terça-feira, 26 de julho de 2011

Hoi An, Vietnam :)


Singapura


Acordámos no dia 4 de Julho lá p’rás sete e tal. Tomámos banho, arranjámos as cenas, despedimo-nos do Ash e seguimos. Tinha visto no google maps que havia uma linha do metro que seguia mais ou menos a autoestrada, e assim decidi ir até aí e depois caminhar para a autoestrada.
               
Quase duas horas depois (uma hora de espera e outra de viagem) estávamos a sair na estação de Tiroi, no meio do nada. Um senhor muito simpático veio ter connosco e quando finalmente percebeu que não queríamos apanhar um autocarro, encaminhou-nos para a autoestrada. Mas estávamos mais longe do que eu pensava. Caminhámos 500 metros e estávamos numa estradita que ia lá ter, mas que não era bem o que eu tinha em mente. Mas tudo bem. Esperámos vinte minutos e apareceu um casal jovem que nos deixou na autoestrada. A partir daí, foi tudo tranquilinho até Johor Bahur, onde ficámos um bocado confusos. É que a autoestrada acabou e deixaram-nos numa nacional. Depois um senhor apanhou-nos logo e levou-nos um pedaço. Ok, vamos. Finalmente, já muito perto, um casal apanhou-nos e deixou-nos na estação de autocarros. Porra, outra vez! É que o pessoal não perceber a cena de boleiar e pensa que nós queremos é ir apanhar um autocarro. Quando não é!!
               
Mas neste caso foi fixe. Porque já estávamos ali mesmo pertinho de Singapura e um autocarro foi menos de um euro. Entrámos, missão cumprida, estávamos à seca na fila para passar a fronteira. 6 boleias, 354km.
               
Do lado de lá andámos um bocado às aranhas até encontrar o nosso autocarro. Tínhamos um bilhete de um autocarro “do estado”, por isso podia ser qualquer um, mas não sabíamos isso. Chegámos ao centro, precisávamos de um sítio onde dormir. Por estupidez minha, não tinha arranjado um sofá a tempo. É que tinha lá um amigo belga que conhecera numa estação de autocarros em Lisboa, e que me disse que me albergaria. Mas eu deixei só para a véspera para o contactar. Quando ele respondeu, disse que pensava que eu só ia mais tarde, e que estava na Bélgica, de férias. Isto já não deu tempo para encontrarmos um sofá.

Mas ok, acabámos por encontrar um sítio baratinho.Andava pela rua com o meu Ipod à procura de internet, e quando encontrei fui ao hostelworld, encontrei um hostel a 7,3€ por pessoa, liguei do computador a reservar, e seguimos.
               
Nessa noite só saímos para ir comer qualquer coisa. A cidade tem boa onda, é realmente limpinha, ainda que eu imaginasse algo ainda mais estéril e incólume. A zona onde estávamos tinha muito andamento mas, descobrimos mais tarde, Singapura, em si, é um bocado assim, um gajo sente que está sempre no centro da cidade.

Passámos o dia seguinte como verdadeiros turistas em Singapura. Fomos até Chinatown, caminhámos, caminhámos, andámos pela marina, onde vi um edifício que tinha abismado o Karlis, o meu amigo letão – são três prédios com um barco em cima. Eu, para dizer a verdade, estava à espera de uma cena diferente. Sei lá, que esse barco fosse um galeão ou uma cena assim muito à frente. Mas não. Mas ok, é fixe na mesma. E simboliza um bocado a cidade – super moderna. Confesso que não me apaixona, mas gosto. É muito multicultural também, o que me apraz.

Como disse, parece que um gajo, por mais que caminhe, está sempre no centro. Só malta e actividade. É o segundo país do mundo com maior densidade populacional, depois do Monaco. Tem 5 milhões de habitantes.

Curti mais Little India. É que eu também já tenho um bocado de saudades daquela gente. E não tem tantos prédios. Parece mesmo que entrámos num outro país. Mais templos, casinhas com cores diferentes, muito fixe.

