca disso... se em Portugal também era assim.

Falámos um bocado acerca do racismo que ainda subsiste muito mais do que chega até nós, e falámos do sistema capitalista em que vivemos, ambos com muitas reservas mas nem por isso com uma solução melhor, até que fomos dormir. Curti o chavalo.

Tirei o dia seguinte para não fazer nada em especial. Acordei à hora que me apeteceu, dei uma volta pela cidade, e estacionei num restaurante com internet para escrever um bocado. Era véspera do dia um de Março, e o Bill tinha sido convidado para casa da Larissa para fazer umas ceninhas que costumam fazer neste dia. É que no dia um de Março eles começam a celebrar a primavera. Um bocado cedo, mas talvez seja para dar esperança. Então a ideia nessa noite era o pessoal trazer uns snacks e uma bebida ou algo assim, juntar-se todo em casa de um amigo e fazeres uns broches vermelhos e brancos que usam ao peito. A lenda... esqueci-me. Mas tem a ver com neve e sangue. O Bill veio ter comigo ao restaurante e fomos lá ter. Mas antes disto ainda tivemos um episódio porreiro.

Estávamos no autocarro e o Bill pediu ajuda a um senhor, mostrando-lhe a morada. Ele saiu connosco, deu a entender que nos levava lá em troca de cinco minutos de conversa em inglês. “Five minutos. English. Speak”. Na altura foi um bocado estranho, mas lá dissemos “ok”. Atravessámos a estrada com aquele senhor de gorro e óculos, metemo-nos por um quelho e fomos dar a um prédio. Ele voltou a repetir aquelas palavras enquanto entrávamos num prédio cinzento, avançámos uns metros e, quando dei por ela, estou sentado num sofá no hall de entrada, o Bill À minha esquerda, ambos com um copo de vinho moldavo caseiro na mão. Curti a cena. O Slavic (assim se chamava) queria que nós falássemos com a mulher e o filho, que estavam a aprender inglês, na esperança de se mandaram para a Carolina do Sul, nos EUA, onde tinham um familiar, ou para a Nova Zelândia, onde tinham outro. Mas a preferência era o outro lado do mundo. Sempre que o copo chegava a um terço o homem lá se apressava a encher-nos o espírito. Estivemos lá uns vinte minutos e a dada altura eles pediram ao Bill se se podiam voltar a encontrar.

- Claro. Eu ensino-vos inglês e vocês ensinam-me russo – respondeu o ruivo, para gáudio do puto de onze anos.

Depois fomos para casa da Larissa. Toda a gente tinha trazido algo, por isso aquilo parecia um banquete de doces. Éramos uns doze. Foi uma noite porreira. Conversámos um pedaço na cozinha e depois fomos todos para o quarto da Larissa, onde o pessoal trabalhou no seu Maersyshore (soa assim, mas não se escreve assim certamente). Faziam as cenas com aquele tipo de barro que um gajo põe no forno.

onze e sete, quarta, sete de março de dois mil e doze
algures entre Odessa e Sevastopol

domingo, 25 de março de 2012

Orhei Vecchi


Na terça-feira, dia vinte e oito de Fevereiro, fui para casa do Bill, o meu próximo anfitrião. Já tinha dito que sim, e depois que afinal ficava em casa da Victoria, e depois que sim outra vez porque ia ficar mais tempo do que planeado... enfim, um bocado para a frente e para trás. Mas o pessoal do couchsurfing tende a ser flexível com estas cenas, o importante é não os deixarmos à espera e não aparecermos.

À tarde fui a Orhei Vecchi. Tinha lido, e tinham-me dito, que tinha uns mosteiros porreiros e não sei quê, e decidi ir dar uma espreita. Fui para o mercado à procura da estação de autocarros. Confusão total! Na Moldávia a maior parte dos autocarros são furgões p’rai de oito ou nove lugares. Ora ali estavam bués. Todas a dizer Chisinau-Numseionde mas nenhuma a dizer Chisinau-Trebujeni, que era o que eu queria. Ia perguntando ao pessoal e, a custo, fui avançando na direcção certa, como chegar a algum lado de olhos vendados a confiar no “quente quente”, “frio frio”. Encontrei um parente de colete luminoso que me disse que aquele autocarro ia para três quilómetros de Orhei Vecchi. Ok, siga. Por um euro e pico lá fui.

