quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Até Madrid


Tinha seiscentos e trinta quilómetros até Madrid, era muito difícil lá chegar, mas ia tentar. Estava disposto a tudo. Quanto mais perto de casa, mais ansioso estava por voltar. E por isso, estava a ver-me a dormir essa noite numa estação de serviço – outra vez. Mas que se lixe, um gajo arrisca-se a chegar o mais longe possível e sabe o que isso acarreta.
               
Apanhei o metro para a Praça da Catalunha, e de lá um comboio para Castelbisball. Ainda demorei um pedaço a lá chegar. Uma vez aí, foi seguir as instruções que tinha visto na net, e caminhar p´rai três quartos de hora até chegar a uma estação de serviço já na autoestrada, que tanto ia para o oeste como para sul.
               
Quando cheguei estava lá um casal também a boleiar. Ele da Austrália, ela da Bélgica. Mas iam para o sul, por isso não estávamos em conflito. Se não eu esperava. Ficámos lá                 +rai meia hora, até que reparámos que muitos carros vinham lentamente, mas não paravam. Fomos dar uma espreitadela e pelos vistos havia uma zona de restauração com mais carros do que a gasolineira onde nós estávamos.
               
- Vocês estavam aqui primeiro, por isso podem escolher... Querem ir para lá ou ficar aqui?
- Ficamos aqui... – porreiro, era o que eu queria.
- Porque é que não levas a camisola de Portugal? Pode ser que alguém reconheça e simpatize – tinha dito o Albert, um par de horas antes. Assim o fiz.
- Você sabe, eu vi sua camisola, vi que era português, e cria-se logo um clima, você entende... – disse o Jairo, mais tarde, a olhar para mim, no banco de trás. É que mal cheguei à zona de restauração abordei logo o rapaz de um casal. Ele falou comigo em português brasileiro, disse que por ele não havia problema, tinha só de confirmar com a sua namorada. E não só não houve problema como também andaram uma distância espetacular! Deixaram-me fora de Saragoça, duzentos e tal quilómetros depois. Fomos sempre à conversa. Um casal muito simpático, ela francesa, ele brasuca. Ele passou meio ano em Portugal a viajar, vive agora em Barcelona, onde a conheceu. Sonham mudar-se para o Canadá. Despedimo-nos como um abraço, algo que vinha a acontecer com alguma frequência com o pessoal que me dava boleia, e eu lá fiquei.
               
O problema com aquela estação de serviço é que era a única, e dava para os dois lados. Não era bissexual nem nada, simplesmente era um sítio onde o pessoal que ia para Barcelona também usava. E pelos vistos, tirando os ocasionais couristas, toda a gente ia para Barcelona. Basta dizer que cheguei lá à tarde e saí de noite. Por isso estava certo de que usaria a minha mochila como almofada nessa noite.
               
Quando o sol já se tinha mudado para outras paragens, fui dar uma volta a investigar um bocado, ver se havia outros sítios mais propícios. Encontrei, ali num canto à saída do que parecia ser um parque de estacionamento para camiões, um cota com ar de peregrino, ou vagabundo, algo por aí. Tinha          

P´rai cinquenta anos, uma camisola de malha, um lenço ao pescoço e calças de fazenda. Nas mãos um cartão com algumas terras portuguesas e tinha um cajado também. Perguntou-me em espanhol, mas com sotaque português completo, de onde é que eu era, e comecei logo a falar em português.
               
