domingo, 5 de junho de 2011

Kathmandu


Eis que me deparei com um grande percalço!... Anteontem disse à Sofia que não me sentia muito confiante com a cena do Tibete. Não era bem uma sensação de que algo ia correr mal, mas acho que, algures, tinha percebido que não é exactamente como apanhar um autocarro até Espinho, e que havia muitas coisas que poderiam dar para o torto. E de momento está a dar.
               
Ontem à tarde fomos falar com o rapaz da agência com quem estava em contacto já há uns dois meses. Ele disse que o preço do comboio tinha subido 25$, ok, não há crise, continua a ser mais barato do que outra que tinha visto, e muito mais barato do que outras ainda de que tinha ouvido falar. Ficava em 625$ (430€) com visita guiada, transporte de Kathmandu até ao Tibete, 7 noites de estadia, pequeno-almoço e visto chinês com permissão para o Tibete.
               
Mas parece que no dia 1 de Junho o governo chinês meteu o travão nas permissões para grupos em budget (de visitas mais baratas) e até nas mais caras. Não estavam a emitir vistos dia 1, e também não o tinham feito dia 2, o dia em que eu lá estava sentado frente ao homem. Bem, foi ontem. Grande cena! Para resumir, ele disse que eles (os do governo, suponho) iam ter várias reuniões, uma das importantes dia 5 e podia ser que a cena mudasse. Contudo, podia ser que acontecesse mais cedo. Ou mais tarde. Ou não acontecer de todo tão cedo.
               
Conclusão, estou como o burro no meio da ponte. Este burro quer esperar por uma decisão, mas essa decisão pode não vir e ele pode estar aqui no Nepal a fazer tempo p’ra nada. Claro que ele vai fazer o tempo render, e continuar a ver e conhecer cenas, mas é uma situação que não prima pelo conforto. Mas pronto, paciência, que se lixe, de momento não há nada a fazer. Vou estabelecer uma data, se passar dessa data e não tiver notícias positivas vou ter de apanhar um avião para a Tailândia. Custa-me imenso esta mazela num projecto que sempre me pareceu altamente. Queria mesmo fazer esta cena por terra, e agora acontece isto. O pior, e melhor, é que nem há nada a aprender com isto. É o pior, porque não posso retirar nada de positivo como uma lição, e é o melhor, porque posso estar descansado que não podia mesmo fazer nada a menos que adivinhasse a mente dos chineses.
               
Por isso mesmo equaciono voltar por terra... é um bocado maluco, eu sei, mas acho que o podia fazer confortavelmente em dois meses. Tenho de deixar a ideia assentar, para ter a certeza que não estou a agir de cabeça quente. Mas não é assim tão complicado. Voava para a Tailândia, andava pelo sudeste asiático com a Sofia. Quando ela bazasse ia para Singapura. Depois partia daí, subia a Malásia, entrava na Tailândia, depois Laos, de onde entrava na China. Isto fazia-se me p’rai duas semanas. Depois atravessava a China. Só em viagem são p’rai 90 horas, por isso conseguia fazer isto p’rai em dez dias. Da China passava o Casaquistão numa semana, descia para o Uzbequistão e entrava no Turquemenistão, 10 dias para estes países. Atravessava o Irão em 2 dias e estava na Turquia. Atravesso a Turquia em quatro dias se tanto. Depois da Grécia a Portugal consigo em duas semanas, p’raí. Estou a fazer as contas assim de repente sem pensar muito nem contar quilómetros nem nada, mas se fosse assim tudo seriam dois meses, mais ou menos. É só uma ideia, e nem a devo seguir, mas pronto, partilho aqui para, caso aconteça, não apanhar ninguém de surpresa. Também pensei em apanhar o transsiberiano, mas é muito caro.

Essa parte desta entrada no blog foi escrita dia 2. Agora é dia 5.

Kathmandu é muito, muito fixe. É uma cidade que não tem nada a ver com outras cidades que já conheci. Chegámos e viemos directos para Thamel, a zona onde há um hotel por cada centímetro quadrado. O taxista chulou-nos à grande. Eu disse-lhe que sabia que ele nos tinha enganado e que ele ia ter mau carma, mas o palerma só se riu. Dois euros para cinco minutos. Paciência. Perguntei a duas turistas que passaram onde havia um hotel fixe e barato, certo de que, sendo turistas, iam dar algo razoável porque não tinham nada a ganhar, e encaminharam-nos para o Hotel Imperial. Mas apareceu um méne a sugerir uns hotéis, vimos dois e acabámos de ficar no segundo. Consegui baixar um bocadito o preço e ficou em 3,5€ pelo quarto. 1,75€ cada um.
               
Nessa noite fomos só jantar e depois voltámos para casa. Por coincidência a nossa agência de turismo era no mesmo edifício do nosso restaurente, o que poupou a procura no dia anterior.
               
Assim, dia 2 lá fomos. O que o gajo nos disse eu já partilhei aqui. Mas já estou fixe com a ideia. Paciência, não é? Não há nada a fazer. Por mais que eu quisesse fazer isto tudo por terra, se não dá, não dá, e andar frustrado não vale de nada. Nesse dia e em parte do dia seguinte estava com esta filosofia mas vinha com um esforço consciente. Não acho que seja menos válido quando nos convencemos a nos sentirmos de certa forma, quando essa forma visa uma libertação de preocupações. Mas às vezes é mais patológico. Eu lembro-me, quando era puto e acontecia alguma cena mais fortezita com uma miuda qualquer, eu quase que me forçava a sentir-me triste, quase sem saber que apenas o fazia porque achava quer era isto que era suposto sentir. E cheguei a deitar umas lágrimazitas quando andava no quinto ano e a Carolina acabou comigo na aula de educação visual, e chorei mesmo quando a Susana me disse que estava indecisa entre mim e o Pedro. Que riso! Da primeira vez tinha 10 anos e da segunda tinha p’rai 13. E pronto, isto para dizer que sinto que às vezes o pessoal se força a estar triste porque acha que é aquilo que é suposto. Até quando morre alguém, o pessoal pensa que é o fim do mundo se passado uns dias estiver contente, e que isso significa que se calhar não gostavam mesmo da pessoa. Nada a ver, meus caros...
               
