sábado, 3 de dezembro de 2011

A Caminho de Langenargen


O David chegou do trabalho às seis e tal da manhã. Acordei, pronto para bazar, mas ele perguntou se eu não preferia dormir mais um bocado, e que depois ia depois do almoço. Eu fui fraco, e cedo perante o João Pestana.
               
Assim, acordei, cozinhei qualquer cena, comi, e o David, como bacano que é, acordou para me ir levar a uma estação de serviço que seguia para sul. Lá, ainda tentei abordar o pessoal, mas achei que era melhor ir para a saída com o cartaz. Escrevi “Stuttgart” e esperei. Apanhou-me um rapaz, levou-me p’rai uma hora e deixou-me numa estação de serviço. Comecei a topar que aquilo não ia ser assim facílimo. Tinha quinhentos e sessenta quilómetros pela frente até Langenargen, e pelo que parecia uma boa parte dos mesmos era por estradas secundárias. Saí na estação de serviço, perguntei a um francês se me podia levar, e o gajo disse logo que sim. Esperei um bocado enquanto comia as suas bolachas e bebia o seu leite achocolatado, e andámos uma horita, até que ele me deixou noutra estação de serviço. Aí apanhei um gajo que ia para Karlesruhe. Senti que se eu ficasse por lá podíamos sair juntos mais logo, mas eu preferi seguir viagem. Ele deixou-me na cidade, mas numa saída para a autoestrada que parecia porreira. Ora não sei que se passou, ou ele se confundiu ou confundiu-me, mas eu fui para onde eu achava que ele me tinha mandado e estive ali à boleia p’rai meia hora até perceber que quando os condutores apontavam, com cara de confusos, para o lado oposto, tinham alguma razão. Porque eu estava a boleiar para o lado errado. Lá me meti no sítio certo, e apanhei boleia de um bombeiro voluntário a tirar um doutoramento em biologia muito porreiro que me perdeu mais de uma hora só por minha causa.
               
- Não tens de me levar até à saída pá... – disse eu, ao ver os quilómetros que o esperava do outro lado, quando voltasse para trás...
- É na boa, eu disse que te levava, levo... – e lá fomos. Quando lhe perguntei as cenas mais difíceis de ser bombeiro, ele falou-me dos suicídios nas linhas de comboio. Falou-me do Efeito Werther e comparou-o com o Enke, o guarda-redes que já jogou no Benfica e que se suicidou, precisamente desta forma, em dois mil e nove. O Werther é um livro do Goethe que eu estava a ler mesmo antes de partir para esta viagem. Acho que não estrago nada dizendo que o personagem se suicida no fim. Não estrago nada porque acho que a beleza do livro não se prende com surpresas ou cenas do género.
- Quando saiu o Werther, houve um aumento de suicídios... e eu reparei que quando o Enke se meteu à frente de um comboio, houve um aumento do número de pessoas, na Alemanha, que se suicida desta forma.

Ele deixou-me numa estação de serviço e entrei logo no primeiro carro que apareceu, que me levou ao sítio onde penaria um bocado. Já era de noite, e estava perto de Augsburg, onde tinha a Mimi, uma amiga alemã que conheci em Birmingham. Plantei-me à porta do McDonald’s e perguntava, em alemão, a toda a gente onde ia. Nada feito. De vez em quando aparecia pessoal que ia para Munique, que era na direcção contrária, e pensei em ir com eles e depois ver o que fazia. Mas acabour por não acontecer.
               
Quando o movimento no McDonald’s abrandou, fui para a gasolineira. Esperei um pedaço e encontrei um rapaz que estava em erasmus na Holanda e tinha vindo passar uma semana a casa. Uns amigos iam ali buscá-lo e ele ia para Kempten, que já era perto de Langenargen, a oitenta quilómetros.
               
- Pá se eles forem só dois podes vir connosco, é na boa. Caso contrário talvez não haja lugar... – disse. E eu esperei, eram só dois, e segui com eles. Ora a grande asneira é que o gajo estava tão excitado a contar todas as estórias que um gajo em erasmus em Amsterdão tem para contar, que se esqueçeu de parar na estação de serviço antes do corte que me interessava. Pediu desculpa, eu disse que era na boa, para não se preocupar. Desde que as pessoas não façam algo propositadamente e que não seja recorrente, acho que perdemos o nosso tempo com tripes.
               
