domingo, 22 de janeiro de 2012

De Volta a Portugal


No dia seguinte acordei completamente empenado. Era ressaca, era tristeza, era revolta, era nervosismo, um pouco de algeria, sei lá. Tudo me habitava, e as minhas passadas eram longas e esquecidas. Como tenho aquela mania de me fazer sentir pior quando já me sinto mal, meti no leitor de música “This is the End” dos Doors e lá fui a ouvir essa taciturna música pelas ruas de Madrid. Sentia de tudo, como escrevera no dia anterior.

O hitchwiki levou-me até uma estação de serviço ainda dentro da cidade. Dos piores sítios para sair de uma cidade que o site me tinha dado. Lá fiquei, fui perguntando, mas numa hora e meia, nada. Quando perguntei ao pessoal que trabalhava na estação de serviço disseram-me que havia outra lá mais à frente. Sem saber bem o que fazer, segui para aí à boleia de um par de chavalos. Lá não havia carros nenhuns. Até que apareceu o Mikel, com o seu puto com quem comunicava com um walkie-talkie do banco da frente para o banco de trás (última prenda de anos). A cena é que o Mikel ia para Arenas de San Pedro, que apesar de ainda ser a uma distância fixe, era por uma estrada diferente. Ou assim iria ele, sendo que dava para ir em direcção a Portalgre na mesma e virar, mas aí um gajo tinha de pagar. Bem, segui com ele.

Andámos um bom pedaço, parámos para ele comprar tabaco e comermos qualquer coisa, e deixou-me numa estação de serviço muito, muito parada. Depois de interpelar algum pessoal que não ia para muito longe, decidi ir indo, pouco a pouco. Fui andando de boleiazita em boleiazita, aos dez quilómetros de cada vez, passando por Madrigal de la Vera e outras terras chamadas Nãoseiquê de la Vera, até que cheguei, já o sol estava cansado, a Villaverde de la Vera. Não havia maneira nenhuma de conseguir sair dali. Aquela região era, como tantos outros sítios nesta viagem, daqueles lugares onde um gajo nunca, nunca iria em circunstâncias, digamos, normais. Encontrei um cafézito que mostrava o Braga-Benfica, e pedi à senhora para mandar um toque à Graciete. Não tive de insistir, mas tive de pedir mais que uma vez e explicar que não iagastar dinheiro e tal. Ela lá acedeu, mas por alguma razão não conseguia falar com a miuda. Perguntei à cota se havia uma cabine e ela encaminhou-me para o outro lado da vila, que era a dez minutos a pé.
               
- Estou?
- Estou Kidus, – disse eu muito rápido antes que o dinheiro se fosse – olha aponta aí, estou em Villaverde de la Vera, em Espanha,   +rai a duas horas e tal de Portalegre. Podes vir buscar-me?
- Posso, eu peço o gps ao Abreu.
- Ok, fixe. Hum... ainda tenho dez segundos... ‘Tá tudo?
               
Passei algumas horas naquele café. Comi qualquer coisa, vi um filme horrível, e tive de sair porque às dez e tal fechavam.

A Graciete chegou lá                 +rás onze e dez, estava eu sentado na minha mochila na beira da estrada a fazer qualquer coisa no computador. Aquele Renault Clio, o Válter (ou Wally, em inglês), que me tinha levado de Portalegre, o meu último destino tuga, trazer-me-ia igualmente. Que cena. Conduzimos, perdemo-nos, e eram         +rai duas quando estava a atravessar a fronteira. Nove meses e onze dias depois... duzentos e oitenta e quatro dias depois eu voltava ao país que me vira surgir.

Passei duas noites em Portalegre, até voltar para Vale de Cambra. Em Portalegre sentia-me como num sonho, não de tão espetacular que era, mas pela dormência. Sentia-me atordoado, um pouco atafegado, um pouco pressionado. Sentia, acima de tudo, que ainda não tinha chegado. Sentia que o resto de mim andava ainda por aí, perdido numa estrada europeia qualquer, de polegarzito esticado numa valeta, à espera de quem o trouxesse.
               
