sábado, 12 de fevereiro de 2011

Slovenia - The Of Course Country


Comecei a reparar com a Ana, e depois fui tomando atenção e percebi que, efectivamente, a Eslovénia é um “of course country”. “Posso beber algo?” “Claro.” “Posso num-sei-quê?” “Claro!” – estes “claros” vindo com uma descontração que nos deixa a sentir em casa.

Na quarta à noite fomos com a Polona até Ljubljana. Fomos ter com a Jiva, sua amiga, com quem bebemos um copo de vinho quente. Passado pouco tempo estávamos em casa da Viktoria a beber sangria e conversar, onde ficámos por umas horas. A Viktoria é uma croata que, como a Polona, estuda design e, como eu, é sopinha de massa. Claro que demos um high-five aos sopinhas!

Houve algo que aconteceu e me deixou reflexivo durante mais tempo que o normal. A dada altura, esperamos, na paragem de autocarro, a Viktoria, e um homem aproxima-se e interpela a Polona, que falava ao telemóvel. Ele percebeu que não éramos eslovenos, portanto esperava pela Polona para dizer algo, e perguntara “slovensko”, ou algo assim, para confirmar que ela falava esloveno. Eu, na minha estupidez, disse-lhe algo tipo “no slovensko”. Pá achava que ele ia pedir dinheiro ou algo assim. O que é certo é que ele estava com uma senhora, que estava com dores, e ele queria pedir o telefone da Polona para ligar ao irmão para os ir buscar. E foi o que aconteceu. Senti-me um bocado podre por dentro por ter estado subtilmente a mandar embora alguém que precisava de nós. E vai contra esta porcaria toda que advogo acerca de dar oportunidades a estranhos. Não faço disto uma tempestade num copo de água, mas simplesmente foi um deslize que acho que vale a pena analisar. Acho que são estas coisitas que acabam por nos definir, se deixamos de reparar nelas e depois o que foge à regra é quando alguém é, por uma vez, simpático para com outra pessoa. Vale quase sempre a pena dar o benefício da dúvida. E isto começa com cada um de nós. Detesto o argumento do “mundo cão” e de que temos de ser cães para nos safarmos... frustra-me e acho abismal que tanto pessoal escolha marimbar-se para o óbvio argumento de que se ninguém pensasse que era um mundo cão talvez esse pensamento adviesse de: a) ó óbvio facto de que não o é necessariamente; b) uma ideia do mundo que visa o que deveria ser e que nos ajudaria a assim o transformar, sendo que nós agimos de acordo com as expectativas que temos dos eventos e das pessoas.

E assim, com estes pensamentos a navegar dentro de mim, a noite passou. Foi porreiro lá ter estado. Ao bazarmos para Veliko Mlacebo tivemos o segundo encontro com a polícia do dia. O primeiro foi quando o João passou no vermelho e foi mandado parar. Eles lá deixaram o turista ir embora, poupando-lhe uma multa de oitenta euros mais uma de duzentos por andar sem identificação. Desta feita a polícia veio fazer um controlo aleatório de documentos e álcool, controlo de onde saímos incólumes.

Quinta feira acordámos com os passaportes na mente, mas longe da mesma. É que tinham sido enviados mas andavam perdidos por aí, num correio esloveno qualquer. Se não tivessemos registado o correio, não sabíamos onde andava, e eventualmente voltaria a Portugal. Mas aí chegaremos. Chegaremos também à Embaixada do Paquistão em Lisboa que, apesar de finalmente me ter transmitido o visto, nos prestou um serviço miserável. Miserável.

Depois de termos, em vão, passado pelos correios, que não sabiam onde andava a encomenda com os respectivos documentos, fomos até casa da Viktoria. A tarde passou-se devagar mas tranquilamente. Comemos umas sanduíches, fomos ao supermercado, e entretivemo-nos à volta de umas garrafas de vinho e conversa por vezes acesa. Quem não ficou muito aceso foi o João, a quem se apagaram as luzes mais depressa, fazendo com que tivesse ficado em casa. Eu, a Viktoria e a Polona fomos até ao Orto-Bar, a dez metros da casa da Viktoria. Foi porreiro, mas nada que valha a pena descrever. Interessante foi o italiano que se colou a nós, ninguém sabe como, e que tomava um café em “nossa” casa às cinco da manhã.

Sexta-feira! Os passaportes tinham de ser encontrados neste dia. É que apesar do nosso plano ser tudo menos rígido, já estávamos na Eslovénia há seis noites, quando o plano original era três noites, no máximo. Tínhamos um número que nos tinham dado mas para onde não tínhamos podido ligar no dia anterior, por já ter fechado. Munido de toda a fé possível, o João lá encetou a senda das chamadas, enquanto eu ia cochilando os últimos minutos de uma noite mal dormida. Estava, contudo, acordado o suficiente para ouvi-lo a ser direccionado de escritório em escritório até que, txaraaa, falou com alguém que tinha a encomenda mesmo à sua frente! Agora faltava chegar a Trzin! Boleias, zero, autocarros, zero. Cometemos o erro de entrar num táxi que nos levou (confirmado por locais) um montante astronómico. Ficámos a meio, depois de termos pago dez euros... Eventualmente falámos com uma rapariga loira que esperava uma boleia, e nos deu o número de outro táxi, que nos levou substancialmente menos.

