terça-feira, 2 de agosto de 2011

Siem Reap


Passei mais umas três noites em Bangkok e não se passou grande coisa. Só saí daquele bairro uma vez. Logo no primeiro dia, apesar de ter enviado algumas mensagens à Sofia via facebook, encontrámo-nos casualmente no mesmo restaurante de sempre (onde, nos restantes dias, jantámos e almoçámos quase sempre).
               
No dia seguinte apetecia-me cortiré. Tínhamos combinado beber uns copos e eu soube de uma festa em casa de um couchsurfer e pensei em ir. Mas mais tarde a Sofia já não estava muito p’raí virada e acabei por ir sozinho. Estavam lá p’rai quinze ou vinte pessoas e foi porreiro, mas acho que se não estivesse lá um casal britânico com quem me dei muito bem, não seria tão fixe. Se bem que um gajo arranja sempre maneira de se relacionar com a malta... O Johann, que sinceramente não sei muito bem de onde vem (tem aspecto indiano) vive lá sozinho, numa casa de três andares num bairro de luxo. Acabei por passar lá a noite e no dia seguinte apanhei um táxi de volta à zona onde mergulharia mais uns dias.
               
Dia 12 de Julho íamos ter a nossa “festa” de despedida. Jantámos, a Sofia comprou uma cerveja, eu comprei uma Hong Thong e sentámo-nos lá num canto à conversa. A noite foi fixe, e passou-se não sei muito bem como, porque quando dei por ela o sol raiava. A dada altura, estávamos lá à beira de um grupo de modelos que curtiam mostrar a sua juventude traduzida em abdominais e traços delineados (nada contra) e um gajo vira-se p’ra mim, do nada, e diz: “Pá quem me dera ser como tu!”. Aquilo caiu-me como uma bomba. Isto porque, primeiro, veio assim do nada, e segundo, o gajo até parecia alguém confiante e tudo mais. Tive de perguntar porquê. Estava com alguma dificuldade em ouvi-lo e afastámo-nos um bocadinho e estivemos a falar cerca de uma hora.
               
O gajo era um professor de inglês que se sentia um tanto ao quanto perdido na VIDA. O que notei logo de imediato foi em como ele se definia um pouco através dos seus alunos. Qualquer coisa que visse à baila, ele dava um exemplo, ou de um aluno seu, ou de algo que tinha feito com os alunos. Algures na conversa eu desafiei-o a passar o resto das férias sem dizer a palavra “aluno”. Podia dizer “pupilo”, ou fosse o que fosse, mas não podia dizer a palavra “aluno”. Isto porque acho que, caso ele leve a cena a sério, como disse que levaria, pode aperceber-se do quanto fala deles. Ou seja, não é propriamente para melhorar o seu vocabulário e descobrir sinónimos da palavra, ahah, mas para perceber o quão frequente aquele conceito aparece no seu discurso. Tinha também rompido com a sua namorada, e aquilo afectara-o bastante.
               
- Aliás – dizia-me – eu vim p’ráqui um bocado naquela de me encontrar, para ter tempo para pensar nas cenas – apesar de ser um bocado cliché, não importa, no esquema real das coisas, porque apesar de tudo o gajo era alguém que se sentia à deriva e que estava a tentar fazer algo acerca disso, ainda que esse algo adviesse talvez de estórias ouvidas e romances afim – fugir para me encontrar. Eu acho muito importante, e já aqui o disse várias vezes, que a nossa felicidade e auto-conceito seja independente das circunstâncias que nos rodeiam. O que acontece por vezes é que depositámos tudo de nós nas pessoas às nossas voltas e nas coisas que possuímos. E quando as perdemos sentimo-nos perdidos, e é um cabo dos trabalhos. Falámos um bocado acerca disso e senti-me contente, porque o gajo sentiu-se inspirado. Claro que há aqui um egoísmo meu, sentir-me bem por ter tido o poder de o ajudar a sentir-se melhor, mas não me interessa.
               
- Pá esta foi das conversas mais inspiradoras que tive! – disse-me, no final – E acredita que não me ficou indiferente e me ajudaste bastante – Perfeito! Despedimo-nos, trocámos contactos, e cada um seguiu o seu rumo.

