quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Luang Prabang



No dia onze apanhei uma minivan de volta a Vientiane. Tinha ficado mais tempo do que tinha planeado em Vang Vieng, e agora só ia dar para ir a Luang Prabang. Sentia já de antemao que ia ter de voltar brevemente, pois o Laos é um país muito especial, com muito para oferecer, e sinto risquei apenas um bocadinho da superfície.
               
Quando cheguei à capital liguei ao Noy, que me veio buscar às seis e tal. Disse-me para dizer o mesmo a um espanhol chamado Firmin que estaria à espera no mesmo sítio que eu. Nao foi difícil perceber quem era o Firmin. É um miudo de dezoito anos de Almeria, calmo, porreiro, estuda biologia. Ficámos um bocado à conversa até que apareceu o Noy.
               
Quando chegámos a casa sentámo-nos à mesa a comer. Um pote ligado à corrente eléctrica e mandar peixe, especiarias e vegetais lá pra dentro. Curto. Curto a maneira de comer no Laos. E a comida era sublime. O Firmin batalhava um bocado, tanto com os pauzinhos chineses como com as especiarias. Já eu, à conta destas voltei a estar com a Manuela. É uma cena um bocado embaraçosa, mas que se lixe. A Manuela é uma hemorróida que eu conheci uma vez, algures numa queima das fitas qualquer em que tive a audácia de p;or tanto piri-piro no arroz que ficou cor-de-laranja. Nunca mais a tinha visto, mas nestes dias apareceu para dizer “olá”. Mas está tudo sob controlo, à data em que escrevo já está quase de partida.
               
Depois do jantar sentámo-nos fora de sua casa juntamente com o irmão do Noy, dois amigos e a sua irmã,  e estivemos umas horas no convivio.

No dia seguinte, a custo, acordei cedo para ir buscar o meu passaporte. O Noy levou-me até ao consulado, mas tinha de pagar em dolares. Ou seja, deixou-me no centro, tive de trocar dinheiro, alugar uma bicicleta e voltar. Andar de bicicleta com a Manuela – muito giro. Tão giro que fui de bicicleta sentado para lá, mas andei a pedalar em pé o resto do dia.
               
Já com o passaporte com o meu vistinho autorizado fui até casa. Não me estava a sentir muito bem. Tinha sono, a Manuela queixava-se da bicicleta e além disso tinha, e tenho ainda, duas feridas nos nozes dos dedos grandes dos pés que me provocavam uma dor lancinante ao caminhar. Sò hoje é que comecei a ver algum progresso.
               
Dormi um bocado, vi umas cenas na internet e bazei. Entretanto já tinha comprado o meu bilhete para Luang Prabang, uma viagem de dez horas que me ficou por cerca de treze euros. O Noy queria pagar, mas desta vez não aceitei. Antes de apanhar o autocarro, às sete, andei a ver mais um bocado da agradável, mas longe de espantosa, cidade de Vientiane.
               
Apanhei o autocarro às sete, se não me engano. Correu tudo fixe, até que às quatro da manhã paramos.
               
-Sabes porque é que parámos? – perguntou-me uma rapariga.
- Não sei... talvez uma pausa para um cigarro... – tentei adivinhar. Voltei para o autocarro e dormi descansadinho até que acordei, lá prás nove, com alguém a dizer “se calhar o melhor é irmos agora, porque só vai começar a ficar mais e mais quente”. “Hã, que se passa?, pensei, e perguntei”. E não é que tinha havido uma derrocada e estávamos ali à espera há cinco horas? E o plano do pessoal era atravessar a pé e apanhar um autocarro do outro lado. “Perfeito, mais nota que vou ter de largar, depois de todo o guito que tenho gasto”, foi o que me passou pela cabeça. E o pior é que só tinha um dólar e mais o equivalente a um euro.
               
Fui ver se dava para passar pela estrada, normalmente. Imaginei que estivesse só parcialmente bloqueada ou algo assim. Muito me enganei. Estava um desastre. Nem dava para ver onde era suposto a estrada estar. Nunca tinha visto uma cena assim. E pelo menos duas casas, ou bungalows, foram-se. Do tipo que teria provocado algumas mortes, se alguém estivesse ali à hora errada.
               
Voltei para trás, e fui atrás da outra malta, que subia um monte para dar a volta. O dinheiro laociano que tinha e que era equivalente aí foi-se logo quando tive de o usar para poder usar um pequeno escadote logo no início do percurso. Eu sei que o pessoal é pobre e tem de fazer pela VIDA, mas este tipo de oportunismo provoca uma reacçao visceral em mim. Mais do que até é suposto, nao sei porquê.
               
A custo lá subi e desci aquilo, com muito cuidado para não escorregar, ao longo de prai meia hora. Do outro lado estava outro pessoal na mesma situação que nós, e diziam que ninguém os levava de graça. Ainda assim, decidi tentar a minha sorte. Caminhei um pedaço para baixo, comecei a acenar aos carros que passavam. Parou logo o segundo, uma pick-up que me levou sem ter de pagar nada. Andei com eles prai uma hora, até que me deixaram no meio de uma localidade prai de trinta pessoas. Estava um calor abrasador, e pus-me a caminho. Estava a quinze quilómetros, tinham-me dito. “Isso s;ao três horas a pé”, pensei. Mas n;ao foi preciso. Em meia hora apareceu um chavalo que me levou de scooter. Estava em Luang Prabang à uma da tarde.

Dei umas voltas à procura de um sítio barato, e depois de perguntar a uma russa com sotaque italiano, fui para onde ela me mandou. Decidi voltar ao modo super-poupança, por isso almoçei uma baguete e seria a única refeição “decente” que teria nesse dia. Cheguei a pensar que estava tramado, porque todos os hostels onde perguntavam levavam no mínimo oito euros. Foi por isso que fiquei contente quando descobri o sítio que a russa tinha indicado, e que levava quatro euros por um quarto individual com chuveiro. Tirando o hotel na Síria onde paguei quinze euros, acho que foi o melhor quarto onde estive em toda a viagem. E tirando o quarto de hotel do meu irmão em Phuket, claro.
               
