segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Deserto de Gobi - Parte II



Uma boa surpresa foi que não tive ressaca nenhuma. Nem dessa vez nem das outras duas que bebemos. Não sei se é pelo frio, não faz grande sentido. E que frio. Tinha o meu próprio saco-cama, onde se está confortavelmente com quinze graus (ahahah) e o do hostel, que era mais robusto mas cujo fecho resolveu tirar férias. Acho que adormeci ainda a tremer, mesmo com os dois sacos-cama. E para quem já levava uma tosse valente, provavelmente gentil oferta do Mike, isto não foi muito bom.
Mas como disse, no dia seguinte, nada de ressaca. Nem ressaca nem bebedeira, para dizer a verdade, mas um gentil toque, mais um passe longo recebido com o peito do que um remate de primeira fora da área que bate na trave e acaba por entrar.
               
No terceito dia iamos dar uma caminhada por um vale cujo nome não recordo, mas como não chegámos a tempo, acampámos lá perto e fizemos a caminhada no dia seguinte.

estou neste momento na minha cabinezinha (toda só para mim) do trans-siberiano e as mulheres que tomam conta do comboio reuniram-se ali no quarto da que toma conta do meu vagão. ia dizer “picas”, mas não é bem o mesmo. estão ali em euforia, às gargalhadas. cá para mim a bruxa má do meu vagão conta o episódio sexual que teve com o passageiro indiano... três vezes. como é que eu sei disto? porque ele disse-me, e eu vi-os depois a darem um beijo. o gajo malhou quatro gajas em duas noites, eu posso confirmar duas. cada uma pior que a outra.

Assim, montámos as nossas cenas, e estávamos dentro dos saco-cama lá prás oito e tal. Cedo, cedíssimo, mas estava um grizo terrível e não havia grandes alternativas. O Alberto adormeceu primeiro e eu e o Nico ficámos um par de horas à conversa.
               
No dia seguinte fizemos a caminhada através do vale, que curti muito. Tivemos como companhia durante todo o percurso um cão que andava à caça de uns ratos parecidos com esquilos muito engraçados. Só apanhou um, o pobre.
               
- Hei, olha p’ráqule passarinho – alguém exclamou, apontando para um pássaro engraçado que estava aleijado numa asa e não conseguia voar. – Não... não, olh’ó cãooooo – e pronto, o cão também caçou um pássaro. E eu que o queria apanhar e fazer dele a nossa mascote...
               
Quando estávamos a sair do vale demos com uma cercazita que proibia carros de entrar. O Puntzca, com a nossa carrinha, esperava do outro lado. Sentado na beira da estrada, à nossa esquerda, estava um senhor a esculpir em madeira a tentar vender a peça. À direita, mais ao fundo, vi algo um bocado surreal. Estava um xamã, com um tambor, às voltas, como que a auto-induzir-se um estado de transe. Encostava o tambor à cabeça e, batendo-lhe com o bastão, dava um sem número de voltas até que parou, duas ou três pessoas aproximaram-se, deram-lhe algo para se sentar, e sentaram-se à sua volta. Depois escutavam com atenção ao que o gajo dizia com uma voz um tanto ao quanto demoníaca.
- Uma pessoa daquela família está doente. Então eles trouxeram um xamão do norte para canalizar os espíritos da montanha – explicava a Hu aos cínicos Pedro e companhia, que pensavam que era uma cena para turistas. Havia ainda outro xamã, a fazer a mesma cena, uns metros ao lado e com outro grupo de pessoas.
               
Dormimos essa noite numa ger. O Daniel introduziu um novo jogo, que eu já tinha jogado quando era mais novo, mas de que já não me lembrava – o “Desconfio”. Tornou-se o jogo de elite e jogámos o resto das noites. Nessa noite tínhamos comprado vodka também e talvez por isso mesmo ficámos entretidos até às três da manhã. As miudas foram as primeiras a ir dormir, depois o Alberto, e ficámos eu, o Nicolas à conversa. O Danny é uma pessoa um bocado diferente dos argentinos. Oa argentinos são um par de pessoas muito interessante, divertidos p’ra caraças e com uma cultura impressionante. Seja futebol, política ou arte, um gajo pode falar horas e horas com eles. O Danny, apesar de também ser um gajo muito informado é, em alguns aspectos, uma pessoa mais profunda e introspectiva. Curti mesmo o miudo e acho um desperdício que quando volte à Alemanha vá estudar engenharia electrotécnica. É que não tem nada a ver com ele. Sem ofensa para os engenheiros, mas um gajo estuda, entende as cenas, e faz o que tem a fazer. E apesar de não ter dúvidas que ele venha a dar um bom engenheiro, sinto que o puto teria um futuro muito mais profícuo e feliz numa área onde pudesse dar aso ao seu lado humano e até, natural, digamos. Ele tinha trabalhado no Camboja numa cena que envolvia fazer mergulho quase todos os dias, e eu reparei, na semana passado juntos, que sabia bués acerca da natureza e animais. Mas oxalá esteja errado e ele, uma vez começando a trabalhar na empresa do pai, seja um engenheiro genial que traga grandes contributos para o mundo, e que seja feliz. Quando lhe disse isto reparei que era algo que já lhe tinha atravessado a mente. Várias vezes.
               
