segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ulan Bator



Na minha cabine ia, em cima, uma senhora mongol que falava inglês. Já tinha os seus quarenta e muitos, mas era bonita. Ia perceber mais tarde que esta senhora era um exemplo do restante. É que, para minha grande surpresa, Ulan Bator é uma cidade onde não é nada raro uma pessoa deparar-se com figuras e estilos femininos esplêndidos. Fora de Ulan Bator (no deserto) não reparei tanto porque o pessoal não se aprontava da mesma maneira, mas também vi muito pouca gente para poder estabelecer um juízo. Outra cena que reparei em relação às mulheres mongois é o facto de não quererem dizer a sua idade. Levam a sério aquela de não se perguntar a idade a uma senhora. Não é que eu tenha chegado sem mais nem menos e perguntado a idade a uma mulher qualquer, mas perguntaram-me algumas vezes, e quando perguntei de volta, silêncio e um sorriso. Interessante.

Quando saí do comboio em Ulan Bator, dei uma olhada ao mapa que tinha copiado no computador e pus-me a caminho o mais rapidamente possível para a embaixada. Mas já era tardíssimo, onze e tal. Não ia chegar a tempo, por isso decidi ir à agência de viagens buscar o meu bilhete de comboio. Fui perguntado ao pessoal e dei com o sítio sem problema. Fala-se muito mais inglês na Mongólia do que na China. Quando cheguei a senhora deu-me o bilhete e eu pedi-lhe para ligar para a embaixada russa a perguntar quanto tempo demorava o visto e quando estavam abertos. Parecia que lhe estava a pedir para dar o filho para adopção. Mas lá ligou. Ela disse que achava que demorava dez dias úteis ou duas semanas, e que abriam às duas da tarde.

Saí, fui à embaixada. Já não podia pedir o visto nesse dia, porque ainda não tinha mudado o bilhete de comboio, e preciso de mostrar os bilhetes todos para pedir um visto de trânsito. Dei duas voltas ao quarteirão enorme onde está a embaixada russa porque não percebia onde era a porta. Não faz sentido que as embaixadas tenham os sinais na língua local, na língua da embaixada e em inglês? É que é daqueles estabelecimentos onde, seguramente, pessoas que não falam nem russo nem mongol iram diariamente...

Quando finalmente dei com o sítio, esperei uns minutos com outro pessoal à porta, e depois entrei. Quando chegou a minha vez, perguntei ao senhor que não conseguia ver por detrás do vidro escuro quanto tempo é que o visto demorava a ser emitido, e ele disse que deviam ser quatro dias, mas não tinha a certeza. O melhor era eu esperar e perguntar ao diplomata. Quatro dias? Isso era demais. Esperei um bocado, meio impaciente, e foi em êxtase que recebi a notícia de que sim, demorava quatro dias úteis, pagando cinquenta dólares, ou até podia ser de um dia para o outro, pagando cem. Demais!

Fui comer qualquer cena de seguida. Benvindo à Mongólia. Se na China tinha uma refeição boa e granducha por menos de um euro, na Mongólia tinha de pagar mais que isso por algum pão e... bem, pensei que tinha comprado atum mas era uma cena qualquer envolta em banha. Horrível, mas a fome apertava, por isso teve de ser.

Ia encontrar-me com o Mike lá p’rás sete da tarde. Segui as suas direcções, dei com o sítio onde devia esperar, e estava sentado tranquilamente na minha mochila, no passeio, quando, à minha frente se abre a porta de um camião que estava parado no trânsito. Vejo lá dentro uma mulher, do meu lado e que tinha aberto a porta, a chorar e a tentar sair, uma outra mulher no meio, e o condutor de cigarro na boca, mão esquerda no volante e a outra a agarrar a primeira mulher que queria sair. Aquilo foi tão estranho que no primeiro segundo pensei que estavam na brincadeira. Mas não, a mulher estava realmente a chorar e o gajo a agarrá-la, a puxá-la pela camisola e a outra mulher a tentar fechar a porta. Que se fechou, eventualmente. Eles iam avançando metro a metro, lentamente no trânsito, e eu estava sem saber o que fazer. Mas queria ajudar a mulher. Pensei em abrir a porta e puxá-la, mas depois o gajo ia sair do camião e ia correr tudo mal. Podia fazer isso e fugir, mas não ia conseguir ir muito longe com as minhas duas mochilas. Senti-me estúpido e ridículo por não cagar nas mochilas – salvar a mulher e fugir. Assim, pus as mochilas às costas e corri para o cruzamento, na esperança de ver um polícia. Avistei um que vinha de cima, corri para ele, apontei para o camião e dei o meu melhor para me fazer entender. O gajo olhou para mim como se eu lhe estivesse a pedir um cigarro e ele só tivesse mais um. O camião passou mesmo à nossa frente, eu apontei para ele, o condutor do mesmo viu que eu o fazia, passou, o polícia disse “ok” e passado uns segundos bazou como se quando eu estava a apontar para o camião estivesse a dizer “quem me dera ter um daqueles”.

