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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Kaunas



Quando chegámos a Kaunas esperámos um bocadito pelo Couto, ele apareceu, demos os abraços da praxe e fomos até sua casa. O Couto vive na Lituânia com a sua namorada do mesmo país há sete meses, trabalhando para uma empresa americana, e vive numa casa em Kaunas muito porreira. É sempre fixe encontrar-se em viagem com pessoal que conhecemos da nossa terra.

O plano nessa noite era irmos a um aniversário de uma amiga da Vilja, a namorada do Couto. Foi uma noite muito porreira, sendo que curto sempre estar inserido num grupo local, para ver como fazem as cenas. Bem, e uma cena que ali foi bem feita, foi o incessante brinde. “Quem enche o seu próprio copo é alcoólico”, explicava-me o Couto, falando acerca de uma tradição lituana. Então que fazem? Alguém tem um shot de brandy na mão, chama o nome da outra pessoa, trocam um olhar, e o gajo bebe. Depois enche o copo e dá para a outra pessoa beber. E assim sucessivamente, sempre a rodar mais ou menos aleatoriamente, e sempre com o mesmo copo. Quem enche o primeiro copo, isso não sei – talvez um alcoólico. Era pessoal porreiro, que falava ingês razoavelmente bem, e ficámos lá até lá p’rás duas ou por aí.

No dia seguinte andámos por Kaunas, ver as vistas. Almoçámos os quatro numa pizzaria bacana com descontos de cinquenta por cento depois das três da tarde, e depois eu e a Graciete fomos ver o que Kaunas tinha para nos mostrar. É uma cidade simpática. Não me fascinou, mas é porreirinha. P’ró jantar mandámos vir mais pizzas e passámos o serão a ver uns episódios de friends na descontra.
E no dia seguinte, o meu amor partiu. Foi um “até já”, sendo que pouco faltava para eu chegar a Portugal. Bem, isto comparando com os oito meses que já tinham passado. A Graciete foi-se em embora e eu passei todo o dia em casa, num daqueles dias de “férias de férias” de que se precisa quando se faz uma viagem longa. Internet, filmes e séries, nada mais.

E eis que chegou o dia onze de Outubro, e bazei em direcção à Polónia.

onze e quarenta e nove, dia vinte e sete de novembro de dois mil e onze
algures entre Génova, Itália e Antibes, França





sábado, 5 de novembro de 2011

Vilnius


Chegámos a Vilnius, outra cidade onde já tinha estado e de que nada me lembrava, e caminhámos um bocado sem destino, até que nos organizámos e lá trocámos dinheiro. Eu já estava a trocar pela terceira vez o “mesmo” dinheiro que tinha levantado na Rússia. Posto isto, comemos qualquer coisa, e fomos procurar um sítio com internet para contactarmos a Dharma. Liguei-lhe e apesar dela ter dito que nos podia vir buscar, eu disse que se ela nos dissesse a morada íamos lá ter – grande erro. É que o google maps às vezes dá cabo de um gajo... eu pus como ponto de partida a Embaixada Grega, que era “já ali” e o gajo deu-me um caminho. Andámos com as nossas malas quase uma hora quando tive a feliz ideia de perguntar a um méne se faltava muito. O gajo sai da sua bicicleta americana espetacular e diz-nos que estávamos a ir para o outro lado. Porreiro. Táxi? ‘Bora.

Não foi assim tão caro, e passados dez minutos estávamos naquela casa porreiríssima com a nossa anfitriã merecedora do mesmo adjectivo. A casa tinha um pequeno hall, depois entrávamos na sala, que partilhava o espaço com a cozinha, a separação sendo daquelas do costume, com um balcão. Subíamos um pequeno lançe de escadas e tínhamos um quarto à esquerda, outro à direita, e à frente um quarto-de-banho com uma sanita com um tubo rachado que esguichava água com um bocadinho de cocó de cada vez que descarregávamos. Era perfeito, curti mesmo. Tirando o cocó. Isso não gosto muito, apesar de ser uito subtil. Parecia tipo areia de cocó.

Quando chegámos estavam lá a Egle, estudante de direito, mais duas raparigas e um rapaz que passou as próximas três horas sentado no sofá a participar nas conversas apenas com os seus ouvidos. Entretanto chegou o Jules, um gajo que até era porreiro mas que me deu a ideia de que se esforçava um bocado em demasia para parecer intelectual, com o seu sotaque super inglês e o seu casaco de tweed. Mal o outro dos ouvidos bazou parecia ano novo para a Dharma e o intelectual, que estiveram a falar mal do gajo p’rai meia hora.

- Ele foi o primeiro a chegar, – dizia a nossa anfitriã – e começou a falar-me de uns sonhos eróticos que teve em que era o imperador do Japão e tinha sexo com as suas comcubinas e não sei quê – iá, é um bocado estranho. Quer dizer, não é que eu seja aqui o maior, mas até me estou a ver a dizer isso sem ser estranho, porque acho que nós podemos dizer quase tudo, dependendo de como o dizemos. Mas imaginar o gajo a dizê-lo aperta-me aqui o nervo do anormal.

A Dharma é autraliana e, como muitos outros nativos da língua inglesa que conheci nesta viagem, é professora de inglês, apesar da sua formação ser em astrofísica.

- Já viste?... Fiz investigação com o australiano que ganhou o prémio nobel da física há uma semana – disse, dando a entender, mas meio no gozo, que devia ter ficado em investigação. Mas não ficou, e isso não me parece que tenha sido um erro, sendo que estava bastante contente com os seis anos que tinha passado no Camboja antes de ir para a Lituânia. Aquela miuda de vinte e nove anos era uma grande combinação entre party animal e intelectual. É que aquela pequena festinha arrastou-se até altas horas da noite, garrafa atrás de garrafa, sanduíches e conversas acerca de religião e a expansão acelarada do universo. As duas chavalas que já lá estavam foram as primeiras a bazar, depois o gajo estranho e depois a Egle, que se esteve calada durante uma hora e meia, depois não se calou durante outro tanto – dos casos mais evidentes do “palavreado líquido”. O Jules tinha chegado algures no meio mas a sua agenda era outra, por isso foi-se deixando ficar.

- És lésbica? – perguntou, quando a Dharma disse algo sobre comer gajas.
- Não, sou bissexual.
- Ah, ainda bem – exclamou o rapaz, dizendo “ufa” com as suas finas sobracelhas. E como esta saída, muitas outras. E assim, mais tarde eu e a Graciete adormecemos ao som da selva.

Entretanto chegou o Mário, italiano que vinha só passar a noite para no dia seguinte apanhar um autocarro para Varsóvia. Um rapazola porreirinho, pequeno mas pequeno. E assim se passou a nossa primeira noite na Lituânia.

Quando acordámos a Dharma já tinha ido para a escola. Tinha equacionado faltar no dia anterior, mas acabou por resistir. Acordámos ao meio dia e só saímos de casa lá p’rás cinco. Arrumámos os destroços na festa da noite anterior, “cozinhámos” (as aspas referem-se ao uso do plural) nas calmas, comemos nas calmas. Bem, fizemos tudo nas calmas, incluindo a caminhada que de seguida demos pela cidade.

É também uma cidade excelente, tal como Riga, mas se calhar aindamais fixe. Para mim parece-me mais acidentada, mais desorganizada um bocado, mas ainda assim muito harmoniosa. Andámos às voltas um pedaço, até que fomos experimentar a Zepelina. O Jules, na noite anterior, tinha dito que ai não sei quê os turistas nunca conseguem comer um prato inteiro. O que ele não sabia é que estava a falar com um gajo que uma vez comeu mais de três quilos de arroz de cabidela – facto e testemunhado. E o que é a Zepelina? É um pedaço de carne envolto numa massa tipo Maizena do tamanho de um punho pequeno, com uns molhos porreiros e de escolha variada. A Graciete escolheu uma, eu escolhi outra. Eu comi as minhas duas (que vêm por prato) e ainda metade da segunda da miuda.

Depois de jantar fomos ter com a Dharma a um bar, acabámos por encontrar uma das chavalas da noite anterior, e depois fomos com ela e um amigo seu austríaco para outro bar onde estava a nossa anfitrião. Estivemos ali um par de horas e fomos para casa ceducho.

Até ao dia seguinte, sábado, não sabíamos se iríamos para Kaunas ter com o Couto, amigo de longa data de Vale de Cambra e que lá vive, nesse dia ou não. Assim, acordámos, fomos dar uma volta e eventualmente encontrei net de onde pude trocar umas mensagens com o rapazola. Se conseguíssemos chegar antes das oito devíamos ir, porque iam a uma festa de anos e nós podíamos ir também. Bacana. Fomos a casa num instante buscar as malas, seguimos para a estação de autocarro e ala para Kaunas. Foi, espero, e escrevo agora da Alemanha, o último autocarro que apanhei nesta viagem.

seis e seis, vinte e dois de Outubro de dois mil e onze
algures entre Nittel e Langernagen