No dia seguinte ia bazar para o Camboja, mas os efeitos da noite anterior não o permitiram. Deixei-me então ficar no relax, com a intenção de ir no dia seguinte. Eu e a Sofia já nos tínhamos despedido e tudo, naquela amena e calorosa bebedeira, mas pronto, os ditos não ficam não-ditos porque há um dia de atraso.
               
Dia 13 de Julho, acordei com a Sofia a despedir-se, e acordei com ela outra vez, duas horas mais tarde, toda desafogada, à procura do seu passaporte. Apareceu e desapareceu em dez segundos. Jackpot para o taxista que a trouxe. Eu estava na dúvida se boleiaria ou não, mas decidi tentar a minha sorte. Acordei, fui trocar dinheiro, paguei o hotel, e pus-me a caminho do metro. Tinha visto no google maps uma estação que me parecia já fora da cidade. Não era. Nada mesmo. Por isso estava um bocado sem saber o que fazer. Ainda assim. lá fui caminhando em direcção a onde eu pensava que a estrada era.
               
Contudo, lá debaixo de uma ponte por onde passei, tinha algo que me parecia ser uma estação de mini-autocarros. Perguntei como é que era, e passado vinte minutos estava num mini-autocarro a caminho da fronteira.
               
Quando cheguei, apareceram logo os abutres. Tinha visto que se tirava o visto na fronteira, pagando 25$. Mas aparece logo um méne que me dá um papel e me leva para a sua agência de viagens a dizer que não, que na fronteira (que era a cem metros) o que eles fazem é dar o carimbo, o visto tem  de ser ali. Felizmente resisti e bazei. Encotrei um casal de franceses e falámos em partilhar um táxi até Siem Reap (terra do Angkor Wat) que um rapaz se aprontou em oferecer, por 40$. Entrámos lá no edifício onde se tirava o passaporte e dizia, no cimo da cabine onde estava um dos guardas, que era 20$. O preço que eu tinha lido devia ser para americanos, não sei... Ainda assim, como era esperado, o polícia tentou pedir mais três euros para uma taxa qualquer de se tirar na hora. O gajo nem sequer tinha um papel imprimido com aquele couro – tinha um post-it! Eu sorri educadamente, disse que só tinha 0,5€ (isto tudo em dinheiro tailandês) e acabei por não dar nada.
               
Os franceses não estavam a fim de ir com o rapaz que nos interpelara acerca do táxi, e que esperava lá fora. Mas eu senti-me um bocado mal em saber que ele estava à espera e simplesmente bazar. Por isso fui dizer-lhe que, afinal de contas, já não íamos com ele. Isto acabou por ser fixe, porque ele manteve-se connosco, e através da boa negociação do Fabian, o francês, acabámos por ir no seu táxi, por 25$, todos.

Os gajos ao início pareceram um bocado arrogantes, especialmente a rapariga, mas acabaram por até serem porreiros, apesar de se manter um nico daquela arrogânciazinha. Tínhamos falado em partilharmos uma tuk-tuk no dia seguinte para irmos a Angkor Wat, mas quando chegámos a Siem Reap e eu perguntei se eles sempre queriam o gajo sai-se com uma “Bem, por mim... quer dizer... é que nós queremos ir lá p’rás cinco da manhã...”. Eu disse que isso não era crise p’ra mim, e quando a rapariga também se pôs com couros de “ah e tal mas depois onde é que nos encontrámos e não sei quê” eu disse ok tá tudo. Claro que podia dizer algo tipo “pá isto não é assim tão grande, se for para ir às X horas eu venho cá ter”, mas percebi que eles não estavam muito p’raí virados.
               
Senti-me um bocado rejeitado, o que é estúpido. Bem, é um sentimento, não pode ter nada de estúpido, mas o que é, é que o digo com aquela vergonhita de puto. Mas isto acabou por ser fixe, porque permitiu-me conhecer o Martin, com quem ando agora.
               
Pedi ao táxista para me deixar num hotel barato.
- Tipo 5 ou 6 dolares? – perguntou?
- Não, mais tipo 3 ou 4... – respondi.
- Pois eu desses não conheço, mas vamos ver... – e fomos andando e ele deixou-me à porta do Backpacer’s Hostel, para eu ir ver. O gajo disse-me que um quarto eram 7 dolares, mas quando insisti no mais barato que tinham, ele disse que no dormitório eram 2 dolares! Perfeito! Um hostel porreiro, com internet, por 1,5€ num dormitório mas com cama de casal! Despedi-me do táxista, que era um gajo fixe, jantei no hotel ao lado, e estabeleci-me no Backpacker’s Hostel.

