terça-feira, 14 de junho de 2011

Bangkok (Parte 1)

Estou em Bangkok! Não imaginava estar aqui tão cedo, mas teve de ser. Ia perguntando às agências todos os dias e a resposta era sempre não. Que me restava fazer? Podia ficar lá à espera, e podia até ficar um mês, para depois não haver decisão nenhuma. Mas mesmo que soubesse que haveria uma decisão positiva passado um mês, avançava.
           
Não gostei nada de ter voado. Não do vôo em si, mas de toda a cena à volta do vôo. O aeroporto, os raios-x, a espera, o transbordo, essas cenas todas. Quando um gajo vai andar de avião às vezes passa mais tempo à espera do que realmente a viajar. Voámos até Delhi e depois ficámos por lá no aeroporto, onde esperámos seis horitas. Fomos para um lounge onde nos deram a palavra chave para a internet, por isso a espera não foi tão má. No Nepal, em dez dias gastei cerca de 110€. Foi um bocadito acima daquilo que quero gastar por dia (10€) mas foi ok. Na Tailândia está a ser pior.
           
Chegámos à Tailândia na quarta-feira passada de manhãzinha cedo. Vi logo que Bankok não tinha nada a ver com o que tinha imaginado. É uma cidade muito mais avançado e metropolitana do que a ideia que tinha. Imaginava ruelas, alguma sujidade, pedintes, um bocado como na Índia. Mas não tem nada a ver. Nada mesmo.
           
Essa manhã foi terrível. Apanhámos o metro para o centro, depois um senhor muito simpático (agora, depois destes esquemas todos duvido da sua simpatia) disse-nos que o melhor era irmos a uma agência de turismo do governo e não sei quê, e que tínhamos de comprar os bilhetes com antecedência e tal e coisa. Até já me está a dar aqui um calor no peito só de pensar na quantidade de couristas que conhecemos nestes diazitos. Claro que a mulher na agência de turismo disse que tínhamos de comprar os bilhetes já, porque era fim-de-semana longo e não sei quê. Mas nós não sabíamos bem quando queríamos ir, e para onde, por isso não comprámos nada. Só lhe perguntámos onde é que podíamos ir à net. Ela mandou-nos para um centro comercial e ficámos lá... taaaanto tempo. É que uma rapariga, a Mimi, tinha respondido a um pedido no grupo de emergência de Bangkok e albergar-nos-ia. Mas não tinha dito mais nada. Pois então eu mandei-lhe mensagem naquela manhã, lá p’rás dez a dizer que já lá estávamos e só recebemos uma morada às três da tarde! Estávamos todos rebentados porque tínhamos passado a noite no avião e dormido mal na noite anterior a essa. Algum dia eu pensava que só me deitaria na manhã seguinte às dez da noite? É a noite de Bangkok...
           
Quando chegámos a casa da Mimi, tomámos banho e essas ceninhas, cheios de sono. A Mimi não era exactamente uma pessoa conversadora. Mas ok. Nessa noite ia haver um meeting de couchsurfers num bar onde iam estar umas quarenta ou cinquenta pessoas. Eu queria ir mas a Sofia estava demasiado cansada. Pois a dada altura a Mimi diz que ia bazar, porque tinha de se encontrar com uns amigos num sítio onde havia boxe tailandês ao vivo, e se não queríamos ir. A Sofia curtiu a ideia de boxe tailandês e decidiu vir, sem saber que isso ia implicar ir ao meeting também...
           
O boxe foi fixe. Interessante a cerimónia antes, e a música durante, que os faz como que dançar ao lutar. Lá encontrámo-nos com alguma malta, e fomos jantar. Com tanta oferta, tanta oferta, acabámos no KFC. Eu não comi nada porque tinha jantado uma boa pratada e uma sopa por 70 cêntimos. A comida aqui é incrível. Ainda melhor na Índia, acho. Gosto mesmo. Depois do jantar seguimos para o meeting, que foi demais. Curti mesmo. Tinha estado num em Istanbul, mas se calhar era grande de mais, porque parecia que não havia bem aquele espírito em comum do pessoal. Mas pensando que nós definimos a realidade de acordo com a forma como a vemos, talvez tenha sido que eu estava simplesmente com o feeling. Apesar da cerveja não ser muito cara (1,6€ por 600ml) esturrei muito dinheiro nessa noite. Paciência, nunca me arrependo de dinheiro gasto em cortiré!
           
Foi muito fixe porque um gajo simplesmente se sentava numa mesa qualquer, e encetava conversa com quem lá estava. Na boa mesmo. E assim conheci muita malta porreira, mesmo muita, com quem tinha conversas muito fixes. Daí fomos para a rua Ko San, das melhores ruas onde já saí. Viva Bangkok! Loucura mesmo! Fomos para uma discoteca, mas eu não sou muito gajo de disco, então vinha muito cá fora, comprava uma cerveja mais barata do que lá dentro e sentava-me a falar com alguém.  Havia uma percentagem louca de turistas, mas um bom feeling. A dada altura sentei-me lá com um gajo que vendia cenas na rua. Ele chamou alguém para traduzir e ficámos um bocado no paleio. Ele comprou-me uma cerveja e disse que se eu quisesse ir ao Sudão me pagava tudo. Ele ficou com o meu e-mail, mas duvido que vá ao Sudão brevemente. Mas nunca se sabe se não recebo um mail dum mafioso qualquer a dizer que me paga tudo...
           