Se Chisinau não é nenhuma Nova Iorque, saindo da capital, os arredores não são propriamente a Suiça. Pelo menos nesta altura, em que o campo está com aquela neve suja de quem está quase a dar os seus adeus. O homem da carrinha disse-me quando tinha de sair e eu fui seguindo as placas que diziam algo como “Complexo Histórico de Orhei Vecchi”. Ainda hoje não sei se aquilo eram mesmo três quilómetros apenas... talvez com aquele frio que racha lenha custe mais a passar. Mas lá fui caminhando até que um camião parou para me dar boleia, sem eu ter pedido nada, o que é semopre fixe. Levou-me p’rai cinco minutos e saí quando vi a placa. Daí apanhei boleia de outros gajos que me deixaram no meio de uma aldeia e apontaram “ali para cima” dizendo “mosteiro”. Aquela aldeia era uma ou duas fileiras de casas ao redor de uma estrada esburacada de terra. Ainda assim tinha alguma graça, porque parecia que o pessoal, consciente da situação pobre e inestética em que se encontravam, tinham tentado dar a volta, pintando cenas em azul vivo para alegrar um bocadito. Vi um mosteiro lá em cima, e fui subindo o monte. Quando cheguei lá cima, a viagem já tinha valido a pena, de certa forma. Curti a paisagem que se me entregava. Tanto à minha direita como à minha esquerda havia um vale. À direita o vale era abraçado por um monte onde conseguia ver os tais mosteiros escavados na pedra de que tinha ouvido falar. Quer dizer, eu via buracos enormes, mais ou menos consistentes e pronto, era isso o mosteiro. À minha esquerda um rio tinha parado no tempo e esperava por raios de sol mais corajosos para voltar a mover-se mais harmoniosamente. O Vento tentava empurarrar-me para um lado ou para o outro, e eu deixava-o acreditar que tal feito era possível.

À minha frente o mosteiro. Entrei, a igreja estava fechada. Dei lá umas voltas, subi a um terraço e fiquei lá uma meia hora ao sol a tentar fazer render a minha visita ao mosteiro, já que não era assim uma cena pela qual valia a pena viajar. Era pequeno aquilo. De um portão ao outro havia uns cinquenta metros. E foi precisamente a abrir o portão de saída que vi um monge. Digo e “foi precisamente” como se fosse uma experiência do outro mundo. Não foi. Foi só interessante ver o gajo, de chapéu peculiar e barbudo. Sorrimos um para o outro, ele entrou e eu saí. Há uma característica que quero desenvolver um bocado. É que às vezes tenho um bocado de vergonha, ou pudor, ou cuidado, em tirar, ou pedir para tirar fotos ao pessoal. Assim, mal fechei o portão arrependi-me, pensei trinta segundos e voltei para trás para lhe pedir isto. Mas o gajo era ninja! Evaporou-se completamente! Nada feito.

Por sorte avistei outro ao fundo. E como estava longe ainda lhe bati umas chapas com o zoom. Era um velho de barba comprida que foi fazer não sei o quê junto de uma cruz celta à beira do declive. Entretanto ele veio para cima, passou por mim sem me olhar, e eu deixei-me ficar. Queria ver onde o gajo ia, porque eu tinha visto que havia, no monte onde eu me encontrava, também um mosteiro, ou algo, encrustrado na pedra e com sinais de ter sido utilizado recentemente. Eu só não sabia como lá entrar. O gajo foi caminhando, olhava de vez em quando para trás, e desapareceu, apenas para aparecer passado dois minutos. Acho que foi mijar. Eu deixei-me ficar, a fingir que tirava umas fotografias e ele voltou. Olhou para mim e disse “go” mas querendo dizer “anda” em vez de “vai”. Fui atrás dele e ele abriu uma porta de uma pequena torre com uma cruz no topo. Por detrás da porta vi uma cortina que, quando ele a afastou, percebi que dava acesso ao interior do monte. Era aquilo, tinha conseguido. A humidade era uma loucura. Não é que a tenha sentido, mas no segundo em que entrei naquela divisão de temperatura muito agradável, a lente da minha câmara embaciou por completo.

Foi fixe. Era uma pequena igreja, com uma espécie de varanda, que tinha sido o que eu tinha visto, e ainda com uma antecâmara com onze divisões para onze monges da antiguidade. As divisões não eram mais do que cubículos de três metros quadrados. O velho era simpático, sabia três ou quatro frases e palavras em inglês. Fiquei lá uns cinco minutos, porque não havia mais nada para ver, e bazei.

O caminho de volta teve as suas dificuldades, sobretudo pelo frio que passei. Mais uma vez digo, se aquilo são três quilómetros ou vou ali percorrer dez e venho já... Quando cheguei à estrada principal tinha uma vista completa para uma vila que devia ser Trebujeni. Não fosse avistar um ou outro carro, aquela visão podia ser de há cem ou mais anos atrás. Casas com um aspecto muito básico, todas mais ou menos iguais, estradas de terra e uma igreja muito bonita a destoar completamente. O campo moldavo está, definitivamente, muito atrás.

Fui caminhando p’rai hora e meia, passaram só três carros que não me puderam levar, e cheguei a uma aldeiazita onde comprei qualquer coisa para comer. Entretanto apareceu um forgão que me levou de volta à capital.

dez e quarenta e sete, quarta, sete de março de dois mil e doze
algures entre Odessa e Sevastopol