sábado, 10 de setembro de 2011

Vientiane

No dia dois de Agosto meti-me no autocarro para o Laos. Talvez o quinquagésimo sexto país da minha carreira de viajante. Decidi que quero visitar os países todos do mundo até aos sessenta anos. Mas é complicado. E nem falo de ser complicado o “ir” em si. Mas é complicado a gestão emocional de estar num sítio e sabermos que podíamos estar noutro. Como se fosse uma perda de tempo. Como, por exemplo, passar uma semana no Algarve, ou em Espanha, ou noutro sítio que até possa ser encantador mas onde um gajo já esteve antes, e pensar que está a desperdiciar uma oportunidade de conhecer algo de novo. Sinceramente não acho que me vá senir assim, e nem vejo esta meta como chegar a um sítio, dizer “ai ui já cá estive” e bazar logo, só para dizer que estive. Mas é uma ideia que me agrada.
               
Se conseguir fazer mais duas ou três viagens deste género nas próximas décadas, tenho tudo para conseguir alcançar este sonho. A Graciete, com quem imagino que vá assentar, já disse que não se importava de tirar um ano sabático, num futuro a médio-prazo, e lançar-se comigo, tipo numa rota Canadá-Argentina. A ver vamos.

Como de costume, vieram-nos buscar ao hostel, caminhámos um pedaço, apanhámos um minubus e fomos para a estação. Estava com um grupo de turistas que depois, no autocarro para Vientiane, ficou reduzido a mim, um casal britânico, um australiano, um escocês, e um francês p’raai de cinquenta anos com o seu filho (o puto era preto o francês branco, mas pareciam ter uma relação de pai-filho) p’rai de dez anos. Curti aquele puto p’ra caramba. Não falei com ele, mas observei-o, e era um puto super boa onda, lá com a sua mochilita. Imaginava a maior parte da criançada a fazer grandes birras de andar a viajar com o pai por dois meses, apanhar autocarros de vinte horas, e todas essas cenas terríveis inerentes a uma longa viagem.
               
Entreguei-me ao meu livro, mas ia ouvindo o pessoal a falar, e mete-me cada vez mais confusão o quão esquisitinhos nós ocidentais somos. Queixamo-nos de tudo. Ai porque está sujo, ai porque não tem bom aspecto, ai porque não usam luvas! Irrita-me verdadeiramente, mas calmamente. Dá vontade de dizer “Ouve lá ó chavala, mas tu pensavas que vinhas p’ra onde, p’ró Monaco?”. E outra cena, tão interessante quanto ridícula, para mim, é o neo-racismo. Não sei se este termo existe, mas passa a existir. O racista da velha guarda não gosta de malta de outras raças, sejam eles quem forem, assim muito basicamente. O neo-racista é alguém que se conhece pessoas de outras raças mas que nasceram no seu país, não se importa minimamente. Ou mesmo que seja um indiano que é mesmo indiano mas já vive há muito tempo na Inglaterra, digamos. Não há crise. Desde que não andem em bandos, isso não. E desde que não se vistam de uma maneira assim muito esquisita, isso não. Assim o neo-racista pode convencer-se que é “um gajo muito aberto e tal e até tem amigos pretos”. Mas depois o neo-racista vai viajar, e aí, perdoem-me a expressão, aí é o caralho. Porque aí eles estão em todo o lado. E fazem as cenas de uma maneira diferente, e não têm o mesmo humor que nós, e querem fazer mais dinheiro com turistas, e às vezes até cheiram mal, são desorganizados, não são profissionais, enfim, não têm todos estes atributos que a nossa elite tem. E depois saem os comentários que vêm com aquele cheirinho a julgamento e superioridade. Depois saem cenas tipo “eu não gosto de indianos, a sério... eu vivi lá, e sei”. Bem podem-me vir dez mil pessoas que viveram na Índia e dizerem-me isto, que eu continuo a achar besteira. Não sou pedante quando dou valor à fundamental diferença entre tal afirmação e “não gosto da maneira como o povo tende a fazer as cenas lá, tipo X, Y, Z”. Assim está bem. Se analizarmos acções que não curtimos, desde que as respeitemos ainda assim, não há crise. Mas não analizemos pessoas, ok?