Passado um pedaço apareceu o Martin. Perguntei-lhe se ele ia a Angkor Wat no dia seguinte, disse que sim, e perguntei se não queria partilhar uma tuk-tuk. Ele disse que era na boa, e que tinha também combinado com duas senhoras das Filipinas que conhecera no Vietname. Ficámos p’rai duas horas à conversa, sendo que as nossas camas eram uma depois da outra.

O Martin é um checo de 28 anos,  é professor de educação física e inglês. Ou pelo menos essa é a sua formação, ainda que não o exerca. Fez erasmus em Inglaterra, passou um ano no Canadá a trabalhar numa estância de ski como massagista, numa loja e noutra altura do ano num McDonalds. Já fez inúmeras roadtrips pelos Estados Unidos (incluindo uma até ao Belize), a viver no carro, e só não visitou dois estados! Agora vai passar um ano na Nova Zelândia, a fazer seja o que for. Teve de ir ao casamento do irmão, na República Checa, e então aproveitou para dar uns saltinhos entre o Laos, Vietnam, Malásia e Singapura. É um gajo muito porreiro. A nível de aspecto, é tipicamente checo, alto, louro mas de cabelo rapado, olhos claros. É um gajo calmo e observador, que também não curte exactamente aquela atitude tipicamente turista. Reparei, e ele disse-o, que curtiu muito o meu projecto, e eu agradeci, meio sem saber o que dizer. É estranho quando elogiam a minha viagem, sinto-me meio envergonhado.         
               
Ficámos logo amigos, e no dia seguinte, de manhã, fomos ter com as Filipinas.
               
A Janet, mais nova e mais faladora, e a Joy, sua irmã são duas irmãs muito baixinhas das Filipinas, duas senhoras encantadoras e vivaças que gerem uma escola no seu país. Têm também uma característica que achei muito engraçada e peculiar... Há pessoas assim, mas nelas era algo muito vincado. Daquele tipo de pessoas que está sempre a tentar acabar as frases dos outros, talvez num esforço inconsciente de agradar, sendo que “adivinhou os pensamentos”. Às vezes parecia que tudo tinha de ter um comentário, como se houvesse um canal directo entre os pensamentos e a voz. Interessante.
               
Arranjámos lá uma tuk-tuk por 12 dolares e seguimos para Angkor Wat. E o que foi Angkor Wat para mim? Talvez a cena mais espantosa que já vi!

Primeiro ficámos no Angkor Wat propriamente dito, íamos ver a cena, e depois o méne da tuk-tuk levava-nos a outra área, ainda dentro do mesmo complexo. Pagámos os 20$, andámos por lá p’rai duas horas. Monumentos e templos milenares, ladeados por extensos relvados e palmeiras, excelente. Mas eu flipei mesmo foi com a área seguinte. Aí era mais tipo uma cidade, pejada de templos, cada um mais impressionante que o outro. Começou a chuviscar, havia uma brisa no ar, estávamos em low-season – só factores que tornavam aquela experiência singular. Tentava imaginar as pessoas a construir aquilo há tanto tempo, a viver ali, a rezar ali. Mas aquilo era tão mágico que não conseguia deixar de, eu próprio, inventar estórias e cenários do que aquilo me inspirava. Caminhava aleatoriamente no mato e aparecia um templo sem intenções de disfarçar a sua idade, carregado de musgo e carisma.

O último templo que vimos foi uma apresentação do que o Homem e a Natureza conseguem alcaçar juntos, ainda que por acaso. Um templo espetacular, com árvores a crescer dos seus telhados. Isto fazia com que as suas raízes caíssem ao redor dos mesmos, abraçando-os mas sem os destruir. Incrivel mesmo. Imaginem uma árvore de vinte metros, com raízes mais extensas ainda, como cobras curiosas, a entrar e sair de janelas, a contornar pilares. Incrível!
               
Hoje em dia viajar não é muito complicado, difícil ou caro. Por isso acho quase um pecado morrer sem ver aquilo.