Descansei um pedaço e fui ver a cidade. É super chill-out, como de resto todo o Laos me parece ser. Não tem prédios ou edifícios com mais de dois andares. Casinhas harmoniosamente distribuídas ao redor de dezenas de templos em plena actividade. É a localidade mais budista onde estive, porque havia templos em todo o lado, e estavam cheios de monges jovens. E passear por volta das seis da tarde a ouvi-los meditar é uma sensaçao única. Gostaria de voltar, e deixar-me ficar mais algum tempo. Poder jantar sem problemas à beira-rio, alugar uma scooter e ir às cascatas. Escrever.

Era para me encontrar com a Mellany nesse dia, mas acabou por não dar. Desencontramo-nos na internet. Mas foi bom, porque tirei o serão para pesquisar sobre os vistos russos e mongolianos. Deu-me um bocado a volta à cabeça, tudo aquilo, e já estava farto de ler cena e mais cenas sobre sítios onde se pode fazer isto, outros onde se pode fazer aquilo, excepç:oes e essas cenas. Conclusão: após pesquisar em vários sítios e obter informação de diferentes fontes, parece que posso tirar o visto da Mongólia no mesmo dia, em Erlian, cidade chinesa fronteiriça – isto faz com que não tenha de passar cinco ou mais dias em Pequim à espera do mesmo. Quanto ao visto russo, segundo o que aprendi, posso tirá-lo em Ulaanbator. Compro um bilhete de comboio por um preço inferior ao esperado (em Julho houve quem comprasse, na hora, um bilhete de Ulaanbator para Moscovo por duzentos e tal euros, e não trezentos e setenta como tinha visto(( e, parece, pago menos de um euro por uma declaração a dizer que vou sair do país dentro do previsto. Com estes documentos vou ao consulado ali ao lado e está feito. Só se as cenas mudaram é que não dá, porque eu li isto em mais que um sítio, e por pessoal que o fez.
               
No dia seguinte, acordei e fui comer uma baguete a um sítio no centro que tinha internet, algo que tinha deixado de funcionar no meu hostel. Enquanto me punha a par das notícias, combinei encontrar-me com a Mellany às duas no meu hostel. A Mellany era do couchsurfing, não me podia albergar, mas podia encontrar-se para irmos dar uma volta, conversar, e para me mostrar alguns sítios.
               
Quando paguei a baguete atravessei a rua para comprar um batido.
- És a Mellany? – perguntei a uma rapariga ao meu lado.
- Sou – respondeu.

Estava a almoçar também – um crepe. Perguntou-me onde queria ir, mas eu não tinha nenhum desejo em particular.
               
- Importas-te de caminhar duas ou três horas? – perguntou.
- Nada! – e lá fomos. A Mellany é uma miuda deveras interessante. Tal como a grande parte dos outros americanos que conheci, fala pelos cotovelos. Reparei que usa muito o “eu” e isto, para mim, costuma dar alerta vermelho, porque acho que é o pessoal que acha que o mundo roda muito à volta deles que costuma assim falar. No entanto, ela não é assim. A cena é que com os seus vinte e dois anos tem uma experiência do caraças, e isso faz com que, de certa forma, quase que tenha de usar a palavra “eu” para falar do que já viveu. Não sei se isto faz algum sentido...
               
A Mellany, americana de tão tenra idade, já viveu um ano na Costa Rica, um ano no Uganda, um ano na China, e estudou algum tempo, não sei quanto, em países como o Taiwan, o México, Índia e Turquia. Estudou, claro, Estudos Globais, e agora trabalha no Laos há dois meses e meio. Dois meses e meio e já fala Laociano. Fiquei muito impressionado. Veio fazer voluntariado mas agora ganha um guitito para se aguentar, tipo cem dolares por mês mais casa, qualquer coisa assim. Trabalha numa ONG responsável por, basicamente, meter a canalhada na escola. No Uganda esteve num projecto de investigação criado por si, que visava analisar a resolução de conflitos numa vila, como aquela onde viveu, que tem quatro religi:oes diferentes. Descobriu que a paz que reina entre a malta de lá prende-se com o facto da canalhada aprender na escola sobre todas as religi:oes. Caminhámos, caminhámos, e conversámos acerca da import;ancia do respeito das culturas locais, da import;ancia de nos oferecermos outras vi:oes que não aquelas de todos os dias.
               
Caminhámos até que abancámos à porta do meu hostel e ela esteve a contar-me acerca do que se passa na Tail;andia e da indústria sexual deste país – contou-me factos, sendo que esteve lá a estudar precisamente isso. É certo que não os verifiquei, mas confio nela. Como sabemos, a Tail;andia é um dos países com maior indústria sexual. É impossível caminhar mais que meia hora em qualquer rua concorrida sem ver uma prostituta, quando o sol começa a pensar em se por. Ora como princípio não tenho nada contra a prostituição, desde que seja por livre e espont;anea vontade da mulher, ou do homem. Isto é raro. Há sempre alguém por trás que se está a aproveitar. E claro que se alguém perguntar a uma prostituta, ela não vai dizer que preferia estar em casa a bordar. Mesmo que não seja raro, mesmo que até metade, digamos, das mulheres estiverem de livre e espont;anea vontade, é um número demasiado elevado para correr o risco de se enrolar com alguma e estar a contribuir para um esquema que promove o abuso e tráfico humano. As situaç:oes são de todos os tipos. Desde raparigas que s:o suportadas pela família e coagidas, por professores e outra figuras de autoridade, nas localidades mais rurais, a mudaram-se para Bangkok para fazerem dinheiro, e depois acabam algures na Birm;ania sem papéis, e daí entregando o seu destino às mãos gananciosas de uma rede que não destingue entre a justiça e o crime, entre a polícia e o v;andalo. Está tudo, de uma forma ou doutra, metido nisto, e se alguma rapariga se aventura a fugir e pedir auxílio à polícia, o mais provável é que este a devolva ao bordel de onde ela fugiu.
               
