quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Antibes


Como queria ir ao Mónaco, arranjei sofá em Antibes, ali pertinho. De Génova cheguei a Antibes sem problemas, mas acabei por não ir ao Mónaco...

O Marco deixou-me numa estação de serviço que era também o sítio aconselhado no hitchwiki. Estive aí uma horita, apanhei uma boleia, que me deixou a uns cinquenta quilómetros. Não se passava muito nessa, mas não demorei mais de meia hora a arranjar boleia até perto da fronteira. Aí, mal cheguei, a polícia que lá estava a lanchar ou a passar tempo, vendo-me, perguntou-me se eu estava à boleia.
- Sim, mas não vou para a estrada, porque sei que é ilegal, não se preocupem – respondi. Mas pelos vistos aquilo que eu pensava ser tranquilo era aquilo que eles não queriam que eu fizesse, que era falar com o pessoal.
- É que se falas com as pessoas elas depois chamam a polícia – disseram-me, aconselhando-me a ir para a saída com um sinal. Eu fingi que tinha percebido e que aquilo não era uma estupidez e fui para lá. Até, claro, que eles bazaram, e voltei para o mesmo sítio. Eu estava na zona de restauração. Estava um bom dia, solarengo, estava a correr-me bem a boleia e não estava muito longe. Tanto que tinha pensado ir até ao Mónaco, dar uma vista de olhos naquele país de dois quilómetros quadrados, e boleiar posteriormente para Antibes.
               
Nisto apareceram dois rapazes em fato de treino que iam comer qualquer coisa. Interpelei-os, disseram que à partida não havia problema, e eu lá fiquei à espera. Quando voltaram, disseram que o carro era da empresa e não sei quê, que só me podiam levar até ali não muito longe. O gajo era português, tinha ido viver para a França com quatro anos. Eu disse “‘Tá tudo” e seguimos.
               
Demorámos menos que pouco a avançar da conversazita de circunstância para os problemas que afectam verdadeiramente a VIDA do Filipe. é que o rapaz de trinta e três anos viu no facto de eu ser psicólogo uma oportunidade de ouro de desabafar tudo que p´ra lá ia.
               
- Pá... tenho agora uma cena pá... Andava com uma gaja, e não é que a gaja me fez um filho?... – começou por dizer, com o seu sotaque francês. O Filipe encontrava-se num ponto sensível na sua VIDA. A nível profissional tudo lhe corria bem – tinha já trabalhado alguns anos a poupar mais de três mil euros por mês, e naquela altura tinha começado há pouco a sua empresa de importação de carros, que ia no bom caminho. Mas a nível emocional, estava ali uma torrente que o deixava completamente abananado. Tinha tido uma relação com uma francesa que era frígida mas que lho escondeu durante anos.
               
- Eu sentia que ela reagia ao sexo de uma forma completamente diferente das outras raparigas, mas não sabia do que era... e pensava se era um problema meu. A verdade é que ela não tinha prazer nenhum no sexo... – dizia-me. Contou-me que essa rapariga tinha tido relações com o seu tio  quando esta era ainda uma criança e que isso teria de estar na base de tudo – Mas agora eu não a quero ver mais... pá ela fez-me muito mal... Mas agora temos uma criança juntos, tenho um filho... – lamentava-se. Gostei do gajo, e gostei da sua frontalidade e honestidade, dizendo-me, por exemplo, que estava com um problema de líbido, não a conseguindo levantar... O que é uma cena que muitos pseudo-machos que andam p´raí nunca admitiriam.
               
Tinha-lhe dito que queria ir para o Monaco. Ele esqueceu-se, mas o que é certo é que não havia uma saída onde desse para eu ficar. Por isso fomos quase hora e meia à conversa. Não lhe dei propriamente conselhos ou algo do género. Até porque ele parecia saber exactamente o que precisava de fazer, acho que só precisava de alguém que o ouvisse e que lhe dissesse que o que ele sentia e precisava fazia perfeito sentido.
               
Com um abraço despedimo-nos, e ele deixou-me ali pertíssimo de Antibes. Muito mais perto do que eu pensava. é que ainda tentei boleiar, só para perceber, uma horita depois, que estava a cerca de uma hora a pé. Comi qualquer coisa, fui à net num McDonalds que encontrei ali e mandei umas mensagens ao Hassan, que me receberia nessa noite.
               
O gajo pareceu-me boa onda pelas mensagens, e confirmou-se. Encontramo-nos no centro daquela pacata e agradável vila, e fomos para o seu apartamento. Ora eu estava a pensar ficar lá uma noite e no dia a seguir acordar de manhã, boleiar para o Monaco, quarenta e quatro quilómetros para Este, e daí para Montpellier, a trezentos e cinquenta quilómetros do principado. Mas o Hassan estava convencidíssimo que eu ia ficar duas noites, e estava a explicar-me o que tinha de fazer no dia seguinte, por exemplo, quando ele não tivesse em casa, como abrir a porta e não sei quê, que eu não tive coragem de lhe dizer que vinha só mesmo passar a noite, e acabei por ficar duas noites.

O Hassan é um marroquino que está na França há alguns anos. Não me lembro de quantos, mas os suficientes para ter um passaporte francês. Demo-nos bem de imediato. Perguntou-me que música queria ouvir, deixamos o som rolar, sentamo-nos com um copo na mão e fomos falando, enquanto não chegou o seu amigo. O Hassan tem das VIDAS amorosas mais complicadas que já conheci. “Namora” com uma polaca que tem um outro namorado. Está mais ou menos apaixonado por uma sueca que também namorava com um outro rapaz com quem entretanto acabou (sem o Hassan saber, porque não quer perguntar, se foi por causa dele), que o vinha visitar daí a dois dias. E acima de tudo, e principalmente, “tem” de se casar com uma marroquina.
               
- Como assim?
- Os meus pais exigem-no...
- Mas... é a tua VIDA, certo? – perguntei, meio a medo de medo de me estar a meter onde não era chamado.
- Pá eu tenho esta maneira de ver as coisas que acho que tudo o que eu tenho e sou o devo aos meus pais, e por isso é assim – respondeu, calmamente, sentindo eu que não era o Hassan que estava a falar, mas a sua cultura. Senti uma revolta dentro de mim a querer falar, mas ele na verdade não me tinha perguntado nada, eu tinha acabado de o conhecer, fiquei-me por ali... sem saber que mais tarde a conversa seria outra...

Entretanto apareceu o Youssef, seu amigo também marroquino e também agora francês. Ficámos à mesa um par de horas a falar de Marrocos, daquela cultura, e do sistema político que têm, até que fomos para um bar perto do mar onde ia tocar a banda preferida de covers do Hassan, The Bla Blas. Mal estive com ele lá dentro. íamos dançando, saltando, falando com este e aquele, dentro e fora do bar, foi uma noite de caos e loucura, mesmo como eu gosto.
               
O Yuoussef só ia ficar “só uma horita”, mas acabou por ficar até ao fim, e levou-nos a casa. Já não sei a que propósito, sentamo-nos à mesa, os dois de tronco nu e t-shirt na cabeça, e começamos a falar daquela imposição familiar acerca da pessoa com quem ele casaria. Apesar de não me lembrar muito bem, suspeito que tenha sido eu a puxar o assunto. Não estava nada à espera da sua reacção. é que o Hassan começou a chorar. Não aos berros nem a soluçar, mas contava-me a sua cena com um desespero e peso esmagador latente, com as lágrimas a escorrer pela sua cara. E eu senti aquele meu novo amigo como um menino de dez anos, que não sabe bem o que fazer, que sente que algo é correcto, mas que não consegue fazê-lo pelo medo da repreensão (imaginada) fatal do seu pai. Eu próprio senti, através das suas palavras, a potência das palavras do seu pai. Imaginei aquele tipo de relação em que o pai a abanar levemente a cabeça com cara de desilusão seja dez mil vezes pior do que uma coça.
               
Tentei ajudá-lo, não sei se da melhor forma, confesso, porque um gajo sabe lá como é que a cena é realmente. E é certo que o tentei ajudar com conselhos nada longe da minha própria maneira de ver as coisas...
               
- Se tu fizeres isso para agradar os teus pais, vais casar-te com alguém por quem não estás necessariamente apaixonado... tens esses sentimentos pela polaca, pela sueca, e que terás por outras pessoas que vais conhecendo, até que os terás de uma forma que fique, imagino... e depois vais querer ficar com essa pessoa, porque o sentes, e porque ela o sente da mesma forma, se tudo te correr bem. Mas e calares isso tudo e encontrares alguém com quem talvez passes o resto da tua VIDA, para agradar a um coração que não o teu nem o dela, vais sofrer com isso... e até ela vai sofrer com isso, porque às vezes quando o pessoal faz disto, gera-se um ressentimento que ocupa no coração o lugar que o amor devia de ocupar – disse-lhe com a mão no seu ombro, a ver as suas lágrimas deslizarem como se alguém lhe tivesse morrido. Não queria instaurar a confusão nem a discórdia, tampouco sou assim importante, mas também não consegui ficar impávido e sereno ouvindo alguém planear escapar dos seus sentimentos assim. Mas claro, não lhe disse nada de novo...

Na manhã seguinte acordei lá prás onze e tal. “Hei pá, tenho de ir ao Monaco”, pensei. Tomei banho, arranjei-me, e a muito custo caminhei mais de uma hora até um sítio que me parecesse bom para a boleia. Ainda tentei uns cinco minutos, mas senti que a qualquer momento ia morrer ali naquela valeta, e voltei para trás, para mais uma hora e tal de tormento caminhante. Ainda por cima, bem ao meu estilo, já não sabia qual era a casa dele, e andei perdido outra hora. Ao menos conheci aquela terra...
               
O Hassan chegou, passámos o serão a ver Curb Your Enthusiasm, comemos uma cena que parece uma pizza enrolada, e assim foi. Tudo tranquilo.

Na manhã seguinte despedimo-nos, e eu parti em direcção a Montpellier, onde tinha um sofá à minha espera.

terça, dezassete e cinquenta e nove, vinte e dois de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Portugal

domingo, 11 de dezembro de 2011

Entre Langenargen e a França


Na segunda acordei cedo e fui outra vez com o Danny ao escritório do pai para ver o meu trajecto na net. Tinha 451 quilómetros até Turim, onde alguém tinha aceite albergar-me. A cena é que eu sabia o quão difícil era boleiar na Itália, por isso não estava assim muito positivo. Se eu soubesse o quão difícil é boleiar na Suiça também, aí estaria negativo de todo...

Apanhei uma boleia até àquele sítio onde se vendem as vinhetas de autoestrada para a Áustria e aí apanhei uma boleia com um senhor muito simpático. Ele ia falando alemão devagar e com palavras fáceis para eu perceber, e às vezes metia uma inglesa no meio. Falámos acerca de dinheiro. Ele dizia, e eu dizia, que não interessa, que não é importante. Mas apesar de ele ser um senhor muito simpático e com boa onda, não sei o que sinto ouvindo alguém que conduz um BMW X5, tem um iate, cavalos e não sei quantas casas, dizer isto. É uma posição um bocado privilegiada, no mínimo...
               
Tinha quase sessenta anos, e foi com um sorriso mental que confirmei namorar, ou estar casado, com uma miúda mais nova. É que tirei-lhe a pinta, e reparei, mal entrei, numa caixa de viagra ao lado do seu maço de marlboro lights. Na verdade, e ele fez questão de me mostrar a fotografia (tal como dos seus cavalos, filhos e ex-mulheres), ele estava casado com uma mulher de trinta e poucos. Que goze a VIDA.
               
O senhor ia para Zurique. Ora eu tendo esperado ainda um bom bocado até que aceitassem levar-me, achei que o melhor seria deixar-me ir até lá e depois ver. Ao sabor do improviso, que nem sempre é o nosso melhor amigo. Ele deixou-me numa estação de serviço fora de Zurique, e eu fiquei aí a tentar safar-me. Mas ninguém ia para onde eu queria, ninguém...
               
Segui com um rapaz que ia para Zurique, e que me disse haver uma zona de merendas antes da última saída, onde parava algum pessoal, e alguns que me interessavam. Assim fiz, sem nenhum resultado positivo. Sentia que na Suíça boleiar era mais difícil do que nos outros países todos – à excepção do ex-libris da anti-boleia, a Itália. O pessoal nem era muito arrogante, mas sentia que mandavam cada couro, que se fossem filhos do Gepeto matavam-me ali com um buraco no cérebro.
               
E assim, contra qualquer prognóstico, dei por mim em Zurique! O meu plano era entrar na cidade, arranjar net e pedir ao hitchwiki para me dizer como tinha de fazer para seguir para a Itália. Apanhei boleia com um senhor que me deixou no centro, caminhei avenida abaixo e estacionei à frente da loja da apple. Agora o pior é que o hitchwiki não estava a funcionar. Perfeito! Pedi a um amigo que estava em Birmingham para o ver por mim, mas pelos vistos o site não estava a funcionar em lado nenhum. Tentei então um método alternativo. Escrevi “hitchwiki zurich” no google, e apesar do site, em si, não funcionar, na lista que aparecia dada pelo motor de busca, ainda dava para ver uma linha que dizia “vai caminhando seguindo as placas que dizem Lucerne. Que terror... Caminhei, com aquele peso todo, mais de duas horas, e o tempo a passar. Estacionei ao lado de um semáforo e mais uma hora passou. Estava a abordar o pessoal que vinha da estrada onde eu estava, mas por sorte, reparei numa matrícula lituana na outra estrada, e comecei a esbracejar e a apontar para o meu sinalzinho que dizia Lucerne. Os gajos levaram-me. Eram georgianos.
               
Como eu não queria ir para Lucerne, só andámos um bocadito e eu fiquei numa estação de serviço. E acho que esta estação de serviço ficou no top dez de onde passei mais tempo. Pá devo ter abordado mais de cem pessoas, perguntando se iam para o sul. Estava atento às matrículas. “TI” seria perfeito, que era uma terra já na parte italiana da Suiça. Depois havia outras de que já não me lembro. De vez em quando aparecia um ou outro jovem que me queria ajudar, mas que não iam para sítios espetaculares. Estive ali p´rai duas horas e meia, até que tive mesmo de comer alguma coisa. Como me custou dar cinco euros por uma daquelas sanduíches de triângulo... Mas paciência, um gajo tem de comer.
               
Descobri que aquela estação de serviço tinha net, e fui mandar vinte pedidos de couchsurfing para Lucerne, caso não me conseguisse safar. Mas consegui! Já desanimado, vi uma matrícula “TI” e fui tentar a minha sorte. Esperei junto à carrinha que levava no reboque um mini dos antigos com aqueles números de quem anda no rally, e quando o gajo chegou, perguntei-lhe em italiano. E ele disse que sim!
               
O Frank era um alemão daqueles que me deixa com menos medo de envelhecer. Muito boa onda, vive a sua VIDA sem ser obcecado com dinheiro, não complica.
               
- Pá... a dada altura trabalhava em marketing... a convencer pessoas a comprarem cenas de que não precisam, – o que me faz detestar marketing e publicidade – a movimentar milhões de euros dos clientes... mas não estava nada bem. Ganhava muito mas era tudo para comprar coisas de marca, carros e essas merdas todas que no final do mês me deixavam teso como se não ganhasse quase nada... e por isso, pá, mudei... uma namorada minha tinha uns cavalos, comecei a trabalhar nisso. Durante uns anos a minha VIDA era tratar dos cavalos dela, olhar pelos filhos dela... depois as coisas correram mal e foi cada um para seu lado. Agora compro carros, arranjo-os, e vendo-os depois. Não me dá muito dinheiro, mas dá para o que preciso, e é uma coisa que gosto de fazer...
               
Foi uma das melhores boleias que tive, ponho o Frank e o Tomasz que me deixou em Berlim no mesmo saco.
               
O Frank deixou-me numa estação de serviço a p´´rai cem quilómetros de Milão, já de noite. Estava a chover e aquilo não era muito movimentado. Vi, na gasolineira, um Fiat de matrícula italiana e resolvi esperar pelos donos. Primeiro pedi em italiano, não perceberam. Pedi em inglês, vi a dúvida naquele olhar, que tentei aniquilar com um sorrisinho simpático. Era um casal russo e senti que a decisão era da rapariga. Ela disse “ok” mas sem estar muito convencida.
               
Demo-nos muito bem, fomos o caminho todo a conversar, e senti que eles curtiram conhecer-me. Senti que iam recordar-se da boleia que deram àquele gajo que estava a vir por terra desde Singapura – e do mesmo modo que eu me vou recordar do casal de russos que em sete dias queria conhecer sete cidades europeias; e que tinham conduzido um dia quase todo para ir e vir a Zurique, tendo lá estado um par de horas e fugido de medo com os preços.

Podia ter ido com eles até Milão, mas não havia grande sentido nisso, sendo que não tinha onde ficar. Iá, podia mandar assim uma catrefada de pedidos, mas já era tarde. Decidi ficar na estação de serviço, sem saber que ia ter de fazer, no dia seguinte, o que tinha feito nesse mesmo dia – entrar dentro de uma cidade grande só para me orientar bem.
               
Fui perguntado ao pessoal, mas nada. Além desse “nada”, ia aparecendo aquelas trombas de vez em quando, que não são raras na itália. Pouquíssima gente ia para Turim, p´rai um ou dois, e esses “não levavam estranhos”. Assim, meti-me na área de restauração da estação de serviço, e ia perguntado ao pessoal que entrava.
               
Tudo o que tinha comido nesse dia tinha sido aquela sanduíche tri,angulo de cinco euros na Suíça. Comprei uma baguete de meio metro por um euro, meti-lhe azeite que havia ali ao lado, e comi aquilo em menos de três minutos. Eventualmente desisti de perguntar à malta para onde ia, e comecei a estudar hipótese de soneca. E que hipótese! Na sala onde tinha a televisão e as mesas para o pessoal jantar, havia uma secretária enorme, com um computador enfiado na mesma, daquelas com um ecrã embutido, e estava a um canto, na diagonal, fazendo um triângulo com as paredes. A ideia era o pessoal consultar o trânsito naquilo. “Ora cá está daquelas coisas que parece muito lindo e tal mas que ninguém usa...”, pensei. “E como ninguém usa e isto está nesta posição bestial, vai servir perfeitamente para me esconder”. E que posso dizer? Dormi até às nove e pico... Quando acordei, desisti de pedir boleia para Turim e fui até Milão. E que terror me esperava...
               
O gajo que me levou deixou-me perto de uma saída para a autoestrada, que dava para muitos sítios, Turim, ou Génova (também a caminho de França) incluído. Mas não passava ali ninguém! Por sorte, aquilo era mesmo ao lado de um McDonalds, onde eu podia usar a internet. E por ainda mais sorte, a miúda que lá trabalhava era fixe e deixou-me usar o telemóvel dela para receber a password. é que o governo italiano tem altas paranóias de terroristas usarem a net não sei para quê e sempre que alguém usa um wireless tem que ser assim registadinho. Vi onde era um sítio mais propício para ir para Génova e meti-me a caminho. Cheguei passado uma hora e tal. E era um sítio de merda. Ali num semáforo, antes da entrada da autoestrada. Ora se quando abordo os italianos nas estações de serviço eles não são muito de levar um gajo, ali especado com um sinal a dizer Génova, muito menos. Estive ali duas horas, até que decidi mudar para um sítio melhor, desse por onde desse.
               
Fui caminhando mais ou menos paralelamente a essa estrada, avancei umas cercas, caminhei ao longo da autoestrada rapidamente para a polícia não me ver, avancei mais umas cercas, e fui parar a uma estação de serviço. Melhor sítio não havia.
               
Passado uma hora estava no quarto do Marco, que acabaria por salvar o meu dia. Era um farmacêutico muito bacano que tinha trabalhado um ano e meio em Barcelona, já tinha estado uma catrefada de vezes na América do Sul e era couchsurfer. Demo-nos bem, e ele deixou-me numa estação de serviço onde poderia haver pessoal que seguisse para a França. A cena é que essa não era a melhor estrada para terras gaulesas, mas eu já estava por tudo.
               
- Tens aqui o meu número, se tiveres algum problema ou não arranjares nada, podes dormir em minha casa logo, sem problema – disse-me ele, após me pagar uma sanduíche e uma garrafa de água. E foi precisamente o que aconteceu... Não encontrei nada para lados franceses, fui até Génova com um senhor que até arranhava o português. Chegando lá, passei uma horita na internet, e liguei-lhe. Estava a beber um copo com dois amigos, juntei-me a eles, depois fomos jantar, e fomos para casa não muito depois. Estivemos à conversa até à uma e tal fomos dormir.

terça, catorze e quarenta e dois, vinte e dois de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Portugal

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Langenargen e Liechtenstein



Foi espetacultar estar em Langenargen. O Danny é um gajo excelente, o irmão dele igual, e isso fez com que tivesse uns dias muito porreiros.
               
Liguei ao Danny da cabine da estação de comboio e o gajo apareceu em três minutos. Parámos para ir comprar pão e fomos para casa. O pão alemão é o melhor de todos, sem dúvida. Quando chegámos tive de ir dormir um bocado, porque estava todo destruído.
               
Quando acordei, depois de almoçar umas sandes com aquele pão maravilhoso, fui dar uma volta com o Danny. “É estranho ter-te aqui... porque conhecemo-nos numa parte da minha VIDA que foi o ano no Camboja... apesar de nos termos conhecido na Mongólia... e agora, passado um mês estamos aqui, na minha VIDA alemã... estranho mas fixe, claro!”, dizia. Eu compreendo. São mundos que nem são paralelos, são perpendiculares ou até de dimensões diferentes. A VIDA do quotidiano quando se cruza com a ideia de VIDAS passadas ou quem sabe até apenas sonhadas gera uma confusão difícil de aguentar pela mais avançada das mentes, quanto mais pelas banais e normais como as nossas. Um gajo cede e aceita a realidade mais real como aquela que vivemos todos os dias, ou como aquela que menos nos agrada, não sei porquê. E quando temos um acesso, por mais breve que seja, a momentos completamente diferentes, de êxtase absoluto, de dias a pairar acima das nuvens, convencemo-nos que pertence a um domínio que não pode ser terrestre. É um instinto, acho... e acho igualmente que um casamento entre estes dois domínios atribuiria ao nosso ser uma paz inigualável.
               
Langenargen é uma vilita agradável. Está à beira de um lago que proporciona uma bela paisagem e uma serenidade latente. Ao mesmo tempo, parece o tipo de sítio onde os cotas vão depois da reforma. Demos uma volta pela vila, bebemos uma cerveja e fomos para casa. Íamos a uma festa que era organizada anualmente pelos bombeiros da região. Mesmo aquilo que eu curto – estas festitas onde não vai nenhum turista, porque são isso mesmo, festitas.
               
O pessoal foi chegando a casa do Danny e ficámos lá um pedaço. Nem todos falavam inglês, ou pelo menos assim me pareceu. Umas horas mais tarde, já entrados, tive uma perspectiva completamente diferente. Quem curti bué foi o irmão do Danny. É mais novo, tem dezanove anos, mas um chavalo super boa-onda, tal como o irmão.
               
A festa era alguns milhares de pessoas numa tenda gigante, em constante migração entre a pista de dança, o bar e a área lá fora onde se podia fumar. Eu ia falando com este e com aquele, já nem sei acerca de quê. O dia seguinte foi daqueles típicos domingos. Deitadinho no sofá, comer qualquer coisa, ver um filme.
               
Na segunda-feira fui ao Liechtenstein. Acordei de manhã e fui com o Danny ao escritório do seu pai. O Danny está a estudar engenharia electrotécnica, mas é um sistema diferente do nosso. Na primeira parte do ano trabalha e é supervisionado, e na segunda parte do ano dá a teoria. Como o pai dele tem uma empresa relacionada com a automação de máquinas, ficou tudo em família. Acedi à net lá e vi as direcções até ao Liechtenstein. Era pertinho. Pus-me a caminho, e meia horita depois apanhou-me um rapaz, que até conhecia o Danny. Deixou-me em Lindau. Lá, caminhei para a autoestrada e tentei um bocado aí. Reparei que alguns carros encostavam num parque um pouco mais à frente e fui para lá tentar. Eventualmente um senhor aceitou levar-me. Esse parque era onde o pessoal que ia para a Áustria, pelos vistos a trinta metros dali, comprava as vinhetas para conduzir na autoestrada. Este senhor deixou-me numa rotunda, onde esperei pouquito até que um senhor muito simpático que falava comigo em alemão muito lentamente para perceber me apanhou. Deixou-me a um par de quilómetros do Liechtenstein. Mas não sabia que estava tão perto, só percebi quando, num supermercado, perguntei e apontaram “p´´ráli”.
               
Apesar de estar dentro do espaço schengen, tive de mostrar os meus documentos e mochila na fronteira. Entrei no país. À direita as montanhas suiças, à esquerda, uma pequena montanha que separa o principado da Áustria. O Liechtenstein e o Turquemenistão são os únicos países do mundo de onde se tem de atravessar duas fronteiras para chegar ao oceano. No caso do Liechtenstein, temos a Suiça de um lado, um país sem acesso ao oceano, e a Áustria do outro, onde se passa o mesmo. É um país estranho – pelo facto de ser pequeníssimo. Tem cerca de trinta e cinco mil pessoas e era, pelo menos na altura, o país mais rico do mundo por pessoa.
               
- Na Áustria pago quarenta e sete por cento de impostos... no Liechtenstein pago quatro por cento – dizia-me o rapaz que me deu boleia da fronteira até Vaduz, a capital. Capital? Sim, este país minúsculo ainda se dá ao luxo de ter algumas terras. E Vaduz, igualmente, é estranhíssimo. Vejamos, se me dissessem “estás numa vilita suiça”, eu dava uma voltita e pensava “ok, não é nada de especial, mas também não é desagradável...”. Mas não, aquilo era a capital de um país! E eu não me conseguia esquecer disso. Pá tem uma área pedonal p´´rai de trezentos metros, vários bancos, algumas ruas, e eu lá ia caminhando e quando dei por ela estava quase na Suiça. Eu tentava aproveitar ao máximo e fazer o tempo render, mas o que é certo é que lá p´´rás três da tarde aquilo estava visto...
               
E então pus-me a caminho para voltar. Caminhei um pedaço, dedo esticado, parou um rapaz que me levou p´´rai cinco quilómetros. Depois a mesma coisa, mas ao lado de uma gasolineira.
               
- O senhor não me pode levar para a Alemanha, por favor? – perguntei a um senhor num carro de matrícula desse país.
- Não, não, eu nunca levo ninguém... – respondeu, decidido.
- Ok, ok... mas isso é mau carma...
- Talvez, não sei... -  disse, mesmo antes de fechar a porta, e bazou. Eu continuei mais uns minutos e decidi ir caminhando. Ora à medida que ia avançando reparei num carro lá ao fundo estacionado na beira da estrada com os quatro piscas. “Será?”, pensei. “Nã... não pode ser...”. Mas era! É que vou-me aproximando do carro, este começa a fazer marcha atrás e sai uma mão do lado do condutor a chamar-me. Era o gajo.
- Eu não gosto quando me dizem essas coisas do carma... – disse, quando eu entrei no carro. Fiquei contente pelo gajo ter mudado de opinião. Falámos um bocado acerca da importância de fazermos coisas boas uns aos outros, ele falou-me de um apartamento que tinha ido ver para o natal, e depois deixou-me numa rotunda não muito longe da Alemanha. Daí apanhei boleia de um sérvio e depois, já pertinho da fronteira de um homem porreiro que me levou de propósito a Langenargen. Estava a chegar quando vi o Danny a atravessar a rua.

Próximo objectivo... Turim, onde tinha um sofá à minha espera. Basta dizer que ainda hoje, não fui a Turim.

sexta, quinze e vinte e seis, dezoito de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Portugal