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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Deserto de Gobi - Parte II



Uma boa surpresa foi que não tive ressaca nenhuma. Nem dessa vez nem das outras duas que bebemos. Não sei se é pelo frio, não faz grande sentido. E que frio. Tinha o meu próprio saco-cama, onde se está confortavelmente com quinze graus (ahahah) e o do hostel, que era mais robusto mas cujo fecho resolveu tirar férias. Acho que adormeci ainda a tremer, mesmo com os dois sacos-cama. E para quem já levava uma tosse valente, provavelmente gentil oferta do Mike, isto não foi muito bom.
Mas como disse, no dia seguinte, nada de ressaca. Nem ressaca nem bebedeira, para dizer a verdade, mas um gentil toque, mais um passe longo recebido com o peito do que um remate de primeira fora da área que bate na trave e acaba por entrar.
               
No terceito dia iamos dar uma caminhada por um vale cujo nome não recordo, mas como não chegámos a tempo, acampámos lá perto e fizemos a caminhada no dia seguinte.

estou neste momento na minha cabinezinha (toda só para mim) do trans-siberiano e as mulheres que tomam conta do comboio reuniram-se ali no quarto da que toma conta do meu vagão. ia dizer “picas”, mas não é bem o mesmo. estão ali em euforia, às gargalhadas. cá para mim a bruxa má do meu vagão conta o episódio sexual que teve com o passageiro indiano... três vezes. como é que eu sei disto? porque ele disse-me, e eu vi-os depois a darem um beijo. o gajo malhou quatro gajas em duas noites, eu posso confirmar duas. cada uma pior que a outra.

Assim, montámos as nossas cenas, e estávamos dentro dos saco-cama lá prás oito e tal. Cedo, cedíssimo, mas estava um grizo terrível e não havia grandes alternativas. O Alberto adormeceu primeiro e eu e o Nico ficámos um par de horas à conversa.
               
No dia seguinte fizemos a caminhada através do vale, que curti muito. Tivemos como companhia durante todo o percurso um cão que andava à caça de uns ratos parecidos com esquilos muito engraçados. Só apanhou um, o pobre.
               
- Hei, olha p’ráqule passarinho – alguém exclamou, apontando para um pássaro engraçado que estava aleijado numa asa e não conseguia voar. – Não... não, olh’ó cãooooo – e pronto, o cão também caçou um pássaro. E eu que o queria apanhar e fazer dele a nossa mascote...
               
Quando estávamos a sair do vale demos com uma cercazita que proibia carros de entrar. O Puntzca, com a nossa carrinha, esperava do outro lado. Sentado na beira da estrada, à nossa esquerda, estava um senhor a esculpir em madeira a tentar vender a peça. À direita, mais ao fundo, vi algo um bocado surreal. Estava um xamã, com um tambor, às voltas, como que a auto-induzir-se um estado de transe. Encostava o tambor à cabeça e, batendo-lhe com o bastão, dava um sem número de voltas até que parou, duas ou três pessoas aproximaram-se, deram-lhe algo para se sentar, e sentaram-se à sua volta. Depois escutavam com atenção ao que o gajo dizia com uma voz um tanto ao quanto demoníaca.
- Uma pessoa daquela família está doente. Então eles trouxeram um xamão do norte para canalizar os espíritos da montanha – explicava a Hu aos cínicos Pedro e companhia, que pensavam que era uma cena para turistas. Havia ainda outro xamã, a fazer a mesma cena, uns metros ao lado e com outro grupo de pessoas.
               