No dia seguinte acordámos cansados. Caminhámos p’rai uma hora até ao Jardim Botânico e a Sofia voltou para trás. Eu queria ficar, andar por lá e depois ir a uma reserva natural pertito. Mas iá, também estava cansado, e a reserva ficou para uma outra viagem. Mas curti muito o jardim. O mais fixe onde eu já estive. Estive lá p’rai duas horas e depois voltei. É incrível as cenas que um gajo faz para poupar vinte cêntimos. Estava todo partido, e disse a mim mesmo que se o autocarro fosse até 0,50€, eu ia. Mas era p’rai 0,70, ahah! E acabei por vir a pé. Singapura foi dos países mais caros onde estive, mas acabei por não gastar mais de quinze euros por dia, com hotel e tudo. Fixe.

Foi isto, Singapura.

Não foi o que eu antecipei no início da minha viagem, porque não foi o mes destino final. Foi mais um país, onde quis ir porque tinha-o em mente desde o início, não por me interessar sobejamente, mas porque está no outro cantito, e quero varrer o sudeste asiático todo. Para quem não sabe, estabeleci como minha missão pessoal visitar todos os países do mundo – até morrer, não para já. Se contarmos com os países que fazem parte do Reino Unido, Singapura foi o número 53. Já faltou mais.

17h26-2ª-11-7-11
Bangkok, Tailândia

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Kuala Lumpur


Após os “olás” e essas cenas todas, estive um bocado à conversa com o Ash. Da Sofia, notícia nenhuma. Ia pensando se estaria bem, se se teria passado algo, até porque as horas ia passando e entretanto o sol tinha-se posto.
               
O Ash é um malaio indiano. A etnia é algo muito importante na Malásia. Há os indianos, os chieneses, e alguns malaios, se bem que não os seu distinguir muito bem. Acho estranhos estes conceitos. É pessoal que nasceu naquele país, os seus pais também, mas não são propriamente malaios – ou assim o dizem sendo que a nacionalidade é, também, relativa.
               
- No estrangeiro sou malaio, na Malásia sou indiano – dizia, mais tarde, o irmão do Ash, encolhendo os ombros, com ar de quem não gosta disso. Estávamos a jantar num restaurantezinho porreiro e acessível e falavam das diferenças de condições que sentiam.
- O que se passa é o seguinte... A Malásia é um país muçulmano, ‘tás a ver? E aqui, por exemplo, noutro dia fui ao banco, ‘tava a pensar abrir um bar com um amigo. Os gajos daquele banco não me davam empréstimo se eu não fosse muçulmano. Chegaram a sugerir que eu arranjasse um sócio muçulmano... – dizia o Ash – E na escola, por exemplo, para teres um A, se és muçulmano, precisas de ter, tipo 60 pontos, se és chinês, 70 pontos, e se és indiano, 80 pontos...
               
Acho isto ridículo, mas não quero passar isto como facto, por isso que se note que isto foi o que o meu amigo disse, e que não confirmei nada ainda. Mas de todo o modo, é inegável a separaçao de etnias.

Estava a acabar de tomar banho quando a Sofia ligou ao Ash.
- Não faço a mínima ideia como é que ela está onde está, e como é que foi lá parar! – disse, ao desligar – Mas ‘bora lá.
               
Como já era tarde, só imaginava a pobre tuga toda estafada de carregar os seus 40kg pela cidade inteira por horas a fio. Mas a cachopa estava fixe. Tinha pedido direcções a uns paquistaneses que foram com ela até um sítio lá perto, e foram fixes e emprestaram-lhe o telemóvel. Demos umas voltitas e encontramo-nos.
               
Quando chegámos a casa, comemos qualquer cena e fomos dar uma volta. Fomos buscar o irmão do Ash, jantar, e depois fomos a um bar, numa zona de muitos outros. A cidade deu logo um bom feeling. Muito andamento, muita árvore. Na verdade foi construída roubando terreno à selva. Uma selva pela outra.
               
Estivemos no bar às três, hora em que fecha tudo na Malásia. O Ash curte falar, o que para mim é porreiro. Tem alguma coisa a dizer sobre quase tudo, ainda que às vezes não diga muito. Falámos muito acerca de um livro chamado algo como “O Jogo”, que ensina homens a seduzir mulheres. Mas no fundo, visto de uma forma mais aprofundada, funciona também em todos os outros settings, sendo que, em amizades ou negócios, de uma forma ou de outra, passamos a VIDA a seduzir-nos uns aos outros. Tinha visto o livro num aeroporto e um couchsurfer meu tinha-o, mas nunca li.
               