Apesar destes ocidentais estarem tão preocupados com o tipo de autocarro, não era mau de todo, e a viagem também não foi. Passámos algumas horas a dormir enquanto a fronteira não abria, o que é um bocado estúpido, a menos que me esteja a escapar algo – porque é que o autocarro não parti mais tarde, de forma a não se desperdicar esse tempo?

Quando finalmente abriu, pagámos o visto (3o dolares para tugas, se bem me lembro), mais um dolar pela “taxa de carimbo” – ahahah! E seguimos caminho. Tinha um anfitrião em Vientiane, o que é porreiro. Tinha-lhe pedido para albergar a Lena também, a russa que está a no mesmo percurso que eu, mais ou menos, mas ele disse-me que é contra a tradição e cultura do Laos o pessoal albergar pessoas do sexo oposto. E é contra a lei do Laos uma pessoa ter sexo com alguém do sexo oposto. Por lei! Incrível!
               
Comi qualquer coisa e passei algum tempo num restaurante até que chegou a altura de encontrar o Noy. Apareceu na sua pick-up, gajo porreiro, senti logo. É um rapaz de 27 anos que é designer para a Beerlao, a maior marca de cerveja do país. Estudou arquitectura, mas como se safa no photoshop, foi empregue como designer gráfico – atenção pessoal, quem tem um curso de design gráfico deve arranjar um emprego aqui num piscar de olhos. Resta saber quanto pagariam. O Noy não me disse quanto ganhava, mas reparei que estava bem à vontade com dinheiro, e foi de férias à França e Alemanha por duas semanas e gastou mais de quatro mil euros! Catchim! E foi o Noy que me apresentou à cultura de beber cerveja no Laos, que é algo como eu nunca tinha imaginado.
               
Depois de tomarmos banho, comermos qualquer coisa em sua casa, fomos encontrarnos com os seus amigos. No Laos não é bem visto uma pessoa ter amigos bastante mais novos, por isso, disse-me o Noy, para todos os efeitos, eles eram irmãos. Pelo caminho apanhámos a Lena, que se juntou a nós. Fomos para o restaurante Moon qualquer coisa, com uma vista para o rio Mekong e a Tailândia, do outro lado. Curto a cena do Laos e dos jantares. Já tínhamos comido algo em sua casa, por isso eu estava um bocado renitente com ir jantar, mais por causa da carteira. Mas ele tinha isso planeado, por isso não me opus. A cena dos jantares no Laos é – o pessoal pede vários pratos, estes são espalhados na mesa, e depois vão comendo ao longo de duas ou três horas. Não há aquela cena do pessoal se dedicar a comer, o pessoal vai comendo.
               
E a cena deles com a cerveja é que bebem como um gajo que esteve perdido uma semana no deserto. E brindam a toda a hora. Sempre. Em mais de metade das vezes que levam o copo aos lábios, sai um brinde. Ninguém está preparado para aquilo. Por outro lado, o que facilita um bocado é que bebem cerveja com gelo. Tristemente, no dia seguinte fiz o mesmo, porque com aquele ritmo, um gajo tem de ter cuidado.
               
Estivemos aí umas horas e, depois de deixar a Lena no seu hostel, fomos para um bar com música ao vivo. Uma banda porreira com uma cantora excelente . Curti muito.

No dia seguinte andei a ver a cidade. Dá para ver tudo num dia. Não tem muito, mas é agradável. Tem um arco no meio de uma rotunda que parece um pequeno castelo, que gostei. Mas gostei ainda mais da descrição que tem do mesmo. Tipo “No final da Avenida LaneXang temos uma grande estrutura que se parece com o Arco do Triunfo. É o Patuxari, ou a Porta da Vitória de Vientiane, construída em 1962 mas nunca acabado devido à história turbulenta do país. Visto ao perto, parece ainda menos impressionante, como um monstro de cimento. Hoje em dia é usado como local de lazer e subindo lá cima dá para ter uma boa vista da cidade” – ahahah! Achei isto impagável. Geralmente os sinais e explicações dizem como uma cena é bela e tal... já este sinal, que está numa das paredes do arco, compara-o a um monstro de cimento!
               