Heia isto foi um grande desvio...
               
Nessa tarde andámos por Kathmandu. Claro que nem tudo são rosas, e há zonas e zonas. Contudo, esta zona aqui, e a caminhada que nós fizemos (p’rai de duas horas, passando por vários sítios porreiros) foi demais. Adorei. Ruelas estreitas, templos daqueles mesmo fixes estilo chinês cheios de estátuas elaboradas e estranhas, tudo em todo o lado, a malta a vender verduras na rua e o pessoal a passar por nós a cada dois minutos a perguntar se queríamos haxixe. Todo um cenário interessante e bacana. Bué de turistas na rua também. No dia seguinte fomos ao templo do macaco. Acabámos por não entrar porque tínhamos de pagar um euro. Se és novo por estas andanças bloguísticas, um euro às vezes é muito dinheiro quando se considera o meu orçamento.
               
A propósito... postaram na minha página do facebook um link para um book trailer de um grupo de três homens, ou jovens adultos, que foram de jipe de Portugal à África do Sul em cinco meses, e que sobreviveram com 60 euros por dia. Se forem 60 euros para os três, ainda é como diz o outro, mas se for 60 euros por cada um, isso é tudo menos sobreviver. Eu com esse dinheiro era rei, e nem sabia bem como havia de o gastar. Mas no Nepal tenho gasto mais do que a minha média e acima dos dez euros por dia a que me predispus. Gastei cerca de 110 euros em 7 dias.
               
Quando voltámos do templo do macaco fomos arranjar as nossas cenas, comprámos umas bebiditas e jantámos no restaurante do nosso hotel. Posto isto fomos ter com um gajo do couchsurfer que estava num bar com algum pessoal e a quem eu tinha acabado de ligar. Já ia entrado. Mas chegado ao bar, zero de gajo. Ia perguntando a algumas pessoas se eram do couchsurfer, até que uma delas me perguntou, em português brasileiro, se eu não era o português. “Sim, sou”. Acontece que eu tinha enviado mensagem a alguns dos “nearby traveleres”. No couchsurfing dá para ver quem anda em viagem perto de nós e eu tinha mandado mensagem a uma data desta malta a perguntar se se queriam encontrar. Ninguém respondeu, nem mesmo estes brasucas, mas foi fixe, encontrámo-nos assim, por acaso e ficámos com eles a noite toda. Ia chegando pessoal, alguns que não conheciam ninguém e so se queriam juntar ao grupo, outros que eram amigos deste e daquele. Bazámos quando o bar fechou e caminhámos p’rai meia hora até ao casino, o único sítio aberto. Lá bebi dois whiskeys e perdi 15 euros no casino. Paciência, também é só de vez em quando que me meto nisto...
               
Ficámos um par de horas à conversa e depois voltámos para casa, não sem antes combinarmos um jantar para o dia seguinte.
               
Ontem, sábado, acordei tarducho, a sentir os efeitos da noite anterior. Fomos dar uma voltita, e íamos almoçar quando encontrámos o David, inglês do dia anterior. O gajo veio connosco e depois estivemos à conversa p’rai duas horas até que era altura de nos encontrarmos com o resto do pessoal. Apareceram o Tobi e o Christian, alemães, o Fabiano, brasileiro, a Nicole, canadiana e a Sophie, estona. Éramos oito, portanto. Comprámos as bebidas no supermercado e trouxemo-las para o restaurante do meu hotel, onde jantámos e bebemos. Depois disto fomos para o 1905, um bar só com turistas mas que estava muito fixe. E a noite, em si, foi demais. Eu curto isto, beber uns copos, conhecer gente nova, falar disto, daquilo, e rir. Foi aparecendo mais gente, como a rapariga luxembruguesa e o Eric, um peruano que tinha vivido um tempito em Miranda do Douro. Estivemos no bar até às quatro ou cinco da manhã.
               
Agora estou aqui num barzito com a Sofia, na descontra. Amanhã devemos ir a uma vila fora de Kathmandu, não muito longe, e que supostamente é muito fixe.

19h57-d-5-6-11
Kathmandu, Nepal

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pokhara

 Estou no autocarro a acaminho de Kathmandu, a capital nepalesa. Vamos fazendo caminho pela estrada que corta os campos verdejantes sem dó nem piedade, oferecendo um toque mais urbano a estas paisagens deslumbrantes. Adoro as paisagens nepalesas e estou a adorar o Nepal, apesar de estar auqi há pouco tempo e só ter visto Pokhara. Mas vi o caminho da fronteira até essa cidade, que foi estonteante. Viemos sempre pelas montanhas, passando pelos sítios mais incríveis e com uma autenticidade deslumbrante. As pessoas aqui já se parecem mais chinesas, mas muitas delas, talvez a maioria, é uma mistura do chinês com o indiano. Incrível, uma linhazita, invisível, e tanto muda. Estava a pensar ontem em como seria o mundo se toda a gente fosse igual. Para nós não ia fazer diferença, sendo que era um dado adquirido e se calhar nem questionaríamos como seria ter raças humanas, porque era absurdo.
               