No dia seguinte fomos andar de camelo. A ger onde tinhamos acampado era da família da Hu. Tinham sessenta camelos e várias centenas de cabras. Para minha surpresa, um camelo custa à volta de quinhentos euros. Pensei ser mais. Fomos com a mãe da Hu. Curti, mas três horas e tal foi mais que suficiente. É giro e tudo mais, mas passado um bocado é sempre o mesmo – andar p’rá frente. E se o meu corpo tivesse um livro amarelo o meu cu extreá-lo-ia nesse dia. As minhas pernas seriam daqueles que fica a pensar se se deve queixar ou deixar p’ra lá isso.
               
- Que paravalhões... vá, pessoal, a senhora está a ficar chateada, parem... – disse a Romina a dada altura, depois de eu instigar o pessoal a corrermos um bocado. Iá é certo que a senhora, de cada vez que tentávamos correr um bocado, resmungava umas cenas quaisquer em mongol, mas não estávamos exactamente a ser uns... parvalhões. Só que é essa a cena da Romina, tem pavio curto e não alinha muito em brincadeiras. A cena é que os camelos quando vão a descer, por mais subtil que seja a descida, começam a correr um bocado. Então nós aproveitávamos e faziamo-los correr um bocado, para ser mais divertido. Mas nada do outro mundo, a senhora mandava parar e parávamos. Passados dez metros.
- Pergunta à tua mãe se fomos muito chatos – pedi à Hu, no final.
- Ela diz que os rapazes portaram-se bem – fixe. Talvez tenha dito isto porque a Jenny, depois de almoçarmos, entrou em pãnico quando estava a tentar subir para o camelo e ele se levantou a meio. Gritou “help!” como  de uma forma que parecia que alguém a estava a agarrar pelos mamilos e se a largasse ela caía da Torre das Antas. E eu, na minha imensa bondade, fui tentar ajudá-la e agarrei-a pela cena onde se enfia o cinto nas calças, e ela diz para não a agarrar nas calças. Enfim. Já a Romina teve alguns problemas com o seu camelo, que pensava que aquilo era uma tour de degustação das ervas locais, e por isso parava a cada cinco metros para um snack. Resultado, a mãe da Hu teve de ir com o seu camelo e a conduzir o da Romina também.
               
Passámos essa noite, claro, a jogar cartas. E a beber uns copos. Quando demos por ela eram três da manhã.
               
No dia seguinte fomos ver os flaming cliffs, “descobertos” pelo mesmo gajo que descobriu, ali no Deserto de Gobi, que os dinossauros afinal de contas punham ovos. Foi fixe, claro. O argentinos mal pararam, e eu ia com eles, mas ouvia aquela voz dentro de mim que me dizia que se calhar nunca mais lá voltava.
               
- Pessoal, vemo-nos mais logo – disse, e deixei-me ficar para trás. Deixei-me perder-me naquela imensidão, e quedei-me com o olhar preso no infinito e o pensamento em todo o lado. Viajei. Encontrei o Danny, separámo-nos de novo.
               
Demorei p’rai uma hora e tal a voltar, quando aquilo parecia que era meia horita. Quando cheguei estive sentado com os argentinos, eles a dizerem-me o que me dariam a provar quando os fosse visitar à Argentina. Durante o jantar tentámos decidir o que faríamos no dia seguinte. Havia a opção de irmos para norte mas fazermos só meio caminho, na descontra, e tentarmos encontrar uma família que nos deixasse andar a cavalo (mediante um preço, claro). A outra opção era acordarmos cedo, conduzir o dia todo, e no dia seguinte, antes de voltarmos para Ulan Bator, irmos a um parque enorme onde poderíamos, eventualmente, ver cavalos selvagens. A Jenny estava a dizer que era o único sítio no mundo onde se podia ver cavalos selvagens.
               
- Tens a certeza? – perguntei, a pensar que podia jurar que no Gerês também há cavalos selvagens.
- Tenho cento e dez por cento de certeza – respondeu a texana. Eu não disse mais nada.
               
As miudas estavam muito a fim de irmos para os cavalos selvagens. Eu estava naquela, mas depois de ouvir a Hu a outra opção de andar a cavalo não era certa, achei que preferia ir ver os cavalos selvagens, ainda que isso, também, não fosse garantido. Lá decidimos visitar esse parque onde se vêem os únicos cavalos selvagens do mundo. Nessa noite... jogámos cartas.
               
