sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Varsóvia


Acordei ceducho no dia onze de Outubro, com ideias de ir até Varsóvia. Toda a gente me dizia que era terrível e não sei quê, mas eu gostava de ver com os meus próprios olhos. Além disso, estava a quatrocentos quilómetros de distância de Kaunas, sendo assim uma distância saudável para uma paragenzinha.
               
Despedi-me do Couto e da Viljia, e meti-me no autocarro que o hitchwiki aconselhava. Pouco mais de meia hora e saí, com a ajuda de um rapaz que me disse onde era o sítio para onde me dirigia. Estava um bocadito de frio, estava com uma barba granducha e sem gel. E daí sem grande confiança para boleiar. É que já sei que a malta é esquisita. E ver um barbudo de cabelo a dançar ao Vento é algo que às vezes assusta os mais incautos condutores. Mas aquilo era a Lituânia pá! E como era a Lituânia, não esperei mais do que dez minutos até entrar no meu primeiro carro. Um rapaz dos seus trinta anos, que já tinha ido à República Checa à boleia apanhou-me.
               
- De vez em quando vejo pessoal e gosto de os levar. Vou deixar-te ali numa estrada perto da fronteira onde costumo deixar os outros – disse. Isto não estava no plano do google maps que tinha visto, mas lá acedi. Se por um lado penso “o gajo deve saber, ele afinal de contas é daqui”, por outro lado já me tinha lixado bastantes vezes saindo da rota que tinha planeado com o auxílio do Sr. Google. Mas correu bem. O gajo deixou-me, passaram dois carros e fui logo com o terceiro. Este deixou-me mesmo na fronteira, uns poucos quilómetros antes. Fui à estação de serviço gastar o dinheiro que me sobrava, e ia espetar o dedo para a estrada, quando resolvi ir perguntar àquele camionista se ia para a Polónia. Ia, e segui com ele algumas horas.
               
Este camionista deixou-me a uns cento e tal quilómetros de Varsóvia. Estava tudo a correr tão, mas tão tranquilamente, demais! Parece daquelas frases que antecipa um “até que se lixou tudo” - mas não. Saí do camião, estava a chover. Lancei o dedo ao destino, passa um carro com um casal à frente, aponto para mim e para o próprio carro, e a mulher diz para eu entrar. E fui directo até Varsóvia! Os gajos iam a ouvir heavy-metal e a fumar como se na hora seguinte fosse introduzido um imposto sobre o fumo. Parámos por um minuto, a gaja aos gritos com ele, o méne sai, entra numa lojita, e reaparece com uma cerveja, que lhe dá. Chicote à la Polac.

Onde me deixaram tinha de apanhar um autocarro até ao centro. Mas não tinha dinheiro polaco, por isso fui andando. Caminhei um bom pedaço, uma horita. Para dizer a verdade, acho que nunca tinha chegado tão cedo a um destino quando à boleia. Tinha tempo suficiente para matar. Quando cheguei ao centro, fui trocar dinheiro ao centro comercial, e fui à net ver as direcções para casa da Zofia. Tranquilo, meti-me na única linha de metro de toda a Polónia, e depois em vez de apanhar o autocarro que aconselhava, fui a pé até à morada que me tinha dado. Pedi a dois chavalos para me deixarem fazer uma chamada, e esperei pela minha anfitriã.

A Zofia é uma polaca de vinte e quatro anos que trabalha para pagar a renda em publicidade online, mas que está a acabar um mestrado em neuropsicologia. Não come carne, mas não é por princípio, é só porque não gosta. E faz testes em animais.
               
- Faço testes em gatos... e eles não duram muito tempo depois disto... mas não me sinto mal. Não como carne há mais de dez anos, acho que posso fazer o que faço – dizia-me. Bem, isto é uma maneira de ver as coisas assim um bocado à luz da lógica da batata. E não sei bem o que pensar acerca disto. É que o trabalho da Zofia está relacionado com a cura de doenças neurológicas em humanos... e não digo que defenda o teste em animais (principalmente porque não tenho muita informação acerca do que faz e da real necessidade dos testes em animais) mas reconheço que é completamente diferente de fazer testes nos bichos com maquilhagens para ver se dá alergia e outras cenas assim que pelos vistos são vitais ao desenvolvimento humano.
               