No dia seguinte andámos por Kuala Lumpur. Tem boa onda. Mas é bués uma cidade mesmo. Um trânsito infernal. Arranha-céus atrás de arranha-céus, muito pessoal. Começamos por Chinatown, demos umas voltinhas, depois fomos seguindo um trajecto improvisado com aquela olhada esporádica no mapa. Acabámos a tour nas Petronas, que até há bem pouco tempo eram as torres gémeas mais altas do mundo, tendo sido batidas por umas em Taipei.
               
Estava todo partidinho, as minhas pernas queixavam-se e o meu corpo pedia uma noitinha de filmezinho e relax. Mas o Ash gosta pouco de sair, gosta... E acabou por nos convencer, sem muito esforço, a ir ao mesmo bar da noite anterior, onde estariam uns couchsurfers. Ok, siga. Foi fixe. Estavam lá uns quinze, conheci malta porreira e revi o Karlis, que tinha conhecido há um ano na Escócia, num fim-de-semana do outro mundo em Edinburgo. A noite em si foi interessante, pois tive oportunidade de praticar a minha autodisciplina – a noite toda só com uma coca-colinha,... pois porque a cerveja mais barata custava p’rai quatro euros. Ah pois é, bebé!
               
O Karlis, letão, anda em viagem há dois anos e meio. Conhecemo-nos em Julho do ano passado no Edinburgh Rocks (IV), um evento anual do coucusurfing na Escócia – um fim-de-semana cheio de loucura que eu aconselho a toda a gente. Passou o último ano na Índia e Nepal, sempre em couchsurfing, o que é impressionante. Agora estava pelo sudeste e, pelo que li no seu grupo do facebook, apaixonado com a limpeza de Singapura e a cidade no geral. Dizia que já tinha saudades de algo assim mais higiénico e limpinho. Ok.
               
No dia seguinte era o festivalzinho do couchsurfing no meio da floresta, mas perto de KL. A Sofia não estava muito a fim, mas o Ash acabou por convencê-la. Eu passei uma horita na varanda a escrever, e aparentemente ele passou todo esse tempo a convencer a miuda, que não teve outra opção senão ceder. O que foi fixe, porque ela acabou por curtir e eu, claro, curti que ela tivesse vindo.
               
Fomos no carro do Ash, encontramo-nos com o resto da malta e seguimos caminho. Aquilo er super perto, mas com o trânsito de Kuala Lumpur demorámos p’rai hora e meia. Mas foi porreiro. Copo na mão, música aos berros, cortiré!
               
Quando chegámos, estacionámos, pagámos os 50 ringit (11 ou 12 euros), e juntamo-nos à malta. Aquilo era um grupo de bungalows espalhados ao redor de uma piscina natural e um lounge. Foi uma grande noite. Sentei-me lá com o pessoal uma ou duas horas, na conversa, bebericando Famous Grouse, depois juntei-me ao pessoal que estava na piscina a jogar vólei. E a noite foi seguindo. Não há muito a dizer. Como eu gosto – falar com dezenas e dezenas de pessoas, discutir um pouco de tudo, aprender sobre outros países. Pena foi que o pessoal recolheu cedo. Eram quatro da manhã e sobrava eu e o Karlis, sentados num canto à conversa. O resto aterrou. Paciência.
               
O dia seguinte foi de chill-out. Acordámos, comemos qualquer coisa lá no lounge – um prato de arroz com não sei quê que estava incluído. E depois fomos para casa. Vi dois filmes (que já tinha visto) nessa noite – Sacanas Sem Lei e A Ressaca. O segundo muito apropriado.

Dia 4 de Julho seguimos para Singapura.

16h38-2ª-11-7-11
Bangkok, Tailândia

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ride Alone


A solidão da estrada chama de novo. Um gigante de alcatrão levanta-se, toca nas nuvens cinzentas e grita-me algo numa língua que não conheço. Eu estou cá em baixo, com a chuva a deixar rastos de arco-íris na minha face. O meu polegar está esticado mas a estrada sobe tanto quanto os meus olhos podem alcançar, e ninguém vai para esse lugar.               
               
Os dias que se aproximam são os dias em que estou de volta a tudo o que tenho para me dar. Vai-se a companhia de viagem, e com ela partem as gargalhadas e experiências que partilhámos nestes dois meses e pico, volta a aventura solitária de quem fica com saudades de falar a sua língua.
               
Ganhos em cada lado, naturalmente. Para quê entregar-se à fatalidade de ver algo como, ou bom, ou mau? Na sua partida há a perda de uma companhia especial, de alguém que traz consigo um Ventinho porreiro para qualquer face. Mas... para quê essa fatalidade de se focar apenas naquilo que se perde? Sendo o mundo guiado por um equilíbrio que muitas vezes escolhemos ignorar, cada acção ou evento positivo tem o seu negativo, e cada negativo tem o seu positivo. Mas por vezes abrir os olhos para esta realidade custa, e as pálpebras pesam como portas cansadas.
               
Vou estar de volta ao estado de espírito com quem atravessei a parte do mundo que existe naqueles espaços entre a Turquia e a Índia. De volta àquelas horas de constante reflexão, de olhar para dentro sozinho, de deixar feedbacks transactos assentarem nisto a que chamo de “eu”. De volta ao receio de estar num lado desconhecido às tantas da noite sem ter ninguém com quem falar.
               
Assim me entrego, novamente, ao que o mundo tem para me dar. Sem nenhuma mão para agarrar, toda alma é minha, e todo o amigo ao virar da esquina.

19h09-2ª-11-7-11
Bangkok, Tailândia

domingo, 10 de julho de 2011

Phuket, Com o Mano


No dia 23, quinta, acordei às seis da manhã em Ko Jum, para ir para Phuket, ter com o meu irmão. Paguei o que devia, e pus-me a caminho. Até este pormenor é altamente naquele resort – eles nunca apontavam o que consumíamos, um gajo é que ia comendo e bebendo e apontando lá num cadernito com o número do nosso quarto, mesmo à confiança!
               
Caminhei cerca de um quarto de hora, até que um senhor com uma scooter muito velha me ofereceu uma boleia. Assim cheguei ao cais com tempo para tomar um ou dois cafés, nas calmas.
               
Às sete e meia apanhámos o barco, e lá p’rás oito e pouco estávamos na vila. Tomei outro café e apanhei o táxi para Krabi, que custaria 40baht (0,90€). Andámos um pedaço, e a dada altura parámos num semáforo. Eu estava a olhar à volta, e cruzo olhar com em ocidental, que conduzia uma pick-up, com uma tailandesa ao lado. O gajo ri-se para mim, eu retribuo o sorriso. E penso “será? não, nunca... mas que se lixe, não custa nada perguntar...” – e pergunto. Chamo o gajo, e pergunto se ele vai para Phuket. Ele diz que sim. Pergunto se não me pode levar. Pode. Cool! Boleia direitinho a Phuket. Saio do taxi, pago o que devo, e siga!
               
Quem me apanho foi o Didier, um francês de 51 anos com cara de 41 (viajar faz bem à pele), que é um autêntico senhor! Eu não conseguia ter a VIDA dele, porque ele abandonou a França por completo, e eu jamais abandonaria Portugal sem perspectivas de voltar, mas de todo o modo, admiro este gajo. Vivia na Tailândia há quatro anos, já tinha estado em 130 países, e há cinco anos fez das viagens mais malucas de que ouvi falar. Comprou uma tuk-tuk na Tailândia e foi com ela até França! De tuk-tuk! Loucura! Tinha bué de projectos, e o mais recente era ir no seu barco, que construira na Tailândia, até à Europa. Mas precisava de patrocínios, que não apareciam. Ele estava à procura de 250 patrocinadores que entrassem com 1000 euros cada um – não me parece nada fácil. Prometia um retorno do dobro do dinheiro, com os livros que venderia e documentário que faria, mas só tinha arranjado uns cinco ou seis. Eu vi-me grego para encontrar pessoal que entrasse com 500, 200 ou 100 euros, quanto mais mil! E duzenta e cinquenta pessoas!

já agora, se és novo(a) por aqui, dá uma olhada na secção “Ajuda-Nos”. e se não és novo por aqui, já era alturinha de entrares com cinco ou dez euritos! mas diz-me, caso o faças

Após perguntarmos a algumas pessoas, o Didier deixou-me mesmo, mesmo no hotel do meu irmão. Demais – uma boleia, de fio a pavio!
               
Entrei, e senti-me de imediato como um alien ali. Eu, com a mesma t-shirt de há quatro dias (se bem que tinha andado de tronco nu a maior parte do tempo), os meus calções com o velcro já morto e enterrado, as minhas havaianas uma de cada cor, uma de cada tamanho, e as duas mochilas. Tinha dito ao meu irmão que só chegava à tarde, por isso queria fazer surpresa. Pedi para a senhora ligar para o quarto dele, mas nada. Então sentei-me, acedi à net e mandei-lhe mensagem. No meio disto apareceu um senhor a dar-me uma daquelas toalinhas enroladas que dão nos aviões, e depois um copo com algo que parecia sangria. Nice.
               
Lá me disse que estava na praia a ter uma massagem e fui ter com ele. Estava, com uma amiga, ambos de papo para o ar, com uma cota tailandesa para cada um, a dar o melhor dos seus dedinhos. O que me lembrou que nunca paguei por uma massagem.
               
Foi fixe ter visto o meu irmão. Já ando nisto há mais de cinco meses, e às vezes tenho saudades de casa, naturalmente. Mas não é bem de casa, mas das coisas que lá faço. Quando penso em voltar penso em andar de skate ao frio, em ir tomar café ao sombrinha com a minha mãe, ir ao Dragão com o meu pai, em ir jantar à Adega Soares, em estar em Portalegre. Tenho saudades do frio também. Às vezes o pessoal refere-se a esta viagem como férias. Um erro compreensível. Mas isto não tem nada a ver com férias. Está claro que não é um trabalho. Mas não são férias. Por acaso, férias foi o que eu tive naqueles quatro dias com o meu irmão. Mas de resto, uma viagem destas não são férias porque acaba por ser um modo de VIDA, ainda que finito. E custa, por vezes, claro que custa. Às vezes apetece-me voltar, outras vezes não sei como conseguirei fazê-lo. Os sentimentos e expectativas alternam como as hormonas de uma grávida. Mas nunca, nunca, me arrependi, e sempre senti, como aqui já disse, que, corra bem ou corra mal, estou sempre exactamente onde preciso de estar. Agora estou em Kuala Lumpur, na Malásia, e nunca estive tão longe de casa. Falta pouco para voltar, três meses, mais coisa, menos coisa, e a estrada à frente é longa. O que tenho em mente afigura-se estafante e um tanto ao quanto impossível. Mas cada dia é um dia, e assim tento levar, não só esta viagem, como o resto da minha VIDA. Os planos têm o potencial de serem belos e uma benção que nos auto-atribuimos, ou de serem devastadores, quando passam por uma constante renovação de esperanças que saiem frustradas. Quando todos os dias batalhamos para algo que nunca chega, há algo na nossa VIDA que se perdeu, e seguimos o nosso rumo de olhos vendados, não sabendo muito bem porque é que estamos ali. A única resposta, por vezes, é porque toda a gente também está. E odeio isso. Odeio que muita gente se possa entregar ao conformismo que corroí.

Ter estado com o meu irmão foi mais tipo férias porque passei algum tempo lá no hotel dele. Não vou aqui armar-me em alternativo e dizer que não gostei do conforto daquele hotel. Mas nunca estaria lá sozinho, como já estive sozinho em centenas de lugares nesta viagem. E não sei se conseguia lá estar mais do que uma semana.
               
Estava à espera de gostar de estar com o meu irmão, está claro, mas acho que gostei mais do que esperava. Porque além de meu irmão, aquela pessoa representava, também, aquela parte da minha VIDA que eu deixei à espera, de onde desapareci por uns meses. E por isso reparei com curiosidade e espanto que, por exemplo, quando ele dormia, eu até queria que acordasse, não necessariamente para interagirmos, mas para o ter perto, na sua consciência, ao invés de perdido num vale onírico qualquer.
               
Além da amiga do meu irmão estava, com eles, um casal tuga que conheceram no aeroporto e que não deixaram mais. Malta porreira, a Joana e o Nuno. Muito diferentes de mim em vários domínios, como o meu próprio irmão é. Mas sempre advogo que estas diferenças de personalidade e estilos de VIDA não têm porque significar um afastamento.
               
Nesse primeiro dia, passámos a tarde na piscina e depois fomos para Patong Beach, onde tinha deixado a Sofia, que estava um bocado à beira do tilt. Estava farta daquele pedaço de mundo que parecia o Algarve, e ter estado sozinha não tinha ajudado. Fomos jantar, demos uma volta, e depois eles foram para o hotel, e eu fiquei no nosso dormitório, com as suas personagens e stresses.
               
