sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Battabang


No dia 15 acordámos de manhã cedo, lá p’rás seis e tal, para ir para Battabang. Não tinha planeado ir lá, mas fui com o Martin. Eu tinha-lhe dito que se ele ficasse em Siem Reap mais um dia, no dia seguinte eu ia com ele para Battabang. Mas a verdade é que Siem Reap não tem muito que ver, e então acabámos por ir juntos para Battabang, depois para Sihanoukville, e estámos neste momento no autocarro a caminho de Phnom Penh.
               
Demorámos esternidades a sair da cidade. É que primeiro apanhámos um autocarro que nos levou para outro autocarro. Depois este levou-nos para o terceiro autocarro. Este ia para Battabang, mas antes disto, depois de algum tempo de espera que arrancasse, andou às voltas pela cidade, não sei porquê, e chegou mesmo a passar em frente ao nosso hotel, de onde tínhamos apanhado outro autocarro mais cedo.
               
Quando chegámos não sabíamos de íamos ficar um dia, ver o que havia para ver, e depois ir para Sihanoukville, ou se ficávamos uma noite. Demos lá umas voltas, e parecia não haver autocarros nocturnos para Sihanoukville. Decidimos ficar. Quando saímos do autocarro foi daquelas situações onde um gajo se vê rodeado por uma dezena de pessoas, cada um a gritar o nome do seu hotel. Um destes gajos foi mais persistente e como que nos seguiu. Fixe para ele, porque acabámos por ficar no seu hotel – Royal Hotel. Ficámos no terraço, um quarto com duas camas só para nós, internet e papel higiénico, por um euro cada um!
               
Instalámo-nos, tomámos banho, e fomos ver o que havia para fazer. Eu tinha visto duas holandesas que tinham vindo connosco de Siem Reap e estavam no mesmo hotel, e estive a falar com elas cinco minutos antes de descer. Cá em baixo, estavamos indecisos entre alugar uma bicicleta ou uma tuk-tuk para andar por aí. Foi aí que me lembrei que, se partilhássemos com elas, ficava mais barato. Elas apareceram e já iam numa, a pagar 15 dólares pela tuk-tuk. Após a nossa negociação acabámos por pagar 12 dolares para os 1quatro. O pessoal aproveita-se dos turistas, mas tenta mais a sua sorte com malta loira (por parecer super-turista) e com mulheres.
               
- Não quero parecer que estou aqui a dar-vos lições, mas parece-me que vocês andam a pagar demasiado – disse-lhes. É que elas tinham chegado ao nosso hotel antes de nós, e eles tinham-lhes dito que o quarto mais barato era sete dolares, e elas ficaram. O preço desse quarto até era verídico, porque tinha quarto de banho e o nosso não, mas o que é certo é que quando nós perguntámos qual era o quarto mais barato, ele disse três dólares.
               
Foi fixe porque as gajas eram bacanas e pagámos 3 dolares cada um por um dia de tuk-tuk. Tinham ambas 23 anos. A Renee tinha tirado “Interactive Media” e não sabia bem o que ia fazer quando voltasse (estava nas últimas semanas da sua viagem de seis meses) e a Suzanne estava no quinto ano de medicina.
               
Andámos na tuk-tuk p’rai 45 minutos e parámos perto de um monte onde tinha um templo porreiro e as cavernas da morte (killing caves). Palo caminho ainda parámos numa fábrica da pepsi abandonada acerca da qual o Martin tinha ouvido falar e ficara interessado – mas depois desiludido, sendo que nem uma chaminezinha daquelas old-school tinha...
               
Almoçámos e fomos encosta acima. A paisagem era sublime. Campos verdejantes, alternados com outros alagados para o arrox, a perder de vista, e o ocasional montezito a tirar a monotonia ao cenário. E chuviscava. Nunca pensei dizer que templo chuvoso é bom tempo, mas aqui no Camboja, tem estado assim de vez em quando e é, literal e metaforicamente, uma lufada de ar fresco. Depois de termos visto um Buda gigante fomos às grutas da morte. Chama-se assim porque é onde centenas ou milhares de cambojanos foram assassinados pelo Khmer Rouge.
               
