quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ride Alone


A solidão da estrada chama de novo. Um gigante de alcatrão levanta-se, toca nas nuvens cinzentas e grita-me algo numa língua que não conheço. Eu estou cá em baixo, com a chuva a deixar rastos de arco-íris na minha face. O meu polegar está esticado mas a estrada sobe tanto quanto os meus olhos podem alcançar, e ninguém vai para esse lugar.               
               
Os dias que se aproximam são os dias em que estou de volta a tudo o que tenho para me dar. Vai-se a companhia de viagem, e com ela partem as gargalhadas e experiências que partilhámos nestes dois meses e pico, volta a aventura solitária de quem fica com saudades de falar a sua língua.
               
Ganhos em cada lado, naturalmente. Para quê entregar-se à fatalidade de ver algo como, ou bom, ou mau? Na sua partida há a perda de uma companhia especial, de alguém que traz consigo um Ventinho porreiro para qualquer face. Mas... para quê essa fatalidade de se focar apenas naquilo que se perde? Sendo o mundo guiado por um equilíbrio que muitas vezes escolhemos ignorar, cada acção ou evento positivo tem o seu negativo, e cada negativo tem o seu positivo. Mas por vezes abrir os olhos para esta realidade custa, e as pálpebras pesam como portas cansadas.
               
Vou estar de volta ao estado de espírito com quem atravessei a parte do mundo que existe naqueles espaços entre a Turquia e a Índia. De volta àquelas horas de constante reflexão, de olhar para dentro sozinho, de deixar feedbacks transactos assentarem nisto a que chamo de “eu”. De volta ao receio de estar num lado desconhecido às tantas da noite sem ter ninguém com quem falar.
               
Assim me entrego, novamente, ao que o mundo tem para me dar. Sem nenhuma mão para agarrar, toda alma é minha, e todo o amigo ao virar da esquina.

19h09-2ª-11-7-11
Bangkok, Tailândia

domingo, 10 de julho de 2011

Phuket, Com o Mano


No dia 23, quinta, acordei às seis da manhã em Ko Jum, para ir para Phuket, ter com o meu irmão. Paguei o que devia, e pus-me a caminho. Até este pormenor é altamente naquele resort – eles nunca apontavam o que consumíamos, um gajo é que ia comendo e bebendo e apontando lá num cadernito com o número do nosso quarto, mesmo à confiança!
               
Caminhei cerca de um quarto de hora, até que um senhor com uma scooter muito velha me ofereceu uma boleia. Assim cheguei ao cais com tempo para tomar um ou dois cafés, nas calmas.
               
Às sete e meia apanhámos o barco, e lá p’rás oito e pouco estávamos na vila. Tomei outro café e apanhei o táxi para Krabi, que custaria 40baht (0,90€). Andámos um pedaço, e a dada altura parámos num semáforo. Eu estava a olhar à volta, e cruzo olhar com em ocidental, que conduzia uma pick-up, com uma tailandesa ao lado. O gajo ri-se para mim, eu retribuo o sorriso. E penso “será? não, nunca... mas que se lixe, não custa nada perguntar...” – e pergunto. Chamo o gajo, e pergunto se ele vai para Phuket. Ele diz que sim. Pergunto se não me pode levar. Pode. Cool! Boleia direitinho a Phuket. Saio do taxi, pago o que devo, e siga!
               