O mundo tem muito de negro se conseguirmos ver bem. Mas é complicada a escolha das lentes. Eu quero ter lentes que vejam muito, e geralmente curto porque vejo toda a beleza que há por aí, desde pessoa a ajudarem velhos a atravessar a passadeira a adolescentes a dar um primeiro beijo; mas isso implica ver também pessoas cujo único pecado foi nascer no sítio errado, putos às três da manhã a vender rosas. Outra rede. Nunca dou dinheiro a estes putos porque não quero contribuir para o abuso que adultos perpretam por detrás dos mesmos. Disse-me a Mellany que se eles não entregam a totalidade do dinheiro que fazem, não comem durante dias. E isso faz-nos querer dar-lhes dinheiro.
               
- Mas se tu não dás dinheiro, ou não compras, podes fazê-lo por bons motivos, mas há toda uma primeira geração que vai sofrer com isso... – dizia-me.
- Sim, é verdade... isto parece horrível de se dizer, mas se toda a gente deixasse de comprar rosas e essas merdas todas, essa primeira geração de crianças se calhar ia sofrer muito, mas quem sabe seria a última – se, se, se, se...
               
Só que geralmente preferimos lidar com algo na hora e fazê-lo desaparecer por uns momentos, e até ficarmos a sentir-nos bem, do que pensar mais à frente. Será assim tão mais confortável?

Nessa noite fomos jantar a casa de uns amigos da Mellany, todos americanos. Sushi, talvez a primeira refeição decente de sushi da minha VIDA. Curti, mas soube a pouco. O serão foi tranquilo, porreirinho.

Não dormi nessa noite. Tinha de acordar às cinco e muito porque vinham buscar-me para me levar à estação às seis da manhã. E eu não tinha telemóvel para me despertar – não queria correr o risco de perder aquele autocarro caríssimo de quarenta e três euros!

Então, dia seguinte - siga p’rá China.

18h32-4-17-8-11
Kunming, China




domingo, 11 de setembro de 2011

Vang Vieng

Estava a pensar boleiar até Vang Vieng, e pedi ao Noy para me levar a um sítio porreiro, não muito longe da cidade mas fora da mesma, onde pudesse ter mais sorte em arranjar um carrinho para me levar. O Noy disse que preferia pagar-me o bilhete do que ir levar-me a fora da cidade. Tinha-o dito no dia anterior, mas eu agradeci, e disse que não era preciso. Todavia, neste dia, saímos de casa, ele deixou-me à porta de uma agência de viagens e disse para eu esperar ali, e que o bilehte estava pago. Bem, agradeci, disse até breve, sendo que tinha de voltar para ir buscar o meu passaporte com o visto chinês, e lá fiquei.
              
Entretanto apareceu a tuk-tuk já com alguma malta, levou-nos à estação e lá apanhámos o autocarro. Foi escurecendo, e já era noite quando cheguei a Vang Vieng. Pelo que tinha ouvido dizer, Vang Vieng era onde o pessoal ia cortiré, por isso esperava assim uma cena tio Phuket, cheia de barulho e turistas. Não é algo que me agrade de todo, mas queria experimentar o tubing, e por isso fui. Para minha agradável surpresa, vi que o sítio era bué chill out. Quando chegámos estava a chover, por isso esperei, nas calmas, que amainasse. Quando asism aconteceu, fui caminhando à procura de um sítio barato. Vang Vieng sao três ou quatro ruas cheias de restaurantes e bares ou com música chill-out, ou com shows de Friends, Family Guy ou Simpsons, e quase todos com aquelas mesas baixinhas e colch:oes onde o pessoal se recosta no ócio. Curti a onda.
              
Tinha visto no Lonely Planet que a pensao Maylyn era fixe e barata. Fui procurando, foi escurecendo, cheguei à ponte, tive de pagar para entrar. Ia tirando o computador de vez em quando para ver o mapa, e lá dei com a cena, já o dia se tinha despedido. Parecia fixe, mas era um  bocado isolada (a única do outro lado da ponte, que me parecesse(( e acima de tudo, carota. Voltei para trás, deixei a minha roupa a lavar (quatro quilos((, e finalmente encontrei a AK Guest House, onde pagava cerca de três euros. Não está mal. No dia seguinte encontrei outra onde pagava cerca de dois e pensei em mudar-me, mas acabou por não acontecer. Não me quis dar ao trabalho.
              
Relaxei um bocado no quarto, peguei no computador e fui comer qualquer coisa. Estive aí umas duas horitas e depois voltei para o quarto para encontrar um postal da Lena a dizer: ““Benvindo ao Laos. Estamos no hostel Champa Laos, na mesma rua. Dos teus amigos Lena e Ilias”“, curti a cena.

No dia seguinte acordei sem saber bem o que fazer. Fui primeiro ao hostel da Lena ver se a encontrava, mas não estava lá. Acabei por ir fazer caving, uma cena que curti tanto que até escrevi um texto sobre isso. Segue:

“Hoje acordei, meu quarto de hotel semi-podre em Vang Vieng, no Laos, e não sabia bem o que ia fazer. É o que acontece muitas vezes. Tanto podia ir fazer tubing, como dar uma volta por aí, como esperar que o Hugo chegasse e ver o que queria fazer...
              
Assim, almoçei nas calmas, aluguei uma bicicleta e fui dar uma volta. Queria ir ver onde era o hostel onde a Elena estava para ver se a encontrava. Fui lá mas ela não estava. Tubing? Na, fica p’ramanhã...
              
Ora tinha alugado a bicileta naquele gajo, e não no outro, porque este oferecia um mapa. Fixe. Peguei no mapa feito à mão, uma daquelas folhas fotocopiadas dezoito centenas de vezes, e vi onde queria ir. Ok, atravesso a ponte, sigo, sigo... iá, deve ser isso.
              
Debaixo dos chuviscos, comecei a pedalar. Num instante cheguei à ponte, onde tive de, mais uma vez e estupidamente a meu ver, pagar quarenta cêntimos para atravessar, passei. A caminho o mapa decidiu que já bastava de estar ao serviço de outros, e tentou o suicídio. Apanhei-o antes que o rio o fizesse, e segui caminho. Num instante já não sabia bem onde estava. Eu não sou muito bom a orientar-me (chego de Portugal ao Nepal por terra, de Singapura ao norte do Laos também por terra sem problemas, mas saio de casa, dou duas voltas ao quarteirão e já não sei bem onde estou) e o mapa também não era dos melhores. E até avisava – “not to scale”. Mas ok, continuo a pedalar entre os campos de arroz e duas chavalitas saltam para o meio da estrada a apontar para a gruta. Fixe, é p’ráli.
              
Saio da bicicleta, preparo-me para me por a caminho e digo, com gentileza, às chavalinhas que não ia precisar de guia. Quem, eu? ‘Tás é maluca! Por acaso nem foi mau de todo. O caminho, por outro lado, não foi dos melhores. Mas é daquelas cenas. Tão “nada a ver com nada” que um gajo adora. Demorei p’rai quarenta minutos p’ra fazer um quilómetro, isto porque tinha de me equilibrar como um trapezista para não deslizar na lama entre os campos de arroz e não cair num destes. Num rasgo de esperteza, deixei as havaianas na bicla, e assim sempre era mais fácil. Porque andar de chinelos num sítio onde te enterras em lama até ao joelho é má ideia.
              
Eventualmente lá consegui sair dos campos de arroz. Tive de passar por uns bambus que estavam ali para ajudar a malta, saltar uma cerca e vi um barraco onde estava um maço de tabaco e um sinal a dizer para pagarmos 10000kip, um euro. Mas o gajo não estava lá! Porreiro. Se calhar tinha ido mijar por isso, pé ante pé, passei pelo barraco e segui sempre em frente. Apenas para voltar vinte minutos depois, pois não encontrava gruta nenhuma. O gajo viu-me, veio pedir-me para pagar, e assim o fiz. Depois caminhou e disse para o seguir. Ele caminhava naqueles seixos como se fosse algodão e aqui o europeuzinho sofria um bocado para o acompanhar.
              
Chegámos à gruta. Estava à espera de uma cena aberta, enorme, mas a entrada era do tamanho de meia pessoa. Cinco inglesas estavam a sair.
              
- Que tal?
- Não sei, não chegámos a descer – respondeu uma.
- É assustador, e eu já me estava a sentir zonza – disse outra.
- Eu ainda fui um bocado, com o guia, mas depois, quando ele ‘tava a descer mais p’ra baixo um escadote partiu e voltámos para trás, ele não queria ir mais – disse a terceira.
              
Eu não sabia bem o que pensar daquilo. Por um lado isto só me atraía mais, mas por outro já estava a ficar um bocado cagado. Mas ok, siga. O gajo apareceu, deu-me uma lanterna daquelas que se põe na cabeça mas que levei na mão, e entrámos. Ok, sim, estava a ver porque é que diziam que era assustador. Imaginem sinuosos corredores onde um gajo às vezes tem de passar de lado, pequenas poças de água lamaçenta que nos chega à bacia, subidas por uns escadotes completamente podres... era pior que isso. Tanto que passados os primeiro cinco minutos o gajo disse “vamos voltar para trás”. Estive quase, mas tinha de continuar. Ele nem insistiu, bazou logo e lá fiquei, sozinho, na escuridão. Ele tinha bazado antes de descer o tal escadote cujo degrau se tinha partido. Eu segui com cuidado, aguentando-me nas paredes com os cotovelos, tentando não me armar em campeão. Isto porque o solo era mais escorregadio do que os melhores dias da Cicciolina. O próprio gajo escorregou um par de vezes. Agora imaginem escorregar gruta abaixo e estatelar-se todo num sítio de onde será quase impossível retirar-te assim sem mais nem quê.
              
Quando tentava descer o famoso escadote, foi a minha vez de partir um degrau. Um instante apenas. PAU! Não sei como aguentei-me no seguinte e não deixei cair a lanterna. Só pensava “se esta lanterna cai ou fica sem pilhas o próximo filme do Danny Boyle vai ser sobre mim”. Não é bem o mesmo, mas se a lanterna ficava sem pilhas acho que só no dia seguinte é que aparecia alguém, e nos entretantos eu ficava lá encharcado, enregelado, no breu mais breu que o mundo conhece. Mas estou agora a escrever isto, por isso não aconteceu nada, já se sabe.
              
Segui caminho. Queria voltar para trás, e às vezes desejava que depois da próxima curva acabasse. Mas o curioso, é que não o queria verdadeiramente. Uma pequena parte de mim sim, mas a outra parte de mim, ainda que a parte inteira estivesse toda cagada de medo, queria seguir, e aventurar-me o máximo possível. O meu coração batia fortemente e sentia uma adrenalina como não sentia há anos, e naquele momento senti-me plenamente vivo. Naquele momento eu era os meus sentidos. Era um animal, um inteligente animal que cometia a estupidez de ir a um sítio só porque sim. Comparava com a Europa o que me rodeava. A geografia daquela gruta, os escadotes todos podres e a rebentar e aquele solo escorregadio faria com que nunca se sonhasse em fazer aquela cena sem um guia, ou sem butõezinhos ao longo da gruta onde um gajo pudesse carregar quando em apuros. Concerteza haverá cenas destas, mas off-circuit, imagino. Se houver alguns “cavers” por aí, que me corrigam.
              
Apareceu, entretanto, o que seria a etapa final. Já tinha passado, curvado, por zonas onde a água me chegava à cinta. Mas agora era todo um caminho. Volto para trás ou não? Respirei fundo, com dificuldade, e segui. Nadei um pedaço com cuidado para não deixar cair a lanterna e consegui, era esse o fim. Voltei para trás, tentei dominar-me e continuar a ter cuidado apesar de já ter acabado. Saí cá para fora. Passado meia hora ainda estava a tremer.

Foi, sem dúvida, uma das cenas mais fixes que fiz nesta viagem.”

Quando saí da gruta, descansei um pedaço e voltei à bicla. Fui pedalando sem destino pelas terras cheias de lama. Sempre em frente pelas estradas lamaçentas. Virei à esquerda, deixei-me ir. Passei pelas velhas que vinham do campo, às vezes tinha de parar e encostar-me o máximo possível à berma para as vacas, assustadas, passarem. Estava a adorar aquilo. Estava no campo laociano, e isso era demais. Nao havia ali nada senao lama, vacas, erva, campos e laocianos. Fui seguindo e de vez em quando aparecia uma plaquinha a dizer onde a próxima gruta era. Mas apesar de ter adorado estar na gruta anterior, não sei se me queria meter de imediato noutra. Foi muito fixe, e quero voltar a fazê-lo varias vezes para o resto da minha VIDA, mas naquele momento não me apetecia assim duas se seguida. Mas ok, se aparecesse, se calhar fazia-se.
              
A dada altura tive um orgasmo cénico. Abeiro-me de uma cerca, passo e quando levanto a cabeça vejo dois campos separados por uma estrada de terra. Uma montanha lá ao fundo, vacas a pastar no campo à direita, e outras mais rebeldes no meio a fazer o mesmo. Era tudo tao belo, adorei. Foi daqueles momentos em que um gajo para e só quer congelar aquele momento, apreciar aquela felicidade extrema que se sente.
              
Continuei, entrei no campo, apareceu um senhor. Tinha de pagar cerca de um euro para entrar. Estava a começar a chover e eu tinha a máquina fotográfica comigo. Além disso tinha de devolver a bicicleta brevemente. Estava bem, tinha passado uma grande tarde, e chegava-me naquele momento. Assim, voltei para trás, a custo, pois devia ter deixado a bicicleta logo no início do corte. Ao invés trouxe-a até meio e agora tinha de a empurrar pela subida lamaçenta. Que se lixe.
              
Eu próprio estava todo sujo, cheio de lama. Quando cheguei à vila, andei a passear sem rumo meia hora. Ainda tinha esse tempo de sobra. Chovia um bocado mas já tinha deixado a máquina no quarto. Estava encharcado, mas a fruir de cada segundo. Estava bem pá.
              
Deixei a bicicleta, tomei banho, e fui jantar no restaurante do hostel. Eis que passa a Lena com um rapaz, o tal Ilias. Foi bué de estranho. Passa, olha para mim, eu sorrio, ela sorri, mas vira-se para a pessoa que ia com ela, segreda algo, e continua. Depois param num canto e eu consigo vê-los mais ou menos, e vejo claramente o gajo a espreitar. Passado um bocado seguem caminho, e passado outro bocado aparecem.
              
- Que foi aquilo? – perguntei.
- Ah... fomos nós que... estávamos confusos... – respondeu. Não mordi, e não curti. O meu filme foi que a cena entre ela e o Ilias, também russo, estava a correr bem, e ela não estava muito virada para um terceiro elemento. E, sinceramente, nem sabia, ou sei, se gosto assim muito dela. Não desgosto, mas acho que não temos nada a ver um com o outro, e naquele momento achei que seria forçado fazer um esforço para viajarmos juntos só para não estarmos sozinhos quando não há química nenhuma entre nós.
              
Ficámos ali um pedaço na conversa de chacha, mencionei o tubing, a Lena manda daqueles comentários que já tinha percebido lhe serem característicos tipo ““Já fiz coisas muito mais fixes no rio”“, face à minha descrição do que o tubing me parecia ser. Agora em português parece que ela estava a mandar um comentário sexual, mas não foi nessa onda.Contudo, o gajo estava naquela, e eu fiquei de aparecer no hostel deles no dia seguinte a ver se queria vir. Eles queriam jantar e ela perguntou-me se eu queria ir. Disse ok sem me aperceber, e quando começou a chover fiquei contente e usei isso como desculpa para não ir. Sentia que tinha sido um convite só por convite, mas disse que sim sem querer. E agora me reprimendo, pois podia simplesmente ser honesto e dizer ““pá não porque não curti muito aquele filme de há bocado e fiquei com a sensação que estás aqui só para não parecer mal”“. Ao mesmo tempo estranho, porque hoje, que estou a caminho da China, continua a mandar-me mensagens. Não sei.
              
No dia seguinte, depois de ir ao hostel deles só porque tinha dito que ia, e de não os encontrar, entreguei-me ao tubing.

O tubing foi espectacular. Lindo, muito fixe mesmo. Mas esse dia e o seguinte proporcionaram-me uma experiência incrivel, que vos irá surpreender! Mas isso partilharei mais à frente.

Fiquei em Vang Vieng mais uns dias, e no dia onze de Agosto voltei a Vientiane para ir buscar o meu passaporte.

dezanove e quarenta e quatro-segunda-quinze de agosto de dois mil e onze
algures entre Luang Prabang e Kunming, China

sábado, 10 de setembro de 2011

Vientiane

No dia dois de Agosto meti-me no autocarro para o Laos. Talvez o quinquagésimo sexto país da minha carreira de viajante. Decidi que quero visitar os países todos do mundo até aos sessenta anos. Mas é complicado. E nem falo de ser complicado o “ir” em si. Mas é complicado a gestão emocional de estar num sítio e sabermos que podíamos estar noutro. Como se fosse uma perda de tempo. Como, por exemplo, passar uma semana no Algarve, ou em Espanha, ou noutro sítio que até possa ser encantador mas onde um gajo já esteve antes, e pensar que está a desperdiciar uma oportunidade de conhecer algo de novo. Sinceramente não acho que me vá senir assim, e nem vejo esta meta como chegar a um sítio, dizer “ai ui já cá estive” e bazar logo, só para dizer que estive. Mas é uma ideia que me agrada.
               
Se conseguir fazer mais duas ou três viagens deste género nas próximas décadas, tenho tudo para conseguir alcançar este sonho. A Graciete, com quem imagino que vá assentar, já disse que não se importava de tirar um ano sabático, num futuro a médio-prazo, e lançar-se comigo, tipo numa rota Canadá-Argentina. A ver vamos.

Como de costume, vieram-nos buscar ao hostel, caminhámos um pedaço, apanhámos um minubus e fomos para a estação. Estava com um grupo de turistas que depois, no autocarro para Vientiane, ficou reduzido a mim, um casal britânico, um australiano, um escocês, e um francês p’raai de cinquenta anos com o seu filho (o puto era preto o francês branco, mas pareciam ter uma relação de pai-filho) p’rai de dez anos. Curti aquele puto p’ra caramba. Não falei com ele, mas observei-o, e era um puto super boa onda, lá com a sua mochilita. Imaginava a maior parte da criançada a fazer grandes birras de andar a viajar com o pai por dois meses, apanhar autocarros de vinte horas, e todas essas cenas terríveis inerentes a uma longa viagem.
               
