quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Halong Bay

No dia 31 de Julho, segunda-feira, fui para Halong Bay. O preço foi fixe comparado com o que esperava. O Martin tinha-me dito que pagara oitenta e tal dolares, o que é uma grande batelada para o meu orçamento. Mas parece que é daquelas maravilhas naturais, por isso decidi ir. Assim, fiquei agradevelmente surpreendido quando vi que os preços andavam à volta dos 35-40 dolares. Se calhar ele foi num barco diferente, ou então teve o azar/amadorismo de só perguntar o preço num sítio. Errar é humano.
               
Apesar de ter sido barato e eu não me arrepender do que paguei, deixou muito a desejar. Já lá chegamos.
               
A Christia deixou-me na agência onde tinha comprado o bilhete, e à hora combinada apareceu o méne, e fui com ele. Só tinha dormido três horas e tal, estava um bocado partido, mas seguimos.
               
Quando entrei no minibus, encontrei o terceiro par de tugas da viagem! Pareceu-me ouvir alguma coisa em português, mas não tinha a certeza. Depois confirmou-se, disse qualquer coisa, trocámos umas palavritas mas ficou por aí. Topei logo que eram de Lisboa (ou da zona) e ao início achei que a miuda tinha a mania. Acho que o facto de ela ter dito, com um grande ar de indignação, “vamos almoçar aqui neste buraco nojento?” ajudou. Até porque era um restaurante melhor do que aqueles onde costumo comer. Mais tarde essa primeira impressão diluiu-se e desapareceu à medida que passámos algum tempo juntos e fiquei contente de ter passado esse dia e noite com eles e com o casal espanhol.
               
A Francisca é uma miuda de Cascais que estuda marketing. O Diogo, seu namorado, acabou comunicação empresarial e estavam a festejar o terceiro aniversáro nesse mesmo dia. Ele é de Sintra. A Francisca é o tufão e o Diogo o mar sereno, apesar de, imagino, mar sereno ser das coisas que não curte, sendo que é surfista e às vezes professor de surf. Porque é que digo isto?...
               
Quando bazámos de Hanoi, o guia da tour, um rapaz vietnamita que peca pela falta de simpatia, pediu os passaportes a toda a gente. A Francisca, incomodada com isto, foi-lhe pedir o passaporte quando estávamos no cais à espera sabe-se lá do quê (aconteceu sempre, esta espera incessante sem saber bem o que estávamos ali a fazer). Só ouço, em inglês, a miuda já exaltada “estás a ser muito rude para comigo e eu não estou a gostar!”. Tinha razão. É que o gajo vira-se para ela e diz, com cara de poucos amigos, “tens duas opções, ou me deixas ficar com o teu passaporte, ou voltas para Hanoi!”. E acabou por ser uma constante, esta atitude do gajo.
               
Entretanto conhecemos também o Angel e a Pilar, de Toledo, e ficámos mais ou menos um grupinho, os dois casais e eu. Pobre eu, aqui na minha solidão amorosa! Consequências de se mandar... Às vezes perguntam-me porque não “levei a minha namorada” e porque é que eu não “a quis levar”. Digo, claro, que não tem nada a ver com não a querer ter trazido. Mas somos pessoas diferentes, e se isto era um sonho que acalentava, não o é assim tanto da Graciete. Noutro dia perguntei-lhe se era capaz de, daqui a uns anos, tirar um ano sabático (conquanto pudesse voltar ao seu emprego sem problema). Disse que sim, para algum espanto meu. Ponta a ponta, América do Norte, sul da América Latina? Quem sabe...
               
Contudo, além de nós os cinco, o grupo em si era porreiro.
               
Quando finalmente entrámos no barco, começou o explendor. Andámos quase uma hora entre as ilhas rochosas que preenchiam o horizonte. Eram todas enormes, e estendiam-se até onde a vista podia alcançar. Estrondoso mesmo, das maravilhas naturais mais belas que já vi. Pelo meio aparecia, de vez em quando, bares flutuantes, onde se vendia isto e aquilo. Dava até um toque rústico, tirando quando se ouvia um hip-hop qualquer, isso trazia-me de volta à terra.
               