O meu pai tinha dito ao meu irmão para me pagar o que eu quisesse, que depois lhe pagava, um agradozinho que agradeço. E no dia seguinte iam a James Bond Island (nome super estúpido e comercial – tem um nome tailandês, mas como filmaram lá um James Bond antigo, agora é assim que é conhecida), uma praia que deve ser toda XPTO e não sei quê. E no dia seguinte iriam a Ko Phi Phi, onde filmaram o filme “A Praia”. Apesar de ter este cheque em branco, não achei sensato abusar e não fui à James Bond, sendo que queria ir a Ko Phi Phi.
               
À noite ia ter com eles, para jantar, passar a noite no hotel (assim à socapa, sem os gajos do hotel perceberem) para no dia seguinte irmos para Ko Phi Phi. O táxi para lá eram 600baht (14€), por isso aluguei uma scooter por 200baht/24h e lá fui. Demorei hora e meia a chegar! Aquilo não era a mais de meia hora de distância, mas não só o meu caminho era à volta, como também andei meio perdido. Assim, cheguei lá às nove e pico. Jantámos no chinês. Pagámos o que é, no meu mundo, um balúrdio. Mesmo. Uma refeição de uma pessoa dava para pagar mais ou menos quinze das minhas habituais. É a cena de cada um, mas custa um bocado perceber. Depois estivemos um bocado na esplanada do bar e fomos para o quarto.
               
Passámos o dia seguinte a saltitar de ilha em ilha. Acordámos, tomámos o pequeno-almoço e fomos para as docas, onde após pagarmos (não foi super caro, 1100bahts – a Sofia fez algo parecido por 900) nos metemos no barco. Foi um dia porreiro, parando aqui e ali em praias com aquele mar cristalino e esverdeado, baías de cortar a respiração. Estou contente por ter ido. E não sei se mais lá volto.
               
Quando voltámos ao hotel, peguei na scooter e fui ter com a Sofia a Patong Beach. Desta feita, indo pelo caminho certo, demorei menos de meia hora. Já estou alto pró, curto bué andar por aí, sentir o Ventinho, deslizar ao lado do mar.
               
Fui dizer ao cota que ia precisar da mota mais um dia e depois fui ter com a Sofia, a quem tinha de pedir para ficarmos mais um dia em Phuket. A Sofia estava farta de lá estar, mas percebeu a cena e assentiu. Ficaríamos ambos lá no quarto do hotel e passaríamos o dia seguinte na descontra. Ela claro que pelo hotel preferia ir, mas entendia que eu curtisse estar mais um dia com o meu irmão. E, depois disse-me, acabou por curtir o dia seguinte. Assim, a Sofia foi jantar e bazámos. Fomos nas calmas, e quando chegámos fomos os seis jantar lá a um hotel vizinho. Aquela rede de hótes, ou lá o que é aquilo, tem táxis-barco de uns hotéis para os outros. E tem a piscina mais longa da Ásia.
               
O dia seguinte foi, como tinha previsto, de nada fazer. Tratei de umas cenas na net ao lado da piscina, nadámos, jogámos, lemos. Li metade do “Uma Noite em Novsa Iorque”, do Tiago Rebelo, e acho que o meu romance vai partir tudo. Desse livro achei tudo um bocado cliché e previsível. É certo que li oitenta e tal páginas sem parar, mas de todo o modo, não fiquei impressionado. E sendo este gajo dos autores que mais está na ribalta em Portugal, acho que algo não vai bem por esse canto da Europa. Se por algum acaso o Tiago Rebelo lesse o que agora escrevo – que não leve a mal, não é uma crítica destrutiva.
               
À noite voltámos para Patong. Eu tinha de ir deixar a mota e íamos lá jantar. Encontramo-nos todos às nove e tal e fomos comer lagosta. Foi a segunda vez que comi (tendo sido a primeira vez em 2001, acho, no casamento do filho do Vieira), e não sei se volto a comer. Curti, ok, mas pelo preço não acho que valha a pena. Às vezes um gajo paga muito, mas no final pensa “hei pá, valeu a pena”. Não foi o caso.
               
Fomos beber umas cervejas a um bar do lado, e despedimo-nos. No dia seguinte eles voltariam a Portugal, e eu boleiaria para a Malásia.

14h07-2ª-4-7-11
algures entre Kuala Lumpur e Singapura