E sentia-me mal em me sentir assim, porque estava com a Graciete, que tinha esperado por mim, que me tinha ido buscar, e não queria que pensasse que era por causa dela. Queria sentir-me melhor em estar de volta, mas a verdade é que tudo me era muito estranho. Os sentimentos tinham ido dar uma volta e aparecia em mim uma espécie de vazio que eu esperava, e imaginava, ser provisória.
               
Percebi que precisava de largar algo, largar uma ideia que se transformava numa certeza, e senti-me um pouco melhor depois de o fazer. Tinha medo da reacção da Graciete, não queria ver aqueles olhos tristes e com medo do futuro. Mas felizmente, pareceu-me que estava uns metros à minha frente neste domínio, como se já soubesse o que eu lhe queria dizer.
               
- Pá... a cena é que eu acho que batia muito mal se soubesse que nunca mais faria uma viagem destas, dava em doido. Não tem de ser para já, e não tem de ter uma duração assim tão grande. Mas eu preciso disto... é como se um gajo descobrisse um fascínio de VIDA e depois saiba que nunca mais o vai ter. É inconcebível e até cruel. E não tem nada a ver com fugir das minhas circunstâncias, muito menos com fugir de ti, se tu viesses ainda melhor, nem tem nada a ver com ir à procura de quem sou e essas cenas todas... tem a ver com ver em cada dia o potencial infinito que tem... não saber onde se vai estar no dia seguinte, muito menos o que se vai fazer... ter a surpresa sempre ali ao virar da esquina mas não saber qual das esquinas a melhor e ainda assim escolher qualquer uma sem pensar. Não ter de fazer nada senão aquilo que nos apetece. Conhecer pessoas todos os dias que nos trazem novas maneiras de ver, de sentir, de saltar, de voar, de correr, de ser... e que nos ajudam a olhar para dentro e realmente perceber o porquê das cenas, o porquê das nossas maneiras... Apesar de não ser, como disse, acerca de ir à procura de quem sou, é impossível não encontrar, algures por aí nas praias onde nado ou nas estradas que percorro, peçitas do puzzle que cairam da cesta da cegonha quando nos trouxe. Eu estou muito bem em Portugal, gosto de Portugal, da cultura que temos e das relações que tenho... e apesar de toda a merda que se tem passado, com crise            +ráqui, crise      +ráli. Mas gosto, acima de tudo, de estar em Portugal sabendo que me aguarda, num futuro a curto ou médio prazo, uma aventura destas. Gosto de saber que tudo o que sinto agora não são meras versões de outras coisitas só um pouquinho mais diferentes das outras que já senti.

Ela percebeu.

dezassete e cinco, terça, vinte e nove de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal

domingo, 15 de janeiro de 2012

Perseguir


São onze e vinte e seis da noite, e estou numa estação de serviço completamente vazia na Alemanha, fora de rota. Cometi um erro há pouco, e depois outro pessoal cometeu um erro por mim, e parece que vou passar aqui a noite, sentado, ou a dormir debruçado sobre esta mesa de padrão azeiteiramente africano. O meu erro foi não ter sido mais veemente com aquele grego a dizer que queria sair naquela estação de serviço. Tinha dito, mas pelos vistos o gjao não tinha percebido, e quando eu percebi que ele não tinha percebido, não dei três saltos e o gajo seguiu sempre em frente. Depois fiquei na próxima estação de serviço a morrer de frio duas horas, a perguntar ao pessoal onde ia, e a levar nega atrás de nega. Até que apareceu o Dan, alemão em erasmus na Holanda, que esperava os seus amigos. Levaram-me, mas esqueceram-se de me deixar na estação de serviço antes daquele cruzamento, e olha, cá estou... Já estou por tudo. Há pessoal que vai para a Áustria. Fica para o outro lado, mas se me aceitarem vou, que se lixe, sempre é mais um pedaço num carro onde, quem sabe, posso dormir um bocado. Chegava lá e amanhã via como fazia. Mas agora não passa ninguém.

Assim aqui me quedo, a ouvir “Somedays” da Regina Spektor, não exactamente em êxtase, mas sem sentir pena de mim próprio. São cenas. Nem sempre tudo corre bem. Às vezes, como já me aconteceu nesta viagem, corre tudo incrivelmente mal, mas que é que um gajo vai fazer? Deixar de fazer cenas, deixar de mergulhar no desconhecido? P’ra quê, pergunto-te eu.