Parámos por meia hora para visitar uma caverna enorme. Muito porreira mas estava cheia de luzes amarelas, vermelhas e verdes e isso tirava um bocado aquela cena. Além disso tinha um trilho que um gajo seguia para ver as cenas, e isso também tirava algum do feeling. Paciência. Quando voltámos ao barco instalamo-nos na parte de cima (o nome náutico não me ocorre, agora). Estava sol, estava-se bem, estávamos tranquilos. Eis que aparece lá o nosso guia e vem-nos dizer as regras. Começou logo por dizer que se quisessemos beber as nossas próprias cervejas, tínhamos de pagar dois dolares, e o nosso próprio vinho, tínhamos de pagar dez dolares. Ora isto não me fez sentido nenhum, e menos sentido ainda quando, por exemplo, a Francisca e o Diogo tinham perguntado especificamente se podiam beber o seu próprio vinho. Não fiz caso, pois seria imposível estarem sempre no controle, mas o resto do pessoal começou a exaltar-se. Especialmente o Angel, com o seu “sangue caliente”, que questionava o guia incessantemente. Tanto que o gajo aproxima-se, e começa a falar comigo, a dizer para eu traduzir. Estou em deitadinho na minha espreguiçadeira e o gajo vem-me meter ao barulho. Já tinha dado o meu bitaite, mas quando vi a sua inflexibilidade, marimbei-me p’ró assunto.
               
- Olha podes falar com ele, que ‘tá aqui a um metro! – disse. Ele não fez caso.
- Imagina que tens um restaurante no teu país – prosseguiu – e eu chego lá, com a minha própria comida – dizia, lentamente para eu perceber bem – tu não ias gostar, claro, pois não?
- Não, não ia... mas isso é porque o negócio do meu restaurante é vender comida e bebida, e se tu trouxesses a tua comida e a tua bebida, eu não ia fazer dinheiro. Já o negócio deste barco é transportar pessoas de um lado para o outro, e albergá-las. O facto de que aqui também se vende comida e bebida, é só uma adição... – e com isto o gajo ficou sem saber o que responder. O resto do pessoal fez mais algum barulho, até que o gajo diz que o Angel pode, e que a Francisca também pode, mas o resto não. Ridículo.
               
Pouco depois eles estenderam o escadote e mergulhámos, andámos na água um pedaço, uma horita ou duas, até que era altura de ir comer. Sentámo-nos todos depois de uma chuveirada, apresentámo-nos todos, e ficámos ali um pedaço. No final rimo-nos um bocado com o Karaoke, e quando parou de chover fomos para a parte de cima onde bebemos uns copos até à meia noite e tal. Mas o gajo ainda não tinha acabado com as surpresas. Estamos nós à conversa quando aparece o Angel, depois de ter ido buscar uma cerveja ou mijar, não sei e exclama:
               
- Ouçam! O gajo está a dizer que para termos ar-condicionado temos de pagar dez dolares! Vamos todos lá baixo – mas o pessoal não estava muito p’raí virado. A mim não me fazia diferença. Mas o problema é que para algumas pessoas fazia. E o problema é que a Francisca, por exemplo, tinha também, tal como na cena das bebidas, perguntado se o ar-condicionado estava incluido. E disseram-lhe que sim. Fizemos algum barulho, sem efeito. Mais tarde o Angel confessou, com alguma vergonha, que as cenas se tinham exaltado lá em baixo... o gajo apontou-lhe o dedo perto da sua face, o Angel deu-lhe uma lapada no dedo, o gajo pegou num copo com que o ameaçou, o Angel agarrou-o, o copo voou e partiu. Enfim, cenas assim. Depois o Angel queria mandar a espreguiçadeira pelo barco fora, mas não teve muito encorajamento de mim e do Diogo, e não queria que a Pilar, sua namorada muito fixe e engraçada mas também recente, descobrisse.
               
Foi uma noite cheia de eventos.

- Dormiste bem? – perguntei ao Angel, no dia seguinte.
- Sim, mas acabámos por ter frio com a ventoinha – note-se que o ar condicionado era porque supostamente estaria muito quente. Que riso.
               