Quem me apanho foi o Didier, um francês de 51 anos com cara de 41 (viajar faz bem à pele), que é um autêntico senhor! Eu não conseguia ter a VIDA dele, porque ele abandonou a França por completo, e eu jamais abandonaria Portugal sem perspectivas de voltar, mas de todo o modo, admiro este gajo. Vivia na Tailândia há quatro anos, já tinha estado em 130 países, e há cinco anos fez das viagens mais malucas de que ouvi falar. Comprou uma tuk-tuk na Tailândia e foi com ela até França! De tuk-tuk! Loucura! Tinha bué de projectos, e o mais recente era ir no seu barco, que construira na Tailândia, até à Europa. Mas precisava de patrocínios, que não apareciam. Ele estava à procura de 250 patrocinadores que entrassem com 1000 euros cada um – não me parece nada fácil. Prometia um retorno do dobro do dinheiro, com os livros que venderia e documentário que faria, mas só tinha arranjado uns cinco ou seis. Eu vi-me grego para encontrar pessoal que entrasse com 500, 200 ou 100 euros, quanto mais mil! E duzenta e cinquenta pessoas!

já agora, se és novo(a) por aqui, dá uma olhada na secção “Ajuda-Nos”. e se não és novo por aqui, já era alturinha de entrares com cinco ou dez euritos! mas diz-me, caso o faças

Após perguntarmos a algumas pessoas, o Didier deixou-me mesmo, mesmo no hotel do meu irmão. Demais – uma boleia, de fio a pavio!
               
Entrei, e senti-me de imediato como um alien ali. Eu, com a mesma t-shirt de há quatro dias (se bem que tinha andado de tronco nu a maior parte do tempo), os meus calções com o velcro já morto e enterrado, as minhas havaianas uma de cada cor, uma de cada tamanho, e as duas mochilas. Tinha dito ao meu irmão que só chegava à tarde, por isso queria fazer surpresa. Pedi para a senhora ligar para o quarto dele, mas nada. Então sentei-me, acedi à net e mandei-lhe mensagem. No meio disto apareceu um senhor a dar-me uma daquelas toalinhas enroladas que dão nos aviões, e depois um copo com algo que parecia sangria. Nice.
               
Lá me disse que estava na praia a ter uma massagem e fui ter com ele. Estava, com uma amiga, ambos de papo para o ar, com uma cota tailandesa para cada um, a dar o melhor dos seus dedinhos. O que me lembrou que nunca paguei por uma massagem.
               
Foi fixe ter visto o meu irmão. Já ando nisto há mais de cinco meses, e às vezes tenho saudades de casa, naturalmente. Mas não é bem de casa, mas das coisas que lá faço. Quando penso em voltar penso em andar de skate ao frio, em ir tomar café ao sombrinha com a minha mãe, ir ao Dragão com o meu pai, em ir jantar à Adega Soares, em estar em Portalegre. Tenho saudades do frio também. Às vezes o pessoal refere-se a esta viagem como férias. Um erro compreensível. Mas isto não tem nada a ver com férias. Está claro que não é um trabalho. Mas não são férias. Por acaso, férias foi o que eu tive naqueles quatro dias com o meu irmão. Mas de resto, uma viagem destas não são férias porque acaba por ser um modo de VIDA, ainda que finito. E custa, por vezes, claro que custa. Às vezes apetece-me voltar, outras vezes não sei como conseguirei fazê-lo. Os sentimentos e expectativas alternam como as hormonas de uma grávida. Mas nunca, nunca, me arrependi, e sempre senti, como aqui já disse, que, corra bem ou corra mal, estou sempre exactamente onde preciso de estar. Agora estou em Kuala Lumpur, na Malásia, e nunca estive tão longe de casa. Falta pouco para voltar, três meses, mais coisa, menos coisa, e a estrada à frente é longa. O que tenho em mente afigura-se estafante e um tanto ao quanto impossível. Mas cada dia é um dia, e assim tento levar, não só esta viagem, como o resto da minha VIDA. Os planos têm o potencial de serem belos e uma benção que nos auto-atribuimos, ou de serem devastadores, quando passam por uma constante renovação de esperanças que saiem frustradas. Quando todos os dias batalhamos para algo que nunca chega, há algo na nossa VIDA que se perdeu, e seguimos o nosso rumo de olhos vendados, não sabendo muito bem porque é que estamos ali. A única resposta, por vezes, é porque toda a gente também está. E odeio isso. Odeio que muita gente se possa entregar ao conformismo que corroí.