Quando já estava perto do final da minha rota, eis que encontro o Vinn e a Gisela, o casal que conhecera no Paquistão! Que cena, qual é a probabilidade? Encontra-se muita gente por estes lados, mas é malta que conheces tipo no norte do país e depois vai para sul como tu, mas encontrar alguém que tinha conhecido no Paquistão foi fixe. Comi qualquer coisa com eles, e depois fui-me.
               
Nessa noite fui a um jantar da Beerlao, a empresa de cerveja do Noy. Foi fixe. Éramos p’rai quarenta, todos sentados a uma mesa comprida cheia de comida que o pessoal ia atacando e claro, sempre a dar rendimento à própria empresa, com a cerveja. Tal como tinha acontecido na primeira noite em que saí com o Noy, havia na nossa mesa uma donzela com um vestido com as cores da Beerlao que não deixava ninguém com sede. Na verdade, não posso dizer que tenha acabado um único copo, porque quando estava a meio, a rapariga lá aparecia para tratar disso. Estavam lá também alguns ocidentais, e acabámos por nos juntarmos a um canto, falando acerca das suas relações tumultuosas com miudas do Laos.
               
Entretanto o pessoal começou a bazar, e eu e o Noy fomos a uma discoteca. Não sou gajo de discotecas, mas curti. Não estivemos lá dentro mais do que um minuto até uma rapariga chamar o Noy para a sua mesa. Era namorada do seu patrão e, como todos a malta do Laos que até então conhecera, estava sempre com os brindes. Finish! Finish! O Noy é gajo de cama cedo, por isso lá p’rás duas e pico voltámos.
               
No dia seguinte segui para Vang Vieng.

23h10-6ª-11-8-11
algures entre Vientiane e Luang Prabang

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Halong Bay

No dia 31 de Julho, segunda-feira, fui para Halong Bay. O preço foi fixe comparado com o que esperava. O Martin tinha-me dito que pagara oitenta e tal dolares, o que é uma grande batelada para o meu orçamento. Mas parece que é daquelas maravilhas naturais, por isso decidi ir. Assim, fiquei agradevelmente surpreendido quando vi que os preços andavam à volta dos 35-40 dolares. Se calhar ele foi num barco diferente, ou então teve o azar/amadorismo de só perguntar o preço num sítio. Errar é humano.
               
Apesar de ter sido barato e eu não me arrepender do que paguei, deixou muito a desejar. Já lá chegamos.
               
A Christia deixou-me na agência onde tinha comprado o bilhete, e à hora combinada apareceu o méne, e fui com ele. Só tinha dormido três horas e tal, estava um bocado partido, mas seguimos.
               
Quando entrei no minibus, encontrei o terceiro par de tugas da viagem! Pareceu-me ouvir alguma coisa em português, mas não tinha a certeza. Depois confirmou-se, disse qualquer coisa, trocámos umas palavritas mas ficou por aí. Topei logo que eram de Lisboa (ou da zona) e ao início achei que a miuda tinha a mania. Acho que o facto de ela ter dito, com um grande ar de indignação, “vamos almoçar aqui neste buraco nojento?” ajudou. Até porque era um restaurante melhor do que aqueles onde costumo comer. Mais tarde essa primeira impressão diluiu-se e desapareceu à medida que passámos algum tempo juntos e fiquei contente de ter passado esse dia e noite com eles e com o casal espanhol.
               