Após o pequeno-almoço fomos andar de kayak, que até foi fixe, apesar de breve. Gostei muito de entrar por o que parecia ser uma gruta e desembocar numa grande baía. Ali no meio, rodeados por uma enorme montanha cheia de estórias, que concerteza já viu milhares de pessoas como eu, mas que viu também, concerteza, há muitos, muitos anos, pessoas de outros países, exploradores, curiosos. Agrada-me estar num sítio e imaginar a história por detrás. Acho o tempo um conceito tão relativo quanto curioso e difícil de perceber. Às vezes questiono se existimos realmente, e em que plano existimos. Estou a ler Uma Pequena História Sobre Quase Tudo, do Bill Bryson, e o gajo fala do universo, tempo, teoria da relatividade, bem, fala de um pouco de tudo, e é incrível perceber, ou tentar perceber, tudo o que nos rodeia e todas as condições que não são tão exactas quanto pensamos...

Depois do kayak voltámos para o cais. Despedimo-nos do casal espanhol e fomos para Hanoi. Aí, despedi-me do Diogo e da Francisca e fui para o hostel que duas israelitas me tinham aconselhado. Tivemos um pedaço de conversa deveras interessante com elas sobre a situação em Israel, mas alongo-me sobre isso noutra altura.
               
Passei essa tarde na descontra no hotel, e à noite saí um bocado para ir comer. Curto o feeling de Hanoi. Bué de gente nas ruas a beber chá, aqueles restaurantezinhos com mesas que parecem de uma casa de bonecas, enfim – é o sudeste asiático. No dia seguinte fui dar umas voltinhas
à turista pelo resto da cidade. Curti. Em alguns locais parece Paris, mesmo. Depois vi-me tramado para arranjar dolares para pagar o visto do Laos. É que só tinha 25 dolares, e era o que achava ser o visto. Mas não tinha a certeza, parecia que diferentes pessoas me estavam sempre a dar números diferentes. Caminhei, todo transpirado, p’rai uma hora até encontrar um sítio que vendesse dolares e resolvi o problema.
               
Depois entrei no autocarro para o Laos.

 21h06-6ª-12-8-11
algures entre Vientiane e Luang Prabang

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Hanoi

No dia 29 de Julho apanhei o autocarro para Hanoi. E eis que encontrei o segundo par de tugas! A Ana e a Sofia (não estou certo que são estes os nomes), duas senhoras dos seus 40-50 anos de Lisboa. Ouvi-as a comentar que eu estava a pedir um banco diferente e percebi. Isto é uma cena interessante. Os ocidentais vão sempre num canto, todos juntos. Nesse autocarro, e neste onde agora vou, aconteceu alguém pedir para fica num determinado sítio e o gajo recusar, dizendo que é para vietnamitas. É um bocado estranho, mas é o que é.
               
Tinham voado de Portugal, através de Madrid, e voavam daí a dois dias. A grande cena é que a Sofia tinha perdido o passaporte. Estavam um bocado stressadas, naturalmente, e ficaram ainda mais quando eu lhes relembrei que o dia seguinte era sábado, e que por isso a embaixada estaria fechada. É que após terem contactado uma amiga que trabalha no ministério dos negócios estranjeiros, esperavam um fax que ia ser enviado para a embaixada de Espanha (não há portuguesa), com um documento qualquer que tinha de ser carimbado. Mas as embaixadas não abrem ao fim-de-semana. Espero que se tenham safado e que a Sofia tenha conseguido, de alguma forma, apanhar o avião no domingo, mas duvido. Grande batelada, um vôo só de ida de última hora do Vietname para Portugal...

Passei uma boa noite no autocarro, daquelas em que dormi o suficiente para não precisar de dormir no dia seguinte (apesar de o ter feito, por uma horita). Cheguei a Hanoi de manhã. Procurei um sítio qualquer com internet, descobri o caminho para o quarteirão velho, e lá fui. Ia para o Backpackers’ Hotel, mas um senhor interpelou-me e acabei por ir para o hotel dele. Tinha começado com dez dolares ou algo assim, mas eu disse que o meu hostel era 4 dolares, e após alguma hesitação, ele acabou por me oferecer o quarto por 5 dolares. Num quarto, não num dormitório, com ar-condicionado. Porreiro. Lá me levou, fiquei p’rai uma hora e tal à espera de não sei o quê, e instalei-me.

Acho que estava a precisar de um daqueles dias de férias de férias, e estava a pensar em ficar no quarto do hotel a “tratar de cenas”. Mas estava com um bocado de sentimento de culpa por não ir ver a cidade. E por isso mesmo fiquei contente quando começou a chover torrencialmente.
               