Nos anos 70 este partido político, comunista, decidiu recorrer a engenharia social. Em que consiste isto? Em matar toda a gente que não se enquadra no que querem. Querendo que toda a gente fosse igual, um país de malta a trabalhar no campo, mataram, torturaram (até à morte) ou conderam a trabalhos forçados no campo (até à morte) todos os intelectuais, artistas, pessoas bonitas e até, por vezes, malta que usasse óculos, por isso fazer alguém parecer mais intelectual. As mortes eram tão aleatórias quanto isto, e assim mataram entre 0,8 milhões a 2,5 milhões de pessoas, cerca de de um quinto a um quarto da população da altura. O Martin reparou que não se vêem muitos velhos aqui, e parece-me lógico que seja por isso. Porque se pensarmos, a maior parte desse quarto ou quinto da população devia ser pessoal na faixa dos 30s a 50s. E foi quase ha quarenta anos que tudo isto se passou, se não estou em erro.

está a passar na televisão do autocarro um daqueles vídeos de karaoke, com as letras e tudo, e a música que ouvimos corresponde. olhei agora para o ecrã e no videozinho desta balada via-se um méne a esganar uma mulher num relvado até que a matou – estranho, muito estranho

Na gruta sentia-se a atmosfera. Tinha um buda grande deitado ao comprido, dourado, e numa das pontas uma câmara iluminada com milhares de ossos, algumas largas dezenas de caveiras, uma ou outra com um buraco grande – não usavam balas geralmente, mas outras ferramentas que proporcionassem uma morte mais económica.
               
Depois fomos ao templo no pico da montanha. Estivemos uma horita sentados a conversar e a apreciar a vista, e depois entrámos. Conheci lá um budista muito porreiro e felizmente tive a oportunidade de o entrevistar. Fiz-lhe só duas das cinco questões, porque achava que ele não ia perceber as restantes. Mas foi um bom contributo para este pseudo-documentário.

Quando voltámos ao hotel, tomámos banho e combinámos encontrar-nos passado uma hora para irmos jantar. Comi sopa de arroz de miudos de galinha, muito porreiro. E no dia anterior tinha comido rã, não sei se referi, que foi algo novo e aprazível. Despedimo-nos, e eu e o Martin fomos beber uma cerveja.

Dia seguinte, Sihanoukville.

11h09-2ª-18-7-11
algures entre Sihanoukville e Phnom Penh

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Siem Reap


Passei mais umas três noites em Bangkok e não se passou grande coisa. Só saí daquele bairro uma vez. Logo no primeiro dia, apesar de ter enviado algumas mensagens à Sofia via facebook, encontrámo-nos casualmente no mesmo restaurante de sempre (onde, nos restantes dias, jantámos e almoçámos quase sempre).
               
No dia seguinte apetecia-me cortiré. Tínhamos combinado beber uns copos e eu soube de uma festa em casa de um couchsurfer e pensei em ir. Mas mais tarde a Sofia já não estava muito p’raí virada e acabei por ir sozinho. Estavam lá p’rai quinze ou vinte pessoas e foi porreiro, mas acho que se não estivesse lá um casal britânico com quem me dei muito bem, não seria tão fixe. Se bem que um gajo arranja sempre maneira de se relacionar com a malta... O Johann, que sinceramente não sei muito bem de onde vem (tem aspecto indiano) vive lá sozinho, numa casa de três andares num bairro de luxo. Acabei por passar lá a noite e no dia seguinte apanhei um táxi de volta à zona onde mergulharia mais uns dias.
               
Dia 12 de Julho íamos ter a nossa “festa” de despedida. Jantámos, a Sofia comprou uma cerveja, eu comprei uma Hong Thong e sentámo-nos lá num canto à conversa. A noite foi fixe, e passou-se não sei muito bem como, porque quando dei por ela o sol raiava. A dada altura, estávamos lá à beira de um grupo de modelos que curtiam mostrar a sua juventude traduzida em abdominais e traços delineados (nada contra) e um gajo vira-se p’ra mim, do nada, e diz: “Pá quem me dera ser como tu!”. Aquilo caiu-me como uma bomba. Isto porque, primeiro, veio assim do nada, e segundo, o gajo até parecia alguém confiante e tudo mais. Tive de perguntar porquê. Estava com alguma dificuldade em ouvi-lo e afastámo-nos um bocadinho e estivemos a falar cerca de uma hora.
               