Estar naquele escritório da DHL com os passaportes na mão foi como ter a pedra filosofal como prenda de anos! Tinha-me passado pela cabeça um pouco de tudo. Andar pelos balcãs e outros países onde só necessito o BI (agora de repente acho que isso só daria na Croácia e na Bósnia) enquanto o passaporte ia para Portugal e depois era enviado de volta... ou, na pior opção, se se perdesse mesmo, voltar a Portugal, pedir um passaporte de emergência, bazar mal estivesse pronto e ir à volta, pela Rússia, sendo que não teria os vistos (que agora tenho ) da Índia, Irão e Paquistão. Mas ok, tudo bem.

Para voltar seria, à partida, mais fácil, pois havia muita gente que ia para Ljubljana. Esticámos lá o polegarzito, até que apareceu o Gaber, o melhor méne de todos os tempos. Quando entrámos naquele carro com a música aos berros, tive logo uma sensação de que aquilo ia correr bem. Quando ele, meio minuto depois de lá estarmos, saca de uma pistola-alarme, e manda um petardo (apenas sonoro) para o ar, dizendo que se despedia do seu amigo, tive a certeza e que auilo ia correr bem. Que cena. Fomos falando disto e daquilo até que o gajo pergunta se queríamos ir a casa dele beber um copo. Porque não?...

O Gaber é um esloveno de trinta e três anos, não muito alto e cabelo louro escuro. Trabalha com iluminação em sessões fotográficas, e vive fora de Ljubljana. Chegámos, sentamo-nos à mesa, bebemos uma garrafa de vinho, comemos umas sanduíches e por aí ficámos umas duas horas. Um gajo altamente e super creativo – “Tens uma algema à frente da sanita méne!” – digo. “Iá pois eu sei... sabes como quando o pessoal ‘tá na sanita e se põe a olhar à volta para traçar um perfil do dono da casa?... pois é para isso que eu tenho as algemas, os ratos falsos, o vibrador, e essas cenas... p’rós confundir!” – responde. Brilhante. Ele tinha prometido que depois nos levava a casa da Vikki, e não só assim o fez, como também veio connosco. O fixe nele é que apesar de folião, era bué de cuidadoso e inteligente. A Vikki não se importou e ele esteve lá connosco por uma hora.

Tínhamos arranjado uma boleia organizada, tipo carshare, de Ljubljana até Novo Mesto, uma cidade perto de Zagreb, mas ainda na Eslovénia. E foi aí que topei uma cena importante para o viajante. A falta de cuidado que, ainda que normalmente se possa revelar desastrosa, neste caso deu origem a uma noite do mais peculiar que já tive. É que um gajo estava já tão naquele feelingdo viajante, com tudo a fluir com a sua natural moção, que nem nos preocupamos em ver se depois dava para ir para Zagreb, de Novo Mesto. “’Tá-se bem, ‘tá-se bem...”. E foi por isso que, chegando a Novo Mesto, às dez da noite, não havia autocarros nem comboios e boleias, esquece! Andámos lá à procura de uma solução p’rai hora e meia, e quando percebemos que não havia transportes fomos, nas calmas, para uma estrada que tinha uma placa a dizer Metlika, na direção de Zagreb. Pá carros poucos havia. E dos que havia, esses dez por hora, duvido que levassem dois homens a tal hora. A hipótese de dormir à beira da estrada afigurava-se inevitável. “Ok, ok... tem de ser”.

Deitamo-nos lá uma horita a olhar para as estrelas, a pensar numa solução. “Heia ó Pedro vamos ao bar pá! Tem ali um bar, tu pões-te lá com os teus dotes de paleio e ainda nos arranjas um sítio para dormir!” – sugeriu. “Não sei se tenho capacidade de couro de momento...” – respondi. Apesar de tudo, lá fomos.

Convém confessar que não estava sóbrio. E por isso mesmo, e quando nesta condição, tenho muita facilidade em imaginar os cenários que presencio como peças de um filme qualquer. E assim mo pareceu, nós os dois ali, no meio do nada, numa cidade do tamanho de um alfinete grande, num bar de motoqueiros com apenas três clientes, e aquele estilo da europa do leste a bombar! Os três homens que lá estavam, o Yannis, de quarenta e sete anos, o Merkiov (?) e o outro demoraram mesmo que nada a reparar em nós. Começaram logo a falar connosco... de onde éramos, onde íamos, onde íamos ficar, e essas cenas todas. O João estava sentado num canto, esperando algo que não sabíamos bem o que podia ser, e eu no balcão, bebendo uma caneca paga por eles, com os três em fila, a falar ao mesmo tempo, mais alto que o outro, a perguntar qualquer coisa. Senti aquela cena espetacular. Como se eu fosse um animal nunca visto! Eles perceberam que eu, apesar de colaborativo e tal, devia tar com uma cara qualquer porque rapidamente se apressavam a dizer “não tenhas medo, nós somos só amistosos” e não sei quê. Até ouvir isto, sempre pensei que apenas quem te quer lixar te diz para não te preocupares. Mas depois de ter conhecido estes gajos, mandei essa teoria ao lixo. E confesso que não estava assustado, mas a achar a situação interessantíssima.

A simpatia dos gajos foi-se desenvolvendo. Primeiro começou com pagarem um copo. Algo material, certo, mas indubitavelmente simpático. Depois diziam que queriam ajudar e um deles desapareceu por dez minutos para ir ver o preço de um hostel. “Onze euros? Porreiro, vamos lá!”. Depois o Merkiov diz que íamos fazer o check-in, depois íamos comer um kebab e pagava ele. Altamente. Lá fomos para o hotel. Um hotel chinês onde o pessoal não falava nem esloveno nem inglês. Um passo na China. Mas um passo breve, porque a noite afinal era quarenta euros. Tinham-nos enganado, malandros...