Frustrado e com alguma adrenalina a correr no meu corpo, voltei ao sítio. Quando o Mike chegou e eu lhe contei a cena, ele adivinhou que o polícia não faria nada, e disse que na Mongólia violência doméstica é o pão nosso de cada dia. Quanto a violência doméstica não posso dizer mais, porque não vi mais nada. Quanto a violência, infelizmente confirmei o duas ou três pessoas me tinham dito. Em cerca de oito dias na cidade presenciei um episódio de violência quatro ou cinco vezes, e em duas vezes poderia muito bem ter-me tocado a mim. Ulan Bator fica na minha memória como uma espécie de Sin City. Deve ser das cidades com mais bares e discotecas onde já estive, vê-se malta a cair de bêbeda de manhã à noite e a qualquer dia da semana, e há aquela sensação no ar de que tudo é possível.

- O que eu curto aqui é que um gajo pode fazer o que lhe apetece... – dizia-me o Mike – É tipo o faroeste, tudo é possível. Contractos, leis, regras, cenas socialmente correctas... tudo tem a sua própria versão em Ulan Bator – e é verdade. Vale tudo. Até curti a cidade. Apesar de ter pouco para ver, tem esse ar. Claro que tem cenas que pertencem a esse ar que são desprezíveis, como haver um risco elevado de um gajo levar nas trombas sem ter feito nada. Uma vez estava na descontra em casa, fui comprar uma cabeça de alho e um pacote de massa e passei por uns gajos à porrada. Um deles fugiu, outros dois foram atrás. Não o apanharam e quando voltavam, um deles dirigiu-se a mim e empurrou-me, gritando qualquer cena. Eu segui caminho. Noutra noite, em que saí com o Mike, a sua namorada e uma amiga dela, o Mike, porque tripou com a Solongo, sua namorada, bazou, e a Solongo bazou também. Quando saía do bar com a amiga da Solongo um gajo começou a caminhar para nós a gritar qualquer cena... o que aparentemente é a principal causa de lutas entre locais e estrangeiros – o pessoal ver os segundos com uma gaja mongol. Seguimos caminho.

- Quando trabalhava como segurança no Strings havia p’rai três lutas por noite. Havia sempre lutas entre estrangeiros e locais e a maior parte das vezes era porque um estrangeiro estava a dançar com uma mongol – disse o Mike.

Na minha última noite estava com o Mike e um canadiano à procura de um restaurante e aparece um gajo com cara de bêbedo vindo não sei de onde e dá um encontrão no Mike. Seguimos caminho. Seguimos caminho mas o que aquele filho da puta merecia era que lhe fodêssemos a tromba à grande. Pá quem sabe aprendesse uma lição. Se eu faço sempre a mesma cena, e na maior parte das vezes corre mal, vou deixar de a fazer... hum... certo?

- Se nós lutassemos com ele, num minuto tinham parado três carros e estavam a apoiar o gajo mongol independentemente da razão... aliás, sem saberem a razão... – disse o Mike.

O Mike é um americano de vinte e quatro anos que cresceu numa família mormon. Teve uma infância muito religiosa, começou a fumar seis meses antes de nos conhecermos e nunca tinha bebido até aos vinte e um. Vem de uma família pobre que cria cavalos, tem um curso de paramédico (mas não é médico), já caminhou, com o pai e os irmãos desde o Canadá ao México, já viveu no Iraque e agora vive na Mongólia. Foi lá parar porque fez parte de uma expedição de mota desde o Reino Unido até à Sibéria. Um grupo de pessoal rico decide seguir os passos de outro gajo que fez isto pela primeira vez, contracta uma empresa que arranja as cenas todas e lá vão. Nestas “cenas todas” está incluído um paramédico, o nosso caro Mike, neste caso. Estava na Mongólia há um mês e tinha arranjado uma namorada local nos primeiros dias.