Mas... lá fiquei numa estação de serviço, às não sei quantas da noite, onde os poucos carros que apareciam iam para um lado que não me interessava. Ia esperando na loja onde se paga, para me abrigar do frio, até que apareceu o méne que lá trabalhava e me disse, em alemão e que compreendi surpreendentemente bem, que precisava de trabalhar e não podia estar sempre de olho em mim. E que eu tinha de bazar para a outra parte, a da restauração. Mas foi simpático, ofereceu-me um café e tudo.
               
Lá fui, sentei-me num canto onde as luzes estavam apagadas, escrevi um bocado e comecei a pensar em dormir. A gaja que lá trabalhava tinha cara de antipática, por isso queria ter cuidado. Assim, com muita cautela para não fazer barulho, deitei-me debaixo da mesa, dentro do meu saquinho-cama, e “dormi” umas horas, até às cinco ou seis.

Acordei com o rapaz da loja, que a rapariga tinha ido chamar. Boa onda. Deixou-me dormir mas quando chegou àquela hora em que o pessoal ia começar a chegar para o pequeno-almoço, disse para acordar. É justo. E ainda me deu um café.
               
Fui fazendo tempo, vi um filme foleiro, e depois arregaçei as mangas. Percebi logo que ninguém ia para onde eu queria, por isso fui com o primeiro que disse que ia para Kempten. Não era a melhor maneira, mas que se lixe. Dei uma olhada no mapa na estação de serviço e percebi que se atravessasse Kempten a pé podia ser que desse.
               
O gajo lá me deixou nesta vila, caminhei um par de horas, e estava na saída. Tive sorte. Apanhei boleia de duas senhoras daquelas de meia idade que gostam dos prazeres da VIDA. Iam para a Áustria a uma mostra gastronomica. Uma delas tinha vivido no Egipto, organizando tours ao deserto no seu jipe. Foi uma boa boleia, longuita, e passando por paisagens da Baviera excelentes. Deixaram-me em Lindau, depois apanhei uma boleia p’rai de cinco minutos e fiquei, bem, a cinco minutos de distância. Fui a um shopping e tentei ligar ao Danny, com quem tinha estado no deserto de Gobi. O gajo não atendia... e eu ali, num sítio onde talvez nunca viesse a estar. “Que se lixe, ‘bora até lá na mesma e já se vê”, pensei.
               
Apanhei boleia de um senhor simpático que me levou de propósito (mais cinco quilómetros) a Langenargen. Fui a outra cabine, tentei, com os dedos cruzados, ligar ao Danny. Ele atendeu.

quinta, dezassete e quarenta e um, dezassete de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Furadouro

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Luxemburgo


Acordei dia dezoito, não estava muito longe do Luxemburgo. Mas apesar de não estar muito longe não sabia muito bem como lá ir ter. Dei uma vista de olhos no mapa e lá me orientei, mais ou menos. Ainda estremunhado com o sono, fui para a saída da estação de serviço, onde um senhor muito simpático me apanhou e me deixou um bocadinho mais à frente de onde realmente ia. Comecei a ver placas a dizer “Luxemburgo”, o que era bom sinal. Saí da carrinha do senhor, e entrei no carro do Pierre, um jovem de fato que se esforçava para ser simpático mas que era muito nervoso. Às tantas sai para o carro, sai lá fora, olha para o para-choques e começa a praguejar em francês, como se se tivesse apercebido que a sua namorada era na verdade sua irmã. O rapaz estava verdadeiramente agastado. Lá me deixou mesmo fora de Liége numa estrada que parecia em boa posição para ir dar ao meu destino. Mas ainda tive de esperar um bocado. A chuva ia dizendo os seus “olás” de quando em vez, e o frio começava a fazer-me querer entrar num carro o mais cedo possível. Esperei p’rai hora e meia e estava feito. Esse carro deixou-me já a apenas cinco quilómetros da capital com o mesmo nome do país. Depois foi interpelar uma senhora num semáforo, que me deixou mesmo no centro.
               
Tinha custado, mas estava ali, na cidade do Luxemburgo. Tinha comunicado com o David, um amigo do Carriço que conhecera numa noite típica valecambrense, e ele ia albergar-me em Nittel, uma cidade alemã a vinte quilómetros dali. Encontrei um restaurante turco de kebabs com internet que roubava ao vizinho, e tentei comunicar com o David. Já lhe tinha mandado algumas mensagens nos dias anteriores, mas ele ainda não me tinha respondido. Eis que descubro, poucos minutos depois, que estava em Portugal! Ficar num hostel estava fora de questão. Vinte euros... Mas ia custar-me outra noite numa estação de serviço, sem dúvida alguma.
               