Tenho pensado muito nisto... Às vezes acho que o pessoal lê tudo ao contrário. Mas claro que... bem, claro que posso ser eu a ler tudo ao contrário. A VIDA é algo precioso, porque à partida é a única que temos. Deixando niilismos de lado e questões metafísicas lá fora, a VIDA que temos não é um test-drive ou parte de um plano infinito. Mas ainda que o seja – não o podemos saber com certeza, por isso n:ao creio que valha a pena vivê-la como tal. Deveríamo-la viver como se fosse a única. E como sendo fugaz – isto ninguém mo pode negar.

Ora então, porque é que acho que o pessoal lê as cenas todas ao contrário?... Porque o pessoal ganha uma pseudo-consciência disso, e tenta proteger-se ao máximo. Não se aventura sobremaneira porque da aventura pode vir a desventura. E deus nos livre... Achamos que a nossa VIDA é tão preciosa que não a podemos pôr em risco de forma nenhuma. E mais, e fundamentalmente, vemos riscos onde não os há, sem tirar nem pôr. Queremos fazer cenas, mas arranjamos um monte de desculpas, e são só palavras com que populamos o nosso ambiente. Abrimos um armário e sacámos da desculpa do “ai não tenho tempo”. Abrimos uma janela e o Vento sopra a desculpa do “ai não tenho dinheiro”. E passa assim tudo ao lado.

Acho que dá para perceber que falo especificamente de viajar. E não é que eu ache que isto de viajar faz toda a gente feliz da mesma forma. Não tem nada a ver com isso. Baseio-me apenas no que ouço vezes sem conta, quase de cada vez que partilho com alguém a minha estória. Ouço estas desculpas. Bem, ou o pessoal me está a mentir e na verdade não lhe apetece verdadeiramente fazer algo semelhante, ou então está a sério, e as desculpas são inegáveis. É que se não é a nossa cena, não é a nossa cena. Tenho todo o respeito por quem segue a sua felicidade, seja a viajar, seja a brincar todo nú com um papagaio no Monte da Caparica. Pá mas que seja algo que se almeja e que se faz por alcançar.

Não há nada pior que o medo de falhar. O medo de falhar é aquele monstro peludo que não nos deixa abrir a porta. Um gajo por mais que se esforçe não se lembra que é tão fácil quanto dizer as palavras mágicas “Porque não?”. Seja em viajar, seja naquele emprego que era mesmo fixe mas que não é tão respeitado como o de um médico, seja no amor. Antecipámos falhanços e rejeições, vivemo-los de antemão e isso dita o nosso destino.

Um gajo vai tropeçar, claro que vai. Um gajo vai viajar e é preso, um gajo despede-se para tentar o emprego de sonho e fica de mãos a abanar, um gajo diz-lhe que a ama e leva uma risadinha condescendente. Mas e daí pá? É a VIDA. É neste momento devíamos  ler a realidade de uma forma que nos fizesse perceber que ao menos tentámos pá. Ao menos entregamo-nos e olha, correu mal... Mas o respeito por nós mesmos é algo que ninguém nos pode oferecer ou comprar. O respeito de sabermos que seguimos o nosso coração dá-nos alento para nos levantarmos e, bem, tentarmos de novo.

Acho que é disto que a VIDA precisa de ser feita. Tentativa e erro, acerto, seja o que for. Eu já cometi inúmeros erros, como toda a gente, como tu. Mas de certa forma são esses erros que igualmente atribuem ao nosso carácter aquilo que nos define, aquilo que nos transforma num ser sem igual. Nem molde nem sistema, tudo é teu como tu és se assim o quiseres.

Arrisca...

vinte e três e quarenta e seis, sexta, vinte e um de outubro de de dois mil e onze
algures entre Nittel e Langenargen (Alemanha)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Madrid


Vi a morada no hostelworld e pedi ao google maps para me dizer a melhor forma de lá chegar. Tinha de ir de metro e depois caminhar um pedaçito. Assim, passado pouco mais de meia hora estava lá. Todo partido, cheio de sono, mas estava lá. Sentei-me na recepção com o gajo que lá trabalhava, o hostel tinha boa pinta, ouvia discussões fixes misturadas com música vindas da cozinha, estava no sítio certo. Quando entreguei o meu passaporte ao Tiago é que percebemos que éramos os dois portugueses.
               