E eis que apareceu a simpatia final. O Merkov diz-nos “pá eu tenho uma casa muito pequena... mas vocês podem ficar em casa da minha irmã, não se preocupem! Vamos comer, eu pago, depois vamos a um bar uma hora ou duas... o teu amigo [o João, que batalhava com o João Pestana] pode ficar a dormir no carro e nós vamos curtir um bocado, e depois vamos para casa!” – espetáculo! E que não me venham com couros de desconhecidos e não sei quê. Se nos protegemos de tudo não vivemos nada. Certo é que fomos sair, eu acedi sem me apetecer nada (não queria dizer – “Iá boa ideia, mas depois de comer vamos dormir ok?) e acabei por curtir bué. Pá estar ali naquele carro, com três eslovenos a cantar aos gritos uma música eslovena qualquer foi surreal.

Isto tudo com aquele leve toque alcoólico que te atribui um nível perceptivo cinematográfico e que se imprime na tua memória como algo que fica para sempre.

Eu até queria ficar, mas lá para as três fomos embora. Escusado seria dizer o número de vezes que os gajos repetiram o plano, acerca de comer-curtir-dormir, e quantas vezes me disseram que estava tudo bem, para não termos medo.

Chegados a casa, cama! E que boa noite! Curta mas bem melhor que a relva fria!

Acordámos às oito da manhã e tomámos pequeno-almoço com o Merkoiv, a irmã, o irmão e o cunhado. Chouriça para pequeno-almoço para toda a gente, toma! E o gajo que estava casado com a irmã dele a mandar uns três shots de Jagermaister! Manda vir! “Queres?” – perguntou-me. “Hei pá não, obrigado”.

De lá aqui foi tranquilo. Estação de serviço, apareceu o Asim que nos levou até fora de Zagreb. Depois apareceu o Christian e a Petra, pessoal muito fixe que nos deixou mesmo pertinho de Zagreb. Daí um metro e pau! Manda vir Zagreb. Hoje concerto.

21h05-s-12-2-11
Zagreb, Croácia

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Ljubljana

Acabámos por não ir cortiré no Sábado, mas ‘tá-se bem.  Quando chegámos a Ljubljana ligámos a um táxi, que passadomeio hora nos deixaria me casa da Ana. Lá, onde tinham estado os seus amigos à nossa espera, que entratanto bazaran, estava a Ana, com duas garrafas de vinho, nachos e uma cena que nunca tinha visto mas que envolvia uma relação quem sabe mais que amigável entre pedaços de galinha envoltos por algo que me disse ser tortilla. Isto já chegava para forrar o estômago até ao dia seguinte, mas a Ana obrigou-nos a mandar vir alguma coisa. Pedimos um hamburger que se revelou do tamanho dos anéis de Saturno que ela não nos deixou pagar. Insistimos, mas disse que era nossa anfitriã e não sei quê, e o facto de termos dito que uma coisa não exigia a outra não serviu para a convencer. Depois de comer estivémos umas horas à conversa, enquanto degustávamos o vinho e uma outra bebida qualquer, forte e com rosmaninho, feita artesanalmente e que nos deixou a ver as coisas andarem mais devagarinho um bocado.

No dia seguinte fomos dar a volta da praxe. Reparei em como Ana se esforçava para nos mostrar tudo o que existia, e como queria que passássemos um bom bocado, algo que, naturalmente, lhe agradeci e agradeço. Foi interessante ter estado com ela, sendo que a conhecia apenas de uma noite em que foi dar uma volta comigo, o João e o Petiz, e desde então falámos de vez em quando na net, maioritariamente quando me vem pedir um ou outro conselho acerca disto ou daquilo. Desenvolvemos uma boa relação de amigos que não se vêem. Ljubljana é uma cidade bastante pequena. Contudo, tem algo que, não sendo necessariamente raro nas capitais europeias, neste caso cai com extrema beleza, que é o rio Ljubljanica a atravessar a meio as ruas eslovenas, e a abrir-se em dois pequenos braços que abraçam um priviligiado pedaço de terra, constituindo uma pequena ilha no meio da cidade que facilmente passa despercebida.

Após termos subido ao castelo e lá ter ficado um bocado na descontra, fomos ainda a Metelkova, um bairro de ocupas que é, pelos vistos, dos melhore sítios para curtir nas noites de fim-de-semana. A arte que brinda os olhos dos transeuntes, assente em qualquer parede ou fachada, é algo bastante singular.

Esse dia não teve muito mais de especial. Voltámos para casa por volta das seis da tarde e por lá ficámos, a escrever, ler, conversar. Quando numa viagem tão extensa, é impossível estar em modo-viajante a toda a hora, e fazer coisas que se pode fazer em casa, ou em qualquer lugar, retira um bocado da constante agitação de se ter que fazer isto, ou ter que ver aquilo.

