sábado, 26 de novembro de 2011

A Caminho do Luxemburgo


Segunda-feira, dia dezassete de Outubro, acordei, mais uma vez tarde para a boleia. Já me tinha despedido do Sam, que tinha saído de manhã. Arranjei as cenas, e segui caminho. Meti-me no metro, sem pagar, e saí onde em Potsdam. Tinha de apanhar o 643 ou o 608 para Michendorf Abzweig Wildenbruch. Esperei, esperei, nada. Não aparecia nada naquele quadro. Perdi uma hora assim, até que resolvi ir dar uma volta pelas paragens, apenas para perceber que já tinham passado -N- autocarros que me interessavam. Mas por alguma razão não apareciam no quadro que eu estava a acompanhar. Assim, meti-me no autocarro, e saí passado p’rai três quartos de hora. Quando saí, uma senhora de alargado porte e um carrinho daqueles das compras com rodinhas chamou-me. Disse-me que se eu estava à boleia, estava a ir no sítio errado. Fui com ela, que andava à boleia entre Berlim e a terra da sua mãe à vinte anos. Caminhámos vinte minutos, entrámos por uma porta que devia ser uma saída de emergência ou algo do género da estação de serviço, e metemos mãos à obra. Ela ia para um sítio diferente do meu, por isso era na boa. E arranjou logo boleia com o primeiro carro.
               
- Toma, – disse-me, estendendo-me o seu marcador – vais precisar mais disto do que eu, porque eu já vou com este carro – porreiro. Se bem que não acredito muito em sinais. Toda a gente os usa, mas deve-se contar com os dedos das mãos as boleias que apanhei por causa de um sinal...
               
Interpelei algumas pessoas na estação de serviço, mas não me pareceu grande espingarda aquilo. Assim, fui para a saída que dava para a autoestrada. Estava lá um rapaz que ia para Munique, e um cota que ia para o norte. O rapaz safou-se em meia hora, e eu e o cota ficámos lá um bom pedaço. às tantas fui mijar, e quando voltei o cota já não lá estava. Já tinham passado mais de duas horas, e eu ainda sem sair daquele malfadado sítio, pelo que decidi voltar para a gasolineira, onde podia falar com as pessoas. E lá consegui.
               
A vantagem da boleia na Alemanha, é que um gajo até pode esperar muito, mas depois quando entra num carro vai a voar a duzentos à hora. Cago-me um bocado, para dizer a verdade. O rapaz que me levou era um porreiraço. Era cozinheiro em Bremen e tinha vindo a Berlim para encontrar uma amiga de infância com quem tinha reatado uma relação de amizade (“mas se desse algo mais, se calhar não me importava”, dizia) através da internet. Ia um bocado desiludido porque não tinha passado muito tempo com ela. Tinha ido ver uma peça de teatro onde ela participava, mas como ele, tinham ido também os pais da dama, que lhe roubaram o tempo de convivência ansiada. “Paciência, volto p’rá próxima”.
               
Andámos um bom pedaço, e cheguei a equacionar ir com ele até Bremen e depois arranjar boleia para Hamburgo, onde quem sabe poderia ficar com um amigo do meu pai. Mas ia ser um desvio, preferi seguir.
               
Quando ele me deixou não demorei muito a apanhar boleia de uns polacos. Estes deixaram-me numa estação de serviço perto de Dortmund. Mas já era tardíssimo. Eram p’rai dez e tal da noite. Se conseguisse chegar a Dortmund ia ser p’rai onze da noite ou mais tarde que isso, e não sabia se não seria chunga para o meu anfitrião. Assim, sem saber que seria de mim, decidi seguir, e acabei por apanhar uma boleia com um alemão, ciclista profissional que tinha ficado em centésimo não sei quanto na tour de france, e que me deixou fora de Liege, na Bélgica. Aí percebi logo que estava tramado. Ninguém ia para o Luxemburgo. Estudei a cena, havia ali um canto meio escondido, escrevi qualquer coisa, meti a mochila debaixo do meu sofá com a minha perna enfiada na alça, e dormir até à manhã seguinte.

quarta, dezasseis e trinta e oito, dezasseis de novembro de dois mil e onze
Furadouro, Portugal

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Berlim


Mais uma vez, acordei super-tarde. A distância não era muito longa, mas estava a descorar bastante aquela regra fundamental de “deitar tarde e cedo erguer faz a boleia acontecer”. Despedi-me do pessoal, e apanhei o tram que o hitchwiki me tinha indicado. Mas aquelas direcções não eram das melhores, e demorei um pedaço a ir terá estação de serviço que me aconselhava. Mas consegui. Não me parecia grande espingarda aquilo, porque ainda estava mais ou menos dentro da cidade. Mas lá me safei. Meti-me no carro de um senhor, que ainda ia um bom bocado, tive sorte. Ainda fomos fazer não sei quê a uma fábrica, e depois seguimos caminho. Passado quase uma hora o senhor deixou-me numa estação de serviço, andei mais um bocado com duas boleias e fiquei numa rotunda onde passavam muitos carros. Não era autoestrada, mas tinha um bom pressentimento. Apanhou-me um rapaz muito simpático, que falava inglês. Disse que ia uns bons quilómetros, mas que depois ainda me podia levar mais um pedaço, só precisava de trocar de carro. Assim, chegámos à sua fábrica, o méne foi deixar a sua carrinha, foi buscar o carro, e depois de irmos deixar um leitor de dvd a casa de um amigo, levou-me mais um pedaço. Pelo caminho ainda passámos por uma estátua gigante, cópia do Cristo-Rei e ainda maior que o do Rio de Janeiro. Depois, ainda, de passarmos pela sua vila para ma mostrar num instante, o rapaz deixou-me numa rotunda.
               
Esperei pouco mais de meia hora e parou o Tomasz, um dos gajos mais cool de toda a viagem. Um polaco de quarenta e seis anos, grande estilo, que passou quinze anos nos Estados Unidos e agora trabalhava na Polónia. Foi como se me tivesse visto no futuro. Ou pelo menos caracerísticas que gostava de manter. E ao dizer que ele é cool e é como se me tivesse visto no futuro, estou a dizer que sou cool. Mas não é bem assim – é como alguém que é muito religioso e conhece outra pessoa que é muito religiosa e a acha altamente.
               
O gajo ia direito a Berlim e fomos todo o caminho a conversar acerca de cenas como o materialismo, filosofias de VIDA, projectos, ideias, sonhos. Apesar de não me dar nada essa ideia, ele tinha sido Hare Krishna. “Iá, não podíamos ter sexo, nem fumar, bem beber... eu no sexo fazia batota...”, dizia-me.

Deixou-me em Berlim. Demos um forte abraço, trocámos contactos, e eu fui para o metro. Tinha no meu caderninho moribundo a estação de metro onde deveria ir ter. Ia ficar com o Sam, mas queria ir a uma conferência com o fundador do couchsurfing, acerca da empresa se tornar numa corporação. Cheguei lá tarde, porque ainda tive de ir a um netcafé ver as direcções, e depois caminhar p’rai uma hora. Assim, apanhei aquilo já numa fase avançada, e mais tarde abordarei isto.
               
Tinha mandado mensagem ao Sam nos entretantos, e foi por isso que, quando saí, o encontrei ali à espera. Foi fixe vê-lo, muito fixe, até porque gosto muito dele. Conheci o Sam já há um par de anos porque me albergou em Manchester. Demo-nos bem, e depois disto já nos encontrámos em Birmingham, depois outra vez em Manchester, e uma vez em Portugal. Foi através de nós que se criou uma espécie de aliança entre os couchsurfers de Birmingham e de Manchester. Chegou a uma altura em que o Sam já era amigo de pessoas que o tinham conhecido porque eram amigas de amigas de amigas minhas, e o pessoal movia-se em “massas” entre Birmingham e Manchester de acordo com a festa que houvesse.
               
Fomos comer qualquer coisa enquanto púnhamos a conversa em dia, e depois fomos ter com os restantes couchsurfers que foram da conferência para um bar. Ficámos aí uma horita e depois fomos ter com um amigo do Sam. Apareceu também o Martin, alemão que era o melhor amigo do Sam. Esteve em Manchester em erasmus e é um gajo que também curti muito desde o primeiro momento, quando o conheci na minha festa de anos em Birmingham, quando fiz vinte e seis.
               
- Pá umas das cenas que me fez vir para Berlim – dizia-me, antes, o Sam – foi ter aqui o Martin. Um gajo vai para outro país, ajuda sempre ter alguém que conhecemos, especialmente se é alguém com quem nos damos tão bem. Mas para dizer a verdade, é raro vê-lo...

- Tive aí um momento em que estive a bater um bocado mal... – dizia-me o Martin, mais tarde – Andei a viajar três meses pelos balcãs, e já estava a flipar um bocado. Sentia-me mal, parecia que não sabia onde estava... desorientado. Também pode ter sido de andar a fumar muita ganza, não sei... – fiquei a pensar nisso. Não tanto na cena da ganza, porque sei que em Manchester não fumava propriamente pouco, mas pelo facto de andar a viajar pela Europa três meses e ter batido um bocado mal. Pode ser que não seja para ele, simplesmente. Pode ser também que estive num período delicado da sua VIDA e aquela viagem viesse com mau timing. De todo o modo foi uma noite porreira e curti estar com eles de novo.
               
Era a minha terceira vez em Berlim. Toda a gente me falava maravilhas daquela capital, mas nunca me tinha fascinado especialmente. Senti que escapava algo. Contudo, talvez por estar já no final da minha viagem, não me apetecia andar aí a fazer turismo e ver cenas. Então, decidi, em vez de andar a ver Berlim, viver Berlim. Fazer exactamente o que o Sam faria de qualquer maneira. E isso resultou em eu curtir bués Berlim. Muita oferta para tudo. Se um gajo quiser teatro, música, seja o que for, de que estilo for, arranja-se. Claro que isto não é exclusivo desta capital, mas parece-me que a vertenta alternativa aqui é muito mais forte. Na tarde de sábado eles foram a uma exposição. Eram doze euros então eu fui dar uma volta. Era quinze de Outubro e estava marcado para esse dia a manifestaç.ao de solidariedade com o movimento de ocupar Wall Street. Andei por lá, um tanto ao quanto fascinado pela originalidade do que o pessoal fazia, fosse nas t-shirts, andar com aparelhagens em carrinhos de supermercado, ou pessoal com grande moca de MDMA a adorar correr para trás e para a frente de tronco nu a brincar com uma fita.
               
Encontrei-me com o Sam e a Nico quando saíram, despedimo-nos da Nico e eu e o Sam fomos dar uma volta assim meio à sorte pelas ruas. Tropeçamos num concerto de hip-hop e ficámos lá um pedaço, a beber uma cerveja. É outra cena que curto em Berlim. Pode beber-se, e toda a gente o faz, na rua. E não se vê pessoal a cair de bêbedo, nem pancada, nem nada dessas cenas que nos tentam convencer que existem. O que se vê é malta na boa, a ir de um lado para o outro, na sua, sem grandes stresses, mas com uma garrafa de cerveja na mão.
               
Depois fomos até casa do Robert, um alemão super bacano, de trinta e seis anos, que tinha conhecido na noite anterior. E tive aqui um daqueles momentos em que até tenho vergonha do que penso. O Robert é um gajo muito porreiro, com uma mentalidade uns quantos níveis acima dos demais. Aberto e sensível. Tem, também, um estilo alternativo – roupas largas e uma crista. Ora reparei, ao entrar em sua casa, que esperava que partilhasse o quarto com alguém, ou vivesse no sofá de um amigo, uma cena assim qualquer. É ridículo, mas não o imaginava com o seu próprio apartamento... pá são pensamentos que um gajo nem sabe que os tem. Não é malvado de minha parte pois, como disse, não houve uma decisão deliberado em entrar neste preconceito. Contudo, uma vez apercebendo-me disso, acho importante analisar a cena e tentar despir-me destas relações para momentos futuros.
               
De casa do Robert fomos para um barbeque. Uma noite fixe, tranquila.
               
Passámos o domingo na descontra e à noite fomos, com o Robert e outra miuda, a um bar que tem, em português, microfone aberto. Os gajos têm uma cavezinha com sistema de som e tudo o que é preciso para dar um mini concerto, o pessoal inscreve-se e toca duas músicas. Curti muito, e acho uma iniciativa espetacular. Claro que se fossem uns tamancos ali a tocar a cena não era a mesma. Mas não, eram muito bons.
               
Segunda-feira o destino era... hum, sei lá! O destino era o Luxemburgo, que estava a quase oitocentos quilómetros. Por isso mesmo, tinha sofá de reserva em Dortmund, a quinhentos. O que eu nunca pensei quando acordei nessa manhã foi que, sim, dormiria num sofá, mas de uma estação de serviço...

quarta, dezasseis e cinco, dezasseis de novembro de dois mil e doze
Furadouro, Portugal

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Poznan


Tinha de chegar até Poznan e tinha acordado tardíssimo. Mas pá, ia resultar, de uma maneira ou de outra. Não contava era com as complicações que ainda ia ter até chegar ao sítio da boleia.
               
Saí de casa, apanhei o metro até à estação de comboios, e pedi à senhora um bilhete para Ożarów Mazowiecki. Fui comer qualquer coisa, e meti-me no comboio que apareceu na linha que ela tinha indicado. Deixei-me ir, e a estação não aparecia. Pois nisto aparece o pica, pede o meu bilhete, e diz que eu devia ter mudado em Numseionde, e depois apanhar outro comboio para Ożarów Mazowiecki. E por isso tinha de pagar uma multa de doze euros. “Bela merda”, pensei. Está bem que a senhora seguramente não falava inglês, mas dava para mo dizer de qualquer forma. O pica era um jovem que falava inglês e era porreiro. Quando me perguntou se tinha dinheiro, menti, disse que não. Pá não me apetecia nada pagar uma multa daquelas, que nem tinha sido fruto de uma chico-espertisse. Pediu o meu passaporte, com o qual não fez nada. Vi que ele estava ali num dilema, e entretanto o comboio começou a parar. “Então se eu sair aqui vou para trás até Numseionde e lá apanhou outro não é?”, perguntei, como que assumindo que não ia levar a multa. Ele disse que sim, e saiu comigo. Disse para me meter na primeira carruagem do comboio que fosse em sentido contrário e lá comprar o bilhete com o pica. Depois saía passado não sei quantas paragens e ia para o lado contrário. Assim o fiz.
               
Pois estava já eu na estação onde apanharia o comboio para o meu destino, quando o méne aparece outra vez. “Ainda aqui estás?”, perguntou, surpreendido. É que já tinha passado um bom bocado. Pediu-me para ver o meu bilhete. Meto a mão ao bolso. E agora, distinguir entre as notas e o bilhete? Fiz um esforço, e saco de uma nota que equivalia a vinte euros. Isto quando eu tinha dito uma hora antes que não tinha dinheiro. O gajo olha para mim e diz, em inglês “sabes?...”, ao que eu respondo “sabes...”, com um arquear de sobrancelha. “Já passou o tempo limite do teu bilhete... vais ter de comprar outro...”, disse, com o bilhete na mão. Era só o que me faltava... Três bilhetes para uma viagem que devia ser p’rai de meia hora! Disse “ok, eu compro”, continuei à espera do comboio, entrei e não comprei bilhete nenhum.
               
Finalmente estava na estrada! Caminhei um pedaço, e comecei a sinalizar os carros. Não demorou muito até que um casal camaronês parou. Perguntaram se eu tinha dinheiro, disse que não, mas pedi para me levarem na mesma, coisa que fizeram. Quando me disseram que iam para Berlim, pensei que me tinha saído a sorte grande. Mas o gajo estava cansado, e iam parar para dormir, algures, pelo que só iam no dia seguinte. Nesse dia iam fazer uns cento e tal quilómetros. Ok, melhor que nada. Aliás, bem porreiro, é só que depois de pensar, por um segundo, que tinha arranjado uma boleia de seiscentos quilómetros, um gajo fica meio desiludido com cento e tal.
               
Deixaram-me numa rotunda. Estava um dia agradável. Fresco e solarengo. Caminhei um pedaço e fui esperar à saída de uma estação de serviço. Entrei num camião e segui. Este camionista, pobre, queria mesmo ajudar-me. Metemo-nos na autoestrada e sempre que passava outro camião ele punha-se aos berros através do walkie-talkie, a perguntar se o pessoal ia para Poznan. Nada. Deixou-me à saída da autoestrada, e plantei-me do outro lado, na entrada. O dia fresco e solarengo tinha-se tornado num dia desagradavelmente frio e chuvoso.
               
A maioria do pessoal ia para Varsóvia, mas passado p’rai uma hora e tal apareceu um méne que ia na minha direcção. E fui direitinho até Poznan. Um homem calado, talvez devido ao facto de não falar inglês, deixou-me no centro da cidade. Lá, encontrei um McDonalds para ver na net o número da Ewa, e comecei a pedir ao pessoal se podia usar o telemóvel deles. Não, não, não... Até que apareceu um sim. A Ewa disse para me meter no tram dezassete e sair passado cinco paragens.
               
Enquanto esperava um gajo veio pedir-me lume. Às tantas pergunta-me se eu estou ligado à arte. Digo-lhe que gosto de escrever e ficámos ali uns quinze minutos à conversa. O gajo era poeta, de estilo experimental. Perguntou se queria ir sair com ele e os amigos, e tive pena de dizer que não podia, sendo que tinha de me encontrar com a minha anfitriã. Mas curtia. E achei interessante a abordagem dele, assim sem mais nem menos perguntar se eu estou ligado à arte. Aliás, a maneira dele era uma daquelas que o mais cínico dos mortais classificaria de “meio maluca”. Mas era só um gajo, normal – simplesmente com uma abordagem diferente. Em vez de vir com aqueles couros de “és de onde?” e que tais, perguntou o que realmente lhe interessava.
               
Quando saí do tram a Ewa já estava à minha espera. Demos os “olás” do costume e seguimos para sua casa. “Vão cá estar umas amigas a beber uns copos e depois vamos sair. Importas-te?”, perguntou. Não, não me importo. E foi uma noite bestial. As amigas dela era muito porreiras e a Ewa uma miuda excelente. Não fazia falta mais um rapazola ali no meio para equilibrar a cena. Sei que seria o sonho de muito rapaz tuga, estar ali, mas é sempre fixe ter um camarada para destoar. Saímos lá p’rás Nãoseiquantas e andamos de bar em bar até às quatro ou cinco, não sei ao certo.
               
“Poznan é muito lindo”, dissera a Zofia. Pois eu não sei.
               
No dia seguinte segui para Berlim.

dezasseis e quarenta e quatro, terça, quinze de novembro de dois mil e doze
Vale de Cambra, Portugal

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Varsóvia


Acordei ceducho no dia onze de Outubro, com ideias de ir até Varsóvia. Toda a gente me dizia que era terrível e não sei quê, mas eu gostava de ver com os meus próprios olhos. Além disso, estava a quatrocentos quilómetros de distância de Kaunas, sendo assim uma distância saudável para uma paragenzinha.
               
Despedi-me do Couto e da Viljia, e meti-me no autocarro que o hitchwiki aconselhava. Pouco mais de meia hora e saí, com a ajuda de um rapaz que me disse onde era o sítio para onde me dirigia. Estava um bocadito de frio, estava com uma barba granducha e sem gel. E daí sem grande confiança para boleiar. É que já sei que a malta é esquisita. E ver um barbudo de cabelo a dançar ao Vento é algo que às vezes assusta os mais incautos condutores. Mas aquilo era a Lituânia pá! E como era a Lituânia, não esperei mais do que dez minutos até entrar no meu primeiro carro. Um rapaz dos seus trinta anos, que já tinha ido à República Checa à boleia apanhou-me.
               
- De vez em quando vejo pessoal e gosto de os levar. Vou deixar-te ali numa estrada perto da fronteira onde costumo deixar os outros – disse. Isto não estava no plano do google maps que tinha visto, mas lá acedi. Se por um lado penso “o gajo deve saber, ele afinal de contas é daqui”, por outro lado já me tinha lixado bastantes vezes saindo da rota que tinha planeado com o auxílio do Sr. Google. Mas correu bem. O gajo deixou-me, passaram dois carros e fui logo com o terceiro. Este deixou-me mesmo na fronteira, uns poucos quilómetros antes. Fui à estação de serviço gastar o dinheiro que me sobrava, e ia espetar o dedo para a estrada, quando resolvi ir perguntar àquele camionista se ia para a Polónia. Ia, e segui com ele algumas horas.
               
Este camionista deixou-me a uns cento e tal quilómetros de Varsóvia. Estava tudo a correr tão, mas tão tranquilamente, demais! Parece daquelas frases que antecipa um “até que se lixou tudo” - mas não. Saí do camião, estava a chover. Lancei o dedo ao destino, passa um carro com um casal à frente, aponto para mim e para o próprio carro, e a mulher diz para eu entrar. E fui directo até Varsóvia! Os gajos iam a ouvir heavy-metal e a fumar como se na hora seguinte fosse introduzido um imposto sobre o fumo. Parámos por um minuto, a gaja aos gritos com ele, o méne sai, entra numa lojita, e reaparece com uma cerveja, que lhe dá. Chicote à la Polac.

Onde me deixaram tinha de apanhar um autocarro até ao centro. Mas não tinha dinheiro polaco, por isso fui andando. Caminhei um bom pedaço, uma horita. Para dizer a verdade, acho que nunca tinha chegado tão cedo a um destino quando à boleia. Tinha tempo suficiente para matar. Quando cheguei ao centro, fui trocar dinheiro ao centro comercial, e fui à net ver as direcções para casa da Zofia. Tranquilo, meti-me na única linha de metro de toda a Polónia, e depois em vez de apanhar o autocarro que aconselhava, fui a pé até à morada que me tinha dado. Pedi a dois chavalos para me deixarem fazer uma chamada, e esperei pela minha anfitriã.

A Zofia é uma polaca de vinte e quatro anos que trabalha para pagar a renda em publicidade online, mas que está a acabar um mestrado em neuropsicologia. Não come carne, mas não é por princípio, é só porque não gosta. E faz testes em animais.
               
- Faço testes em gatos... e eles não duram muito tempo depois disto... mas não me sinto mal. Não como carne há mais de dez anos, acho que posso fazer o que faço – dizia-me. Bem, isto é uma maneira de ver as coisas assim um bocado à luz da lógica da batata. E não sei bem o que pensar acerca disto. É que o trabalho da Zofia está relacionado com a cura de doenças neurológicas em humanos... e não digo que defenda o teste em animais (principalmente porque não tenho muita informação acerca do que faz e da real necessidade dos testes em animais) mas reconheço que é completamente diferente de fazer testes nos bichos com maquilhagens para ver se dá alergia e outras cenas assim que pelos vistos são vitais ao desenvolvimento humano.
               
É uma rapariga bonita, altíssima e muito porreira, que fala muito e com sotaque italiano – tal como alguns dos seus amigos, pareceu-me, não sei se é uma cena de Varsóvia ou se o meu cérebro estava com uma parte desconectada. Tem um sonho, e vai segui-lo. Em dois mil e doze entregar-se-á à América do Sul, e podem seguir a sua viagem escrevendo Sophie's Backpack na pesquisa do facebook.
               
Depois de comermos qualquer coisa, fomos dar uma volta. Levou-me àqueles sítios que não vêm no guia. Demos uma caminhada à beira rio e fomos parar à praia fluvial de Varsóvia, com uma vista interessante para a cidade. Acima de tudo gostei de andar por lá no paleio com a miuda. Para o serão ela tinha planeado irmos a um festival de cinema, mas não havia bilhetes. Não me importei nada, assim fiquei na minha, em casa, e ela lá foi.

No dia seguinte andei por Varsóvia. Munido do meu leitor de música, entreguei-me a uma cidade que me surpreenderia. É que, como disse, o pessoal dizia-me que não prestava e não sei quê, mas o que é certo é que curti, e até curti bem. Se calhar mais ainda porque as expectativas estavam em baixo, não sei. Primeiro fui até ao parque, que curti muito. Andei por lá um par de horas, entre as árvores, esquilos e pavões que alegravam o sítio. Um palácio no meio de um lago com várias pontes por onde podíamos caminhar foi a piece de resistance.
               
Quando saí do parque fui nas calmas até ao museu da guerra. Mas como as calmas foram muitas, cheguei numa altura em que fecharia daí a pouco, pelo que decidi seguir caminho. Fui em direcção à parte velha. Pelo caminho alguns edifícios porreiros, e a parte de velha achei encantadora, apesar de pequena. Bem, às tantas não é uma cidade como Cracóvia, mas vale a pena, decididamente.
               
Fui para casa antes de anoitecer. Comemos qualquer coisa e fomos ter a casa da amiga da Zofia. Estavam a festejar o facto de ter defendido a tese no dia anterior. Fomos sair de seguida e foi uma noite muito porreira, que durou até às cinco da manhã. Mal sabia eu que era a primeira de uma série de noites que mais parecia a queima das fitas, ou o festejo de final de viagem... Achei interessante a relação entre a Zofia e a amiga que festejava o final dos seus estudos. Tive pena que não fossem lésbicas, porque aquela relação era de almas gémeas. Curiosamente, mais tarde a Zofia disse que até elas tinham pena de gostar só de homens. Estavam sempre aos beijos e abraços, mas de uma forma muito mais calorosa do que o normal. Os homens que se “desexcitem” que também não era nessa onda.
               
Acordei meio torto no dia a seguir para ir para Poznan. Queria ir para Berlim, mas ainda era longe, por isso decidi fazer uma pit-stop nesta cidade. A Zofia tinha dito que era muito lindo. Mas só conheci a noite de Poznan.

quinze e cinquenta e sete, terça, quinze de novembro de dois mil e doze
Vale de Cambra, Portugal





terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Primeira Última


A minha última noite, o meu último dia de viagem. Amanhã a minha última viagem, o destino em mente a terra de onde parti. A Pandora tinha pouco comparado com o que aqui vai. Sinto-me zonzo, apetece-me chorar, apetece-me rir, apetece-me vomitar um bocado, estou mais nervoso do que quando parti, apetece-me correr para lá agora mesmo, apetece-me pegar na linha que separa Portugal do resto do mundo e atrelar-me a esse todo que conheci na grande parte da minha VIDA. Mas apetece-me ganhar asas leves que me permitam voar e levar comigo esse país que me puxa sem querer.

Tenho os sentimentos de nove meses todos aqui enfiados neste coraçãozito e parece que vou rebentar. Gosto destes sentimentos mas até estou meio indisposto. Estou entusiasmado com um retorno, mas também sonho com largar as roupas do corpo, a mochila das costas e caminhar para sempre. Quero embalar o mundo com o conforto de não perder o amor, e quero acalentar o segundo sem me esquecer do primeiro.

As memórias do que vivi puxam de uma cadeira aqui ao lado e olham para mim com cara de triste. Choram uma nostalgia mais vivaça que brinca no canto com brinquedos de puto, sem saber que é muito mais fácil entreter-se quando criança.

Mas acima de tudo, e apesar de toda esta tormenta de levar com tudo o que sentimos ao mesmo tempo, tenho um sorriso. Não fujo de nada, não me contrario em nada. Quero isto, quero aquilo, e até quero continuar a querer, desde que isso me faça mover a caminho de um sorriso maior. Caminho rapaz, é isso. Caminho e rebento-me agora, tendo os furacões que me agoniavam chegado a um acordo de paz e plantado um jardim na minha alma, que nem pede muita água para florir.

Tudo se passa e tudo se sente, e adoro estar aqui sentado, pronto para deslizar... daqui ali.

cinco do onze de dois mil e onze
One Malasana Hostel, Madrid