- Você sabe se os camionistas também andam à noite? – perguntei-lhe.
- Você não anda muito à boleia não é? – perguntou também. Senti-me meio incomodado com aquele comentário. O que é curioso, parece que atacou o meu ego e eu, infantilmente, senti a necessidade de dizer que sim, até andava, e tinha feito não sei quantos mil quilómetros à boleia. Ele depois explicou-me algo que eu já sabia, acerca do facto dos camionistas terem um número de horas que podem conduzir por dia e não sei quê. Ele já tinha arranjado uma boleia até Burgos mas ainda assim procurava algo que o pudesse levar mais longe. Pareceu-me que el já tinha interpelado toda a gente ali, por isso não vi grande propósito em ficar. Ele atravessou a estrada comigo.
- Eu? – disse, quando lhe perguntei qual era a cena dele – Eu sou vagabundo. Ando sempre por aí e às vezes, quando não tenho que comer, volto a Portugal. Às vezes peço dinheiro também, não tenho vergonha nenhuma, é assim – respondeu. E eu reparei como, talvez incoerentemente, não senti nenhum stresse com o gajo pedir dinheiro. Isto porque nunca dou dinheiro só por dar. Dou quando alguém está a tocar música ou a prestar um serviço qualquer, mas não concordo muito com a cena de incentivar à dependência de outros. Está certo que me deram algum dinheiro nesta viagem, mas nunca o pedi. Pedi uma vez, no Paquistão, que me dessem algo para comer, mas não pedi dinheiro. E por isso mesmo, por dar dinheiro não seja uma coisa na qual eu embarque, estranhei não estranhar a cena do gajo, e até pensei em dar-lhe dez euros. Talvez por termos algo em comum, o espírito de andarilho, tenha visto as cenas de uma luz diferente, o que só vem acrescentar à noção da relatividade de leis e correctos e errados. O absolutismo é algo em constante decadência, e assumir que há uma visão para tudo é a maior falácia que podemos cometer.
               
Estávamos os dois à porta do restaurante onde eu tinha passado a tarde toda, quando sai um homem dos seus trinta e tal anos. Pergunto-lhe se vai na direcção de Madrid, mas já sem grande entusiasmo. Ele diz que sim, eu pergunto se me pode levar, e ele diz que tem de esperar pela mulher para ver o que ela acha. Espero uma grávida a sair e vejo aí o meu bilhete para mais uma noite ao relento. Sei lá, as grávidas têm mais aquele instinto ali a bombar que as faz querer proteger a famiília como uma chita. Mas nada disso.
               
- Vocês são dois? – pergunta-me o homem, ainda meio desconfiado.
- Não, sou só eu – respondo. E segui. Fomos sempre à conversa. Sei que o pessoal fica sempre impressionado com o meu trajecto e vou contando as cenas para fazer com que lhes tenha valido a pena dar-me boleia. Não só para os deixar bem, mas para aumentas as probabilidades de levarem a próxima pessoa que lhes peça boleia.

Eles iam para Valladolid, mas iam ficar a caminho para dormir. Estavam com pena de me deixar assim à noite, à chuva, numa estação de serviço, mas eu disse-lhes que não havia problema nenhum, já estava preparado para isso. Um bocado admirados e confusos com a leveza com que enfrentava não saber nada acerca do meu destino, lá me deixaram, não sei antes tentarem, por mim, pedir a um ou outro que me levasse. Saí do carro, caminhei para a gasolineira.
               
- Você vai para Madrid? – perguntei, em espanhol.
- Vou – respondeu o camionista, meio mal encarado.
- Posso ir consigo, por favor?
- Mas que vais fazer para Madrid? – perguntou, com cara de gozo. Lá expliquei que estava a caminho de Portugal e tal, e que Madrid estava a caminho. O gajo estava no gozo comigo, só isso. Na boa. Disse que me levava, e para eu esperar à frente do restaurante. Todo contente, fui a correr para dizer aos qure me tinham acabado de deixar e que até estavam um bocado preocupados comigo. Mas já tinham ido. Eram dez da noite, lá         +rá meia noite ia conseguir chegar a Madrid, incrível. O cota lá apareceu outra vez, pagou-me um café e um moscatel, e seguimos caminho.

- Tu que fazes? – perguntou-me, já no camião. E quando eu disse que era psicólogo, senti que o gajo viu ali, como outros, uma oportunidade para falar das suas cenas. Perguntou-me primeiro com quem tinha trabalhado e disse-lhe que durante nove meses em Portugal e meio ano na Noruega, tinha trabalhado com toxicodependentes. Quando me perguntou qual achava ser o problema de toxicodependentes, dei-lhe a minha opinião pessoal e profissional. Que na grande parte das vezes uma dependência extrema não é necessariamente o  problema, mas o sintoma de outros problemas latentes. Isto é, não basta abordar o gosto que se tem por uma grande moca e tudo mais, mas o que é que levou àquilo.