Então, últmo recurso, mandar mails em barda a couchsurfers do Luxemburgo e esperar uma resposta positiva. Que apareceu! O Martin, um esloveno, disse que me podia albergar nesa noite. E entretanto o David já me tinha dito que voltaria no dia seguinte. Perfeito. Pus-me a caminho para casa do Martin, passando pelos cafés e vozes portuguesas, e cheguei ao destino. Tinha percebido que era gay pelo seu perfil. Estava casado com o Tom, um tailandês. Tinham-se conhecido na Tailândia, de início era para ser só uma queca, mas curtiram-se, foram com a cena, e quando o Maritn deu por ela estava a ir à Tailândia três vezes por ano. O amor falou mais alto e ele trouxe-o para a Europa, casaram-se na Alemanha e o Tom conseguiu, sem grandes problemas, permissão de residência. Passei uma noite descontraída com estes dois rapazes, em amena conversa à volta de uma garrafita de vinho. O Martin é mais velho, tem trinta e poucos, e trabalha nas finanças do governo luxemburguês. O Tom fica por casa e está a trabalhar no seu francês e alemão. O Martin é um gajo atento e interessante, o Tom, também um rapaz agradável, com olhos atentos desejosos de aprender cada coisa que não saiba.

No dia seguinte andei pela cidade. Fiquei agradavelmente surpreendido. Muito bonita mesmo. Tem uma arquitectura clássica, ruas organizadinhas, e um vale imenso no meio que joga na perfeição o equilíbrio entre o que é urbano e o que é natural. Uma cidade acidentada onde se pode passear quase um dia inteiro, não muito mais do que isso, com um sorriso nos lábios e um bom sentimento de ter uma ou outra vista a coroar os nossos olhos.
               
Encontrei o David ao fim da tarde. Veio buscar-me à pressa. “P’ra tu veres, ‘tou aqui há sete meses... sete multas!”, dizia, enquanto nos apressávamos em direcção ao carro. O David é de Santo André, no Alentejo. Conheci-o pouco antes de partir, e curti-o de imediato. É um gajo com uma luz especial, que tem a sua maneira de ver as cenas, uma inteligência que embeleza as coisas que faz e lhes atribui um toque especial. Sonha ser astronauta e, pelo que percebi, já esteve mais longe, ainda que continue a ser bastante difícil alcançar tal objectivo. Trabalha no aeroporto, fazendo rotas de voo, e apesar de estar bem, pareceu-me que lhe falta algo. A cena é que vive numa vila alemã onde não se passa absolutamente nada, e isso às vezes deixa ali um impacto difícil de ignorar.
               
Passámos no supermercado para comprar cenas para o jantar, comemos nas calmas, e fomos sair a Trier, a cidade alemã mais velha. Noite porreira, muita chavalada mas pessoal bacano. Conhecemos um montão de gente, e voltámos para casa já não sei a que horas.
               
No dia seguinte o David ia levar-me a um cemitério americano que tinha ali perto de sua casa. “O Luxemburgo foi o primeiro país que o Hitler invadiu”, disse-me. Se calhar o Hitler começou com um pequenino para experimentar, tipo as equipas portuguesas a começar a época a jogar com equipas da segunda divisão suíça... para dar alento às tropas e tal. Contudo, o cemitério americano estava fechado, tal como no dia anterior. Mas vimos umas placas e, para espanto do David, havia também um cemitério alemão, que fomos visitar.
               
O David tinha de ir trabalhar e estava um trânsito do caraças, e deixou-me a uns cinco quilómetros de casa, fui a pé nas calmas, e cheguei lá num par de horas depois de, naturalmente, andar para trás e para a frente porque não me lembrava onde era exactamente.

