terça-feira, 4 de outubro de 2011

Pequim II



Já era bastante tarde quando encontrámos o Nicola, que nos esperava na estação do metro. Dissemos os olás e metemo-nos no autocarro, para sair menos de dez minutos depois. O Nicola vive com o Fabien e estão ambos a fazer um estágio profissional cheio de intempéries, desde chegarem lá e afinal não poderem trabalhar onde era suposto, insinuar que eles eram como os franceses imperialistas. Cenas. A experiência deles não estava  ser do melhor, tanto que tinham um calendário na parede, tipo contagem decrescente para a altura de bazar. Pá mas também é certo que, pelo que me apercebi, não socializavam de todo com outra malta... e isso não ajuda.
               
O Nicola é robusto, usa óculos e tem duas tatuagens, uma enorme de um ragão na canela e outra de uma fénix no ombro. Talvez tenha sido o destino, porque eu andava já há algum tempo com a ideia de desenhar o mapa mundo no meu antebraço. Palavra puxa palavra combinámos ir ao gajo que o tatuou. Parámos para almoçar  no sitio onde eles sempre iam e que ia fechar nesse mesmo dia, apanhámos o autocarro, metemo-nos por um mercadito adentro, e chegámos à loja, um espaço com menos de quatro metros quadrados. Quando finalmente conseguimos imprimir a imagem, o gajo disse que não ia dar no braço com o tamanho que eu queria, demasiado detalhe e não sei quê. Pensei então em fazê-la no tronco, de lado. Acordámos um preço (ele pediu oitocentos yuan, acabei por pagar setecentos – em Portugal seria pelo menos cento e cinquenta euros, sendo que tenho tatuado no antebraço apenas as letras LFDY e custou setenta euros há quatro anos). Quando o gajo parou para descansar o braço tive a ideia de tatuar também, por baixo do desenho, “made in china”, em chinês. O resultado final foi muito porreiro, apesar de alguns erros que poderiam muito bem ser evitados caso o gajo olhasse para o mapa de vez em quando. É que primeiro ele passa um marcador no papel, e cola depois o papel à minha pele, deixando as linhas por onde ele tem de seguir. Mas é uma zona delicada, por isso às vezes difícil. Mas paciência... o gajo, talvez numa mensagem subliminar a apoiar um mundo mais unido criou pequenas pontes terrestres entre o Japão e a China, a Noruega e os países bálticos e a Grã-Bretanha e a França. Mas não me importo.
               
Quando saímos esperámos um pedaço pelo Fabien e jantámos os quatro num restaurante ali na zona onde, por quarenta yuan podíamos comer e beber tudo o que quisessemos. Muito fora do nosso orçamento para refeições, mas que se lixe, era uma excepção. Estivémos lá um pedaço e voltámos para casa.
               
Seguindo a tendência quase estranha que já se tinha estabelecido, a Lena também estava em Pequim. Tínhamos comunicado pela primeira vez no Camboja, encontrámo-nos no Vietnam, no Laos e fomos albergados pela mesma pessoa em Kunming, na China, por coincidência. Nesse dia em que fiz a tatuagem éramos para ir à Muralha da China. Mas a Lena queria vir connosco, e para nós era indiferente ir nesse dia ou no próximo, por isso esperámos.
               
Assim, no dia seguinte, encontrámo-nos com ela, o Matty e a Agnes e seguimos, em dois táxis. O Matty era um franco-italiano muito porreiro que estava a ser albergado pelo mesmo anfitrião que ela. Estava numa viagem mundo fora e o seu interesse era as harpas de boca, e o seu objectivo gravar pessoal de diferentes países a tocá-la. Para quem não sabe (porque eu, pelo nome, também não sabia), uma harpa de boca é aquela cena que um gajo põe diante dos lábios, de boca aberta para dar eco, e toca agitando uma peça, de metal de madeira dependendo da harpa. A vibração da peça ecoa na boca e faz ruído. O gajo tocou um pedaço. É mais ou menos. Não me fascina, apesar de me fascinar o projecto do gajo – andar mundo fora a gravar pessoal a tocar aquilo, incrível. Eu tentei e nem um som saiu. A Agnes é uma polaca nascida na Noruega que me contactou no couchsurfing, vendo que eu era um “viajante próximo de ti”. É artista de maquilhagem (não sei como dizer isto em português) e estava na China porque, um mês depois, ia para um mosteiro de kung-fu, onde passaria três meses, com treinos todos os dias, três vezes por dia. Altamente, requer alguma coragem. Se bem que inicialmente a minha ideia foi assim uma cena tipo Kill Bill. Mas não, o sítio é confortável, não é uma cama feita de espinhos de rosas com sida ou vidros de garrafas raivosas – tem internet e tudo. Mas ainda assim, requer uma grande disciplina. E o mais interessante é que aquilo não tinha nada a ver com ela.
               
