Mostrar mensagens com a etiqueta Mongólia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mongólia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Transsiberiano


Passei noventa e três horas naquele comboio. E foi fixe, muito fixe. Ainda não sei se aquilo era o transsiberiano, ou um outro comboio que atravessa a Sibéria. Mas isso não faz muito sentido, pelo que acho que a primeira opção é a mais provável.
               
Acordei de manhã cedo, fui mandar uns postais e comprar alguma comida para levar. Depois caminhei até à estação, onde cheguei p’rai uma hora mais cedo. Esperei a ouvir música, e quando chegou a altura, entrei. Olhando para o meu bilhete, fui dar a uma cabine onde estava sentado um gajo com aspecto de indiano. Era bengali e não ia viajar – era amigo de um indiano que entretanto aparecera. Eu estava deitado na cama de cima e eles dois mais outro méne estavam sentados em baixo.
               
- Queres vodka? – perguntou o indiano. Não disse que não e dei uns goles. Entretanto apareceu uma rapariga toda ofegante com uma garrafa de vermute. Deduzi que era uma prenda de viagem ou uma cena do género. Mal o comboio arrancou apareceu a pica a pedir para ver o meu bilhete. Mas não pediu para ver se eu tinha realmente um bilhete, como um pica normal, mas porque, não sei como, sabia que eu me tinha enganado. Antes de entrar no comboio tinha-lho mostrado, e ela deve ter decorado. Assim, disse xau ao indiano, que disse que eu podia aparecer quando quisesse, e fui para a minha cabine, três ou quatro cabines acima. Lá estava uma senhora mongol, que ia também em baixo, na cama ao lado da minha.
               
Fui-me entretendo com o computador e cenas do género, e passado p’rai três horas fui esticar as pernas. Entre as cabines encontro o indiano, e uma mulher com aspecto de ser mongol, a fumar. Estavam os dois bêbedos, mas ela estava completamente fora, mal se aguentava em pé. O gajo aguentava-a, de vez em quando davam uns beijos, uma situação caricata pá, e um bocado horripilante. Ver duas pessoas de meia idade aos beijos a um metro de mim quando a gaja mal se aguenta em pé não é muito cool.
               
- Queres ficar com esta mulher? – perguntou-me o indiano, para levar a extremos a falta de fixeza daquele momento.
- O quê? – perguntei, meio incrédulo.
- Ficas com esta, podes fodê-la. Eu já a fodi e agora quero tentar com a outra.
- Hei pá, não, a sério, obrigado, eu estou bem – respondi, meio desconfortável. E a cena é que o gajo parecia surpreendido pela minha resposta, como se recusar uma queca fosse algo que eu tinha inventado na hora.
               
Algumas horas mais tarde, estava eu sentadito no corredor perto da cabine dele, a carregar o telemóvel, quando o gajo me chamou para a cabine dele. Lá fui, sentei-me num cantito e comi umas sandes de presunto com dois ou três copos de vodka. Ele voltou a sugerir eu malhar a outra e nesta altura eu disse que não estava disponível, e ele aligeirou, mas não muito. E apesar da minha recusa, não passei sem ver a teta da gaja. Devíamo-nos estar a aproximar da fronteira, e a mulher, num rasgo de inteligência tentar “esconder” uma caixa de perfume debaixo do soutien. E eu ali a presenciar aquele espetáculo de peles. Assim, chegou em boa hora a pica, que como se eu fosse um puto que tinha ido p’rá carteira de outro menino, me levou de volta à minha cabine. Esta pica sofria daquela enfermidade que afecta tanta gente, chamada de Tromba Gratuita. A Tromba Gratuita é uma doença que se apanha geralmente quando se passa dos vinte e tal anos. Há pessoas, pobres, que já nasceram com a tromba. Têm um caso de Mete-Nojo enquanto são chavalitos, que depois se desenvolve e se torna em Tromba Gratuita. Os sintomas desta doença vão desde a queixa contínua, a falta de habilidade em sorrir e, basicamente, intimidar toda a gente ao seu redor porque o pessoal pensa que a qualquer momento pode sair um berro. Tem cura, mas é difícil. Para algumas pessoas a cura está relacionada com uma ida à praia, para outras com fazer desporto, para outras é aceitar a sua homossexualidade e para outras pode ser uma coisa tão simples como caminhar à chuva. Há um sem número de possíves curas, mas isto é tanto um bom sinal, como um mau sinal. É que como a cura é tão diversa, o pessoal não sabe qual é a sua, e acaba por não se esforçar em procurá-la. De todo modo, o primeiro caso é uma análise da necessidade da tromba e dos efeitos que tem. Boa sorte.
               