O mundo assim é tão mais rico. Mas parece que o humano não veio equipado com as faculdades de lidar com essas diferenças. Ou até veio, mas é um mecanismo que não é necessariamente inato, e que teve de ser desenvolvido ao longo de milénios. E, sinceramente, nesta altura do campeonato, acho que ainda temos muito para andar. Não gosto de discussões em voz alta e acaloradas, porque isso para mim já não são discussões – são jogos. Mas ainda assim o racismo é um tema que me deixa um bocado furioso por vezes, e é-me difícil manter a calma. Ri-me agora com a ironia desta frase – “o ser humano generaliza muito”. Para quem não percebeu o humor da cena, a frase, em si, é uma generalização.
               
Pois a verdade é que somos todos feitos do mesmo... uns mais bonitos, outros mais feios, mas todos perfeitamente falíveis, todos com um passado atrás de si, todos sujeitos à sorte e azar de ter nascido aqui ou ali. Mas tendemos a nos esquecer destas circunstâncias e criticamos avidamente povos africanos, por exemplo, e que não se sabem governar e não sei que mais. Quando foram os europeus que lá chegaram e destruiram aquilo tudo. Tinham aviões se não chegasse lá o europeu? Tinham computadores? Se calhar não, mas esta é uma pequena ponta do iceberg. Era possível ter havido uma troca de bens e cultura sem isso implicar o massacre de uma destas partes, tantpo interno, dentro de cada pessoa, como externo, de país para país, grupo para grupo. E o Gautam, indiano, a bater-me estes couros de que se não fossem os europeus os da América Latina, por exemplo, ainda andavam na selva e não sei quê. Em primeiro lugar – quem me diz que isto não era melhor? Quem me diz que as pessoas não são mais felizes nas tribos? Ninguém me diz. Em segundo lugar – por mais que possamos trazer para um país, ou mesmo para uma pessoa, isso não nos dá o direito de nos apropriarmos daquilo que não é nosso, de fazer o que nos apetece com algo que não devia estar nas nossas mãos.

Mas enfim. Divagações à parte, entrámos no Nepal no dia 29 de Maio. Passámos umas seis horas num hotel na fronteira, e no dia seguinte atravessámos a fronteira, após ter pedido o visto de 25 dolares. Uma cena que não curti nada e que acho que não referi. Quando estávamos em Varanasi à espera de um autocarro veio um senhor, todo bem falante e prestável, a dizer-nos as nossas opções e tal, e depois disse-nos que íamos precisar de 6 fotografias para passar para o Nepal. Ora eu tinha visto que precisava só de uma. Mas o gajo dizia que eram 3 para sair da Índia e 3 para entrar no Nepal. Fotografias para sair de um país? Achei aquilo estranho. Nós até tínhamos as fotos, mas uma delas não fazia parte do mesmo grupo das outras, e o cota disse que tinham de ser iguais. “E lá na fronteira é caríssimo, é melhor tirarem aqui, que são 500 rupios [7,5€ - caríssimo para padrões indianos] por 16”, dizia o méne, “Se quiserem, eu tenho um serviço de rickshaws de emergência que vos pode levar lá, não há crise”. Eu sentia-me um bocado suspeito, e acabei  por dizer que não, consciente de que se eu tivesse razão me ia sentir um espertinho, e que se não tivesse, e realmente fossem precisas as fotos, me ia sentir um cinicozinho. E não foram. Mas aquela cena tocou-me porque o gajo não tinha nada aspecto nem a maneira de um rufia. E no entanto andava ali à pesca de turistas para enganar. Porque é que as pessoas fazem isto?...

De Sunauli, no lado nepalês, até Pokhara, foram umas oito horas. A viagem, como disse, foi altamente. Outra cena que reparei foi em como o pessoal, não só aqui, trata os turistas de uma forma especial. O gajo que estava no autocarro responsável pelos bilhetes e cenas afim, era todo sorrisos para mim e para a Sofia. Já para o resto do pessoal, parecia o diabo em figura de nepalês! Uma amiga minha disse-me, e talvez eu já o tenha partilhado aqui, que umas das razões pelas quais é fixe/interessante é que as pessoas nos tratam como crianças, mas de uma forma porreira – é só sorrisos, boasvindas, tudo explicadinho, é um mimo!
               
Quando chegámos a Phokara apareceu logo um méne a falar do seu hotel. Parecia fixe, e dissemos que íamos ver mas que depois íamos ver outros. Vimos e ficámos logo. Era fixolas, talvez o melhor onde ficámos, e custava 2,5€ por pessoa por noite.

No dia seguinte fomos dar uma volta por Pokhara. Descobrimos uns restaurantezitos tibetanos que faziam um preço mais em conta e a partir daí almoçámos e jantámos sempre aí. É que Pokhara é muito turístico, e os preços estão um bocado acima daquilo a que estávamos habituados. Mas no tibetano ok, um prato ficava por euro e meio, se não nos aventurássemos nas cenas mais caras. Efectivamente, Pokhara é muito turístico, demais. Eu tento sempre, e geralmente consigo, adaptar-me e ver as cenas positivas, mas às vezes é impossível ignorar as menos positivas. Pokhara é lindo, um lago enorme, com os ocasionais barquinhos coloridos, uma água que parece bastante limpa e rodeado por montanhas cobertas de um verde vivo que lembra mais a selva do que um bosque. Mas ao longo da rua paralela ao lado é ver as centenas de estabelecimentos que de napalês têm pouco e que de “para o turista” têm tudo. Música boom-boom, restaurantes italianos em todo o lado, happy-hours e lavandarias. Pensava na comparação connosco, humanos. Quando fazemos o que fazemos, e somos o que somos, mantemos a nossa cena, que pode não agradar a toda a gente, mas que é a nossa cena, está em bruto e é autêntica. Quando, por outro lado, deixamos de fazer o que fazemos ou ser o que semos, e passamos a fazer, e a ser, o que os outros querem que façamos e sejamos, se calhar até agradamos minimamente a mais gente, mas deixamos de ser aquela pessoa que rouba corações com um trejeito. Assim senti Pokhara. Vale muito a pena visitar, não me entendam mal, mas é muito turístico. Alguém já foi ao Bali? Ouvi dizer que é igual.
               
Nesse primeiro dia de ver as vistas éramos para ir ao World Peace Pagoda, um pagode construído por uns monges para promover a paz no mundo. Mas aquilo era uma cmainhada de duas horas montanha acima e já era um bocado tarde. Pelo que decidimos alugar umas bicicletas, quarenta cêntimos por hora. Foi altamente! Andámos duas horitas, fomos ver a parte velha da cidade, essa sim ainda autêntica, com tascas que se calhar eram o mesmo há duzentos anos, e cheia de nepaleses que tinham o seu negócio, com ou sem turistas. Quando voltámos ao lago seguimos um pedaço mais “para a frente” de onde estávamos e deliciamo-nos com as paisagens, batendo a ocasional fotografia. Muito fixe, curti muito.
               
No dia seguinte fomos ao pagode. Demorámos pouco mais de três horas a chegar lá cima, mas valeu a pena a caminhada. Voltámos para baixo por um caminho diferente e depois apanhámos duas boleias até ao nosso hotel. Estávamos todos partidinhos. Aquela caminhada tinha custado mais do que o corpo sentira na altura. Ficámos um bocado na descontra no hotel e depois fomos jantar.
               
Agora siga Kathmandu!
               
Tive hoje o meu primeiro pequeno deslize com o passaporte. Deixei-o no hotel, debaixo do colchão. Boa Tóni! Já estava no autocarro quando apareceu o senhor do hotel a dizer-mo, e que o taxista estava a caminho com o documento. Se eu o tivesse escondido um bocadinho melhor, lá mais p’ró meio da cama, só dava pela sua falta na capital. Depois era voltar e vir buscá-lo. É a única coisa que não posso perder. Podem-me roubar tudo o que tenho, até a roupa do corpo, que não volto para trás. Mas se o passaporte vai à VIDA lá volta o Pedrito todo desiludido para trás.

15h05-4ª-1-6-11
Algures entra Pokhara e Kathmandu

domingo, 29 de maio de 2011

Varanasi


Estamos  no autocarro em direcção a... esqueci-me do nome. Começa com “s” e acho que é a última cidade antes do Nepal. Como sempre, os únicos estrangeiros neste autocarro sem ar condicionado. Mas não me faz grande diferença. A Sofia estava a sofrer um bocadito mas agora já está mais fresco, acho. Um gajo transpira bastante, a t-shirt até fica tesa quando seca (e a Sofia tem uma capacidade incrível de gerar sal, ficando umas marcas brancas redondas super bacanas nas t-shirts) mas ‘tá-se bem. Custa-me mais o calor em casa do que na rua. O que é curioso, porque é exactamente o mesmo em relação ao frio. Adoro o frio mas detesto sentir frio em casa.
               
Varanasi foi uma experiência brutal. Apanhámos o autocarro em Lucknow, que nos custou 190 rupios (2,85€) e chegámos a Varanasi já à noite. Recorri a um método que uso com alguma frequência. Temos o número do couchsurfer que nos aceitou, metemo-nos no autocarro e lá peço o telemóvel a alguém para telefonar ao futuro anfitrião. Já devo ter usado o telemóvel p’rai de  trinta pessoas nesta viagem. O Tarun, com quem íamos ficar, disse para nos metermos numa rickshaw para a morada que nos tinha dado. Contudo, tal como com os nossos anteriores anfitriões, era danado encontrar a morada do moço. Voltas e mais voltas lá fomos ter a uma estação de gasolina que era pertito. O condutor pediu outra vez o número do Tarun e ligou-lhe a pedir para nos vir buscar. Assim foi.
               
O Tarun é um advogado dos seus trinta e cinco anos, magérrimo com um bigode tipicamente indiano. Um gajo muito calmo para connosco, e igualmente reservado. Acho que era advogado de defesa, defendendo pessoas que eram acusadas injustamente de agressões e cenas afim. Disse-me que violação dá direito a pena de morte na Índia. Eu sou contra a pena de morte seja em que caso for, mas ao mesmo tempo, falando de violação, ou muito me engano ou em Portugal dá direito a uns anitos, seis a oito? É assim? Se alguém ler e tiver uma informação mais exacta que o partilhe, por favor, nos comentários. Depois há as sentenças b, claro, que são alguns anos a viver em casinha no bem bom enquanto a justiça portuguesa persegue o seu próprio rabo.

O quarto que tinha para nós não podia participar num daqueles anúncios televisivos da Ajax ou muito menos da Moviflor. A Sofia não estava muito impressionada com as condições, mas ‘tava-se bem. Ora veja-se, para mim basta ter tecto. Nem é preciso ter cama no verdadeiro sentido da palavra. E mesmo ter as quatro paredes não é fundamental. A nivel de condições, o mais importanta para mim quando em couchsurfing (numa viagem deste tipo) é ter wireless, depois ter tecto e finalmente ter cama. De resto que se lixe, um gajo arranja-se. E o gajo tinha internet, por isso bem bom!
               
Apareceu lá no quarto com um radiozinho que sintonizou numa estação de música indiana (não sei se daria para escapar, desde que entrei na Turquia que dificilmente consigo ouvir música ocidental) e três chás. Achei piada ao rádiozito. Achei enternecedor, mas creio estar a ser condescendente, porque dá-me vontade de dizer algo como “coitadinho” e não curto nada. Eu ia metendo as minhas pergntinhas aqui e ali, oleando a máquina da conversa, e estivemos um bocado no paleio, até que ele foi dormir. O rapaz, como os anfitriões anteriores (tirando o Gautam, que não acredito ser um terço do hindu que diz que é – lol que frase estranha), o Tarun era religioso. Já o disse, mas o hindiusmo é uma religião bué de marada! Incrível mesmo. Não sei quantos deuses, encarnações dos mesmos em vários animais resultando num mix de humano e animal; deuses que cortam as cabeças aos seus filhos e as substituem por cabeças de elefante, etc. Comentávamos que quem criou o hinduismo devia estar com uma moca de todo o tamanho. A sério. Mas pensando bem,é só porque estamos habituados à “nossa” religião aborrecida. Um deus, só? Isso é p’ra meninos! Falando mais a sério, tentei pôr-me na pele de um hindu e chegar assim meio de paraquedas ao Vaticano.
               
“Que cena estranha! Os gajos só têm um deus! Um deus para tudo? Para a criação, a destruição, a sustentabilidade, a morte, a VIDA... só um, como é que um deus é encarregue disso tudo? E tem um padre que é o chefe dos outros todos? Esse deus falará com ele? Que estranho... hei méne como ele se veste (diz o gajo a ver as fotos do papa), hei méne que riqueza (diz o gajo a entrar na Basílica de São Pedro, ou em tantas outras igrejas, basílicas, capelas)!!! Os gajos não vendem isto tudo e dão o dinheiro a quem precisa porquê? Tanta riqueza!... E o padre chefe anda em tourné aí pelo mundo num carro com vidro à volta para não o matarem?! Que estranho! E em alguns países o povo tem de pagar para ver o gajo a passar no seu carro de vidro! Que estranho... E as mulheres vestem-se de preto anos a fio quando o seu marido morre... que depressão, que estranho...”.
               
Perspectivas. Daí valer sempre a pena tentar-mos por-nos na pele dos outros antes de criticar os seus afazeres.
               
Na manhã seguinte acordei com uma granda tripe. Alguém na casa andava aos berros com uma mulher, que eu achava ser empregada mas que era a mãe do Tarun. Mas uma cena do caraças, berros e mais berros. Durante os próximos dias eu convenci-me que tinha sido o pai do Tarun, mas acho que só me convenci disso porque não queria ver o Tarun com essa luz, então menti-me. Mas acho que era ele. Estranho. E essa mulher, a mãe dele, não ganhava o prémio de Miss Simpatia no Miss Índia, nem quando era mais novita. Estou a queixar-me muito, se calhar, mas foi uma experiência porreira ter ficado em casa do Tarun, que se esforçou para que tivessemos tudo o que precisávamos. Acabada a tripe um gajo voltou a dormir e acordámos lá p’ras onze. O Tarun levou-nos na sua mota até à primeira ghat de quem sobe o Ganges. Bem, andar na sua mota, eu, ele e a Sofia (sim, três, mas isso é o pão nosso de cada hora por estes lados, e quatro pessoas em cada mota é o pão nosso de cada dia), foi uma experiência única. Que loucura! Dessa vez até foi levezinho, mas no dia seguinte, xauzinho, vi a morte a piscar-me o olho tantas vezes que pensavs que se estava a fazer a mim. Claro que, de certa forma, é tudo controlado, e estes indianos têm o seu instinto condutor ao máximo e nunca acontecesse nada. Ainda assim foi radical, bastante radical.
               
Ficámos na Asim Ghat. Ghat são os degraus à beira-rio onde o pessoal se banha. Há dezenas de ghats em Varanasi, sendo duas delas onde se cremam os corpos. O pessoal vem de toda a Índia para se banhar no Ganges em Varanasi, esperando assim livrar-se dos seus pecados. O pessoal de Varanasi e arredores tem o previlégio de ser cremado nesta cidade e ter as suas cinzas espalhadas na água. Seis tipos de pessoas não são cremados – crianças com menos de dez anos; pessoas religiosas, como gurus, por exemplo; grávidas; pessoas que morreram com lepra; pessoas que morreram com varíola (small pox, não sei se esta é a tradução correcta) e não me recordo do sexto grupo. Isto porque estas pessoas já estão puras quando morrem, não precisam de lavar os seus pecados.
               
Quem nos explicou isto foi o Sonu, que conhecemos na Ghat de cremação mais pequena. O Sonu, que não nos queria vender nada e não ia forçar nada, mas não desistiu até que nos viu na sua loja...
               
Caminhar pelas ghats, subindo o rio, é belo. Há uma calma no ar nada característica do resto da cidade, casas e templos coloridos, malta a nadar no rio, a rir-se, putos a brincar. Do outro lado do rio vê-se uma praia fluvial a perder de vista, com manadas de vacas de um lado e um ou outro puto a comandar o grupo.
               
Fomos indo com calma, e vimos o fim de uma cremação. Ao seu lado um corpo envolto em seda laranja. Foi aí que conehcemos o Sonu, que nos disse também que um corpo para arder precisa de 360kg de madeira, e que 1kg de madeira custa 250 rupios (3,75€). Acho difícil de crer, mas foi o que ele disse. Pois estivemos lá à conversa com o Sonu e até que fomos almoçar, num restaurante que o gajo recomendou. Desde o início que o gajo dizia que nãoi era vendedor e não sei quê e a perguntar se não queríamos ir ver a fábrica dele, para ver como as coisas são mesmo feitas. Eu ia dizendo que não e ele dizia que não nos queria forçar. Disse-o um sem número de vezes. Depois do jantar, como tinah dito que faria, veio ter connosco.  Bem o gajo tanto persistiu que acabámos por ir. Era já ali e não sei quê. A Sofia comprou dois lenços compridos muito fixes de seda, 2,5€ cada um. Até foi na boa. Foi interessante ver os gajos a fazerem a seda e depois conversar com o pai dele, que foi quem fez a venda.
               
Durante a tarde continuamos pelas ghats e às sete vimos a cerimónia na ghat principal, que dura ais ou menos uma hora e acontece todos os dias. Uma cena interessante, mas que acaba por ser um bocado extensa. O Tarun encontrou-se connosco no final, levou-nos a um restaurante, e depois fomos para casa.
               
No dia seguinte tínhamos planeado acordar às cinco da manhã, para apanhar um barco no Ganges com o sol a nascer. Assim o fizemos. Como tinha acontecido quando fomos ver o Taj Mahal, perdemos o nascer do sol propriamente dito, mas isso não fez com que não tivesse sido uma experiência excelente. Pagámos 100 rupios (1,5€) cada um para andarmos cerca de hora e meia. Havia aquela neblina matinal no ar, o sol não castigava a pele em demasia, por isso fluimos com calma e naturalidade pelo Ganges acima. A meio comprámos um pratinho de papel com quatro ou cinco flores de lotus, uma vela no meio e daquela tinta vermelha com que se faz uma pinta na testa, por 10 rupios. “Para bom carma”, dizia o gajo. Faz-me rir e acho ridículo que se pague para ter bom carma. Então porque comprei a cena, é justo perguntar... sei lá, pareceu-me giro ver as flores a desaparecer com o passar das águas supostamente sagradas.
               
Quando o barco nos deixou fomos tomar café e comer umas cenitas enquanto esperávamos o Tauran. O gajo foi impecável, sempre connosco p’ra trás e p’rá frente na sua mota. Apesar ter ficado com marcas indeléveis daquelas viagens terríveis que nem o tempo curará, apreciei bastante o seu esforço. ‘Tou no gozo – se calhar daqui a quinze anos já passou... já não penso naquela buzina a massacrar-me os ouvidos e richshaws a passar tão pertinho que quase dava para saber a marca de tabaco que o condutor fumava só de lhe cheirar o bafo.
               
O Tarun deixou-nos em Sarnat, onde íamos ver as ruínas de onde o Buda deu as suas primeiras palestras. Partimo-nos a rir p’rai por cinco minutos quando, a dada altura, achámos que “se calhar almoçávamos já”, apenas para perceber que ainda eram nove e pico. Acordar às cinco da manhã dá nisto.
               
As ruínas não foram nada de especial. Posto isto, almoçámos e demos umas voltas por lá. Fomos visitar um templo Jain, onde tive a oportunidade de entrevistar um bocadinho um practicante. Só um bocadinho porque o gajo não se safava muito com o inglês. A dada altura pensei que as religiões orientais tinham muito em comum, como o carma, o amor ao próximo, etc. Mas depois pensei que, na verdade, qualquer religião contempla o amor como pedra basilar. Mas depois entra o Homem e fode tudo. Às vezes até é o pessoal mais religioso que é pior pessoa, em Portugal, mas julgador, mais castigador, talvez, no fundo, por ser alguém mais castigado...
               
À tarde andámos pelas ghats. Íamos descansando aqui e ali. Fomos caminhando rio acima, até que chegámos à ghat principal de cremação. Foi uma cena do outro mundo. Surreal mesmo. Tinha umas quatro cremações a decorrer. Tem como que uma bancadazinha onde os familiares se podem sentar a observar, e os funerais decorrem mais abaixo, perto do rio. Assistir a um funeral, que conceito estranho. Íamo-nos sentar para lá quando alguém veio ter connosco e pôs-se a falar p’rai dez minutos sobre um hospital que precisava de doações e não sei quê, e quando dissemos que não íamos dar nada, disse que não podíamos ficar ali. Sentamo-nos então mais atrás, num sítio de onde dava para ver na mesma e mesmo ao pé de uma cena que achei incrível. Isto é, eu pensava que estava num filme. Tudo aquilo era tão estranho e diferente para mim, que senti-me como se nunca tivesse saído de Portugal e de repente tivesse aterrado noutro planeta. Mesmo ao nosso lado meteram um corpo embrulhado em seda laranja num barquinho, remaram até ao meio do Ganges, e largaram o corpo. E os familiares na costa, a ver. Uma cena mesmo incrível, digo outra vez.
               
O Sonu, o gajo a quem comprámos a seda, tinha dito que as mulheres não podiam ir aos funerais, porque choravam muito, e este choro podia fazer com que a pessoa tivesse pena e não quisesse partir, voltando a reencarnar. É que o verdadeiro objectivo não é reencarnar em alguém numa boa posição, mas deixar de reencarnar de todo, alcançando o nirvana, libertação total.
Agora pensem nisto... aqui a mulher não pode ir a um funeral porque chora muito. Em Portugal, dantes, pagava-se a mulheres para irem para os funerais chorar! Incríveis estas diferenças...

Depois disto, mais nada. Richskaw, casa, net, dormir.

Estamos agora no autocarro. Devemos chegar a Sunali à meia-noite. Vamos lá passar a noite e amanhã vamos para Pokhara, no Nepal.

19h36-s-28-5-11
Algures entre Varanasi e Sulani, Índia

terça-feira, 24 de maio de 2011

Lucknow


Sábado almoçámos lá em casa com o Gautam, o nosso anfitrião, a sua namorada Dori e um casal de amigos de origem indiana, mas que tinham crescido na Suiça. Acho que namoravam ou algo parecido, mas tinham-se conhecido na Índia. Pareceu-me ser pessoal de pasta, tal como o Gautam, mas apesar disso eram porreiros. Achei piada quando o rapaz, o Raol, de 32 anos disse que que Connaught Place (onde pensámos ir beber uns copos mais tarde) era um bom sítio para “pessoas como nós”. Não o disse com arrogância nem nada, mas achei engraçado, e até repeti, com um sorriso “pessoas como nós?”.
               
Estivemos à mesa um bom pedaço e comemos bem. O Bhadur, cozinheiro do Gautam, é um bom profissional. É nepalês, brahmin de alta casta. Como tal não faz trabalhos mais baixos, como lavar o chão. Lava a roupa e chega. Não sei muito acerca do assunto, ou dos brahmins, mas parece-meio estúpido. E sinto-me livre em dizer isto porque acho que, se às vezes critico alguns aspectos do “nosso” mundo, como, lá está, a maneira como as classes sociais estão divididas e também como algumas pessoas se acham acima das outra só porque descendem deste ou daquele, não o deixo de fazer só porque acontece lá longe. E assim é, às vezes. Vai em extremos. Às vezes só criticamos as outras culturas e achamos que a nossa é o máximo. Outras vezes criticamos algo na nossa mas quando o mesmo se passa em outras mantemos o bico calado porque temos medo de que achem que estamos a ser intolerantes.
               
Os amigos do Gautam, o Raol e a Sabrina eram porreiros. Comecei a reparar nesse dia que o Gautam tinha um bocado a mania que sabia tudo. Do tipo de pessoa que, ou sorri, ou aguenta um sorriso meio irónico quando um gajo falava. Somos completamente diferentes, e senti que ele não me levava muito a sério, sendo que eu ia contra o que ele dizia. De facto, no dia seguinte, no domingo, quando chegámos a casa, lá p’rás onze, ele apareceu e tivemos uma conversa p’rai de uma hora em que a dada altura ele disse “tu discordas com tudo”. É verdade que já é a segunda vez que me dizem isto nesta viagem, e também é verdade que muitas vezes faço o papel de advogado do diabo, mas também senti, e assim o disse, que o gajo não estava habituado a que discordassem com ele. Foi tudo na boa, um debate, digamos, não uma discussão. Dizia que eu não sabia nada da VIDA, e que é preciso viver as coisas e não sei quê... ora eu concordo que se uma pessoa passar mal, vai entender melhor quem mal passa. Mas não acho que seja essa a única forma de ter um entendimento do mundo que nos rodeia. Eu não preciso de passar fome para entender que é algo horrível, e para ter solidariedade porque não tem que comer. Volto a dizer que se porventura tal me acontecesse, quem sabe entenderia melhor, mas por não me ter acontecido, não quer dizer, então, que eu não faça a mínima ideia. Caso contrário os únicos sábios seriam os que teriam já passado por tudo. Serão as coisas assim? Do mesmo modo, como já disse, serão as más experiências as únicas que dão créditos para a experiência de VIDA?

Depois do almoço fomos ao forte vermelho. Mais ou menos. Com um orçamento como o meu, foi esticado ter pago 3,2€ para entrar, mas não me cheguei a arrepender. A Graciete e a Sofia foram convidadas para uma fotografia com pessoal que passava umas 25 vezes, sem exagero. É curioso... eu até curto fotos com eles porque, para mim, são exóticos, e vestem-se de uma forma completamente diferente. Mas custa-me perceber que, para eles, é exactamente o mesmo. Porque estou tão habituado à imagem e estilo que vejo no espelho e ao meu redor, é estranho pensar que nessa figura reside o exotismo para outros povos.
               
Do forte vermelho fomos até a Connaught Place, onde nos encontraríamos com um couchsurfer. Ainda não era bem a altura, e por isso fomos a uma lojita de bebidas. Comprámos uma garrafa de vodka e alguns sumos e fomos p’ró jardim, com cuidadinho, porque beber na rua é ilegal e não sei se levam a sério essa lei ou não. Mas começou a chover e a mata teve de se mudar. Acabámos por nos enfiar numas escaditas que davam para um hostel e ficámos lá um par de horas no paleio a bebericar o vodka com aquele sumo foleiro. Já meio entrados fomos ter com o couchsurfer, que estava com outro couchsurfer, num bar lá da zona. Malta fixe. Ficámos lá p’rai duas horas e fomos para casa.
               
Nunca ninguém sabia onde era a casa do Gautam. Por isso tivemos de ligar mais uma vez e ele lá explicou ao meu amigo, que explicou ao condutor da rickshaw. Ainda assim, apesar de chegarmos à zona direitinho, andámos lá p’rai meia hora às voltas até encontrarmos a casa. E entretanto tinha começado a chover, e eu e o condutor estávamos bem molhadinhos. Já tínhamos combinado o preço (de 150) e depois o gajo pediu 250 porque tinha andado “very time”, como dizia, às voltas. As miudas estavam cheias de pena do rapaz. Demos-lhe 200.
               
No domingo mais um almoçareco. Desta feita apareceu um casal mais velho. Ele era polaco, jornalista na Índia e a sua mulher, com quem estava há mais de trinta anos, devia ser polaca também, mas falava pouco. O cota tinha viajado por terra da Polónia à Índia nos anos 70. De vez em quando tem de ir ao Paquistão mas não gosta da minha ideia, e acha aquilo um bocado p’ró perigoso. Era um casal simpático. O Gautam é tramado, aposto que ele soube que havia ali um jornalista (o único polaco na Índia, disseram-me) e deve ter arranjado um almoço para estabelecer os seus connects.
               
Depois do almoço fomos dar mais uma volta pela cidade. Eu não me estava a sentir maravilhosamente. Não tinha dormido muito bem e sentia-me um bocado cansado. Fomos à Índia Gate, cheia de turistas indianos sempre a tirar fotos com as miudas. Depois passámos pelo palácio presidencial. Enfim, andámos pela cidade um pedaço, até que parámos num restaurante de fast-food indiana. Bela merda. Como faço muitas vezes, pedi à sorte, e dessa vez tive azar. Por 0,75€ (Que é um bocado, entenda-se) calhou-me uma cenazita que parecia iogurte e enchia tanto quanto uma ervilha! Após isto fomos ao bar da noite anterior beber um copo. Lá encontrámos o Pushkar, rapaz dessa noite anterior. Ele relembrou-me que apostei com ele que o Ronaldo não saía do Real Madrid nos próximos cinco anos. A aposta foi dez euros, setenta rupios e um pistachio. Aposta à Pedro. Ele estava com outra malta porreira e ficámos lá uma horita e pico.
               
Entretanto apareceu o suposto abusador sexual. Passo a explicar: nessa manhã tinha visto, no grupo do couchsurfing de Delhi, que uma rapariga parecia estar em apuros. Mandou mensagem a uma mulher couchsurfer e ela postou no grupo. Dizia que era para ter surfado com uma rapariga, mas que ela no dia anterior tinha dito que não a podia albergar, e encaminhou-a para um primo. Esse primo foi buscar a chavala, e tudo porreiro na primeira noite. No dia seguinte o gajo parece que tentou safar-se, oferecendo-se para lhe dar uma massagem e tal, e quando ela se teve de trancar num quarto qualquer, ele dizia que ela tinha de sacrificar algo (o corpo, nesse caso) pela sua felicidade. Essa era a mensagem. O pessoal no grupo de Delhi entrou em pânico, de uma forma muito histérica e em exagero, a meu ver. É algo sério, claro que é, mas não achei apropriada a maneira como o pessoal reagiu. Tipo a dada altura a rapariga veio escrever no grupo que já estava bem mas o pessoal ainda assim estava a imaginar que ela podia estar a ser forçada a escrever aquilo, e que se ela não lhes ligasse eles iam ligar à embaixada e não sei quê. E depois outro méne a dizer que quando uma rapariga surfasse com um homem indiano deveria escrever no grupo os dados da pessoa, como se fosse um suposto predador sexual. Tudo muito exagerado, a meu ver. Houve uma rapariga que supostamente foi violada, em Leeds, Inglaterra. Tudo isto é muito mau, claro, mas são coisas que acontecem, não tornam o couchsurfing num antro de predadores sexuais. E para quem ficou cheio de medo com o que escrevi, há um sistema de referências para quem tem maiores hesitações.
               
Pois o suposto abusador lá se pôs a dizer que nada se tinha passado e não sei quê. Não sei se é verdade ou não. E o Gautam disse-me, mais tarde, que ele já tinha 6 referências negativas, e que achava que ele tinha um perfil falso de uma mulher para receber pedidos de outras mulheres, e depois encaminhar para esse “primo”, que era ele. Tudo muito má onda, má onda...

O Ajit depois deixou-nos a meio caminho entre o bar e a casa do Gautam, e apanhámos uma rickshaw para o nosso destino. Foi nessa altura que tive a conversa suprareferida com o Gautam. Além disto ele tinha uma opinião bastante negativa do pessoal com quem tínhamos estado, apesar de não os conhecer. Porque já tinha ido a um ou dois encontros de couchsurfers de Delhi e tinha visto as suas conversas que era só de sexo, e porque uma vez o suposto abusador sexual tinha tido um problema com o seu carro e nenhum dos amigos o ajudou. Não curti muito, porque eu curtia os gajos, e discordei com ele, claro.

Eu gostei de ter estado em casa do Gautam e o gajo é inteligente p’ra caramba, dá para ver. Somos muito diferentes, mas isso nem sempre significa que as pessoas não possam gostar umas das outras. Mas neste caso, apesar de não significar isso, não o via exactamente como um potencial grande amigo caso, por exemplo, eu vivesse em Delhi. Gosto do que tem para dizer em relação à economia mundial, porque são cenas completamente diferentes do que costumo ouvir, mas não gosto tanto da forma como ele não está assim tão interessado naquilo que tu tens para dizer.

Dormimos, acordámos e a Graciete ia embora. Fui com ela ao aeroporto, beijinho, good-bye. Foi demais tê-la tido aqui, especialmente após se ter aclimatizado. Não vou escrever mais sobre isso.

Tendo deixado a Graciete, fui a casa do meu primeiro anfitrião, o Harry, buscar o meu casaco e camisola, e depois fui ter com a Sofia. Não sabia bem como íamos para Varanasi ou Lucknow (que é a caminho da outra cidade). Tinha reservado dois bilhetes de comboio na net mas estavam em lista de espera e ainda estavam em décimo sétimo e décimo oitavo p’rai uma hora antes da partida. Fomos lá ao Tourist Office porque aparentemente há um determinado número de bilhetes que eles deixam para turistas estrangeiros. Nada feito. Foi por sorte que, a dada altura eu falei das reservas, e o gajo pediu para ver. Foi a outro site ver e afinal tínhamos conseguido. Seguimos para o comboio, cada uma na sua carruagem, e bota Lucknow. O meu cu estava quadrado! Incrível. Não sei como é que aqueles indianos aguentam. Aquele banco era duro como um penedo do inferno! Mas lá aguentei, e passado nove horas chegámos.

Agora estamos no hostel. Tirámos o dia para actualizar e tratar de cenas. Férias de férias. Mas a net agora não funciona, o que dificulta um bocado a cena... mas pronto, deu-me tempo para escrever!....

16h36-3ª-24-5-24
Lucknow, Índia