- Hei, olá, onde estiveste o dia todo, não me mandaste mensagem nenhuma – perguntou ele à namorada naquela primeira noite, quando ela entrou em casa. Antes dela chegar tínhamos bebido dois shots de vodka e estávamos à conversa. Esta sua frase para a sua miuda foi o início de uma noite com os seus momentos desconfortáveis aqui para o tuga. A gaja estava a agir de uma forma super estranha que pelos vistos não era normal, porque o gajo estava a estranhar. Não falava e ele em vez de deixar p’rá lá isso continuava a insistir. E pelos vistos ela tinha dito que no dia seguinte ele ia conhecer alguém e o gajo estava a stressar com aquilo, a pensar que era a chama antiga (como se referem aos ex-namorados na Mongólia), alguém com quem a rapariga ainda falava ao telemóvel três vezes por dia.
- Pá ele chega a ligar-lhe a meio da noite, ela está na cama comigo e levanta-se para ir atender... – dizia o Mike. E eu a esperar, mais ou menos, que ele não me perguntasse o que é que eu achava disso, porque não me queria meter. Fomos jantar nessa noite, a Solongo bazou e fomos depois para uma discoteca. O Mike estava seguro que ela queria acabar com ele. Também me tinha dado essa impressão, mas não aconteceu nada do género. Fomos para o Strings, um bar onde ele trabalhara durante alguns dias como segurança, até arranjar um tacho melhor noutro sítio, como director de segurança de um centro que abriria em Outubro, ao mesmo tempo que ensinava inglês. Pelos visots o pessoal so Strings não tinha curtido que ele tivesse bazado.
- O pessoal do Sanctis não me quer a trabalhar aqui, eles têm o meu visto de trabalho... – ia dizendo a qualquer pessoa que aparecia. Tanto que levou à minha iminente questão...
- Isso é couro ou é mesmo como dizes?
- É couro – respondeu.

A noite foi porreira, e mais ou menos surpreendente. É que quando lá chegámos (note-se que era uma terça-feira qualquer) não se passava nada, mas passado duas horas aquilo estava cheio. A pista de dança estava cheia de gajas a dançar, juntamente com um ou dois casais russos que parecia que tinha acabado de chegar dos anos oitenta – tanto na roupa, como na dança. Tocava uma banda filipina no palco que pelos vistos trabalha sete dias por semana, e que tinha dos melhores guitarristas que já vi. O gajo fazia amor descaradamente com aquela guitarra e era, claramente, muito melhor do que o resto da banda. Mas o que alimenta o bucho é benvindo...

Fomos para casa quando a disco fechou. O Mike fartou-se de dançar, eu... bem, eu fique a aguentar o balcão, à conversa com uma russa que trabalhava na força aérea americana em Anchorage, no Alaska.

No dia seguinte fui trocar o meu bilhete de comboio de manhã e pedir o meu visto à tarde. Tive de pagar mais quinze por centro para trocar o bilhete, mas que interessa... Troquei-o para dia vinte e sete, e troquei online o meu bilhete de autocarro de Moscovo para Riga, onde chegaria dia três de Outubro – um dia antes do dia quatro. Passei o resto do dia imerso em Ulan Bator. Mas acabei por ir só ao museu de história porque quando saí estava tanto frio que tive de me refugiar no Budweiser Café ao lado do parlamento. Curti o museu, e aprendi muito sobre o Chinggis Khan (é assim que se escreve na Mongólia, mesmo usando o nosso alfabeto em vez do cirílico). Como todos os imperialistas, o gajo desbravava terreno e VIDAS com um pretexto que até parecia giro, tipo unir o mundo e não sei quê. Tinha grande personalidade, grandes atributos e isso fez com que ele tenha sido uma peça fundamental no maior império de sempre, que chegou até à Ucrânia. Um personagem interessante que acaba por ser talvez a única coisa pela qual a Mongólia é conhecida. Por isso e pelo deserto de Gobi, o quinto maior do mundo, contando com os polares. Mas sinceramente, eu, que não sou estúpido de todo, só ouvi falar do Gobi há pouco tempo.

No dia seguinte a Solongo já estava melhor, pareceu-me. Sorria mais e... falava. Vi-a quando estava na net no computador do Mike e ela entrou no apartamento. Tive oportunidade de confirmar algo que o Mike me tinha dito.

- Pá, a minha namorada chega a minha casa, diz para eu me sentar no sofá, e começa a limpar tudo... eu quero ajudar mas ela não deixa, diz que é assim que se faz na Mongólia. Achas que isso é mau?
- Acho que não, desde que não comeces a contar com isso... e que se um dia ela se cansar tu não te sintas agastado e queiras que ela continue a fazer tudo – confirmei isto porque ela chegou ao fim da tarde, só estava eu em casa, e começou a arrumar, limpar e lavar tudo. Até cozinhou para mim. Obrigado. Nessa noite apareceu uma amiga dela, a tal pessoa que era suposto o Mike conhecer. Era aquela a “surpresa”.