Mais logo ia encontrar-me às sete e tal com a Lena, uma russa que anda pelo mesmo canto do mundo que eu e que talvez viaje comigo no Laos, e mais tarde com outra malta com quem combinara através do couchsurfing, no beer corner.
               
Fui ter com a Lena, bebemos uma cerveja e fomos ter com a sua anfitrião, uma ucraniana. Ela queria ir dançar salsa, e eu vi nessa altura um bom momento para ir ter com o resto da malta. A Lena vai viajar por três anos à volta do mundo. Estava na Rússia, foi passar duas semanas ao Casaquistão, e acabou por seguir caminho. É designer gráfica, então sempre pode fazer algum trabalho enquanto viaja, e a sua regra é nunca sair de um país com menos dinheiro do que aquele que tinha ao entrar. Agora está a fazer uma excepção porque pelos vistos ganhou mais do que imaginara quando estava na Índia.
               
Pareceu-me fixe, mas com pequenos traços geralmente comuns em quem não viaja tanto.
               
Há uma cena que eu já li em alguns sítios que é um gajo comprar um bilhete para não sei onde, chegar ao próximo dia e não haver nada, e o escritório onde o bilhete foi comprado estar vazio. Foi isso mesmo que ela pensou quando eu parei para comprar uma cerveja num sítio que também era uma agência de viagens e que lhe oferecia um preço porreiro para Vientiane, no Laos (26$).
- Achas que posso confiar? – perguntou?
- Como assim?
- Será que é de confiança... será que amanhã não chego aqui e eles desapareceram? – eu olhei à volta, analisei os cartazes, a secretária, o próprio gajo.
- Iá, eles vão pegar nos teus 26 dólares e vão fugir para a América – respondi. Até pode acontecer, mas de certeza que não é nesta escala. E não curto quando o pessoal anda sempre desconfiado. E aqui no Vietname é uma constante. Ia agora dizer isto: “também é uma verdade que aqui é o país onde há mais cenas tipo custos escondidos e cenas dessas”, mas depois parei para pensar, e não é verdade. Fui numa tour a Halong Bay que, apesar de não me arrepender de a ter feito, foi uma fraude. Mas foi só isso. Tirando este episódio, o que acontece muito é os gajos mandarem o barro à parede com os preços de turista. Não é algo exclusivo ao Vietname, mas acontece mais frequentemente, e mais escandalosamente do que noutros países onde tenha estado. Mas é isso... na minha experiência é so isso, por isso não posso fazer uma grande regra senão com o segundo exemplo – e neste caso, se um gajo não for parvo não paga muito mais nunca.
               
Quando cheguei ao Beer Corner não estava lá ninguém do couchsurfing. Aquilo era, literalmente, o canto de uma rua com malta sentada cá fora naqueles bancos e cadeiras baixinhas, a beber cerveja. Como o pessoal ainda não estava lá, perguntei se me podia juntar a um grupo inglês de duas raparigas e um rapaz. Malta porreira. Meia hora depois começou a chegar mais pessoal, que se juntou à nossa mesinha. Entre eles apareceu a Christa, minha anfitrião do dia seguinte, o Leandro, um alemão e a Tracy, uma vietnamita. Curti muito estes dois, e voltei a encontrar-me com eles no dia seguinte.
               
Estivemos lá um bom pedaço, malta ia aparecendo e desaparecendo, e a dada altura fomos para uma discoteca. Cheguei lá e percebi que não ia conseguir ficar muito tempo Não tinha muita gente ainda, era carota e a música horrível. Mas mais malta foi aparecendo, e acabei por ficar até de manhã.
               
Conheci dois muçulmanos interessantes. Um deles do Líbano, e o outro da Arábia Saudita, estavam num canto a fumar um charro. Calhou falar com eles, e fiquei a saber que se preparavam para o Ramadão. Já não bebiam há uma semana para se prepararem para o Ramadão, mas ao mesmo tempo estavam a fumar um charro. Iam seguir à risca o Ramadão, sem comer nem beber nem fumar (sem pôr nada à boca, basicamente) durante as horas de sol, mas ao mesmo tempo um deles desapareceu com uma prostituta que estava lá à beira. Apelidei-os de neo-muçulmanos. Conjugam aquilo a que os conservadores poderão chamar de degredo do ocidente, com algumas tradições e costumes do médio oriente. Não sei bem o que pensar acerca dos gajos.
               