O gajo era um professor de inglês que se sentia um tanto ao quanto perdido na VIDA. O que notei logo de imediato foi em como ele se definia um pouco através dos seus alunos. Qualquer coisa que visse à baila, ele dava um exemplo, ou de um aluno seu, ou de algo que tinha feito com os alunos. Algures na conversa eu desafiei-o a passar o resto das férias sem dizer a palavra “aluno”. Podia dizer “pupilo”, ou fosse o que fosse, mas não podia dizer a palavra “aluno”. Isto porque acho que, caso ele leve a cena a sério, como disse que levaria, pode aperceber-se do quanto fala deles. Ou seja, não é propriamente para melhorar o seu vocabulário e descobrir sinónimos da palavra, ahah, mas para perceber o quão frequente aquele conceito aparece no seu discurso. Tinha também rompido com a sua namorada, e aquilo afectara-o bastante.
               
- Aliás – dizia-me – eu vim p’ráqui um bocado naquela de me encontrar, para ter tempo para pensar nas cenas – apesar de ser um bocado cliché, não importa, no esquema real das coisas, porque apesar de tudo o gajo era alguém que se sentia à deriva e que estava a tentar fazer algo acerca disso, ainda que esse algo adviesse talvez de estórias ouvidas e romances afim – fugir para me encontrar. Eu acho muito importante, e já aqui o disse várias vezes, que a nossa felicidade e auto-conceito seja independente das circunstâncias que nos rodeiam. O que acontece por vezes é que depositámos tudo de nós nas pessoas às nossas voltas e nas coisas que possuímos. E quando as perdemos sentimo-nos perdidos, e é um cabo dos trabalhos. Falámos um bocado acerca disso e senti-me contente, porque o gajo sentiu-se inspirado. Claro que há aqui um egoísmo meu, sentir-me bem por ter tido o poder de o ajudar a sentir-se melhor, mas não me interessa.
               
- Pá esta foi das conversas mais inspiradoras que tive! – disse-me, no final – E acredita que não me ficou indiferente e me ajudaste bastante – Perfeito! Despedimo-nos, trocámos contactos, e cada um seguiu o seu rumo.

No dia seguinte ia bazar para o Camboja, mas os efeitos da noite anterior não o permitiram. Deixei-me então ficar no relax, com a intenção de ir no dia seguinte. Eu e a Sofia já nos tínhamos despedido e tudo, naquela amena e calorosa bebedeira, mas pronto, os ditos não ficam não-ditos porque há um dia de atraso.
               
Dia 13 de Julho, acordei com a Sofia a despedir-se, e acordei com ela outra vez, duas horas mais tarde, toda desafogada, à procura do seu passaporte. Apareceu e desapareceu em dez segundos. Jackpot para o taxista que a trouxe. Eu estava na dúvida se boleiaria ou não, mas decidi tentar a minha sorte. Acordei, fui trocar dinheiro, paguei o hotel, e pus-me a caminho do metro. Tinha visto no google maps uma estação que me parecia já fora da cidade. Não era. Nada mesmo. Por isso estava um bocado sem saber o que fazer. Ainda assim. lá fui caminhando em direcção a onde eu pensava que a estrada era.
               
Contudo, lá debaixo de uma ponte por onde passei, tinha algo que me parecia ser uma estação de mini-autocarros. Perguntei como é que era, e passado vinte minutos estava num mini-autocarro a caminho da fronteira.
               
Quando cheguei, apareceram logo os abutres. Tinha visto que se tirava o visto na fronteira, pagando 25$. Mas aparece logo um méne que me dá um papel e me leva para a sua agência de viagens a dizer que não, que na fronteira (que era a cem metros) o que eles fazem é dar o carimbo, o visto tem  de ser ali. Felizmente resisti e bazei. Encotrei um casal de franceses e falámos em partilhar um táxi até Siem Reap (terra do Angkor Wat) que um rapaz se aprontou em oferecer, por 40$. Entrámos lá no edifício onde se tirava o passaporte e dizia, no cimo da cabine onde estava um dos guardas, que era 20$. O preço que eu tinha lido devia ser para americanos, não sei... Ainda assim, como era esperado, o polícia tentou pedir mais três euros para uma taxa qualquer de se tirar na hora. O gajo nem sequer tinha um papel imprimido com aquele couro – tinha um post-it! Eu sorri educadamente, disse que só tinha 0,5€ (isto tudo em dinheiro tailandês) e acabei por não dar nada.
               
Os franceses não estavam a fim de ir com o rapaz que nos interpelara acerca do táxi, e que esperava lá fora. Mas eu senti-me um bocado mal em saber que ele estava à espera e simplesmente bazar. Por isso fui dizer-lhe que, afinal de contas, já não íamos com ele. Isto acabou por ser fixe, porque ele manteve-se connosco, e através da boa negociação do Fabian, o francês, acabámos por ir no seu táxi, por 25$, todos.

Os gajos ao início pareceram um bocado arrogantes, especialmente a rapariga, mas acabaram por até serem porreiros, apesar de se manter um nico daquela arrogânciazinha. Tínhamos falado em partilharmos uma tuk-tuk no dia seguinte para irmos a Angkor Wat, mas quando chegámos a Siem Reap e eu perguntei se eles sempre queriam o gajo sai-se com uma “Bem, por mim... quer dizer... é que nós queremos ir lá p’rás cinco da manhã...”. Eu disse que isso não era crise p’ra mim, e quando a rapariga também se pôs com couros de “ah e tal mas depois onde é que nos encontrámos e não sei quê” eu disse ok tá tudo. Claro que podia dizer algo tipo “pá isto não é assim tão grande, se for para ir às X horas eu venho cá ter”, mas percebi que eles não estavam muito p’raí virados.
               
Senti-me um bocado rejeitado, o que é estúpido. Bem, é um sentimento, não pode ter nada de estúpido, mas o que é, é que o digo com aquela vergonhita de puto. Mas isto acabou por ser fixe, porque permitiu-me conhecer o Martin, com quem ando agora.
               
Pedi ao táxista para me deixar num hotel barato.
- Tipo 5 ou 6 dolares? – perguntou?
- Não, mais tipo 3 ou 4... – respondi.
- Pois eu desses não conheço, mas vamos ver... – e fomos andando e ele deixou-me à porta do Backpacer’s Hostel, para eu ir ver. O gajo disse-me que um quarto eram 7 dolares, mas quando insisti no mais barato que tinham, ele disse que no dormitório eram 2 dolares! Perfeito! Um hostel porreiro, com internet, por 1,5€ num dormitório mas com cama de casal! Despedi-me do táxista, que era um gajo fixe, jantei no hotel ao lado, e estabeleci-me no Backpacker’s Hostel.

Passado um pedaço apareceu o Martin. Perguntei-lhe se ele ia a Angkor Wat no dia seguinte, disse que sim, e perguntei se não queria partilhar uma tuk-tuk. Ele disse que era na boa, e que tinha também combinado com duas senhoras das Filipinas que conhecera no Vietname. Ficámos p’rai duas horas à conversa, sendo que as nossas camas eram uma depois da outra.

O Martin é um checo de 28 anos,  é professor de educação física e inglês. Ou pelo menos essa é a sua formação, ainda que não o exerca. Fez erasmus em Inglaterra, passou um ano no Canadá a trabalhar numa estância de ski como massagista, numa loja e noutra altura do ano num McDonalds. Já fez inúmeras roadtrips pelos Estados Unidos (incluindo uma até ao Belize), a viver no carro, e só não visitou dois estados! Agora vai passar um ano na Nova Zelândia, a fazer seja o que for. Teve de ir ao casamento do irmão, na República Checa, e então aproveitou para dar uns saltinhos entre o Laos, Vietnam, Malásia e Singapura. É um gajo muito porreiro. A nível de aspecto, é tipicamente checo, alto, louro mas de cabelo rapado, olhos claros. É um gajo calmo e observador, que também não curte exactamente aquela atitude tipicamente turista. Reparei, e ele disse-o, que curtiu muito o meu projecto, e eu agradeci, meio sem saber o que dizer. É estranho quando elogiam a minha viagem, sinto-me meio envergonhado.         
               
Ficámos logo amigos, e no dia seguinte, de manhã, fomos ter com as Filipinas.
               
A Janet, mais nova e mais faladora, e a Joy, sua irmã são duas irmãs muito baixinhas das Filipinas, duas senhoras encantadoras e vivaças que gerem uma escola no seu país. Têm também uma característica que achei muito engraçada e peculiar... Há pessoas assim, mas nelas era algo muito vincado. Daquele tipo de pessoas que está sempre a tentar acabar as frases dos outros, talvez num esforço inconsciente de agradar, sendo que “adivinhou os pensamentos”. Às vezes parecia que tudo tinha de ter um comentário, como se houvesse um canal directo entre os pensamentos e a voz. Interessante.
               
Arranjámos lá uma tuk-tuk por 12 dolares e seguimos para Angkor Wat. E o que foi Angkor Wat para mim? Talvez a cena mais espantosa que já vi!

Primeiro ficámos no Angkor Wat propriamente dito, íamos ver a cena, e depois o méne da tuk-tuk levava-nos a outra área, ainda dentro do mesmo complexo. Pagámos os 20$, andámos por lá p’rai duas horas. Monumentos e templos milenares, ladeados por extensos relvados e palmeiras, excelente. Mas eu flipei mesmo foi com a área seguinte. Aí era mais tipo uma cidade, pejada de templos, cada um mais impressionante que o outro. Começou a chuviscar, havia uma brisa no ar, estávamos em low-season – só factores que tornavam aquela experiência singular. Tentava imaginar as pessoas a construir aquilo há tanto tempo, a viver ali, a rezar ali. Mas aquilo era tão mágico que não conseguia deixar de, eu próprio, inventar estórias e cenários do que aquilo me inspirava. Caminhava aleatoriamente no mato e aparecia um templo sem intenções de disfarçar a sua idade, carregado de musgo e carisma.

O último templo que vimos foi uma apresentação do que o Homem e a Natureza conseguem alcaçar juntos, ainda que por acaso. Um templo espetacular, com árvores a crescer dos seus telhados. Isto fazia com que as suas raízes caíssem ao redor dos mesmos, abraçando-os mas sem os destruir. Incrivel mesmo. Imaginem uma árvore de vinte metros, com raízes mais extensas ainda, como cobras curiosas, a entrar e sair de janelas, a contornar pilares. Incrível!
               
Hoje em dia viajar não é muito complicado, difícil ou caro. Por isso acho quase um pecado morrer sem ver aquilo.

Nessa noite, depois de tomarmos banho e relaxarmos um bocado, fomos todos jantar. Foi agradável, comi muita bem, incluindo, pela primeira vez, rãs! Despedimo-nos, elas bazaram, e eu e o Martin fomos beber duas cervejas ali ao lado.

14h49-s-16-7-11
algures entre Phnom Penn e Sihanoukville

sábado, 30 de julho de 2011

Boleias [1800km em Dois Dias, WTF?]


Dia 7 de Julho acordei para o que seria a minha maior esticada boleiante de sempre. Fizemos 790km! Incrível! No final desse dia a Malásia ficaria para mim como o melhor país para andar à boleia. Isto porque eu não sabia o que o próximo dia me reservara...

Acordámos lá p’rás sete em Singapura, curtíamos chegar à Tailândia, era demais atravessar a Malásia só de uma vez. Um desafio que não consegui concretizar, por 60km, e porque a Sofia já tinha dado o tilt.
               