Agora quando eu, dois dias mais tarde, descobri que o indiano também tinha malhado a Tromba Gratuita, passei-me um bocado.
- Já malhei quatro gajas – disse-me, ao segundo dia. Eu acreditei. – E tu?
-Eu não malhei nenhuma... p’ra dizer a verdade não estou interessado sabes...
- Tenta com a pica...
- Não pá, não estou à caça. E mesmo que tivesse, aquela mulher é horrível! – disse.
- Eu malhei-a ontem. E hoje – respondeu. Eu tive a oportunidade de confirmar, mais ou menos, isto. Ele estava a preparar-se para ir embora, e vi-o a enfiar a cabeça na cabine da mulher, e ouvi um beijo. Depois disto, a mulher diz-lhe algo, ele segue-a até à sua cabine, e ela diz algo tipo “isto está sujo” ou assim uma desculpa esfarrapada para entrarem os dois e fecharem a porta.
               
Mas voltando à primeira noite... depois da mulher me levar p’rá minha cabine, a senhora que dormia ao meu lado pediu-me para a ajudar. Queria que eu lhe levasse sete ou oito pares de meias. Pensei um bocado, disse ok. Não é uma cena que se deva fazer, se um gajo quiser ter cuidado com isto e aquilo. Mas que se lixe, a mulher precisava de ajuda, meti as meias na mochila, apalpei para ver se tinha outras cenas, tudo ok.
               
O divertido foi quando atravessámos a fronteira para sair da Mongólia. Disse divertido? Queria dizer stressante. É que a polícia vem ter comigo, normalmente, e pedem-me o papelito de entrada na Mongólia, que eu já não tinha. Não é grande problema. Mas não sei porquê, pediram-me para abrir a minha mochila grande. Tirei-a da bagageira, abro-a, e vejo um saco de plástico que não conhecia. Por um segundo ainda pensei que o Mike me tinha posto uma surpresa ali ou uma cena assim. Mas pego no saco, e estava cheio de calças. Depois outro, depois outro. Tinha três ou quatro sacos cheios de roupa que alguém tinha enfiado na minha mochila.
               
- Isto não é meu... – disse eu, já a pensar que ia ter de ficar ali ou de pagar uma fortuna para as taxas daquilo.
- Não é seu? – perguntou a mulher, enquanto tirava os sacos todos e os escrutinava. Para surpresa minha, depois de os tirar a todos, pousou-os algo descuidadamente na cama do lado, e bazou. E não a vi mais. Não se importou com cena. Mas eu não sabia que ela não voltaria, por isso aproveitei para devolver o saco de meias que a outra me tinha dado. Não queria mais stresses.
               
Pois estava eu já recostado, convencido de que não haveria stresse, quando aparece quem? Nada mais, nada menos, que o dono das cenas. Diz “sorry, sorry” e põe-se ali de joelhos a dobrar a sua roupinha que nem uma Maria que vai p’rá praia de Espinho. E pousa as cenas na minha cama e tudo. Eu dou-lhe um pontapé e digo-lhe “no good, no good” mas o gajo nem olhou para cima. Enfim, cenas.
               