A Francisca é uma miuda de Cascais que estuda marketing. O Diogo, seu namorado, acabou comunicação empresarial e estavam a festejar o terceiro aniversáro nesse mesmo dia. Ele é de Sintra. A Francisca é o tufão e o Diogo o mar sereno, apesar de, imagino, mar sereno ser das coisas que não curte, sendo que é surfista e às vezes professor de surf. Porque é que digo isto?...
               
Quando bazámos de Hanoi, o guia da tour, um rapaz vietnamita que peca pela falta de simpatia, pediu os passaportes a toda a gente. A Francisca, incomodada com isto, foi-lhe pedir o passaporte quando estávamos no cais à espera sabe-se lá do quê (aconteceu sempre, esta espera incessante sem saber bem o que estávamos ali a fazer). Só ouço, em inglês, a miuda já exaltada “estás a ser muito rude para comigo e eu não estou a gostar!”. Tinha razão. É que o gajo vira-se para ela e diz, com cara de poucos amigos, “tens duas opções, ou me deixas ficar com o teu passaporte, ou voltas para Hanoi!”. E acabou por ser uma constante, esta atitude do gajo.
               
Entretanto conhecemos também o Angel e a Pilar, de Toledo, e ficámos mais ou menos um grupinho, os dois casais e eu. Pobre eu, aqui na minha solidão amorosa! Consequências de se mandar... Às vezes perguntam-me porque não “levei a minha namorada” e porque é que eu não “a quis levar”. Digo, claro, que não tem nada a ver com não a querer ter trazido. Mas somos pessoas diferentes, e se isto era um sonho que acalentava, não o é assim tanto da Graciete. Noutro dia perguntei-lhe se era capaz de, daqui a uns anos, tirar um ano sabático (conquanto pudesse voltar ao seu emprego sem problema). Disse que sim, para algum espanto meu. Ponta a ponta, América do Norte, sul da América Latina? Quem sabe...
               
Contudo, além de nós os cinco, o grupo em si era porreiro.
               
Quando finalmente entrámos no barco, começou o explendor. Andámos quase uma hora entre as ilhas rochosas que preenchiam o horizonte. Eram todas enormes, e estendiam-se até onde a vista podia alcançar. Estrondoso mesmo, das maravilhas naturais mais belas que já vi. Pelo meio aparecia, de vez em quando, bares flutuantes, onde se vendia isto e aquilo. Dava até um toque rústico, tirando quando se ouvia um hip-hop qualquer, isso trazia-me de volta à terra.
               
Parámos por meia hora para visitar uma caverna enorme. Muito porreira mas estava cheia de luzes amarelas, vermelhas e verdes e isso tirava um bocado aquela cena. Além disso tinha um trilho que um gajo seguia para ver as cenas, e isso também tirava algum do feeling. Paciência. Quando voltámos ao barco instalamo-nos na parte de cima (o nome náutico não me ocorre, agora). Estava sol, estava-se bem, estávamos tranquilos. Eis que aparece lá o nosso guia e vem-nos dizer as regras. Começou logo por dizer que se quisessemos beber as nossas próprias cervejas, tínhamos de pagar dois dolares, e o nosso próprio vinho, tínhamos de pagar dez dolares. Ora isto não me fez sentido nenhum, e menos sentido ainda quando, por exemplo, a Francisca e o Diogo tinham perguntado especificamente se podiam beber o seu próprio vinho. Não fiz caso, pois seria imposível estarem sempre no controle, mas o resto do pessoal começou a exaltar-se. Especialmente o Angel, com o seu “sangue caliente”, que questionava o guia incessantemente. Tanto que o gajo aproxima-se, e começa a falar comigo, a dizer para eu traduzir. Estou em deitadinho na minha espreguiçadeira e o gajo vem-me meter ao barulho. Já tinha dado o meu bitaite, mas quando vi a sua inflexibilidade, marimbei-me p’ró assunto.
               