E assim de repente estávamos no nossa última noite... Acordámos cedo, e conduzimos o dia todo. Mas passou-se bem. Parámos para almoçar na vila do Puntzca, em casa de quem almoçámos, comprámos umas bebidas p’rá noite de despedida e seguimos caminho. À noite acampámos já perto do parque. Juntámo-nos todos na nossa tenda e passámos lá o serão, até que as miudas foram dormir. O Danny passou p’rai meia hora, dentro da tenda, onde estava toda a gente, a tentar reparar um isqueiro porque queria fumar e era o único que tínhamos. No dia seguinte, a Jenny, que estava dentro daquela tenda de metro e meio por metro e meio enquanto o Danny falava em como gostava de ter um isqueiro, disse que tinha um. No dia seguinte.
               
No último dia, lá fomos ver os cavalos. Foi fixe. É aquela cena... tínhamos visto cavalos que bem que pareciam selvagens no primeiro dia. Que diferença haveria entre esses e os que veríamos no parque? Saber que eram selvagens, só isso. Mas ainda assim foi fixe. Tivemos sorte e avistámos logo um grupo. Aproximámo-nos com cuidado e estivemos p’rai a sete ou oito metros do grupo. O macho estava lesionado, pobre coitado, e não conseguia caminhar muito bem. Depois foi voltar à carrinha, almoçar, e ala para Ulan Bator...

treze e quarenta, quinta, seis de outubro de dois mil e onze
algures entre Riga e Vilnius






quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Deserto de Gobi - Parte I

Foi sorte a Jenny ter visto aquela mensagem. Era perfeito. Bazava para o deserto sábado, voltava sábado, depois bazava para a Rússia terça-feira.
               
A Jenny era uma chinesa que foi com os pais para o Texas quando tinha doze anos. Era gira, tinha vinte e sete anos, trabalhava como analista ou uma cena assim aborrecida qualquer, e foi das pessoas mais insuportáveis que já conheci. É a cena de passar oito dias, quase vinte e quatro horas por dia com o mesmo grupo de gente, uma experiência sociológica do caraças. E super interessante. O Alberto e o Nicolas, da Argentina, estavam à beira dos vinte e cinco anos, eram ambos advogados, ainda que em campos diferentes, e eram uns bacanos espetaculares. De facto, ter feito esta viagem com eles e com o Danny foi um factor decisivo para ter sido uma experiência como foi. O Danny é alemão, tinha vinte e um anos e estava na Mongólia após ter passado um ano no Camboja. Pelos vistos acabou este ano, mas até então o pessoal na Alemanha tinha de decidir entre meio ano no exército, dez meses numa cena qualquer ou um ano a fazer voluntariado (o governo paga os bilhetes de avião e dá mais algum dinheiro) em qualquer país menos desenvolvido do mundo. Há mais de oitocentos lugares em todo o mundo que o pessoal pode escolher. O Danny escolheu uma pequena ilha sem internet no Camboja. A cena que eu mais curti neste grupo foi que tanto falávamos de cenas como imigração, arte, literatura, política ou sustentabilidade, como jogávamos aos jogos de “quem é mais boa?” ou “preferes perder o braço esquerdo ou perder a vista no olho direito?” e cenas do género. Efectivamente, tínhamos conversas de merda muitas vezes. Mas acho que quando é uma opção, e quando é alternada com outras conversas com mais substância, que se lixe. O pior é quando o pessoal não sabe falar de mais nada.
               
Quem não curtia muito essas conversas era a Romina, o “último” elemento do grupo. Tinha vinte e nove anos, era suiça e já tinha estado quase em qualquer lado que um gajo nomeava. E quando lhe perguntámos se viajava com baixo orçamento, disse, muito calmamente, como se fosse um exemplo: “Não... no &(não me lembro do país(& gastei mil e quinhentos dólares num mês”. A miuda não era má de todo, mas sinceramente não se enquandrava com os gajos. E acho também que estava um bocado farta de nós, e até que nos achava um bando de pacóvios por vezes. Cenas como dizer “ainda bem que é o quarto dia” ou outros comentários diziam tudo. O mais estúpido é que dizia “vá, pessoal, depois de um certo ponto começa a ser chato” quando cinco minutos antes estava a chorar com o riso.
               
Mas às vezes parecia que fazíamos de propósito... mas sem realmente o fazer. Recordo-me de uma noite em os gajos estão numa ger e falamos acerca da diferença de qualidade de VIDA em África e na Europa e como os europeus têm uma parte enorme da culpa. As gajas chegam, e não sei como a primeira coisa que nos sai vem do Alberto e tem algo a ver com os seus tomates peludos.
               
- Hei Romina, eu vi isso – apontei, meio na brincadeira. – A Romina acabou de lançar um olhar à Jenny que diz algo tipo “´tas a ver de que é que eu ´tava a falar?”!
- Era suposto veres – respondeu.
               