No dia seguinte segui para o sul da Alemanha. Seria mais uma noite numa estação de serviço...

quinta, catorze e cinquenta e sete, dezassete de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Portugal





sábado, 26 de novembro de 2011

A Caminho do Luxemburgo


Segunda-feira, dia dezassete de Outubro, acordei, mais uma vez tarde para a boleia. Já me tinha despedido do Sam, que tinha saído de manhã. Arranjei as cenas, e segui caminho. Meti-me no metro, sem pagar, e saí onde em Potsdam. Tinha de apanhar o 643 ou o 608 para Michendorf Abzweig Wildenbruch. Esperei, esperei, nada. Não aparecia nada naquele quadro. Perdi uma hora assim, até que resolvi ir dar uma volta pelas paragens, apenas para perceber que já tinham passado -N- autocarros que me interessavam. Mas por alguma razão não apareciam no quadro que eu estava a acompanhar. Assim, meti-me no autocarro, e saí passado p’rai três quartos de hora. Quando saí, uma senhora de alargado porte e um carrinho daqueles das compras com rodinhas chamou-me. Disse-me que se eu estava à boleia, estava a ir no sítio errado. Fui com ela, que andava à boleia entre Berlim e a terra da sua mãe à vinte anos. Caminhámos vinte minutos, entrámos por uma porta que devia ser uma saída de emergência ou algo do género da estação de serviço, e metemos mãos à obra. Ela ia para um sítio diferente do meu, por isso era na boa. E arranjou logo boleia com o primeiro carro.
               
- Toma, – disse-me, estendendo-me o seu marcador – vais precisar mais disto do que eu, porque eu já vou com este carro – porreiro. Se bem que não acredito muito em sinais. Toda a gente os usa, mas deve-se contar com os dedos das mãos as boleias que apanhei por causa de um sinal...
               
Interpelei algumas pessoas na estação de serviço, mas não me pareceu grande espingarda aquilo. Assim, fui para a saída que dava para a autoestrada. Estava lá um rapaz que ia para Munique, e um cota que ia para o norte. O rapaz safou-se em meia hora, e eu e o cota ficámos lá um bom pedaço. às tantas fui mijar, e quando voltei o cota já não lá estava. Já tinham passado mais de duas horas, e eu ainda sem sair daquele malfadado sítio, pelo que decidi voltar para a gasolineira, onde podia falar com as pessoas. E lá consegui.
               
A vantagem da boleia na Alemanha, é que um gajo até pode esperar muito, mas depois quando entra num carro vai a voar a duzentos à hora. Cago-me um bocado, para dizer a verdade. O rapaz que me levou era um porreiraço. Era cozinheiro em Bremen e tinha vindo a Berlim para encontrar uma amiga de infância com quem tinha reatado uma relação de amizade (“mas se desse algo mais, se calhar não me importava”, dizia) através da internet. Ia um bocado desiludido porque não tinha passado muito tempo com ela. Tinha ido ver uma peça de teatro onde ela participava, mas como ele, tinham ido também os pais da dama, que lhe roubaram o tempo de convivência ansiada. “Paciência, volto p’rá próxima”.
               
Andámos um bom pedaço, e cheguei a equacionar ir com ele até Bremen e depois arranjar boleia para Hamburgo, onde quem sabe poderia ficar com um amigo do meu pai. Mas ia ser um desvio, preferi seguir.
               
Quando ele me deixou não demorei muito a apanhar boleia de uns polacos. Estes deixaram-me numa estação de serviço perto de Dortmund. Mas já era tardíssimo. Eram p’rai dez e tal da noite. Se conseguisse chegar a Dortmund ia ser p’rai onze da noite ou mais tarde que isso, e não sabia se não seria chunga para o meu anfitrião. Assim, sem saber que seria de mim, decidi seguir, e acabei por apanhar uma boleia com um alemão, ciclista profissional que tinha ficado em centésimo não sei quanto na tour de france, e que me deixou fora de Liege, na Bélgica. Aí percebi logo que estava tramado. Ninguém ia para o Luxemburgo. Estudei a cena, havia ali um canto meio escondido, escrevi qualquer coisa, meti a mochila debaixo do meu sofá com a minha perna enfiada na alça, e dormir até à manhã seguinte.

quarta, dezasseis e trinta e oito, dezasseis de novembro de dois mil e onze
Furadouro, Portugal

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Berlim


Mais uma vez, acordei super-tarde. A distância não era muito longa, mas estava a descorar bastante aquela regra fundamental de “deitar tarde e cedo erguer faz a boleia acontecer”. Despedi-me do pessoal, e apanhei o tram que o hitchwiki me tinha indicado. Mas aquelas direcções não eram das melhores, e demorei um pedaço a ir terá estação de serviço que me aconselhava. Mas consegui. Não me parecia grande espingarda aquilo, porque ainda estava mais ou menos dentro da cidade. Mas lá me safei. Meti-me no carro de um senhor, que ainda ia um bom bocado, tive sorte. Ainda fomos fazer não sei quê a uma fábrica, e depois seguimos caminho. Passado quase uma hora o senhor deixou-me numa estação de serviço, andei mais um bocado com duas boleias e fiquei numa rotunda onde passavam muitos carros. Não era autoestrada, mas tinha um bom pressentimento. Apanhou-me um rapaz muito simpático, que falava inglês. Disse que ia uns bons quilómetros, mas que depois ainda me podia levar mais um pedaço, só precisava de trocar de carro. Assim, chegámos à sua fábrica, o méne foi deixar a sua carrinha, foi buscar o carro, e depois de irmos deixar um leitor de dvd a casa de um amigo, levou-me mais um pedaço. Pelo caminho ainda passámos por uma estátua gigante, cópia do Cristo-Rei e ainda maior que o do Rio de Janeiro. Depois, ainda, de passarmos pela sua vila para ma mostrar num instante, o rapaz deixou-me numa rotunda.
               
Esperei pouco mais de meia hora e parou o Tomasz, um dos gajos mais cool de toda a viagem. Um polaco de quarenta e seis anos, grande estilo, que passou quinze anos nos Estados Unidos e agora trabalhava na Polónia. Foi como se me tivesse visto no futuro. Ou pelo menos caracerísticas que gostava de manter. E ao dizer que ele é cool e é como se me tivesse visto no futuro, estou a dizer que sou cool. Mas não é bem assim – é como alguém que é muito religioso e conhece outra pessoa que é muito religiosa e a acha altamente.
               
O gajo ia direito a Berlim e fomos todo o caminho a conversar acerca de cenas como o materialismo, filosofias de VIDA, projectos, ideias, sonhos. Apesar de não me dar nada essa ideia, ele tinha sido Hare Krishna. “Iá, não podíamos ter sexo, nem fumar, bem beber... eu no sexo fazia batota...”, dizia-me.

Deixou-me em Berlim. Demos um forte abraço, trocámos contactos, e eu fui para o metro. Tinha no meu caderninho moribundo a estação de metro onde deveria ir ter. Ia ficar com o Sam, mas queria ir a uma conferência com o fundador do couchsurfing, acerca da empresa se tornar numa corporação. Cheguei lá tarde, porque ainda tive de ir a um netcafé ver as direcções, e depois caminhar p’rai uma hora. Assim, apanhei aquilo já numa fase avançada, e mais tarde abordarei isto.
               
Tinha mandado mensagem ao Sam nos entretantos, e foi por isso que, quando saí, o encontrei ali à espera. Foi fixe vê-lo, muito fixe, até porque gosto muito dele. Conheci o Sam já há um par de anos porque me albergou em Manchester. Demo-nos bem, e depois disto já nos encontrámos em Birmingham, depois outra vez em Manchester, e uma vez em Portugal. Foi através de nós que se criou uma espécie de aliança entre os couchsurfers de Birmingham e de Manchester. Chegou a uma altura em que o Sam já era amigo de pessoas que o tinham conhecido porque eram amigas de amigas de amigas minhas, e o pessoal movia-se em “massas” entre Birmingham e Manchester de acordo com a festa que houvesse.
               
Fomos comer qualquer coisa enquanto púnhamos a conversa em dia, e depois fomos ter com os restantes couchsurfers que foram da conferência para um bar. Ficámos aí uma horita e depois fomos ter com um amigo do Sam. Apareceu também o Martin, alemão que era o melhor amigo do Sam. Esteve em Manchester em erasmus e é um gajo que também curti muito desde o primeiro momento, quando o conheci na minha festa de anos em Birmingham, quando fiz vinte e seis.
               
- Pá umas das cenas que me fez vir para Berlim – dizia-me, antes, o Sam – foi ter aqui o Martin. Um gajo vai para outro país, ajuda sempre ter alguém que conhecemos, especialmente se é alguém com quem nos damos tão bem. Mas para dizer a verdade, é raro vê-lo...

- Tive aí um momento em que estive a bater um bocado mal... – dizia-me o Martin, mais tarde – Andei a viajar três meses pelos balcãs, e já estava a flipar um bocado. Sentia-me mal, parecia que não sabia onde estava... desorientado. Também pode ter sido de andar a fumar muita ganza, não sei... – fiquei a pensar nisso. Não tanto na cena da ganza, porque sei que em Manchester não fumava propriamente pouco, mas pelo facto de andar a viajar pela Europa três meses e ter batido um bocado mal. Pode ser que não seja para ele, simplesmente. Pode ser também que estive num período delicado da sua VIDA e aquela viagem viesse com mau timing. De todo o modo foi uma noite porreira e curti estar com eles de novo.
               
Era a minha terceira vez em Berlim. Toda a gente me falava maravilhas daquela capital, mas nunca me tinha fascinado especialmente. Senti que escapava algo. Contudo, talvez por estar já no final da minha viagem, não me apetecia andar aí a fazer turismo e ver cenas. Então, decidi, em vez de andar a ver Berlim, viver Berlim. Fazer exactamente o que o Sam faria de qualquer maneira. E isso resultou em eu curtir bués Berlim. Muita oferta para tudo. Se um gajo quiser teatro, música, seja o que for, de que estilo for, arranja-se. Claro que isto não é exclusivo desta capital, mas parece-me que a vertenta alternativa aqui é muito mais forte. Na tarde de sábado eles foram a uma exposição. Eram doze euros então eu fui dar uma volta. Era quinze de Outubro e estava marcado para esse dia a manifestaç.ao de solidariedade com o movimento de ocupar Wall Street. Andei por lá, um tanto ao quanto fascinado pela originalidade do que o pessoal fazia, fosse nas t-shirts, andar com aparelhagens em carrinhos de supermercado, ou pessoal com grande moca de MDMA a adorar correr para trás e para a frente de tronco nu a brincar com uma fita.
               
Encontrei-me com o Sam e a Nico quando saíram, despedimo-nos da Nico e eu e o Sam fomos dar uma volta assim meio à sorte pelas ruas. Tropeçamos num concerto de hip-hop e ficámos lá um pedaço, a beber uma cerveja. É outra cena que curto em Berlim. Pode beber-se, e toda a gente o faz, na rua. E não se vê pessoal a cair de bêbedo, nem pancada, nem nada dessas cenas que nos tentam convencer que existem. O que se vê é malta na boa, a ir de um lado para o outro, na sua, sem grandes stresses, mas com uma garrafa de cerveja na mão.
               
Depois fomos até casa do Robert, um alemão super bacano, de trinta e seis anos, que tinha conhecido na noite anterior. E tive aqui um daqueles momentos em que até tenho vergonha do que penso. O Robert é um gajo muito porreiro, com uma mentalidade uns quantos níveis acima dos demais. Aberto e sensível. Tem, também, um estilo alternativo – roupas largas e uma crista. Ora reparei, ao entrar em sua casa, que esperava que partilhasse o quarto com alguém, ou vivesse no sofá de um amigo, uma cena assim qualquer. É ridículo, mas não o imaginava com o seu próprio apartamento... pá são pensamentos que um gajo nem sabe que os tem. Não é malvado de minha parte pois, como disse, não houve uma decisão deliberado em entrar neste preconceito. Contudo, uma vez apercebendo-me disso, acho importante analisar a cena e tentar despir-me destas relações para momentos futuros.
               
De casa do Robert fomos para um barbeque. Uma noite fixe, tranquila.
               
Passámos o domingo na descontra e à noite fomos, com o Robert e outra miuda, a um bar que tem, em português, microfone aberto. Os gajos têm uma cavezinha com sistema de som e tudo o que é preciso para dar um mini concerto, o pessoal inscreve-se e toca duas músicas. Curti muito, e acho uma iniciativa espetacular. Claro que se fossem uns tamancos ali a tocar a cena não era a mesma. Mas não, eram muito bons.
               
Segunda-feira o destino era... hum, sei lá! O destino era o Luxemburgo, que estava a quase oitocentos quilómetros. Por isso mesmo, tinha sofá de reserva em Dortmund, a quinhentos. O que eu nunca pensei quando acordei nessa manhã foi que, sim, dormiria num sofá, mas de uma estação de serviço...

quarta, dezasseis e cinco, dezasseis de novembro de dois mil e doze
Furadouro, Portugal