- Olha podes falar com ele, que ‘tá aqui a um metro! – disse. Ele não fez caso.
- Imagina que tens um restaurante no teu país – prosseguiu – e eu chego lá, com a minha própria comida – dizia, lentamente para eu perceber bem – tu não ias gostar, claro, pois não?
- Não, não ia... mas isso é porque o negócio do meu restaurante é vender comida e bebida, e se tu trouxesses a tua comida e a tua bebida, eu não ia fazer dinheiro. Já o negócio deste barco é transportar pessoas de um lado para o outro, e albergá-las. O facto de que aqui também se vende comida e bebida, é só uma adição... – e com isto o gajo ficou sem saber o que responder. O resto do pessoal fez mais algum barulho, até que o gajo diz que o Angel pode, e que a Francisca também pode, mas o resto não. Ridículo.
               
Pouco depois eles estenderam o escadote e mergulhámos, andámos na água um pedaço, uma horita ou duas, até que era altura de ir comer. Sentámo-nos todos depois de uma chuveirada, apresentámo-nos todos, e ficámos ali um pedaço. No final rimo-nos um bocado com o Karaoke, e quando parou de chover fomos para a parte de cima onde bebemos uns copos até à meia noite e tal. Mas o gajo ainda não tinha acabado com as surpresas. Estamos nós à conversa quando aparece o Angel, depois de ter ido buscar uma cerveja ou mijar, não sei e exclama:
               
- Ouçam! O gajo está a dizer que para termos ar-condicionado temos de pagar dez dolares! Vamos todos lá baixo – mas o pessoal não estava muito p’raí virado. A mim não me fazia diferença. Mas o problema é que para algumas pessoas fazia. E o problema é que a Francisca, por exemplo, tinha também, tal como na cena das bebidas, perguntado se o ar-condicionado estava incluido. E disseram-lhe que sim. Fizemos algum barulho, sem efeito. Mais tarde o Angel confessou, com alguma vergonha, que as cenas se tinham exaltado lá em baixo... o gajo apontou-lhe o dedo perto da sua face, o Angel deu-lhe uma lapada no dedo, o gajo pegou num copo com que o ameaçou, o Angel agarrou-o, o copo voou e partiu. Enfim, cenas assim. Depois o Angel queria mandar a espreguiçadeira pelo barco fora, mas não teve muito encorajamento de mim e do Diogo, e não queria que a Pilar, sua namorada muito fixe e engraçada mas também recente, descobrisse.
               
Foi uma noite cheia de eventos.

- Dormiste bem? – perguntei ao Angel, no dia seguinte.
- Sim, mas acabámos por ter frio com a ventoinha – note-se que o ar condicionado era porque supostamente estaria muito quente. Que riso.
               
Após o pequeno-almoço fomos andar de kayak, que até foi fixe, apesar de breve. Gostei muito de entrar por o que parecia ser uma gruta e desembocar numa grande baía. Ali no meio, rodeados por uma enorme montanha cheia de estórias, que concerteza já viu milhares de pessoas como eu, mas que viu também, concerteza, há muitos, muitos anos, pessoas de outros países, exploradores, curiosos. Agrada-me estar num sítio e imaginar a história por detrás. Acho o tempo um conceito tão relativo quanto curioso e difícil de perceber. Às vezes questiono se existimos realmente, e em que plano existimos. Estou a ler Uma Pequena História Sobre Quase Tudo, do Bill Bryson, e o gajo fala do universo, tempo, teoria da relatividade, bem, fala de um pouco de tudo, e é incrível perceber, ou tentar perceber, tudo o que nos rodeia e todas as condições que não são tão exactas quanto pensamos...

Depois do kayak voltámos para o cais. Despedimo-nos do casal espanhol e fomos para Hanoi. Aí, despedi-me do Diogo e da Francisca e fui para o hostel que duas israelitas me tinham aconselhado. Tivemos um pedaço de conversa deveras interessante com elas sobre a situação em Israel, mas alongo-me sobre isso noutra altura.
               
