domingo, 15 de maio de 2011

Na quarta, dia doze, deixamo-nos dormir mais um pedaço. Quando acordámos, com banhos tomados e cenas prontas fomos para o forte de Amer. Apanhámos o autocarro ali perto da casa, e uma vez na cidade apanhámos um autocarro daqueles tipo forguneta até ao forte. Em cada um destes meios de transporte éramos os únicos turistas. Uma ou outra pessoa perguntou porque é que não apanhávamos o autocarro com ar condicionado. Porque se gastarmos menos, melhor, e porque aqueles autocarros foram os primeiros que apareceram. Frescuras para quê? 

A Graciete ia dando sinais da sua fadiga precoce, e quando chegámos ao imponente forte, a sua energia entrou em queda livre. O forte era muito fixe, enorme, e valeram a pena os 200 rupios (3€) que eu e a Sofia pagámos para entrar. Digo eu e a Sofia porque quando entrámos na praça que davsa acesso à entrada para o forte, já depois de uma grande subida debaixo daqueles quarenta graus, a Graciete deu o tilt. Estava de todo, e preferiu ficar cá fora, à sombra, à nossa espera. Era como se tivesse doente, mas sem o estar. Como se uma doença súbita se abatesse sobre si e desaparecesse com o lento pôr-do-sol. A Sofia também tem sofrido um pedaço com o calor, mas não tanto. É estranho, porque para mim é tranquilo. Também me custa um pedaço, e canso-me mais facilmente, mas nunca assim tanto. 

Vimos o forte em duas horas, muito porreiro, e voltámos. Demos lá um volta na vila de Amer a ver as vistas e apanhámos um autocarro para Jaipur. Entretanto a Graciete ia ficando melhor, e eu mais cansado, como se tivessemos trocado a canseira. Em Jaipur voltámos a encontrar o pessoal do dia anterior, incluindo um que nos tinha convidado para um chá. Ora um gajo estava meio roto e queria era ir para casa, mas eles foram insistentes e lá acedemos. Foi interessante a impressão diametralmente oposta que eu e as miudas tivemos. Sentámo-nos lá com o gajo, do outro lado do pequeno balcão da sua lojita, e foi como se tivessemos carregado no botão play do méne, porque ele começou lá a falar de como não queria nada de nós, e de como muita gente gosta de enganar os turistas sem perceber que, no fundo, está é a enganar-se a si próprio. O gajo falava bué de rápido e à medida que o ouvia pensei “pá isto na Índia é só pessoal sábio”. A dada altura estava a falar dos chacras (pontos de energia) e não sei quê e sacou de um colar que me mostrou e disse estar relacionado com o meu não-sei-quê. “Então sempre me estás a tentar vender alguma coisa...”, eu disse. Ora o gajo reagiu duma forma que me pareceu tão genuína que eu achei que me tinha precipitado. Arregalou os olhos um bocado, disse que não, que não, e disse “que se foda o colar”, mais para si do que para mim. E iá, ele não tinha dito que eu devia comprar, nem falado em preços nem nada do género, é verdade. 

Passado um bocado agradeci os chás e bazámos. Quando saímos, tanto a Graciete como a Sofia tinham a clara noção de que o gajo era um aldrabão. É certo que eu sou um bocado inocente e ingénuo (por opção em muitas vezes, por natureza noutras) mas acho mesmo que o gajo estava na boa, e deixa-me, como lhes disse, um bocado triste a desconfiança latente. 

Fomos para casa, descansámos um bocado, e fomos ver a como é que era o casamento. Como no dia anterior, deixamo-nos ficar ali na periferia da festa, até que apareceu um cota a convidar-nos para comermos. Para mim estava tudo tranquilo, mas as miudas sentiram que não foi tão natural como no dia anterior. Mas foi uma experiência interessante, novamente. Sentamo-nos à chinês lá num canto, juntamente com outro pessoal. Era duas grandes filas com pessoal sentado no chão a comer. O pessoal ia e vinha com a comida, quase não aceitando um não como resposta. É que as miudas não são grandes adeptas destas comidas indianas. Comigo é mais fácil. Conta o meu padrinho de vez em quando que ao crescer, quando eu dizia que não queria algo, o meu pai punha mais. E não comer algo porque não gostava, não era opção. Assim, hoje me dia como de tudo. Tudo menos fruta cristalizada, isso não entra muito bem. Não me repugna, mas não curto. 

Assim ficámos lá um pedaço a comer e a dada altura apareceu um borraxola que achou que éramos da sua responsabilidade e veio-nos buscar para nos irmos sentar lá numas cadeiras. Foi interessante quando a Graciete, tentando ser simpática, levantou o seu prato, e apareceu lá um cota de turbante laranja que olhou para ela como se o prato fosse de ouro e ela o quisesse roubar. É que ajudar a arrumar as cenas não é o papel dos convidados. O gajo estava mesmo agastado. Mas foi na boa. 

Sentámo-nos lá com umas cadeiritas, rodeados de pessoal e putos. Aqui o pessoal não só não tem problemas nenhumas com tirarmos fotos como até pede. E de que maneira! A Sofia comelou a tirar umas fotos e aquelas miuditas, quais modelos superstar, não se cansavam de pedir “só mais uma”. Depois apareceu alguém que falava inglês e sentámo-nos com eles. Explicaram como funcionava o casamento, mais ou menos. Geralmente, como noutros países por onde passei, são as famílias que escolhem com quem o seu filho, ou filha, se vai casar. No caso daquele casamento, os noivos já tinham estado juntos um par de vezes, mais nada. Muitas vezes é surpresa total e só descobrem com quem casam no dia do matrimónio. Pá deve ser uns nervos méne! É que o pessoal aqui não se divorcia assim por dá cá aquela palha. Então, naquele momento, tu vais ver a pessoa com quem vais passar o resto da VIDA! Siga! Pau! Pim pam pum! Quanto ao dia do casamento, são os guros que, após um estudo astrológico, decidem. Não sei se haverá algum aspecto do casamento que dependa de quem se casa. 