Quando bazámos, o Leandro levou-me a casa, após alguma dificuldade em dar com o sítio.
               
Quando acordei, no dia seguinte, tinha de me encontrar com a minha anfitriã. Fiz o check-out, pelo caminho comprei um bilehte para Halonh Bay – 36$, incluindo ida e volta a Halong City, uma noite no barco, dois almoços e um jantar. E depois as surpresas de um serviço que deixou muito a desejar. Já lá chegamos.
               
Mandei mensagem à Christia e ela veio buscar-me ao lago. Quando chegámos a sua casa estivemos um par de hora à conversa no seu terraço. Um copo de água cada um, a ver a chuva cair fortemente.
               
Isto até que o Leandro me ligou. Já me tinha ligado a perguntar se eu queria ir dar uma volta, com ele e a Tracy. Ele tinha duas motas, e só precisava de arranjar uma. Disse ok, claro. Disse-me que estava na Beer Corner, e a Christia foi fixe e foi lá levar-me.
               
Porém, quando cheguei, chovia a potes. Sentei-me com eles, pedi uma cerveja, daquelas a vinte cêntimos. Ficámos à conversa um pedaço, a recordar a noite anterior e eventualmente fomos juntar-nos à outra malta do couchsurfing que estava num “Sunday street food extravaganza”. Fomos ter com eles a um restaurante bacano, muito vietnamita. E onde a comida era carne, carne, carne. Traziam pratadas de carne crua e a malta grelhava na mesa. Estava lá mais algum pessoal vietnamita e achei interessante que muitas vezes punham carne já grelhada dos pratos dos outros. Isto é, geralmente um gajo tirava um pedaço e comia, mas eles a cada dois que comiam punham um para outra pessoa. Não sei se é da cultura ou destas pessoas em particular, e não me ocorreu perguntar.
               
Falei muito com a Tracy, que anda à procura do amor. Curtia bué que se enrolasse com o Leandro, porque são um dupla impecável. Como disse nas referências que lhes deixei nos seus perfis, se eu ficasse em Hanoi, seriam os meus melhores amigos. Ao memso tempo, é uma cena cultural também. Encontrar alguém, quanto mais cedo melhor, é algo que é esperado em muitas partes do mundo, mas neste canto, mais do que na Europa. A Tracy teve uma relação com um belga. A dada altura ele estava indeciso entre voltar provisoriamente à Bélgica e retornar ao Vietname, ou ficar. A Tracy apoiou o gajo, disse para ele ir (não me lembro porquê, mas era o mais sensato) que ela esperava. Ele foi e não voltou mais, e o coração da vietnamita ficou espalhados nos cantos deste canto.
               
Falei com ela acerca da importância de não desistirmos do nosso sonho e de, ao mesmo tempo, não deixarmos que o desejo de o alcançar no tolde a visão de modo a vermos algo onde não existe – tipo quando alguém está tão desesperado que se engana e diz a si mesmo que “esta pessoa é mesmo fixe”, quando no fundo, não é.
               
Estivemos aí umas horas e depois fomos ao Le Bar, onde as bebidas não eram baratíssimas, mas ok, estava-se bem. Entretanto o Leandro e a Tracy bazaram e fiquei eu, o Edgar checo, a Suzanne norueguesa e a Christa (outra) americana. E eis qu vejo duas chavalas ao fundo, uma delas de muletas. Eram duas raparigas que tinha visto em Hoi An. Na altura fui perguntar o que se tinha passado, elas contaram-me a estória (estavam numa scooter, cairam para o lado e queimaram-se) e depois seguimos cada um o seu caminho. Fui ter com elas, chamei-as e elas acabaram por ficar umas três horas connosco. Foi porreiro.
               
A Suzanne e a Christia bazaram, o bar fechou e eu, as duas holandesas e o Edgar fomos ter com a Christia (anfitriã) a um bar ali ao lado. Falámos de cenas tão absurdas como “o que é que achas que vai ser mesmo impossível para o Homem alcançar”, mas foi uma noite porreira.
               
Voltámos para casa, comemos algo e fomos dormir às três. No dia seguinte acordaríamos às sete para a Christa me ir levar ao autocarro, para eu seguir para Halong Bay. Insistiu e eu não disse que não.
 