Nessa noite, depois de tomarmos banho e relaxarmos um bocado, fomos todos jantar. Foi agradável, comi muita bem, incluindo, pela primeira vez, rãs! Despedimo-nos, elas bazaram, e eu e o Martin fomos beber duas cervejas ali ao lado.

14h49-s-16-7-11
algures entre Phnom Penn e Sihanoukville

sábado, 30 de julho de 2011

Boleias [1800km em Dois Dias, WTF?]


Dia 7 de Julho acordei para o que seria a minha maior esticada boleiante de sempre. Fizemos 790km! Incrível! No final desse dia a Malásia ficaria para mim como o melhor país para andar à boleia. Isto porque eu não sabia o que o próximo dia me reservara...

Acordámos lá p’rás sete em Singapura, curtíamos chegar à Tailândia, era demais atravessar a Malásia só de uma vez. Um desafio que não consegui concretizar, por 60km, e porque a Sofia já tinha dado o tilt.
               
Tomámos o pequeno-almoço, vi na net com teríamos de fazer, e seguimos. Para sair de Singapura não valia a pena boleiar, porque Singapura é uma cidade, e para sair das cidades geralmente é preciso um meio de transporte qualquer que seja organizado – metro, autocarro, etc. Caminhámos até à estação de autocarro e apanhámos um por cerca de um euro. Esperámos ainda um bom pedaço, e lá arrancámos. Chegar à fronteira, esperar na fila para dar os passaportes, e depois esperar por outro autocarro (com o mesmo bilhete) para sair da zona fronteiriça levou-nos mais de duas horas. O tempo estava a passar e ainda nem tínhamos começado a esticar o dedo. Afigurava-se difícil...
               
Chegámos à estação de autocarros e eu, que tinha de ir atento para ver o melhor sítio, percebi que havia umas placas com E2 – a autoestrada que queríamos. Porreiro. Caminhámos vinte ou trinta minutos e estávamos num semáforo. Aí, o segundo carro levou-nos logo. O casal foi fixe e deixou-nos mesmo na autoestrada, ainda que não fossem p’raí originalmente. Aí apanhou-nos um chavalo todo bacano que ia uns cem quilómetros. Ele parou numa estação de serviço e a Sofia decidiu abordar outra malta, e acabou por nos arranjar uma boleia que ia mais longe do que a desse méne. Corria tudo perfeitamente! Fomos com este carro, que connosco ia cheio, p’rai uma hora e tal. Quando nos deixaram fomos apanhados por dois homens numa carrinha que também nos levaram um bom pedaço e nos deixaram fora de Kuala Lumpur. Como quando um gajo boleia está sempre sujeito a azares (e o mais provável é acontecer sempre um ou outro), o nosso azar do dia foi a chuva. É que os gajos iam deixar-nos ali num sítio bacano para encontrar pessoal que fosse sair de Kuala Lumpur. Mas eis que começou a chover torrencialmente, e tivemos de ficar na estação de gasolina antes da capital. Lindo serviço, toda a gente ia para KL.
               
A Sofia foi comer qualquer coisa e eu fiquei nas bombas de gasolina. Estive lá p’rai duas horas, interpelei centenas de pessoas, até que avistei este gajo com uma camisola com o símbolo de Portugal. Foi sinal – ele levou-nos p’rai duas horas! O gajo tinha condutor, um símbolo especial ao redor do símbolo da BMW, e tinha um autocolante a dizer VIP no vidro. E quando passei pelo condutor, para entrar no carro, ele sussurou-me ao ouvido “ex-police”.
               
A dada altura disse à Sofia para falarmos mais baixo porque parecia que o gajo queria dormir.
               
- Engraçado... parece que ‘tás um bocado cheio de coisas só porque ele supostamente é um gajo importante... -  e estava! Que estupidez! Geralmente não sou nada assim. Então pus-me logo aos berros! Estou a brincar. Mas de todo o modo, como dizia, achei interessante aquele meu comportamento e é algo que não defendo por um segundo, apesar de eu próprio me ter apanhado assim
               
Estes deixaram-nos numa estação de serviço, e passado um pedaço apanhámos outros que nos deixaram numas portagens. Não estávamos a ter muita sorte quando um carro meio podre, lá ao fundo, parecia esperar por nós. Aproximei-me e quando perguntei ao indiano que conduzia para onde ia, ele perguntou-me a mim, sem responder. Eu disse Alor Satar, uma cidade perto da fronteira, e ele disse ok. Fiquei um bocado naquela, e a Sofia ainda mais naquela quando lhe disse que o gajo, na verdade, não tinha dito para onde ia. E aquele carro não ajudava – é um bocado estupidez também. Não que tenhamos julgado a cena pelo preço do carro, mas pela maneira como estava em geral. Aquela falta de asseio induzia uma desconfiançazita. Tanto que, pela primeira vez, sento que devia dizer que estávamos à boleia, e que não queríamos pagar.
               
O gajo acabou por ser muito porreiro. Sempre a falar de amor e família como muitos indianos que já conheceramos, até nos convidou para ficarmos em casa dele. Levou-nos até à portagem, onde meia hora depois apanhámos a nossa boleia final. Um camionista que só falava tailandês e que o fazia de uma forma que parecia estar a ter um ataque epiléptico. Engraçado. Foi um cabo dos trabalhos entendermo-nos com o gajo, porque ele também não parecia ser muito esperto. Mas pronto, levou-nos até a Alor Satar.
               
Quando chegámos ainda pensei em seguir, estávamos pertinho da fronteira (60km mais ou menos), mas a Sofia já estava rebentada. Saímos, caminhámos em direcção à cidade, estacionámos lá num cantito de dedo esticado, mas já era noite, a cena não parecia muito famosa. Mas há malta fixe em qualquer lado! Apareceu um casal numa scooter a perguntar que se passava. Quando lhes dissemos, disseram para esperar que iam buscar o carro. O gajo apareceu dez minutos depois, levou-nos a um hotel (se não gostássemos levava-nos a outro sítio) e foi-se embora, depois de um abraço agradecido.

No dia seguinte acordámos nas calmas, bebemos qualquer coisa, e começamos a boleiar bastante tarde. Onze e tal. Fomos andando sem problema até à fronteira, passámo-la, e a Sofia decidiu que ia apanhar um táxi até Hat Yai e daí um autocarro para Bangkok. Fiquei eu então sozinho. Ia acabar por bater o recorde do dia anterior e fazer 1030km de boleia num dia. Foi perfeito, sem erro nenhum!
               
Apanhei uma boleia de uma senhora p’rai de vinte minutos. Depois, num semáforo, outro senhor. E depois apanhei logo uma que me levou bué de tempo. Iam para depois de Pattalung. Perfeito. Quando saí desta, dei uma mija e apanhei logo um camionista. Andámos um pedaço, ele deixou-me e entrei logo na parte de trás de uma pick-up que me levou p’rai três horas. Quando saí desta entrei logo num camionista que me levou p’rai cinco ou seis horas. Perfeito! O gajo não falava inglês, mas era o maior! Ofereceu-me água logo no início. Depois parou e foi comprar-me duas pizas pequeninas, uma pepsi e um café e mais tarde parou de novo para ir buscar um saco de mangostins, um fruto que agora é dos meus preferidos. Algures no meio disto tudo ainda me deu um colar muito bacana que tinha lá pendurado no espelho restrovisor com um budista cuja estátua se vai vendo aqui e ali na Tailândia. Gajo mesmo bacana!
               
Deixou-me p’rai às duas da manhã num sítio onde podia apanhar um autocarro para Bangkok, estava p’rai a 300km. Pensei nisso, pensei em dormir na rua, e pensei em continuar. Continuei. Estava um bocado receoso, boleiar na Tailândia às duas da manhã era algo de novo. Mas ok, siga.
               
Nos primeiros dez minutos estava a ver como ia ser a cena... ninguém abria o vidro sequer. Iá, vêem um estrangeiro barbudo a querer falar com eles num semáforo às duas da manhã... Ok. Mas siga! Apareceu um méne que me levou a cem à hora (algo muito raro naquelas estradas) mais duzentos quilómetros e ainda me deu jantar – massa com vegetais que tinha lá numa tupperware. Este deixou-me numa estação de serviço e aí levei uma horita a encontrar um transportador de fruta que me levou até fora de Bangkok. Aí entrei logo no carro de um casal simpático que... me deixou em Bangkok. Missão cumprida! Eram cinco e meia, tinha boleiado desde as onze do dia anterior, mas tinha conseguido. 1030km sem pagar um cêntimo, entregue à simpatia de estranhos!