Eis que começou o tumulto! O pessoal lá ao fundo a dançar e a cantar, música no ar, fogo preso. Aproximamo-nos e rebentou uma série de explosõesitas colocadas de uma forma que não pareceu do mais seguro. Tanto que houve alguém que não gostou e quando dei por ela rebentou a pancada. Não era da pancada negra, mas muita gente a querer bater em não sei quem, outros a tentar agarrar não sei quem, enfim, confusão total. O pessoal aqui não bebe muito, e quando bebe não controla muito. Foi a impressão que me deu dos bêbedos que encontrei. E de repente aparece o noivo. Vestido como o aladino, com um estilo incrível, um turbante dourado, vestido de branco, num cavalo da mesma cor completamente adornado, tudo impecavelmente arranjado, a abrir caminho entre a multidão que se degladiava. Tive um bocado de pena dele, chegar ao seu casamento e ver ali o pessoal à pancada. Ao mesmo tempo, parecia um bocado normal. Só quem já lá estava é que se envolveu, e o pessoal à volta não perdia muito tempo a olhar ou comentar a cena. Aqueles momentos, com a música no ar, a pancada, gritos, dezenas de mulheres vestidas das mais vivas cores, e um gajo indiano num cavalo branco, foi do mais exótico possível! E ficou por aí, porque um senhor veio ter connosco e pediu-nos para irmos embora. A noiva devia estar a chegar e ia dar-se a cerimónia. Curtia tê-la presenciado, mas não deu. Mas foi fixe, valeu a experiência. 

No dia seguinte íamos bazar para Ajmer. Acordámos, arranjamos as cenas, despedimo-nos do nosso anfitrião e fomos para a estação de comboio. Lá, comprei o bilhete, tendo esperado quase uma hora na fila e presenciado mais uma cena de quase-pancada, metemos as mochilas nos caçifos e fomos dar uma vista de olhos final pela cidade. A parte velha de Jaipur é interessante. É rodeada de uma muralha cor-de-laranja e todas as casas por dentro são da mesma cor. Fomos ver o Palácio dos Ventos, que é muito fixe. Estava com a sensação de que não tinha aproveitado bem Jaipur, mas sem problema. 

A viagem de comboio foi fixe, dormimos um pedaçito e não havia aquele calor mortal, apenas um calor um degrau abaixo do infernal. Chegámos a Ajmer já de noite, e fomos para o hotel. Um quarto com uma cama porreira para os três por dois euros e meio cada um. E tinha restaurante, o que era bom. Bom, caso as miudas comessem. É que elas estão com sérias dificuldades em se habituar à comida daqui. Nesse dia pediram sem especiarias. O gajo disse que sim e trouxe a comida como se elas não tivessem dito nada, e acabou o Pedro por rapar os restos. 

Ajmer era mais pequeno que Jaipur, mas também com aquela correria de cidade. Quando acordámos no dia seguinte, fomos ver o templo vermelho, dentro do qual estava construída uma espécia de cidade maravilha brinquedo, com mais de mil quilos de ouro. Fixolas. Depois do almoço eu queria ir ver ainda o resto da cidade mas as miudas optaram por ficar no hotel à minha espera. A caminho estava um bocado abatido por achar que não estavam a gostar muito. Como “vieram ter comigo”, sinto alguma responsabilidade, e quero que gostem o máximo, claro. Além disto, naturalmente que a sua alegria deixa-me alegre. Fui ver algo que era como um complexo muçulmano. Não posso dizer que era uma mesquita... Deixei a máquina fotográfica e os chinelos num cacifo, pedi emprestado um pareo para me cobrir as pernas e entrei. Que cena demais. Digo que era um complexo muçulmano porque aquilo tinha mesquitas, pequenos parques, cemitérios, mas tudo muito próximo, não demorando, em passada normal, mais do que dez minutos a ver tudo. Mas deixei-me mergulhar naquilo, vendo o pessoal ao meu redor, tentando prestar atenção às pequenas coisas. Entrei lá numa partezita onde estava um grupo de homens dos 40 aos 70 anos na descontra num canto a fumar haxixe, ao lado do que me parecia ser uma série de campas cheias de flores. Fizeram gesto para eu sair, e assim fiz. Contudo, ao sair, um outro homem que a eles se ia juntar, meteu conversa comigo e depois convidou-me para me juntar a eles. Curti. Um relax total. Claro que me ofereceram um chá, e estive ali com eles, a ouvir as suas ocasionais conversas em urdo ou hindi, cerca de três quartos de hora, até que me fui embora. 

Quando voltei falámos um bocado dos planos. A Sofia está mais interessada em sítios como Delhi, Bombaim ou Goa, e a Graciete está a ter alguns problemas com o calor, pelo que pensámos que podíamos procurar a praia. Eu curtia ver cidades como Delhi ou Bombaím, claro, mas não é cem por cento a minha cena. Gosto dos sítios pequenos, mais autênticos, ou mesmo outras cidades mais desconhecidas a nível internacional, e vamos ter de nos encontrar num saudável equilíbrio, o que não é problema. Que se entenda que elas estavam a gostar, só que com algumas dificuldades. 

Apanhámos uma rickshaw para Pushkar, a quinze quilómetros de Ajmer, e foi uma boa decisão, porque tanto elas como eu curtimos muito o sítio. Veio mesmo na altura certa, tendo em conta a conversa que tínhamos tido. Para chegar aqui passámos pelo que eu costumo chamar “a verdadeira Índia” (ou o verdadeiro Portugal, ou Finlândia, dependendo de que país for), pelos camponeses, altos e baixos, estradas de terra pequenos montes. Chegados a Pushkar percebemos logo o feeling desta vila de catorze mil pessoas. Dantes era um sítio muito popular entre os hippies, e há aqui uma atmosfera de calma, de religião e nota-se a autenticidade do lugar. Não há tanta gente a chatear o turista, as ruas não estão cheias de rickshaws a buzinar e a VIDA, no geral, passa mais devagar. 