No segunda fui dar uma volta com o João, meio sem destino, mas mais ou menos orientada em direção ao parque de Ljubljana e, quem sabe, o jardim zoológico, que tinha visto ser um dos mais bonitos na Europa. O João, estando em mega low-budget, tinha pensado que poderíamos avançar a cerca e entrar no jardim zoológico de borla. Não sei porquê, esta opção não se me afigurou como viável. Só me imaginava a ser perseguido pelos guardas do jardim zoológico, ou então, numa opção não tão atractiva, imaginava-nos a avançar uma cerca qualquer e, por engano, ir prestar uma visita aos caríssimos leopardos. Reparei noutro dia que coibo um bocado as minhas pseudo-loucuras quando na companhia do João. Não é nada que me apoquente, nem com que me importo, pois acho que muitas vezes nos convém uma flexibilidade adaptada ao meio que estamos inseridos. Mas se normalmente estou na presença de alguém da minha idade, há travões externos a mim, e acessórios aos meus próprios que ajudam a estabelecer um julgamento mais ou menos apropriado. Com o João, tendo o rapaz dezoito anos, sinto um pouco que às vezes tenho de pensar por mim e por ele, antes de pensar em fazer qualquer coisa. Mas ‘tá-se bem, não é um papel que me deixe ressentido, zangado, ou qualquer outro desses sentimentos que de porreiro nada trazem.

O parque de Ljubljana é altamente. Vídeos abaixo. É porreiro sabermos que estamos tão perto de uma capital e, ao mesmo tempo, no meio da natureza. Assim andámos por aí, até que nos apeteceu voltar para trás. Ora não sabendo exactamente onde estávamos, vimos uma cerca de madeira, que poderia, eventualmente, ser um atalho. Avançamo-la e seguimos caminho. Vimos uma estátua pequena de um rinoceronte, que estranhámos. Mas ok. Foi quando vimos uma família de bodes que percebemos que tínhamos, afinal, entrado no jardim zoológico. O mal estava feito, por isso deixamo-nos ficar. O zoo é, efectivamente, fixe, sendo que está inserido no parque. Mas é deprimente para caramba. Fiquei contente por não ter contribuído monetariamente para a exploração dos animais e fiquei com a ideia, eventualmente radical para alguns, que não deveria haver jardins zoológicos. De todo. Safaris ainda é naquela, mas a depressão de ver aqueles pobres animais a andar para trás e para a frente é algo impossível de ignorar.

Umas duas horas depois estávamos a caminho da cidade. Tínhamos como plano ir ao Parlament, um bar onde haveria uma festa de erasmus, mas apetecia-me uma pré-festa, onde um gajo pudesse beber uns copos sem ter de gritar para falar. Foi por isso que o destino pôs o João Miranda no nosso caminho, que ouviu o Pedro Moreira e o João Miranda (e ainda havia um terceiro João Miranda na residência de estudantes, ahah), a falar português e nos convidou para aparecermos na sua residência. Assim, foi passar no supermercado, decorar o caminho, e às dez e mia lá estávamos. Foi uma noite porreira, que me deixou com agradáveis recordações dos meus tempos finlandeses.

No dia seguinte bazámos de Ljubljana. Com um cartazito a dizer “Veliko Mlacebo, Grousopje” pusemo-nos a caminho. Foi uma mistura dos dois que acabou por funcionar. Uma msitura porque primeiro falei com algum pessoal numa bomba de gasolina, tendo umas quantas negas, e depois, uma dessas pessoas, tendo visto o cartaz, levou-nos até lá. Assim fomos de BMW, conduzidos pelo Bostian, que até morava a cem metros dali mas se ofereceu para nso levar. Aqui estou agora. Numa aldeia que começa e acaba em pouco mais de cem metros, em casa da Polona, amiga que o João conheceu num encontro de gajos que andam à boleia (hitchhikers, em inglês, não haverá um termo luso mais simples que “gajos que andam à boleia”?). A miuda é porreira, assim como  o seu irmão e a sua irmã, que vivem mais ou menos isolados dos seus pais na parte de cima desta casa. Fomos dar uma volta por aí, acompanhados de Kimi, o seu cão, que teve um encontro repentino com um pastor alemão mil vezes maior que ele. Ainda o fez rebolar e ganir um bocado, mas quando corremos para ele o gajolá se assustou e bazou. São sempre interessante estas situações, porque mostram-nos como, num segundo, podemos pensar num sem número de coisas, como “será que pontapeio o pastor alemão? E se ele se atira a mim? E se se atira ao meu pescoço?” e cenas assim.

De noite vimos um documentário sobre consumismo, tudo muito tranquilo. Curto estar aqui. Hoje fomos ali a num-sei-onde, à beira de um laguito qualquer, onde nos sentamos uma horita a falar sobre nada. Vamos daqui a pouco a Ljubljana – isto é apenas a vinte e tal quilómetros da capital.

18h02-3ª-9-2-11
Veliko Mlacebo

O Parque Esloveno











domingo, 6 de fevereiro de 2011

Até Ljubljana


Porque as aparências às vezes iludem, o Luciano revelou-se um gajo porreiro. Pelo caminho fomos falando, nomeadamente de política e cultura italiana, tanto quanto o meu italiano permitia. Eram anti-Berlusconi, como todos os italianos com quem já falei acerca do assunto. Onde andam estes italianos que votam nele? No sul? Para o Luciano e a Simona esses italianos eram os imbecis, que infelizmente consitituiam a maior parte da população.
               