Tomámos o pequeno-almoço, vi na net com teríamos de fazer, e seguimos. Para sair de Singapura não valia a pena boleiar, porque Singapura é uma cidade, e para sair das cidades geralmente é preciso um meio de transporte qualquer que seja organizado – metro, autocarro, etc. Caminhámos até à estação de autocarro e apanhámos um por cerca de um euro. Esperámos ainda um bom pedaço, e lá arrancámos. Chegar à fronteira, esperar na fila para dar os passaportes, e depois esperar por outro autocarro (com o mesmo bilhete) para sair da zona fronteiriça levou-nos mais de duas horas. O tempo estava a passar e ainda nem tínhamos começado a esticar o dedo. Afigurava-se difícil...
               
Chegámos à estação de autocarros e eu, que tinha de ir atento para ver o melhor sítio, percebi que havia umas placas com E2 – a autoestrada que queríamos. Porreiro. Caminhámos vinte ou trinta minutos e estávamos num semáforo. Aí, o segundo carro levou-nos logo. O casal foi fixe e deixou-nos mesmo na autoestrada, ainda que não fossem p’raí originalmente. Aí apanhou-nos um chavalo todo bacano que ia uns cem quilómetros. Ele parou numa estação de serviço e a Sofia decidiu abordar outra malta, e acabou por nos arranjar uma boleia que ia mais longe do que a desse méne. Corria tudo perfeitamente! Fomos com este carro, que connosco ia cheio, p’rai uma hora e tal. Quando nos deixaram fomos apanhados por dois homens numa carrinha que também nos levaram um bom pedaço e nos deixaram fora de Kuala Lumpur. Como quando um gajo boleia está sempre sujeito a azares (e o mais provável é acontecer sempre um ou outro), o nosso azar do dia foi a chuva. É que os gajos iam deixar-nos ali num sítio bacano para encontrar pessoal que fosse sair de Kuala Lumpur. Mas eis que começou a chover torrencialmente, e tivemos de ficar na estação de gasolina antes da capital. Lindo serviço, toda a gente ia para KL.
               
A Sofia foi comer qualquer coisa e eu fiquei nas bombas de gasolina. Estive lá p’rai duas horas, interpelei centenas de pessoas, até que avistei este gajo com uma camisola com o símbolo de Portugal. Foi sinal – ele levou-nos p’rai duas horas! O gajo tinha condutor, um símbolo especial ao redor do símbolo da BMW, e tinha um autocolante a dizer VIP no vidro. E quando passei pelo condutor, para entrar no carro, ele sussurou-me ao ouvido “ex-police”.
               
A dada altura disse à Sofia para falarmos mais baixo porque parecia que o gajo queria dormir.
               
- Engraçado... parece que ‘tás um bocado cheio de coisas só porque ele supostamente é um gajo importante... -  e estava! Que estupidez! Geralmente não sou nada assim. Então pus-me logo aos berros! Estou a brincar. Mas de todo o modo, como dizia, achei interessante aquele meu comportamento e é algo que não defendo por um segundo, apesar de eu próprio me ter apanhado assim
               
Estes deixaram-nos numa estação de serviço, e passado um pedaço apanhámos outros que nos deixaram numas portagens. Não estávamos a ter muita sorte quando um carro meio podre, lá ao fundo, parecia esperar por nós. Aproximei-me e quando perguntei ao indiano que conduzia para onde ia, ele perguntou-me a mim, sem responder. Eu disse Alor Satar, uma cidade perto da fronteira, e ele disse ok. Fiquei um bocado naquela, e a Sofia ainda mais naquela quando lhe disse que o gajo, na verdade, não tinha dito para onde ia. E aquele carro não ajudava – é um bocado estupidez também. Não que tenhamos julgado a cena pelo preço do carro, mas pela maneira como estava em geral. Aquela falta de asseio induzia uma desconfiançazita. Tanto que, pela primeira vez, sento que devia dizer que estávamos à boleia, e que não queríamos pagar.
               