Entreguei-me ao meu livro, mas ia ouvindo o pessoal a falar, e mete-me cada vez mais confusão o quão esquisitinhos nós ocidentais somos. Queixamo-nos de tudo. Ai porque está sujo, ai porque não tem bom aspecto, ai porque não usam luvas! Irrita-me verdadeiramente, mas calmamente. Dá vontade de dizer “Ouve lá ó chavala, mas tu pensavas que vinhas p’ra onde, p’ró Monaco?”. E outra cena, tão interessante quanto ridícula, para mim, é o neo-racismo. Não sei se este termo existe, mas passa a existir. O racista da velha guarda não gosta de malta de outras raças, sejam eles quem forem, assim muito basicamente. O neo-racista é alguém que se conhece pessoas de outras raças mas que nasceram no seu país, não se importa minimamente. Ou mesmo que seja um indiano que é mesmo indiano mas já vive há muito tempo na Inglaterra, digamos. Não há crise. Desde que não andem em bandos, isso não. E desde que não se vistam de uma maneira assim muito esquisita, isso não. Assim o neo-racista pode convencer-se que é “um gajo muito aberto e tal e até tem amigos pretos”. Mas depois o neo-racista vai viajar, e aí, perdoem-me a expressão, aí é o caralho. Porque aí eles estão em todo o lado. E fazem as cenas de uma maneira diferente, e não têm o mesmo humor que nós, e querem fazer mais dinheiro com turistas, e às vezes até cheiram mal, são desorganizados, não são profissionais, enfim, não têm todos estes atributos que a nossa elite tem. E depois saem os comentários que vêm com aquele cheirinho a julgamento e superioridade. Depois saem cenas tipo “eu não gosto de indianos, a sério... eu vivi lá, e sei”. Bem podem-me vir dez mil pessoas que viveram na Índia e dizerem-me isto, que eu continuo a achar besteira. Não sou pedante quando dou valor à fundamental diferença entre tal afirmação e “não gosto da maneira como o povo tende a fazer as cenas lá, tipo X, Y, Z”. Assim está bem. Se analizarmos acções que não curtimos, desde que as respeitemos ainda assim, não há crise. Mas não analizemos pessoas, ok?

Apesar destes ocidentais estarem tão preocupados com o tipo de autocarro, não era mau de todo, e a viagem também não foi. Passámos algumas horas a dormir enquanto a fronteira não abria, o que é um bocado estúpido, a menos que me esteja a escapar algo – porque é que o autocarro não parti mais tarde, de forma a não se desperdicar esse tempo?

Quando finalmente abriu, pagámos o visto (3o dolares para tugas, se bem me lembro), mais um dolar pela “taxa de carimbo” – ahahah! E seguimos caminho. Tinha um anfitrião em Vientiane, o que é porreiro. Tinha-lhe pedido para albergar a Lena também, a russa que está a no mesmo percurso que eu, mais ou menos, mas ele disse-me que é contra a tradição e cultura do Laos o pessoal albergar pessoas do sexo oposto. E é contra a lei do Laos uma pessoa ter sexo com alguém do sexo oposto. Por lei! Incrível!
               
Comi qualquer coisa e passei algum tempo num restaurante até que chegou a altura de encontrar o Noy. Apareceu na sua pick-up, gajo porreiro, senti logo. É um rapaz de 27 anos que é designer para a Beerlao, a maior marca de cerveja do país. Estudou arquitectura, mas como se safa no photoshop, foi empregue como designer gráfico – atenção pessoal, quem tem um curso de design gráfico deve arranjar um emprego aqui num piscar de olhos. Resta saber quanto pagariam. O Noy não me disse quanto ganhava, mas reparei que estava bem à vontade com dinheiro, e foi de férias à França e Alemanha por duas semanas e gastou mais de quatro mil euros! Catchim! E foi o Noy que me apresentou à cultura de beber cerveja no Laos, que é algo como eu nunca tinha imaginado.
               
Depois de tomarmos banho, comermos qualquer coisa em sua casa, fomos encontrarnos com os seus amigos. No Laos não é bem visto uma pessoa ter amigos bastante mais novos, por isso, disse-me o Noy, para todos os efeitos, eles eram irmãos. Pelo caminho apanhámos a Lena, que se juntou a nós. Fomos para o restaurante Moon qualquer coisa, com uma vista para o rio Mekong e a Tailândia, do outro lado. Curto a cena do Laos e dos jantares. Já tínhamos comido algo em sua casa, por isso eu estava um bocado renitente com ir jantar, mais por causa da carteira. Mas ele tinha isso planeado, por isso não me opus. A cena dos jantares no Laos é – o pessoal pede vários pratos, estes são espalhados na mesa, e depois vão comendo ao longo de duas ou três horas. Não há aquela cena do pessoal se dedicar a comer, o pessoal vai comendo.
               
E a cena deles com a cerveja é que bebem como um gajo que esteve perdido uma semana no deserto. E brindam a toda a hora. Sempre. Em mais de metade das vezes que levam o copo aos lábios, sai um brinde. Ninguém está preparado para aquilo. Por outro lado, o que facilita um bocado é que bebem cerveja com gelo. Tristemente, no dia seguinte fiz o mesmo, porque com aquele ritmo, um gajo tem de ter cuidado.
               
Estivemos aí umas horas e, depois de deixar a Lena no seu hostel, fomos para um bar com música ao vivo. Uma banda porreira com uma cantora excelente . Curti muito.

No dia seguinte andei a ver a cidade. Dá para ver tudo num dia. Não tem muito, mas é agradável. Tem um arco no meio de uma rotunda que parece um pequeno castelo, que gostei. Mas gostei ainda mais da descrição que tem do mesmo. Tipo “No final da Avenida LaneXang temos uma grande estrutura que se parece com o Arco do Triunfo. É o Patuxari, ou a Porta da Vitória de Vientiane, construída em 1962 mas nunca acabado devido à história turbulenta do país. Visto ao perto, parece ainda menos impressionante, como um monstro de cimento. Hoje em dia é usado como local de lazer e subindo lá cima dá para ter uma boa vista da cidade” – ahahah! Achei isto impagável. Geralmente os sinais e explicações dizem como uma cena é bela e tal... já este sinal, que está numa das paredes do arco, compara-o a um monstro de cimento!
               
Quando já estava perto do final da minha rota, eis que encontro o Vinn e a Gisela, o casal que conhecera no Paquistão! Que cena, qual é a probabilidade? Encontra-se muita gente por estes lados, mas é malta que conheces tipo no norte do país e depois vai para sul como tu, mas encontrar alguém que tinha conhecido no Paquistão foi fixe. Comi qualquer coisa com eles, e depois fui-me.
               
Nessa noite fui a um jantar da Beerlao, a empresa de cerveja do Noy. Foi fixe. Éramos p’rai quarenta, todos sentados a uma mesa comprida cheia de comida que o pessoal ia atacando e claro, sempre a dar rendimento à própria empresa, com a cerveja. Tal como tinha acontecido na primeira noite em que saí com o Noy, havia na nossa mesa uma donzela com um vestido com as cores da Beerlao que não deixava ninguém com sede. Na verdade, não posso dizer que tenha acabado um único copo, porque quando estava a meio, a rapariga lá aparecia para tratar disso. Estavam lá também alguns ocidentais, e acabámos por nos juntarmos a um canto, falando acerca das suas relações tumultuosas com miudas do Laos.
               
Entretanto o pessoal começou a bazar, e eu e o Noy fomos a uma discoteca. Não sou gajo de discotecas, mas curti. Não estivemos lá dentro mais do que um minuto até uma rapariga chamar o Noy para a sua mesa. Era namorada do seu patrão e, como todos a malta do Laos que até então conhecera, estava sempre com os brindes. Finish! Finish! O Noy é gajo de cama cedo, por isso lá p’rás duas e pico voltámos.
               
No dia seguinte segui para Vang Vieng.

23h10-6ª-11-8-11
algures entre Vientiane e Luang Prabang

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Halong Bay

No dia 31 de Julho, segunda-feira, fui para Halong Bay. O preço foi fixe comparado com o que esperava. O Martin tinha-me dito que pagara oitenta e tal dolares, o que é uma grande batelada para o meu orçamento. Mas parece que é daquelas maravilhas naturais, por isso decidi ir. Assim, fiquei agradevelmente surpreendido quando vi que os preços andavam à volta dos 35-40 dolares. Se calhar ele foi num barco diferente, ou então teve o azar/amadorismo de só perguntar o preço num sítio. Errar é humano.
               
Apesar de ter sido barato e eu não me arrepender do que paguei, deixou muito a desejar. Já lá chegamos.
               
A Christia deixou-me na agência onde tinha comprado o bilhete, e à hora combinada apareceu o méne, e fui com ele. Só tinha dormido três horas e tal, estava um bocado partido, mas seguimos.
               
Quando entrei no minibus, encontrei o terceiro par de tugas da viagem! Pareceu-me ouvir alguma coisa em português, mas não tinha a certeza. Depois confirmou-se, disse qualquer coisa, trocámos umas palavritas mas ficou por aí. Topei logo que eram de Lisboa (ou da zona) e ao início achei que a miuda tinha a mania. Acho que o facto de ela ter dito, com um grande ar de indignação, “vamos almoçar aqui neste buraco nojento?” ajudou. Até porque era um restaurante melhor do que aqueles onde costumo comer. Mais tarde essa primeira impressão diluiu-se e desapareceu à medida que passámos algum tempo juntos e fiquei contente de ter passado esse dia e noite com eles e com o casal espanhol.
               
A Francisca é uma miuda de Cascais que estuda marketing. O Diogo, seu namorado, acabou comunicação empresarial e estavam a festejar o terceiro aniversáro nesse mesmo dia. Ele é de Sintra. A Francisca é o tufão e o Diogo o mar sereno, apesar de, imagino, mar sereno ser das coisas que não curte, sendo que é surfista e às vezes professor de surf. Porque é que digo isto?...
               
Quando bazámos de Hanoi, o guia da tour, um rapaz vietnamita que peca pela falta de simpatia, pediu os passaportes a toda a gente. A Francisca, incomodada com isto, foi-lhe pedir o passaporte quando estávamos no cais à espera sabe-se lá do quê (aconteceu sempre, esta espera incessante sem saber bem o que estávamos ali a fazer). Só ouço, em inglês, a miuda já exaltada “estás a ser muito rude para comigo e eu não estou a gostar!”. Tinha razão. É que o gajo vira-se para ela e diz, com cara de poucos amigos, “tens duas opções, ou me deixas ficar com o teu passaporte, ou voltas para Hanoi!”. E acabou por ser uma constante, esta atitude do gajo.
               
Entretanto conhecemos também o Angel e a Pilar, de Toledo, e ficámos mais ou menos um grupinho, os dois casais e eu. Pobre eu, aqui na minha solidão amorosa! Consequências de se mandar... Às vezes perguntam-me porque não “levei a minha namorada” e porque é que eu não “a quis levar”. Digo, claro, que não tem nada a ver com não a querer ter trazido. Mas somos pessoas diferentes, e se isto era um sonho que acalentava, não o é assim tanto da Graciete. Noutro dia perguntei-lhe se era capaz de, daqui a uns anos, tirar um ano sabático (conquanto pudesse voltar ao seu emprego sem problema). Disse que sim, para algum espanto meu. Ponta a ponta, América do Norte, sul da América Latina? Quem sabe...
               
Contudo, além de nós os cinco, o grupo em si era porreiro.
               
Quando finalmente entrámos no barco, começou o explendor. Andámos quase uma hora entre as ilhas rochosas que preenchiam o horizonte. Eram todas enormes, e estendiam-se até onde a vista podia alcançar. Estrondoso mesmo, das maravilhas naturais mais belas que já vi. Pelo meio aparecia, de vez em quando, bares flutuantes, onde se vendia isto e aquilo. Dava até um toque rústico, tirando quando se ouvia um hip-hop qualquer, isso trazia-me de volta à terra.
               