- Depois se quiseres, eu comprei uns queijos e umas garrafas de vinho pró pessoal, e estamos ali na cozinha – disse. Eu estava todo partido, mas gosto demasiado destes settings para dizer que não, e depois de tomar um banho fui lá ter. Passei a noite naquela cozinha e foi demais. Curti muito duas neo-zelandesas que lá estavam, numa viagem de cinco meses pelo mundo fora. Miudas de vinte e poucos anos inteligentes e informadas e com um sentido de humor no ponto certo. Uma delas mais fofinha, a outra mais ácida e expressiva, um par muito porreiro. Havia duas americanas que estavam na Europa para ver os vestidos umas das outras e gastar quase mil dólares ao telemóvel a mandar mensagens para casa. Uma era estilo Britney, a outra... bem a outra era igual, mas mais morena. Pá caiam naquele estereótipo americano.
- As pessoas vestem-se tão bem aqui, é incrível! Na América... é uma pena, na América as pessoas vestem-se com roupas desportivas, não ligam muito... – dizia ela, com um tom de voz que parecia que estava a dizer que na América as pessoas queimam bebés cada Domingo.
- Eu e a Rhonda – dizia a Allyson – vimos nesta viagem uma oportunidade para mudar alguns aspectos da nossa personalidade que não apreciávamos... e eu quero ser menos julgadora... por isso detesto o que vou dizer... – continuou, com um tom que escondia o gozo – mas tu devias ouvi-las no dormitório a falar de como em Madrid a moda é tão incrível e como vão levar ideias e movimentos novos para os Estados Unidos... hilariante! – e o pior é que eu estava mesmo a imaginá-las a dizer isso.
               
E na verdade eu também me sinto às vezes um bocado mal quando falo assim de alguém que não está presente. Mas acho que o mais importante é não deixarmos que isso nos deixe com um sentimento de superioridade. Porque há merdas e merdas. As miudas podem ser seja de que maneira for, e podem gostar de cenas que a mim não me dizem nada. Mas isso não quer dizer que não sejam capazes de dar um rim a quem precisa mais depressa do que eu. Mas isso também não quer dizer que eu não possa dar uma piadinha sobre isto ou sobre aquilo sobre pessoas que eu provavelmente nunca mais vá ver.
               
Depois apareceu um romeno que estava em Madrid para visitar o filho, com quem tinha uma relação mais ou menos turbulenta. Ia-lhe dar um carro. Foi uma boa noite.
               
Passei o dia seguinte na cozinha a escrever. Estava a começar a abater-se sobre mim o final. Era a minha última noite em viagem, e estava meio nervoso. Escrevi sobre isso, partilharei aqui brevemente. Nessa noite haveria, tal como na sexta, um ajuntamentozinho na cozinha, desta vez o hostel oferecia sangria em vez de vinho. O Tiago chegou lá     +rá meia noite, como pelos vistos tinha começado na noite anterior, e já estávamos todos à mesa a conversar e jogar este ou aquele jogo. Estava eu, as neo-zelandesas, dois suiços da parte italiana, um mexicano espetacular chamado Mário com quem tive grandes conversas, o romeno que ficou todo surpreendido e agradecido quando eu voltei para trás para vir buscá-lo (“sabes quando alguém está sempre a dizer que não está bêbedo?”, perguntou-me “quer dizer que está, vão vocês, obrigado por te teres lembrado”), e mais outro pessoal. Na verdade eram todos muito bacanos. Eu estava filado em ir dar uma saidinha, estar com estranhos, ver pessoal, acção, mas saímos do hostel tão tarde que só ficámos nos bares menos de uma horita.

No dia seguinte acordei com o mundo em cima dos ombros. Tudo acabava nesse dia.

segunda, uma e trinta e sete, vinte e oito de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Até Madrid


Tinha seiscentos e trinta quilómetros até Madrid, era muito difícil lá chegar, mas ia tentar. Estava disposto a tudo. Quanto mais perto de casa, mais ansioso estava por voltar. E por isso, estava a ver-me a dormir essa noite numa estação de serviço – outra vez. Mas que se lixe, um gajo arrisca-se a chegar o mais longe possível e sabe o que isso acarreta.
               