Quanto à Jenny... Já ouvi que, por exemplo, na tropa, fazer de alguém um alvo de chacota e bode espiatório fortalece o grupo, e até é algo encorajado (talvez subliminarmente) pelos superiores. Bem, não foi o mesmo, nós não fizemos dela nem um bode espiatório nem um alvo de chacota. Bem, chacota mais ou menos. Mas com as barbaridades que saíam da sua boca era impossível ficar indiferente. Eu ainda tentei, e consegui, p’rai dois dias, o que naquelas condições é muito tempo, mas depois não deu mais, era impossível não comentar com os outros. O Alberto abriu a tampa. Na terceira noite, estávamos a enfiar-nos nos nossos sacos-cama dentro da tenda...
               
- A Jenny... é um bocado estranha, não é? – perguntou, em espanhol. Parece que carregou num botão, porque mal disse isto, estivemos a falar quem nem três beatas durante meia hora.
- Pá eu não curto isto... de falarmos sempre nas costas dela... Nem é tanto por princípio, porque não somos amigos nem nada... mas se toda a gente apenas falar nas suas costas, ela vai ser sempre igual... por isso gostava de lhe dizer, frente a frente... – comentava com o Nicolas e o Danny, na nossa ger, numa noite em que bebíamos vodka e o resto do pessoal já tinha ido dormir. Não é que eu seja uma autoridade acerca de como se deve ser... mas as cenas com ela eram demasiado evidentes... Mas após alguma discussão sobre o assunto, não parecia fazer grande sentido eu abordá-la assim sem mais nem menos, e isso acabou por não acontecer. O seu grande problema era que era daquelas pessoas que tem sempre de dizer algo, mesmo quando não faz a mínima ideia do que está a falar. Do tipo de pessoa que quando fala e manda uma posta de pescada o resto do pessoal olha para o lado desconfortavelmente. Tipo estarmos a falar de línguas e ela dizer que o português é um dialecto do espanhol. E, pobre rapariga, tinha o hábito incrível de comer de boca aberta! Isto eu disse-lhe, uma vez, ao ouvido para não a envergonhar, enquanto almoçávamos. Aguentou dois minutos. Chegou a uma altura em que o pessoal ou falava de uma merda qualquer para não a ouvir ou bazava, simplesmente.

Encontrámo-nos de manhã no Golden Gobi, o hostel que estava a organizar a tour. Tomámos o pequeno-almoço, conhecemos a nossa guia, a Hu e o nosso condutor, o Puntzca (pelo menos soava assim) que apesar de não falar inglês era um grande porreiraço. A Hu também era fixe. Mas para ser sincero era mais a nossa cozinheira do que guia. Se pensarmos bem, não há assim um monte de informação que um guia pode dar, oito dias seguidos, acerca do deserto. Mas como cozinheira foi uma grande surpresa, a comida foi, todos os dias, divinal. Chegámos a comer carne de camelo, que curti.
               
Passámos a grande parte do primeiro dia na carrinha. Tínhamos muito terreno para cobrir. Mas não importava muito. Claro que não era exactamente a A3, tinha os seus buracos, mas o cenário era esplendoroso e isso fazia com que a viagem não custasse. Sempre que parávamos para almoçar tínhamos cerca de meia hora para ir dar uma volta. Para jantar também, mas quando parávamos para jantar parávamos, ou na ger onde dormiriamos, ou no sítio onde acamparíamos. Assim, no primeiro dia parámos perto de um lago e de uma pequena montanha. Perto do lago relaxavam duas ou três dezenas de cavalos. A Hu disse que não eram selvagens. Mas não sei qual é a diferença, porque não tinham nunhuma marca, não tinham os pés atados nem sela. Andavam na sua, e os donos não se preocupavam porque eles iam sempre beber água e tomar banho ao mesmo sítio. E foi demais estar a meio da pequena montanha, ouvir um splash, olhar e ver os cavalos, todos juntos, a beber água e devez em quando mandar-se. Deixavam-se cair de lado, convencidos que que aquela água lamaçenta os lavava. O lago era limpo e tudo, mas os gajos eram preguiçosos e não se aventuravam a lavar-se onde a água não levantasse terra.
               
Antes de pararmos na nossa ger, parámos num sítio que costumava ser um retiro de monges budistas. Trepando íamos dar ao cume de um pequeno monte cheio de pequenos montes de pedras.
               
- Dantes, quando havia uma guerra, os guerreiros reuniam-se num determinado sítio e deixavam uma pedra que tinham trazido de casa. Criava-se assim uma pequena pirâmide. Quando voltavam, retiravam a sua pedra. Mas como muitos morriam, os montes ficavam – explicava a Hu, dizendo que hoje em dia, naturalmente, já não é pelas mesmas razões que podemos ver aqueles montes.
               
Parámos pouco tempo depois num acampamento de nómadas. Tinham ali três gers, uma delas era a sua casa, as outras duas para pessoal como nós. Mudavam de sítio duas vezes por ano.
               