Deixaram-nos na estação de serviço antes da divisão das estradas entre Milão, que não nos interessava e Padova, que nos interessava. Nessa estação de serviço a sorte escasseava. Acho que tinha ficado em França, curtiu Marselha, o porto, a igreja e os bairros. E nós que nos safemos. Apareceu o Giovanni, que nos podia levar até Tortona e nos deixar em algum lado perto da entrada para a autoestrada. O João queria ir, porque estava com um pressentimento. Eu, não sendo grande fã da ideia, lá concordei tentar, o que acabou por ser outro erro. Caminhamos atrás do Giovanni, todo bem arranjado com o seu brinquinho, cachecol e pullover lilás, e eu esperava ver um carro tipo Audi, não necessariamente caro, mas bem arranjado e essencialmente estiloso. Mas era um camião. Um camião bem arranjado e organizado, é certo, mas era um camião, o que foi interessante, sendo que foi completamente contra o que esperava. O Giovanni até era fixe e acabou por nos levar até uma vilita, deixar o camião, pegar no seu carro e deixar-nos em Vorghera, perto da entrada para a autoestrada. Mas serviu de pouco. Estivemos ali com o polegar umas duas horas, e apesar de dois carros terem parado, não iam para os nossos lados. Eventualmente rendemo-nos e caminhamos, já de noite, paraa estação de comboio. O João equacionou entrar sem pagar, mas os sete euros que valia o bilhete não assim o exigiam.
               
- Se o pica não aparecer ficas bué frustrado, não? – perguntei, já no comboio.
- Iá – respondei. Foi o que aconteceu, não veio pica nenhum.
               
Passado pouco mais de uma hora e meia estavamos em Parma e esperava-nos o Salvatore. Levou-nos até sua casa, onde nos esperava a Roberta, sua namorada, e o Whiskey o cão da mesma. Algo que também esperava por nós era um... ora ia dizer sumptuoso jantar e ri-me sozinho. É que o jantar era bom e muito agradável, mas era uma piza caseira e uns aperitivos. Não era exactamente sumptuoso. Acho que ando a baixar o meu grau de exigência, o que é óptimo. E por acaso, em jeito de nota aparte (não sei se já escrevi sobre isto), tenho-me apercebido o quão exageradamente como, quando em Portugal, ou noutra qualquer situação de conforto. Quando estou na estrada, muitas vezes nem me lembro disso, e a fome aperta quando aperta, não porque é meio dia e meio e me obrigo a comer um almoço onde repito três vezes, ou porque são sete da tarde e sei que a bacalhoada me espera. A Jo, que nos albergou em Marselha fez um retiro budista na Tailândia e disse algo que vai na mesma linha. Lá comiam um bom pequeno-almoço, depois algo mais tarde, ao almoço, e já não havia mais nada até ao pequeno-almoço seguinte. Disse que os ocidentais, coitados, flipam um bocado ao início, e sentem-se fracos e todas essas coisinhas, mas eventualmente habituam-se porque, efectivamente, o corpo não precisa de assim tanto. Falo um bocado de cor, baseado no que me disseram, numa ideia que já tinha, e nesta curta experiência.
               
Ao longo jantar, e depois do mesmo, ficámos à mesa um par horas a conversar, mais uma vez sobre o Berlusconi, políticas italianas e a Padagnia. Há um movimento (liderado pela Liga do Norte) que visa a separação do Norte da Itália do Sul desse país. Eu já sabia que eles dizem que “o Norte trabalha e o Sul descansa”, e até sabia dessa ideia de separação. O que não sabia era que, nas palavras do Luciano, cerca de um terço do pessoal do Norte preferia ver a separação acontecer, e ver nascer La Padagnia... Também não sabia que, além de uma cadeia televisiva, o Berlusconi era também dono de uma das maiores editoras italianas que, como se antecipa, não publica qualquer coisinha que vá mais noutras linhas que não as suas. Hoje, em Bologna, vi um pessoal a distribuir uns panfletos do partido do Berlusconi. Não tinha tempo, mas gostava de ter falado com eles. Ouvir o que defende o pessoal do outro lado, para variar...
               
Hoje de manhã, depois do pequeno-almoço, o Salvatore e a Roberta, que iam para Milão visitar os pais da rapariga, deixaram-nos na autoestrada, numa estação de serviço bastante concorrida. Não passou mais de meia hora até que o João me chamou. Ele estava a pedir nas bombas, e eu na zona de restauração – a boleia organizada. Cometemos aqui mais um erro, mas não podíamos ter feito muito melhor. É que queríamos descer quase até Bologna, mas ficar na última estação de serviço. O que aconteceu foi que ficamos depois. A aprendizagem aqui foi saber a que quilómetro está a última estação de serviço antes da saída, porque sair da autoestrada, quando o mais difícil costuma ser entrar, não ‘tá com nada...
                Assim ficamos no meio do nada, caminhámos um bocado, atravessámos estrada passando um tunelzito, e fomos ter a uma outra estação de serviço que, não só não era na autoestrada, mas também era maioritariamente frequentada por pessoal que ia para Bologna. Não deu. Não deu e acabámos por ir com o Gianni até Bologna. Aí caminhámos cerca de uma hora até uma estrada que ia dar para as autoestradas que iam para o Norte. Também não deu. Pois também não deu e viemos até ao centro, mais uma vez, onde acabámos por perceber que o melhor seria mesmo comprar um bilhete de autocarro até Ljubljana, por trinta euros.

E aqui estou, no autocarro, a ouvir The Pastels and Tenniscoats, a uma hora e meia da capital eslovena, onde nos espera a Ana, amiga que conheci quando fui com o Petiz e o João à sua cidade em 2006. É Sábado, apetecia-me cortiré!

19h31-s-5-2-11
Algures entre Bologna e Ljubljana

Até Parma


Estar nestes comboios lembra-me quando andei por aí, em caminhos italianos, com o Kidus. Foi há quatro meses. Esta sensação não é nova, mas talvez seja nova a sua referência nos meus escritos... acho eu. Falo da temporalidade relativa do viajante. Para mim que, não tendo nada que fazer, acordo sempre por volta do meio dia, acordar de manhã dá-me logo a sensação, ao fim da tarde, de que vivi dois dias, ainda que nos dias em que me levanto tarde acabe por dormir as mesmas oito horas aconselháveis. Agora isto aliado à viagem faz com que um dia pareçam quatro ou cinco. O tempo tem manias e diz-nos que são as horas que lhe apetece. Como saberíamos se o tempo não fosse, na realidade, constante? Se os carros andassem mais devagar, ou o ponteiro do relógio, ok. Mas se a nossa capacidade perceptiva e de interpretação estivesse também mais atrasada, a nossa visão da realidade era a mesma, ainda que tivesse passado num ápice, ou num ano. Teorias e incertezas. Mas guardo como certeza esse facto que é o desdobramento da percepção de tempo que se tem quando em viagem. Talvez por vermos mais coisas, por nos ocuparmos de mais coisas, ou pelo nosso organismo fazer por aproveitar mais de cada segundo, em conluio com a nossa mente de ávida criança.

Hoje acordei em Génova e ontem em Marselha e Marselha parece que foi há tanto tempo que me tenho de esforçar para recordar, apesar da epopeia que foi. Um dia com sete boleias e umas quinze horas de viagem!

Depois do pequeno-almoço tomado e das despedidas lançamo-nos ao destino. Não havia possibilidade de apanharmos um autocarro até uma estação de serviço ou assim, por isso fomos ali para um sítio à saída, com uma placa a dizer “A7àA8”. Deixamo-nos ficar ali uns dez metros atrás do gajo que já lá estava, e depois de ele ter ido para Aix, apanhámos nós a boleia do Zoer, um marroquino radiologista, que nos deixou numa estação de serviço onde poderíamos perguntar ao pessoal se ia para Nice. O sol brilhava alto, continuando a concretizar a sua clara intenção de nos perseguir e zelar por nós. Eis que o João tem a ideia de ir para a zona de desaceleração com a nossa plaquinha a ver se arranjava alguém que fosse para os nossos lados. “Se apanhares alguém manda toque que eu venho logo”. ‘Tá-se bem. Uns dez minutos depois falo com um senhor gordo, de óculos a enfeitar uma cara simpática com uma carrinha de matrícula checa (por vezes dá jeito ver de onde são) que nos levava até perto de Nice. Tento ligar ao João, mas nada. Peço ao senhor para esperar, que assente não sem antes me dizer que não tinha muito tempo, e dou uma corrida, apenas para ver o João a caminhar ao lado de uma carrinha com umas luzes azuis a piscar. Fixe. Aproximo-me a aparece uma senhora polícia de face jovem e atraente, toda zangada a dizer já nem sei o quê. Disse-lhe que já tínhamos encontrado alguém e que esse alguém nos esperava, ao que ela respondeu dizendo que não queria saber. Não custa tentar... Pediram os meus “papéis”, que lhe dei, e ao João que, não tendo o seu bilhete de identidade ou cartão de cidadão com ele, lhes deu o seu cartão de estudante e um cartão do seguro europeu de não sei quê. Confesso que estava pronto para uma boleiazinha policial, mas para surpresa minha, estes cartões foram suficientes. Foram-se embora tranquilos dizendo que em França era proibido andar na autoestrada.

Passado p’rai uma meia hora apareceu o Matthiew (em francês, não sei como se escreve) para nos levar. Disse que ia para Aix e lá se calhar era melhor. ‘Tá tudo. Note-se que Aix era para onde o outro gajo da boleia tinha ido, num carro com ainda três lugares disponíveis. Em Aix deixou-nos num sítio aparentemente porreiro, numa saída mesmo para a autoestrada onde passavam centenas de carros, mas devagar, numa fila apenas, e com espaço para pararem à frente. A frustração apareceu aí um bocadito. Eu aceno, sorrio, e essas cenas todas, e o pessoal faz o mesmo, e segue em frente. O medo do pendura! Medo de quê? Tu paravas para levar alguém? Há situações mais limite que outras, naturalmente, mas ali estávamos nós, dois rapazes com duas mochilas, aspecto tolerável/normal, sorrisinho no rosto, onze da manhã... O medo da ínfima probabilidade de que nos façam algo impede-nos de ajudar pessoas em situações menos favoráveis. Temos de ter cuidado com tudo, e tomar conta de tudo! A probabilidade de apanhar alguém que nos queira fazer algo é de, sei lá, que seja um em dez mil. Mas por causa disso privamos a nossa ajuda a cem por cento das pessoas. Agora quando se conhece alguém num bar que se leva para casa, o sítio onde vivemos e quem sabe outros que nos são queridos, aí é tranquilo. A coerência aqui escasseia. Note-se que não critico que o pessoal se entregue e que efectivamente leve alguém para casa numa noite mais acalorada, conquanto as circunstâncias assim o permitam e não haja factores externos que saiam danificados. O que critico é a falta de consistência de comportamentos. É diferente, claro que é diferente... mas será que é assim tão diferente?