Íamos a caminho dum hostel que tinha visto no guia, mas apareceu um que até parecia fixe e viemos ver. Ok, ficamos aqui! Muito fixe, com um terraço perfeito para relaxar e um preço porreiro – um quarto com uma cama enorme e confortável para três pessoas por dois euros cada. 

Fomos dar umas voltitas nas calmas, voltámos, banheco e jantámos num restaurante de comida italiana (que os estômagos das miudas agradeceram) num terraço com uma vista fenomenal. Fiquei contente pelo sítio ser fixe e por elas gostarem. 

Hoje andámos por aí, fomos ao lago, ver a vila, passámos duas horitas à mesa após darmos umas trincas, relax total. A pobre Graciete é que de vez em quando tem umas cólicas que a mandam a Jupiter!

Agora estamos no relax no hostel. Daqui a pouco vamos ali jantar. ‘Tá-se bem. 

19h33-s-14-5-11
Pushkar, Índia

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Agra

- Posso fazer-te uma pergunta? – perguntou o rapaz de bigode, enquanto por si passávamos, à procura de um restaurante, em Jaipur. 
- Sim, diz – respondi, parando e olhando-o de frente, curioso. A Graciete e a Sofia vinham um pouco atrás. 
- Porque é que as pessoas generalizam? 
- Como assim? – perguntei. 
- As pessoas pensam sempre que os indianos lhes querem vender alguma coisa sempre que falamos com eles. Porquê? 
- Não sei. Bem, a verdade é que tu estás com uns bonecos na mã para vender... e o teu amigo está a tentar vender as marionetas à minha amiga. 
- Sim, mas eu não te quero vender nada agora. E as pessoas pensam sempre que quando queremos falar com elas é porque andámos atrás do dinheiro delas. 
- Iá, eu entendo, é chunga, lamento. 
- Pois... – disse o Dinesh, de dezanove anos, com aquel olhar vivo e inteligente. Falou de seguida em como estava a estudar história, e convidou-nos para um chá. Um par de horas antes o nosso anfitrião, Sunny, tinha-nos dito que às vezes o pessoal faz-se amigo e tal, convida a malta para uma bebida e droga-os, roubando depois o que pode. Ainda assim, disse que sim. Tinha um bom feeling com o rapaz. Caminhámos, eu, as miudas (a Graciete e a Sofia), o Dinesh e os seus amigos, virámos à esquerda numa ruela e sentamo-nos lá num banquito. Um senhor, imagino, amigo deles tinha um tascozito sem paredes onde fazia o chá. Era uma mesa com um fogãozito, basicamente. 
- Sabes... as pessoas vêm visitar a Índia, mas vêm em viagens artificiais. Autocarro com ar condicionado, depois para o hotel de ar condicionado, não falam com ninguém, seguem para ver as coisas, de volta para o hotel... é triste. Não conhecem as pessoas, não falam com os locais, não aprendem nem ensinam – dizia, enquanto saboreava o seu chá. Não me dizia nada que eu não já pensasse, mas ainda assim senti-me previlegiado em conhecer aquele rapaz que me dava a ideia de ser alguém inteligente e com um bom futuro à sua frente. Tinha um receio latente que a qualquer momento o rapaz me perguntasse se eu não queria comprar isto ou aquilo – toda aquela conversa das pessoas pensarem sempre que eles querem vender algo ia por água abaixo se, efectivamente, ele só tivesse falado connosco porque queria vender algo. Falámos um bocado sobre viagens, e ele, vendo os olhos dos amigos nas miudas, disse que os indianos gostavam de flirts, e que ele às vezes tinha vergonha disso. 
- Namoras? – perguntei. 
- Não... já namorei, agora não. Eu com estranhos e tal falo na boa, mas com raparigas tenho vergonha – respondeu. – Que é que achas do dinheiro? – perguntou, assim meio do nada. 
- Acho que não é importante, mas necessário para algumas situações... 
- Sim, sabes... as pessoas pensam em dinheiro e pensam que dá tudo, mas... não se pode comprar sono, não se pode comprar paz, não se pode comprar amor – foi dizendo, enumerando com os dedos. Antes de irmos embora convidou-nos para irmos com eles a uma escola no dia seguinte, onde ele ensinava música aos putos, de graça. 
- E eles ficam sempre contentes de ver pessoas brancas – disse, finalizando. Não por isto exactamente, claro, ficámos com vontade de ir com eles. Amanhã de manhã vamos ver o forte, e depois se der tento contactar o puto. 
Não caminhei mais do que um minuto e apareceu outro senhor, que me veio apertar a mão e perguntar se me podia fazer uma pergunta. “Engraçado”, pensei. 
- Eu ontem ‘tava a ver um programa na BBC... é uma televisão inglesa... e eles estavam lá a dizer que na Europa há problemas com skinheads... eu se fosse para lá tinha alguns problemas? – perguntou. 
- Acho que não. Eu vivi dois anos em Birmingham, uma cidade com muitos indianos e paquistaneses, e que eu saiba era sempre tudo tranquilo. E o meu país, Portugal, é o segundo da União Europeia que melhor acolhe imigrantes, por isso pelo menos aí também é tranquilo... 
- Pois, pois... eu sei que há boa gente e má gente em todo o lado, como na Índia também. Olha posso-vos convidar para um chá para falarmos um bocadinho? 
- Olhe desculpe mas nós íamos agora jantar... 
- Ah... – disse, com pena – E amanhã? 