Parámos por meia hora para visitar uma caverna enorme. Muito porreira mas estava cheia de luzes amarelas, vermelhas e verdes e isso tirava um bocado aquela cena. Além disso tinha um trilho que um gajo seguia para ver as cenas, e isso também tirava algum do feeling. Paciência. Quando voltámos ao barco instalamo-nos na parte de cima (o nome náutico não me ocorre, agora). Estava sol, estava-se bem, estávamos tranquilos. Eis que aparece lá o nosso guia e vem-nos dizer as regras. Começou logo por dizer que se quisessemos beber as nossas próprias cervejas, tínhamos de pagar dois dolares, e o nosso próprio vinho, tínhamos de pagar dez dolares. Ora isto não me fez sentido nenhum, e menos sentido ainda quando, por exemplo, a Francisca e o Diogo tinham perguntado especificamente se podiam beber o seu próprio vinho. Não fiz caso, pois seria imposível estarem sempre no controle, mas o resto do pessoal começou a exaltar-se. Especialmente o Angel, com o seu “sangue caliente”, que questionava o guia incessantemente. Tanto que o gajo aproxima-se, e começa a falar comigo, a dizer para eu traduzir. Estou em deitadinho na minha espreguiçadeira e o gajo vem-me meter ao barulho. Já tinha dado o meu bitaite, mas quando vi a sua inflexibilidade, marimbei-me p’ró assunto.
               
- Olha podes falar com ele, que ‘tá aqui a um metro! – disse. Ele não fez caso.
- Imagina que tens um restaurante no teu país – prosseguiu – e eu chego lá, com a minha própria comida – dizia, lentamente para eu perceber bem – tu não ias gostar, claro, pois não?
- Não, não ia... mas isso é porque o negócio do meu restaurante é vender comida e bebida, e se tu trouxesses a tua comida e a tua bebida, eu não ia fazer dinheiro. Já o negócio deste barco é transportar pessoas de um lado para o outro, e albergá-las. O facto de que aqui também se vende comida e bebida, é só uma adição... – e com isto o gajo ficou sem saber o que responder. O resto do pessoal fez mais algum barulho, até que o gajo diz que o Angel pode, e que a Francisca também pode, mas o resto não. Ridículo.
               
Pouco depois eles estenderam o escadote e mergulhámos, andámos na água um pedaço, uma horita ou duas, até que era altura de ir comer. Sentámo-nos todos depois de uma chuveirada, apresentámo-nos todos, e ficámos ali um pedaço. No final rimo-nos um bocado com o Karaoke, e quando parou de chover fomos para a parte de cima onde bebemos uns copos até à meia noite e tal. Mas o gajo ainda não tinha acabado com as surpresas. Estamos nós à conversa quando aparece o Angel, depois de ter ido buscar uma cerveja ou mijar, não sei e exclama:
               
- Ouçam! O gajo está a dizer que para termos ar-condicionado temos de pagar dez dolares! Vamos todos lá baixo – mas o pessoal não estava muito p’raí virado. A mim não me fazia diferença. Mas o problema é que para algumas pessoas fazia. E o problema é que a Francisca, por exemplo, tinha também, tal como na cena das bebidas, perguntado se o ar-condicionado estava incluido. E disseram-lhe que sim. Fizemos algum barulho, sem efeito. Mais tarde o Angel confessou, com alguma vergonha, que as cenas se tinham exaltado lá em baixo... o gajo apontou-lhe o dedo perto da sua face, o Angel deu-lhe uma lapada no dedo, o gajo pegou num copo com que o ameaçou, o Angel agarrou-o, o copo voou e partiu. Enfim, cenas assim. Depois o Angel queria mandar a espreguiçadeira pelo barco fora, mas não teve muito encorajamento de mim e do Diogo, e não queria que a Pilar, sua namorada muito fixe e engraçada mas também recente, descobrisse.
               
Foi uma noite cheia de eventos.

- Dormiste bem? – perguntei ao Angel, no dia seguinte.
- Sim, mas acabámos por ter frio com a ventoinha – note-se que o ar condicionado era porque supostamente estaria muito quente. Que riso.
               
Após o pequeno-almoço fomos andar de kayak, que até foi fixe, apesar de breve. Gostei muito de entrar por o que parecia ser uma gruta e desembocar numa grande baía. Ali no meio, rodeados por uma enorme montanha cheia de estórias, que concerteza já viu milhares de pessoas como eu, mas que viu também, concerteza, há muitos, muitos anos, pessoas de outros países, exploradores, curiosos. Agrada-me estar num sítio e imaginar a história por detrás. Acho o tempo um conceito tão relativo quanto curioso e difícil de perceber. Às vezes questiono se existimos realmente, e em que plano existimos. Estou a ler Uma Pequena História Sobre Quase Tudo, do Bill Bryson, e o gajo fala do universo, tempo, teoria da relatividade, bem, fala de um pouco de tudo, e é incrível perceber, ou tentar perceber, tudo o que nos rodeia e todas as condições que não são tão exactas quanto pensamos...

Depois do kayak voltámos para o cais. Despedimo-nos do casal espanhol e fomos para Hanoi. Aí, despedi-me do Diogo e da Francisca e fui para o hostel que duas israelitas me tinham aconselhado. Tivemos um pedaço de conversa deveras interessante com elas sobre a situação em Israel, mas alongo-me sobre isso noutra altura.
               
Passei essa tarde na descontra no hotel, e à noite saí um bocado para ir comer. Curto o feeling de Hanoi. Bué de gente nas ruas a beber chá, aqueles restaurantezinhos com mesas que parecem de uma casa de bonecas, enfim – é o sudeste asiático. No dia seguinte fui dar umas voltinhas
à turista pelo resto da cidade. Curti. Em alguns locais parece Paris, mesmo. Depois vi-me tramado para arranjar dolares para pagar o visto do Laos. É que só tinha 25 dolares, e era o que achava ser o visto. Mas não tinha a certeza, parecia que diferentes pessoas me estavam sempre a dar números diferentes. Caminhei, todo transpirado, p’rai uma hora até encontrar um sítio que vendesse dolares e resolvi o problema.
               
Depois entrei no autocarro para o Laos.

 21h06-6ª-12-8-11
algures entre Vientiane e Luang Prabang