Uma vez em Bangkok, dei umas voltas à procura de um hotel, apanhei um táxi para Khaosan Road, fui interpelado por um méne e acabei por ficar no hotel dele por 6€. Não era barato mas não estava numa de procurar muito mais. Era fixe porque ia ter dois noites pelo preço de uma – das sete da manhã até à hora a que acordasse, e a noite seguinte (em que por acaso acabei por dormir em casa de um couchsurfer).
               
13h36-s-16-7-11
algures entre Siem Reap e Battabang

terça-feira, 26 de julho de 2011

Hoi An, Vietnam :)


Singapura


Acordámos no dia 4 de Julho lá p’rás sete e tal. Tomámos banho, arranjámos as cenas, despedimo-nos do Ash e seguimos. Tinha visto no google maps que havia uma linha do metro que seguia mais ou menos a autoestrada, e assim decidi ir até aí e depois caminhar para a autoestrada.
               
Quase duas horas depois (uma hora de espera e outra de viagem) estávamos a sair na estação de Tiroi, no meio do nada. Um senhor muito simpático veio ter connosco e quando finalmente percebeu que não queríamos apanhar um autocarro, encaminhou-nos para a autoestrada. Mas estávamos mais longe do que eu pensava. Caminhámos 500 metros e estávamos numa estradita que ia lá ter, mas que não era bem o que eu tinha em mente. Mas tudo bem. Esperámos vinte minutos e apareceu um casal jovem que nos deixou na autoestrada. A partir daí, foi tudo tranquilinho até Johor Bahur, onde ficámos um bocado confusos. É que a autoestrada acabou e deixaram-nos numa nacional. Depois um senhor apanhou-nos logo e levou-nos um pedaço. Ok, vamos. Finalmente, já muito perto, um casal apanhou-nos e deixou-nos na estação de autocarros. Porra, outra vez! É que o pessoal não perceber a cena de boleiar e pensa que nós queremos é ir apanhar um autocarro. Quando não é!!
               
Mas neste caso foi fixe. Porque já estávamos ali mesmo pertinho de Singapura e um autocarro foi menos de um euro. Entrámos, missão cumprida, estávamos à seca na fila para passar a fronteira. 6 boleias, 354km.
               
Do lado de lá andámos um bocado às aranhas até encontrar o nosso autocarro. Tínhamos um bilhete de um autocarro “do estado”, por isso podia ser qualquer um, mas não sabíamos isso. Chegámos ao centro, precisávamos de um sítio onde dormir. Por estupidez minha, não tinha arranjado um sofá a tempo. É que tinha lá um amigo belga que conhecera numa estação de autocarros em Lisboa, e que me disse que me albergaria. Mas eu deixei só para a véspera para o contactar. Quando ele respondeu, disse que pensava que eu só ia mais tarde, e que estava na Bélgica, de férias. Isto já não deu tempo para encontrarmos um sofá.

Mas ok, acabámos por encontrar um sítio baratinho.Andava pela rua com o meu Ipod à procura de internet, e quando encontrei fui ao hostelworld, encontrei um hostel a 7,3€ por pessoa, liguei do computador a reservar, e seguimos.
               
Nessa noite só saímos para ir comer qualquer coisa. A cidade tem boa onda, é realmente limpinha, ainda que eu imaginasse algo ainda mais estéril e incólume. A zona onde estávamos tinha muito andamento mas, descobrimos mais tarde, Singapura, em si, é um bocado assim, um gajo sente que está sempre no centro da cidade.

Passámos o dia seguinte como verdadeiros turistas em Singapura. Fomos até Chinatown, caminhámos, caminhámos, andámos pela marina, onde vi um edifício que tinha abismado o Karlis, o meu amigo letão – são três prédios com um barco em cima. Eu, para dizer a verdade, estava à espera de uma cena diferente. Sei lá, que esse barco fosse um galeão ou uma cena assim muito à frente. Mas não. Mas ok, é fixe na mesma. E simboliza um bocado a cidade – super moderna. Confesso que não me apaixona, mas gosto. É muito multicultural também, o que me apraz.

Como disse, parece que um gajo, por mais que caminhe, está sempre no centro. Só malta e actividade. É o segundo país do mundo com maior densidade populacional, depois do Monaco. Tem 5 milhões de habitantes.

Curti mais Little India. É que eu também já tenho um bocado de saudades daquela gente. E não tem tantos prédios. Parece mesmo que entrámos num outro país. Mais templos, casinhas com cores diferentes, muito fixe.

No dia seguinte acordámos cansados. Caminhámos p’rai uma hora até ao Jardim Botânico e a Sofia voltou para trás. Eu queria ficar, andar por lá e depois ir a uma reserva natural pertito. Mas iá, também estava cansado, e a reserva ficou para uma outra viagem. Mas curti muito o jardim. O mais fixe onde eu já estive. Estive lá p’rai duas horas e depois voltei. É incrível as cenas que um gajo faz para poupar vinte cêntimos. Estava todo partido, e disse a mim mesmo que se o autocarro fosse até 0,50€, eu ia. Mas era p’rai 0,70, ahah! E acabei por vir a pé. Singapura foi dos países mais caros onde estive, mas acabei por não gastar mais de quinze euros por dia, com hotel e tudo. Fixe.

Foi isto, Singapura.

Não foi o que eu antecipei no início da minha viagem, porque não foi o mes destino final. Foi mais um país, onde quis ir porque tinha-o em mente desde o início, não por me interessar sobejamente, mas porque está no outro cantito, e quero varrer o sudeste asiático todo. Para quem não sabe, estabeleci como minha missão pessoal visitar todos os países do mundo – até morrer, não para já. Se contarmos com os países que fazem parte do Reino Unido, Singapura foi o número 53. Já faltou mais.

17h26-2ª-11-7-11
Bangkok, Tailândia

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Kuala Lumpur


Após os “olás” e essas cenas todas, estive um bocado à conversa com o Ash. Da Sofia, notícia nenhuma. Ia pensando se estaria bem, se se teria passado algo, até porque as horas ia passando e entretanto o sol tinha-se posto.
               
O Ash é um malaio indiano. A etnia é algo muito importante na Malásia. Há os indianos, os chieneses, e alguns malaios, se bem que não os seu distinguir muito bem. Acho estranhos estes conceitos. É pessoal que nasceu naquele país, os seus pais também, mas não são propriamente malaios – ou assim o dizem sendo que a nacionalidade é, também, relativa.
               
- No estrangeiro sou malaio, na Malásia sou indiano – dizia, mais tarde, o irmão do Ash, encolhendo os ombros, com ar de quem não gosta disso. Estávamos a jantar num restaurantezinho porreiro e acessível e falavam das diferenças de condições que sentiam.
- O que se passa é o seguinte... A Malásia é um país muçulmano, ‘tás a ver? E aqui, por exemplo, noutro dia fui ao banco, ‘tava a pensar abrir um bar com um amigo. Os gajos daquele banco não me davam empréstimo se eu não fosse muçulmano. Chegaram a sugerir que eu arranjasse um sócio muçulmano... – dizia o Ash – E na escola, por exemplo, para teres um A, se és muçulmano, precisas de ter, tipo 60 pontos, se és chinês, 70 pontos, e se és indiano, 80 pontos...
               
Acho isto ridículo, mas não quero passar isto como facto, por isso que se note que isto foi o que o meu amigo disse, e que não confirmei nada ainda. Mas de todo o modo, é inegável a separaçao de etnias.

Estava a acabar de tomar banho quando a Sofia ligou ao Ash.
- Não faço a mínima ideia como é que ela está onde está, e como é que foi lá parar! – disse, ao desligar – Mas ‘bora lá.
               
Como já era tarde, só imaginava a pobre tuga toda estafada de carregar os seus 40kg pela cidade inteira por horas a fio. Mas a cachopa estava fixe. Tinha pedido direcções a uns paquistaneses que foram com ela até um sítio lá perto, e foram fixes e emprestaram-lhe o telemóvel. Demos umas voltitas e encontramo-nos.
               
Quando chegámos a casa, comemos qualquer cena e fomos dar uma volta. Fomos buscar o irmão do Ash, jantar, e depois fomos a um bar, numa zona de muitos outros. A cidade deu logo um bom feeling. Muito andamento, muita árvore. Na verdade foi construída roubando terreno à selva. Uma selva pela outra.
               