Depois de passarmos algum tempo com eles na ger, e de bebermos iogurte de leite de camelo, fomos para a nossa, onde jantámos. Depois de jantar passámos a noite a jogar Uno. Não adoro o jogo, mas foi divertido, tenho de dizer, por causa do grupo que me rodeava.
               
No segundo dia, depois de tomarmos o pequeno-almoço, metemo-nos na carrinha, de onde saímos só para almoçar. Almoçámos e fomos visitar os White Cliffs. Uma cenário porreiro, no meio daquela imensidão de nada. Parámos na vila e comprámos três garrafas de vodka, que desapareceram na mesma noite. A ideia era a Romina e a Jenny beberem connosco, mas a Romina quando foi à tenda depois de jantar, já não voltou, e a Jenny voltou durante um minuto só para como que justificar não ficar connosco.
               
- Bem, se não vamos fazer nada, então vou para a tenda, porque está frio – disse, ainda de pé, quatro segundos depois de ter voltado.
- Nós estámos a fazer algo, estamos a conversar... não há muito mais que se possa fazer – respondi, sem efeito. Se pensarmos bem, estávamos no deserto, ia ser difícil conseguir entrar numa discoteca. Estávamos no deserto com não sei quantas camadas de roupa, sentados numa mesa provavelmente roubada ao enxoval de um dos sete anões, e debaixo de um dos melhores céus que já vi. Talvez apenas nas montanhas no Paquistão consegui ver tantas estrelas. Nunca tinha visto a via láctea com tanta claridade. Daqueles momentos que fica para sempre.
- Pessoal... – disse, enquanto nos dirigíamos, já ébrios, para um acampamento que avistáramos ao fundo – Vamos parar por um segundo e tomar consciência da sorte que tivemos em ter um grupo tão bacana – foi o nosso “bro moment”. Demos um abraço quádruplo e seguimos para o acampamento. Estávamos à procura de mais companhia, mas estava tudo a dormir. Fui então às tenas perguntar, pelo lado de fora, se tinham preservativos. Partimo-nos a rir a imaginá-los, no dia seguinte, a pensar “quem é que será que queria os preservativos? será que foi aquela e aquele? ou aquele e aquele?”.







segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ulan Bator



Na minha cabine ia, em cima, uma senhora mongol que falava inglês. Já tinha os seus quarenta e muitos, mas era bonita. Ia perceber mais tarde que esta senhora era um exemplo do restante. É que, para minha grande surpresa, Ulan Bator é uma cidade onde não é nada raro uma pessoa deparar-se com figuras e estilos femininos esplêndidos. Fora de Ulan Bator (no deserto) não reparei tanto porque o pessoal não se aprontava da mesma maneira, mas também vi muito pouca gente para poder estabelecer um juízo. Outra cena que reparei em relação às mulheres mongois é o facto de não quererem dizer a sua idade. Levam a sério aquela de não se perguntar a idade a uma senhora. Não é que eu tenha chegado sem mais nem menos e perguntado a idade a uma mulher qualquer, mas perguntaram-me algumas vezes, e quando perguntei de volta, silêncio e um sorriso. Interessante.

Quando saí do comboio em Ulan Bator, dei uma olhada ao mapa que tinha copiado no computador e pus-me a caminho o mais rapidamente possível para a embaixada. Mas já era tardíssimo, onze e tal. Não ia chegar a tempo, por isso decidi ir à agência de viagens buscar o meu bilhete de comboio. Fui perguntado ao pessoal e dei com o sítio sem problema. Fala-se muito mais inglês na Mongólia do que na China. Quando cheguei a senhora deu-me o bilhete e eu pedi-lhe para ligar para a embaixada russa a perguntar quanto tempo demorava o visto e quando estavam abertos. Parecia que lhe estava a pedir para dar o filho para adopção. Mas lá ligou. Ela disse que achava que demorava dez dias úteis ou duas semanas, e que abriam às duas da tarde.

Saí, fui à embaixada. Já não podia pedir o visto nesse dia, porque ainda não tinha mudado o bilhete de comboio, e preciso de mostrar os bilhetes todos para pedir um visto de trânsito. Dei duas voltas ao quarteirão enorme onde está a embaixada russa porque não percebia onde era a porta. Não faz sentido que as embaixadas tenham os sinais na língua local, na língua da embaixada e em inglês? É que é daqueles estabelecimentos onde, seguramente, pessoas que não falam nem russo nem mongol iram diariamente...

Quando finalmente dei com o sítio, esperei uns minutos com outro pessoal à porta, e depois entrei. Quando chegou a minha vez, perguntei ao senhor que não conseguia ver por detrás do vidro escuro quanto tempo é que o visto demorava a ser emitido, e ele disse que deviam ser quatro dias, mas não tinha a certeza. O melhor era eu esperar e perguntar ao diplomata. Quatro dias? Isso era demais. Esperei um bocado, meio impaciente, e foi em êxtase que recebi a notícia de que sim, demorava quatro dias úteis, pagando cinquenta dólares, ou até podia ser de um dia para o outro, pagando cem. Demais!