No dia seguinte dei mais umas voltas por Ulan Bator. À noite fomos a uma disco com a Solongo e a amiga ela da noite anterior. Parecia-me um bocado que a Solongo ditava aquilo que queria fazer e o Mike anuia. Mesmo quando ela não ditava nada.

- Se eu te disser uma coisa não ficas chateada comigo? – perguntou-lhe ele, na mesma tarde – Tenho de me encontrar com o meu chefe por uma horita. Mas é só uma horita. Ok? – ela disse algo que me pareceu ok, apesar de eu não falar aquela língua relacional através da qual as namoradas dizem o que querem dizendo que não o querem. Iá mas deve ter sido nessa língua porque o Mike disse logo que não ia. E depois de um tango verbal o gajo lá acabou por ir. Encontrámo-nos na disco. E que disco! Esse ponte de exclamação aí atrás não é pela qualidade da mesma mas pela peculiariedade. A diferença do Strings era que tinha strippers que pareciam das que estavam a fazer um reality-show entitulado “Eu Não Sou Boa Nem Bonita Mas Ainda Assim O Pessoal Paga P’ra Me Ver” e depois, com todo o meu espanto, um show tipo de circo, com um gajo a engolir fogo e a caminhar em vidro. Só visto mesmo, só visto.

Pois a dada altura a Solongo atendeu o telefone.

- É a chama antiga? – perguntou o Mike à amiga da Solongo, que encolheu os ombros. Com isto, o Mike bazou, e depois disto, bazou a Solongo também. A outra rapariga mal falava inglês, e eu não curto muito discotecas de qualquer maneira, por isso quis bazar mal houve oportunidade. Foi nisto que um parente que estava lá fora começou a gritar quando me viu a sair com a amiga da Solongo. Seguimos caminho.

 Quando voltei ao apartamento o Mike estava a dormir. Estava cheio de tosse e passado um bocado veio para a sala. Falámos um bocado. O gajo estava zangado. Eu aconselhei-o a discutir as cenas com ela, mas eles tinham um grande problema que é o de ela não ser exactamente fluente em inglês. A miuda safa-se bem, mas ele tem de falar com ela tipo “I not like this and that. Last night I go this and that” para ela perceber melhor, o que até às tantas acaba por desajudar, sendo que ela vai aprender inglês com erros. Ele disse que ela tinha uma amiga que falava bem inglês e era uma ajuda. Já tinham recorrido aos seus “serviços”.

Passei o dia seguinte a dar umas voltas por Ulan Bator e uma boa parte da tarde na internet. Estava farto da capital, tinha duas semanas no país e não queria ver só uma cidade. Mas parecia que para ir fosse onde fosse um gajo ou ia num tour com outro pessoal ou tinha de pagar bem. Tinha ouvido falar de tours ao deserto onde, se fossem seis pessoas podia pagar-se à volta de trinta e seis dólares por dia, o que era muito fora do meu orçamento, mas não era mau de todo. Mas e encontrar esse pessoal?
Foi aí que tive uma brilhante, mas simples ideia. Fui ao couchsurfing, cliquei em “viajantes perto de ti” e mandei uma mensagem p’rai a cinquenta pessoas a dizer que queria ir ao deserto e estava à procura de malta. Passado duas ou três horas, recebi uma mensagem da Jenny, que ia com mais cinco pessoas na manhã seguinte, por oito dias. Havia lugar para mais um. Perfeito!

quinze horas-quinta-vinte e nove de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo






sábado, 8 de outubro de 2011

Erlian


Chegado a Erlian, saí do camião e a primeira coisa que fiz foi torcer o pé. Limpinho. Abri a porta, apoiei-me num degrau, saltei e PAU, no chão. Rastejei até ao passeio e fiquei lá um pedaço. Mas para quem já andou de muletas cinco vezes aquilo foi coisa pouca. Assim, cambaleando um bocado, vi um Dicco’s, que parece ser a cadeia de fast-food mais popular na China, pelo menos tirando as outras que são populares em qualquer lugar. Lá tinham internet, e passei umas horas no forum online da lonely planet, onde pesquisei acerca de sítios para dormir, como chegar a Ulan Bator, e acerca do visto. Parecia que só um gajo é que mencionava os quatro dias úteis, toda a outra informação dizia que demorava de dez a catorze dias, e que a embaixada russa na Mongólia era das piores do mundo. Espetacular. O meu coração caiu um bocado. Tão perto, e ia falhar outra vez. Mas... porque é que era assim tão importante? Porque é que me predispus a atravessar o continente de ponta a ponta? Foi um desafio, simplesmente. Queria partir numa viagem que fosse algo mais do que andar um pedaço, apanhar um avião, andar um pedaço. Queria que tivesse uma identidade pré-estabelecida, uma identidade que ainda assim não roubasse muita flexibilidade. Queria algo pleno, e Portugal a Singapura pareceu-me bem. Mas depois isso falhou, com as culpas para o governo chin;es. Isso falhou e tive de voar para a Tailândia. Novos planos, e ali estava eu, na fronteira da China com a Mongólia, perto de perceber que os tinha falhado.
               