E por isso mesmo ficámos em Aix umas duas horas. Eventualmente descemos um bocado e estávamos mesmo à entrada da autoestrada, mas ainda numa estrada secundária e onde os carros circulavam lentamente. Finalmente parou a Isabella, senhora francesa de cara simpática e de quem sabe o que quer, que viveu em Singapura, trabalhando como instrutora de Pilates, em Pequim, fazendo o mesmo, e que já correu meio mundo, com o marido e os filhos, até que, para a educação dos rebentos, se estabeleceu no seu país de origem. Já tinha, no passado, andado à boleia, um factor que, tenho vindo a descobrir, aumenta as nossas probabilidades em dez milhões por cento. O azar foi que a Isabella ia para Toulon e não havia nenhuma estação de serviço antes dela virar para aí, o que significa que andámos uns vinte quilómetros numa direcção nem por isso conveniente... Ficámos numa estação de serviço deserta, e atravessámos uma ponte para o outro lado, ficando numa estação de serviço que sempre tinha mais gente e tinha essa vantagem que era ser estar na direcção que nos interessava. Falámos com os caros camionistas e fomos levando as nossas negas do costume. Sem problema. A dada altura, e depois de uma dessas negas, percebi, vendo a matrícula do camião, que tinha falado em francês com um português. Voltei atrás e voltei a perguntar. A resposta foi diferente, ainda que igualmente negativa. Todavia, passado um bocado, o Humberto lá me chamou. “Pá, eu ainda não sei se vou para a Itália ou para a França, estou à espera de serviço. Se eu for para a Itália, posso deixar-nos perto de Cannes numa estação de serviço...”. ‘Tá tudo ó Beto! Deixamos o português e fomos tentar a sorte mais meia hora, interpelando as pessoas que iam passando. Não conseguindo nada, fomos comer o nosso pato. A cena é que em Marselha encontrámos, ao lado de um caixote de lixo, uma caixa com mais de vinte euros em comida, quase tudo dentro de prazo. De alguém que se mudou, suponho. Trouxemos algumas cenas, claro. O pato estava um bocado horrível. Não por horrível ser, mas porque estava envolto em banha, e um gajo não tinha exactamente os dispositivos para se livrar da pasta amarela. Mas fechou qualquer buraco que se quisesse abrir no estômago.

Acabávamos o nosso manjar quando o Beto nos chama ao fundo. “Hei!” – caminhamos na sua direcção, todos contentes.
- É assim, eu vou para a Itália... mas e se aparece a polícia?
- Não aparece nada... Ande lá, faça o jeito.
- Isto é muito complicado, muito complicado... e se aparece a polícia, como é?
- Nós pagamos a multa – esta conversa demorou mais um bocado. Ele ainda disse a palavra “complicado” mais oito vezes e “polícia” mais sete. Lá nos metemos a bordo, o João sentado no colchãozito e eu no pendura. O Beto era camionista há nove anos, e estava farto de Portugal, da crise e “dessas merdas todas, pá”. Equacionava ir para a Noruega, onde “o salário mínimo são quatro mil e quinhentos euros”, coisa de que duvido seriamente. Quase que dava para ver o Beto a mudar de ideias, se uma pessoa olhásse com atenção. Começou com “eu podia levar-vos até à Itália... mas não, não...” e acabou com “Vocês querem ir até à Itália”. Ah pois queremos, ó Beto!

Parámos de qualquer maneira na estação de serviço onde íamos parar. Os portugueses reinavam por ali, e pensámos em ir atirar o barro à parede. Não foi preciso barro nenhum porque o Beto conhecia o Edgar, que acabou por me levar a mim, ao passo que o Beto continuou com o João, tendo nós marcado o rendez-vous para não sei onde na Itália. A viagem de Cannes até não sei onde na Itália é esplêndida. Mas o Edgar não é gajo para andar devagar, e eu via-me ali a atravessar aquelas pontes e só pensava em como seria transmitido no telejornal a notícia de um acidente envolvendo dois portugueses a cair de uma ponte de trezentos metros, dentro de um camião, e com o milagroso sobrevivimento do mais novo. A cena é: quando num camião, a cabeça de um gajo está p’rai a uns três metros de altura. Isto é fixe quando vamos tipo numa auto-estrada, e temos o conforto daqueles estofos aliado à visão privilegiada e pseudo-magestral que os três metros atribuem. Mas quando a atravessar uma ponte de trezentos ou quatrocentos metros, um gajo olha para o lado e não vê senão o chão lá em baixo...

Lá chegámos a não sei onde na Itália, que era a oitenta quilómetros de Génova. Achei que ia ser tranquilo, mas não podia ser, para salvar a coerência daquele dia caricato. Estávamos sem sorte nenhuma e o sol já se tinha posto. E tal como os vampiros, depois do pôr-do-sol saem à rua os gajos que andam à boleia que são ainda piores que aqueles que andam de dia. Estes matam também, além de roubar. Lá ia perguntando com o meu italiano macarrónico...