Dormimos essa noite numa ger. O Daniel introduziu um novo jogo, que eu já tinha jogado quando era mais novo, mas de que já não me lembrava – o “Desconfio”. Tornou-se o jogo de elite e jogámos o resto das noites. Nessa noite tínhamos comprado vodka também e talvez por isso mesmo ficámos entretidos até às três da manhã. As miudas foram as primeiras a ir dormir, depois o Alberto, e ficámos eu, o Nicolas à conversa. O Danny é uma pessoa um bocado diferente dos argentinos. Oa argentinos são um par de pessoas muito interessante, divertidos p’ra caraças e com uma cultura impressionante. Seja futebol, política ou arte, um gajo pode falar horas e horas com eles. O Danny, apesar de também ser um gajo muito informado é, em alguns aspectos, uma pessoa mais profunda e introspectiva. Curti mesmo o miudo e acho um desperdício que quando volte à Alemanha vá estudar engenharia electrotécnica. É que não tem nada a ver com ele. Sem ofensa para os engenheiros, mas um gajo estuda, entende as cenas, e faz o que tem a fazer. E apesar de não ter dúvidas que ele venha a dar um bom engenheiro, sinto que o puto teria um futuro muito mais profícuo e feliz numa área onde pudesse dar aso ao seu lado humano e até, natural, digamos. Ele tinha trabalhado no Camboja numa cena que envolvia fazer mergulho quase todos os dias, e eu reparei, na semana passado juntos, que sabia bués acerca da natureza e animais. Mas oxalá esteja errado e ele, uma vez começando a trabalhar na empresa do pai, seja um engenheiro genial que traga grandes contributos para o mundo, e que seja feliz. Quando lhe disse isto reparei que era algo que já lhe tinha atravessado a mente. Várias vezes.
               
No dia seguinte fomos andar de camelo. A ger onde tinhamos acampado era da família da Hu. Tinham sessenta camelos e várias centenas de cabras. Para minha surpresa, um camelo custa à volta de quinhentos euros. Pensei ser mais. Fomos com a mãe da Hu. Curti, mas três horas e tal foi mais que suficiente. É giro e tudo mais, mas passado um bocado é sempre o mesmo – andar p’rá frente. E se o meu corpo tivesse um livro amarelo o meu cu extreá-lo-ia nesse dia. As minhas pernas seriam daqueles que fica a pensar se se deve queixar ou deixar p’ra lá isso.
               
- Que paravalhões... vá, pessoal, a senhora está a ficar chateada, parem... – disse a Romina a dada altura, depois de eu instigar o pessoal a corrermos um bocado. Iá é certo que a senhora, de cada vez que tentávamos correr um bocado, resmungava umas cenas quaisquer em mongol, mas não estávamos exactamente a ser uns... parvalhões. Só que é essa a cena da Romina, tem pavio curto e não alinha muito em brincadeiras. A cena é que os camelos quando vão a descer, por mais subtil que seja a descida, começam a correr um bocado. Então nós aproveitávamos e faziamo-los correr um bocado, para ser mais divertido. Mas nada do outro mundo, a senhora mandava parar e parávamos. Passados dez metros.
- Pergunta à tua mãe se fomos muito chatos – pedi à Hu, no final.
- Ela diz que os rapazes portaram-se bem – fixe. Talvez tenha dito isto porque a Jenny, depois de almoçarmos, entrou em pãnico quando estava a tentar subir para o camelo e ele se levantou a meio. Gritou “help!” como  de uma forma que parecia que alguém a estava a agarrar pelos mamilos e se a largasse ela caía da Torre das Antas. E eu, na minha imensa bondade, fui tentar ajudá-la e agarrei-a pela cena onde se enfia o cinto nas calças, e ela diz para não a agarrar nas calças. Enfim. Já a Romina teve alguns problemas com o seu camelo, que pensava que aquilo era uma tour de degustação das ervas locais, e por isso parava a cada cinco metros para um snack. Resultado, a mãe da Hu teve de ir com o seu camelo e a conduzir o da Romina também.
               
Passámos essa noite, claro, a jogar cartas. E a beber uns copos. Quando demos por ela eram três da manhã.
               
No dia seguinte fomos ver os flaming cliffs, “descobertos” pelo mesmo gajo que descobriu, ali no Deserto de Gobi, que os dinossauros afinal de contas punham ovos. Foi fixe, claro. O argentinos mal pararam, e eu ia com eles, mas ouvia aquela voz dentro de mim que me dizia que se calhar nunca mais lá voltava.
               
- Pessoal, vemo-nos mais logo – disse, e deixei-me ficar para trás. Deixei-me perder-me naquela imensidão, e quedei-me com o olhar preso no infinito e o pensamento em todo o lado. Viajei. Encontrei o Danny, separámo-nos de novo.
               
Demorei p’rai uma hora e tal a voltar, quando aquilo parecia que era meia horita. Quando cheguei estive sentado com os argentinos, eles a dizerem-me o que me dariam a provar quando os fosse visitar à Argentina. Durante o jantar tentámos decidir o que faríamos no dia seguinte. Havia a opção de irmos para norte mas fazermos só meio caminho, na descontra, e tentarmos encontrar uma família que nos deixasse andar a cavalo (mediante um preço, claro). A outra opção era acordarmos cedo, conduzir o dia todo, e no dia seguinte, antes de voltarmos para Ulan Bator, irmos a um parque enorme onde poderíamos, eventualmente, ver cavalos selvagens. A Jenny estava a dizer que era o único sítio no mundo onde se podia ver cavalos selvagens.
               
- Tens a certeza? – perguntei, a pensar que podia jurar que no Gerês também há cavalos selvagens.
- Tenho cento e dez por cento de certeza – respondeu a texana. Eu não disse mais nada.
               
As miudas estavam muito a fim de irmos para os cavalos selvagens. Eu estava naquela, mas depois de ouvir a Hu a outra opção de andar a cavalo não era certa, achei que preferia ir ver os cavalos selvagens, ainda que isso, também, não fosse garantido. Lá decidimos visitar esse parque onde se vêem os únicos cavalos selvagens do mundo. Nessa noite... jogámos cartas.
               
E assim de repente estávamos no nossa última noite... Acordámos cedo, e conduzimos o dia todo. Mas passou-se bem. Parámos para almoçar na vila do Puntzca, em casa de quem almoçámos, comprámos umas bebidas p’rá noite de despedida e seguimos caminho. À noite acampámos já perto do parque. Juntámo-nos todos na nossa tenda e passámos lá o serão, até que as miudas foram dormir. O Danny passou p’rai meia hora, dentro da tenda, onde estava toda a gente, a tentar reparar um isqueiro porque queria fumar e era o único que tínhamos. No dia seguinte, a Jenny, que estava dentro daquela tenda de metro e meio por metro e meio enquanto o Danny falava em como gostava de ter um isqueiro, disse que tinha um. No dia seguinte.
               
No último dia, lá fomos ver os cavalos. Foi fixe. É aquela cena... tínhamos visto cavalos que bem que pareciam selvagens no primeiro dia. Que diferença haveria entre esses e os que veríamos no parque? Saber que eram selvagens, só isso. Mas ainda assim foi fixe. Tivemos sorte e avistámos logo um grupo. Aproximámo-nos com cuidado e estivemos p’rai a sete ou oito metros do grupo. O macho estava lesionado, pobre coitado, e não conseguia caminhar muito bem. Depois foi voltar à carrinha, almoçar, e ala para Ulan Bator...

treze e quarenta, quinta, seis de outubro de dois mil e onze
algures entre Riga e Vilnius






quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O Deserto de Gobi - Parte I

Foi sorte a Jenny ter visto aquela mensagem. Era perfeito. Bazava para o deserto sábado, voltava sábado, depois bazava para a Rússia terça-feira.
               
A Jenny era uma chinesa que foi com os pais para o Texas quando tinha doze anos. Era gira, tinha vinte e sete anos, trabalhava como analista ou uma cena assim aborrecida qualquer, e foi das pessoas mais insuportáveis que já conheci. É a cena de passar oito dias, quase vinte e quatro horas por dia com o mesmo grupo de gente, uma experiência sociológica do caraças. E super interessante. O Alberto e o Nicolas, da Argentina, estavam à beira dos vinte e cinco anos, eram ambos advogados, ainda que em campos diferentes, e eram uns bacanos espetaculares. De facto, ter feito esta viagem com eles e com o Danny foi um factor decisivo para ter sido uma experiência como foi. O Danny é alemão, tinha vinte e um anos e estava na Mongólia após ter passado um ano no Camboja. Pelos vistos acabou este ano, mas até então o pessoal na Alemanha tinha de decidir entre meio ano no exército, dez meses numa cena qualquer ou um ano a fazer voluntariado (o governo paga os bilhetes de avião e dá mais algum dinheiro) em qualquer país menos desenvolvido do mundo. Há mais de oitocentos lugares em todo o mundo que o pessoal pode escolher. O Danny escolheu uma pequena ilha sem internet no Camboja. A cena que eu mais curti neste grupo foi que tanto falávamos de cenas como imigração, arte, literatura, política ou sustentabilidade, como jogávamos aos jogos de “quem é mais boa?” ou “preferes perder o braço esquerdo ou perder a vista no olho direito?” e cenas do género. Efectivamente, tínhamos conversas de merda muitas vezes. Mas acho que quando é uma opção, e quando é alternada com outras conversas com mais substância, que se lixe. O pior é quando o pessoal não sabe falar de mais nada.
               
Quem não curtia muito essas conversas era a Romina, o “último” elemento do grupo. Tinha vinte e nove anos, era suiça e já tinha estado quase em qualquer lado que um gajo nomeava. E quando lhe perguntámos se viajava com baixo orçamento, disse, muito calmamente, como se fosse um exemplo: “Não... no &(não me lembro do país(& gastei mil e quinhentos dólares num mês”. A miuda não era má de todo, mas sinceramente não se enquandrava com os gajos. E acho também que estava um bocado farta de nós, e até que nos achava um bando de pacóvios por vezes. Cenas como dizer “ainda bem que é o quarto dia” ou outros comentários diziam tudo. O mais estúpido é que dizia “vá, pessoal, depois de um certo ponto começa a ser chato” quando cinco minutos antes estava a chorar com o riso.
               
Mas às vezes parecia que fazíamos de propósito... mas sem realmente o fazer. Recordo-me de uma noite em os gajos estão numa ger e falamos acerca da diferença de qualidade de VIDA em África e na Europa e como os europeus têm uma parte enorme da culpa. As gajas chegam, e não sei como a primeira coisa que nos sai vem do Alberto e tem algo a ver com os seus tomates peludos.
               
- Hei Romina, eu vi isso – apontei, meio na brincadeira. – A Romina acabou de lançar um olhar à Jenny que diz algo tipo “´tas a ver de que é que eu ´tava a falar?”!
- Era suposto veres – respondeu.
               
Quanto à Jenny... Já ouvi que, por exemplo, na tropa, fazer de alguém um alvo de chacota e bode espiatório fortalece o grupo, e até é algo encorajado (talvez subliminarmente) pelos superiores. Bem, não foi o mesmo, nós não fizemos dela nem um bode espiatório nem um alvo de chacota. Bem, chacota mais ou menos. Mas com as barbaridades que saíam da sua boca era impossível ficar indiferente. Eu ainda tentei, e consegui, p’rai dois dias, o que naquelas condições é muito tempo, mas depois não deu mais, era impossível não comentar com os outros. O Alberto abriu a tampa. Na terceira noite, estávamos a enfiar-nos nos nossos sacos-cama dentro da tenda...
               
- A Jenny... é um bocado estranha, não é? – perguntou, em espanhol. Parece que carregou num botão, porque mal disse isto, estivemos a falar quem nem três beatas durante meia hora.
- Pá eu não curto isto... de falarmos sempre nas costas dela... Nem é tanto por princípio, porque não somos amigos nem nada... mas se toda a gente apenas falar nas suas costas, ela vai ser sempre igual... por isso gostava de lhe dizer, frente a frente... – comentava com o Nicolas e o Danny, na nossa ger, numa noite em que bebíamos vodka e o resto do pessoal já tinha ido dormir. Não é que eu seja uma autoridade acerca de como se deve ser... mas as cenas com ela eram demasiado evidentes... Mas após alguma discussão sobre o assunto, não parecia fazer grande sentido eu abordá-la assim sem mais nem menos, e isso acabou por não acontecer. O seu grande problema era que era daquelas pessoas que tem sempre de dizer algo, mesmo quando não faz a mínima ideia do que está a falar. Do tipo de pessoa que quando fala e manda uma posta de pescada o resto do pessoal olha para o lado desconfortavelmente. Tipo estarmos a falar de línguas e ela dizer que o português é um dialecto do espanhol. E, pobre rapariga, tinha o hábito incrível de comer de boca aberta! Isto eu disse-lhe, uma vez, ao ouvido para não a envergonhar, enquanto almoçávamos. Aguentou dois minutos. Chegou a uma altura em que o pessoal ou falava de uma merda qualquer para não a ouvir ou bazava, simplesmente.

Encontrámo-nos de manhã no Golden Gobi, o hostel que estava a organizar a tour. Tomámos o pequeno-almoço, conhecemos a nossa guia, a Hu e o nosso condutor, o Puntzca (pelo menos soava assim) que apesar de não falar inglês era um grande porreiraço. A Hu também era fixe. Mas para ser sincero era mais a nossa cozinheira do que guia. Se pensarmos bem, não há assim um monte de informação que um guia pode dar, oito dias seguidos, acerca do deserto. Mas como cozinheira foi uma grande surpresa, a comida foi, todos os dias, divinal. Chegámos a comer carne de camelo, que curti.
               
Passámos a grande parte do primeiro dia na carrinha. Tínhamos muito terreno para cobrir. Mas não importava muito. Claro que não era exactamente a A3, tinha os seus buracos, mas o cenário era esplendoroso e isso fazia com que a viagem não custasse. Sempre que parávamos para almoçar tínhamos cerca de meia hora para ir dar uma volta. Para jantar também, mas quando parávamos para jantar parávamos, ou na ger onde dormiriamos, ou no sítio onde acamparíamos. Assim, no primeiro dia parámos perto de um lago e de uma pequena montanha. Perto do lago relaxavam duas ou três dezenas de cavalos. A Hu disse que não eram selvagens. Mas não sei qual é a diferença, porque não tinham nunhuma marca, não tinham os pés atados nem sela. Andavam na sua, e os donos não se preocupavam porque eles iam sempre beber água e tomar banho ao mesmo sítio. E foi demais estar a meio da pequena montanha, ouvir um splash, olhar e ver os cavalos, todos juntos, a beber água e devez em quando mandar-se. Deixavam-se cair de lado, convencidos que que aquela água lamaçenta os lavava. O lago era limpo e tudo, mas os gajos eram preguiçosos e não se aventuravam a lavar-se onde a água não levantasse terra.
               
Antes de pararmos na nossa ger, parámos num sítio que costumava ser um retiro de monges budistas. Trepando íamos dar ao cume de um pequeno monte cheio de pequenos montes de pedras.
               
- Dantes, quando havia uma guerra, os guerreiros reuniam-se num determinado sítio e deixavam uma pedra que tinham trazido de casa. Criava-se assim uma pequena pirâmide. Quando voltavam, retiravam a sua pedra. Mas como muitos morriam, os montes ficavam – explicava a Hu, dizendo que hoje em dia, naturalmente, já não é pelas mesmas razões que podemos ver aqueles montes.
               
Parámos pouco tempo depois num acampamento de nómadas. Tinham ali três gers, uma delas era a sua casa, as outras duas para pessoal como nós. Mudavam de sítio duas vezes por ano.
               
Depois de passarmos algum tempo com eles na ger, e de bebermos iogurte de leite de camelo, fomos para a nossa, onde jantámos. Depois de jantar passámos a noite a jogar Uno. Não adoro o jogo, mas foi divertido, tenho de dizer, por causa do grupo que me rodeava.
               
No segundo dia, depois de tomarmos o pequeno-almoço, metemo-nos na carrinha, de onde saímos só para almoçar. Almoçámos e fomos visitar os White Cliffs. Uma cenário porreiro, no meio daquela imensidão de nada. Parámos na vila e comprámos três garrafas de vodka, que desapareceram na mesma noite. A ideia era a Romina e a Jenny beberem connosco, mas a Romina quando foi à tenda depois de jantar, já não voltou, e a Jenny voltou durante um minuto só para como que justificar não ficar connosco.
               
- Bem, se não vamos fazer nada, então vou para a tenda, porque está frio – disse, ainda de pé, quatro segundos depois de ter voltado.
- Nós estámos a fazer algo, estamos a conversar... não há muito mais que se possa fazer – respondi, sem efeito. Se pensarmos bem, estávamos no deserto, ia ser difícil conseguir entrar numa discoteca. Estávamos no deserto com não sei quantas camadas de roupa, sentados numa mesa provavelmente roubada ao enxoval de um dos sete anões, e debaixo de um dos melhores céus que já vi. Talvez apenas nas montanhas no Paquistão consegui ver tantas estrelas. Nunca tinha visto a via láctea com tanta claridade. Daqueles momentos que fica para sempre.
- Pessoal... – disse, enquanto nos dirigíamos, já ébrios, para um acampamento que avistáramos ao fundo – Vamos parar por um segundo e tomar consciência da sorte que tivemos em ter um grupo tão bacana – foi o nosso “bro moment”. Demos um abraço quádruplo e seguimos para o acampamento. Estávamos à procura de mais companhia, mas estava tudo a dormir. Fui então às tenas perguntar, pelo lado de fora, se tinham preservativos. Partimo-nos a rir a imaginá-los, no dia seguinte, a pensar “quem é que será que queria os preservativos? será que foi aquela e aquele? ou aquele e aquele?”.