22h58-d-7-8-11
Vang Vieng, Laos

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Huei


No dia 27 de Julho apanhei o autocarro para Huei. A viagem fez-se bem, e passou-se algo que me deixou a pensar...

Mal entrámos, tinha ouvido um inglês a contar certo episódio. Achei que não tinha percebido muito bem, mas não fiz caso. Ele não estava a falar comigo. Quis o destino que, umas horas depois quando parámos para fazer a pausa, eu e o gajo tenhamos encetado uma conversa. A dada altura o gajo diz que tinha uma mota que comprara por duzentos dolares, e que fizera uns arranjos e uma pintura por mais não sei quanto. Tinha-a deixado em Hoi An.

- Por quanto a vendeste? – perguntei.
- Pá a cena é que é o primeiro veículo de que já fui dono, por isso não a consegui vender... levei-a até ao fundo da vila, à beira-rio, andei mais um pedaço até uma zona onde ninguém vai, arranquei o motor de arranque [destruiu-o, não sei se isso se faz por arrancar ou cortar uma cena qualquer] e cortei os fios e deixei-a lá – respondeu. Assim, sem mais nem menos.
Ter estado na Finlândia foi uma experiência que me tornou um gajo mais aberto do que era na altura. Vim com a filosofia do “é a cena dele” que, basicamente, tem a ver com não julgar os outros, porque em primeiro lugar muitas vezes julgamos comportamentos ou atitudes que no fundo não fazem mal a ninguém, e em segundo lugar, nem sempre sabemos exactamente o que é que se passa verdadeiramente e as razões para determinada acção. Acho um bom princípio, mas acho que já o usei em demasia, por vezes. E este é um caso desses. Porque se calhar há uns anos dizia “é a cena dele”, mas hoje percebo que às vezes, há cenas que são mesmo estúpidas. E isto é estúpido porque este gajo podia dar a mota a um vietnamita qualquer que tivesse achado simpático, ou até a um com quem nunca tivesse falado de todo. Este vietnamita ou a usava como um veículo que melhoraria a sua qualidade de VIDA substancialmente ou, mais provável, vendia-a e fazia, assim de repente, mais dinheiro do que faz em três meses. E é por isso que estas merdas, por mais românticas que possam parecer, são estúpidas. Ok, o gajo tinha p’rai 22 anos. Isso pode ajudar a perceber o comportamento, mas não o desculpa.
E isto vai cair directamente naquela casa onde tenho vindo a morar nos últimos pares de anos. É a casa da reflexão acerca das posses. Nessa moradia quedo-me muito a pensar no valor que damos a objectos. Este gajo é o rei, porque ele foi capaz de dar um valor ridículo nem sequer ao objecto, mas à ideia do mesmo, sendo que ele já não o tem.

Depois entrámos outra vez no autocarro e seguimos para Huei.

Tinha o contacto da Kirsten, que me albergaria em Huei. A Kirsten é uma rapariga (de 38 anos) que a Rebecka (que me albergou em Saigão) conheceu numa formação qualquer da empresa onde trabalhava. Ela tinha-me dito que tinha uma amiga fixe em Huei que me poderia albergar. Mas depois essa amiga afinal estava na Alemanha. Mas ok, havia ainda a Kirsten, que estava disponível.
               
Quando cheguei fiz um bocado de tempo na internet num café enquanto esperava por ela, que estava numa cena qualquer. Quando me voltou a ligar, pus-me a caminho e fui ter com ela. “Queres alugar uma bicicleta”, tinha-me perguntado, ao telefone. Disse que sim, porque achei que era mais conveniente para ela do que para mim (para não ter de caminhar ao meu lado) mas fiquei um bocado naquela porque estou escaldado, ainda que levemente apenas, de acordar em comprar cenas sem saber o preço. Mas foi uma boa decisão. É a melhor maneira de ver a cidade, e ficou-me por um euro por dois dias. Além disto, ela vivia a uns vinte minutos (de bicicleta) do centro.
               
Trocámos aquelas palavras iniciais, fomos buscar a bicicleta, e fui-a seguindo até casa. Curti a viagenzinha. Huei não é muito grande, mas é uma cidade em todos os sentidos. Ainda assim, apenas a alguns quilómetros do centro, parecia que estava numa vila bastante isolada. Quando chegámos passamos duas horitas na sala à conversa.
               