O gajo acabou por ser muito porreiro. Sempre a falar de amor e família como muitos indianos que já conheceramos, até nos convidou para ficarmos em casa dele. Levou-nos até à portagem, onde meia hora depois apanhámos a nossa boleia final. Um camionista que só falava tailandês e que o fazia de uma forma que parecia estar a ter um ataque epiléptico. Engraçado. Foi um cabo dos trabalhos entendermo-nos com o gajo, porque ele também não parecia ser muito esperto. Mas pronto, levou-nos até a Alor Satar.
               
Quando chegámos ainda pensei em seguir, estávamos pertinho da fronteira (60km mais ou menos), mas a Sofia já estava rebentada. Saímos, caminhámos em direcção à cidade, estacionámos lá num cantito de dedo esticado, mas já era noite, a cena não parecia muito famosa. Mas há malta fixe em qualquer lado! Apareceu um casal numa scooter a perguntar que se passava. Quando lhes dissemos, disseram para esperar que iam buscar o carro. O gajo apareceu dez minutos depois, levou-nos a um hotel (se não gostássemos levava-nos a outro sítio) e foi-se embora, depois de um abraço agradecido.

No dia seguinte acordámos nas calmas, bebemos qualquer coisa, e começamos a boleiar bastante tarde. Onze e tal. Fomos andando sem problema até à fronteira, passámo-la, e a Sofia decidiu que ia apanhar um táxi até Hat Yai e daí um autocarro para Bangkok. Fiquei eu então sozinho. Ia acabar por bater o recorde do dia anterior e fazer 1030km de boleia num dia. Foi perfeito, sem erro nenhum!
               
Apanhei uma boleia de uma senhora p’rai de vinte minutos. Depois, num semáforo, outro senhor. E depois apanhei logo uma que me levou bué de tempo. Iam para depois de Pattalung. Perfeito. Quando saí desta, dei uma mija e apanhei logo um camionista. Andámos um pedaço, ele deixou-me e entrei logo na parte de trás de uma pick-up que me levou p’rai três horas. Quando saí desta entrei logo num camionista que me levou p’rai cinco ou seis horas. Perfeito! O gajo não falava inglês, mas era o maior! Ofereceu-me água logo no início. Depois parou e foi comprar-me duas pizas pequeninas, uma pepsi e um café e mais tarde parou de novo para ir buscar um saco de mangostins, um fruto que agora é dos meus preferidos. Algures no meio disto tudo ainda me deu um colar muito bacana que tinha lá pendurado no espelho restrovisor com um budista cuja estátua se vai vendo aqui e ali na Tailândia. Gajo mesmo bacana!
               
Deixou-me p’rai às duas da manhã num sítio onde podia apanhar um autocarro para Bangkok, estava p’rai a 300km. Pensei nisso, pensei em dormir na rua, e pensei em continuar. Continuei. Estava um bocado receoso, boleiar na Tailândia às duas da manhã era algo de novo. Mas ok, siga.
               
Nos primeiros dez minutos estava a ver como ia ser a cena... ninguém abria o vidro sequer. Iá, vêem um estrangeiro barbudo a querer falar com eles num semáforo às duas da manhã... Ok. Mas siga! Apareceu um méne que me levou a cem à hora (algo muito raro naquelas estradas) mais duzentos quilómetros e ainda me deu jantar – massa com vegetais que tinha lá numa tupperware. Este deixou-me numa estação de serviço e aí levei uma horita a encontrar um transportador de fruta que me levou até fora de Bangkok. Aí entrei logo no carro de um casal simpático que... me deixou em Bangkok. Missão cumprida! Eram cinco e meia, tinha boleiado desde as onze do dia anterior, mas tinha conseguido. 1030km sem pagar um cêntimo, entregue à simpatia de estranhos!

Uma vez em Bangkok, dei umas voltas à procura de um hotel, apanhei um táxi para Khaosan Road, fui interpelado por um méne e acabei por ficar no hotel dele por 6€. Não era barato mas não estava numa de procurar muito mais. Era fixe porque ia ter dois noites pelo preço de uma – das sete da manhã até à hora a que acordasse, e a noite seguinte (em que por acaso acabei por dormir em casa de um couchsurfer).
               
13h36-s-16-7-11
algures entre Siem Reap e Battabang