- Se calhar ouves isto a toda a hora... mas deixaste-me a pensar pá... – disse-me, alguns dias mais tarde, na internet.
- Fico contente...
- Pois, mas eu não sei se isso é bom... – respondeu.
- Claro que é bom... um gajo se pensar no que anda a fazer e no que quer fazer está numa posição priviligiada para ser feliz... – isto veio porque eu perguntei-lhe, como faço muitas vezes com pessoal com quem já desenvolvi alguma intimidade, por mais pequena que seja, qual era o sonho dela. Ela tinha respondido algo que muita gente responde, e que às vezes me parece uma resposta de quem não sabe realmente. Tipo “continuar a ser feliz” ou “estou a viver o sonho”, cenas assim. Mas eu não sou o juiz do sonho, convenhamos, por isso que é que eu sei?
               
O Nicola tínha-nos recomendado um sítio que era muito menos turístico do que Bataling, e foi para aí que nos dirigimos. Num taxi fui eu a Lena e o Ilya, e noutro o Matty e a Agnes. Eu e o Ilya tínhamos cortado um bocado na casaca da Lena, verdade seja dita, mais ele do que eu, porque a conhecia melhor. Mas nada do outro mundo. Mas o gajo no táxi estava a ser um bocado duro com ela. A pobre miuda estava a falar do que tinha feito na China e o gajo, ora se ria, ora dizia algo tipo “Pedro, a viagem dela é sempre melhor do que a dos outros...”. Eu tentava mudar um bocado o assunto e dizer na brincadeira “Ilya não sejas mau pá...”, mas foi um bocado desconfortável.
               
- Pá ‘tás a ser um grande palerma com a Lena, vê se aligeiras um bocado méne... – disse-lhe, depois do almoço.
- É difícil, passámos muito tempo juntos... mas ok, ok, eu vou tentar – respondeu. Isto foi minutos antes de nos dirigirmos para a muralha. Aquela parte era algo tipo Water Great Wall ou uma cena assim. Não demos com o sítio que ele nos disse, mas não interessa, porque curti bués. Não estava à espera de algo tão incrível. Caminhámos um pedaço ao redor de um lago, e apareceu um casal no meio do caminho a cobrar dois yuan para passarmos. Ok, siga. Seguimos caminho, subimos e a dada altura apareceu um escadote para a muralha. Meio sem saber que cena era aquela, subimos. Demais. Ainda hoje não sei se é assim barato, ou se aquilo é uma zona que não está aberta ao turismo mas os locais exploram na mesma... é que tinha um sinal a dizer “esta parte da muralha não está aberta ao turismo” - iá, parece bastante claro.
               
Foi demais muito devido ao facto de só termos encontrado três pessoas, e andámos ali p’rai cinco horas. Primeiro uns chineses, que fumavam um cigarro no topo de uma torrezita e depois voltaram para trás (não sei antes terem a oportunidade de me ver nu), e depois uma holandesa (cuja nacionalidade adivinhei só de olhar para ela) que também não seguiu muito mais. Caminhámos um pedaço e o Ilya fartou-se e voltou para trás. Não percebo muito bem a cena dele. Quando estámos com mais gente, ele desaparece. Não sei se é de não estar muito à vontade com o inglês, ou que caraças é... Mas paciência, ele bazou e nós ficámos.
               
O que eu mais curti foi o facto da muralha não estar toda retocada e impecável como me disseram que estava em Bataling. Em alguns sítios estava mauzita, e noutra parte tínhamos de nos agarrar à parede para não cair. Tinha havido um terramoto ou uma simples derrocada e aquilo... não se podia dizer que eram degraus. Também é certo que noutras partes, por mais nova que estivesse, um gajo tinha de se agarrar na mesma – tinha uma inclinação brutal. Se um gajo tropeçava só parava lá em baixo. Curti, claro, o facto de termos a muralha só para nós e curti acima de tudo as vistas que tínhamos dali. Estava nevoeiro, e se isso, por um lado, nos roubava distantes cenários, oferecia-nos um benvindo misticismo. Parámos de vez em quando para descansar, como numa torrezinha das que vão aparecendo periodicamente e onde tirámos umas fotos engraçadas – uma delas eu, nu, de costas, numa posição de yoga cujo nome não sei. Parámos também no ponto mais alto que visitámos e deliciamo-nos com tudo o que nos rodeava. Tirámos mais umas fotografias, o Matty tocou um bocado a harpa de boca. Havia uma ameaça de chuva constante, mas não se materializou em mais do que uns chuviscos.
               
Voltámos, encontrámos o Ilya e pedimos um chá, depois de alguma consideração devido ao preço. Aqui até eu achei que o pessoal estava a ser mão de vaca à força toda. Era mais a Lena, para ser sincero. O chá para cinco pessoas custava vinte yuan. Além disso o Ilya tinha lá passado p’rai três horas sem consumir nada. E ela queria pedir água quente de graça e copos, e fazíamos nós o nosso próprio chá. Não aconteceu.
               
Como voltar para casa? Não sabíamos. Não passavam ali táxis. Bem, não passava ali quase nada. Por isso foi com agrado que avistámos um autocarro ao fundo. Corri para a estrada, perguntei se iam para Pequim, disseram que sim (de uma forma não muito convincente), pedi para esperar um bocado, a malta pagou e seguimos caminho. Porreiro, não tínhamos de pagar tanto como tínhamos pago pelo táxi. O pior é que quando o autocarro nos deixou nós não fazíamos a mínima ideia de onde estávamos. E demorámos p’rai meia hora até perceber que tínhamos de apanhar um táxi que nos deixaria na estação do metro que estava a hora e meia da nossa casa. Ainda assim ficou mais barato do que apanhar um taxi da muralha até Pequim... só que demorou muito mais.
               
Chegámos à estação, despedimo-nos e eu e o Ilya seguimos por uma linha diferente dos demais. Já gostava mais da Lena. Iá é uma chavala um bocado esquisita às vezes e não gosta de indianos, mas não é má de todo. E acho que ela também me curte, pela maneira como nos despedimos – senti que o seu abraço não era daqueles de “iá méne a malta vê-se”.

Quando finalmente chegámos à nossa estação, encontrámos o Nicola, como na primeira noite, mas desta feita por acaso. Voltámos para casa e passámos o serão à conversa e a ver uns episódios de uma série nova que o Nicola me tinha apresentado. Eu também fiz alguma pesquisa sobre o visto russo. E pronto, caguei-me um bocado. É que eu tinha lido a estória de um gajo que tinha arranjado o seu visto de trânsito russo, na Mongólia, em quatro dias. Mas agora lia outras pessoas a dizer que demorava de dez a catorze dias úteis. Um gajo quanto mais procurava mais encontra cenas para se lixar. Ora era tarde demais para eu tomar a opção fácil de ir de comboio até Erlian, na fronteira da China com a Mongólia. Por isso o melhor cenário era: sair de Pequim no dia seguinte, quinta, e chegar a Erlian, à boleia, no mesmo dia, setecentos e tal quilómetros depois. Na sexta de manhã pedir o visto mongol, ir buscá-lo à tarde, meter-me à noite num comboio para Ulan Bator, onde chegaria sábado. Se pedisse o visto na segunda, dia dezanove, tinha três ou quatro dias úteis. Má onda. Pá e completamente evitável. É que não precisava de ter passado quase um mês na China. Que cena. Será que me estava a tentar sabotar? Será que, algures dentro de mim, queria fracassar? Não sei. Claro que não queria, mas parece uma cena tão simples, que tem de haver uma razão pela qual eu tinha deixado escapar tal pormenor. Claro, muita informação diferente, muito do não-saber característico de uma viagem assim. Mas de todo o modo, foda-se...

Acordei no dia seguinte, e ainda tratei de algumas cenas antes de bazar. Tinha dormido no chão e não precisei de despertador para madrugar. Não me sentia muito positivo. Mal sabia eu que essa sensação se confirmaria... É que era uma grande esticada, e pelo que tinha visto no mapa, as estradas pareciam meio merdosas. Além disso, dessa vez estava a boleiar porque realmente precisava, não porque queria poupar guito e ter uma experiência porreira. E finalmente, dessa vez, eu também precisava de chegar no mesmo dia a um sítio, ao contrário das outras vezes, quando era mais “ah que se lixe, se não chego hoje, chego amanhã”. Que aconteceu? Em vez de chegar a Ulan Bator no sábado, que era o melhor cenário, cheguei terça...

catorze e vinte e um-quarta-vinte e oito de setembro de dois mil e doze
algures entre Ulan Bator e Moscovo






domingo, 2 de outubro de 2011

Pequim I


Chegar a Pequim não foi tarefa fácil, não foi não senhor... Tanto que só chegámos no dia seguinte. Teria sido a minha maior esticada de sempre, se não tivessemos dormido pelo meio um par de horas, daí, de certa forma, tornando a viagens numa de duas etapas. Muito técnino, eu.
               
No início até correu bem. Contrariamente ao que tinha acontecido em Chengdu, quando apanhámos um táxi e ainda assim tivemos de caminhar bué, desta vez o táxi deixou-nos mesmo à beira das portagens. E outra cena fixe foi que, contrariamente a outras vezes, deixaram-nos entrar a pé na autoestrada, em vez de nos “obrigarem” a aceitar a ajuda alheia. Não tardámos muito a arranjar um carro que nos levasse. E assim fomos andando todo o dia. Mas eis que São Pedro pensou algo tipo “estes gajos andam com muita sorte, vamos dificultar a cena um bocadinho” e brindou-nos com um chuveiro divino. Ora se na Europa eu tinha tido a impressão que até é melhor boleiar com chuva (o pessoal sente-se mais solidário), na China é precisamente o contrário. Um carro deixou-nos ali em Leça de Algures, e quando um gajo está molhado às tantas o chinês teme pelo eventual dano aos seus estofos. Foi frustrante pá. Após uma hora de polegar esticado, tentámos noutro sítio. Estávamos na autoestrada mas perto da entrada, onde os carros iam mais devagar. Assim, caminhámos pela entrada, fomos desembocar a outra autoestrada (em vez daquelas estraditas simpáticas que só servem de acesso) e metemo-nos debaixo de uma ponte. Outra vez um grande pedaço. Ainda pararam dois ou três, mas não iam na direcção de Pequim.
               
Mas pronto, um gajo arranja sempre, espere dois minutos ou duas horas. Apareceu este senhor, que até falava inglês, mas que ainda assim nos levou enganados. É que o caraças do gajo saiu da autoestrada. Eu perguntei e perguntei, e após derrubar-mos algumas barreiras na comunicação percebi que ele nos queria levar à estação de comboio. “Ai que já mafodes-te”. Ou seja, o que este senhor fez, por melhores que as suas intenções tivessem sido, foi levar-nos de um sítio mau para outro pior. Lá saímos do carro nas portagens, meio embaraçados porque sentia que o senhor assim se sentia, e tentávamos caminhar para a entrada, quando, como noutras vezes, as senhoras não nos deixaram passar. E foi o circo do costume. Vem um, vem outro, leêm o papel, chamam outro, eventualmente dizem para esperarmos que nos ajudam. Esperamos, depois dizem que vem aí a polícia para nos ajudar. Já deu para perceber que quanto menos envolvimento com a polícia, para mim, melhor. Por isso não curti muito a ideia, mas paciência. Uma das senhoras falava inglês e disse que podíamos esperar no prédio ali ao lado das portagens que parece ser tipo a sua base. Lá fomos, o Ilya tomou um banho, trouxeram-nos o almoço, tudo muito porreiro, não me posso queixar. Depois apareceu a polícia, pediu-nos os passaportes, tomaram lá umas notas, tiraram umas fotografias... primeiro apareceram com uma máquina digital, compacta. Depois uma maior. Depois uma câmara de filmar das pequenas. Quando dei por ela já estavam a montar um tripé onde assentariam outra ainda mais imponente. Cenas. Mas também os filmei a filmar-nos um bocadito.
               
O tempo passava e a ajuda prometida sismava em não aparecer. Tanto que, após muita negociação, a senhora deixou-nos avançar um bocadinho e ficar ali na saída que ia para Pequim. Ou seja, tínhamos perdido quase duas horas quando podíamos ter feito aquilo logo de imediato. Caminhámos com pressa até desaparecer do campo de visão deles, demos uma mija, e passado dez minutos estávamos num carro. Estes dois homens levaram-nos p’rai uma hora, até que parámos numa estação de serviço. Eu não estava com fome, mas eles quiseram pagar outra refeição, e não disse que não. Estes cotas deixaram-nos lá. Pelos vistos iam sair na próxima. Já era tarducho.
               
Esperámos um pedaço, apanhámos uma e outra até que, já o sol tinha ido dormir, deixaram-nos numa estação de serviço às onze e tal. A autoestrada estava bloqueada, por isso todos os carros e camiões tinham de passar por nós. Parece fixe não parece? Não foi. Era uma confusão tremenda, demasiados carros e barulho, mesmo que um gajo quisesse parar, tinha de se esforçar imenso para não bloquear o trânsito ou levar umas apitadelas. Nada cool. Andámos ali feitos pascácios p’rai uma hora, e percebemos que aquilo não ia dar. Lá p’rá uma da manhã fomos tentar a nossa sorte na estação de serviço. Bem foi uma grande treta aquilo, digo já. Andámos lá todos cheios de sono de um lado para o outro, e íamos sendo interpelados pelo pessoal que lá trabalhava. Queriam ajudar, ok. Mas ajuda como a que tínhamos tido no mesmo dia não era exactamente abençoada. Mas um gajo tem um limite. E quando nós alcançámos esse limite acedemos. Bem, o que nós percebemos foi que nos devíamos sentar lá dentro e que iam arranjar-nos uma boleia. O que é que aconteceu? Entrámos, sentámo-nos, “dormimos” duas horas até que o sol nasceu e voltámos para a saída da estação de serviço.
               
Apanhámos três ou quatro boleias, fomos seguindo e depois apanhámos boleia de um cota meio maluco a conduzir. Os chineses têm a puta da mania de ultrapassar pela direita. Pá e não é que seja assim um anjinho da estrada, mas gosto tanto disso como de cagar alicates. Pois estávamos nós nos belos dos nossos cento e quarenta quando nos aproximamos de um camião. Mas esperar um segundo e ultrapassar pela esquerda? Isso é p’rós cromos. O gajo mete-se pela direita e num segundo eu vejo uma roda do camião, do nosso lado, rebentar. No meu corpo celebrou-se o dia nacional da adrenalina. E se aquilo fosse um carro, em vez de um camião, ia tudo pelo caralho. Mesmo. O gajo desacelarou, emitiu um som qualquer, mas passado uns minutos estava no mesmo andamento.
               
Bem, apesar de tudo deixou-nos mesmo no centro de Pequim. Eu tinha as direcções de uma rapariga que tinha dito que nos podia albergar. Mas aquilo estava tudo uma salgalhada, porque primeiro tinha dito que vínhamos num certo dia, depois no outro, e depois mandei um mail mesmo antes de bazar a dizer que afinal o mais certo era chegarmos quando efectivamente chegámos. Foi por isso mesmo que a miuda acabou por não nos albergar. Ok., ok. Já eram quatro ou cinco da tarde, ela tinha feito outros planos. Os hostels em Pequim eram carotes (o mais barato por cinco ou seis euros), por isso fui dar uma espreitadela no grupo do couchsurfing. Estavam a falar em ir cortiré. Era sábado, por isso disse que sim, só precisava de encontrar um hostel. Uma rapariga respondeu a dizer que podíamos encontrar-nos com o resto na esperança de que alguém acabasse por nos albergar. Aqui eu fui um bocado rato. Expliquei assim por alto a nossa estória, e que tínhamos boleiado a China desde o sul até ali e tal... e como eu esperava, essa mesma rapariga, solidária com boleiantes, disse que nos podia albergar. Cool.
               
Era longe p’ra caraças, mas encontrámo-nos passado uma hora e tal. A Lily também tinha boleiado bastante, daí a solidariedade. Cresceu perto da Coreia do Norte, trabalhou uns anos numa engenharia qualquer, poupou algum guito e bazou por um ano. Andou pelo sudeste asiático à boleia. Agora trabalhava de novo, poupando mais algum dinheiro para se mandar outra vez, desta feita para o Médio Oriente e vizinhança. Curti a miuda e tenho pena de que não tenhamos passado mais tempo juntos. É que no dia seguinte ela disse que só nos podia albergar mais essa mesma noite porque aparentemente a cota vizinha se tinha queixado do barulho...
               
Nessa noite, a nossa primeira em Pequim, estávamos na dúvida entre ir ter com o resto da malta do couchsurfing ou ir jantar ali ao lado. Mas a prima da Lily, de vinte e dois anos, também estava connosco, e se fôssemos ter com o pessoal, ela não podia vir. Porque supostamente a Lily tinha de tomar conta dela. De uma chavala de vinte e dois anos que, descobri mais tarde, nunca se tinha emburraxado e era virgem! Pá entendo, é a cena chinesa, mas é espantoso, para mim. E até tenho um bocado de pena... porque é um adiar de bons prazeres da VIDA. O alcool nem tanto, porque por vezes não é exactamente o nosso melhor amigo. Mas de qualquer maneira, acho fascinante esta diferença cultural.
               
Outra cena chunga em relação à prima dela não poder vir connosco, é que tinha acabado de chegar. Pá eu confesso que não estava muito preocupado com isso. Tinha só um sábado em Pequim, curtia ir ver o que se passava. Mas o Ilya sugeriu irmos jantar ali ao lado, e eu percebi que eu era o único que estava mesmo filadinho. Mas foi fixe, curtimos na mesma. Jantámos espetadas, p’rai dez mil, bebemos não sei quantas cervejas e no final pagámos p’rai sete euros no total.
               
- Posso beber mais uma cerveja? – perguntava a Lily de vez em quando.
- Pá eu não sou teu pai... – eu respondia. Mas se calhar devia ter dito “não”. É que a miuda passou o dia seguinte todo na cama, de certa forma dando razão ao parágrafo ali em cima onde digo que o álcool nem sempre é o nosso melhor amigo.
               
Depois de jantar ainda ficámos à conversa a beber mais umas cervejas sentados no jardim do seu prédio até o sol raiar. Foi uma noite porreira, apesar de não nos termos entregue verdadeiramente à cidade.
               
No dia seguinte andámos por Pequim um bocado. Acordámos tarde, fomos até à Praça Tianamen, fomos até à cidade proibida mas não entrámos, porque estava a fechar. Demos mais umas voltas, jantámos, e voltámos para casa. Passei a noite de volta do meu comboio para Moscovo. Estava mau, aquilo. Segundo o Ilya, não havia lugares disponíveis no comboio de Ulan Bator para a capital russa. O que era mau, muito mau. Havia alguns do Casaquistão, e isso ainda me passou pela cabeça. Mas tinha de me mandar num instante para Urumqi, cidade chinesa perto do país do Borat, pedir o visto, esperar seis ou sete dias úteis, depois chegar até Astana... não, não ia dar. Se tivesse todo o tempo do mundo dava, sem problema. Mas se tivesse todo o tempo do mundo também podia ir até à Mongólia, ver se dava, e depois voltar para trás...
               
Na manhã seguinte encontrei o número de uma agência de viagens e perguntei acerca dos bilhetes. A senhora disse que havia, o que era óptimo, mas que eram duzentos e sessenta dolares. Ora eu tinha lido acerca de um gajo que tinha pago duzentos e vinte uns meses antes. Claramente os quarenta dolares eram comissão. O que eu entendo, claro, mas era um bocado pesado. Então, por razões que não entendo, decidi esperar e não disse à senhora para comprar os bilhetes até alguns dias mais tarde.
               
Nesse dia fomos ao Summer Palace. Adorei. Incrível e gigantesco. O Ilya não partilhou da mesma opinião. Andava a arrastar-se e a criticar o facto de termos de pagar para ver algo – não pelo preço em si mas pelo princípio – e eu sugeri que nos separássemos e nos encontrássemos duas horas depois. Iá, devia ser grátis, engloba um lago e um monte porreiro, e muitas outras cenas. Devia, mas não é. Mas já que não é não é, que se lixe, acho que não deve impedir-nos de curtir. E eu curti.
               
O resto do dia foi irmos buscar as nossas cenas a casa da Lily e irmos ter com o Nicola, o nosso próximo anfitrião, que vivia a quase duas horas do centro. O Ilya estava com a paranóia de que a cota do outro quarto no apartamento da Lily não tinha dito nada e que a miuda simplesmente não nos queria albergar. Mas não tive essa impressão de todo.
               
Bazámos, metemo-nos no metro e passado um montão de tempo encontrámos o Nicola.

dezanove horas-terça-vinte e sete de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo






sábado, 1 de outubro de 2011

Aqui Dentro


Estou na Mongólia. Que cena. Estou aqui sentado, estive lá fora há bocado. Senti o friozito na pele, delirei a ouvir aquela faixa, voltei para dentro. Que cena. Sinto-me tanto. Sinto-me perfeitamente. Longe de perfeito mas perfeitamente me sinto. Como curto viver. Estes segundos são fundamentais para o meu ser.  Às vezes, como qualquer sistema, vou abaixo um bocado e funciono a meio gás, nem sei bem porquê. Mas essas vezes talvez existam para eu não tomar os segundos como garantidos. Tudo é meu, se eu quiser. Sinto que o meu coração a ser freneticamente embalado por esta música que ouço e sei, neste momento, que tudo isto que me rodeia e que me preenche é divino, criado não por algum deus mas pela divindidade da circunstância, sorte e audácia. Sinto-me bem. Sinto-me criança aqui dentro, sinto-me inteiro, como se nunca tivesse perdido nada desde que nasci, como se cada peça se tenha acumulado num puzzle difícil de compreender e maior do que o meu olhar.

Quero isto para sempre. Quero uma VIDA assim. Independentemente do que me faz feliz, de onde estou feliz, quero para sempre sê-lo. Quero viver cada dia como uma novidade, quero sorrir e chorar, quero andar à chuva sem protecção, trepar paredes e árvores. E cair de vez em quando. Quero ouvir música para sempre. E quero que ela me faça sentir como sempre me fez sentir.

Sou eu, aqui. Aqui e aí. Aqui dentro sou eu, não importando onde se passeia o meu corpo. Os desafios a que me proponho são fundamentais, mas será fundamental os desafios seguirem por linhas comuns? Nada disso. Cada dia é eterno, e o desafio é esse. Ver nestes ciclos que passamos a cada vinte e quatro horas algo que nos mantenha a sorrir. Não importa se estou em Portugal, ou se estou na Mongólia. O desafio não é esse. O desafio é o quase constante sorriso, o desafio é o arrebatar do nosso coração. Se me arrebata aqui, ou ali, isso não importa. Importa-me que me arrebate, isso sim. Por isso me quero entregar-me a mim mesmo, abrir-me como um livro e nunca deixar de falar esta língua.

Ah, estou bem, sinto-me bem.

quatro da tarde-segunda-vinte e seis de setembro de dois mil e doze
Ulan Bator, Mongólia

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Xian



Os condutores perguntaram onde queriam que nos deixassem em Xian e eu disse que ali na zona do quarteirão muçulmano estava bem. Não foi muito boa ideia, porque estávamos um bocado partidos, e tivemos de caminhar um bom bocado. O Ilya é um gajo demais, por acaso. Não tivemos tripe nenhuma. E o gajo não stressava com nada. É claro que, por exemplo, nessa noite disse “devias ter dito ao méne para nos deixar mais perto” mas sem stresse nenhum. Não é que fosse uma situação que o exigisse, mas às vezes quando a malta está cansada stressa por tudo. A primeira vez que reparei nisso foi nos Estados Unidos, em dois mil e um. Foi a malta toda do liceu, festa (da pura, não da boémia dos tempos que correm) toda a noite, e no dia a seguinte a falta de sono punha o pessoal com o limiar do nervo perto da testa – o que quer que isso signifique.
               
Assim, vimos no mapa um hostel que parecia porreiro e barato, e seguimos caminho. Entretanto fiquei sem bateria no computador, e aquilo não estava fácil. É que já tínhamos caminhado uma hora e apesar de parecer estarmos perto, não tínhamos a certeza. Foi por isso que sorrimos ao ver o hostel aparecer ao fundo. Não era aquele que procurávamos, mas que interessa? Como em Chengdu, os preços tinham subido exponencialmente desde dois mil e sete. Era um hostel espetacular também, cheio de estátuas a imitar os guerreiros de terracota, tudo em estilo chinês, e paredes brancas cobertas com assinaturas, dedicatórias e desenhos de malta do mundo todo (não vi nenhum tuga). Mas apesar de toda essa fixeza, a última coisa que fiz antes de ir para a cama foi mandar uns dez pedidos no couchsurfing.

No dia seguinte acordámos e vi, mesmo a tempo de fazer o check-out, uma mensagem da Barbara a dizer que, se ainda fosse a tempo, nos podia albergar. Bacana. Arrumámos as cenas, pedimos à malta do hostel para a guardar e fizemo-nos à cidade.
               
Tínhamos conhecido por alguns minutos na noite anterior o David, da Col;ombia e o Dave, um méne de ascendência filipina, mas supostamente do Canadá. Conhecemo-los quando estávamos já a adormecer na noite anterior e entraram quarto dentro preparados para continuar a festa. Um encontro de cinco minutos. Pois nesse dia convidáram-nos para irmos almoçar, e de repente éramos oito pessoas, eu o Ilya, os dois Davids, um alemão e três norueguesas. O David colombiano era um gajo muito boa onda, porreiraço. O Dave “canadiano” queria ser fixe, mas esforçava-se um bocado. O meu instinto não apontava p’ráquilo. Além do mais acho que nos estava a tentar pregar uma grande peta. Falou da mansão que os seus pais lhe deixaram nas Filipinas com mordomos e não sei quê, e apesar de dizer que era canadiano, não tinha sotaque e de vez em quando dava uns erros. Eu disse-khe, sem problemas, que achava que ele nos estava a mentir. Ele não disse nada.
               
- Já estiveste na Mongólia? – perguntei, quando ele o tinha dado a entender.
- Já.
- E que tal?
- Muito foleiro, não tem nada aquilo, não tem McDonalds, não tem KFC,... – não preciso de dizer mais nada.

Andámos pela cidade essa tarde. Parecia que, a nível de grandes cidades, a China estava a ficar melhor. Kunming foi foleiro, Chengdu mais fixe e Xian mais ainda. Isto apesar de não termos visto a grande atracção de Xian, que são os guerreiros de terracota. Não sabíamos se queríamos ficar outro dia, e era um bocado caro. E, acima de tudo, muita gente dizia que era um bocado sobre-estimado. Pelo que decidimos deixar p’rá lá isso.
               
Lá p’rás seis e tal voltámos ao hostel para ir ter com a Barbara. A chavala chegou e foideu-se um clique de imediato. Estávamos super à vontade, e só de vez em quando fazíamos as perguntas do bufo que se faz a toda a gente quando se acaba de conhecer. É uma miuda muito especial. Tem vinte e seis anos e é o tipo de pessoa que vive com as suas próprias regras. Um espírito livre da Holanda que é professora de inglês à custa de um certificado falsificado por que pagou quarenta dólares. Tem também uma formação de assistente social que não é exactamente legal. Mas que posso dizer? Estou enviezado... porque parece o tipo de cena que eu se calhar criticaria, mas no entanto não sinto vontade de o fazer, talvez por curtir a rapariga.
               
Depois de um par de cervejas fomos para sua casa beber outras mais e ficámos lá no relax, até que fomos sair. Nos entretantos ainda mudámos a mobília à rapariga. O Ilya tem destes flashes de espontaneidade que curto.
               
- Blá blá blá e um dia destes quero mudar a mobília, p;or isto aqui e aquilo ali, blá blá blá – dizia a Barbie.
- Ok. Porque não agora? – perguntou o Ilya.
- A sério?
- Iá.

 Pelos vistos a noite de Xian é no hostel para onde eu e o Ilya íamos originalmente, hostel esse que é do outro lado da rua de onde acabámos por ficar. Não me lembro do nome, mas boa cena. Chegámos lá com as nossas bebidas, ficámos um bocado na parte do restaurante. Eu já estava a curtir bué só estar no restaurante, por isso foi com agrado que descobri que aquilo ainda nem era a noite noite. No bar encontrámos a malta da tarde, o colombiano e companhia. Passámos a noite entre o bar e a parte cá de fora ao fresco e onde o pessoal podia fumar. Malta de todo o mundo, bem como mutos chineses reunia-se ali, e falava-se de tudo e de nada, trocavam-se impressões com pessoas que nunca mais vamos ver, um pouco de tudo aquilo que eu curto bué.
               
O final da noite foi curioso. Estávamos num daqueles snacks de burraxola lá p’rás cinco da manhã num “restaurante” de rua, e houve uma tripe qualquer não sei onde. Um dos ménes mandou mensagem à Barbara e ela começou a flipar um bocado porque tinha de ir, apesar dos outros dois que estavam connosco dizerem para ela cagar no assunto – mais tarde, quando souberam que a tripe era no prédio deles e entre amigos deles já não achavam o mesmo. Mas a miuda estava um bocado naquela acerca de deixar os seus couchsurfers e não sei quê.
               
- Miuda, sem problema, – disse eu – tu faz o que tens a fazer, nós por cá estaremos – e assim ela o fez. Foi e veio num ápice. Nem sei que cena foi nem me interessa. Alguém que se estava a fazer à futura ex-mulher de outrém e merdas assim.
               
No dia seguinte íamos bazar para Pequim. Como diria a minha avó – p’óch!e (vem de “pois sim...”, caso não tenha dado para perceber). Acordámos às quatro da tarde, estava a Barbara a chegar a casa depois de um dia inteiro de trabalho. Arranjámos algumas cenas, tomámos banho, e eu e o Ilya fomos dar uma volta pela cidade. A Barbie tinha de se encontrar com uma amiga, por isso combinámos encontrarmo-nos mais logo no bar.
               
Mas desta feita a Barbara estava um bocado destruída e o Ilya não estava a fim de uma noitada. Jogámos um bilhar um par de horas, ela foi embora, mais uma horita e foi-se o russo. Eu fiquei com o Mario, italiano, e o Igo, belga, com quem estávamos a jogar bilhar. Curti muito o Igo, um gajo que trabalha a editar documentários e que fez um com um conceito brutal. Ainda na Bélgica, pegou num grupo de pessoas que não dispõe dos mesmos recursos que nós – dois ou três paraplégicos e um cego – e foi com eles, de carro, até Málaga, onde eles perderam a virgindade com prostitutas. O documentário chama-se Hasta La Vista. E eu acho uma ideia brutal. E é uma cena em que acho que nunca tinha pensado. Devido às óbvias circunstâncias, estas pessoas passam completamente ao lado de certas experiências que não nos cansámos de referir, como, bem, caminhar, ou ver, mas passam também completamente ao lado, por razões mais indirectas, de experiências que, quiçá para nós é melhor não pensar, como foder. Mas umas são possíveis, no fundo, e porque não fazê-las acontecer? Falei-lhe de duas ideias que também tenho que dariam documentários muito bons e que proporei mais tarde a quem ache que possa estar interessado, e ele deu-me um contacto que ainda não explorei. Nunca se sabe.
               
Mas assim, conversa aqui, conversa ali, a noite acabou, e eram três da manhã, o bar a fechar e eu ainda ali... e tinha de acordar às sete para começar a boleiar para Pequim. Parece mau, não parece? Mas não é. Porque mau, mau, foi não ter encontrado a casa e dormir duas horas na rua deitado à entrada de uma loja. Parece que não está a funcionar a minha estratégia de me convencer que sim, posso ser bom com orientação. E ainda por cima a Barbie desenhou-me um mapa! E eu andei ali, caminhei duas horas sem parar, voltas e mais voltas, corri aquela merda toda e nada pá. Cheguei a apanhar um táxi, reconstitui a caminhada que eu e o Ilya tínhamos feito nessa mesma tarde e... fui ter excatamente ao mesmo sítio onde tinha apanhado o táxi. Que será que o taxista pensou? Bem, quando acordei, caminhei um pedaço e percebi que tinha cometido um erro que tinha lixado tudo. Não era aquela passagem subterrânea, mas a outra antes dessa.
               
Lá dei com o sítio. Eles partiram-se a rir, depois de expressarem a sua surpresa. You win some, you lose some.
               
Chuveirada na benta, ala para Pequim.

vinte e uma e cinquenta e cinco-segunda-doze de setembro de dois mil e doze
algures entre Erlian e Ulan Bator