Apanhei o metro para a Praça da Catalunha, e de lá um comboio para Castelbisball. Ainda demorei um pedaço a lá chegar. Uma vez aí, foi seguir as instruções que tinha visto na net, e caminhar p´rai três quartos de hora até chegar a uma estação de serviço já na autoestrada, que tanto ia para o oeste como para sul.
               
Quando cheguei estava lá um casal também a boleiar. Ele da Austrália, ela da Bélgica. Mas iam para o sul, por isso não estávamos em conflito. Se não eu esperava. Ficámos lá                 +rai meia hora, até que reparámos que muitos carros vinham lentamente, mas não paravam. Fomos dar uma espreitadela e pelos vistos havia uma zona de restauração com mais carros do que a gasolineira onde nós estávamos.
               
- Vocês estavam aqui primeiro, por isso podem escolher... Querem ir para lá ou ficar aqui?
- Ficamos aqui... – porreiro, era o que eu queria.
- Porque é que não levas a camisola de Portugal? Pode ser que alguém reconheça e simpatize – tinha dito o Albert, um par de horas antes. Assim o fiz.
- Você sabe, eu vi sua camisola, vi que era português, e cria-se logo um clima, você entende... – disse o Jairo, mais tarde, a olhar para mim, no banco de trás. É que mal cheguei à zona de restauração abordei logo o rapaz de um casal. Ele falou comigo em português brasileiro, disse que por ele não havia problema, tinha só de confirmar com a sua namorada. E não só não houve problema como também andaram uma distância espetacular! Deixaram-me fora de Saragoça, duzentos e tal quilómetros depois. Fomos sempre à conversa. Um casal muito simpático, ela francesa, ele brasuca. Ele passou meio ano em Portugal a viajar, vive agora em Barcelona, onde a conheceu. Sonham mudar-se para o Canadá. Despedimo-nos como um abraço, algo que vinha a acontecer com alguma frequência com o pessoal que me dava boleia, e eu lá fiquei.
               
O problema com aquela estação de serviço é que era a única, e dava para os dois lados. Não era bissexual nem nada, simplesmente era um sítio onde o pessoal que ia para Barcelona também usava. E pelos vistos, tirando os ocasionais couristas, toda a gente ia para Barcelona. Basta dizer que cheguei lá à tarde e saí de noite. Por isso estava certo de que usaria a minha mochila como almofada nessa noite.
               
Quando o sol já se tinha mudado para outras paragens, fui dar uma volta a investigar um bocado, ver se havia outros sítios mais propícios. Encontrei, ali num canto à saída do que parecia ser um parque de estacionamento para camiões, um cota com ar de peregrino, ou vagabundo, algo por aí. Tinha          

P´rai cinquenta anos, uma camisola de malha, um lenço ao pescoço e calças de fazenda. Nas mãos um cartão com algumas terras portuguesas e tinha um cajado também. Perguntou-me em espanhol, mas com sotaque português completo, de onde é que eu era, e comecei logo a falar em português.
               
- Você sabe se os camionistas também andam à noite? – perguntei-lhe.
- Você não anda muito à boleia não é? – perguntou também. Senti-me meio incomodado com aquele comentário. O que é curioso, parece que atacou o meu ego e eu, infantilmente, senti a necessidade de dizer que sim, até andava, e tinha feito não sei quantos mil quilómetros à boleia. Ele depois explicou-me algo que eu já sabia, acerca do facto dos camionistas terem um número de horas que podem conduzir por dia e não sei quê. Ele já tinha arranjado uma boleia até Burgos mas ainda assim procurava algo que o pudesse levar mais longe. Pareceu-me que el já tinha interpelado toda a gente ali, por isso não vi grande propósito em ficar. Ele atravessou a estrada comigo.
- Eu? – disse, quando lhe perguntei qual era a cena dele – Eu sou vagabundo. Ando sempre por aí e às vezes, quando não tenho que comer, volto a Portugal. Às vezes peço dinheiro também, não tenho vergonha nenhuma, é assim – respondeu. E eu reparei como, talvez incoerentemente, não senti nenhum stresse com o gajo pedir dinheiro. Isto porque nunca dou dinheiro só por dar. Dou quando alguém está a tocar música ou a prestar um serviço qualquer, mas não concordo muito com a cena de incentivar à dependência de outros. Está certo que me deram algum dinheiro nesta viagem, mas nunca o pedi. Pedi uma vez, no Paquistão, que me dessem algo para comer, mas não pedi dinheiro. E por isso mesmo, por dar dinheiro não seja uma coisa na qual eu embarque, estranhei não estranhar a cena do gajo, e até pensei em dar-lhe dez euros. Talvez por termos algo em comum, o espírito de andarilho, tenha visto as cenas de uma luz diferente, o que só vem acrescentar à noção da relatividade de leis e correctos e errados. O absolutismo é algo em constante decadência, e assumir que há uma visão para tudo é a maior falácia que podemos cometer.
               