- Então vou dizer-te uma coisa... eu... fui para a tropa aos dezoito anos de idade. Até lá, nunca tinha fumado um charro na VIDA. Nunca tinha tocado nisso. Mas aos dezoito anos, meti-me num barco para Ceuta, e experimentei. E desde então, fumo um ou dois charros todos os dias pá... que é que tu achas disso?
- Pá eu não acho que isso seja necessariamente um problema, porque não ponho a ganza na mesma qualidade das outras drogas. Acima de tudo é um problema de é algo que tem um efeito no teu dia-a-dia, na tua rotina, no teu estar, no que fazes ou deixas de fazer. Não há provas de que a marijuana faz mal à saúde, – e não há – pelo menos não faz pior do que um cigarro normal. As dependências que causa não são físicas mas psicológicas...
- Pois mas a mim faz-me uma diferença... no meu dia-a-dia, ou como quer que tu o chames... porque todos os dias tenho de dizer à minha mulher que vou visitar a minha mãe, ou que vou ao café, ou que vou ao caralho, só porque tenho de fumar um charro – disse-me.
- Isso talvez se prenda com o facto da tua mulher se deixar influenciar pelo facto de ser ilegal. Às vezes, e sem ofensa para a tua mulher, o pessoal é preguiçoso... não quer pensar nas cenas a fundo então deixa-se ir com a opinião geral, com a sociedade ou pela lei... É ilegal, então é mau e devo condenar isso, é o que o pessoal pensa logo... – e tenho isto como verdade. Porque se perguntarmos a alguém porque é que a ganza é ilegal, o pessoal vai dizer cenas como “porque é droga” ou algo assim. Iá, pois é. Mas o álcool é droga e mata milhões. O mesmo se passa com o tabaco. Ao passo que nunca houve uma morte registada devido ao uso de marijuana. E acho uma hipocrisia de topo o pessoal que vem com estes couros mas depois anda cheio de antidepressivos, medicamentos para dormir e drogas que tais...
- Pois, era mais fácil se eu pudesse fumar à frente dela. Mas o erro foi meu... desde o início que escondi, e depois era tarde demais...
- Já pensaste em abrir o jogo? Tu próprio já disseste bastantes vezes que a tua mulher é uma pessoa inteligente e formada, se calhar nem tem problema com nenhum. Se lhe disseres a verdade, se lhe mostrares que és a mesma pessoa antes e depois de fumares, – como eu sei que era, porque esta conversa foi tida enquanto ele fumava um charro – pode ser que ela perceba. E pode ser que prefere que passes mais tempo em casa, em vez de estares a inventar desculpas para sair de casa todos os dias... já pensaste nisso? – ele já tinha pensado nisso.
               
O Eduardo era um gajo muito porreiro, boa gente, mas daquelas com um temperamento difícil. Eu percebi isso pela maneira como ele amaldiçoava outros condutores só por existirem, e ele também fez questão de mo dizer. Levou-me direitinho a Madrid, na periferia onde os camionistas passam a noite. Estava mesmo preocupado em saber onde eu dormiria, acho que se não tivesse onde ficar podia ter ficado na cama de cima do camião. Na verdade não tinha sítio para ficar, só pensava que sim. É que quando passei a tarde toda na estação de serviço nesse mesmo dia tinha tido uns minutos de internet e tinha visto que tinha tido um pedido aceite no couchsurfing. Mas não abriu e não consegui ver mais nada além do “maybe”. Soube, mais tarde, que era para Saragoça, por isso nada feito.
- Ainda vais escrever umas páginas sobre mim no teu livro Pedro, não vais? – perguntou-me. Tinha-me já perguntado se eu fazia um diário da viagem, e eu tinha-lhe dito que sim e que gostava de partilhar as minhas experiências com o resto do pessoal.
- Vou Eduardo, vou... tu és um bom moço...
- Foi a melhor boleia que apanhaste ou quê? – perguntou, com um grande sorriso.
- Foi das melhores, sem dúvida – disse, com sinceridade. É que gostei da forma como aquele gajo com uma carapaça dura se abriu e fez questão de me ter bem. Quando chegámos à Merca-Madrid, ele apontou-me onde tinha de apanhar o autocarro para o centro de Madrid. Eu saltei para a estrada, ele chamou-me e deu-me uma casa. Na saca tinha pão, chouriço, presunto, sardinhas em lata e patê. Que cena, curti bués.
               