Depois disto estivemos parados um bom bocado enquanto a minha colega de cabine vestia tanto quanto podia de tudo o que trazia. Aquilo era camisolas nas mamas, casacos no cu, meias nas pernas, tudo! E quando acabou a prova de roupa pediu-me, mais uma vez, para eu lhe levar as cenas. Ok, ok, lá levei aquilo. E foi na boa. Tinha pensado em pedir-lhe um par de meias, mas achei que era um bocado foleiro, porque eu não tinha feito aquilo para ser recompensado. Foi por isso que com agrado recebi o par de meias que me deu na mesma, apesar de não ter pedido nada. E pouco depois disto, ela pegou nas suas malinhas e bazou. E não apareceu mais ninguém na minha cabine. Demais, a cabine toda para mim nos quatro dias de viagem.
               
O resto dos dias foram dias de pás, sossego, água quente, filmes e séries, escrita, e corridas para ir comprar comida. É que a pouca comida que levou assemelhava-se excessivamente a comida de gato. Não sei se já referi isto aqui, porque estou a escrever este texto em dias diferentes, mas eu comprei aquela cena que eu pensava que era salsicha e acabou por ser pate para cães ou uma cena assim. Ou pelo menos assim parecia. Mas lá marchou.
               
Apesar de não ter nada para fazer senão o referido, não me senti aborrecido nem apanhei seca. Aliás, curti aquela rotininha. Foi como escapar de tudo, estar quatro dias absolutamente incomunicável (deixei o meu telemóvel no Laos), escrever, ver filmes, olhar pela janela, ler de vez em quando. Curti pá. Sofria um bocado com os preços europeus, mas tudo tranquilo. Ia gastando menos de cinco euros por dia para comer, e bebia água quente que estava no corredor para chás, à socapa. É que no primeiro dia a mulher pediu-me um euro. Quando eu perguntei para quê ela disse “chá, café...”. E eu, claro, disse que não queria. Acho que ela se referia a essa água, o que é estúpido, de certeza que isso é grátis, a bruxa má é que se aproveita. De qualquer maneira, acho que aquilo para mim acabou por ser como uma brincadeira para me entreter. Isto porque tinha de primeiro ir investigar e perceber se estava fechada no seu quarto ou não, e depois ia às escondidas encher o meu copito de água a ferver.
               
Parávamos mais ou menos, assim em média, uma vez a cada três horas por vinte minutos. Dava para um gajo ir esticar as pernas e comprar qualquer coisa. Pegar no leitorzito de mp3, vestir a camisola, sentir um bocado do frio que se espalhava pela Sibéria.
               
Quanto às séries e à escrita neste computador, era só ligar a ficha no corredor, enfiá-la debaixo da alcatifa e dava mesmo à certa para estar sentado encostadinho à porta. Se estivesse uma cabine mais abaixo seria mesmo perfeito. Mas quem se está a queixar?

Assim, noventa e três horas depois e alguns fusos horários, cheguei a Moscovo. Como logo no segundo dia não sabia em que fuso horário estava, decidi adaptar-me de imediato ao Moscovita, que tinha quatro horas de diferença com o de Ulan Bator.

Olá Europa, tive saudades tuas, talvez, não sei ao certo...

vinte e uma e sezasseis, segunda, dez de outubro de dois mil e onze
Kaunas, Lituânia





quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Entre o Deserto e o Transsiberiano



Tinha combinado com o Mike irmos sair no sábado em que eu voltásse a Ulan Bator. Mas depois de oito dias no deserto, não posso dizer que estivesse a morrer para ir cortiré. Por isso, foi com prazer que... bem, primeiro foi com prazer que entrei em casa, porque não sabia se ele se lembrava que eu chegava nesse dia. Mas lembrava, por isso deixou a porta destrancada. E depois, foi com prazer que vi uma nota que tinha deixado a dizer que tinha ido a Numseionde com a malta do trabalho, e só chegava no dia seguinte. Era mesmo o que eu queria, uma noite a ver filmes, sem fazer nada. Não é que eu seja um gajo que precisa do seu espaço e não sei quê (em Inglaterra vivi p’rai um ano e meio numa sala), mas apetecia-me estar na minha. Vi o Knowing, e não consegui deixar de imaginar o Nicolas Cage a escolher os seus filmes...
               