Uma cena que estranhei logo no início foi quando a Kirsten sugeriu comprarmos um par de cervejas, e disse, assim como nota de rodapé, que tinha de ter cuidado onde as comprava porque afinal de contas ia trabalhar ali dois anos e não sei quê, e os vietnamitas cochicham. Achei aquilo um bocado paranóico. E isso depois enquandrou-se um bocado mais no quadro global quando voltou a dizer cenas tipo “estamos a ser observados sempre” ou que eles tinham insistido que ela tivesse uma empregada, para que esta pudesse reportar para os seus chefes (ou fosse quem fosse) o que se passava e não passava. A cena é que ela não me pareceu uma pessoa paranóica, e por isso mesmo estas cenazinhas pareceram um bocado assim fora de carácter. O que até pode querer dizer que é verdade...     

A Kirsten até falava e tudo mais, mas confesso que a achei um bocado aborrecida. Não sei bem porquê, mas não demos o clique. Pareceu ser uma daquelas pessoas que leva o seu tempo a deixar o resto do pessoal entrar no seu círculo. Isto é estranho e difícil de explicar, mas às vezes uma pessoa pode ser o mais simpática possível, e até falar bastante, e ainda assim nós sentimos que estamos do lado de fora.
               
Chegou ao Vietname só há dois meses e trabalha como conselheira numa ONG alemã que trabalha para desenvolver os cuidados com crianças com deficiências.Um emprego daqueles que efectivamente torna o mundo um lugar melhor. Antes disto passou dois anos no Peru a fazer voluntariado e dois anos no Tajiquistão num trabalho “à séria”. Quando chegámos a sua casa, primeiro disse “uau”, e depois perguntei-lhe com quantas pessoas vivia. “Sou só eu”, respondeu, não necessariamente para o meu espanto. O espanto apareceu foi quando, no dia seguinte, me disse que pagava 400 dolares (280€) por aquela casa de três quartos, jardim e dois andares. E acho que está aí um bom exemplo do que referi no parágrafo anterior. Geralmente pergunto ao pessoal quanto paga de renda, porque acho interessante ver as diferenças de país para país. Com a Kirsten não tive o à-vontade para o fazer, foi ela que acabou por o dizer. Disse-me isto, no dia seguinte, quando falava de uma conversa que tinha tido com a sua empregada. Esta tinha-lhe perguntado quanto era a renda, e quando a Kirsten respondeu, a empregada perguntou se [esses 400$] eram para meio ano, ou para um ano... Pode ser que, como a Kirsten também referiu, a empregada dela nunca tenha arrendado uma casa e isso não seja comum com os vietnamitas, e daí não faz ideia dos preços do mercado. Mas também pode ser que esse preço que para nós europeus já é ridículo, seja ainda mais ridículo quando é um vietnamita a pagar.
               
Falou-me do Tajisquistão e mostrou-me fotografias esplendorosas que me deixaram com vontade de visitar o país. E isso foi uma opção na minha mente durante algumas horas, não realmente como uma opção tomada de bom grado, mas como uma possibilidade. É que não posso tirar o visto russo fora de Portugal, a menos que seja um visto de trânsito. Então neste momento estou indeciso entre enviar o meu passaporte pela DHL para Portugal, com a devida ficha preenchida, pedir a alguém para ir tratar da cena e mo enviar de volta, ou pedir um visto de trânsito em Xangai. A primeira opção é melhor, porque posso depois ir nas calmas, mais ou menos, e boleiar na Rússia. Só que o passaporte tem de fazer duas viagens entre a China e Portugal, e pode perder-se pelo caminho... e isso matava ali logo a minha viagem. A segunda opção é mais segura, mas para ter o visto de trânsito tenho de apresentar os bilhetes todos que me vão levar de onde quer que eu entre no país (Mongólia) até onde quer que saia (Ucrânia). Estou ainda em deliberação.
               
A dada altura ocorreu-me que, se eu a achava uma pessoa um bocado aborrecida, ela também me podia achar. Foi estranho pensar nisto. Isto porque me considero um gajo porreiro e interessante, e nem me passa pela cabeça que alguém me ache aborrecido. Estou a ser sincero, não curto falsas-modéstias. Mas a verdade é que, da mesma maneira como eu não senti um clique, ela também, concerteza, também não o sentiu. Este pensamento que se aventurou a ganhar forma na minha mente trouxe um bocado mais de humildade ao resto do ser.