Uma destas pessoas a quem perguntei respondeu que ia sair antes. Não me dando por vencido fiz uma pergunta qualquer e ao responder reparei que a pessoa, ainda que tentando dar um sotaque italiano, usava a palavra “eu”. Voltei à carga, mas desta feita em português e, passado não mais que um minuto do Luís ter dito que ia sair antes de Génova, ele diz que por acaso até ia sair depois, e que nos podia levar. Tinha de esperar para fazer a sua pausa (a minha cultura camionista está a ficar cada vez mais rica... que me perguntem horários, cargas rotas, tudo...) e depois nos levava, mas nos entretantos continuámos a perguntar. Não encontrámos nada e lá fomos com o Luís, que disse que como éramos portugueses nos levava, mas se “fosse assim alguém doutra raça ou assim ou daí” não dava. Eu, pelos vistos, tinha uma panela surpresa na mochila, e lá dentro andava tudo às turras. Valores, respeitos, simpatias, julgamentos e o esforço de não os fazer, praticabilidades, tolerâncias, contextualizações... tinha de tudo um pouco à porrada e o único lesado era eu, que me encontrava numa situação que não me deixaria agradado de maneira nenhuma. É que eu agradeço ao Luís por nos ter levado, agradeço do fundo do meu ser a simpatia demonstrada para um desconhecido, mas não entendo o que leva alguém a ser mais simpático para alguém que fala a mesma língua... só porque sim! Pá eu se estou na Papua Nova Guiné e vejo uns tugas lá a jogar mini-golf, vou mandar um bitaitezinho e socializar... mas porque há um background que partilhamos e facilita eventuais conversas, e um sentimento mútuo que advém da distância a casa. Mas creio serem situações diferentes, na medida em que uma visa algo que não é necessariamente indispensável, o lazer e partilhar as saudosas mágoas, e a outra visa algo que não é necessariamente dispensável, providenciar transporte para que alguém não tenha de passar a noite numa estação de serviço. Se o que me preocupa é a minha segurança, eu confio tanto num português como num espanhol, italiano, francês, e por aí fora... Não sei se faz de mim um hipócrita pensar assim e ter ido com a boleia de qualquer maneira. Teria sido um radicalismo apanhar boleia só de quem passa no “teste do Pedro”, ou é a consideração de isto ser um radicalismo apenas uma desculpa que dou a mim próprio? E o mais interessante é que o Luís se revelou um rapaz bastante simpático e prestável...

Pois assim lá nos levou o Luís até perto de Génova. Queríamos sair nesta saída, depois naquela, depois naquela... e já tínhamos passado Génova... é que os camiões têm, não só os discos que controlam a quilometragem mas também um dispositivo gps que deixa quem se interessa a saber exactamente onde estão. Isto aliado ao facto de consumirem uma média de quarenta litros aos cem, fez com que ele não nos pudesse ter deixado onde mais se nos aprouvia. Tudo compreensível, obviamente. Lá ficámos, já bem de noite, numa estação de serviço para lá de Génova. Não precisámos de pedir a muita gente até que o Shimon (?), um israelita que já andou, há muito tempo, à boleia, nos deixou exactamente onde queríamos – a estação de comboios! Daí foi um tirinho até casa do Giacomo, o nosso anfitrião. O Giacomo e o Mateu foram as primeiras pessoas que já conheci que estudam engenharia náutica. O Giacomo é de Roma e depois das conversas iniciais e uma cerveja, foi comigo dar uma volta a Génova. Um rapaz muito porreiro que me lembra o Leandro. Pelo pouquíssimo que tinha visto de Génova, não estava impressionado, mas depois daquela tour de madrugada de cerca de hora e meia, fiquei agradado. Tem a parte com os eficios fascistas que me agradam visualmente, e tem a parte velha, de ruas estreitas e aquele ar italiano difícil de se escapar. Sabias que a bandeira Inglesa advém da bandeira de Génova. Há muito tempo o reinado de Génova tinha uma reputação muito respeitável nos mares, e ninguém se atrevia a meter-se com eles. Estou a imaginar os piratas “Hei méne vamos àquele? Ai deixa, é de Génova. Aliás, se calhar dávamos era o baza!”. Assim a Inglaterra pediu a Génova para usar a sua bandeira e benificiar da sua reputação. Coisas.  Acho que a Itália é o país que conheço melhor... Roma, Milão, Verona, Veneza, Florença, San Gimigniano, Lucca, Pisa, Siena, Génova... e Parma, daqui a pouco.

Hoje deixamo-nos dormir. Após um breve debate na noite anterior decidimos ficar até mais tarde, sendo que tínhamos apenas cento e tal quilómetros para fazer. Erro. Acordámos, almoçámos com o Giacomo, vimos para onde tínhamos de ir e pusemo-nos a caminho. Caminhámos uma boa hora com a nossa mochila a encostar-nos ao chão, e depois de pedir indicações a umas dez pessoas, e de andarmos um bocado para a frente e para trás, lá demos com a estação de serviço concorrida que ia para o Norte. Tínhamos de nos meter na autoestrada que ia para Milão, e depois na estação de serviço antes de aparecer o novo troço que ia para Piacenza e eventualmente Parma. Perguntei a umas vinte pessoas, até que apareceu o Luciano. Daqueles que nem nos olha nos olhos. Cabelo branco, cara antipática. Perguntei se ia para Norte, disse que não, que ia para Milão, e entrou para pagar. “Ora a menos que algo se tenha passado hoje de noite, Milão é para Norte. Assim decidi tentar outra vez e mal ele saiu perguntei se podia(mos) ir com ele. ‘Tá tudo!

- Estamos a chegar a Parma -

21h40-6ª-4-2-11
Parma, Itália

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Até Genova

Quando puder actualizo. Estou em Genova, vamos tentar ir para Parma daqui a pouquinho