Ter estado com o meu irmão foi mais tipo férias porque passei algum tempo lá no hotel dele. Não vou aqui armar-me em alternativo e dizer que não gostei do conforto daquele hotel. Mas nunca estaria lá sozinho, como já estive sozinho em centenas de lugares nesta viagem. E não sei se conseguia lá estar mais do que uma semana.
               
Estava à espera de gostar de estar com o meu irmão, está claro, mas acho que gostei mais do que esperava. Porque além de meu irmão, aquela pessoa representava, também, aquela parte da minha VIDA que eu deixei à espera, de onde desapareci por uns meses. E por isso reparei com curiosidade e espanto que, por exemplo, quando ele dormia, eu até queria que acordasse, não necessariamente para interagirmos, mas para o ter perto, na sua consciência, ao invés de perdido num vale onírico qualquer.
               
Além da amiga do meu irmão estava, com eles, um casal tuga que conheceram no aeroporto e que não deixaram mais. Malta porreira, a Joana e o Nuno. Muito diferentes de mim em vários domínios, como o meu próprio irmão é. Mas sempre advogo que estas diferenças de personalidade e estilos de VIDA não têm porque significar um afastamento.
               
Nesse primeiro dia, passámos a tarde na piscina e depois fomos para Patong Beach, onde tinha deixado a Sofia, que estava um bocado à beira do tilt. Estava farta daquele pedaço de mundo que parecia o Algarve, e ter estado sozinha não tinha ajudado. Fomos jantar, demos uma volta, e depois eles foram para o hotel, e eu fiquei no nosso dormitório, com as suas personagens e stresses.
               
O meu pai tinha dito ao meu irmão para me pagar o que eu quisesse, que depois lhe pagava, um agradozinho que agradeço. E no dia seguinte iam a James Bond Island (nome super estúpido e comercial – tem um nome tailandês, mas como filmaram lá um James Bond antigo, agora é assim que é conhecida), uma praia que deve ser toda XPTO e não sei quê. E no dia seguinte iriam a Ko Phi Phi, onde filmaram o filme “A Praia”. Apesar de ter este cheque em branco, não achei sensato abusar e não fui à James Bond, sendo que queria ir a Ko Phi Phi.
               
À noite ia ter com eles, para jantar, passar a noite no hotel (assim à socapa, sem os gajos do hotel perceberem) para no dia seguinte irmos para Ko Phi Phi. O táxi para lá eram 600baht (14€), por isso aluguei uma scooter por 200baht/24h e lá fui. Demorei hora e meia a chegar! Aquilo não era a mais de meia hora de distância, mas não só o meu caminho era à volta, como também andei meio perdido. Assim, cheguei lá às nove e pico. Jantámos no chinês. Pagámos o que é, no meu mundo, um balúrdio. Mesmo. Uma refeição de uma pessoa dava para pagar mais ou menos quinze das minhas habituais. É a cena de cada um, mas custa um bocado perceber. Depois estivemos um bocado na esplanada do bar e fomos para o quarto.
               
Passámos o dia seguinte a saltitar de ilha em ilha. Acordámos, tomámos o pequeno-almoço e fomos para as docas, onde após pagarmos (não foi super caro, 1100bahts – a Sofia fez algo parecido por 900) nos metemos no barco. Foi um dia porreiro, parando aqui e ali em praias com aquele mar cristalino e esverdeado, baías de cortar a respiração. Estou contente por ter ido. E não sei se mais lá volto.
               
Quando voltámos ao hotel, peguei na scooter e fui ter com a Sofia a Patong Beach. Desta feita, indo pelo caminho certo, demorei menos de meia hora. Já estou alto pró, curto bué andar por aí, sentir o Ventinho, deslizar ao lado do mar.
               
Fui dizer ao cota que ia precisar da mota mais um dia e depois fui ter com a Sofia, a quem tinha de pedir para ficarmos mais um dia em Phuket. A Sofia estava farta de lá estar, mas percebeu a cena e assentiu. Ficaríamos ambos lá no quarto do hotel e passaríamos o dia seguinte na descontra. Ela claro que pelo hotel preferia ir, mas entendia que eu curtisse estar mais um dia com o meu irmão. E, depois disse-me, acabou por curtir o dia seguinte. Assim, a Sofia foi jantar e bazámos. Fomos nas calmas, e quando chegámos fomos os seis jantar lá a um hotel vizinho. Aquela rede de hótes, ou lá o que é aquilo, tem táxis-barco de uns hotéis para os outros. E tem a piscina mais longa da Ásia.
               
O dia seguinte foi, como tinha previsto, de nada fazer. Tratei de umas cenas na net ao lado da piscina, nadámos, jogámos, lemos. Li metade do “Uma Noite em Novsa Iorque”, do Tiago Rebelo, e acho que o meu romance vai partir tudo. Desse livro achei tudo um bocado cliché e previsível. É certo que li oitenta e tal páginas sem parar, mas de todo o modo, não fiquei impressionado. E sendo este gajo dos autores que mais está na ribalta em Portugal, acho que algo não vai bem por esse canto da Europa. Se por algum acaso o Tiago Rebelo lesse o que agora escrevo – que não leve a mal, não é uma crítica destrutiva.
               
À noite voltámos para Patong. Eu tinha de ir deixar a mota e íamos lá jantar. Encontramo-nos todos às nove e tal e fomos comer lagosta. Foi a segunda vez que comi (tendo sido a primeira vez em 2001, acho, no casamento do filho do Vieira), e não sei se volto a comer. Curti, ok, mas pelo preço não acho que valha a pena. Às vezes um gajo paga muito, mas no final pensa “hei pá, valeu a pena”. Não foi o caso.
               
Fomos beber umas cervejas a um bar do lado, e despedimo-nos. No dia seguinte eles voltariam a Portugal, e eu boleiaria para a Malásia.

14h07-2ª-4-7-11
algures entre Kuala Lumpur e Singapura

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ko Jum (Parte II)


Nesse primeiro dia em Ko Jum, instalei-me no meu bungalow e conversei um bocado com o Louis, que estava no bungalow ao lado. O meu bungalow tinha muita, muita coisa – uma cama e um mosquiteiro, txara! Chega. O quarto de banho era ali cem metros à frente, e proporcionava-nos daquelas chuveiradas divinas. Era um quadrado de cimento, tapado por uma cortinita, sem tecto. Assim um gajo quando tomava banho às onze da noite tinha um milhão de estrelas como espectadoras.
           
Fomos jantar, e escolhi um livro para ler, que li nessa noite e dois dias. Sue Miller, While I Was Gone – um livro bastante instrospectivo com uma narrativa e enredo interessante. Curti, apesar de me parecer um bocado livro de mulher de meia idade.
           
A comida no Boadeng, o nome daquela “resort” era mais carota daquilo a que estava acostumado, mas muita fixe. Nessa noite comi cajus fritos com não sei quê, e curti bastante.
           
No dia seguinte perguntei ao Loius o caminho para a vila, e acabei por ir com ele, o seu filho, e a outra senhora com cara de enjoada que estava com eles. Não percebi muito bem a cena deles. Ela era mais ou menos da idade dele, viajava com ele, e acho que era mãe do miudo de dezoito anos. No entanto estavam em bungalows separados, e quando comemos, nessa tarde, um gelado tailandês de dez cêntimos, cada um pagou o seu. A mulher não dizia nada e estava sempre com cara de quem estava farta de lá estar. Só impressões.
           
O Louis é um cota fantástico. Às vezes procuro, sem na verdade o fazer
(mais um “esperar-encontrar”) um cota que ache parecido comigo, para saber que é possível envelhecer e manter a características que quero manter. Tenho medo de envelhecer. E às vezes aparece alguém muito porreiro e interessante, e falamos horas e horas, e ao fim dizem cenas que estragam tudo tipo “no fundo, as mulheres são todas umas putas”, ou “nunca gostei muito de pretos”, e eu fico naquela “hei méne, estava a gostar tanto de ti pá, e tinhas de dizer uma coisas destas...”. Mas o Louis não disse nada disto. Era um sueco de sessenta e um anos que nascera no Sri Lanka, e já tinha viajado um pouco por todo o lado. Já tinha estado na Tailândia mais de duzentas vezes e vivido em inúmeros países. Falava sueco, alemão, inglês e francês.
           
- A minha irmã às vezes diz-me que eu vivo a minha VIDA como se estivesse de férias – dizia. – E eu pergunto-lhe “tu quando estás de férias não és feliz?” Ela diz que sim. E eu pergunto porque é que não havemos de viver a nossa VIDA de forma a que estejamos felizes? – nem mais! Às vezes sinto que curtir parece ser pecado. Quando alguém tem a habilidade de levar a sua VIDA de uma forma que não custa muito e não traz muita mágoa ou rancor, o pessoal vem com aquela moral de sanita de “ai tu não sabes o que é a VIDA... é, é... tu? tu? tu devias era dar no duro para ver o que é a VIDA!” – hei pá como odeio isto!
           
Nessa tarde fui lá com eles à vila, que é uma estrada com casitas ao redor, restaurantes e outros serviços. Acho que normalmente não é assim tão isolada como naquela altura, por isso tive sorte em estar em low-season. Já na Europa, apesar do frio, curti ter viajado em low-season. Gosto de conhecer outros viajantes e tudo mais, mas se tiver de escolher entre ruas cheias de estranjeiros e ruas sem nenhum deles, escolho a segunda opção. É paradoxal, este pensamento, porque ao estar num sítio, estou a contribuir para algo que não curto – a cena do turista. Isto é, digo “ai não curto quando um sítio está cheio de turistas”, mas ao estar ali, eu estou a contribuir, com mais um turista. Entendem?
           
A caminho o Loius falou-me das cobras da ilha, e confesso que fiquei um bocado cagado, e depois me custo mais um bocado a adormecer, quando olhava para aqueles pedaços de madeira partida no bungalow por onde as cobras venenosas da ilha podiam entrar. É que aparentemente Ko Jum está cheia, mas cheia de cobras venenosas que não são nada tímidas em ir dar uma olhadela aos bungalows da malta. E em caso de mordidela, o antídoto está em Bangkok, nunca chegando em três horas (o tempo suficiente para ir visitar Jesus) à ilha. Mas não se deve considerar isso um risco que nos impeça de visitar a ilha – afinal de contas, há uns poucos milhares de pessoas que lá vivem sem terem sido atacadas.
           
Uma vez de volta, passei a tarde a escrever, e à noite jantei, e fui ler. No dia anterior tinha-me deitado às dez e tal, e tinha adormecido sem problemas. Se calhar a ultima vez que isto acontecera foi após uma directa, ou quando era criança – um dos encantos daquela ilha. Nessa noite li um bom pedaço e depois fui dar uma volta de meia hora na praia. Estava tão tranquilo, que tirei os boxers e caminhei nu, na paz, debaixo do céu pesado de estrelas.
           
No meu último dia na ilha, fui até à vila outra vez, para almoçar mais baratinho. Caminhava devagarinho, sorvia as curvas, os putos na escola, os velhos a dormir, cada detalhe entrava directamente na minha memória para não mais a deixar. Aquela ilha está gravada em mim. Estive lá um pedaço, voltei. Perguntei ao Loius onde se podia nadar tranquilamente, sendo que na praia à frente havia demasiadas rochas, e ele mandou-me para onde eu tinha acabado de vir. Lá voltei para trás, com calma, a ouvir Regina Spektor, e depois deixou que o mar me abraçasse sem timidez. Curti tanto...
           
Saí da praia, deitei-me numa rede ali mesmo à frente à espera do pôr-do-sol. Ia ouvindo música e tirando umas fotografias. O sol ia desaparecer por detrás de umas nuvens que ameaçavam estragar a fotografia. Mas não conseeguiram, pois deram-me nada mais nada menos que um leque de cores que me deixou em êstase. O tempo parou, para mim. Ouvia música, via o céu como se um qualquer deus tivesse deixado cair no seu tapete celestial o seu estojo de tintas, tudo estava perfeito.
           
E no fundo foi um bocado isto que senti em ter estado em Ko Jum – como se o tempo tivesse parado, como se algo me tivesse oferecido a possibilidade de, por dois ou três dias, não ter nada senão a mim mesmo, a ocasional companhia de outros viajantes, e todos estes pensamentos que me assaltam a cada segundo, que pediram tréguas e foram beber um fino uns com os outros. Estava feliz.
           
À noite conversámos um bom pedaço, depois do jantar. Foi quando o Dave teve aquela ceninha em que mandou o calar o Jean, e foi quando o Louis me disse que a irmã pensava que ele vivia a sua VIDA como se estivesse de férias. Falámos acerca de fronteiras, nacionalidades, e de toda a treta que, no fundo, reside em cada um destes conceitos. Despedimo-nos, trocámos contactos, e no dia seguinte voltei para Phuket, para ir ter com o meu irmão.

13h30-s-2-7-11
Kuala Lumpur, Malásia

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ko Jum (Parte I)


Dia dezanove mandei-me para Krabi. Tinha visto um postal que me parecia porreiro, por isso decidi ir ver a cena. Não estava a curtir muito Phuket e todo o seu turismo algarvio, e o meu irmão só chegava passados uns dias. Não queria ficar lá duas noites à espera.
               
Ora a Bianca, uma rapariga que conhecemos em casa do Wes, nosso anfitrião de Bangkok e que a Sofia dissse que pareceia minha filha (por ser mais novita e toda descontraída, viajante) tinha dito que havia este e aquele sítio que eram muito fixes, um deles na Tailândia, outro no Caboja. Decorar as cenas é sempre para esquecer (literalmente) por isso pedi-lhe para me mandar uma mensagem. Foi o melhor que fiz, porque acabei por me mandar para Ko Jum, que ela tinha recomendado, e ficou essa ilha aqui registada como dos melhores sítios que já visitei neste planeta!
               
Tinha saudades da boleia e a minha carteira estava a queixar-se um bocado da Tailândia. Então decidi boleiar. Pedi lá ajuda ao Dizzy, o canadiano Vegan, e o gajo até ajudou, mas achei piada a como fazia questão de dizer que já tinha boleiado para Numseionde não sei quantas vezes. Acho que um bom exemplo do que senti vindo dele é o seguinte: perguntei-lhe se falava tailandês, e ele disse que sim. Depois perguntei se ele sabia escrever, e ele disse que sim, não sabendo que eu estava a pedir-lhe para ele me escrever uma cena. Quando eu lhe pedi ele ficou um bocado atrapalhado, escreveu dois caracteres, depois perdeu-se a ver como se escrevia Krabi e acabou por esquecer o assunto. Pois.
               
De todo o modo, sob o sol e os seus trinta e tal graus de brinde, lá saí do hostel. Até Krabi eram só três euros e tal, mas que se lixe, fui na mesma. Fui caminhando para norte, para sair da ilha, mas ainda faltava um pedaço. Mas apanhei algumas boleias, até que estava na estrada que, sempre em frente, sairia da ilha. Depois apanhei uma boa boleia p’rai de um quarto de hora, e estava já mesmo quase. E pronto, apareceu aquele bacano, levou-me quase uma hora, deixando-me p’rai a trinta quilóemtros de Krabi. Aí, almoçei num daqueles restaurantezinhos de estrada, tomei café, e segui caminho. Apanhou-me logo um senhor cheio de tiques! Tinha de me esforçar para não me rir. O gajo a conduzir não conseguia ter as duas mãos ao mesmo tempo no volante! A esquerda saltitava entre o volante e o manípulo das mudanças a cada três segundos, não chegando nunca a tocar, e a direita entre o volante e o botãozito de abrir o vidro, onde também nunca chegava a tocar. Enfim, cenas...
               
O cota deixou-me em Krabi, onde fui procurar um computador, pois ainda não sabia bem onde é que ia, tinha de ver como lá chegava. “Ko Jum, ok, siga...”, pensei, ao ler a mensagem da Bianca. Dei lá umas voltas, à procura de um barco que lá me levasse, mas era low-season, por isso nada feito. Tive de apanhar um taxi por sessenta cêntimos que me levou vinte minutos e outro de quarenta cêntimos a seguir que me deixou no portozito, se é que se pode chamar porto àquilo. Já estava a curtir. Não se via nenhuma cara pálida por aqueles lados, havia já algum pessoal muçulmano, sentia que estava mais numa Tailândia que era mais autêntica e real.
               
Após negociar o preço, esperei uma horita e lá fui no barco. Demais. Quarenta e cinco minutos a navegar as pacíficas águas daquele mar aque abraçava um sem número de ilhotas, umas habitadas, outras não, outras com apenas uma barraquita ou outra.
               
Quando cheguei, fui perguntando onde era o Boadeng, o hostel que a Bianca me tinha aconselhado. Estraditas de terra, não vi nenhum carro. Selva e mar. Caminhei p’rai uma hora. Caiu-me o coração a dada altura, e foi uma contradição com o meu estado de espírito, onde reinava a alegria, ao ver um gatito que, imagino, já não vive agora. Chamei-o, ele veio, e depois reparei que tinha um grande cagalhão (não sei como hei-de usar só uma palavra para dizer isto e ao mesmo tempo não dizer uma asneirita) preso ao rabo. Dei uma olhada e era o seu recto que estava a sair. Tentei ajudá-lo com um pauzito (para confirmar se era mesmo o recto e não era o tal cagalhão) mas nada feito. Mas pronto, segui caminho.
               
Meti-me matao adentro, seguindo as instruções, e fui dar à praia, que tinha bué de “resorts” de bungalows, mas não se via ninguém. Digo resort, mas o que quero dizer é grupos de bungalows, sendo cada grupo um, digamos, hotel. Lol que riso só de ver a palavra hotel associada àquilo. Pois procuro por alguém e aparece um méne que me diz que os bungalows são a sete euros e tal o mais barato, longito do mar (prai a cem metros). Sete euros? Depois pergunto onde é o Boadeng, e ele diz que é “já ali”, e vou lá ver.
               
O Boadeng é um grupo de Bungalows. Tem um restaurante no meio, onde a comida é mais cara do que aquilo que costumo comer (2,20€ uma refeição muito bem servida) mas ainda assim acessível. Tem o mar ali mesmo à frente, muitas palmeiras em todo o lado, como de resto assim acontece por toda a ilha, e uma casita maior, onde vive a Rosa e as irmãs, que com outro méne gerem aquilo. Tem umas cadeiritas aqui e ali, espalhadas mais ou menos aleatoriamente, e daqueles sets de bacos e mesa onde um gajo se refastela a ler, ou a comer.
               
Estava lá no meio quando apareceu a senhora que creio ser a Rosa, com o Dave, um inglês de sessenta e poucos anos que vive ali. O gajo ia-lhe mostrar uma boia que dera à costa, e perguntar se estava presa ou uma cena assim qualquer. Tinha uma bengala. Vivia lá há oito anos, e aparentemente teve um acidente no ano passado, e envelheceu bastante desde então, disse-me o Louis, o meu vizinho de bungalow, que já o conhece há anos. Era um verdadeiro hippie dos anos sessenta, fez os trilhos hippies todos, viveu com nómadas no Sudão. E agora vivia ali, um cota interessante mas um bocado arrogante. Não posso dizer que o tenha curtido. Mas deixou-me a pensar... pode parecer o paraíso para muita gente... reformar-se seja de que VIDA for, e passar os dias numa ilha paradisíaca, sem ninguém a nos chatear, bom clima o ano todo, praia o ano todo. Mas o gajo, no fundo, está ali sozinho. Há-de estar feliz, caso contrário não estaria ali... é a cena dele. Mas não entendo esse abdicar de todas as relações que se tem. Deve conhece centenas de pessoas, muitas delas interessantes, mas não são amigos. São pessoas que vêm e vão, pessoas a quem é impossível apegar-se seja de que forma for...
               
Sou o primeiro a dizer que a nossa felicidade não deve depender dos outros. Deve vir de nós, de dentro. Não devemos responsabilizar os outros por aquilo que vai dentro de nós. E por isso mesmo acho interessante a minha dificuldade em perceber este gajo. Porque, ao mesmo tempo, acho que precisamos, ou melhor, que preciso, de estar inserido num qualquer grupo, com pessoas que gostam de mim e de quem eu gosto, para ser feliz.
               
Não fui miuto com a cara do gajo. Primeiro são cenitas, e nós até nos achamos ridículos por termos estes sentimentos. Mas às vezes confirmam-se. Tipo, para mim foi a maneira como ele me perguntou, ao jantar, há quanto tempo estava na Tailândia, e o que disse subsequentemente. Quando disse que estava lá há catorze dias, o gajo diz “muito más maneiras...”. E eu tenho de perguntar o quê, para ele me dizer que era considerado más maneiras jantar sem t-shirt. Não curti a maneira como o gajo disse isso, não que eu seja aqui um sensivelzinho. Tanto que foi só uma cenita, e pedi desculpa e fui buscar uma t-shirt.
               
Havia lá um francês, o Jean, p’rai de cinquenta e muitos anos, que me dava a entender ser um gajo meio solitário. Daqueles que fala muito e aborrece toda a gente. E ainda por cima falava em francês a maior parte do tempo, o seu inglês não era excelente. Mas eu não tinha coração para o mandar calar ou dizer que não estava interessado. E não acho isto hipocrisia, simplesmente estava a dar um pouco de mim a quem, às tantas, precisava, nem que fosse precisar apenas de alguém que manifeste algum interesse. Pois certa noite, em que estamos todos no restaurante (o alpendre de uma casa), o senhor francês ia falando com quem o queria ouvir. A dada altura, começa a encaminhar-se para casa. Mas este senhor é daqueles que demora p’rai meia hora a ir embora de qualquer lado, cada passo é marcado com quatro ou cinco frases. Eu estou num canto, a ler, o Dave noutro canto, a comer. O francês passa por ele, devagarinho, e o Dave faz um sinal com a mão: o braço esticado para a frente, e a palma da mãe para baixo. O braço ia para cima e para baixo. Eu percebi o que ele queria dizer, mas o francês não. Ele estava a mandar o francês calar-se, mas o pobre pensou que ele o estava a convidar para se sentar com ele. Como o francês reagiu rapidamente! Via-se que lhe agradava imenso o convite e ia-se sentir, e o Dave, muito frio, diz “no, no”, e levas a mão aos lábios, dizendo para ele se calar, e seguir caminho. Como o odiei naquele momento! A sério! Tive mesmo pena do pobre Jean. Mas paciência.
               
Estes são dois dos personagens que lá conheci.
               
Fim da Parte I.

1h34-3ª-28-6-11
Georgetown, Malásia