Passei essa tarde na descontra no hotel, e à noite saí um bocado para ir comer. Curto o feeling de Hanoi. Bué de gente nas ruas a beber chá, aqueles restaurantezinhos com mesas que parecem de uma casa de bonecas, enfim – é o sudeste asiático. No dia seguinte fui dar umas voltinhas
à turista pelo resto da cidade. Curti. Em alguns locais parece Paris, mesmo. Depois vi-me tramado para arranjar dolares para pagar o visto do Laos. É que só tinha 25 dolares, e era o que achava ser o visto. Mas não tinha a certeza, parecia que diferentes pessoas me estavam sempre a dar números diferentes. Caminhei, todo transpirado, p’rai uma hora até encontrar um sítio que vendesse dolares e resolvi o problema.
               
Depois entrei no autocarro para o Laos.

 21h06-6ª-12-8-11
algures entre Vientiane e Luang Prabang

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Hanoi

No dia 29 de Julho apanhei o autocarro para Hanoi. E eis que encontrei o segundo par de tugas! A Ana e a Sofia (não estou certo que são estes os nomes), duas senhoras dos seus 40-50 anos de Lisboa. Ouvi-as a comentar que eu estava a pedir um banco diferente e percebi. Isto é uma cena interessante. Os ocidentais vão sempre num canto, todos juntos. Nesse autocarro, e neste onde agora vou, aconteceu alguém pedir para fica num determinado sítio e o gajo recusar, dizendo que é para vietnamitas. É um bocado estranho, mas é o que é.
               
Tinham voado de Portugal, através de Madrid, e voavam daí a dois dias. A grande cena é que a Sofia tinha perdido o passaporte. Estavam um bocado stressadas, naturalmente, e ficaram ainda mais quando eu lhes relembrei que o dia seguinte era sábado, e que por isso a embaixada estaria fechada. É que após terem contactado uma amiga que trabalha no ministério dos negócios estranjeiros, esperavam um fax que ia ser enviado para a embaixada de Espanha (não há portuguesa), com um documento qualquer que tinha de ser carimbado. Mas as embaixadas não abrem ao fim-de-semana. Espero que se tenham safado e que a Sofia tenha conseguido, de alguma forma, apanhar o avião no domingo, mas duvido. Grande batelada, um vôo só de ida de última hora do Vietname para Portugal...

Passei uma boa noite no autocarro, daquelas em que dormi o suficiente para não precisar de dormir no dia seguinte (apesar de o ter feito, por uma horita). Cheguei a Hanoi de manhã. Procurei um sítio qualquer com internet, descobri o caminho para o quarteirão velho, e lá fui. Ia para o Backpackers’ Hotel, mas um senhor interpelou-me e acabei por ir para o hotel dele. Tinha começado com dez dolares ou algo assim, mas eu disse que o meu hostel era 4 dolares, e após alguma hesitação, ele acabou por me oferecer o quarto por 5 dolares. Num quarto, não num dormitório, com ar-condicionado. Porreiro. Lá me levou, fiquei p’rai uma hora e tal à espera de não sei o quê, e instalei-me.

Acho que estava a precisar de um daqueles dias de férias de férias, e estava a pensar em ficar no quarto do hotel a “tratar de cenas”. Mas estava com um bocado de sentimento de culpa por não ir ver a cidade. E por isso mesmo fiquei contente quando começou a chover torrencialmente.
               
Mais logo ia encontrar-me às sete e tal com a Lena, uma russa que anda pelo mesmo canto do mundo que eu e que talvez viaje comigo no Laos, e mais tarde com outra malta com quem combinara através do couchsurfing, no beer corner.
               
Fui ter com a Lena, bebemos uma cerveja e fomos ter com a sua anfitrião, uma ucraniana. Ela queria ir dançar salsa, e eu vi nessa altura um bom momento para ir ter com o resto da malta. A Lena vai viajar por três anos à volta do mundo. Estava na Rússia, foi passar duas semanas ao Casaquistão, e acabou por seguir caminho. É designer gráfica, então sempre pode fazer algum trabalho enquanto viaja, e a sua regra é nunca sair de um país com menos dinheiro do que aquele que tinha ao entrar. Agora está a fazer uma excepção porque pelos vistos ganhou mais do que imaginara quando estava na Índia.
               
Pareceu-me fixe, mas com pequenos traços geralmente comuns em quem não viaja tanto.
               
Há uma cena que eu já li em alguns sítios que é um gajo comprar um bilhete para não sei onde, chegar ao próximo dia e não haver nada, e o escritório onde o bilhete foi comprado estar vazio. Foi isso mesmo que ela pensou quando eu parei para comprar uma cerveja num sítio que também era uma agência de viagens e que lhe oferecia um preço porreiro para Vientiane, no Laos (26$).
- Achas que posso confiar? – perguntou?
- Como assim?
- Será que é de confiança... será que amanhã não chego aqui e eles desapareceram? – eu olhei à volta, analisei os cartazes, a secretária, o próprio gajo.
- Iá, eles vão pegar nos teus 26 dólares e vão fugir para a América – respondi. Até pode acontecer, mas de certeza que não é nesta escala. E não curto quando o pessoal anda sempre desconfiado. E aqui no Vietname é uma constante. Ia agora dizer isto: “também é uma verdade que aqui é o país onde há mais cenas tipo custos escondidos e cenas dessas”, mas depois parei para pensar, e não é verdade. Fui numa tour a Halong Bay que, apesar de não me arrepender de a ter feito, foi uma fraude. Mas foi só isso. Tirando este episódio, o que acontece muito é os gajos mandarem o barro à parede com os preços de turista. Não é algo exclusivo ao Vietname, mas acontece mais frequentemente, e mais escandalosamente do que noutros países onde tenha estado. Mas é isso... na minha experiência é so isso, por isso não posso fazer uma grande regra senão com o segundo exemplo – e neste caso, se um gajo não for parvo não paga muito mais nunca.
               
Quando cheguei ao Beer Corner não estava lá ninguém do couchsurfing. Aquilo era, literalmente, o canto de uma rua com malta sentada cá fora naqueles bancos e cadeiras baixinhas, a beber cerveja. Como o pessoal ainda não estava lá, perguntei se me podia juntar a um grupo inglês de duas raparigas e um rapaz. Malta porreira. Meia hora depois começou a chegar mais pessoal, que se juntou à nossa mesinha. Entre eles apareceu a Christa, minha anfitrião do dia seguinte, o Leandro, um alemão e a Tracy, uma vietnamita. Curti muito estes dois, e voltei a encontrar-me com eles no dia seguinte.
               
Estivemos lá um bom pedaço, malta ia aparecendo e desaparecendo, e a dada altura fomos para uma discoteca. Cheguei lá e percebi que não ia conseguir ficar muito tempo Não tinha muita gente ainda, era carota e a música horrível. Mas mais malta foi aparecendo, e acabei por ficar até de manhã.
               
Conheci dois muçulmanos interessantes. Um deles do Líbano, e o outro da Arábia Saudita, estavam num canto a fumar um charro. Calhou falar com eles, e fiquei a saber que se preparavam para o Ramadão. Já não bebiam há uma semana para se prepararem para o Ramadão, mas ao mesmo tempo estavam a fumar um charro. Iam seguir à risca o Ramadão, sem comer nem beber nem fumar (sem pôr nada à boca, basicamente) durante as horas de sol, mas ao mesmo tempo um deles desapareceu com uma prostituta que estava lá à beira. Apelidei-os de neo-muçulmanos. Conjugam aquilo a que os conservadores poderão chamar de degredo do ocidente, com algumas tradições e costumes do médio oriente. Não sei bem o que pensar acerca dos gajos.
               
Quando bazámos, o Leandro levou-me a casa, após alguma dificuldade em dar com o sítio.
               
Quando acordei, no dia seguinte, tinha de me encontrar com a minha anfitriã. Fiz o check-out, pelo caminho comprei um bilehte para Halonh Bay – 36$, incluindo ida e volta a Halong City, uma noite no barco, dois almoços e um jantar. E depois as surpresas de um serviço que deixou muito a desejar. Já lá chegamos.
               