Tentando não stressar muito, saí do restaurante e caminhei ao frio em direcção à estação de comboio. O comboio... ainda tinha esse problema. É que pelos vistos a maneira de chegar até Ulan Bator era ir até Zamyn-Uud (a primeira cidade mongol depois da fronteira), esperar um bom bocao na fila da estação de comboio e comprar um bilhete para Ulan Bator. Mas isto era caso eu conseguisse chegar de manhã. Ora o meu visto mongol só estaria pronto à tarde. Ou seja – não havia hipótese. Queria dizer que, à partida, conseguia o visto na segunda, mas só podia apanhar o comboio na terça à tarde, e chegava a Ulan Bator quarta! Estava tudo a ir por água abaixo...
               
Encontrei o hotel, vinte yuan por noite. Ok. Fui jantar. Era sexta-feira, curtia encontrar alguns estrangeiros para ir beber uns copos. Caminhei uma hora a ver se encontrava algum bar, mas a China não tem bem esse estilo, pelo menos em sítios menos turísticos. Ao que parece o pessoal junta-se nos restaurantes ou bares de karaoke. Mas é só pessoal chin;es, que geralmente não fala ingl;es. Não encontrando ninguém, voltei para o quarto e vi uns episódios até adormecer.

Passei o dia seguinte... bem, passei os dois dias seguintes da mesma maneira, sem grande diferença. Acordar lá p’rás onze, ir almoçar nas calmas, depois passar toda a tarde na internet no Dicco’s, ir jantar, dar uma caminhada e voltar para o hotel. Foi isto, assim de repente.
               
Mas a diferença foi que no sábado deixei a preocupação desaparecer, lá para o final da tarde. Não é que estivesse a morrer de aflição, mas estava um bocado desiludido. Mas já percebi o meu padrão. Acho que stresses pequenos não t;em importância p’ra mim. Stresses maiorzitos (mas que também não são nada se virmos as coisas em perspectiva) como perceber no Nepal que ia ter de voar ou perceber na China que se calhar também ia ter de voar de Pequim para a Europa, t;em um maior impacto, e eu tento ter aqueles diálogos internos para relativizar a cena, mas aquela nuvenzita fica por um bocado. Mas percebi que mesmo com esses stresses maiorzitos, a nuvem dissipa-se passado pouco tempo, tipo um dia. Foi o que aconteceu no sábado quando estava a dar a minha caminhada. Estava frio, estava a ouvir música,  “pá que se lixe, tenho é de pensar no que posso fazer... e se não der, não deu... perco algum dinheiro, perco este objectivo de atravessar tudo por terra, mas paci;encia, não é o fim do mundo...”.
               
Assim, voltei para o quarto cheio de qualquer cena. Estava satisfeito, digamos, com o que quer que se estivesse a passar, dentro e fora de mim. Tinha curtido muito a minha caminhada a ouvir vezes sem conta “Time of My LIFE” e sentia-me presente em mim como tantas vezes antes, e escrevi um texto sobre isso mesmo...

No domingo descobri que havia algo que eu podia fazer. Continuava a ser arriscado, mas sempre era mais confortável. E não sei como não pensara nisso antes. Podia mudar o bilhete de comboio. Se mudasse para dia vinte e sete, tinha nove dias úteis na Mongólia para esperar pelo visto, caso o pedisse na terça. Se mudasse para dia trinta tinha doze. Tendo em conta que a informação que eu tinha apontava para dez a catorze dias úteis, continuava a não ser nada garantido, mas sempre era melhor... Ok, fiquei esperançoso. Tinha de chegar à Mongólia na terça. Mas como? Ia ser complicado...
               