- Hum – diz ele, com um guião na mão – não... não posso fazer este filme, porque até é decente. Deixa ver se encontro um que seja assim mesmo mau como eu gosto...
               
O momento estranho desse dia foi que, depois de ter tomado o meu primeiro duche em oito dias, estava eu a beber um cházinho, quando alguém bate à porta. Eu abro, e entra-me uma cota mongol apartamento adentro a tripar, quase aos berros, no quarto de banho a apontar para o chuveiro. Eu percebi logo que devia haver uma infiltraão ou uma cena do género. Mas a cota não parava de falar, toda zangada. Começava a irritar-me. Disse uma, duas, quatro vezes, com o auxílio de linguagem gestual, que não falava mongol. Ela na mesma. Levantei a voz e disse-o de novo. E a mulher sempre na sua. Isto prolongou-se p’rai por dez minutos, até que lhe toquei nas costas com a palma da mão e apontei para a porta. Ela bazou. Soube mais tarde que não era a primeira vez que lá vinha.

O Mike chegou no dia seguinte, com a Solongo. Tinham avançado muito na relação nessa semana. Puseram os pontos nos i’s e a Solongo foi de falar com a sua antiga chama três vezes por dia para não falar de todo. Quando eu tomei banho e ia dar uma volta ele disse que eu não precisava de sair só porque a Solongo estava lá, o que foi um bocado estranho. É certo que ela não era a pessoa mais faladora do mundo, e é certo, confesso, que eu preferia quando ela não estava lá, mas vai uma grande distância daí a sair de casa porque a chavala lá estava. Estas palavras sairam-me agora de repente, sem pensar bem. Mas iá, tenho de dizer que é verdade, que prefiria quando ela não estava lá. Não, não tinha ciumes dela, mas custava-me ver como o Mike se rebaixava um bocado na sua presença com medo de pisar uma poça qualquer. Eu imaginava-o num campo de futebol, vendado, com o objectivo de chegar à outra baliza enquanto decorria um terramoto de escala dez, e cem mil possas que se moviam pela sua própria vontade. Impossível não meter a pata na poça. Mas também me parecia que ele é que via as cenas assim, ainda que não fossem dessa forma, muita das vezes. Mas eu sei lá...
               
Passei a tarde no café. À noite vi um filme com o Mike. A Solongo tinha ido para o campo fazer não sei o quê. Passei o dia seguinte no cafe, também, e quando cheguei a casa tinha um bilhete do Mike a dizer que me queria ir levar a beber uns copos, sendo que partia no dia seguinte. Dormi uma sesta e depois ele apareceu com o Ryan, um canadiano com cabelo de um palmo mas organizadinho atrás das orelhas, calças de fazenda, uma camisa de fato e uma camisola com carapuço da adidas. Fomos a um bar beber um par de cervejas e depois fomos procurar um sítio onde o Ryan pudesse comer qualquer coisa. Pelo caminho um parente deu um encontrão no Mike, à procura de pancada, mas seguimos caminho. Como os bares pareciam estar todos a fechar, comprámos algumas bebidas e voltámos para casa, onde estivemos à conversa. O Ryan, aos vinte e três anos, já tinha vivido, a ensinar inglês, na Ucrânia, no México e noutro país asiático além da Mongólia. Não era mau puto, mas tinha uns comentários que de vez em quando deixavam a desejar...
               
- Às vezes dizes cenas que eu não curto pá... tipo comentários meio racistas... – disse-lhe. Usava a palavra “nigger”, o que pelos vistos, na América do Norte, é má onda. Mas isso ainda é como diz o outro, é só uma palavra, não dou tanta importância. Mas iá, o que é certo é que às vezes mandava umas postas de pescada que davam a entender que considerava, efectivamente, os branquelas num nível acima, de certa forma.
               
Terça-feira, dia vinte e sete, tempo de bazar. Despedi-me do Mike, Rússia, aqui vou eu!

catorze e vinte e cinco, quinta, seis de outubro de dois mil e onze
algures entre Riga e Vilnius

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Deserto de Gobi - Parte II



Uma boa surpresa foi que não tive ressaca nenhuma. Nem dessa vez nem das outras duas que bebemos. Não sei se é pelo frio, não faz grande sentido. E que frio. Tinha o meu próprio saco-cama, onde se está confortavelmente com quinze graus (ahahah) e o do hostel, que era mais robusto mas cujo fecho resolveu tirar férias. Acho que adormeci ainda a tremer, mesmo com os dois sacos-cama. E para quem já levava uma tosse valente, provavelmente gentil oferta do Mike, isto não foi muito bom.
Mas como disse, no dia seguinte, nada de ressaca. Nem ressaca nem bebedeira, para dizer a verdade, mas um gentil toque, mais um passe longo recebido com o peito do que um remate de primeira fora da área que bate na trave e acaba por entrar.
               
No terceito dia iamos dar uma caminhada por um vale cujo nome não recordo, mas como não chegámos a tempo, acampámos lá perto e fizemos a caminhada no dia seguinte.

estou neste momento na minha cabinezinha (toda só para mim) do trans-siberiano e as mulheres que tomam conta do comboio reuniram-se ali no quarto da que toma conta do meu vagão. ia dizer “picas”, mas não é bem o mesmo. estão ali em euforia, às gargalhadas. cá para mim a bruxa má do meu vagão conta o episódio sexual que teve com o passageiro indiano... três vezes. como é que eu sei disto? porque ele disse-me, e eu vi-os depois a darem um beijo. o gajo malhou quatro gajas em duas noites, eu posso confirmar duas. cada uma pior que a outra.

Assim, montámos as nossas cenas, e estávamos dentro dos saco-cama lá prás oito e tal. Cedo, cedíssimo, mas estava um grizo terrível e não havia grandes alternativas. O Alberto adormeceu primeiro e eu e o Nico ficámos um par de horas à conversa.
               
No dia seguinte fizemos a caminhada através do vale, que curti muito. Tivemos como companhia durante todo o percurso um cão que andava à caça de uns ratos parecidos com esquilos muito engraçados. Só apanhou um, o pobre.
               
- Hei, olha p’ráqule passarinho – alguém exclamou, apontando para um pássaro engraçado que estava aleijado numa asa e não conseguia voar. – Não... não, olh’ó cãooooo – e pronto, o cão também caçou um pássaro. E eu que o queria apanhar e fazer dele a nossa mascote...
               
Quando estávamos a sair do vale demos com uma cercazita que proibia carros de entrar. O Puntzca, com a nossa carrinha, esperava do outro lado. Sentado na beira da estrada, à nossa esquerda, estava um senhor a esculpir em madeira a tentar vender a peça. À direita, mais ao fundo, vi algo um bocado surreal. Estava um xamã, com um tambor, às voltas, como que a auto-induzir-se um estado de transe. Encostava o tambor à cabeça e, batendo-lhe com o bastão, dava um sem número de voltas até que parou, duas ou três pessoas aproximaram-se, deram-lhe algo para se sentar, e sentaram-se à sua volta. Depois escutavam com atenção ao que o gajo dizia com uma voz um tanto ao quanto demoníaca.
- Uma pessoa daquela família está doente. Então eles trouxeram um xamão do norte para canalizar os espíritos da montanha – explicava a Hu aos cínicos Pedro e companhia, que pensavam que era uma cena para turistas. Havia ainda outro xamã, a fazer a mesma cena, uns metros ao lado e com outro grupo de pessoas.
               
Dormimos essa noite numa ger. O Daniel introduziu um novo jogo, que eu já tinha jogado quando era mais novo, mas de que já não me lembrava – o “Desconfio”. Tornou-se o jogo de elite e jogámos o resto das noites. Nessa noite tínhamos comprado vodka também e talvez por isso mesmo ficámos entretidos até às três da manhã. As miudas foram as primeiras a ir dormir, depois o Alberto, e ficámos eu, o Nicolas à conversa. O Danny é uma pessoa um bocado diferente dos argentinos. Oa argentinos são um par de pessoas muito interessante, divertidos p’ra caraças e com uma cultura impressionante. Seja futebol, política ou arte, um gajo pode falar horas e horas com eles. O Danny, apesar de também ser um gajo muito informado é, em alguns aspectos, uma pessoa mais profunda e introspectiva. Curti mesmo o miudo e acho um desperdício que quando volte à Alemanha vá estudar engenharia electrotécnica. É que não tem nada a ver com ele. Sem ofensa para os engenheiros, mas um gajo estuda, entende as cenas, e faz o que tem a fazer. E apesar de não ter dúvidas que ele venha a dar um bom engenheiro, sinto que o puto teria um futuro muito mais profícuo e feliz numa área onde pudesse dar aso ao seu lado humano e até, natural, digamos. Ele tinha trabalhado no Camboja numa cena que envolvia fazer mergulho quase todos os dias, e eu reparei, na semana passado juntos, que sabia bués acerca da natureza e animais. Mas oxalá esteja errado e ele, uma vez começando a trabalhar na empresa do pai, seja um engenheiro genial que traga grandes contributos para o mundo, e que seja feliz. Quando lhe disse isto reparei que era algo que já lhe tinha atravessado a mente. Várias vezes.
               
No dia seguinte fomos andar de camelo. A ger onde tinhamos acampado era da família da Hu. Tinham sessenta camelos e várias centenas de cabras. Para minha surpresa, um camelo custa à volta de quinhentos euros. Pensei ser mais. Fomos com a mãe da Hu. Curti, mas três horas e tal foi mais que suficiente. É giro e tudo mais, mas passado um bocado é sempre o mesmo – andar p’rá frente. E se o meu corpo tivesse um livro amarelo o meu cu extreá-lo-ia nesse dia. As minhas pernas seriam daqueles que fica a pensar se se deve queixar ou deixar p’ra lá isso.
               
- Que paravalhões... vá, pessoal, a senhora está a ficar chateada, parem... – disse a Romina a dada altura, depois de eu instigar o pessoal a corrermos um bocado. Iá é certo que a senhora, de cada vez que tentávamos correr um bocado, resmungava umas cenas quaisquer em mongol, mas não estávamos exactamente a ser uns... parvalhões. Só que é essa a cena da Romina, tem pavio curto e não alinha muito em brincadeiras. A cena é que os camelos quando vão a descer, por mais subtil que seja a descida, começam a correr um bocado. Então nós aproveitávamos e faziamo-los correr um bocado, para ser mais divertido. Mas nada do outro mundo, a senhora mandava parar e parávamos. Passados dez metros.
- Pergunta à tua mãe se fomos muito chatos – pedi à Hu, no final.
- Ela diz que os rapazes portaram-se bem – fixe. Talvez tenha dito isto porque a Jenny, depois de almoçarmos, entrou em pãnico quando estava a tentar subir para o camelo e ele se levantou a meio. Gritou “help!” como  de uma forma que parecia que alguém a estava a agarrar pelos mamilos e se a largasse ela caía da Torre das Antas. E eu, na minha imensa bondade, fui tentar ajudá-la e agarrei-a pela cena onde se enfia o cinto nas calças, e ela diz para não a agarrar nas calças. Enfim. Já a Romina teve alguns problemas com o seu camelo, que pensava que aquilo era uma tour de degustação das ervas locais, e por isso parava a cada cinco metros para um snack. Resultado, a mãe da Hu teve de ir com o seu camelo e a conduzir o da Romina também.
               
Passámos essa noite, claro, a jogar cartas. E a beber uns copos. Quando demos por ela eram três da manhã.
               
No dia seguinte fomos ver os flaming cliffs, “descobertos” pelo mesmo gajo que descobriu, ali no Deserto de Gobi, que os dinossauros afinal de contas punham ovos. Foi fixe, claro. O argentinos mal pararam, e eu ia com eles, mas ouvia aquela voz dentro de mim que me dizia que se calhar nunca mais lá voltava.
               
- Pessoal, vemo-nos mais logo – disse, e deixei-me ficar para trás. Deixei-me perder-me naquela imensidão, e quedei-me com o olhar preso no infinito e o pensamento em todo o lado. Viajei. Encontrei o Danny, separámo-nos de novo.
               
Demorei p’rai uma hora e tal a voltar, quando aquilo parecia que era meia horita. Quando cheguei estive sentado com os argentinos, eles a dizerem-me o que me dariam a provar quando os fosse visitar à Argentina. Durante o jantar tentámos decidir o que faríamos no dia seguinte. Havia a opção de irmos para norte mas fazermos só meio caminho, na descontra, e tentarmos encontrar uma família que nos deixasse andar a cavalo (mediante um preço, claro). A outra opção era acordarmos cedo, conduzir o dia todo, e no dia seguinte, antes de voltarmos para Ulan Bator, irmos a um parque enorme onde poderíamos, eventualmente, ver cavalos selvagens. A Jenny estava a dizer que era o único sítio no mundo onde se podia ver cavalos selvagens.
               
- Tens a certeza? – perguntei, a pensar que podia jurar que no Gerês também há cavalos selvagens.
- Tenho cento e dez por cento de certeza – respondeu a texana. Eu não disse mais nada.
               
As miudas estavam muito a fim de irmos para os cavalos selvagens. Eu estava naquela, mas depois de ouvir a Hu a outra opção de andar a cavalo não era certa, achei que preferia ir ver os cavalos selvagens, ainda que isso, também, não fosse garantido. Lá decidimos visitar esse parque onde se vêem os únicos cavalos selvagens do mundo. Nessa noite... jogámos cartas.
               
E assim de repente estávamos no nossa última noite... Acordámos cedo, e conduzimos o dia todo. Mas passou-se bem. Parámos para almoçar na vila do Puntzca, em casa de quem almoçámos, comprámos umas bebidas p’rá noite de despedida e seguimos caminho. À noite acampámos já perto do parque. Juntámo-nos todos na nossa tenda e passámos lá o serão, até que as miudas foram dormir. O Danny passou p’rai meia hora, dentro da tenda, onde estava toda a gente, a tentar reparar um isqueiro porque queria fumar e era o único que tínhamos. No dia seguinte, a Jenny, que estava dentro daquela tenda de metro e meio por metro e meio enquanto o Danny falava em como gostava de ter um isqueiro, disse que tinha um. No dia seguinte.
               
No último dia, lá fomos ver os cavalos. Foi fixe. É aquela cena... tínhamos visto cavalos que bem que pareciam selvagens no primeiro dia. Que diferença haveria entre esses e os que veríamos no parque? Saber que eram selvagens, só isso. Mas ainda assim foi fixe. Tivemos sorte e avistámos logo um grupo. Aproximámo-nos com cuidado e estivemos p’rai a sete ou oito metros do grupo. O macho estava lesionado, pobre coitado, e não conseguia caminhar muito bem. Depois foi voltar à carrinha, almoçar, e ala para Ulan Bator...

treze e quarenta, quinta, seis de outubro de dois mil e onze
algures entre Riga e Vilnius