Fui comer qualquer cena de seguida. Benvindo à Mongólia. Se na China tinha uma refeição boa e granducha por menos de um euro, na Mongólia tinha de pagar mais que isso por algum pão e... bem, pensei que tinha comprado atum mas era uma cena qualquer envolta em banha. Horrível, mas a fome apertava, por isso teve de ser.

Ia encontrar-me com o Mike lá p’rás sete da tarde. Segui as suas direcções, dei com o sítio onde devia esperar, e estava sentado tranquilamente na minha mochila, no passeio, quando, à minha frente se abre a porta de um camião que estava parado no trânsito. Vejo lá dentro uma mulher, do meu lado e que tinha aberto a porta, a chorar e a tentar sair, uma outra mulher no meio, e o condutor de cigarro na boca, mão esquerda no volante e a outra a agarrar a primeira mulher que queria sair. Aquilo foi tão estranho que no primeiro segundo pensei que estavam na brincadeira. Mas não, a mulher estava realmente a chorar e o gajo a agarrá-la, a puxá-la pela camisola e a outra mulher a tentar fechar a porta. Que se fechou, eventualmente. Eles iam avançando metro a metro, lentamente no trânsito, e eu estava sem saber o que fazer. Mas queria ajudar a mulher. Pensei em abrir a porta e puxá-la, mas depois o gajo ia sair do camião e ia correr tudo mal. Podia fazer isso e fugir, mas não ia conseguir ir muito longe com as minhas duas mochilas. Senti-me estúpido e ridículo por não cagar nas mochilas – salvar a mulher e fugir. Assim, pus as mochilas às costas e corri para o cruzamento, na esperança de ver um polícia. Avistei um que vinha de cima, corri para ele, apontei para o camião e dei o meu melhor para me fazer entender. O gajo olhou para mim como se eu lhe estivesse a pedir um cigarro e ele só tivesse mais um. O camião passou mesmo à nossa frente, eu apontei para ele, o condutor do mesmo viu que eu o fazia, passou, o polícia disse “ok” e passado uns segundos bazou como se quando eu estava a apontar para o camião estivesse a dizer “quem me dera ter um daqueles”.

Frustrado e com alguma adrenalina a correr no meu corpo, voltei ao sítio. Quando o Mike chegou e eu lhe contei a cena, ele adivinhou que o polícia não faria nada, e disse que na Mongólia violência doméstica é o pão nosso de cada dia. Quanto a violência doméstica não posso dizer mais, porque não vi mais nada. Quanto a violência, infelizmente confirmei o duas ou três pessoas me tinham dito. Em cerca de oito dias na cidade presenciei um episódio de violência quatro ou cinco vezes, e em duas vezes poderia muito bem ter-me tocado a mim. Ulan Bator fica na minha memória como uma espécie de Sin City. Deve ser das cidades com mais bares e discotecas onde já estive, vê-se malta a cair de bêbeda de manhã à noite e a qualquer dia da semana, e há aquela sensação no ar de que tudo é possível.

- O que eu curto aqui é que um gajo pode fazer o que lhe apetece... – dizia-me o Mike – É tipo o faroeste, tudo é possível. Contractos, leis, regras, cenas socialmente correctas... tudo tem a sua própria versão em Ulan Bator – e é verdade. Vale tudo. Até curti a cidade. Apesar de ter pouco para ver, tem esse ar. Claro que tem cenas que pertencem a esse ar que são desprezíveis, como haver um risco elevado de um gajo levar nas trombas sem ter feito nada. Uma vez estava na descontra em casa, fui comprar uma cabeça de alho e um pacote de massa e passei por uns gajos à porrada. Um deles fugiu, outros dois foram atrás. Não o apanharam e quando voltavam, um deles dirigiu-se a mim e empurrou-me, gritando qualquer cena. Eu segui caminho. Noutra noite, em que saí com o Mike, a sua namorada e uma amiga dela, o Mike, porque tripou com a Solongo, sua namorada, bazou, e a Solongo bazou também. Quando saía do bar com a amiga da Solongo um gajo começou a caminhar para nós a gritar qualquer cena... o que aparentemente é a principal causa de lutas entre locais e estrangeiros – o pessoal ver os segundos com uma gaja mongol. Seguimos caminho.

- Quando trabalhava como segurança no Strings havia p’rai três lutas por noite. Havia sempre lutas entre estrangeiros e locais e a maior parte das vezes era porque um estrangeiro estava a dançar com uma mongol – disse o Mike.