A dada altura perdi-me do pessoal, então andei sozinho um bocado, mas sempre na conversa com este ou aquele. Finalmente fui encontrado pelo pessoal. Ah esqueci-me de dizer que a Sofia entretanto fora embora. Lá p’rás duas ou três. A esta altura estava eu, a Mimi, uma amiga sua tailandesa e dois alemães muito porreiros. Tinham dezanove anos e faziam voluntariado numa aldeia budista perto do Camboja. Quando a disco fechou continuámos a noite a beber umas cervejas na rua e a ver os locais super talentosos a fazer break-dance. Uma noite mesmo, mesmo fixe. Agora o lado negativo... Fomos dormir a casa da amiga da Mimi, todos, e no dia seguinte acordámos às seis da tarde. E a pobre da Sofia em casa da Mimi à nossa espera, sem saber de nada. E como ela tinha a chave, não podia ir a lado nenhum, para não deixar a dona da casa fora da sua própria casa. Foi mau, eu desculpei-me e tudo, e estava tudo porreiro, mas é sempre chunga. Que se aprenda com os erros...
           
Nessa tarde fomos para casa do nosso novo anfitrião, que do nada me mandara uma mensagem a dizer que nos podia albergar. Não estava a ver quem era mas quando chegámos lembrei-me dele. Estava um bocado reservado e na sua nessa noite, mas acabou por ser muito fixe.
           
No dia seguinte, munidos do nosso guia, fomos conhecer Bangkok. Acabou por não ser um dia muito profícuo porque caímos num couro (um embuste, digamos) e perdemos muito tempo aí, mas foi porreiro. Fomos ao Grand Palace mas mal saímos do táxi apareceu um daqueles tailandeses muito simpáticos a dizer que o palácio estava fechado naquele momento numa cerimónia só para tailandeses, que abria mais tarde e não sei quê, e que o melhor era, enquanto esperávamos, ir dar uma volta numa tuk tuk (uma rickshaw) que era barato, pois passávamos no Standing Budha (Buda em pé), depois em Numseionde e depois ainda na agência de turismo, tudo por oitenta cêntimos os dois. Fixe pá, ‘bora! “Que senhor simpático”, dissemos, ao entrar no tuk tuk. Que é que sucede? O gajo leva-nos ao buda, realmente, depois leva-nos a duas agências de turismo, quando nós não tínhamos manifestado interesse nenhum nisto, e depois diz que agora tínhamos de o ajudar e ir a três lojas com ele, só precisávamos de ver, não tínhamos de comprar nada, porque assim as lojas davam-lhe um cupão para gasolina grátis. Má onda. Má onda porque fomos a uma loja de fatos, depois a uma de joalharia e depois a outra de fatos. E temos de fazer aquele joguinho de quem até possa estar interessado e não sei quê. Não curti e perdemos tempo com esta palhaçada toda de que nada sabíamos ao entrar na tuk tuk. É uma rede incrível isto. E até as agências de turismo devem estar envolvidas, porque nunca tinha visto tanta gente interessada em que o pessoal vá a uma. E batem os couros de que se tem de comprar o bilhete com muita antecedência e tal, mas o que é certo é que agora estou num autocarro e só comprei o bilhete hoje. Deixa-me triste, que o pessoal ganhe a sua VIDA a enganar os outros. Fico meio revoltado, porque tanto o primeiro senhor que nos mirou mal chegámos a Bangkok como o outro dessa tarde pareciam super simpáticos, não havia como perceber nada (como o outro em Varanasi que dizia que precisávamos de fotos para atravessar a fronteira) daquele embuste porque os gajos são todos bem falantes mas só querem o teu dinheiro. E depois começa a fartar porque é mesmo uma rede isto, e é difícil escapar. Digo que quero apanhar um barco, dizem que é 16 euros, depois chego ao cais e descubro que sim, há deles a 16 euros, mas os barcos-taxis normais são 40 cêntimos. Um gajo apanha o táxi, pede para nos levar ao cais, o taxista leva-nos, depois troca um olhar com um gajo de lá, e vai-se a ver e é desses cais com os barcos caros, para que um gajo entre num desses, pague, e o taxista receba a sua comissão. Merda mesmo. Andar na retranca e ler acerca de embustes.
           
Depois disto fomos para Chinatown, passámos lá umas horas e apanhámos depois outro barco para o outro lado. Lá tivemos uma conversa mais séria mas de que se retira sempre bastante. Falámos de eventuais pequenas diferenças nossas, como eu gostar mais de cortiré e a Sofia também gostar, mas talvez não tanto, e de como assimilar essas diferenças para que não seja um problema. Acho que desde que com claridade e as cartas na mesa, poucas diferenças podem ser um problema. Como, por exemplo, na noite em que não apareci em casa, o problema não foi as horas a que acordei nem nada, mas simplesmente não ter dito que assim o ia ser, e deixá-la, assim, à minha espera. Também falámos um bocado acerca do espírito de contradição que cada um tem, mas mais focado no meu, que parece um bocado mais forte. Os amigos que dizem sempre que sim a tudo até podem às vezes ser mais confortáveis, mas acabam por ser uns amigos sem grande profundidade. Como muita gente, acho que são os amigos que nos apertam os calos se preciso for que acabam por valer mais a pena. E neste caso assim o é. É verdade que eu sou um bocado do contra. Demais até, por vezes. Também é verdade que não digo “amém amém” quando assim não o acho. Creio que algo saudável seja um equilíbrio entre manter a individualidade e a liberdade de se dizer o que se pensa, mas também não dizer algo só para ir numa outra linha de raciocínio que não a mais comummente aceite. No fundo quem muito se esforça para contrariar algo está a ser tão iinfluenciado por esse algo como quem vai com ele.
           
Depois fomos para casa. Chegámos dispostos a ir p’rá caminha com o computadorzinho na net, mas o Wes não estava. Oops! Mais espera! Parecia que estávamos destinados a esperar por tudo a toda a hora. Ficámos uma horita no lobby até que pedi a alguém para lhe ligar. Ele estava num bar não muito longe e disse para irmos lá ter. Assim o fizemos, e acabou por ser o melhor. Ele estava com dois australianos, a Kathy e o Vic. Bebemos uma cerveja, depois quando o Cheap Charlie fechou fomos para o Kombu, um bar espetacular... na rua. É uma carrinha pão-de-forma da Volkswagen toda adaptada para ser um bar. Foi fixe termos ido porque falámos um bocado mais com o Wes, e a dada altura ele disse que podíamos ficar na noite a seguir também, mas que tínhamos de bazar no domingo. Meia hora depois disse que podíamos ficar domingo também. Pois parece que ele diz sempre ao pessoal que podem ficar uma ou duas noites, mas depois se forem fixes podem ficar quanto tempo quiserem. É justo. Passar uma semana com alguém que não curtismo tanto pode ser bela seca...
           
A Kathy e o Vic tinham 47 e 53 anos, respectivamente. Já tinham (o Vic, especialmente) estado em dezenas e dezenas de países, e eram um casal muito porreiro, na boa, muito jovem. “Quando ele se põe a chatear”, dizia a Kathy, acerca de a dada altura o Vic querer ir para casa, “eu digo-lhe sempre, nós conhecemo-nos a viajar, e conhecemo-nos a beber, e é assim, não vai mudar”.
           
Fomos para casa lá p’rás quatro. E às quatro da manhã, ver aquela actividade toda é algo incrível. No dia seguinte foi às sete da manhã até. As ruas ainda com bué de pessoal, aqueles restaurantezitos e bares no passeio, ainda semi-cheio de pessoal a jantar, beber, tocar viola. Gosto muito de Bangkok mesmo.
           
Um pormenor já esperado é o da prostituição e das meninas-menino. A maior parte das prostitutas na Tailândia parecem anjos caídos do céu (passe a contradição), muito bonitas. E uma parte assim não tão pequena das mesmas são homens, quase tão “bonitas”, é interessante.

Fim da primeira parte.

21h29-2ª-13-6-11
Algures entre Bangkok e Ko Pha Ngan


domingo, 5 de junho de 2011

Kathmandu


Eis que me deparei com um grande percalço!... Anteontem disse à Sofia que não me sentia muito confiante com a cena do Tibete. Não era bem uma sensação de que algo ia correr mal, mas acho que, algures, tinha percebido que não é exactamente como apanhar um autocarro até Espinho, e que havia muitas coisas que poderiam dar para o torto. E de momento está a dar.
               
Ontem à tarde fomos falar com o rapaz da agência com quem estava em contacto já há uns dois meses. Ele disse que o preço do comboio tinha subido 25$, ok, não há crise, continua a ser mais barato do que outra que tinha visto, e muito mais barato do que outras ainda de que tinha ouvido falar. Ficava em 625$ (430€) com visita guiada, transporte de Kathmandu até ao Tibete, 7 noites de estadia, pequeno-almoço e visto chinês com permissão para o Tibete.
               
Mas parece que no dia 1 de Junho o governo chinês meteu o travão nas permissões para grupos em budget (de visitas mais baratas) e até nas mais caras. Não estavam a emitir vistos dia 1, e também não o tinham feito dia 2, o dia em que eu lá estava sentado frente ao homem. Bem, foi ontem. Grande cena! Para resumir, ele disse que eles (os do governo, suponho) iam ter várias reuniões, uma das importantes dia 5 e podia ser que a cena mudasse. Contudo, podia ser que acontecesse mais cedo. Ou mais tarde. Ou não acontecer de todo tão cedo.
               
Conclusão, estou como o burro no meio da ponte. Este burro quer esperar por uma decisão, mas essa decisão pode não vir e ele pode estar aqui no Nepal a fazer tempo p’ra nada. Claro que ele vai fazer o tempo render, e continuar a ver e conhecer cenas, mas é uma situação que não prima pelo conforto. Mas pronto, paciência, que se lixe, de momento não há nada a fazer. Vou estabelecer uma data, se passar dessa data e não tiver notícias positivas vou ter de apanhar um avião para a Tailândia. Custa-me imenso esta mazela num projecto que sempre me pareceu altamente. Queria mesmo fazer esta cena por terra, e agora acontece isto. O pior, e melhor, é que nem há nada a aprender com isto. É o pior, porque não posso retirar nada de positivo como uma lição, e é o melhor, porque posso estar descansado que não podia mesmo fazer nada a menos que adivinhasse a mente dos chineses.
               
Por isso mesmo equaciono voltar por terra... é um bocado maluco, eu sei, mas acho que o podia fazer confortavelmente em dois meses. Tenho de deixar a ideia assentar, para ter a certeza que não estou a agir de cabeça quente. Mas não é assim tão complicado. Voava para a Tailândia, andava pelo sudeste asiático com a Sofia. Quando ela bazasse ia para Singapura. Depois partia daí, subia a Malásia, entrava na Tailândia, depois Laos, de onde entrava na China. Isto fazia-se me p’rai duas semanas. Depois atravessava a China. Só em viagem são p’rai 90 horas, por isso conseguia fazer isto p’rai em dez dias. Da China passava o Casaquistão numa semana, descia para o Uzbequistão e entrava no Turquemenistão, 10 dias para estes países. Atravessava o Irão em 2 dias e estava na Turquia. Atravesso a Turquia em quatro dias se tanto. Depois da Grécia a Portugal consigo em duas semanas, p’raí. Estou a fazer as contas assim de repente sem pensar muito nem contar quilómetros nem nada, mas se fosse assim tudo seriam dois meses, mais ou menos. É só uma ideia, e nem a devo seguir, mas pronto, partilho aqui para, caso aconteça, não apanhar ninguém de surpresa. Também pensei em apanhar o transsiberiano, mas é muito caro.

Essa parte desta entrada no blog foi escrita dia 2. Agora é dia 5.

Kathmandu é muito, muito fixe. É uma cidade que não tem nada a ver com outras cidades que já conheci. Chegámos e viemos directos para Thamel, a zona onde há um hotel por cada centímetro quadrado. O taxista chulou-nos à grande. Eu disse-lhe que sabia que ele nos tinha enganado e que ele ia ter mau carma, mas o palerma só se riu. Dois euros para cinco minutos. Paciência. Perguntei a duas turistas que passaram onde havia um hotel fixe e barato, certo de que, sendo turistas, iam dar algo razoável porque não tinham nada a ganhar, e encaminharam-nos para o Hotel Imperial. Mas apareceu um méne a sugerir uns hotéis, vimos dois e acabámos de ficar no segundo. Consegui baixar um bocadito o preço e ficou em 3,5€ pelo quarto. 1,75€ cada um.
               
Nessa noite fomos só jantar e depois voltámos para casa. Por coincidência a nossa agência de turismo era no mesmo edifício do nosso restaurente, o que poupou a procura no dia anterior.
               
Assim, dia 2 lá fomos. O que o gajo nos disse eu já partilhei aqui. Mas já estou fixe com a ideia. Paciência, não é? Não há nada a fazer. Por mais que eu quisesse fazer isto tudo por terra, se não dá, não dá, e andar frustrado não vale de nada. Nesse dia e em parte do dia seguinte estava com esta filosofia mas vinha com um esforço consciente. Não acho que seja menos válido quando nos convencemos a nos sentirmos de certa forma, quando essa forma visa uma libertação de preocupações. Mas às vezes é mais patológico. Eu lembro-me, quando era puto e acontecia alguma cena mais fortezita com uma miuda qualquer, eu quase que me forçava a sentir-me triste, quase sem saber que apenas o fazia porque achava quer era isto que era suposto sentir. E cheguei a deitar umas lágrimazitas quando andava no quinto ano e a Carolina acabou comigo na aula de educação visual, e chorei mesmo quando a Susana me disse que estava indecisa entre mim e o Pedro. Que riso! Da primeira vez tinha 10 anos e da segunda tinha p’rai 13. E pronto, isto para dizer que sinto que às vezes o pessoal se força a estar triste porque acha que é aquilo que é suposto. Até quando morre alguém, o pessoal pensa que é o fim do mundo se passado uns dias estiver contente, e que isso significa que se calhar não gostavam mesmo da pessoa. Nada a ver, meus caros...
               
Heia isto foi um grande desvio...
               
Nessa tarde andámos por Kathmandu. Claro que nem tudo são rosas, e há zonas e zonas. Contudo, esta zona aqui, e a caminhada que nós fizemos (p’rai de duas horas, passando por vários sítios porreiros) foi demais. Adorei. Ruelas estreitas, templos daqueles mesmo fixes estilo chinês cheios de estátuas elaboradas e estranhas, tudo em todo o lado, a malta a vender verduras na rua e o pessoal a passar por nós a cada dois minutos a perguntar se queríamos haxixe. Todo um cenário interessante e bacana. Bué de turistas na rua também. No dia seguinte fomos ao templo do macaco. Acabámos por não entrar porque tínhamos de pagar um euro. Se és novo por estas andanças bloguísticas, um euro às vezes é muito dinheiro quando se considera o meu orçamento.
               
A propósito... postaram na minha página do facebook um link para um book trailer de um grupo de três homens, ou jovens adultos, que foram de jipe de Portugal à África do Sul em cinco meses, e que sobreviveram com 60 euros por dia. Se forem 60 euros para os três, ainda é como diz o outro, mas se for 60 euros por cada um, isso é tudo menos sobreviver. Eu com esse dinheiro era rei, e nem sabia bem como havia de o gastar. Mas no Nepal tenho gasto mais do que a minha média e acima dos dez euros por dia a que me predispus. Gastei cerca de 110 euros em 7 dias.
               
Quando voltámos do templo do macaco fomos arranjar as nossas cenas, comprámos umas bebiditas e jantámos no restaurante do nosso hotel. Posto isto fomos ter com um gajo do couchsurfer que estava num bar com algum pessoal e a quem eu tinha acabado de ligar. Já ia entrado. Mas chegado ao bar, zero de gajo. Ia perguntando a algumas pessoas se eram do couchsurfer, até que uma delas me perguntou, em português brasileiro, se eu não era o português. “Sim, sou”. Acontece que eu tinha enviado mensagem a alguns dos “nearby traveleres”. No couchsurfing dá para ver quem anda em viagem perto de nós e eu tinha mandado mensagem a uma data desta malta a perguntar se se queriam encontrar. Ninguém respondeu, nem mesmo estes brasucas, mas foi fixe, encontrámo-nos assim, por acaso e ficámos com eles a noite toda. Ia chegando pessoal, alguns que não conheciam ninguém e so se queriam juntar ao grupo, outros que eram amigos deste e daquele. Bazámos quando o bar fechou e caminhámos p’rai meia hora até ao casino, o único sítio aberto. Lá bebi dois whiskeys e perdi 15 euros no casino. Paciência, também é só de vez em quando que me meto nisto...
               
Ficámos um par de horas à conversa e depois voltámos para casa, não sem antes combinarmos um jantar para o dia seguinte.
               
Ontem, sábado, acordei tarducho, a sentir os efeitos da noite anterior. Fomos dar uma voltita, e íamos almoçar quando encontrámos o David, inglês do dia anterior. O gajo veio connosco e depois estivemos à conversa p’rai duas horas até que era altura de nos encontrarmos com o resto do pessoal. Apareceram o Tobi e o Christian, alemães, o Fabiano, brasileiro, a Nicole, canadiana e a Sophie, estona. Éramos oito, portanto. Comprámos as bebidas no supermercado e trouxemo-las para o restaurante do meu hotel, onde jantámos e bebemos. Depois disto fomos para o 1905, um bar só com turistas mas que estava muito fixe. E a noite, em si, foi demais. Eu curto isto, beber uns copos, conhecer gente nova, falar disto, daquilo, e rir. Foi aparecendo mais gente, como a rapariga luxembruguesa e o Eric, um peruano que tinha vivido um tempito em Miranda do Douro. Estivemos no bar até às quatro ou cinco da manhã.
               
Agora estou aqui num barzito com a Sofia, na descontra. Amanhã devemos ir a uma vila fora de Kathmandu, não muito longe, e que supostamente é muito fixe.

19h57-d-5-6-11
Kathmandu, Nepal

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pokhara

 Estou no autocarro a acaminho de Kathmandu, a capital nepalesa. Vamos fazendo caminho pela estrada que corta os campos verdejantes sem dó nem piedade, oferecendo um toque mais urbano a estas paisagens deslumbrantes. Adoro as paisagens nepalesas e estou a adorar o Nepal, apesar de estar auqi há pouco tempo e só ter visto Pokhara. Mas vi o caminho da fronteira até essa cidade, que foi estonteante. Viemos sempre pelas montanhas, passando pelos sítios mais incríveis e com uma autenticidade deslumbrante. As pessoas aqui já se parecem mais chinesas, mas muitas delas, talvez a maioria, é uma mistura do chinês com o indiano. Incrível, uma linhazita, invisível, e tanto muda. Estava a pensar ontem em como seria o mundo se toda a gente fosse igual. Para nós não ia fazer diferença, sendo que era um dado adquirido e se calhar nem questionaríamos como seria ter raças humanas, porque era absurdo.
               
O mundo assim é tão mais rico. Mas parece que o humano não veio equipado com as faculdades de lidar com essas diferenças. Ou até veio, mas é um mecanismo que não é necessariamente inato, e que teve de ser desenvolvido ao longo de milénios. E, sinceramente, nesta altura do campeonato, acho que ainda temos muito para andar. Não gosto de discussões em voz alta e acaloradas, porque isso para mim já não são discussões – são jogos. Mas ainda assim o racismo é um tema que me deixa um bocado furioso por vezes, e é-me difícil manter a calma. Ri-me agora com a ironia desta frase – “o ser humano generaliza muito”. Para quem não percebeu o humor da cena, a frase, em si, é uma generalização.
               
Pois a verdade é que somos todos feitos do mesmo... uns mais bonitos, outros mais feios, mas todos perfeitamente falíveis, todos com um passado atrás de si, todos sujeitos à sorte e azar de ter nascido aqui ou ali. Mas tendemos a nos esquecer destas circunstâncias e criticamos avidamente povos africanos, por exemplo, e que não se sabem governar e não sei que mais. Quando foram os europeus que lá chegaram e destruiram aquilo tudo. Tinham aviões se não chegasse lá o europeu? Tinham computadores? Se calhar não, mas esta é uma pequena ponta do iceberg. Era possível ter havido uma troca de bens e cultura sem isso implicar o massacre de uma destas partes, tantpo interno, dentro de cada pessoa, como externo, de país para país, grupo para grupo. E o Gautam, indiano, a bater-me estes couros de que se não fossem os europeus os da América Latina, por exemplo, ainda andavam na selva e não sei quê. Em primeiro lugar – quem me diz que isto não era melhor? Quem me diz que as pessoas não são mais felizes nas tribos? Ninguém me diz. Em segundo lugar – por mais que possamos trazer para um país, ou mesmo para uma pessoa, isso não nos dá o direito de nos apropriarmos daquilo que não é nosso, de fazer o que nos apetece com algo que não devia estar nas nossas mãos.

Mas enfim. Divagações à parte, entrámos no Nepal no dia 29 de Maio. Passámos umas seis horas num hotel na fronteira, e no dia seguinte atravessámos a fronteira, após ter pedido o visto de 25 dolares. Uma cena que não curti nada e que acho que não referi. Quando estávamos em Varanasi à espera de um autocarro veio um senhor, todo bem falante e prestável, a dizer-nos as nossas opções e tal, e depois disse-nos que íamos precisar de 6 fotografias para passar para o Nepal. Ora eu tinha visto que precisava só de uma. Mas o gajo dizia que eram 3 para sair da Índia e 3 para entrar no Nepal. Fotografias para sair de um país? Achei aquilo estranho. Nós até tínhamos as fotos, mas uma delas não fazia parte do mesmo grupo das outras, e o cota disse que tinham de ser iguais. “E lá na fronteira é caríssimo, é melhor tirarem aqui, que são 500 rupios [7,5€ - caríssimo para padrões indianos] por 16”, dizia o méne, “Se quiserem, eu tenho um serviço de rickshaws de emergência que vos pode levar lá, não há crise”. Eu sentia-me um bocado suspeito, e acabei  por dizer que não, consciente de que se eu tivesse razão me ia sentir um espertinho, e que se não tivesse, e realmente fossem precisas as fotos, me ia sentir um cinicozinho. E não foram. Mas aquela cena tocou-me porque o gajo não tinha nada aspecto nem a maneira de um rufia. E no entanto andava ali à pesca de turistas para enganar. Porque é que as pessoas fazem isto?...

De Sunauli, no lado nepalês, até Pokhara, foram umas oito horas. A viagem, como disse, foi altamente. Outra cena que reparei foi em como o pessoal, não só aqui, trata os turistas de uma forma especial. O gajo que estava no autocarro responsável pelos bilhetes e cenas afim, era todo sorrisos para mim e para a Sofia. Já para o resto do pessoal, parecia o diabo em figura de nepalês! Uma amiga minha disse-me, e talvez eu já o tenha partilhado aqui, que umas das razões pelas quais é fixe/interessante é que as pessoas nos tratam como crianças, mas de uma forma porreira – é só sorrisos, boasvindas, tudo explicadinho, é um mimo!
               
Quando chegámos a Phokara apareceu logo um méne a falar do seu hotel. Parecia fixe, e dissemos que íamos ver mas que depois íamos ver outros. Vimos e ficámos logo. Era fixolas, talvez o melhor onde ficámos, e custava 2,5€ por pessoa por noite.

No dia seguinte fomos dar uma volta por Pokhara. Descobrimos uns restaurantezitos tibetanos que faziam um preço mais em conta e a partir daí almoçámos e jantámos sempre aí. É que Pokhara é muito turístico, e os preços estão um bocado acima daquilo a que estávamos habituados. Mas no tibetano ok, um prato ficava por euro e meio, se não nos aventurássemos nas cenas mais caras. Efectivamente, Pokhara é muito turístico, demais. Eu tento sempre, e geralmente consigo, adaptar-me e ver as cenas positivas, mas às vezes é impossível ignorar as menos positivas. Pokhara é lindo, um lago enorme, com os ocasionais barquinhos coloridos, uma água que parece bastante limpa e rodeado por montanhas cobertas de um verde vivo que lembra mais a selva do que um bosque. Mas ao longo da rua paralela ao lado é ver as centenas de estabelecimentos que de napalês têm pouco e que de “para o turista” têm tudo. Música boom-boom, restaurantes italianos em todo o lado, happy-hours e lavandarias. Pensava na comparação connosco, humanos. Quando fazemos o que fazemos, e somos o que somos, mantemos a nossa cena, que pode não agradar a toda a gente, mas que é a nossa cena, está em bruto e é autêntica. Quando, por outro lado, deixamos de fazer o que fazemos ou ser o que semos, e passamos a fazer, e a ser, o que os outros querem que façamos e sejamos, se calhar até agradamos minimamente a mais gente, mas deixamos de ser aquela pessoa que rouba corações com um trejeito. Assim senti Pokhara. Vale muito a pena visitar, não me entendam mal, mas é muito turístico. Alguém já foi ao Bali? Ouvi dizer que é igual.
               
Nesse primeiro dia de ver as vistas éramos para ir ao World Peace Pagoda, um pagode construído por uns monges para promover a paz no mundo. Mas aquilo era uma cmainhada de duas horas montanha acima e já era um bocado tarde. Pelo que decidimos alugar umas bicicletas, quarenta cêntimos por hora. Foi altamente! Andámos duas horitas, fomos ver a parte velha da cidade, essa sim ainda autêntica, com tascas que se calhar eram o mesmo há duzentos anos, e cheia de nepaleses que tinham o seu negócio, com ou sem turistas. Quando voltámos ao lago seguimos um pedaço mais “para a frente” de onde estávamos e deliciamo-nos com as paisagens, batendo a ocasional fotografia. Muito fixe, curti muito.
               
No dia seguinte fomos ao pagode. Demorámos pouco mais de três horas a chegar lá cima, mas valeu a pena a caminhada. Voltámos para baixo por um caminho diferente e depois apanhámos duas boleias até ao nosso hotel. Estávamos todos partidinhos. Aquela caminhada tinha custado mais do que o corpo sentira na altura. Ficámos um bocado na descontra no hotel e depois fomos jantar.
               
Agora siga Kathmandu!
               
Tive hoje o meu primeiro pequeno deslize com o passaporte. Deixei-o no hotel, debaixo do colchão. Boa Tóni! Já estava no autocarro quando apareceu o senhor do hotel a dizer-mo, e que o taxista estava a caminho com o documento. Se eu o tivesse escondido um bocadinho melhor, lá mais p’ró meio da cama, só dava pela sua falta na capital. Depois era voltar e vir buscá-lo. É a única coisa que não posso perder. Podem-me roubar tudo o que tenho, até a roupa do corpo, que não volto para trás. Mas se o passaporte vai à VIDA lá volta o Pedrito todo desiludido para trás.

15h05-4ª-1-6-11
Algures entra Pokhara e Kathmandu

domingo, 29 de maio de 2011

Varanasi


Estamos  no autocarro em direcção a... esqueci-me do nome. Começa com “s” e acho que é a última cidade antes do Nepal. Como sempre, os únicos estrangeiros neste autocarro sem ar condicionado. Mas não me faz grande diferença. A Sofia estava a sofrer um bocadito mas agora já está mais fresco, acho. Um gajo transpira bastante, a t-shirt até fica tesa quando seca (e a Sofia tem uma capacidade incrível de gerar sal, ficando umas marcas brancas redondas super bacanas nas t-shirts) mas ‘tá-se bem. Custa-me mais o calor em casa do que na rua. O que é curioso, porque é exactamente o mesmo em relação ao frio. Adoro o frio mas detesto sentir frio em casa.
               
Varanasi foi uma experiência brutal. Apanhámos o autocarro em Lucknow, que nos custou 190 rupios (2,85€) e chegámos a Varanasi já à noite. Recorri a um método que uso com alguma frequência. Temos o número do couchsurfer que nos aceitou, metemo-nos no autocarro e lá peço o telemóvel a alguém para telefonar ao futuro anfitrião. Já devo ter usado o telemóvel p’rai de  trinta pessoas nesta viagem. O Tarun, com quem íamos ficar, disse para nos metermos numa rickshaw para a morada que nos tinha dado. Contudo, tal como com os nossos anteriores anfitriões, era danado encontrar a morada do moço. Voltas e mais voltas lá fomos ter a uma estação de gasolina que era pertito. O condutor pediu outra vez o número do Tarun e ligou-lhe a pedir para nos vir buscar. Assim foi.
               
O Tarun é um advogado dos seus trinta e cinco anos, magérrimo com um bigode tipicamente indiano. Um gajo muito calmo para connosco, e igualmente reservado. Acho que era advogado de defesa, defendendo pessoas que eram acusadas injustamente de agressões e cenas afim. Disse-me que violação dá direito a pena de morte na Índia. Eu sou contra a pena de morte seja em que caso for, mas ao mesmo tempo, falando de violação, ou muito me engano ou em Portugal dá direito a uns anitos, seis a oito? É assim? Se alguém ler e tiver uma informação mais exacta que o partilhe, por favor, nos comentários. Depois há as sentenças b, claro, que são alguns anos a viver em casinha no bem bom enquanto a justiça portuguesa persegue o seu próprio rabo.

O quarto que tinha para nós não podia participar num daqueles anúncios televisivos da Ajax ou muito menos da Moviflor. A Sofia não estava muito impressionada com as condições, mas ‘tava-se bem. Ora veja-se, para mim basta ter tecto. Nem é preciso ter cama no verdadeiro sentido da palavra. E mesmo ter as quatro paredes não é fundamental. A nivel de condições, o mais importanta para mim quando em couchsurfing (numa viagem deste tipo) é ter wireless, depois ter tecto e finalmente ter cama. De resto que se lixe, um gajo arranja-se. E o gajo tinha internet, por isso bem bom!
               
Apareceu lá no quarto com um radiozinho que sintonizou numa estação de música indiana (não sei se daria para escapar, desde que entrei na Turquia que dificilmente consigo ouvir música ocidental) e três chás. Achei piada ao rádiozito. Achei enternecedor, mas creio estar a ser condescendente, porque dá-me vontade de dizer algo como “coitadinho” e não curto nada. Eu ia metendo as minhas pergntinhas aqui e ali, oleando a máquina da conversa, e estivemos um bocado no paleio, até que ele foi dormir. O rapaz, como os anfitriões anteriores (tirando o Gautam, que não acredito ser um terço do hindu que diz que é – lol que frase estranha), o Tarun era religioso. Já o disse, mas o hindiusmo é uma religião bué de marada! Incrível mesmo. Não sei quantos deuses, encarnações dos mesmos em vários animais resultando num mix de humano e animal; deuses que cortam as cabeças aos seus filhos e as substituem por cabeças de elefante, etc. Comentávamos que quem criou o hinduismo devia estar com uma moca de todo o tamanho. A sério. Mas pensando bem,é só porque estamos habituados à “nossa” religião aborrecida. Um deus, só? Isso é p’ra meninos! Falando mais a sério, tentei pôr-me na pele de um hindu e chegar assim meio de paraquedas ao Vaticano.
               
“Que cena estranha! Os gajos só têm um deus! Um deus para tudo? Para a criação, a destruição, a sustentabilidade, a morte, a VIDA... só um, como é que um deus é encarregue disso tudo? E tem um padre que é o chefe dos outros todos? Esse deus falará com ele? Que estranho... hei méne como ele se veste (diz o gajo a ver as fotos do papa), hei méne que riqueza (diz o gajo a entrar na Basílica de São Pedro, ou em tantas outras igrejas, basílicas, capelas)!!! Os gajos não vendem isto tudo e dão o dinheiro a quem precisa porquê? Tanta riqueza!... E o padre chefe anda em tourné aí pelo mundo num carro com vidro à volta para não o matarem?! Que estranho! E em alguns países o povo tem de pagar para ver o gajo a passar no seu carro de vidro! Que estranho... E as mulheres vestem-se de preto anos a fio quando o seu marido morre... que depressão, que estranho...”.
               
Perspectivas. Daí valer sempre a pena tentar-mos por-nos na pele dos outros antes de criticar os seus afazeres.
               
Na manhã seguinte acordei com uma granda tripe. Alguém na casa andava aos berros com uma mulher, que eu achava ser empregada mas que era a mãe do Tarun. Mas uma cena do caraças, berros e mais berros. Durante os próximos dias eu convenci-me que tinha sido o pai do Tarun, mas acho que só me convenci disso porque não queria ver o Tarun com essa luz, então menti-me. Mas acho que era ele. Estranho. E essa mulher, a mãe dele, não ganhava o prémio de Miss Simpatia no Miss Índia, nem quando era mais novita. Estou a queixar-me muito, se calhar, mas foi uma experiência porreira ter ficado em casa do Tarun, que se esforçou para que tivessemos tudo o que precisávamos. Acabada a tripe um gajo voltou a dormir e acordámos lá p’ras onze. O Tarun levou-nos na sua mota até à primeira ghat de quem sobe o Ganges. Bem, andar na sua mota, eu, ele e a Sofia (sim, três, mas isso é o pão nosso de cada hora por estes lados, e quatro pessoas em cada mota é o pão nosso de cada dia), foi uma experiência única. Que loucura! Dessa vez até foi levezinho, mas no dia seguinte, xauzinho, vi a morte a piscar-me o olho tantas vezes que pensavs que se estava a fazer a mim. Claro que, de certa forma, é tudo controlado, e estes indianos têm o seu instinto condutor ao máximo e nunca acontecesse nada. Ainda assim foi radical, bastante radical.
               
Ficámos na Asim Ghat. Ghat são os degraus à beira-rio onde o pessoal se banha. Há dezenas de ghats em Varanasi, sendo duas delas onde se cremam os corpos. O pessoal vem de toda a Índia para se banhar no Ganges em Varanasi, esperando assim livrar-se dos seus pecados. O pessoal de Varanasi e arredores tem o previlégio de ser cremado nesta cidade e ter as suas cinzas espalhadas na água. Seis tipos de pessoas não são cremados – crianças com menos de dez anos; pessoas religiosas, como gurus, por exemplo; grávidas; pessoas que morreram com lepra; pessoas que morreram com varíola (small pox, não sei se esta é a tradução correcta) e não me recordo do sexto grupo. Isto porque estas pessoas já estão puras quando morrem, não precisam de lavar os seus pecados.
               
Quem nos explicou isto foi o Sonu, que conhecemos na Ghat de cremação mais pequena. O Sonu, que não nos queria vender nada e não ia forçar nada, mas não desistiu até que nos viu na sua loja...
               
Caminhar pelas ghats, subindo o rio, é belo. Há uma calma no ar nada característica do resto da cidade, casas e templos coloridos, malta a nadar no rio, a rir-se, putos a brincar. Do outro lado do rio vê-se uma praia fluvial a perder de vista, com manadas de vacas de um lado e um ou outro puto a comandar o grupo.
               
Fomos indo com calma, e vimos o fim de uma cremação. Ao seu lado um corpo envolto em seda laranja. Foi aí que conehcemos o Sonu, que nos disse também que um corpo para arder precisa de 360kg de madeira, e que 1kg de madeira custa 250 rupios (3,75€). Acho difícil de crer, mas foi o que ele disse. Pois estivemos lá à conversa com o Sonu e até que fomos almoçar, num restaurante que o gajo recomendou. Desde o início que o gajo dizia que nãoi era vendedor e não sei quê e a perguntar se não queríamos ir ver a fábrica dele, para ver como as coisas são mesmo feitas. Eu ia dizendo que não e ele dizia que não nos queria forçar. Disse-o um sem número de vezes. Depois do jantar, como tinah dito que faria, veio ter connosco.  Bem o gajo tanto persistiu que acabámos por ir. Era já ali e não sei quê. A Sofia comprou dois lenços compridos muito fixes de seda, 2,5€ cada um. Até foi na boa. Foi interessante ver os gajos a fazerem a seda e depois conversar com o pai dele, que foi quem fez a venda.
               
Durante a tarde continuamos pelas ghats e às sete vimos a cerimónia na ghat principal, que dura ais ou menos uma hora e acontece todos os dias. Uma cena interessante, mas que acaba por ser um bocado extensa. O Tarun encontrou-se connosco no final, levou-nos a um restaurante, e depois fomos para casa.
               
No dia seguinte tínhamos planeado acordar às cinco da manhã, para apanhar um barco no Ganges com o sol a nascer. Assim o fizemos. Como tinha acontecido quando fomos ver o Taj Mahal, perdemos o nascer do sol propriamente dito, mas isso não fez com que não tivesse sido uma experiência excelente. Pagámos 100 rupios (1,5€) cada um para andarmos cerca de hora e meia. Havia aquela neblina matinal no ar, o sol não castigava a pele em demasia, por isso fluimos com calma e naturalidade pelo Ganges acima. A meio comprámos um pratinho de papel com quatro ou cinco flores de lotus, uma vela no meio e daquela tinta vermelha com que se faz uma pinta na testa, por 10 rupios. “Para bom carma”, dizia o gajo. Faz-me rir e acho ridículo que se pague para ter bom carma. Então porque comprei a cena, é justo perguntar... sei lá, pareceu-me giro ver as flores a desaparecer com o passar das águas supostamente sagradas.
               
Quando o barco nos deixou fomos tomar café e comer umas cenitas enquanto esperávamos o Tauran. O gajo foi impecável, sempre connosco p’ra trás e p’rá frente na sua mota. Apesar ter ficado com marcas indeléveis daquelas viagens terríveis que nem o tempo curará, apreciei bastante o seu esforço. ‘Tou no gozo – se calhar daqui a quinze anos já passou... já não penso naquela buzina a massacrar-me os ouvidos e richshaws a passar tão pertinho que quase dava para saber a marca de tabaco que o condutor fumava só de lhe cheirar o bafo.
               
O Tarun deixou-nos em Sarnat, onde íamos ver as ruínas de onde o Buda deu as suas primeiras palestras. Partimo-nos a rir p’rai por cinco minutos quando, a dada altura, achámos que “se calhar almoçávamos já”, apenas para perceber que ainda eram nove e pico. Acordar às cinco da manhã dá nisto.
               
As ruínas não foram nada de especial. Posto isto, almoçámos e demos umas voltas por lá. Fomos visitar um templo Jain, onde tive a oportunidade de entrevistar um bocadinho um practicante. Só um bocadinho porque o gajo não se safava muito com o inglês. A dada altura pensei que as religiões orientais tinham muito em comum, como o carma, o amor ao próximo, etc. Mas depois pensei que, na verdade, qualquer religião contempla o amor como pedra basilar. Mas depois entra o Homem e fode tudo. Às vezes até é o pessoal mais religioso que é pior pessoa, em Portugal, mas julgador, mais castigador, talvez, no fundo, por ser alguém mais castigado...
               
À tarde andámos pelas ghats. Íamos descansando aqui e ali. Fomos caminhando rio acima, até que chegámos à ghat principal de cremação. Foi uma cena do outro mundo. Surreal mesmo. Tinha umas quatro cremações a decorrer. Tem como que uma bancadazinha onde os familiares se podem sentar a observar, e os funerais decorrem mais abaixo, perto do rio. Assistir a um funeral, que conceito estranho. Íamo-nos sentar para lá quando alguém veio ter connosco e pôs-se a falar p’rai dez minutos sobre um hospital que precisava de doações e não sei quê, e quando dissemos que não íamos dar nada, disse que não podíamos ficar ali. Sentamo-nos então mais atrás, num sítio de onde dava para ver na mesma e mesmo ao pé de uma cena que achei incrível. Isto é, eu pensava que estava num filme. Tudo aquilo era tão estranho e diferente para mim, que senti-me como se nunca tivesse saído de Portugal e de repente tivesse aterrado noutro planeta. Mesmo ao nosso lado meteram um corpo embrulhado em seda laranja num barquinho, remaram até ao meio do Ganges, e largaram o corpo. E os familiares na costa, a ver. Uma cena mesmo incrível, digo outra vez.
               
O Sonu, o gajo a quem comprámos a seda, tinha dito que as mulheres não podiam ir aos funerais, porque choravam muito, e este choro podia fazer com que a pessoa tivesse pena e não quisesse partir, voltando a reencarnar. É que o verdadeiro objectivo não é reencarnar em alguém numa boa posição, mas deixar de reencarnar de todo, alcançando o nirvana, libertação total.
Agora pensem nisto... aqui a mulher não pode ir a um funeral porque chora muito. Em Portugal, dantes, pagava-se a mulheres para irem para os funerais chorar! Incríveis estas diferenças...

Depois disto, mais nada. Richskaw, casa, net, dormir.

Estamos agora no autocarro. Devemos chegar a Sunali à meia-noite. Vamos lá passar a noite e amanhã vamos para Pokhara, no Nepal.

19h36-s-28-5-11
Algures entre Varanasi e Sulani, Índia