Despedimo-nos e apanhei o autocarro para o centro. Não tinha sofá, mas tinha internet no autocarro – cool! Fiz umas sandes, que comi enquanto procurava por um hostel na internet. “One Malasana”, pareceu-me bem. Barato e bem cotado no hostelworld. Siga...

segunda, dezasseis e treze, vinte e oito de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Até Barcelona

O Dani e a Verónica estavam de folga naquele dia. Tinham dito que podíamos ir dar uma voltam mostravam-me algumas cenas porreiras e tal, mas eu tinha de bazar. Já lá tinha ficado uma noite a mais do que tinha planeado, era tempo de seguir viagem. Eles deram-me boleia até um sítio a meia hora de Pas de la Casa onde seria mais fácil arranjar uma boleia. Pelo caminho ainda apanhámos um Moldavo que falava umas quatro ou cinco línguas.

Foi fixe porque eles deixaram-me numa estação de serviço, foram comprar uma cola, e antes que tivessem bazado, eu já tinha seguido com um cota espanhol. Este deixou-me numa estação de serviço onde passava um carro a cada dez minutos. E isto, na estrada, porque parar lá, ninguém parava. Ora boleiar na Espanha com o dedito, em vez de ser a falar com o pessoal, não é uma das cenas mais fáceis, pelo que achei que estava lixado. Mas não! Apanhei boleia de um gajo da UPS, que me levou meia horita e me deixou noutra estação de serviço. Daí, demorei cerca de uma hora até apanhar uma boleia do Xavi, que me levou direitinho até Barcelona. Um gajo de vinte e cinco anos, muito porreiro, a passar por um momento muito complicado na sua VIDA. O seu pai tinha tido um acidente de mota, e estava em coma.
               
- Andámos a pagar o seguro anos e anos pá... e agora não querem pagar nada. Estou a ir para ma reunião agora com o advogado, mas não sei como vai ser. E se não conseguirmos que o seguro cumpra a sua obrigação, não sei como vai ser. Posso vender este carro, – um megane novo – mas mesmo isso só dá para alguns meses. A clínica onde o meu pai está custa quase quatrocentos euros por dia – contava-me, com um peso nas palavras e umas pequenas asinhas no tom de quem quer acreditar que tudo vai correr bem. Frustram-me imensamente estas situações. Este sistema de capitalismo onde os humanos são... números. Num sistema onde fazer dinheiro é imperativo, as VIDAS perdem valor, as relações interpessoais e humanas são lançadas para um plano onde só se conta quando é alguém cuja perda significará, para nós, uma perda também. Quando o sofrimento acontece um par de casas rua abaixo, já não interessa. Porque não tem a ver comigo. A individualidade que tanto se encoraja neste ocidentalismo faz com que nada mais interesse. Corrompe-se um valor que devíamos levar dentro do peito. Saber que, ainda que sejamos a pessoa mais importante da nossa VIDA, não somos a pessoa mais importante da VIDA.

Quando cheguei a Barcelona, demos um abraço e eu pus-me a caminho da internet. Ainda comi qualquer coisa num café, mas a internet não funcionava. Finalmente apareceu um canto onde a cidade de Barcelona me oferecia um bocadinho de rede, gratuitamente. Saquei o número do Alex e do Albert, que tinham vivido comigo na Finlândia, mas o Alex não atendia e o número do Albert não funcionava.
               
- Não te preocupes que não me estorvas – diz-me um cota com cara de parvo. É que eu estava sentado na minha mochila, encostado a uma coluna, três mestros à frente da porta de um prédio. Pá que estupidez, detesto estas abordagens. Será que custa muito uma cena como “olha, chega-te um bocadinho p´ráli porque estás no meu caminho”? E o pior é que nem estava no seu caminho.

- Ok, ainda bem – respondi. Entretanto estava à procura de alternativas. Havia um hostel a nove euros. Depois perguntei na minha página do facebook se alguém tinha um amigo naquela cidade que me pudesse albergar. E havia. Foi um pequeno alívio. O verdadeiro alívio foi quando vejo um mail do Albert a dizer para eu ir ter com ele à estação de Gorg, na línha púrpura. Espetáculo. Voei para o metro, ainda me enganei porque segui sempre em frente e depois tive de voltar, mas lá dei com o sítio, que já era noutra cidade, em Badalona. Estava um bocado nervoso. Ia ver o Albert passado tanto tempo...
               