Na minha última noite estava com o Mike e um canadiano à procura de um restaurante e aparece um gajo com cara de bêbedo vindo não sei de onde e dá um encontrão no Mike. Seguimos caminho. Seguimos caminho mas o que aquele filho da puta merecia era que lhe fodêssemos a tromba à grande. Pá quem sabe aprendesse uma lição. Se eu faço sempre a mesma cena, e na maior parte das vezes corre mal, vou deixar de a fazer... hum... certo?

- Se nós lutassemos com ele, num minuto tinham parado três carros e estavam a apoiar o gajo mongol independentemente da razão... aliás, sem saberem a razão... – disse o Mike.

O Mike é um americano de vinte e quatro anos que cresceu numa família mormon. Teve uma infância muito religiosa, começou a fumar seis meses antes de nos conhecermos e nunca tinha bebido até aos vinte e um. Vem de uma família pobre que cria cavalos, tem um curso de paramédico (mas não é médico), já caminhou, com o pai e os irmãos desde o Canadá ao México, já viveu no Iraque e agora vive na Mongólia. Foi lá parar porque fez parte de uma expedição de mota desde o Reino Unido até à Sibéria. Um grupo de pessoal rico decide seguir os passos de outro gajo que fez isto pela primeira vez, contracta uma empresa que arranja as cenas todas e lá vão. Nestas “cenas todas” está incluído um paramédico, o nosso caro Mike, neste caso. Estava na Mongólia há um mês e tinha arranjado uma namorada local nos primeiros dias.

- Hei, olá, onde estiveste o dia todo, não me mandaste mensagem nenhuma – perguntou ele à namorada naquela primeira noite, quando ela entrou em casa. Antes dela chegar tínhamos bebido dois shots de vodka e estávamos à conversa. Esta sua frase para a sua miuda foi o início de uma noite com os seus momentos desconfortáveis aqui para o tuga. A gaja estava a agir de uma forma super estranha que pelos vistos não era normal, porque o gajo estava a estranhar. Não falava e ele em vez de deixar p’rá lá isso continuava a insistir. E pelos vistos ela tinha dito que no dia seguinte ele ia conhecer alguém e o gajo estava a stressar com aquilo, a pensar que era a chama antiga (como se referem aos ex-namorados na Mongólia), alguém com quem a rapariga ainda falava ao telemóvel três vezes por dia.
- Pá ele chega a ligar-lhe a meio da noite, ela está na cama comigo e levanta-se para ir atender... – dizia o Mike. E eu a esperar, mais ou menos, que ele não me perguntasse o que é que eu achava disso, porque não me queria meter. Fomos jantar nessa noite, a Solongo bazou e fomos depois para uma discoteca. O Mike estava seguro que ela queria acabar com ele. Também me tinha dado essa impressão, mas não aconteceu nada do género. Fomos para o Strings, um bar onde ele trabalhara durante alguns dias como segurança, até arranjar um tacho melhor noutro sítio, como director de segurança de um centro que abriria em Outubro, ao mesmo tempo que ensinava inglês. Pelos visots o pessoal so Strings não tinha curtido que ele tivesse bazado.
- O pessoal do Sanctis não me quer a trabalhar aqui, eles têm o meu visto de trabalho... – ia dizendo a qualquer pessoa que aparecia. Tanto que levou à minha iminente questão...
- Isso é couro ou é mesmo como dizes?
- É couro – respondeu.

A noite foi porreira, e mais ou menos surpreendente. É que quando lá chegámos (note-se que era uma terça-feira qualquer) não se passava nada, mas passado duas horas aquilo estava cheio. A pista de dança estava cheia de gajas a dançar, juntamente com um ou dois casais russos que parecia que tinha acabado de chegar dos anos oitenta – tanto na roupa, como na dança. Tocava uma banda filipina no palco que pelos vistos trabalha sete dias por semana, e que tinha dos melhores guitarristas que já vi. O gajo fazia amor descaradamente com aquela guitarra e era, claramente, muito melhor do que o resto da banda. Mas o que alimenta o bucho é benvindo...

Fomos para casa quando a disco fechou. O Mike fartou-se de dançar, eu... bem, eu fique a aguentar o balcão, à conversa com uma russa que trabalhava na força aérea americana em Anchorage, no Alaska.

No dia seguinte fui trocar o meu bilhete de comboio de manhã e pedir o meu visto à tarde. Tive de pagar mais quinze por centro para trocar o bilhete, mas que interessa... Troquei-o para dia vinte e sete, e troquei online o meu bilhete de autocarro de Moscovo para Riga, onde chegaria dia três de Outubro – um dia antes do dia quatro. Passei o resto do dia imerso em Ulan Bator. Mas acabei por ir só ao museu de história porque quando saí estava tanto frio que tive de me refugiar no Budweiser Café ao lado do parlamento. Curti o museu, e aprendi muito sobre o Chinggis Khan (é assim que se escreve na Mongólia, mesmo usando o nosso alfabeto em vez do cirílico). Como todos os imperialistas, o gajo desbravava terreno e VIDAS com um pretexto que até parecia giro, tipo unir o mundo e não sei quê. Tinha grande personalidade, grandes atributos e isso fez com que ele tenha sido uma peça fundamental no maior império de sempre, que chegou até à Ucrânia. Um personagem interessante que acaba por ser talvez a única coisa pela qual a Mongólia é conhecida. Por isso e pelo deserto de Gobi, o quinto maior do mundo, contando com os polares. Mas sinceramente, eu, que não sou estúpido de todo, só ouvi falar do Gobi há pouco tempo.

No dia seguinte a Solongo já estava melhor, pareceu-me. Sorria mais e... falava. Vi-a quando estava na net no computador do Mike e ela entrou no apartamento. Tive oportunidade de confirmar algo que o Mike me tinha dito.

- Pá, a minha namorada chega a minha casa, diz para eu me sentar no sofá, e começa a limpar tudo... eu quero ajudar mas ela não deixa, diz que é assim que se faz na Mongólia. Achas que isso é mau?
- Acho que não, desde que não comeces a contar com isso... e que se um dia ela se cansar tu não te sintas agastado e queiras que ela continue a fazer tudo – confirmei isto porque ela chegou ao fim da tarde, só estava eu em casa, e começou a arrumar, limpar e lavar tudo. Até cozinhou para mim. Obrigado. Nessa noite apareceu uma amiga dela, a tal pessoa que era suposto o Mike conhecer. Era aquela a “surpresa”.

No dia seguinte dei mais umas voltas por Ulan Bator. À noite fomos a uma disco com a Solongo e a amiga ela da noite anterior. Parecia-me um bocado que a Solongo ditava aquilo que queria fazer e o Mike anuia. Mesmo quando ela não ditava nada.

- Se eu te disser uma coisa não ficas chateada comigo? – perguntou-lhe ele, na mesma tarde – Tenho de me encontrar com o meu chefe por uma horita. Mas é só uma horita. Ok? – ela disse algo que me pareceu ok, apesar de eu não falar aquela língua relacional através da qual as namoradas dizem o que querem dizendo que não o querem. Iá mas deve ter sido nessa língua porque o Mike disse logo que não ia. E depois de um tango verbal o gajo lá acabou por ir. Encontrámo-nos na disco. E que disco! Esse ponte de exclamação aí atrás não é pela qualidade da mesma mas pela peculiariedade. A diferença do Strings era que tinha strippers que pareciam das que estavam a fazer um reality-show entitulado “Eu Não Sou Boa Nem Bonita Mas Ainda Assim O Pessoal Paga P’ra Me Ver” e depois, com todo o meu espanto, um show tipo de circo, com um gajo a engolir fogo e a caminhar em vidro. Só visto mesmo, só visto.

Pois a dada altura a Solongo atendeu o telefone.

- É a chama antiga? – perguntou o Mike à amiga da Solongo, que encolheu os ombros. Com isto, o Mike bazou, e depois disto, bazou a Solongo também. A outra rapariga mal falava inglês, e eu não curto muito discotecas de qualquer maneira, por isso quis bazar mal houve oportunidade. Foi nisto que um parente que estava lá fora começou a gritar quando me viu a sair com a amiga da Solongo. Seguimos caminho.

 Quando voltei ao apartamento o Mike estava a dormir. Estava cheio de tosse e passado um bocado veio para a sala. Falámos um bocado. O gajo estava zangado. Eu aconselhei-o a discutir as cenas com ela, mas eles tinham um grande problema que é o de ela não ser exactamente fluente em inglês. A miuda safa-se bem, mas ele tem de falar com ela tipo “I not like this and that. Last night I go this and that” para ela perceber melhor, o que até às tantas acaba por desajudar, sendo que ela vai aprender inglês com erros. Ele disse que ela tinha uma amiga que falava bem inglês e era uma ajuda. Já tinham recorrido aos seus “serviços”.

Passei o dia seguinte a dar umas voltas por Ulan Bator e uma boa parte da tarde na internet. Estava farto da capital, tinha duas semanas no país e não queria ver só uma cidade. Mas parecia que para ir fosse onde fosse um gajo ou ia num tour com outro pessoal ou tinha de pagar bem. Tinha ouvido falar de tours ao deserto onde, se fossem seis pessoas podia pagar-se à volta de trinta e seis dólares por dia, o que era muito fora do meu orçamento, mas não era mau de todo. Mas e encontrar esse pessoal?
Foi aí que tive uma brilhante, mas simples ideia. Fui ao couchsurfing, cliquei em “viajantes perto de ti” e mandei uma mensagem p’rai a cinquenta pessoas a dizer que queria ir ao deserto e estava à procura de malta. Passado duas ou três horas, recebi uma mensagem da Jenny, que ia com mais cinco pessoas na manhã seguinte, por oito dias. Havia lugar para mais um. Perfeito!

quinze horas-quinta-vinte e nove de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo