segunda-feira, 12 de março de 2012

Aniversário em Chisinau


Houve, de repente, uma conversa que surgiu assim meio não sei como, e que se tornou em algo mais sério, e em algo com que discordei bastante. Eu estava a falar de pessoal que já tinha nadado o canal da mancha algumas vezes, inclusive pelo menos uma pessoa que nadou vinte e quatro horas sem parar. Eu estava a falar da beleza de se propor um desafio e alcançá-lo, sem ser por nenhuma razão do outro mundo, sem ser por nada senão provar a nós mesmos que conseguimos. E de repente estávamos a falar de riscos, e em como não vale a pena cometê-los. O Kevin, concordando consigo a Marina, achavam que viajar para sítios como a Índia, por exemplo, por ser muito perigoso. O Kevin baseava-se numa doença qualquer, que uma pessoa qualquer tinha apanhado, e que era muito perigoso, e que o que era seguro era não ir e não sei quê. A Marina deu o exemplo da irmã da sua mãe, que tinha morrido aos trinta anos, e ela sabe como a mãe sofreu, daí achar que devemos ter muito cuidado com a nossa VIDA porque não é só a nós que interessa. Isso é verdade, ok... é das coisas que nos corta a liberdade, as relaç:oes humanas, mas é algo que vale a pena. Aliás, acho que não vale a pena estar ligado a absolutamente mais nada. Coisas, países, tradiç:oes, actividades, tudo serve para, numa altura ou noutra, nos cortar as pernas e sobretudo as asas. Acho que só as relaç:oes humanas deveriam ter esse poder. Contudo, tem de haver um peso e uma medida. E deixarmos de viver porque o medo nos governa não é VIDA nenhuma. Pá, lá está, isto, para mim... tenho de me recordar constantemente que as pessoas são diferentes. Mas é a minha maneira de ver as coisas. Fiar-nos que aquilo é mau e aquilo é perigoso só porque nos dizem leva a que vivamos contando apenas com aquilo que temos como garantido e deixámos o factor surpresa passar de validade, estragar, e ir parar ao lixo. Não digo “vamos todos tentar ser raptados” mas digo “vamos lá ver se o Paquistão é mesmo assim...”.

No dia seguinte fomos a uma festa de aniversário. Tinha como ideia ir dar uma volta pela cidade, mas achei que uma festa de aniversário de um puto moldavo de doze anos me parecia uma cena bastante típica em que queria participar. Aliás, é por cenas assim que o couchsurfing tem o valor que tem. Se eu estivesse num hostel até podia arranjar companhia, mas duvido que fosse a uma festa de aniversário de um puto moldavo.

O puto era o Christian, que tinha feito doze anos no dia anterior. O seu irmão era o Marius, de nove anos e a Olessa a mãe, uma rapariga de trinta e quatro anos com um sorriso muito parecido ao da Maggie Gyllenghal. Gostei dela. Às vezes um sorriso diz tudo. Há pessoas que têm um sorriso que nos dizem de imediato que são pessoas bacanas. Foi o que senti com a Olessa. Além disso fez-me uma análise que até andei de lado. Tanto na Roménia como aqui na Moldávia já me perguntaram algumas vezes o meu signo. É uma cena à qual nunca liguei nada. A Olessa disse que acreditava nos temperamentos mas que não acreditava nas prediç:oes. Ora, ou ela é uma miúda muito perspicaz ou baseou-se apenas no que leu sobre capricórnios e isso coincidiu. Ou talvez ambos, não sei...
- Que signo és? – perguntou-me.
- Capricórnio...
- Pois, bem me pareceu...
- Como assim?
- Os capricórnios são pessoas muito calmas e inteligentes. Têm uma personalidade forte e nem sempre dão a sua opinião, se sentem que a outra pessoa não está aberta para a ouvir. Mas apesar disso são pessoas que geralmente têm efectivamente a sua própria opinião... – foi dizendo, lentamente. Ora, eu não sou assim tão reservado quanto a dar a minha opinião. Mas também é verdade que algumas vezes acho mesmo que não vale a pena abrir o bico porque a pessoa já decidiu tudo. Mas tento contrariar esta vontade, porque é um bocado preguiça. É um pau de dois bicos... eu acho-me um gajo sensato, e como tal acho que é a minha responsabilidade, por exemplo, contrariar um racista e tentar fazê-lo ver que está errado. Mas se este é um exemplo bastante lógico e que não deixa muita margem de manobra, há outros em que a “verdade” é mais relativa, e duas pessoas com opini:oes distintas também se podem achar sensatos, e que é a sua responsabilidade dar os seus argumentos a quem quer ouvir.

Foi uma tarde bem passada. Além dos putos, a mãe dos mesmos, eu, a Marina e a Victoria, estava lá também o Dani, um russo que vivia na Moldávia e que tinha conseguido recentemente um contracto qualquer para abrir uma empresa em parceria com uns alemães. Até me pareceu bom moço, mas pelos vistos, disse-me a Victoria mais tarde, é daqueles que acha que os homossexuais deviam morrer todos e cenas que tais. Sei que estou a falar muito disto, mas é que se acho que Portugal está a léguas de onde devia estar no que à tolerância e aceitação diz respeito, entristece-me ver que noutros sítios a situação está muito pior.

Por exemplo... acho que  o racismo é um problema que se tem vindo a resolver com um passo à frente da discriminação homossexual. Assim, quero crer que em Portugal já não é um problema de maior. Neste momento o pessoal trabalha em abrir a sua mente para, entre milh:oes de outras coisas, não achar que pessoas juntas é um problema. Mas, pelo que me parece, isto vai por etapas. Se primeiro há quem diga “não e não”, depois há quem já diga “cada um faz o que quer, mas não pode adoptar... porque depois imagina o que a criança vai sofrer na escola com os outros putos”, ou seja está-se a proibir algo de acontecer só porque há uma expectativa de que outras crianças serão educadas para ver aquilo como errado. Esse é um argumento que ainda se usa em Portugal. Pois ontem à noite vi esse argumento ser usado (não em primeira pessoa, mas contado) acerca de uma pessoa branca e uma preta terem um filho. “Eles podem fazer o que entenderem, mas depois imagina o que vai ser para a criança”. Espero estar a fazer-me entender, porque acho isto importante.

Foi uma tarde calma e porreira. Comemos (bastante) e depois passámos umas três horas a jogar monopólio, que eu venci cheio de dinheiro. Assusta-me pensar que há pessoal que usa aqueles truques que eu usei, enganando outros sem fugir à lei, mas na VIDA real. Mas não me vou p;or a falar disso agora.

segunda-feira, 5 de março de 2012

até Chisinau


Como de costume, quando cheguei a Iasi fui para o McDonald’s para usar a internet. Comprei qualquer cena e enviei uma mensagem ao Codrin, que me teria podido albergar no dia anterior, e ao António, um português que estava lá em Erasmus. Esperei um bocado e nada. Liguei ao António, e ele disse que à partida dava para me albergar.

- Então eu vou esperar mais meia horita para ver se o Codrin me diz alguma coisa, e se não disser e se os teus colegas não se importarem, eu fico aí – disse. Mas o Codrin acabou por ligar. Na altura até fiquei um bocado naquela, porque depois de ter falado com o António achei que ia ser porreiro ficar com erasmus. Mas o Codrin revelou-se um gajo altamente. Veio buscar-me ao aeroporto a desculpar-se por não ter respondido mais cedo, porque tinha tido uma grande festa no dia seguinte e por isso estava a bater uma soneca.

Iá, foi uma noite porreira. O Codrin é informático e vive sozinho. Nos primeiros anos adorava o seu trabalho, mas agora está um bocado farto, pelo que está a tentar criar um empresa com alguns amigos. Uma marca de roupa, para ser preciso, sendo o Codrin a pessoa responsável pelo website e essas cenas. É um gajo de óculos, um metro e oitenta e pouco, magrito, que fala muito rápido e parece ter vários amigos. O pessoal foi chegando a sua casa a pouco e pouco, até que éramos uns doze ou treze. Apreciei o esforço do pessoal em falar inglês, mesmo quando eu não era o interlocutor. Ficámos lá umas horitas e depois fomos para o underground bar. Prefiro noites em que o pessoal está à conversa e só no fim se põe a dançar, mas ainda assim foi fixe. A música estava porreira, só tocava algo azeiteiro uma vez a cada quatro ou cinco.

Apetecia-me ficar mais uma noite, mas já tinha andado para trás e para a frente com a minha anfitriã em Chisinau, na Moldávia, por isso achava chunga adiar outra vez. Assim, pus-me a caminho. Como já era tarde, fui de autocarro – sete euros e meio para quatro horitas. Entrei tranquilo na Moldávia e quando cheguei, depois de trocar dinheiro, fui para o McDonald’s. Desta feita, a internet não funcionava. Mas, como tinha o número da Victoria, pedi a um puto para usar o telefone dele, liguei-lhe e tinha as instruções. Meti-me no microbus e saí onde ela disse. Encontrei-a passados dez minutos.

A Victoria tem vinte e oito anos e trabalha numa organização não-governamental que visa dar mais poder às mulheres. Estudou inglês e francês mas nunca exerceu. É uma rapariga calma, que fala e caminha, e age, no fundo, como se tivesse muito tempo nas mãos, como se cada gesto fosse ondulado e até formoso. O edifício onde vive é mais ou menos como esperava. Muito antigo, com características que dão a entender que muitas coisas foram feitas às três pancadas, como, por exemplo, uma banheira a que uma pessoa com um metro e meio teria sérias dificuldades em aceder, pela beira ser tão alta. Na verdade, estar aqui na Moldávia, ver a maneira como muita gente se veste, ouvir o que dizem acerca da maneira como muita gente pensa, e ver as casas e alguns carros, penso de imediato na imagem que tenho do que Portugal era há vinte, trinta ou cinquenta anos, dependendo do tópico.

Em casa conheci a Marina, jornalista de trinta e um anos que trabalha para um jornal nacional e o Dionis, um jornalista free-lancer que de vez em quando vai à televisão moldava dar a sua opinião sobre política. Passámos umas largas horas à mesa. Bebemos uma garrafa de vinho, jantámos e bebemos p’ra quarenta litros de chá. São pessoal fixe e, pelos vistos, muito mais à frente do que a maioria dos moldavos. Contaram-me como neste país há ainda muito racismo e ser homossexual é uma sentença de ostracização e, muito provavelmente, pancada.

- Em Balti – uma cidada a norte – passaram uma lei que permite às pessoas atacar pessoas que manifestem as suas crenças muçulmanos, ou homossexuais... – diziam-me, para meu espanto e dúvida. Porque uma coisa é discriminação, a velha discriminação que existe na mente de tanta gente e que sobrevive como uma pessoa invisível a manjar numa cantina. Outra coisa é passar uma lei que permita a discriminação. Daí ter dúvidas que seja mesmo assim. De todo o modo, o que é certo é que a igreja, por exemplo, tem um papel activo na ostracização dos homossexuais. Aliás, a igreja tem um forte papel em vários domínios, sendo que os padres chegam a dizer, nas missas, em quem é que o pessoal deve votar.
- E manifestações, como a Love Parade – uma manifestação que visa celebrar o amor e, não o orgulho de se ser gay, como se pensa, mas o orgulho de se ser quem é, signifique isso ser gay ou não – são proibidas... Às vezes fala-se nisso e os skinheads e o pessoal do exército diz “eles que venham, eles que venham...”. Aliás, probiram uma manifestaão Anti-Discriminação em dois mil e oito, tudo porque queriam evitar tensões, e porque a igreja reprova a homossexualidade.

E já agora quero dizer uma cena... há um argumento que eu ouço muito e já aceitei, até pensar melhor. O pessoal diz que cada um pode fazer em casa o que quer, mas que não é obrigado a ver. Assim, o pessoal reserva-se ao direito de, por exemplo, se vir dois homens num bar a dar um, dois ou três beijos, bazar. Ora achando eu que, tanto quanto possível devemos avaliar as nossas acções pensando no que seria se toda a gente agisse como nós, esse pessoal reserva-se então ao direito de humilhar pessoas que manifestam o seu amor, ou simples atracção. Porquê humilhar? Porque se toda a gente fizesse isso, quando dois gays entravam num bar e davam um par de beijos, toda a gente sairia do bar. Como é que essas pessoas se sentiriam? Sentiriam que há outras pessoas que têm direitos básicos que eles não têm.

quinta-feira, 1 de março de 2012

até Iasi


Depois da nossa breve conversa deixei a Diana em casa e fui dar uma volta por Targu-Mures. É engraçadito, mas nada de especial. Caminhei mais ou menos sem destino, e quando o sol preparava o seu leito encontrei um bar bacano e bebi lá uma cerveja. Entretanto a Diana mandou-me mensagem a dizer que ia haver um concerto qualquer de piano, a perguntar se eu queria ir. Disse que sim, mas meio naquela, porque não me estava a apetecer verdadeiramente. Mas acabou por ser uma grande noite...

Quando cheguei a casa ela estava com o Florin, o seu noivo, a abrir uma garrafa de vinho. Sentei-me com eles, conversámos um bocado e depois eu fui com a Diana ter com uns amigos dela a esse bar onde havia o concerto. Foi daquelas noites em que um gajo começa sentado, no paleio, a contar e ouvir estórias, e depois acaba a dançar as versões de outras músicas famosas, umas fixes, outras não, que o pianista vai oferecendo. A noite já ia lançada quando bazámos e daí fomos para outro bar onde tive uma conversa p’ra de meia hora em italiano. Um gajo que não falava inglês a dizer-me já não me lembro bem o quê... só me lembro que estava a gabar a Roménia por ter parado o exército otomano, e que se nõ fossem eles Portugal agora era turco, qualquer coisa assim...

Naturalmente acordei tardíssimo no dia seguinte, e já não segui para este como tinha planeado. Mandei mensagem ao meu anfitrião que me receberia em Iasi e passei o dia na descontra. Fui ao cinema por um euro e vinte cêntimos, que foi o preço mais baixo que já paguei... Era um bocado mais caro, mas consegui usar a minha ficha do ginásio como comprovativo de cartão de estudante.

No dia seguinte parti para Iasi. Tinha o número do Codrin, que era para me ter albergado no dia anterior, mas não sabia onde ia ficar. Depois resolvia isso. Dei uma olhada no google maps, vi a melhor estrada para a boleiar e meti-me a caminho. Passado uma hora de caminho e cinco minutos de espera estava no carro de um homem de quarenta anos muito porreiro. Fomos a conversar um bocado, eu contei-lhe algumas das minhas estórias, e ele confessou-me que tinha planeado nos anos oitenta ir viajar pela América do Sul com um amigo, e que isso nunca aconteceu.

- Agora é tarde demais... tenho uma família, responsabilidades... – desabafou. Desabafou sem perceber que nunca é tarde demais. O pessoal usa muito expressões sem verdadeiramente as sentir. E acho que uma delas é “nunca é tarde”. Se há expressão que tem o direito de viver para além disso é esta. Porque efectivamente, nunca é tarde demais para fazermos o que queremos, se o quisermos verdadeiramente. Às vezes há coisas que nos impossibilitam naquele preciso instante, ou até ano. Mas a VIDA é tão diversa, será possível que as mesmas coisas que nos limitam agora se reciclem e tornem noutras sem nós podemos fazer nada? Não, não é possível. O pessoal é que o permite.

Este deixou-me numa bomba de gasolina. Falei lá com um méne, mas a comunicação estava difícil. Parecia que ele me podia levar até à próxima cidade, mas quando lhe disse que não tinha dinheiro ele começou a agir meio estranhamente. Com as mãos deu-me a entender que ia ali e vinha já. Mas eu não sabia se era mesmo isso que o gajo queria dizer por isso fiz-me à VIDA. Deixei as bombas e estavam lá dois putos a boleiar. Eu respeitei o código e meti-me atrás deles uns metros, apenas para ver um lorde chegar, meter-se em primeiro lugar e seguir em cinco minutos. Mas ok, entretanto um carro parou, falou com os putos, eles rejeitaram por alguma razão e eu segui com ele, que só ia uns trinta quilómetros. O pessoal é exigente e só quer boleia que vá para onde eles querem. Ia dizer que não sei porquê, mas se calhar é porque querem evitar estar especados no meio de uma vila p’rai de cem pessoas à neve como eu fiquei...

Mas foi na boa. Apareceu um cota simpático que me levou p’ra três horas. Pagou-me um café e fomos seguindo à conversa, ora em inglês, ora em francês. Depois deste, que insistiu para eu ter cuidado com os ciganos, apanhei boleia de dois cotas e daí com um rapaz que me deixou em Iasi. Como tinha lido (e experienciado, alguns anos antes, quando era eu que por lá conduzia e via o pessoal a quem dava boleia a querer pagar-me) que na Roménia se costumavam pagar as boleias, fazia questão de dizer sempre, antes de entrar no carro, que não tinha dinheiro. E só um gajo me rejeitou.

- Aqui na Roménia pagam-se as boleias... mas quando são estrangeiros o pessoal não o exige... – dizia-me o rapaz que me deu a última boleia.

Em Iasi, restava-me encontrar onde ficar...

Terça, treze e cinquenta e três, vinte e oito de fevereiro de dois mil e doze
Chisinau, Roménia

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Targu-Mures


Estou em viagem há três noites e é uma loucura... parece-me mesmo que já ando por aqui há duas semanas... Talvez seja por isso que uma pessoa cresce a viajar – o tempo desdobra-se.

Na quarta-feira deixei Birmingham e fui para Luton. Acho que nunca tinha voado daquele pequeno aeroporto, mas tem bastantes voos, incluindo low-costs para Istambul, o que é sempre bom saber. Talvez voe para aí brevemente. É que, como o título do blog indica, curtia acabar de visitar os países que me faltam na Europa, e há ali um conjunto deles cuja forma mais barata de alcançar talvez fosse voar para Istambul e boleiar dois ou três dias até a Geórgia. Depois Azerbaijaão e Arménia. E desse lado ainda faltaria o Casaquiastão. Não percebo porque é que são considerados Europa. Se a Turquia é a porta da Ásia, então estes países estão onde?

Foi uma noite como esperava – practicamente sem dormir. Comi umas sandes que tinha trazido de Birmigham, vi um filme, arranjei umas fotos... ia tentando

Acabei de entrar na Moldávia. Tinham-me dito que a Moldávia tinha estradas terríveis. Efectivamente, não posso escrever mais – parece que estou de volta às montanhas paquistanesas.

Ia tentando fechar os olhos de vez em quando, mas nada. Isto até que o gajo veio lá dizer que não podíamos dormir nos sofás da Starbucks. Porquê? Sei lá porquê... Assim tive de bazar de onde estava e passei algumas horas meio a dormir, meio acordado, até que chegou à hora. Estava um bocado receoso que pegassem com o tamanho da minha mochila, que até cabe naquelas cenas onde é suposto caberem, mas com algum esforço. Foi tudo tranquilo. No avião acho que dormir p’rai meia hora.

Contudo, quando aterrei, não sentia na pele que tinha dormido tão pouco. O que sentia na pele era um calor estranho e inesperado. É que fazia duas semanas tinham estado menos vinte e tal graus por aquelas paragens. Cheguei a amaldiçoar o meu timing porque na Ucr;ania chegou aos menos trinta e tal graus... mas parece que tive sorte, e acabou por ser perfeito. As temperaturas mínimas andam por volta dos menos sete graus.

Sentei-me lá num canto ao sol dez minutos a pensar um bocadito no que fazer. Assim, troquei dinheiro, e decidi tentar a boleia até à cidade de Targu-Mures. Foi logo à primeira. Entrei na estrada e avistei uma mulher e um gajo que se viria a revelar meio maluco. Abordaram um carro, eu aproximei-me e fomos os três no mesmo bólide. Eu ia atrás com aquele gajo, que falava como se fosse surdo, misturando inglês com romeno e pedindo um “dá cá mais cinco” a cada minuto. Dizia que tinha um filho português chamado Pedro e chegou a dizer que era casado com a Lady Gaga. Eu ia sorrindo e dizendo que sim e essas cenas que um gajo diz. Depois começou a falar do seu culto, e do sol por detrás do sol e dos animais e um certo “Leo” nas suas costas, que eu pensava ser uma tatuagem com o homem vitruviano mas que era só uma imagem de um leão... na sua camisola. Depois convidou-me para uma festa qualquer de trance, deu-me o facebook dele, que eu entretanto esqueci...

O Istvan, húngaro que me deu boleia, deixou-me no centro. Fui para o McDonald’s porque é o melhor sítio para se encontrar internet e a maior parte das vezes eles não se interessam se compramos alguma cena ou não. Liguei pelo computador à Diana, a minha anfitriã, e ela apareceu passado meia hora.

A Diana é uma miúda bonita, cabelo louro comprido, olhos cor de mel com o sonho de ir viver para o Malawi. Percebi, e ela confirmou, que não passava dificuldades. Tinha o seu próprio carro e vivia com o seu noivo num apartamento porreiro mesmo no centro da cidade. Ficámos um bocado à conversa antes de eu ir dar uma volta. Tinha estudado direito mas depois acabou por desistir, por ter percebido que aquilo não era para ela. Tinha feito voluntariado numa ilha nas caraíbas e no Malawi, país por que se apaixonou. Estava um bocado desiludida com os valores que temos na Europa e pela maneira como as pessoas se relacionam.

- Os meus amigos chamam-me falsa... – dizia – porque eu digo que o dinheiro não é importante e apesar disso tenho um carro, e um apartamento, e não fiz nada por isso... mas isso não quer dizer que seja uma pessoa superficial e materialista – e é verdade. Só que às vezes o pessoal gosta de usar tudo o que pode para atacar alguém ou para desvirtuar os seus argumentos. E apesar de eu próprio não considerar o dinheiro uma prioridade, não curto o pessoal que parece odiar a malta rica. Não é o que temos, ou o que deixamos de ter, que nos define, mas a maneira como deixamos, ou não, que isso influencie a nossa maneira de ser e de ver as coisas.
- Mas pensas ir para o Malawi de vez? Para ficar lá? Que vais fazer?
- Não sei... comprar um pedaço de terra, ajudar as comunidades locais...
- Uau... parece fixe, mas eu não quereria deixar Portugal sem perspectivas de voltar – disse. – Mesmo que fosse com a minha namorada, ia deixar os meus amigos e família. Ia sem problemas uns anos, mas gostava de saber que, eventualmente, envelheceria em Portugal.
- Pois para mim não é assim... porque sinto que os meus amigos de cá não são na verdade tão amigos assim... Isto é, sinto que não me compreendem... E quando lhes falo dos meus projectos tentam sempre mandá-los abaixo, seja a dizer que também posso ajudar as comunidades desfavorecidas na Roménia, que sou falsa porque tenho dinheiro, e cenas assim – respondeu.

Eu não sinto isso com os meus amigos, pois acho que, na sua maioria, são pessoal inteligente e que desafia. Todavia, percebo perfeitamente o que quer dizer. Quando lhe perguntei se ela sentia falta de alguém que a inspirasse, disse que sim. E isso eu sinto, por vezes. Antes de ir para a Roménia estive uma noite em Manchester e outra em Sheffield. Em Manchester fiquei com a Mika, uma grega que tinha conhecido há um par de anos e que veio passar uma semana a Portugal juntamente com outro pessoal. Calhou de, nessa noite, ser o dia da reunião do grupo anarquista em que ela está inserida. Encontrei-a e fomos directos a uma casa de ocupas. E curti ouvir pessoal que não tem nada a ver com o sistema, que aliás, se quer separar do mesmo. Pessoal que pensa por si próprio (o que é diferente de dizer que não é influenciado, porque todos somos influenciados) e que tem um espírito crítico e vontade de mudança. Um deles era, inclusive, o que se chama um homem-livre. Não existia para o sistema, não tinha nenhuma identificação, conta bancária, nada. Pena é que, sendo um homem-livre para o sistema, não é um homem livre para viajar, porque neste mundo já nada novo, precisámos de papeis para atravessar linhas que gostamos de chamar fronteiras. Na noite seguinte, em Sheffield, fui albergado por pessoal que vivia numa cooperativa. A cooperativa era a casa onde viviam. Mas nenhum deles seria dono da mesma. Pagando a renda da casa pagariam o empréstimo que pediram a um banco (após investigarem quais os “bancos-éticos”) e a casa seria como que dona de si mesma. Era pessoal que nunca voava e vegano, mas sem ser daqueles irritantes que nos querem convencer que são as melhores pessoas do mundo. A profissão do meu anfitrião, o Daniele, consistia em averiguar quem tinha árvores cujos frutos não fossem ser comidos, reuni-los e depois distribuir, fosse a sem-abrigos ou a quem precisasse.

E é precisamente falta de encontrar pessoal assim que eu sinto por vezes quando estou em Portugal. Pessoal que venha com ideias novas. Não têm de ser ideias que eu curta ou queira para a minha VIDA, só têm de ser ideias diferentes, cenas que me estimulem e me deixem a pensar para, mais tarde, ter eu próprio a minha decisão. Porque sinto que somos um bocado todos iguais... E sinto que às vezes quando venho com as minhas ideias que não são necessariamente a norma, ou não sou levado a sério ou sou tomado como idílico ou sonhador...

catorze e quarenta e seis, domingo, vinte e seis de fevereiro de dois mil e doze
Chisinau, Moldávia