Eu e o Albert vivemos juntos em Jyvaskyla, na Finlândia, de Setembro de dois mil e quatro a Maio de dois mil e cinco. No primeiro semestre vivemos com a Laura, sua namorada com quem partilhava o quarto (apesar de ela ter um outro quarto no andar de cima para onde ia quando tripavam) e com o Valerio, nosso amigo de Roma. Éramos como uma família feliz, e ter passado esse ano com ele foi um grande contributo para aqueles tempos terem sido dos melhores na minha VIDA. O nosso apartamento era uma espécie de sala comum do prédio. Fosse para noites de loucura, fosse para jogar risco ou simplesmente conversar, a partir das oito da noite, o pessoal começava a chegar e a ocupar a cozinha. No segundo semestre o Valerio ia voltar para a Itália e havia bastante pessoal interessado em vir para o seu quarto. Demos preferência ao Alex, também catalão, e que fazia parte do nosso grupo mais imediato. À conta das vezes que chorava bêbedo, será eternamente conhecido como o “Kid”. Recordarei sempre o dia em que voltei de Portugal no Natal, no dia dezoito de Janeiro. Voei com a Cristina, portuguesa que também estudava psicologia. Saímos do táxi à porta do prédio e olhámos para cima. Da varanda do meu apartamento, no segundo andar, caía uma faixa enorme que chegava até ao chão, de um metro e pico de largura. Podia ler-se, em letras garrafais “Welcome Pedro”. Foi das melhores coisas que já fizeram por mim. Entrei e trocámos as prendas de Natal. Hoje, ao escrever isso, uso ainda os calções do Barcelona que recebi nessa noite.
               
- Pedro, diz lá quando é que vou embora... – disse-me o Albert, um dia. Estávamos em Maio, e a Laura, sua namorada na altura, já tinha bazado. O Albert não bazou muito mais tarde. E o meu erasmus começou a desaparecer com a sua ida, que marcou o princípio do fim.
               
Encontrámo-nos em Setembro do mesmo ano. Um grupinho veio até Portugal e descemos a costa, parando para surfar nesta e naquela praia. Depois disto, encontramo-nos em dois mil e sete. Fui visitar o Alex e apanhámos um comboio até à montanha. E então já não nos víamos há quatro anos. Mas no primeiro momento que nos vimos, quando apareceu ali na estação de metro, foi como se tivessemos viajado no tempo.
               
- As mulheres são estranhas pá... – dizia-me, na mesma noite, lá p´rás duas da manhã, estávamos na descontra na sua sala.
- Porquê?
- São tão complicadas, sempre a falar uma das outras, sempre a pensar em demasia... tipo... se não falam durante uns tempos, pensam logo que a outra está chateada, ou que a relação já foi à VIDA, sei lá, coisas assim... E nós – eu e ele – podemos estar quase um ano sem mandar um mail ou coisas do género, mas quando nos encontrámos, é como se tivéssemos ainda em Jyvaskyla! – acho que isto diz tudo. De facto, curti bués estar com ele aqueles dois dias. Além disso, o Albert é daquelas pessoas que têm uma luz especial. Não há um montão delas. E não quer dizer que quem não tem essa luz não seja uma pessoa fascinante e boa o suficiente para se morrer por ela. Mas há uma luz. Que algumas pessoas têm.
               
O Albert vive com a Raquel, uma rapariga boa onda, com personalidade e bastante diferente dele, que é um instrutor de snowboard e professor de chavalada. A Raquel trabalha numa empresa de marketing e viaja bués em trabalho e tem assim uma estrutura mais rígida. São um casal fixe de ser ver, apesar de, para mim, ter sido muito estranho inicialmente. É que na Finldândia o Albert não era só o  Albert. Era o Albert e  a Laura. Andavam sempre juntos, viviam juntos, eram uma parte daquele sistema. Depois vê-lo com a Raquel foi, como disse,... diferente.
               
Jantámos nessa noite e  passámos o serão à conversa. A Raquel adormeceu no sofá, o Albert levou-a ao colo para a cama, e depois ficámos no paleio até às duas e tal. No dia seguinte acordei à vontade, almoçámos qualquer coisa, e fomos dar uma volta pela cidade. Encontrámo-nos com a Raquel e fomos beber um chocolate quente num daqueles sítios que tem não sei quantas dezenas de anos. Íamos jantar fora, mas estava assim meio de chuva, por isso ficámos por casa. Foi fixe na mesma. Um serão como o anterior, conversa, chouriça, pão com tomate, siga!
               
Acordei no dia seguinte ceducho, e fui com o Albert até ao metro. Demos um abraço e segui para Madrid, onde chegaria, mas a custo...

sábado, dezoito e cinquenta e nove, vinte e seis de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal






quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Andorra



De Montpellier a Andorra tinha trezentos e poucos quilómetros, seria uma viagem mais ou menos tranquila, apesar de ter chegado já de noite.
               
Acordei tarducho, arranjei-me e fui para o metro. Deixei-me ir, sem pagar, até à ´´ultima estação da “linha das rosas”, saí e fui para a portagem. Lá estava uma chavala que se safou de imediato. Estava sem malas e vestida toda pax-pix, parecia que fazia isto com frequência, e só para ir “até ali”. Eu não tive menos sorte. Parou um cota com uma boa pinta, que me levou. Fomos falando de história em francês, mas a meio percebi que também falava inglês, o que é sem dúvida melhor. Ele queria ir levar-me a comer umas ostras, e apetecia-me mesmo, porque curto bués estas ocasiões boleiantes, mas achei melhor seguir caminho.
               
Deixou-me numa portagem, onde esperei quase uma hora. Estava lá uma rapariga e combinámos que, caso um conseguisse, pedia para levar o outro. Eu safei-me com uma senhora de cabelo curto, mas ela não acedeu ao meu pedido. Esta também me falou muito de política, sempre em francês, e acerca dos tristes feitos europeus em África. Deixou-me numa estação de serviço onde tive de esperar um bom bocado. Daí segui com o casal mais calado de sempre, que me deixou perto de Perpignan. Lá fiquei numa portagem, ninguém ia para os lados de Andorra. Resolvi aplicar o golpe de Zurique e de Milão (entrar na cidade e lá tentar perceber como me orientar melhor), mas um casal levou-me uns quilometritos à frente e deixou-me mesmo ao lado de uma placa que dizia “Andorra”. “‘Tou fodido, aqui só com o dedo...”, pensei. Pensei mal. Porque passados vinte minutos estava no carro de outro cota, ainda mais falador que o primeiro, que me levou prai uma hora e meia. Este era mais daqueles que eu não percebia muito bem e dizia que sim com um sorriso. Não comia queijo, não bebia, não fazia nada das cenas que dão tanto prazer, isso percebi bem porque fez questão de o sublinhar. Não gosto quando o pessoal faz isso. Quero dizer, que cada um faça o que lhe apetecer, mas eu não o quero fazer... Vendo cinco anos da minha VIDA pelo prazer de comer queijo, francesinhas e amendoíns à vontade, e não me preocupar com vinhos, whiskeys ou cervejas...
               
Ia escurecendo, e este cota deixou-me a cerca de oitenta quilómetros de Andorra. Deixou-me no meio de uma aldeia que não era nada mais do que cem metros de casas, no meio das montanhas. Estava a adorar aquele cenário. O Outono era todo meu ali na França com um pé em Andorra. Fiquei na beira da estrada, já a apertar o casaquinho, quando um casal parou. Levaram-me prai meia hora, dormi um bocadito. Outra vez na estrada, fui apanhado num ápice por duas espanholas, aquele dia de dedo espetado estava a correr brilhantemente! Tanto que quando me deixaram, não esperei mais que dez minutos até ser apanhado por um carro com um casal e outro rapaz a fumar toda a ganza que podiam antes de atravessar a fronteira. Benvindo a Andorra.

Ia ficar em casa do Dani, que não sabia quem era. Tinha postado na minha página do facebook que ia para Andorra, e a Joana disse que estavam lá uns valecambrenses, e deu-me o contacto do Dani. Como o Dani tinha uma imagem qualquer de snowboard no seu perfil, não sabia quem era. Foi por isso com surpresa que o vi aparecer no McDonalds para vir ter comigo.
               
- Ah, és tu! – tinha-lhe ligado de uma cabine.
               
Passei três noites em Pas de la Casa, e foi muito fixe. Achei aquele ambiente fascinante, não pela sua espetacularidade, mas pelo fenómeno social que é. Tive essa impressão de imediato, e fui  confirmar – Andorra é o país do mundo com maior percentagem de imigrantes, sendo esta de mais de setenta por cento em dois mil e cinco. é incrível, sem d´´uvida. Isto depois do Vaticano, que tem cem por centro de imigrantes... Por razões óbvias, que é o facto de rapazinhos não poderem engravidar.
               
Na primeira noite fiquei um bocado em casa do Dani à conversa com a Verónica, a sua namorada chilena, e depois fomos ter com o Bebé. Pelos vistos tinha havido festa da grossa no dia anterior, e o pessoal estava todo partido. Contudo, ter estado ali com eles naqueles dias deu-me a entender que, com festa ou sem festa para desajudar o descanso, o pessoal trabalha de caraças. Muitas horas, uma folga por semana quando têm esse privilégio.
               
A Veronica veio do Chile para a Espanha há alguns anos à procura de um trabalho que pagasse um pouco mais, aliado à aventura natural de quem atravessa um oceano. Conheceu o Dani já em Andorra e agora partilham um apartamentozinho pequeno mas muito bacano. O outro valecambrense que lá está é o Bebé. Foi fixe ter estado com ele, porque é daquelas pessoas que conheço quase desde sempre mas com quem nunca tinha falado mais que cinco minutos. O Bebé está lá há dois anos, está bem e confortável, mas também trabalha mil horas por dia, mil horas por semana. Pelo que percebi, e me disseram, os portugueses tanto têm má fama por terras andorrenhas, como fama de trabalharem muito. Coisas opostas, mas enfim. O Bebé e o Dani caem claramente na segunda categoria.
               
Na segunda noite fomos dar uma saída. É que na primeira percebi que o Dani queria ir beber uns copos, mas porque eu estava lá e ele queria ser um bom anfitrião. Mas eu disse que não havia crise, e saímos na noite seguinte. Fomos até casa do Bebé, ficámos lá um pedaço, depois saímos para o sítio onde eles costumam ir e conhecem o bartender, um gajo de Viana do Castelo. Mas claro, numa vila com duas mil pessoas, seria era estranho se não se conhecessem quase todos.
               
Pareceu-me, acima de tudo, que Pas de la Casa estava em stand-by. É que toda a gente falava com um sorriso e olhos sonhadores de “quando vier a neve”.
               
- Pá agora não se passa nada, como tu vês... mas na época um gajo pode fazer snowboard todos os dias, está cheio de malta, vêm mais pessoas para trabalhar, não tem nada a ver – diziam, mais do que uma vez. E eu acredito sendo que, efectivamente, não se passava nada ali. Mas é aquela cena, não tem de se passar alguma coisa, se estás com um grupo porreiro de três ou quatro. Foi por isso que apesar de toda a calmaria, chegámos a casa lá   prás cinco da manhã.
               
- Não fiz muito no resto dos dias. Num dia fui dar uma volta, ver um lago que até é bonito e, acima de tudo, descontrair. Saímos mais uma noite, que foi tipo a primeira. E na manhã seguinte, segui para Barcelona.

sábado, treze e cinquenta e oito, vinte e seis de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal




domingo, 18 de dezembro de 2011

Montpellier


Tinha trezentos e poucos quilómetros pela frente até Montpellier, o que era tranquilo. Deixei a casa do Hassan, e fui a pé até onde me tinha deixado o Filipe. O hitchwiki não tinha ajuda para Antibes, mas mesmo que tivesse, aquele sítio parecia-me porreiro. Demorei mais de uma hora até lá chegar, mas quando cheguei foi na boa. Esperei dez minutos e apanhei boleia de um checo, que me deixou na próxima estação de serviço.
               
Lá esperei mais de uma hora, mas apanhei uma boleia de quase cem quilómetros de uma rapariga com quem ia falando em francês. Ela deixou-me numa estação de serviço ali à frente e apanhei boleia de um cota italiano bem vivido, com quem fui sempre à conversa, em inglês. Ele tinha passado algum tempo nos Estados Unidos, tinha estórias de amor na Noruega, Índia, Itália, um pouco por todo o lado. Era, como eu, um gajo que tinha alguma dificuldade em entender, e especialmente aceder, a certas convenções ocidentais. Ele ia visitar um tio que estava a morrer, em Orange. Deixou-me para lá de onde devia ter deixado, mas ainda era cedo, por isso não me preocupei. E não tinha mesmo nada com que me preocupar! É que em poucos minutos estava num carro que me ia levar direitinho a Montpellier. Uma senhora, com o seu filho à frente, parou para tirar o ticket antes de entrar na autoestrada, perguntei se ia para sul, ela disse que ia passar por Montpellier. Sorri, ela disse que estacionava à frente, eu corri para a encontrar, sem saber que tinha a alça da mochila presa a um ferro da barreira entre estradas, e dei um tombo fenomenal, para gáudio do carro que vinha atrás.
               
Quem me apanhou foi a Shayne, uma mulher branca que nasceu no Zimbabwe. Era professora de inglês numa universidade e ao mesmo tempo era responsável pela promoção na França de obras de arte de artistas do seu país. Daquelas pessoas que deixa atrás de si um currículo de coisas positivas neste mundo, que fica melhor com a sua presença. Trazia estes artistas para a Europa, e ajudava-os, com o dinheiro das suas obras, a promover alguns serviços naquele país africano.
               
Ainda parámos em casa do filho de uma amiga dela para irmos buscar umas cenas, e depois seguimos, sempre à conversa, até Montpellier.

Quando cheguei, fui ao McDonalds, mais uma vez, para usar a internet. Comuniquei com a Kristine e fui ter a casa dela. A Kristine é uma rapariga letã que estava na França há um par de anos a estudar já não sei o quê. é simpática. Não senti aquele verdadeiro feeling que já senti com outros couchsurfers, mas na verdade, pobre Kristine, a concorrência dos últimos dias não dava grande chance – o Hassan em Antibes, o Marco em Génova, o Danny em Langenargen, a Ewa em Poznan e a Zofia em Varsóvia, tudo malta de primeira ordem. E que fixe é... às vezes passo-me completamente com o número de pessoas bestiais que já tive o privilégio de conhecer. Sinto-me, realmente, privilegiado. Privilegiado por ter tido essa oportunidade, por ser humano, por ter andado pelas suas terras. E tenho, também, felizmente, pessoas à minha volta, todos os dias, que são igualmente fascinantes. Mas às vezes é fácil esquecer isso e pensar que “a malta lá fora é que é fixe”. Não é verdade. A verdade é que a malta lá fora é diferente. E se eu vivesse sempre na Polónia ia gostar de um português como gosto de um polaco vivendo eu agora em Portugal. é que devíamos dar prioridade à diferença que algumas pessoas nos oferecem. Não os devemos tratar melhor do que aqueles com quem estamos todos os dias, nada disso, mas devíamos recolher o que podemos de pessoas que pensam de uma maneira diferente. Um grande medo que tenho de ficar em Portugal é precisamente perder essa constante fonte de inputs que fui tendo ao longo dos tempos, fosse com o meus amigos na Noruega, na Inglaterra, ou as pessoas que alberguei em terras de sua majestade. E claro – nesta viagem...

Nessa noite fomos a uma festa em casa de uns amigos da Kristine. Não era uma festa de couchsurfers, mas a maioria ali era-o. Foi uma noite muito fixe, que também me deu um bocado de perspectiva acerca do meu gang de amigos e, ou couchsurfers, em Birmingham, que é um grupo completamente doido. Esta noite foi fixe mas não houve nenhuma loucura, daquelas que estavam presentes em minha casa em Birmingham como óleo num estrugido...

No dia seguinte acordei com Andorra como objectivo. Nunca lá tinha estado, porque não fazer um pequeno desvio e ir lá ter?

quarta, catorze e vinte e dois, vinte e tres de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Portugal