Estivemos no bar às três, hora em que fecha tudo na Malásia. O Ash curte falar, o que para mim é porreiro. Tem alguma coisa a dizer sobre quase tudo, ainda que às vezes não diga muito. Falámos muito acerca de um livro chamado algo como “O Jogo”, que ensina homens a seduzir mulheres. Mas no fundo, visto de uma forma mais aprofundada, funciona também em todos os outros settings, sendo que, em amizades ou negócios, de uma forma ou de outra, passamos a VIDA a seduzir-nos uns aos outros. Tinha visto o livro num aeroporto e um couchsurfer meu tinha-o, mas nunca li.
               
No dia seguinte andámos por Kuala Lumpur. Tem boa onda. Mas é bués uma cidade mesmo. Um trânsito infernal. Arranha-céus atrás de arranha-céus, muito pessoal. Começamos por Chinatown, demos umas voltinhas, depois fomos seguindo um trajecto improvisado com aquela olhada esporádica no mapa. Acabámos a tour nas Petronas, que até há bem pouco tempo eram as torres gémeas mais altas do mundo, tendo sido batidas por umas em Taipei.
               
Estava todo partidinho, as minhas pernas queixavam-se e o meu corpo pedia uma noitinha de filmezinho e relax. Mas o Ash gosta pouco de sair, gosta... E acabou por nos convencer, sem muito esforço, a ir ao mesmo bar da noite anterior, onde estariam uns couchsurfers. Ok, siga. Foi fixe. Estavam lá uns quinze, conheci malta porreira e revi o Karlis, que tinha conhecido há um ano na Escócia, num fim-de-semana do outro mundo em Edinburgo. A noite em si foi interessante, pois tive oportunidade de praticar a minha autodisciplina – a noite toda só com uma coca-colinha,... pois porque a cerveja mais barata custava p’rai quatro euros. Ah pois é, bebé!
               
O Karlis, letão, anda em viagem há dois anos e meio. Conhecemo-nos em Julho do ano passado no Edinburgh Rocks (IV), um evento anual do coucusurfing na Escócia – um fim-de-semana cheio de loucura que eu aconselho a toda a gente. Passou o último ano na Índia e Nepal, sempre em couchsurfing, o que é impressionante. Agora estava pelo sudeste e, pelo que li no seu grupo do facebook, apaixonado com a limpeza de Singapura e a cidade no geral. Dizia que já tinha saudades de algo assim mais higiénico e limpinho. Ok.
               
No dia seguinte era o festivalzinho do couchsurfing no meio da floresta, mas perto de KL. A Sofia não estava muito a fim, mas o Ash acabou por convencê-la. Eu passei uma horita na varanda a escrever, e aparentemente ele passou todo esse tempo a convencer a miuda, que não teve outra opção senão ceder. O que foi fixe, porque ela acabou por curtir e eu, claro, curti que ela tivesse vindo.
               
Fomos no carro do Ash, encontramo-nos com o resto da malta e seguimos caminho. Aquilo er super perto, mas com o trânsito de Kuala Lumpur demorámos p’rai hora e meia. Mas foi porreiro. Copo na mão, música aos berros, cortiré!
               
Quando chegámos, estacionámos, pagámos os 50 ringit (11 ou 12 euros), e juntamo-nos à malta. Aquilo era um grupo de bungalows espalhados ao redor de uma piscina natural e um lounge. Foi uma grande noite. Sentei-me lá com o pessoal uma ou duas horas, na conversa, bebericando Famous Grouse, depois juntei-me ao pessoal que estava na piscina a jogar vólei. E a noite foi seguindo. Não há muito a dizer. Como eu gosto – falar com dezenas e dezenas de pessoas, discutir um pouco de tudo, aprender sobre outros países. Pena foi que o pessoal recolheu cedo. Eram quatro da manhã e sobrava eu e o Karlis, sentados num canto à conversa. O resto aterrou. Paciência.
               
O dia seguinte foi de chill-out. Acordámos, comemos qualquer coisa lá no lounge – um prato de arroz com não sei quê que estava incluído. E depois fomos para casa. Vi dois filmes (que já tinha visto) nessa noite – Sacanas Sem Lei e A Ressaca. O segundo muito apropriado.

Dia 4 de Julho seguimos para Singapura.

16h38-2ª-11-7-11
Bangkok, Tailândia