Estávamos os dois à porta do restaurante onde eu tinha passado a tarde toda, quando sai um homem dos seus trinta e tal anos. Pergunto-lhe se vai na direcção de Madrid, mas já sem grande entusiasmo. Ele diz que sim, eu pergunto se me pode levar, e ele diz que tem de esperar pela mulher para ver o que ela acha. Espero uma grávida a sair e vejo aí o meu bilhete para mais uma noite ao relento. Sei lá, as grávidas têm mais aquele instinto ali a bombar que as faz querer proteger a famiília como uma chita. Mas nada disso.
               
- Vocês são dois? – pergunta-me o homem, ainda meio desconfiado.
- Não, sou só eu – respondo. E segui. Fomos sempre à conversa. Sei que o pessoal fica sempre impressionado com o meu trajecto e vou contando as cenas para fazer com que lhes tenha valido a pena dar-me boleia. Não só para os deixar bem, mas para aumentas as probabilidades de levarem a próxima pessoa que lhes peça boleia.

Eles iam para Valladolid, mas iam ficar a caminho para dormir. Estavam com pena de me deixar assim à noite, à chuva, numa estação de serviço, mas eu disse-lhes que não havia problema nenhum, já estava preparado para isso. Um bocado admirados e confusos com a leveza com que enfrentava não saber nada acerca do meu destino, lá me deixaram, não sei antes tentarem, por mim, pedir a um ou outro que me levasse. Saí do carro, caminhei para a gasolineira.
               
- Você vai para Madrid? – perguntei, em espanhol.
- Vou – respondeu o camionista, meio mal encarado.
- Posso ir consigo, por favor?
- Mas que vais fazer para Madrid? – perguntou, com cara de gozo. Lá expliquei que estava a caminho de Portugal e tal, e que Madrid estava a caminho. O gajo estava no gozo comigo, só isso. Na boa. Disse que me levava, e para eu esperar à frente do restaurante. Todo contente, fui a correr para dizer aos qure me tinham acabado de deixar e que até estavam um bocado preocupados comigo. Mas já tinham ido. Eram dez da noite, lá         +rá meia noite ia conseguir chegar a Madrid, incrível. O cota lá apareceu outra vez, pagou-me um café e um moscatel, e seguimos caminho.

- Tu que fazes? – perguntou-me, já no camião. E quando eu disse que era psicólogo, senti que o gajo viu ali, como outros, uma oportunidade para falar das suas cenas. Perguntou-me primeiro com quem tinha trabalhado e disse-lhe que durante nove meses em Portugal e meio ano na Noruega, tinha trabalhado com toxicodependentes. Quando me perguntou qual achava ser o problema de toxicodependentes, dei-lhe a minha opinião pessoal e profissional. Que na grande parte das vezes uma dependência extrema não é necessariamente o  problema, mas o sintoma de outros problemas latentes. Isto é, não basta abordar o gosto que se tem por uma grande moca e tudo mais, mas o que é que levou àquilo.

- Então vou dizer-te uma coisa... eu... fui para a tropa aos dezoito anos de idade. Até lá, nunca tinha fumado um charro na VIDA. Nunca tinha tocado nisso. Mas aos dezoito anos, meti-me num barco para Ceuta, e experimentei. E desde então, fumo um ou dois charros todos os dias pá... que é que tu achas disso?
- Pá eu não acho que isso seja necessariamente um problema, porque não ponho a ganza na mesma qualidade das outras drogas. Acima de tudo é um problema de é algo que tem um efeito no teu dia-a-dia, na tua rotina, no teu estar, no que fazes ou deixas de fazer. Não há provas de que a marijuana faz mal à saúde, – e não há – pelo menos não faz pior do que um cigarro normal. As dependências que causa não são físicas mas psicológicas...
- Pois mas a mim faz-me uma diferença... no meu dia-a-dia, ou como quer que tu o chames... porque todos os dias tenho de dizer à minha mulher que vou visitar a minha mãe, ou que vou ao café, ou que vou ao caralho, só porque tenho de fumar um charro – disse-me.
- Isso talvez se prenda com o facto da tua mulher se deixar influenciar pelo facto de ser ilegal. Às vezes, e sem ofensa para a tua mulher, o pessoal é preguiçoso... não quer pensar nas cenas a fundo então deixa-se ir com a opinião geral, com a sociedade ou pela lei... É ilegal, então é mau e devo condenar isso, é o que o pessoal pensa logo... – e tenho isto como verdade. Porque se perguntarmos a alguém porque é que a ganza é ilegal, o pessoal vai dizer cenas como “porque é droga” ou algo assim. Iá, pois é. Mas o álcool é droga e mata milhões. O mesmo se passa com o tabaco. Ao passo que nunca houve uma morte registada devido ao uso de marijuana. E acho uma hipocrisia de topo o pessoal que vem com estes couros mas depois anda cheio de antidepressivos, medicamentos para dormir e drogas que tais...
- Pois, era mais fácil se eu pudesse fumar à frente dela. Mas o erro foi meu... desde o início que escondi, e depois era tarde demais...
- Já pensaste em abrir o jogo? Tu próprio já disseste bastantes vezes que a tua mulher é uma pessoa inteligente e formada, se calhar nem tem problema com nenhum. Se lhe disseres a verdade, se lhe mostrares que és a mesma pessoa antes e depois de fumares, – como eu sei que era, porque esta conversa foi tida enquanto ele fumava um charro – pode ser que ela perceba. E pode ser que prefere que passes mais tempo em casa, em vez de estares a inventar desculpas para sair de casa todos os dias... já pensaste nisso? – ele já tinha pensado nisso.
               
O Eduardo era um gajo muito porreiro, boa gente, mas daquelas com um temperamento difícil. Eu percebi isso pela maneira como ele amaldiçoava outros condutores só por existirem, e ele também fez questão de mo dizer. Levou-me direitinho a Madrid, na periferia onde os camionistas passam a noite. Estava mesmo preocupado em saber onde eu dormiria, acho que se não tivesse onde ficar podia ter ficado na cama de cima do camião. Na verdade não tinha sítio para ficar, só pensava que sim. É que quando passei a tarde toda na estação de serviço nesse mesmo dia tinha tido uns minutos de internet e tinha visto que tinha tido um pedido aceite no couchsurfing. Mas não abriu e não consegui ver mais nada além do “maybe”. Soube, mais tarde, que era para Saragoça, por isso nada feito.
- Ainda vais escrever umas páginas sobre mim no teu livro Pedro, não vais? – perguntou-me. Tinha-me já perguntado se eu fazia um diário da viagem, e eu tinha-lhe dito que sim e que gostava de partilhar as minhas experiências com o resto do pessoal.
- Vou Eduardo, vou... tu és um bom moço...
- Foi a melhor boleia que apanhaste ou quê? – perguntou, com um grande sorriso.
- Foi das melhores, sem dúvida – disse, com sinceridade. É que gostei da forma como aquele gajo com uma carapaça dura se abriu e fez questão de me ter bem. Quando chegámos à Merca-Madrid, ele apontou-me onde tinha de apanhar o autocarro para o centro de Madrid. Eu saltei para a estrada, ele chamou-me e deu-me uma casa. Na saca tinha pão, chouriço, presunto, sardinhas em lata e patê. Que cena, curti bués.
               
Despedimo-nos e apanhei o autocarro para o centro. Não tinha sofá, mas tinha internet no autocarro – cool! Fiz umas sandes, que comi enquanto procurava por um hostel na internet. “One Malasana”, pareceu-me bem. Barato e bem cotado no hostelworld. Siga...

segunda, dezasseis e treze, vinte e oito de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal