domingo, 6 de fevereiro de 2011

Até Parma


Estar nestes comboios lembra-me quando andei por aí, em caminhos italianos, com o Kidus. Foi há quatro meses. Esta sensação não é nova, mas talvez seja nova a sua referência nos meus escritos... acho eu. Falo da temporalidade relativa do viajante. Para mim que, não tendo nada que fazer, acordo sempre por volta do meio dia, acordar de manhã dá-me logo a sensação, ao fim da tarde, de que vivi dois dias, ainda que nos dias em que me levanto tarde acabe por dormir as mesmas oito horas aconselháveis. Agora isto aliado à viagem faz com que um dia pareçam quatro ou cinco. O tempo tem manias e diz-nos que são as horas que lhe apetece. Como saberíamos se o tempo não fosse, na realidade, constante? Se os carros andassem mais devagar, ou o ponteiro do relógio, ok. Mas se a nossa capacidade perceptiva e de interpretação estivesse também mais atrasada, a nossa visão da realidade era a mesma, ainda que tivesse passado num ápice, ou num ano. Teorias e incertezas. Mas guardo como certeza esse facto que é o desdobramento da percepção de tempo que se tem quando em viagem. Talvez por vermos mais coisas, por nos ocuparmos de mais coisas, ou pelo nosso organismo fazer por aproveitar mais de cada segundo, em conluio com a nossa mente de ávida criança.

Hoje acordei em Génova e ontem em Marselha e Marselha parece que foi há tanto tempo que me tenho de esforçar para recordar, apesar da epopeia que foi. Um dia com sete boleias e umas quinze horas de viagem!

Depois do pequeno-almoço tomado e das despedidas lançamo-nos ao destino. Não havia possibilidade de apanharmos um autocarro até uma estação de serviço ou assim, por isso fomos ali para um sítio à saída, com uma placa a dizer “A7àA8”. Deixamo-nos ficar ali uns dez metros atrás do gajo que já lá estava, e depois de ele ter ido para Aix, apanhámos nós a boleia do Zoer, um marroquino radiologista, que nos deixou numa estação de serviço onde poderíamos perguntar ao pessoal se ia para Nice. O sol brilhava alto, continuando a concretizar a sua clara intenção de nos perseguir e zelar por nós. Eis que o João tem a ideia de ir para a zona de desaceleração com a nossa plaquinha a ver se arranjava alguém que fosse para os nossos lados. “Se apanhares alguém manda toque que eu venho logo”. ‘Tá-se bem. Uns dez minutos depois falo com um senhor gordo, de óculos a enfeitar uma cara simpática com uma carrinha de matrícula checa (por vezes dá jeito ver de onde são) que nos levava até perto de Nice. Tento ligar ao João, mas nada. Peço ao senhor para esperar, que assente não sem antes me dizer que não tinha muito tempo, e dou uma corrida, apenas para ver o João a caminhar ao lado de uma carrinha com umas luzes azuis a piscar. Fixe. Aproximo-me a aparece uma senhora polícia de face jovem e atraente, toda zangada a dizer já nem sei o quê. Disse-lhe que já tínhamos encontrado alguém e que esse alguém nos esperava, ao que ela respondeu dizendo que não queria saber. Não custa tentar... Pediram os meus “papéis”, que lhe dei, e ao João que, não tendo o seu bilhete de identidade ou cartão de cidadão com ele, lhes deu o seu cartão de estudante e um cartão do seguro europeu de não sei quê. Confesso que estava pronto para uma boleiazinha policial, mas para surpresa minha, estes cartões foram suficientes. Foram-se embora tranquilos dizendo que em França era proibido andar na autoestrada.

Passado p’rai uma meia hora apareceu o Matthiew (em francês, não sei como se escreve) para nos levar. Disse que ia para Aix e lá se calhar era melhor. ‘Tá tudo. Note-se que Aix era para onde o outro gajo da boleia tinha ido, num carro com ainda três lugares disponíveis. Em Aix deixou-nos num sítio aparentemente porreiro, numa saída mesmo para a autoestrada onde passavam centenas de carros, mas devagar, numa fila apenas, e com espaço para pararem à frente. A frustração apareceu aí um bocadito. Eu aceno, sorrio, e essas cenas todas, e o pessoal faz o mesmo, e segue em frente. O medo do pendura! Medo de quê? Tu paravas para levar alguém? Há situações mais limite que outras, naturalmente, mas ali estávamos nós, dois rapazes com duas mochilas, aspecto tolerável/normal, sorrisinho no rosto, onze da manhã... O medo da ínfima probabilidade de que nos façam algo impede-nos de ajudar pessoas em situações menos favoráveis. Temos de ter cuidado com tudo, e tomar conta de tudo! A probabilidade de apanhar alguém que nos queira fazer algo é de, sei lá, que seja um em dez mil. Mas por causa disso privamos a nossa ajuda a cem por cento das pessoas. Agora quando se conhece alguém num bar que se leva para casa, o sítio onde vivemos e quem sabe outros que nos são queridos, aí é tranquilo. A coerência aqui escasseia. Note-se que não critico que o pessoal se entregue e que efectivamente leve alguém para casa numa noite mais acalorada, conquanto as circunstâncias assim o permitam e não haja factores externos que saiam danificados. O que critico é a falta de consistência de comportamentos. É diferente, claro que é diferente... mas será que é assim tão diferente?

E por isso mesmo ficámos em Aix umas duas horas. Eventualmente descemos um bocado e estávamos mesmo à entrada da autoestrada, mas ainda numa estrada secundária e onde os carros circulavam lentamente. Finalmente parou a Isabella, senhora francesa de cara simpática e de quem sabe o que quer, que viveu em Singapura, trabalhando como instrutora de Pilates, em Pequim, fazendo o mesmo, e que já correu meio mundo, com o marido e os filhos, até que, para a educação dos rebentos, se estabeleceu no seu país de origem. Já tinha, no passado, andado à boleia, um factor que, tenho vindo a descobrir, aumenta as nossas probabilidades em dez milhões por cento. O azar foi que a Isabella ia para Toulon e não havia nenhuma estação de serviço antes dela virar para aí, o que significa que andámos uns vinte quilómetros numa direcção nem por isso conveniente... Ficámos numa estação de serviço deserta, e atravessámos uma ponte para o outro lado, ficando numa estação de serviço que sempre tinha mais gente e tinha essa vantagem que era ser estar na direcção que nos interessava. Falámos com os caros camionistas e fomos levando as nossas negas do costume. Sem problema. A dada altura, e depois de uma dessas negas, percebi, vendo a matrícula do camião, que tinha falado em francês com um português. Voltei atrás e voltei a perguntar. A resposta foi diferente, ainda que igualmente negativa. Todavia, passado um bocado, o Humberto lá me chamou. “Pá, eu ainda não sei se vou para a Itália ou para a França, estou à espera de serviço. Se eu for para a Itália, posso deixar-nos perto de Cannes numa estação de serviço...”. ‘Tá tudo ó Beto! Deixamos o português e fomos tentar a sorte mais meia hora, interpelando as pessoas que iam passando. Não conseguindo nada, fomos comer o nosso pato. A cena é que em Marselha encontrámos, ao lado de um caixote de lixo, uma caixa com mais de vinte euros em comida, quase tudo dentro de prazo. De alguém que se mudou, suponho. Trouxemos algumas cenas, claro. O pato estava um bocado horrível. Não por horrível ser, mas porque estava envolto em banha, e um gajo não tinha exactamente os dispositivos para se livrar da pasta amarela. Mas fechou qualquer buraco que se quisesse abrir no estômago.

Acabávamos o nosso manjar quando o Beto nos chama ao fundo. “Hei!” – caminhamos na sua direcção, todos contentes.
- É assim, eu vou para a Itália... mas e se aparece a polícia?
- Não aparece nada... Ande lá, faça o jeito.
- Isto é muito complicado, muito complicado... e se aparece a polícia, como é?
- Nós pagamos a multa – esta conversa demorou mais um bocado. Ele ainda disse a palavra “complicado” mais oito vezes e “polícia” mais sete. Lá nos metemos a bordo, o João sentado no colchãozito e eu no pendura. O Beto era camionista há nove anos, e estava farto de Portugal, da crise e “dessas merdas todas, pá”. Equacionava ir para a Noruega, onde “o salário mínimo são quatro mil e quinhentos euros”, coisa de que duvido seriamente. Quase que dava para ver o Beto a mudar de ideias, se uma pessoa olhásse com atenção. Começou com “eu podia levar-vos até à Itália... mas não, não...” e acabou com “Vocês querem ir até à Itália”. Ah pois queremos, ó Beto!

Parámos de qualquer maneira na estação de serviço onde íamos parar. Os portugueses reinavam por ali, e pensámos em ir atirar o barro à parede. Não foi preciso barro nenhum porque o Beto conhecia o Edgar, que acabou por me levar a mim, ao passo que o Beto continuou com o João, tendo nós marcado o rendez-vous para não sei onde na Itália. A viagem de Cannes até não sei onde na Itália é esplêndida. Mas o Edgar não é gajo para andar devagar, e eu via-me ali a atravessar aquelas pontes e só pensava em como seria transmitido no telejornal a notícia de um acidente envolvendo dois portugueses a cair de uma ponte de trezentos metros, dentro de um camião, e com o milagroso sobrevivimento do mais novo. A cena é: quando num camião, a cabeça de um gajo está p’rai a uns três metros de altura. Isto é fixe quando vamos tipo numa auto-estrada, e temos o conforto daqueles estofos aliado à visão privilegiada e pseudo-magestral que os três metros atribuem. Mas quando a atravessar uma ponte de trezentos ou quatrocentos metros, um gajo olha para o lado e não vê senão o chão lá em baixo...

Lá chegámos a não sei onde na Itália, que era a oitenta quilómetros de Génova. Achei que ia ser tranquilo, mas não podia ser, para salvar a coerência daquele dia caricato. Estávamos sem sorte nenhuma e o sol já se tinha posto. E tal como os vampiros, depois do pôr-do-sol saem à rua os gajos que andam à boleia que são ainda piores que aqueles que andam de dia. Estes matam também, além de roubar. Lá ia perguntando com o meu italiano macarrónico...

Uma destas pessoas a quem perguntei respondeu que ia sair antes. Não me dando por vencido fiz uma pergunta qualquer e ao responder reparei que a pessoa, ainda que tentando dar um sotaque italiano, usava a palavra “eu”. Voltei à carga, mas desta feita em português e, passado não mais que um minuto do Luís ter dito que ia sair antes de Génova, ele diz que por acaso até ia sair depois, e que nos podia levar. Tinha de esperar para fazer a sua pausa (a minha cultura camionista está a ficar cada vez mais rica... que me perguntem horários, cargas rotas, tudo...) e depois nos levava, mas nos entretantos continuámos a perguntar. Não encontrámos nada e lá fomos com o Luís, que disse que como éramos portugueses nos levava, mas se “fosse assim alguém doutra raça ou assim ou daí” não dava. Eu, pelos vistos, tinha uma panela surpresa na mochila, e lá dentro andava tudo às turras. Valores, respeitos, simpatias, julgamentos e o esforço de não os fazer, praticabilidades, tolerâncias, contextualizações... tinha de tudo um pouco à porrada e o único lesado era eu, que me encontrava numa situação que não me deixaria agradado de maneira nenhuma. É que eu agradeço ao Luís por nos ter levado, agradeço do fundo do meu ser a simpatia demonstrada para um desconhecido, mas não entendo o que leva alguém a ser mais simpático para alguém que fala a mesma língua... só porque sim! Pá eu se estou na Papua Nova Guiné e vejo uns tugas lá a jogar mini-golf, vou mandar um bitaitezinho e socializar... mas porque há um background que partilhamos e facilita eventuais conversas, e um sentimento mútuo que advém da distância a casa. Mas creio serem situações diferentes, na medida em que uma visa algo que não é necessariamente indispensável, o lazer e partilhar as saudosas mágoas, e a outra visa algo que não é necessariamente dispensável, providenciar transporte para que alguém não tenha de passar a noite numa estação de serviço. Se o que me preocupa é a minha segurança, eu confio tanto num português como num espanhol, italiano, francês, e por aí fora... Não sei se faz de mim um hipócrita pensar assim e ter ido com a boleia de qualquer maneira. Teria sido um radicalismo apanhar boleia só de quem passa no “teste do Pedro”, ou é a consideração de isto ser um radicalismo apenas uma desculpa que dou a mim próprio? E o mais interessante é que o Luís se revelou um rapaz bastante simpático e prestável...

Pois assim lá nos levou o Luís até perto de Génova. Queríamos sair nesta saída, depois naquela, depois naquela... e já tínhamos passado Génova... é que os camiões têm, não só os discos que controlam a quilometragem mas também um dispositivo gps que deixa quem se interessa a saber exactamente onde estão. Isto aliado ao facto de consumirem uma média de quarenta litros aos cem, fez com que ele não nos pudesse ter deixado onde mais se nos aprouvia. Tudo compreensível, obviamente. Lá ficámos, já bem de noite, numa estação de serviço para lá de Génova. Não precisámos de pedir a muita gente até que o Shimon (?), um israelita que já andou, há muito tempo, à boleia, nos deixou exactamente onde queríamos – a estação de comboios! Daí foi um tirinho até casa do Giacomo, o nosso anfitrião. O Giacomo e o Mateu foram as primeiras pessoas que já conheci que estudam engenharia náutica. O Giacomo é de Roma e depois das conversas iniciais e uma cerveja, foi comigo dar uma volta a Génova. Um rapaz muito porreiro que me lembra o Leandro. Pelo pouquíssimo que tinha visto de Génova, não estava impressionado, mas depois daquela tour de madrugada de cerca de hora e meia, fiquei agradado. Tem a parte com os eficios fascistas que me agradam visualmente, e tem a parte velha, de ruas estreitas e aquele ar italiano difícil de se escapar. Sabias que a bandeira Inglesa advém da bandeira de Génova. Há muito tempo o reinado de Génova tinha uma reputação muito respeitável nos mares, e ninguém se atrevia a meter-se com eles. Estou a imaginar os piratas “Hei méne vamos àquele? Ai deixa, é de Génova. Aliás, se calhar dávamos era o baza!”. Assim a Inglaterra pediu a Génova para usar a sua bandeira e benificiar da sua reputação. Coisas.  Acho que a Itália é o país que conheço melhor... Roma, Milão, Verona, Veneza, Florença, San Gimigniano, Lucca, Pisa, Siena, Génova... e Parma, daqui a pouco.

Hoje deixamo-nos dormir. Após um breve debate na noite anterior decidimos ficar até mais tarde, sendo que tínhamos apenas cento e tal quilómetros para fazer. Erro. Acordámos, almoçámos com o Giacomo, vimos para onde tínhamos de ir e pusemo-nos a caminho. Caminhámos uma boa hora com a nossa mochila a encostar-nos ao chão, e depois de pedir indicações a umas dez pessoas, e de andarmos um bocado para a frente e para trás, lá demos com a estação de serviço concorrida que ia para o Norte. Tínhamos de nos meter na autoestrada que ia para Milão, e depois na estação de serviço antes de aparecer o novo troço que ia para Piacenza e eventualmente Parma. Perguntei a umas vinte pessoas, até que apareceu o Luciano. Daqueles que nem nos olha nos olhos. Cabelo branco, cara antipática. Perguntei se ia para Norte, disse que não, que ia para Milão, e entrou para pagar. “Ora a menos que algo se tenha passado hoje de noite, Milão é para Norte. Assim decidi tentar outra vez e mal ele saiu perguntei se podia(mos) ir com ele. ‘Tá tudo!

- Estamos a chegar a Parma -

21h40-6ª-4-2-11
Parma, Itália

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Até Genova

Quando puder actualizo. Estou em Genova, vamos tentar ir para Parma daqui a pouquinho












 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Até Marselha


Há pessoal fixe. Há vários deles por terras de Cambra, está claro. Mas também há para aí, mundo fora, pessoal que curte fazer cenas pelos outros...
               
Ontem acordamos às sete da manhã, prontos para zarpar em direcção ao Este, essa direcção que reinará quase todos os dias. Munidos com o poder internáutico e a informação que adveio do mesmo, sabíamos que tínhamos de apanhar um comboio até Montclava, depois virar, aqui, virar ali, eventualmente encontrar um sinal a dizer “proibida a passagem”, passa-lo, e dar com uma estação de serviço da Galp. Aí dividimos tarefas, e o João focou a perguntar ao pessoal (“perdon, te vás en direccion al norte?”) nas bombas de gasolina, e eu no restaurante. Passado uma hora consegui boleia de um marroquino. Ia até para lá de Perpignan mas deve ter tido medo de atravessar a fronteira connosco porque nos deixou em La Jonquera, a última estação de serviço antes de França, creio, onde as temperaturas dançam com o Vento e deixam-nos a apitar. Lá, tardamos uns cinquenta minutos a encontrar alguém que teve de ser conquistado. Estava renitente, sorri, mandei piadinha aqui e ali e lá consegui convencer o rapaz. Tenho-me vindo a aperceber que, se às vezes nem falam connosco, outras vezes o que é preciso é um jeitito aqui e ali. Claro que também tive um que disse algo como “não porque tenho ganas de ir sozinho, é o meu problema!” e outro que, honestamente pelo menos, disse que “tinha medo”.
               
Assim ficámos, com esta segunda boleia, a meio entre a fronteira e Montepellier. Estávamos indecisos quanto a nos contentarmos com esta cidade ou arriscar até Marselha. Não demorámos mais de dez minutos a conhecer o Bruno, francês, que prontamente se ofereceu para nos levar até à última estação de serviço, caso não quiséssemos ir para Montepellier. O Bruno tinha um avô português, um siciliano, já correra meio mundo, tendo nascido no Gabão, ido para a França vinte e cinco anos depois, vivido no Brasil um ano e dois na Costa Rica. Uma pessoa simpática e interessante, que ia falando sempre em Francês que, para surpresa minha, era amplamente percebido e correspondido.
               
Há pessoal fixe. A dada altura disse que, se quiséssemos, nos dava uma rápida tour de Montepellier e depois nos deixava um bocadito à frente, em direcção a Marselha. Contentes assentimos e assim fomos conhecer um bocado da sua simpática e beje cidade. Levou-nos à sua cave milenar para nos mostrar os milhares de pinturas que tinha comprado mundo fora (a dada altura comprava e vendia doze mil por ano) e partimos passado pouco tempo. Apesar de nunca ter sentido nenhum receio, achei engraçado que aquela cave parecia aquela cena hollywodesca de quem anda à boleia e depois fica preso numa catacumba!
               
O Bruno lá gostou de nós, tal como nós dele, e levou-nos, não mais um bocado à frente, mas a Marselha! São cento e setenta quilómetros mais! Ele próprio já tinha andado à boleia no passado, e talvez isto combinado com a sua generosidade natural culminaram ali numa louca mistura que fez com que tivéssemos feito quinhentos quilómetros num dia! Uma vez chegados, bebemos qualquer coisa no O’Malleys enquanto esperávamos pela Jo, a nossa anfitriã com mais energia de que um esquilo com red bull. Miuda muito fixe, que já viveu sete meses em Barcelona, sete anos no Canadá, um ano em Nova Iorque e vai transitando entra a Ásia e os trabalhos com contractos de meio ano em França. Jantámos e estivemos à conversa, até que a noite se fechou.

Agora vou apresentar Marselha aos meus olhos.

12h19-3ª-1-2-11
Marselha, França

Até Marselha





domingo, 30 de janeiro de 2011

Barcelona e a VIDA


A VIDA é bela. Devia ser assim tão simples. Mas às vezes cometo o erro de pensar demasiado nisso. Ou melhor, demasiadas vezes cometo o erro de pensar demasiado. Quero encontrar um sentido, significado, razão, por detrás de quase tudo o que existe, e isso leva-me a um labirinto de onde depois não consigo sair. Ando lá para trás e para a frente e não encontro os butõezitos de s.o.s. Lá consigo sair, mas com dificuldade. Estes pensamentos são como uma rede emaranhada cheia de tentações e guloseimas a que acho difícil resistir. Sinto cruzar-se em mim os pensamentos do Ricardo Reis com os sentidos do Alberto Caeiro, e não sei se prefiro a profundidade profunda ou a profundidade superficial. Quem sabe um equilíbrio entre o pensar com os sentidos e a entrega à reflexão seja algo que posso um dia alcançar. A VIDA é bela, e vai indo, todos os dias. Estava a ver umas fotos do meu pessoal em Birmingham, invariavelmente numa festa. Parece que foi há muito tempo, como uma realidade que não existe de verdade, mas em que mergulhei sem saber por dois anos. Longe vai o tempo também em que o           que agora é uma realidade era, na altura, um sonho.
               
Ontem fui ver a Sagrada Família. É como se um qualquer deus tivesse estado a brincar com areia molhada, deixando-a jorrar pelos seus dedos através dos céus, e caísse em Barcelona uma sumptuosa visão de mentes que acham que podem fazer melhor, e diferente. Para entrar geralmente são doze euros mas neste dia a entrada era gratuita. O interior é porreiro mas não dava doze euros para ver, estando em low-budget ou não estando. Sinto que há muito que não vi nesta cidade, onde tão frequentemente se sente o cheiro a erva e a waffles, mas isso não me apoquenta. Percebi, contudo, o quão porreiro deve ser viver aqui. Sente-se o andamento nas ruas, respira-se a actividade sempre presente. E tendo hoje, depois de termos almoçado umas tapas com a Mirella, visto a praia, senti ali a cereja no topo. É uma cereja pouco formosa, é certo, mas oferece a Barcelona um brinde de que poucas cidades se conseguem gabar.
               
Ontem tivémos uma noite semelhante à anterior, mas eventualmente fomos ao Ryan’s beber um copo. Após ter cruzado as conversas do costume com as personagens locais fomos ao Sugar. Não passava das três da manhã, acho, quando estávamos de novo em casa, sentados a ouvir um qualquer som chill-out, a beber vinho. As palavras, maioritariamente as ouvidas, têm o dom de preencher certos campos em nós, ou em mim, que poucas outras coisas, ou actividades, conseguem. Apraz-me sobejamente uma conversa de três horas, saltando de tema em tema como miudas a jogar à macaca...
               
Agora o plano é mandarmo-nos em direcção a Marselha amanhã. Temos um sofá lá à espera, ou em Montepellier, caso as coisas não corram como o esperado.

10h13-d-30-1-11
Barcelona

Barcelona, Janeiro '11

sábado, 29 de janeiro de 2011

Até Barcelona





Até Barcelona


Sabes que tens um problema com insónias quando começas a pensar que se calhar até estás a dormir mas estás a sonhar que não consegues dormir. Pelo menos era o que me passava pela cabeça anteontem à noite em Madrid. Incrível estar cheio de sono, cansado, e não conseguir dormir. Infelizmente isto já não é novo e a cada três ou quatro dias o meu corpo gosta de usufruir do seu direito à paradoxalidade. Assim estava na noite antes de partir para Barcelona. A dada altura, lá nos confins do seu quarto o Nicola, colega de casa da Audra, começou a ressonar, o que me alegrou, sendo que me podia enganar e pensar que afinal eu não conseguia dormir mas era por causa daqueles roncos. Enfim.

Pois ontem, contrariamente ao esperado, lá acordei mais vivo do que pensava. Acordámos às sete, tomámos banho e essas cenas. Pequeno-almoço e apanhámos o comboio (cercanias, para pequenas distâncias) até Guadalajara. O Johnny Calzony quis passar sem pagar e conseguiu. Ou conseguiu entrar, pelo menos, sendo que à saída foi apanhado e em vez de pagar quatro euros e meio pelo bilhete pagou dez de multa. Às vezes o barato sai caro, já dizia o meu pai. Mas dez euros é um preço supreendentemente agradável, parece-me.

De Guadalajara apanhámos um autocarro de um euro para Taracena e uma vez chegados aí caminhámos até à estação de serviço na autoestrada, uns dez minutos, se tanto. Não demorámos mais do que dez minutos a encontrar o Milton e a sua mulher, um casal boliviano, que nos levou até à última estação de serviço antes de Saragoça. Daí, não demorámos mais de outros dez minutos a encontrar o Johnny (ou p’rai Jóni em espanhol) que nos levou até... Barcelona. Ou seja, desde que perguntámos à primeira pessoa por boleia, em Taracena, demorámos umas seis ou sete horas a chegar a Barcelona, seiscentos quilómetros!

Estou agora aqui estendido num colchão na sala de um apartamento a dois minutos a pé das Ramblas, concluindo esta pequena recuperação, sendo que andava cansado desde Portalegre. Ontem ficámos por casa. A nossa anfitrã é de Madagascas e a sua colega de casa da Austrália e é o pessoal que uma pessoa quer conhecer. Passámos toda a noite a beber uns copos, comer umas sanduíches e conversar acerca de um pouco de tudo. Pessoal muito relaxado e liberal. Barcelona espera pelos meus olhos mas a minha pele espera por um chuveiro. Hasta luego.

13-55-sábado-29-1-11
Barcelona