- Ok, se eu passar aqui e o vir, eu chamo-o, a sério – respondi, sem mentir. Desde este senhor até ao McDonald’s, onde as miudas jantaram, ainda apareceu outro senhor a pedir para lhes tirar umas fotos com a sua joalheria, a troco de uma pequena recompensa. Lá jantaram e mandamo-nos para o autocarro. Como a Graciete me relembrou, eu sou “contra” comer no McDonald’s quando em viagem. Se podemos experimentar as cenas locais, para quê comer algo nada saudável e que podemos comer em qualquer cidade portuguesa? Mas por ser contra, não como. Mas não posso proibir os outros de o fazer, claro. E para ser sincero, mesmo comer em Portugal me faz um bocado de confusão, ainda que o faça pelo simples facto de curtir bastante. Eu e o capitalismo não somos muito amigos, e cada vez gosto menos de franchisings, e de ricos a ficarem mais ricos e os pobres na mesma. Um mundo ideal, para mim, seria um mundo onde o pessoal tivesse os seus produtos locais como primeira opção, fazendo a riqueza circular de uma forma muito mais justa e livre. O problema é que o pessoal prefere sempre poupar dois ou três euros e ir ao Modelo comprar frango em vez de ir à Adega Soares, ou ir ao Ikea em vez de ir à XXX (nome qualquer de empresa de móveis local – não sei). Contra mim falo, porque já fui ao Ikea, e confesso que prefiro os seus móveis simplistas às cenas velhas e demasiado elaboradas que vejo em muito lado. Bem daqui a um bocado estou a falar das tendências mobiliárias da época 2011/2012... 
Apanhámos o autocarro que, apesar de estar à pinha, tinha uma única mulher, que eu tenha visto. Quando nos apeámos andámos um bocado às voltas à procura da casa do nosso anfitrião. A dada altura vimos umas luzes num canto, muita gente sentada a comer, no que me parecia ser um casamento. “Vamos ficar aqui um bocadinho até nos convidarem”, eu disse. Não precisámos de esperar mais que dois minutos até aparecer um senhor de turbante laranja a fazer o gesto de comer, com um tom interrogativo. Sim, siga, claro. Sentámo-nos com o pessoal, apressaram-se a dar-nos comida, a noiva veio-nos conhecer, tirámos fotos, fomos filmados, foi uma alegria. Lá apareceu um rapaz que falava inglês e disse que o verdadeiro casamento era amanhã, e para nós aparecermos às nove. “Ok méne, siga!”. Foi fixe! Andava à espera de ir a um casamento desde que tinha saído de Portugal, e finalmente aconteceu – ainda que o verdadeiro casamento seja amanhã. 
Agora estou na cama. A Grace ao meu lado e a Sofia no outro quartito a cortar as unhas. 
As miudas chegaram no sábado. A Graciete chegava ao aeroporto às cinco da manhã e a Sofia às onze e tal. era para dormir um bocadito, mas estive à conversa com o Manu e a fazer outras cenas na net, e quando reparei já era a hora que tinha combinado com o Harry. Nessa mesma noite, depois de jantar consigo e o seu pai, fomos dar uma caminhada, comer um gelado, e ele ficou de me acordar às quatro e um quarto. Não foi preciso. Tomei banheco, disse um “até daqui a quinze dias”, e segui. Curti ver a cidade a acordar. Primeiro passava alguém a cada dez minutos, depois a cada cinco, a cada um,... paralelamente ao sol, ia crescendo o número de pessoas que acordavam para mais um dia na capital indiana. 
O meu autocarro chegou um bocado tarde, e isso fez que quando chegasse ao aeroporto a Graciete já lá estivesse. Paciência. Foi interessante vê-la chegar, correndo toda esta distância, que me levou três meses (ainda que, claro, sem pressa), em seis horas e meia, da Finlândia. Beijinhos e abraços, e fomos procurar um sítio para dormir umas horitas. Eis que a Sofia chegou às onze e tal, sabendo nós isto através de uma mensagem da mesma. Tinhamos posto o despertador para ir receber a miuda mas ela chegou mais cedo! Nada feito, não recebi nem uma nem outra! 
Apanhámos o metro para a cidade e uma riksha para o comboio. Estávamos todos partidos. Esperámos umas horitas e pusemo-nos a caminho. As meninas cheias de frescuras não se quiserem deitar naquela partezita acima e não dormiram nada. Já eu, quando chegámos, eu pensava que ainda faltamam p’rai três horas – dormi bem.
O Maverick, rapaz que tinha contactado no couchsurfing, tinha-me respondido com um entusiasmo fora do normal. Dizia que tinha adorado ler a minha mensagem, e que estávamos mesmo em sincornia e não sei quê. Achei engraçado, mas um bocado naquela. Porém, confesso que adorei aquele gajo. Mesmo fixe. Nos meus pensamentos embriegados (já não bebia nada há mais de um mês) cheguei a dizer à Grace e à Sofia que este gajo era tipo minha alma gémea. Gayzices aparte, claro, mas às vezes ouvo-lo a falar era como ouvir-me a mim. E curtia bué o que ele tinha para dizer. Quer dizer que gosto de me ouvir, ahaha! Escusado seria dizer que elas gozaram com esta minha observação de almas-gémeas... 
O méne foi-nos buscar à estação e levou-nos para o hotel. Não nos podia albergar mas queria pagar o hotel. Sentia-se mal e dizia ser a sua responsabilidade e tal. Eu agradeci mas, claro, disse que era na boa. Tinha-o contactado também a Camille, uma couchsurfer francesa, com pequenas dificuldades no inglês, mas muito fofinha e simpático. Comentei agora com a Graciete uma verdade que me ocorreu. Nesta viagem já tive aquele sentimento de micro-família várias vezes. E é demais, muito fixe. Tipo em Agra, a cidade para onde fomos quando as miuas chegaram, estávamos os três tugas, o Maverick e a Camille, e ao segundo dia já parecíamos uma pequena família. Fixe. 

Jantámos e bebemos nove cervejas de 600cl. Foi porreiro. Num terraço com vista para o Taj Mahal falámos um pouco de cada um, partilhámos as nossas visões sobre o mundo e sonhos. O Maverick tem 28 anos e é comando. Está numa posição que lhe permite auferir um salário porreiro e dá ordens. Juntou-se ao exército porque queria um mundo mais pacífico, mas apercebeu-se que a paz não é algo que se possa impor, pelo que planeia despedir-se muito brevemente, e mandar-se em viagem. É um gajo com a sua pinta, magro, afável e muito dado. 
No dia seguinte dormimos o que tínhamos a dormir, e à tarde fomos dar uma volta, eu as miudas tugas e a Camille. Fomos ver o Baby Taj e as traseiras do Taj Mahal, onde não se pagam os fatídicos 12 euros. O Taj Mahal, na verdade, não tem traseiras, pois a sua simetria faz com que os seus quatro lados sejam iguais. Ficámos lá um par de horas, com uma vista porreira. À nossa frente um riozito, e o Taj, imponente, do outro lado. Acabámos por ver o Taj verdadeiramente no dia seguinte. Eu tinha hesitado com o preço, sendo que ver ver já o tinha visto de graça, mas ok, vale a pena. Numa viagem com um orçamento baixo como o meu, vale a pena ver o Taj uma vez, mas só uma vez. 
Nessa noite jantámos com o Maverick novamente. 
Na segunda acordámos às cinco da manhã! Sim! A ideia era ir ver o nascer do sol no Taj, mas acabámos por chegar um bocado tarde. Paciência. Ainda arranjámos um guiazito, que não nos disse grande coisa mas que sabia de onde tirar fotos fixes. Assim, aqueles 0,80€ que cada um de nós deu foi, para mim, como pagar a um conselheiro fotográfico, e não a um guia. 
Voltámos ao hotel, dormimos uma sesta e mandámo-nos para Fatepur Sikri. Aprendemos que não se pode confiar muito nos autocarros indianos. Chegámos lá, perguntei a que horas era o autocarro, e o gajo disse que daí a meia hora. Perguntei passados vinte minutos, e ele disse daí a meia hora. Perguntei passados vinte minutos e ele disse daí a vinte minutos. Eventualmente começou a ficar tarde para ir e depois voltar (era a 45km de distância) e como estavam p’rai quarenta graus, decidimos voltar, nas calmas. 
Quando voltámos estive na net um pedaço e a Grace foi ao quarto. Estava com febre, descobri ao voltar. Estava benzito, mas com algum frio, 39 graus e o estômago às voltas de vez em quando. Se algum familar seu estiver a ler isto, que não se preocupe, ela agora está porreira. 
Fomos jantar de novo com o Maverick, que estavas todo rebentado. Foi pena porque estávamos todos partidos quase em cada dia, por isso não pudemos beneficiar dos nossos máximos potenciais, digamos, em dia nenhum. Curtia vê-lo outra vez, e pode ser que ele venha ter connosco às montanhas que o próprio nos aconselhou. Antes de nos despedirmos deu-nos uma prenda a cada um, que só podíamos abrir no comboio. Eram trinta rupees com um texto a falar nas formas como podíamos usar aquele dinheiro. Era só dinheiro, mas a mensagem latente era uma de dar, simplesmente. Gostei do gesto. 
Esta manhã, que parece que já foi há uma semana, acordámos às quatro, para apanhar o comboio. Ah pois é, bebé! Tem sido um baptismo de fogo para a Graciete e a Sofia. Estão a gostar, claro, mas custa-lhes o calor.
Não me apetece escrever muito mais!
0h27-3ª-10-5-11
Jaipur, Índia

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Goodbye Pakistan!


São onze e vinte e um da noite, saí há pouco de Armitsar, Índia, e escrevo da forma mais desconfortável possível. Bem, havia outras formas, mas digamos então que a forma mais confortável é deveras desconfortável. Aqui o “Poupas” vai num autocarrinho sentado, porque ir deitado custava mais euro e meio. Não me arrependo, é assim. Mas até parecem fixes os para dormir. É que da última vez que comprei um “sleeper”, de Goa para Hampi, em 2009, a minha cama era basicamente um assento que dava para encostar todo para trás, ficando na horizontal. Parece fixe até, não parece? O problema é que o encosto não fixava deitado, e com os enormes buracos da estrada, um gajo andava sempre aos pulos. Ainda hoje sorrio ao lembrar-me de ver a rapariga ao meu lago, literalmente, no ar, quase a mandar com a cabeça no tecto. A viagem de volta foi ainda pior, porque estava com a pior diarreia da minha VIDA, cada movimento, por mais simples que fosse, desencadeava uma cólica que parecia o fim do mundo!
               
No meu último dia em Hunza fui ter com o pessoal à escola. Meteram-me a ver uma apresentação sobre bolsas para estudar no estrangeiro. P’rai duas horas. O entusiasmo e vontade de me mostrarem cenas às vezes fazia destas coisas. Quando me perguntaram o que tinha achado, sorri e disse que não tinha achado nada, porque não falava burucheski (a língua local). Por sorte lá apanhei um livro em inglês perdido sobre lei islâmica e ainda passei meia horita a ler. Foi interessante reparar como falavam no Oeste. Só li umas vinte páginas, mas aparecia de vez em quando cenas como “contrariamente ao que se faz no Oeste”, sendo a cena um tanto ao      quanto pejurativa para o nosso lado. Só me lembro de uma em particular, que dizia que “nós” não éramos tão tolerantes com outras religiões como o Islão. Não posso dizer se somos mais, ou menos. Quase que nem posso falar em termos absolutos, pois vêm-me à memória discussões com amigos meus e a noção da opinião geral que me rodeia. Sim, agora que penso nisso, parece-me que nós somos menos tolerantes do que eles! Ahah que riso! Antes de mais vale a pena referir que a minha opinião é baseada “apenas” na Turquia, Síria, Líbano, Iraque Curdo, Irão e Paquistão, e “apenas” num período de pouco mais de dois meses.
               
Parece-me que há um ponto para cada lado. Por um lado, pelo que me pareceu, há no ocidente mais preconceitos negativos em relação ao Islão, do que nos países islâmicos em relação às nossas crenças. Por outro lado, também é verdade que me parece que esta aceitação deles acaba na soleira da porta, sendo que um casamento com um católico que não se converta é visto tão bem como fazer topless em Teerão.
               
De todo modo, esse livro deixou-me, mais uma vez, embasbacado com a relatividade da verdade. Algo que também li naquela escola e de que não gostei nada, foi de um texto chamado “O Dilema do Solteiro” de um tal Herbert Gold. Agora não tenho net por isso não posso procurá-lo. O texto falava dos solteiros como se fosse uma doença a curar o mais rápido possível e dividia os solteiros em dois tipos, o bonzinho e o vilão, basicamente. Que estupidez! Que as pessoas tinham, por um lado, pena deles porque não sabiam o que era a VIDA de casado, mas inveja, porque não tinhas as responsabilidades do matrimónio. As descrições do bonzinho e do vilão eram ridículas, e mais ridículas que as mesmas é a sua existência, a necessidade de estar a criar categorias, como sacos, para onde se manda a malta toda lá p’ra dentro. E o pessoal na escola a estudar aquilo. Era para inglês mas não era para inglês ver, porque quando falei disso ao Riaz, ele concordava com o que lá era dito. Cenas.
               
Posto isto, precisava de ir à net. O Riaz ia não sei onde e lá foi, e ficámos de nos encontrar no campo de futebol às seis e meia. Às cinco e meia ia jogar uma futebolada com o pessoal. Apanhei boleia de uma motazita para Karimabad, caminhei até ao internet café, e usufrui de uns inúteis dez minutos de internet, até que a cena foi abaixo. No dia anterior tinha-me esquecido do artigo para a revista do britânia, e nesse dia a net falhava. Sem nada para fazer, pus-me a caminho de volta para Aliabad. Apanhei uma forguneta e daí a nada estava com a malta, a jogar à bola, 25 ou 26 pessoas, ninguém de calções e eu de calças de ganga. Mas foi fixe, apesar do terreno parecer uma pedreira. Não percebi muito bem a necessidade daquilo, porque bastava os mesmos 25 ou 26 perderem duas ou três horas um dia e aquilo ficava limpo. Mas quando tive esta brilhante ideia já ia tarde.
               
O Riaz apareceu à hora combinada e queria ir para casa. Eu disse ao gajo para ir, mas eu precisava de ir à net. Dava para ver que o méne estava cansado, mas ele insistia em ficar comigo. “Depois o meu tio chateia-se e nunca mais me deixa tocar em nenhum convidado, porque eu te deixei sozinhio!”. Eu tentava dizer ao gajo que era na boa, mas ele estava insistente. Senti-me um bocado como um puto. “Méne eu tenho andado sozinho muito tempo, sabes, não sou exactamente uma criança, de certeza que consigo chegar a casa”, eu dizia, de ânimo leve. Ainda assim, caminhou comigo, e passado meia hora acabou por ir para casa. Tinha-me dito que não ia haver transportes para Karimabad, porque era sexta (o dia sagrado) e o pessoal ia estar a rezar, e eu não sei se ele estava a dizer aquilo só para eu ir para casa. Não interessa. Hum. Engraçado. Agora que penso nisso, se ele estivesse a mentir acerca disso só porque estava cansado e queria ir para casa, e que eu fosse por ele, não me importa minimamente. Não muda nada. E não me importa que não me importe, porque toda a gente tem falhas aqui e ali, e se não nos permitirmos relaxar as barreiras, estamos sempre de trombas com alguém, a dado momento. Acho que não são comportamentos individuais (a menos que vis) que definem uma pessoa mas a tendência dos mesmos.
               
Quando deixei o internet café estava escuro, muito escuro. Não havia luz, por isso fui caminhando deixando-me guiar por instinto e pela pouca luz que a lua me dava. Daquelas situações fixes. No meio do campo, no meio do Paquistão, sem luz nem anglófonos, siga! Ia dizendo o nome da terra para onde queria ir, e o pessoal lá me encaminhava. Apanhei boleia de uma motorizada, andei um pedaço, e cheguei à vila. Depois foi dizer o nome do Gulham, e o pessoal ia-me mandando seguir. E, como esperado, dei com o sítio sem problema. Não me pareceu que o Gulham estivesse zangado com o Riaz. Eu fiz questão de dizer que o gajo não me queria deixar sozinho.
               
Jantámos e depois apareceu o Riaz e o outro primo a convidarem-me para ir jantar lá a casa. Hum, ok. Voltei a jantar então. Arroz com vegetais. Uma cena engraçada que o Riaz dizia muito, e que em Portugal seria encarado como extremamente gay, era tipo “tu... quando deixares Hunza vais-te esquecer de mim, não vais?”. Ele dizia isto meio a brincar, meio a sério,  mas algumas vezes mesmo a sério. Eu dizia que sim, no gozo. O primo dele deu-me uma pulseira de ferro. Eles curtiram-me e eu curti-os. Confesso que fiquei um bocado naquela quando o primo mais novo disse que se queria juntar ao exército, mas o gajo tem 20 anos... eu com 20 anos também dizia parvoíces enormes. Agora de certeza que também digo, mas não sei bem quais são. Se calhar envelhecer é isso, uma constante constatação das parvoíces que custumávamos dizer. Uma reciclagem da parvoíce, vamos refinando a cena.

Já sabia que isto ia ser assim. Tenho andado todo partido, cheio de sono, penso sempre que vou dormir na viagem, mas nunca acontece. Nunca me apetece dormir. Parece que estou a perder o exotismo do que estou a viver se me permitir sonhar. Curto isto. Olhar à volta, ver o pessoal a namorar com o João Pestana, e eu a ouvir Jimi, escrever, e de vez em quando pousar o olhar também nas ruas que desaparecem, nas palmeiras fugitivas e sentir o calor do ar que me rodeia.

               
Mas iá. A malta em Portugal é bué de macha (lol) e nada destas cenas gays!
               
Depois de comer estivémos no quarto do Riaz a ver uns clipezitos, e depois xonar. Tínhamos combinado vermo-nos no autocarro às onze, mas acabei por ver apenas o Riaz, e por sorte. Acordei, não tomei banho, tomei o pequeno-almoço, despedi-me da família e pus-me a caminho. Num quelhozito conheci um rapaz que trabalhava para uma ONG que construía tectos isoladores, uma cena assim, não percebi bem. O que me ficou foi que o serviço que eles prestavam custava cem euros, e que geralmente o pessoal pagava em prestações, sem juros, ao longo de dois anos. Dois anos méne! Cem euros! Aquilo que alguns de nós gastam num sapato, eles demoram dois anos a pagar...
               
Encontrei o Riaz depois de me ter separado deste rapaz. Apanhámos boleia de um carro que parou sem pedirmos, e seguimos. Ele perguntou se eu não queria ir à escola dele, mas eu queria ir directo para a paragem do autocarro, para garantir que chegava a tempo. Ele disse que ia tentar ir lá despedir-se mas acabou por não conseguir. E lá me fui em mais uma viagem de 24h. Com 15 rupees, 10 cêntimos disponíveis para comida, e 30 rupees para a carrinha da eestação em Islamabad até perto da casa do Asim. Gastei esses quinze rupees num pacotito de bolachas. E voltei a namorar com a água local. Já tínhamos dado uns beijos, mas aconteceu de novo. Já passei mal nesta viagem por causa da água, mas não foi assim tão mau. E se calhar um gajo habitua-se. A ver vamos. Além disso, quando não há guito, um gajo marimba-se para infecções quando vê um jarro de água.

Ahaha! Passado menos de dez minutos de ter escritor aquelas frases todas profundas em itálico, dsliguei o computador, estiquei-me ao comprido no chão do autocarro e bota sono! Mas continua a ser verdade que me costuma ser difícil adormecer...

A dada altura vi que saía duma divisãozita um rapaz com uma carrada de pães. Fui lá perguntar quanto era um pão. “És muçulmano?”, perguntou-me. Pensei em mentir, dizer que sim, para o gajo me dar o pão. Mas disse que era católico, outra mentira, mas mais protegida pela verdade. E o gajo deu-me o pão na mesma. Porreiro. Passei a noite a tentar dormir mas sem sucesso. Ia vendo a estrada passar, os pensamentos a inundarem-me, como tem acontecido.

De manhã parámos para o pequeno-almoço. Ora eu com toda a certeza passei a um par de quilómetros do sítio onde o Bin Laden foi supostamente assassinado. Isto p’rai doze horas antes de tal ter acontecido. E eu acho que inclusivamente parámos para tomar o pequeno-almoço nessa vila. Que cena! Aí não tive meias medidas e quando vi um gajo a fazer pão pedi a um senhor que já tinha falado comigo para lhe perguntar se ele não me dava um. O senhor acabou por me pagar um pão e um chá. Assim fiquei pequeno-almoçado.
               
Passei o resto do dia no quarto do Asim, a fazer cenas na net. Tomei um banho, finalmente, passados cinco dias. Apercebi-me como, após o primeiro ou o segundo dia, é muito mais fácil negligenciar a nossa higiene. Costumo tomar banho todos os dias, e custa-me muito mais não tomar no segundo dia, do que no quarto. Mais uma boa janela para os mundos do pessoal que vive na rua e em quem a água não pousa quase nunca.
               
Estava lá o coreano que o Asim tinha albergado quando eu lá tinha estado anteriormente. Méne que gajo aborrecido. A sério o gajo não fala. Claro que alguém tem de falar primeiro, mas eu tentei, a sério. Até que desisti. Ainda fui ver o perfil do couchsurfing do gajo, para ver o que as outras pessoas diziam (nas referências). A ler aquilo parecia que estavam a falar de outra pessoa. Different people, different conections.
               
Passei o resto do dia seguinte no quarto do Asim também, preparar cenas e a não fazer nada. A dada altura o Asim mandou-me mensagem pelo facebook a convidar-me para um barbeque em casa de um primo seu. Quando chegou iniciou uma conversa, outra vez pelo facebook, a dizer que não tinha dito ao coreano porque o primo dele tinha-lhe dito para ele não trazer muita gente. Parecíamos putos. Enfim. O churrasco foi fixe. o gajo vivia numa casa enorme, p’rai com quatro empregados. Acho que dentro dos luxos, ter empregados é dos que me faz menos confusão. A menos que me esteja a escapar algo. Não me faz confusão porque há alguém que está a ser empregue. Conquanto não esteja a ser explorado.
               
Comemos lá umas sanduíches e curti muito o serão. Era tudo malta de clássia média-alta para cima, e achei interessante como só falavam inglês entre si. Ao início pensei que era por mim. Não era.
               
No dia seguinte mandei-me para Lahore. Deixei-me dormir à vontade e apanhei um autocarro ao início da tarde. Terceiro autocarro para o mesmo percurso, terceiro preço diferente. Quando cheguei a Lahore já era de noite. Apanhei uma rickshaw para a fronteira, mas a meio o gajo chamou um méne que falava inglês e explicaram-me que a fronteira ia estar fechada. Ok, voltei para o Regale Internet Inn, onde já tinha passado umas noite.

E eis que quarta, dia 5, estava na Índia. Tinha começado a minha nova etapa. Dividi a viagem em algumas etapas. Europa – etapa 1. Turquia, Síria, Líbano e Iraque Curdo – etapa 2. Irão e Paquistão – 3. Índia, Nepal e China – 4. Sudeste asiático – 5.

Meti-me numa rickshaw p’rai de meia hora e fiquei na fronteira. Comi alguma coisa, bebi alguma coisa, comprei um livro, ofereci outro, troquei dinheiro, e pus-me a caminho da Índia. Adeus Paquistão. Na bagagem um sem número de constatações. Pessoas quase todos os dias a oferecerem-me comida ou chá, pessoas simpáticas e calmas frustradas com as concepções ocidentais do que eles são. Um bom mês que me fez aprofundar as noções de como vivemos. De como olhamos para as coisas que temos e como desejamos as coisas que não podemos ter. Pensamos tanto em como a ambição é algo positivo e entregamo-nos de braços abertos a este conceito, conscientes de que, se alguém o disse, tem de estar certo. Afina de contas ele era rico, não era? Aceitamos estes conceitos sem pensar duas vezes. E assim, muitas vezes, ambicionamos rodear-nos do que não precisamos, e sentimo-nos frustrados por não conseguir ter o mundo no bolso. Quem não tem ambições é um falhado. Mas porquê? Esta frase é ridícula. Claro que devemos ter ambições, nem que ambição seja ficar na mesma. Mas quem diz tais coisas, que quem não tem ambições é um falhado, só aceita as ambições que se coadunam com as suas. Quem quer ser um pastor e viver uma VIDA sossegada e sustentável... não tem ambições...
               
Demorei cerca de uma hora a entrar na Índia. Passaporte aqui, passaporte ali, consulta de psicologia. O quê? Ah pois é! Um senhor, já do lado indiano, ao ouvir que eu era um psicólogo, chamou-me para o sofá. Quando dei por mim, o senhor, após me ter perguntado como era possível alguém se livrar de obsessões, estava a falar-me de uma obsessão que tinha quando era criança com uma rapariga de nariz feio. Falamos um bocado acerca de obsessões, e de como eu não o podia ajudar assim de repente, e depois ele perguntou-me qual era o seredo para a felicidade. Bem, com todos estes pensamentos que me têm habitado, aquilo foi como abrir uma porta e deixar entrar o mundo. Primeiro disse que, naturalemente, não sabia. E depois disse que achava importante aquilo de que tenho aqui falado. Como é importante não nos convencermos de que precisamos de mais mas saber apreciar aquilo que temos.
               
Já na Índia, tinha de chegar a Amritsar, para de lá apanhar um autocarro ou comboio para Delhi. O táxi, supostamente o único meio de transporte, era quase dez euros. No way, Jose! Lá fui vendo as opções, e o taxista insistia, baixando o preço para seis euros. “Que se lixe, vou tentar a boleia”, pensei. Na boa. Um carro e três ou quatro motas e estava na cidade. Lá pus-me a caminho da estação de autocarros. Apanhei uma daquelas cenas onde há um gajo a pedalar e nós vamos sentados. A minha reacção imediata foi negativa. Senti-me como um turista rico ali a explorar o pobre coitado. Mas depois vi que toda a gente usava isto, por isso relaxei um bocado.
               
Cheguei ao autocarro mas não tinha dinheiro. Tive de andar para trás quase metade do percurso que tinha percorrido só para encontrar um MB que funcionasse. Eventualmente parei num hotel para perguntar direcções, e os gajos convenceram-me a ir mais logo e ir ver o Templo Dourado, um templo sikh. Deixei lá a mochila e fui ver a cena. Simplesmente sublime! Muito fixe mesmo. E uma calma poucas vezes sentida.
               
Comprei bilhete para o autocarro e nele passei a noite. Perdi as frescuras e deitei-me no chão, que se lixe. Cheguei hoje de manhã a Delhi e estou agora em casa do Harry, o meu anfitrião indiano. Gajo fixe.

1h12-5ª-5-5-11
Delhi, Índia

Estradas do Paquistão...


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Bin Laden


Mataram o Bin Laden hoje, a 50km de onde me encontro. Passei pela vila onde tal aconteceu no sábado, ele morreu no domingo. Celebra-se um pouco por todo o mundo, nos Estados Unidos o pessoal anda pela rua. Mas há algo que para mim não me parece bem... algo que me faz comichão e me deixa um bocado na retranca.
               
Não acho bem que se celebre a morte do Bin Laden. Não acho bem que se celebre qualquer morte. É o que sinto, tanto instintivamente como após reflectir acerca do assunto. Está claro que, a ser verdade que ele cometeu todas as atrocidades que cometeu, eu prefiro-o morto do que vivo. Não por castigo, não por isso, mas simplesmente porque a sua “ausência de VIDA” faz com que ele não possa continuar a cometer atrocidades contra a humanidade. Não vale a pena, neste momento, falar dos seus eventuais seguidores que o farão pela sua vez.
               
Às vezes nós somos obrigados a tomar uma decisão, e posteriormente concretizá-la, que, não sendo uma boa decisão, é a melhor que nos está disponível. Para mim é exactamente o que se passou aqui. Mas isso não deveria ser motivo de celebração. Leva-se a cabo a decisão anteriormente tomada, mas não se celebra, porque há uma tristeza latente de termos sido encurralados e não termos tido muitas opções senão destruir uma VIDA. E seguimos em frente, com a noção de dever cumprido mas a tristeza da constatação de que o mundo ainda é um mundo onde é preciso matar para evitar que se mate.
               
Talvez ingenuidade, mas é o que sinto.