Mandei mensagem à Christia e ela veio buscar-me ao lago. Quando chegámos a sua casa estivemos um par de hora à conversa no seu terraço. Um copo de água cada um, a ver a chuva cair fortemente.
               
Isto até que o Leandro me ligou. Já me tinha ligado a perguntar se eu queria ir dar uma volta, com ele e a Tracy. Ele tinha duas motas, e só precisava de arranjar uma. Disse ok, claro. Disse-me que estava na Beer Corner, e a Christia foi fixe e foi lá levar-me.
               
Porém, quando cheguei, chovia a potes. Sentei-me com eles, pedi uma cerveja, daquelas a vinte cêntimos. Ficámos à conversa um pedaço, a recordar a noite anterior e eventualmente fomos juntar-nos à outra malta do couchsurfing que estava num “Sunday street food extravaganza”. Fomos ter com eles a um restaurante bacano, muito vietnamita. E onde a comida era carne, carne, carne. Traziam pratadas de carne crua e a malta grelhava na mesa. Estava lá mais algum pessoal vietnamita e achei interessante que muitas vezes punham carne já grelhada dos pratos dos outros. Isto é, geralmente um gajo tirava um pedaço e comia, mas eles a cada dois que comiam punham um para outra pessoa. Não sei se é da cultura ou destas pessoas em particular, e não me ocorreu perguntar.
               
Falei muito com a Tracy, que anda à procura do amor. Curtia bué que se enrolasse com o Leandro, porque são um dupla impecável. Como disse nas referências que lhes deixei nos seus perfis, se eu ficasse em Hanoi, seriam os meus melhores amigos. Ao memso tempo, é uma cena cultural também. Encontrar alguém, quanto mais cedo melhor, é algo que é esperado em muitas partes do mundo, mas neste canto, mais do que na Europa. A Tracy teve uma relação com um belga. A dada altura ele estava indeciso entre voltar provisoriamente à Bélgica e retornar ao Vietname, ou ficar. A Tracy apoiou o gajo, disse para ele ir (não me lembro porquê, mas era o mais sensato) que ela esperava. Ele foi e não voltou mais, e o coração da vietnamita ficou espalhados nos cantos deste canto.
               
Falei com ela acerca da importância de não desistirmos do nosso sonho e de, ao mesmo tempo, não deixarmos que o desejo de o alcançar no tolde a visão de modo a vermos algo onde não existe – tipo quando alguém está tão desesperado que se engana e diz a si mesmo que “esta pessoa é mesmo fixe”, quando no fundo, não é.
               
Estivemos aí umas horas e depois fomos ao Le Bar, onde as bebidas não eram baratíssimas, mas ok, estava-se bem. Entretanto o Leandro e a Tracy bazaram e fiquei eu, o Edgar checo, a Suzanne norueguesa e a Christa (outra) americana. E eis qu vejo duas chavalas ao fundo, uma delas de muletas. Eram duas raparigas que tinha visto em Hoi An. Na altura fui perguntar o que se tinha passado, elas contaram-me a estória (estavam numa scooter, cairam para o lado e queimaram-se) e depois seguimos cada um o seu caminho. Fui ter com elas, chamei-as e elas acabaram por ficar umas três horas connosco. Foi porreiro.
               
A Suzanne e a Christia bazaram, o bar fechou e eu, as duas holandesas e o Edgar fomos ter com a Christia (anfitriã) a um bar ali ao lado. Falámos de cenas tão absurdas como “o que é que achas que vai ser mesmo impossível para o Homem alcançar”, mas foi uma noite porreira.
               
Voltámos para casa, comemos algo e fomos dormir às três. No dia seguinte acordaríamos às sete para a Christa me ir levar ao autocarro, para eu seguir para Halong Bay. Insistiu e eu não disse que não.
 
22h58-d-7-8-11
Vang Vieng, Laos