É uma rapariga bonita, altíssima e muito porreira, que fala muito e com sotaque italiano – tal como alguns dos seus amigos, pareceu-me, não sei se é uma cena de Varsóvia ou se o meu cérebro estava com uma parte desconectada. Tem um sonho, e vai segui-lo. Em dois mil e doze entregar-se-á à América do Sul, e podem seguir a sua viagem escrevendo Sophie's Backpack na pesquisa do facebook.
               
Depois de comermos qualquer coisa, fomos dar uma volta. Levou-me àqueles sítios que não vêm no guia. Demos uma caminhada à beira rio e fomos parar à praia fluvial de Varsóvia, com uma vista interessante para a cidade. Acima de tudo gostei de andar por lá no paleio com a miuda. Para o serão ela tinha planeado irmos a um festival de cinema, mas não havia bilhetes. Não me importei nada, assim fiquei na minha, em casa, e ela lá foi.

No dia seguinte andei por Varsóvia. Munido do meu leitor de música, entreguei-me a uma cidade que me surpreenderia. É que, como disse, o pessoal dizia-me que não prestava e não sei quê, mas o que é certo é que curti, e até curti bem. Se calhar mais ainda porque as expectativas estavam em baixo, não sei. Primeiro fui até ao parque, que curti muito. Andei por lá um par de horas, entre as árvores, esquilos e pavões que alegravam o sítio. Um palácio no meio de um lago com várias pontes por onde podíamos caminhar foi a piece de resistance.
               
Quando saí do parque fui nas calmas até ao museu da guerra. Mas como as calmas foram muitas, cheguei numa altura em que fecharia daí a pouco, pelo que decidi seguir caminho. Fui em direcção à parte velha. Pelo caminho alguns edifícios porreiros, e a parte de velha achei encantadora, apesar de pequena. Bem, às tantas não é uma cidade como Cracóvia, mas vale a pena, decididamente.
               
Fui para casa antes de anoitecer. Comemos qualquer coisa e fomos ter a casa da amiga da Zofia. Estavam a festejar o facto de ter defendido a tese no dia anterior. Fomos sair de seguida e foi uma noite muito porreira, que durou até às cinco da manhã. Mal sabia eu que era a primeira de uma série de noites que mais parecia a queima das fitas, ou o festejo de final de viagem... Achei interessante a relação entre a Zofia e a amiga que festejava o final dos seus estudos. Tive pena que não fossem lésbicas, porque aquela relação era de almas gémeas. Curiosamente, mais tarde a Zofia disse que até elas tinham pena de gostar só de homens. Estavam sempre aos beijos e abraços, mas de uma forma muito mais calorosa do que o normal. Os homens que se “desexcitem” que também não era nessa onda.
               
Acordei meio torto no dia a seguir para ir para Poznan. Queria ir para Berlim, mas ainda era longe, por isso decidi fazer uma pit-stop nesta cidade. A Zofia tinha dito que era muito lindo. Mas só conheci a noite de Poznan.

quinze e cinquenta e sete, terça, quinze de novembro de dois mil e doze
Vale de Cambra, Portugal





terça-feira, 15 de novembro de 2011

A Primeira Última


A minha última noite, o meu último dia de viagem. Amanhã a minha última viagem, o destino em mente a terra de onde parti. A Pandora tinha pouco comparado com o que aqui vai. Sinto-me zonzo, apetece-me chorar, apetece-me rir, apetece-me vomitar um bocado, estou mais nervoso do que quando parti, apetece-me correr para lá agora mesmo, apetece-me pegar na linha que separa Portugal do resto do mundo e atrelar-me a esse todo que conheci na grande parte da minha VIDA. Mas apetece-me ganhar asas leves que me permitam voar e levar comigo esse país que me puxa sem querer.

Tenho os sentimentos de nove meses todos aqui enfiados neste coraçãozito e parece que vou rebentar. Gosto destes sentimentos mas até estou meio indisposto. Estou entusiasmado com um retorno, mas também sonho com largar as roupas do corpo, a mochila das costas e caminhar para sempre. Quero embalar o mundo com o conforto de não perder o amor, e quero acalentar o segundo sem me esquecer do primeiro.

As memórias do que vivi puxam de uma cadeira aqui ao lado e olham para mim com cara de triste. Choram uma nostalgia mais vivaça que brinca no canto com brinquedos de puto, sem saber que é muito mais fácil entreter-se quando criança.

Mas acima de tudo, e apesar de toda esta tormenta de levar com tudo o que sentimos ao mesmo tempo, tenho um sorriso. Não fujo de nada, não me contrario em nada. Quero isto, quero aquilo, e até quero continuar a querer, desde que isso me faça mover a caminho de um sorriso maior. Caminho rapaz, é isso. Caminho e rebento-me agora, tendo os furacões que me agoniavam chegado a um acordo de paz e plantado um jardim na minha alma, que nem pede muita água para florir.

Tudo se passa e tudo se sente, e adoro estar aqui sentado, pronto para deslizar... daqui ali.

cinco do onze de dois mil e onze
One Malasana Hostel, Madrid

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Kaunas



Quando chegámos a Kaunas esperámos um bocadito pelo Couto, ele apareceu, demos os abraços da praxe e fomos até sua casa. O Couto vive na Lituânia com a sua namorada do mesmo país há sete meses, trabalhando para uma empresa americana, e vive numa casa em Kaunas muito porreira. É sempre fixe encontrar-se em viagem com pessoal que conhecemos da nossa terra.

O plano nessa noite era irmos a um aniversário de uma amiga da Vilja, a namorada do Couto. Foi uma noite muito porreira, sendo que curto sempre estar inserido num grupo local, para ver como fazem as cenas. Bem, e uma cena que ali foi bem feita, foi o incessante brinde. “Quem enche o seu próprio copo é alcoólico”, explicava-me o Couto, falando acerca de uma tradição lituana. Então que fazem? Alguém tem um shot de brandy na mão, chama o nome da outra pessoa, trocam um olhar, e o gajo bebe. Depois enche o copo e dá para a outra pessoa beber. E assim sucessivamente, sempre a rodar mais ou menos aleatoriamente, e sempre com o mesmo copo. Quem enche o primeiro copo, isso não sei – talvez um alcoólico. Era pessoal porreiro, que falava ingês razoavelmente bem, e ficámos lá até lá p’rás duas ou por aí.

No dia seguinte andámos por Kaunas, ver as vistas. Almoçámos os quatro numa pizzaria bacana com descontos de cinquenta por cento depois das três da tarde, e depois eu e a Graciete fomos ver o que Kaunas tinha para nos mostrar. É uma cidade simpática. Não me fascinou, mas é porreirinha. P’ró jantar mandámos vir mais pizzas e passámos o serão a ver uns episódios de friends na descontra.
E no dia seguinte, o meu amor partiu. Foi um “até já”, sendo que pouco faltava para eu chegar a Portugal. Bem, isto comparando com os oito meses que já tinham passado. A Graciete foi-se em embora e eu passei todo o dia em casa, num daqueles dias de “férias de férias” de que se precisa quando se faz uma viagem longa. Internet, filmes e séries, nada mais.

E eis que chegou o dia onze de Outubro, e bazei em direcção à Polónia.

onze e quarenta e nove, dia vinte e sete de novembro de dois mil e onze
algures entre Génova, Itália e Antibes, França





sábado, 5 de novembro de 2011

Vilnius


Chegámos a Vilnius, outra cidade onde já tinha estado e de que nada me lembrava, e caminhámos um bocado sem destino, até que nos organizámos e lá trocámos dinheiro. Eu já estava a trocar pela terceira vez o “mesmo” dinheiro que tinha levantado na Rússia. Posto isto, comemos qualquer coisa, e fomos procurar um sítio com internet para contactarmos a Dharma. Liguei-lhe e apesar dela ter dito que nos podia vir buscar, eu disse que se ela nos dissesse a morada íamos lá ter – grande erro. É que o google maps às vezes dá cabo de um gajo... eu pus como ponto de partida a Embaixada Grega, que era “já ali” e o gajo deu-me um caminho. Andámos com as nossas malas quase uma hora quando tive a feliz ideia de perguntar a um méne se faltava muito. O gajo sai da sua bicicleta americana espetacular e diz-nos que estávamos a ir para o outro lado. Porreiro. Táxi? ‘Bora.

Não foi assim tão caro, e passados dez minutos estávamos naquela casa porreiríssima com a nossa anfitriã merecedora do mesmo adjectivo. A casa tinha um pequeno hall, depois entrávamos na sala, que partilhava o espaço com a cozinha, a separação sendo daquelas do costume, com um balcão. Subíamos um pequeno lançe de escadas e tínhamos um quarto à esquerda, outro à direita, e à frente um quarto-de-banho com uma sanita com um tubo rachado que esguichava água com um bocadinho de cocó de cada vez que descarregávamos. Era perfeito, curti mesmo. Tirando o cocó. Isso não gosto muito, apesar de ser uito subtil. Parecia tipo areia de cocó.

Quando chegámos estavam lá a Egle, estudante de direito, mais duas raparigas e um rapaz que passou as próximas três horas sentado no sofá a participar nas conversas apenas com os seus ouvidos. Entretanto chegou o Jules, um gajo que até era porreiro mas que me deu a ideia de que se esforçava um bocado em demasia para parecer intelectual, com o seu sotaque super inglês e o seu casaco de tweed. Mal o outro dos ouvidos bazou parecia ano novo para a Dharma e o intelectual, que estiveram a falar mal do gajo p’rai meia hora.

- Ele foi o primeiro a chegar, – dizia a nossa anfitriã – e começou a falar-me de uns sonhos eróticos que teve em que era o imperador do Japão e tinha sexo com as suas comcubinas e não sei quê – iá, é um bocado estranho. Quer dizer, não é que eu seja aqui o maior, mas até me estou a ver a dizer isso sem ser estranho, porque acho que nós podemos dizer quase tudo, dependendo de como o dizemos. Mas imaginar o gajo a dizê-lo aperta-me aqui o nervo do anormal.

A Dharma é autraliana e, como muitos outros nativos da língua inglesa que conheci nesta viagem, é professora de inglês, apesar da sua formação ser em astrofísica.

- Já viste?... Fiz investigação com o australiano que ganhou o prémio nobel da física há uma semana – disse, dando a entender, mas meio no gozo, que devia ter ficado em investigação. Mas não ficou, e isso não me parece que tenha sido um erro, sendo que estava bastante contente com os seis anos que tinha passado no Camboja antes de ir para a Lituânia. Aquela miuda de vinte e nove anos era uma grande combinação entre party animal e intelectual. É que aquela pequena festinha arrastou-se até altas horas da noite, garrafa atrás de garrafa, sanduíches e conversas acerca de religião e a expansão acelarada do universo. As duas chavalas que já lá estavam foram as primeiras a bazar, depois o gajo estranho e depois a Egle, que se esteve calada durante uma hora e meia, depois não se calou durante outro tanto – dos casos mais evidentes do “palavreado líquido”. O Jules tinha chegado algures no meio mas a sua agenda era outra, por isso foi-se deixando ficar.

- És lésbica? – perguntou, quando a Dharma disse algo sobre comer gajas.
- Não, sou bissexual.
- Ah, ainda bem – exclamou o rapaz, dizendo “ufa” com as suas finas sobracelhas. E como esta saída, muitas outras. E assim, mais tarde eu e a Graciete adormecemos ao som da selva.

Entretanto chegou o Mário, italiano que vinha só passar a noite para no dia seguinte apanhar um autocarro para Varsóvia. Um rapazola porreirinho, pequeno mas pequeno. E assim se passou a nossa primeira noite na Lituânia.

Quando acordámos a Dharma já tinha ido para a escola. Tinha equacionado faltar no dia anterior, mas acabou por resistir. Acordámos ao meio dia e só saímos de casa lá p’rás cinco. Arrumámos os destroços na festa da noite anterior, “cozinhámos” (as aspas referem-se ao uso do plural) nas calmas, comemos nas calmas. Bem, fizemos tudo nas calmas, incluindo a caminhada que de seguida demos pela cidade.

É também uma cidade excelente, tal como Riga, mas se calhar aindamais fixe. Para mim parece-me mais acidentada, mais desorganizada um bocado, mas ainda assim muito harmoniosa. Andámos às voltas um pedaço, até que fomos experimentar a Zepelina. O Jules, na noite anterior, tinha dito que ai não sei quê os turistas nunca conseguem comer um prato inteiro. O que ele não sabia é que estava a falar com um gajo que uma vez comeu mais de três quilos de arroz de cabidela – facto e testemunhado. E o que é a Zepelina? É um pedaço de carne envolto numa massa tipo Maizena do tamanho de um punho pequeno, com uns molhos porreiros e de escolha variada. A Graciete escolheu uma, eu escolhi outra. Eu comi as minhas duas (que vêm por prato) e ainda metade da segunda da miuda.

Depois de jantar fomos ter com a Dharma a um bar, acabámos por encontrar uma das chavalas da noite anterior, e depois fomos com ela e um amigo seu austríaco para outro bar onde estava a nossa anfitrião. Estivemos ali um par de horas e fomos para casa ceducho.

Até ao dia seguinte, sábado, não sabíamos se iríamos para Kaunas ter com o Couto, amigo de longa data de Vale de Cambra e que lá vive, nesse dia ou não. Assim, acordámos, fomos dar uma volta e eventualmente encontrei net de onde pude trocar umas mensagens com o rapazola. Se conseguíssemos chegar antes das oito devíamos ir, porque iam a uma festa de anos e nós podíamos ir também. Bacana. Fomos a casa num instante buscar as malas, seguimos para a estação de autocarro e ala para Kaunas. Foi, espero, e escrevo agora da Alemanha, o último autocarro que apanhei nesta viagem.

seis e seis, vinte e dois de Outubro de dois mil e onze
algures entre Nittel e Langernagen




sábado, 29 de outubro de 2011

Riga


Não sei porquê não me apetece escrever. E não me tem apetecido nos últimos dias. Estou de momento algures perto de Liege, na Bélgica. Deixei Berlim com o objectivo de chegar ao Luxemburgo, mas com a ideia mais realista de ficar em Dortmund. Mas a cena é que acordei às dez e tal, e quando cheguei à estrada eram duas da tarde. Ora a minha ideia de Dortmund era caso se estivesse a fazer tarde assentar aí. Mas a cena é que se fez tão tarde, que achei melhor boleiar pela noite dentro. Mas agora é meia-noite, há poucos carros, e poucos vão para sul. Nenhum. E desta vez acredito mesmo, não acho que seja couro.

Hoje pensava que algumas pessoas, ao perceberem que as vou abordar, olham para mim como se eu estivesse a vender sida. Está bem que sou um gajo e tenho uma pera de meio palmo e um bigode que atrapalha os lábios, mas também tenho um sorriso, que ofereço sempre. Mas não chega. E assim percebo como é curioso o facto da boleia me mostrar, tanto quão fixes as pessoas podem ser, como quão cagativas. Às vezes apanham-me e sinto aquela bondade a fazer-me uma massagem. Outras vezes reagem de uma forma que, fora eu mais sensível, sentiria um pontapé nos tomates. Enfim.

Cheguei a Riga dia três de Outubro de manhã. A Graciete chegaria duas ou três horas depois. Fui à net na estação de autocarros, reservei um hostel ali perto que parecia porreiro, e mandei-lhe mensagem com as instruções.

O Frank’s Friendly Fun Hostel, onde ficámos, é um hostel muito fixe. Está no top dez. Juntamente com a Mama Naxi em Lijiang, na China, o Blue Budha na Ericeira, aquele em Veliko Tornovo na Bulgária (o melhor de sempre) e outros. Tomei banho e, qual donzela à espera do seu príncipe, aguardei impacientemente com viagens frequentes à janela que dava para o rio e consequentemente para a paragem de autocarros. Até que a vi chegar. Desci as escadas em velocidade recorde e abraçámo-nos. Tinham passado quatro meses desde que nos encontráramos na Índia, e na última semana pensara muito em como varia a forma como tenho saudade. Não só dela como de tudo. E acho que não devo estar sozinho, ou assim o espero. É que a minha saudade não é uma saudade muito lógica, que aumenta gradualmente com o tempo. É uma saudade indecisa e maníaca, que tanto surfa qualquer onda como relaxa na areia a beber um mojito. Outra cena é que não tenho tanto saudades das pessoas em si. Mas daquilo que fazíamos juntos. Seja ir à bola com o meu pai, tomar café no Sombrinha com a minha mãe, entre outras pessoas e actividades. Se calhar é a isso que chamam saudades das pessoas, mas talvez seja algo um pouco diferente. Como mais saudades de estar com em vez de saudades de.

Nesse primeiro dia não fizemos practicamente nada que tenha a ver com Riga. Passámos a tarde no quarto até às seis e tal, levantámo-nos, ela tomou banho, e fomos comprar qualquer coisa para comer. Voltámos ao hostel num ápice e tomámos conta da cozinha, que recebeu os aromas do queijo, chouriça e presunto tuga que a minha mãe tinha mandado. Abrimos uma ou duas garrafas de vinho e ficámos ali a por a conversa em dia, até que o novo repouso era imperial.

No dia seguinte juntámo-nos a uma tour grátis (com gorgeta encorajada) acerca dos tempos soviéticos em Riga. Aquela tour seria perfeita para alguém muito mais novo que nós, ou muito mais velho. A miuda era fofinha e tinha daquelas piadas sem piada nenhuma mas que são ditas de uma forma que nos deixa uma vontade incrível de ir lá apertar a bochechita. Condescendente, eu?

- Sabem que aqui temos uma máquina do tempo, – dizia, no início da tour – mas para isso temos de... saltar todos ao mesmo tempo, e aterrar em mil novecentos e troca o passo – e o pessoal lá saltava para lhe fazer a vontade. Cínico, eu?

Mas foi fixe. Andámos pela cidade também, mas foi uma cena mais orientada para a ocupação soviética. Visitámos um ou dois museus grátis, e no final demos alguns euros de gorgeta, enquanto bebíamos um shot horrível que era oferta dum bar.

Depois da tour fomos a casa arranjarmo-nos para irmos jantar. Era o nosso aniversário e o Moreira tinha oferecido o jantar. Demorámos p’rai uma hora a encontrar um restaurante que se apropriasse. É que primeiro tínhamos na ideia um restaurante medieval que nos tinham sugerido. Mas parecia exageradamente caro, por isso seguimos caminho, até que finalmente encontrámos um italiano muito porreiro. Que nem por isso foi barato, igualmente.

Saímos do restaurante um bocado lançados, e esse lanço levou-nos para o Folk Bar. Havia um encontro de couchsurfers lá, organizado pelo Jorgen, um amigo norueguês que tinha conhecido em Edinburgo no ano anterior. Foi muito fixe, e a Graciete estava naquele estado de graça em que o seu inglês triplica – ou pelo menos diminui três vezes a sua inibição em falar uma língua que não domina. E à conta disso passámos bué de tempo a falar com este e com aquele. Foi fixe ter encontrado o Jorgen, um gajo muito inteligente e porreiro que está em Riga há seis anos, trabalhando como tradutor.
Daí fomos para outro bar qualquer, e desse para ainda outro. Foi uma boa noite, muita risada e bons momentos. Curti.

Acordámos no dia seguinte mesmo a tempo de fazer o check-out. Tínhamos combinado com a Sabine encontrarmo-nos às seis da tarde desse mesmo dia naquela estátua. Assim, deixámos as cenas no hostel e fomos dar uma volta pela cidade. E que surpresa foi! Tanto essa tarde como as anteriores, mas essa tarde foi aquela em que fizemos mais “turismo” à séria. A surpresa não foi tanto a cidade ser fixe, mas o facto de eu lá ter estado sete anos antes, e não me lembrar de absolutamente nada! Tinha lá estado com um grupo enorme (p’rai vinte e tal) pessoas – os meus amigos de erasmus na Finlândia, e o meu irmão. Devemos ter curtido em demasia e aproveitado só uma parte de Riga. Uma das poucas memórias que tenho é estarmos num bar muito retro (mas sem ser de uma maneira fixe), onde letãos cantavam um karaoke horrível. Gozámos com eles apenas um pouco cedo demais. Porque quando volto a olhar passado uma hora é o meu irmão que lá está a cantar uma cena tipo Shakira ou algo pior. E depois éramos todos no palco. Cenas.

O centro de Riga está dividido entre a parte velha, com as ruas em calçada e uma epidemia de igrejas, e a parte mais nova, que apesar de o ser, é-o de uma forma muito airosa e arranjadinha. Passeámos por aí umas horas, até que voltámos para ir buscar as cenas ao hostel, para irmos ter com a Sabine.

A Sabine é uma letã de vinte e cinco anos (acho) que albergara o Hugo e o Bruno p’rai uma semana antes. “Claro que podes ficar, eu nunca digo que não a pessoas portuguesas!”, respondeu, quando lhe perguntei se lá poderíamos dormir. Por acaso é uma cena de que a malta até se pode orgulhar, se se quiser orgulhar com os feitos dos outros. Há alguma coisa que os tugas estão a fazer bem – é que muita gente nesta viagem gosta de nós. Seja pessoal que conheceu na estrada, ou pessoal que conheceram quando visitando as terras do Viriato.

Trabalha de momento a p;or publicidade em sites ou uma cena assim qualquer, e está acabar o mestrado em algo que já não me recordo. E não está muito feliz com a sua VIDA.

- Sabes... – disse-me, na manhã seguinte – ontem não conseguia dormir a pensar nas tuas perguntas... é que eu disse que sim, que era feliz, quando me perguntáste... mas foi mais uma reacção do que algo pensado. Porque na verdade não estou feliz de momento... tenho de trabalhar em algo que não gosto, mas não me posso despedir porque tenho de pagar as contas... e isso não ajuda. Além do mais preferia viver no campo, como te disse – e é aqui que eu entro em conflito. Porque eu defendo com força que se um gajo não está feliz com uma situação, tem de a mudar e já está! Mas às vezes já condicionantes que nos lixam. E tenho de aceitar que às vezes, às vezes, uma pessoa tem de aguentar um bocado até chegar onde quer. Mas esta fase de não se estar bem tem de ser uma fase. Apenas uma fase. Tem de ser algo temporário e temos de saber mais ou menos quando vai acabar, e o que vamos fazer para nos encontrarmos connosco próprios. Acho que o pior é que às vezes esta merda suga um gajo e depois é difícil sair. Ou assim me parece, caso contrário toda a gente seria feliz.

No início a conversa estava um bocado perra. Sentámo-nos na sala a beber um chá e eu sentia que tinha de mandar as perguntas de chacha. Mas felizmente foi só no início. Saímos passado um bocado, ela queria-nos mostrar uma vista porreira da cidade, e a cena começou a fluir, e tivemos oportunidade de conhecer uma pessoa dócil e descomplicada. Tinha estado em erasmus em Portugal e apaixonou-se por um rapaz que conheceu porque lhe deu uma boleia do centro do Porto para o hotel onde estavam. Incríveis estas cenas. Adoro esta aleatoridade da VIDA. Se outra pessoa qualquer a tivesse apanhado, ela não tinha acabado por ir visitar o Porto cinco vezes em cinco meses. Mas agora o rapaz vai trabalhar para o Brasil...

Cozinhámos, jantámos enquanto conversávamos acerca da sua família, e depois vimos o Trainspotting antes de irmos dormir.

No dia seguinte seguimos para Vilnius, onde nos esperaria a Zoe, a nossa anfitriã australiana.

uma e um da manhã, dezoito de outubro de dois mil e onze
algures entre Berlim e o Luxemburgo