Segunda levantei-me cedo para ir pedir o visto. Cheguei lá por volta das sete e meia, e apesar de dizer na embaixada que abrem às oito, só às nove é que as portas se abriram. Claro queo facto de eu ter sido o segundo a chegar não importou nada, o pessoal enfiou-se por quanto espaço dava. A boa cena deste dia foi que conheci o Steve, um canadiano, e a sua irmã mongol adoptada. Ambos viviam na Mongólia e o Steve estava ali para renovar o seu visto. A família dele tinha uma ONG cujo objectivo era produzir fruta, algo muito difícil com o clima mongol, e tinham adoptado a rapariga há alguns anos. O fixe de os ter conhecido foi que eles disseram-me, com toda a certeza, que maneira mais simples de chegar a Ulan Bator era apanhar um comboio em Erlian para Zamyn-Uud e depois, quando dentro do comboio, comprar o bilhete para Ulan Bator. Era perfeito!
               
Tinha de me despachar a tirar o visto. Mas não deu. Tal como já tinha acontecido em alguns outros países, a senhora estranhou o meu passaporte tuga.
               
- Não tem problema, é da União Europeia, eu li as regras, não preciso de carta de convite – eu ia dizendo. Ainda assim, ela mandou-me esperar e tentou ligar para a embaixada em Pequim, enquanto atendia um italiano. Talvez por eu ter dito o mesmo mais um par de vezes, talvez não, ela desistiu de ligar para Pequim, já que estavam numa reunião, e atendeu-me, dizendo-me para aparecer à uma e meia para ir buscar o passaporte. Saí da embaixada e voei para a estação de comboio. É que os canadianos tinham comprado os bilhetes através de uma ag;encia porque muitas vezes esgotam-se. Tive sorte e ainda havia. Comprei os bilhetes, almoçei e fui fazer uma última pesquisa na internet. Tinha recebido um mail da Ruth, uma mulher que já respondera a mais de vinte mil questões sobre vistos e essas cenas no forum da lonely planet. Também ela dizia que, tanto quanto sabia, demorava de dez a catorze dias. Mandei um mail a pedir à ag;encia através de quem tinha comprado o meu bilhete para Moscovo, para o mudar para dia vinte e sete, e bazei.
               
Paguei o hotel e meti-me no comboio, com a esperança de chegar de manhã cedo para ir pedir o visto. Próximo destino: Mongólia!

treze e nove-quinta-vinte e nove de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

De Pequim a Erlian



 Apesar de não estar muito positivo, a minha droga favorita mudou-me completamente. Liguei o leitor de mp3 e o Patrick Wold a falar-me sobre o “Time of you LIFE”  provocou em mim uma revolta imediata, voltando eu a pensar mais à Pedro. Pá que se lixe. Afinal de contas, que é que eu podia fazer? O meu melhor, tentar chegar lá. Se não conseguisse, não era estar a stressar que ia mudar alguma coisa. Assim, com uma sensação curiosa de estar a “ir para casa”, pus-me a caminho daquele cruzamento que ia dar à entrada da estrada. Estava a dezenas de milhares de quilómetros de casa, e ainda assim sentia que estava a caminho, e cada vez mais perto. Literalmente estava, é óbvio, mas a distância era tão gigante que faz com que ache, digamos, carinhoso, que tenha tido aquele sentimento dentro de mim.
               
Caminhei p’rai hora e meia até que escolhi um sítio para esticar o dedo. Os primeiros três carros levaram-me menos de cinco minutos cada um. Mas depois apareceu um camião que me levou um bom pedaço. Andámos cerca de uma hora, àquele ritmo alucinante que os camiões têm, e parámos num engarrafamento. De vez em quando andávamos um bocado, mas apenas para parar cinco minutos depois. Esperei pouco mais de uma hora, e depois de comer p’rai vinte pequenas maçãs que o camionista me tinha comprado, decidi que tinha me mexer. Agradeci, saí do camião e pus-me a caminho. Não sabia bem p’ra quê... talvez houvesse uma saída ali à frente ou algo assim. O dia estava porreiro.
               
Caminhei p’rai uma hora e meia. Ou seja, tinha já perdido quaxse três horas a caminhar e outra hora num engarrafamento. Eventualmente aquilo começou a desenvolver e uns camionistas convidaram-me a ir com eles. Porreiro. Deram-me para comer uma cena parecida com rissóis crus.
               