No dia seguinte acordei, peguei na bicicleta, e fui à cidadela. Fui ligeirinho, nas calmas a apreciar a brisa e as vistas. Fui primeiro tomar um café enquanto navegava na internet uma horita. Depois atravesei a ponte, entrei nas muralhas da cidade velha e dei a volta toda. Curti muito. Demorei quase uma hora sempre a andar, ainda que devagar. Apesar de ser dentro das muralhas, era uma autêntica vila, não era tipo daqueles sítios só com casas luxuosas e cafés a dois euros. Por isso mesmo fui passando pelos locais, pelas suas casas, pelos putos, e pelos velhos. Curti.
               
Posto isto entrei na cidade proibida. Tem cerca de 200 anos, e era onde moravam os imperadores. Está em reconstrução, pois teve muito que foi destruido recentemente. Mas tem palácios e jardins muito fixes. Só não curti tanto porque estava com um ouvido tapado. Parece estúpido, mas faz sentido. Como eu não estava bem, não posso dizer que tenha rejubilado com o sítio. Era como se tivesse o ouvido entupido. Não foi fixe, mas passou passado p’rai duas horas. Além disso estava um calor de todo o tamanho e eu estava um bocado cansado. Engraçado como situações externas, como uma dor física ou o clima (como aconteceu em comigo em Paris, da primeira vez que visitei) podem afectar a imagem que temos de determinado sítio.

Andei por aí um bom pedaço, e depois continuei com a bicicleta meio à sorte pela cidade do mesmo lado do rio. Curto a cena vietnamita de ocuparem os passeios com malta a beber chá ou cotas a jogar damas, o que até nem é exclusivo no sudeste asiático. Depois estive um bocado na net e voltei para casa, não sem antes jantar num barraco de rua.
               
Estava um bocado naquela, porque não me apetecia estar a fazer conversa com a Kirsten, e acho que até me demorei mais um pedaço na cidade por isso mesmo. Mas acabou por ser um serão porreiro. Quando cheguei ela não estava. Liguei-lhe, ela disse para ir ter com ela a um restaurante ali ao lado. Quando cheguei encontrei-a com a Lyn a comer numa barraquinho. Cabra à vietnamita – demais! Além disso outra cena que curti bué foi queijo de tofu! Já tinha ouvido falar de leite de soja, mas nunca tinha ouvido falar de queijo de tofu. Cheirava mal que tolhe mas isso, já se sabe, só quer dizer que o queijo é muita bom.
               
A Lyn é uma rapariga muito simpática que trabalha num hotel de 5 estrelas na cidade, e é professora de vietnamita da Kirsten. E são amigas também.
               
Daí fomos tomar café e ficámos lá um horita.
               
Quando voltámos a casa, sem sequer fazer por isso estive três quartos de hora à conversa com a Kirsten na cozinha e a minha opinião de si acabou por mudar. Continuo a achar que, eventualmente, tenhamos maneiras de ser e modos de estar diferentes, mas isso não quer dizer que ela não é uma gaja porreira. E, do mesmo modo, isso não é algo pejurativo, pois cada um é cada qual, ao passo que dizer que ela é aborrecida, é, bem, pejurativo. E foi uma anfitrião porreira, claro, tenho de dizer.

No dia seguinte quando desci ela estava no alpendre a ter lições de vietnamita com o seu outro professor, enquanto comiam fruta e bebiam chá. Ele perguntou se não me queria sentar, e bebi um chá com eles e comi daquela fruta maravilhosa cujo nome não recordo. Depois disto, peguei na bicicleta e fui dar uma volta. Na zona onde a Kirsten vive é onde estão os mausoléus dos imperadores, e foi a isto que me dediquei por um par de horas. E claro, como no dia anterior, a etapa final do ciclismo foi andar meio perdido entre os vietnamitas. Adorei passar por estradas de terra, pontes de onde se via a malta a trabalhar nos barcos, caminhos onde as senhoras, com os seus chapéus cónicas, se entregavam à actividade.

Depois voltei, despedimo-nos, e lancei-me. Autocarro para Hanoi.

20h45-4ª-3-8-11
                                           algures entre Hanoi e Vientiane