Deixaram-me na beira da estrada, apanhei outro carro e este deixou-me numa estação de serviço. Já era tarde e eu estava bué de longe ainda. Caminhei um pedaço até à saída, onde poderia fazer sinais tanto aos carros que saiam para a autoestrada como para os que nela já se encontravam, e fui mais uma vez a estrela principal daquele dia para as pessoas que lá trabalhavam. Mas um puto em particular, p’rai de dezoito anos era chato com’á putaça. O gajo estava em delírio. Veio a correr atrás de mim, sempre a gritar na minha cara, a agarrar-me, a oferecer-me cenas. Ok até podia ter boas intenções, mas o gajo estava aos berros p’rai a um centímetro da minha cara. Eu afastava-me um bocadinho, com calma, mas o gajo estava sempre a dar em cima. Apareceram os seus colegas, levaram-me para a gasolineira, trouxeram-me uma cadeira e, com o auxílio do tradutor no telemóvel, disseram que me iam arranjar uma boleia. Só que a cena é que eles não percebiam que para mim qualquer carro dava. Não tinha de ir exactamente para Erlian, tinha só de ir em frente. Que eram todos. Mas explicar isto já não é tão fácil...
               
Por isso a dada altura levantei-me e voltei p’rá saída. O gajo lá veio atrás de mim e estava todos excitado a agarrar-me pelo braço e a puxar-me de volta para a gasolineira. O resto do pessoal veio atrás. Foi uma situação caricata. Quando parecia que estavam finalmente a compreender aquilo que eu queria dizer, apareceu outra a dizer que aquele camião me podia levar. Fixe. Meti-me no camião e andei um bom pedaço. Estava sempre naquela, porque ainda não estava na G6, a estrada que eu precisava, mas estávamos sempre a passar por sinais para a mesma. Mas à quinta ou sexta vez desisti de explicar que queria ir para Erlian. É que certamente já tinham percebido isso.
               
Andámos um bom pedaço, e deixaram-me à entrada de uma estrada que circundava uma vila qualquer e ia dar à estrada que eu queria. Méne que diferença! Saí do camião e gelei. Um frio que não tinha nada a ver com Pequim. Mas estava bem, sentia-me fixe. Acho que já deu para perceber que eu tenho uma relação pecaminosa com o Frio. Vesti a camisola passado um bocado, depois o casaco, depois as luvas. Estava um grizo terrível. E os carros não paravam.
               
Lá parou um senhor com um camião todo podre. Teve de sair do mesmo para me abrir a porta por fora. Entrei e poucos minutos depois, apesar de eu lhe ter mostrado o meu sinal, percebi que ele me queria levar à estação de comboio. Mais tarde viria a arrepender-me de não ter aceite a proposta. Mas mais mais tarde, desarrependi-me, porque não fez diferença. Saí do autocarro um bocado embaraçado porque o senhor era muito fixe e pensava que estava a ajudar, e voltei à estrada. Mais uma hora, até que parou um camião. Bem, a China tem daquelas cenas que nunca vou entender... uma delas é o trânsito. Mais cedo nesse dia tinha passado por filas de p’rai quarenta quilómetros de camiões do outro lado da estrada, quando não havia nenhuma razão para aquilo. Da mesma forma, nunca cheguei a perceber a causa do engarrafamento em que tinha estado logo no início do mesmo dia. Mas agora tinha-me saído o jackpot do engarrafamento. O camião andou um pedaço, e depois parou. Mas os gajos agiam como se aquilo fosse normalíssimo. Havia uma faixa livre à esquerda, mas os gajos desligaram o motor, e ficaram ali quase duas horas a fumar cigarros. Não havia chance de chegar a Erlian.
               
Quando finalmente arrancaram, deixaram-me à saída da autoestrada. Também não percebi isso. Apontaram para o camião de outro méne que já tinha estado no camião deles e disseram que ele me ia ajudar. Esse mesmo méne já me tinha convidado para dormir no seu camião ou para me levar a um hotel, não sei... algo relacionado com dormir. Pois eu saí, meti-me no frio, fiz sinal a esse camião da frente, e nada. Bazou tudo e eu estava ali, às dez e tal da noite, cheio de frio, no meio não sabia de onde. Só tinha comido aquelas maçazitas e os rissóis crus o dia todo, por isso fui trincar qualquer coisa a uma estação de serviço ali ao lado. Comi qualquer coisa, e estudei a possibilidade de lá dormir. Estive quase a pedi-lo, mas decidi ir tentara minha sorte.
               
Espequei-me mesmo ao lado de onde o pessoal paga e ia mostrando o meu sinalzinho. O méne da portagem tinha-o lido e disse que me ajudava. Mas parecia que ele não estava a perguntar nada a ninguém e eu não estava nem com todo o tempo do mundo, nem com toda a paciência, por isso pus-me a caminho para a autoestrada. Não demorou muito até que apareceu um carro que parou. Mas o gajo parou bastante decidido, de forma que estranhei. Era a polícia. Um bacano que perguntou para onde eu ia, e quando eu respondi disse “ok”. Alguém o tinha chamado. Eu ainda sonhei que ele me ia levar trezentos quilómetros até Erlian... nada disso. Passados vinte minutos de frustrações de comunicação e de eu ter de agarrar no voltante para não batermos enquanto ele olhava para o telemóvel, ele recebeu uma mensagem que me mostrou e dizia, em português “Sou a polícia. Erlian é a trezentos quilómetros e posso levar até à bandeira”. Tinha sido uma tradução automática, claramente, mas dava para perceber.
               
Assim, o méne deixou-me em mais uma portagem, e encarregou os funcionários de me ajudaram a arranjar um carro. Que dia! Eventualmente dei por mim estendido quase a dormir numa daquelas cabines onde está o pessoal com os bilhetes, com uma rapariga muito fofinha que se desenrascava com o inglês. Tentaram arranjar-me carros, nada. Tentaram que eu dormisse no prédio ao lado no seu dormitório mas o chefe não deixava. Depois tentaram que eu dormisse lá na cabine enquanto o pessoal trabalhava, mas também não deu. A miuda saiu de turno e apareceu a polícia, que eles tinham chamado, para me “ajudar”. Metemo-nos no carro e foi com espanto que vi que, tanto a rapariga que falava inglês como outra que dava uns toques, entraram também para o banco de trás. Talvez para traduzir. Pobres miudas, trabalhavam no dia seguinte às oito e já eram quase três da manhã! Quando eu estava estendido na cabine a miuda perguntou-me se eu tinha dinheiro. Eu disse-lhe que tinha, mas que não queria gastar muito porque estava numa viagem grande. Pois no carro da polícia ela passou-me cinquenta yuan para a mão. Aquilo comoveu-me um bocado, porque era dinheiro dela e da outra chavala. Já me tinham dado dinheiro antes, mas não sei porquê, aquela miuda tocou-me. Talvez por isso, eu disse-lhe que não precisava realmente, porque tinha dinheiro, mas ela recusou a minha recusa.
               
A bófia levou-nos até um hotel. A noite eram cento e tal yuan, mas ficou por noventa. A miuda tinha dito antes que me ia tentar ajudar a arranjar um sítio para dormir sem pagar. Talvez por isso, foi com um coração despedaçado que vi a sua cara de bebé quase fazer beiçinho quando viu que eu tive de pagar. Ainda pensei que estivesse triste porque me tinha visto a tirar do meu próprio dinheiro, caso não tivesse percebido quando antes eu tinha dito que tinha, mas que não queria gastar muito, e daí pensar que eu tinha mentido.
               
- Que se passa, porque é que estás triste? – perguntei, sentando-me ao seu lado no sofá da recepção.
- Porque eu queria ajudar-te... e não consegui ajudar-te – respondeu com aquela carita de miuda.
- Ouve, isso não é verdade, tu ajudaste-me imenso, a sério, e eu agradeço-te imenso, nunca vou esquecer o teu esforço – e é verdade. Contar isto agora tira sempre o real valor à cena, ou pelo menos retrata-a sem o valor que tem. Conversámos um bocado quando eu estava a tentar dormir na cabine, e a miuda parecia mesmo ser alguém diferente e especial. Tinha vinte e cinco anos, e trabalhava ali há um par deles. Não estava feliz e queria mudar. E, felizmente como outros tantos dos seus compatriotas, predispos-se a ajudar um gajo que não conhecia de lado nenhum. Mas mais do que os seus compatriotas, p;os sentimento na cena, e foi isso que me comoveu.
               
Despedimo-nos, e eu fui dormir.

No dia seguinte acordei e meti-me a caminho. A outra rapariga que também tinha vindo no carro desenhara-me o trajecto, e segui o mesmo. Um senhor apanhou-me e quando eu lhe disse que queria ir para Erlian, mostrou-me umas caixas com o nome da mesma cidade. Fixe, percebi que estava à espera de alguém que ia para Erlian. Mas nada disso. Perdi meia hora à espera do autocarro. Bah. Lá bazei, e apanhou-me outro rapaz que me levou uma hora. As estradas era muito pouco movimentadas e isso, claro, atrasava-me. O frio era mais tolerável porque o sol raiava. Passo p’rai uma hora um carro parou e levou-me uma horita. Deixou-me numa vila, outro senhor apanhou-me, deu-me um saco de biscoitos e deixou-me passado um bocado. Eis que apareceu um camionista que me levou até Erlian. Finalment!e

quinze e trinta e cinco-quarta-vinte e oito de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo