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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Shangri-La e Tiger Leaping Gorge



Dia vinte e quatro partimos para o Tiger Leaping Gorge, uma caminhada de um dia (ou mais, dependendo se se continua ou não) pelas montanhas que prometia ser espetacular. Não fomos mais cedo porque queria ver se as minhas feridas nos dedos dos pés saravam, para poder usar as sapatilhas. É que andar pelas montanhas de chinelos não vai com nada. Mas teve de ser.
               
Na noite anterior o Mário disse que talvez boleiasse também. Assim, fizemo-nos à estrada, íamos tentar um pedaço os três, e se não funcionasse, separavamo-nos. Não passaram mais de vinte minutos até aparecer um carro que podia levar apenas duas pessoas. Seguimos eu e o Ilya, e fomos ter direitinhos à Jane’s Guest House, o hostel logo no início, cinquenta metros depois de pagarmos cinco euros e pico para entrar na zona. Comemos qualquer cena, e o Mário apareceu p’rai meia hora depois de termos chegado. Porreiro. Comeu qualquer coisa também, guardámos a mochila maior, preparámos a mais pequena, demos uma olhada no roteiro, e seguimos.
               
Devemos ter sido, senão o grupo que saiu mais tardiamente, um deles. Não sabíamos muito bem por onde ir, mas cedo apareceram as setas que nos foram indicando o caminho. Sempre a subir até passarmos as “28 bends” (28 curvas, mais ou menos), uma série de curvas sempre a subir com uma inclinação nada simpática, foi uma grande esticada e uma caminhada sublime. Caminhámos quase sempre com os olhos pousados nas montanhas do outro lado do rio que batalha em se acomodar no pequeno espaço entre ambas as elevações, de vez em quando chove, de vez em quando aparecem as velhas com as suas “lojinhas” onde vendem água, nozes, bananas e sacos de ganza. Fazer aquilo de chinelos foi um desafio, mas correu bem. Só me custava um bocado porque estava de meias, para proteger as feridas, e isso fazia com que eles deslizassem, deixando-me com a tarefa de os agarrar constantemente com os dedos dos pés. Adorei aquilo, agora que penso nisso. É que senti-me vivo. Daquele vivo que nos faz abanar as árvores com a cara a apontar para o céu, e sentirmo-nos felizes com as gotas que se agarravam às folhas verdes e agora viajam pela nossa pele. Ou parar para recuperar o fõlego à beira de um precipício que nos deixa invejosos dos pássaros mas ainda assim felizes por ter a oportunidade de ver coisas daquelas. Estou a adorar a China.
               
Fomos lestos no nosso esforço, e chegámos ao destino, a Halfway Guest house, em cerca de cinco horas. Houve alturas em que pensei que aquilo estava a ser mais difícil do que antecipara, mas depois das 28 bends foi mais tranquilo. Foi um alívio ver os sinais com o nome do hostel, e quando chegámos absorvemos logo a boa onda daquilo. Era tudo de madeira, bastante grande, vários viajantes aqui e ali, e alguns ao redor de uma fogueira. Tomámos banho, sentámo-nos a admirar o que tínhamos à nossa frente. É que o hostel, estando numa encosta, tinha uma vista deslumbrante. Imagina sentares-te prontinho para uma derreada no quarto-de-banho, olhas para o lado e tens, sem vidro, sem nada, uma montanha a olhar para ti. Demais mesmo.
               
Passámos uma noite porreira. Jantámos, comprámos umas garradinhas de licor de arroz, e passámos o serão à conversa.
               
No dia seguinte tínhamos ainda uma cmainhada pela frente. Coisa pouca, quase duas horas. Fomos nas calmas, chegámos à Tina’s Guest House, almoçámos e apanhámos o autocarro para Lijiang. Tinhamos como opção boleiar, mas já era um bocado tarde, e alguns dias antes tínhamos precisado de oito boleias para fazer setenta quilómetros do mesmo percurso. Pareceu mais sensato metermo-nos num autocarro. Passaríamos a noite em Lijiang, e na manhã seguinte bota Chengdu.
               
Mal chegámos encontrámos o Philippe, franco-canadiano e amigo do Nick, com quem tinha estado alguns dias antes. Combinámos encontrarmo-nos logo no Stone The Crow. Depois de deixarmos as cenas no quarto, jantámos, e eu e o Mário fomos ter com o pessoal. O Ilya ficou, não estava com o feeling. O Nick já não andava como Ian e o Tim, mas ainda com a Tanya e o Phil, e outro pessoal. Uma alemão e um alemão e duas israelitas. Topei que havia ali algo a rolar entre o Nick e uma delas. Ele não desmentiu. E isso acabou por ter um impacto na sua decisão de não ir connosco no dia seguinte. É que ele tambem ia para Chengdu, só que já tinha comprado o bilhete, por mais de trinta euros, mas comos os autocarros estavam esgotados, só podia bazar passado cinco dias. Disse-lhe para ele cagar para o bilhete e boleiar connosco. O gajo ficou naquela, mas estava renitente caso eu e o Ilya apanhássemos uma boleia e ele tivesse de ficar sozinho. É pena, não pelo facto de ele não ter vindo connosco, mas porque é um gajo porreiro mas que se calhar se devia mandar mais de cabeça em algumas cenas. Ou então sou eu que acho que toda a gente devia fazer aquilo que eu acho que é fixe ou bom.
               
Dia vinte e seis partimos em direcção a Chengdu. Demoraríamos três dias a lá chegar, mas foi uma viagem espetacular.

20h03-6-2-9-11
algures entre Xian e Pequim





terça-feira, 20 de setembro de 2011

Lijiang e Shangri-La



Chegámos a Lijiang dia vinte. O casal foi fixe, levou-nos até ao centro, e depois andou lá às voltas connosco à procura do nosso hotel até que começou a ser demasiado tempo e eu e o Ilia agradecemos e dissemos que tínhamos encontrado a nossa estadia. Eles foram à sua VIDA e nós andámos às voltas à procura de um sítio barato, e a Mama Naxi (que tinha visto no Lonely Planet) se possível. Parecia que cada cidade era mais cara que a anterior. Eventualmente passámos pelo Stone The Crow, um bar onde entrámos para pedir ajuda. O Ross, um galês calmo e simpático levou-nos à Mama Naxi, onde havia um quarto à nossa espera por cerca de três euros e meio cada um.
               
Curti aquele hostel. O quarto era razoável e a internet muito fraquinha, mas havia boa onda ali. Bons viajantes, e um staff muito porreiro, especialmente a própria Mama Naxi, que de vez em quando andava a distribuir beringelas em pão ralado ou bananas. Antes de bazarmos deu-nos também um fio para p;or ao pescoço com um saquinho de bom cheiro. “Para dar boa sorte”, disse, como que adivinhando que íamos precisar de sorte à boleia.
               
Sobre os “bons viajantes”, comentava ontem com o Ilia que os turistas na China são muito diferentes daqueles no sudeste asiático. São mais viajantes do que turistas, de acordo aqui com o meu dicionário. Para começar, há muito menos ingleses. Depois, não há aquela chavalada toda a dar estrondo e, acima de tudo o que mais me irrita, a queixar-se de tudo – porque isto é lento, ou aquilo está sujo, ou aquela cena não faz sentido. Enfim, essas cenas todas que se ouve no sudeste em qualquer viagem de autocarro.
               
Demos uma volta pela parte velha, tudo o que me parece valer a pena conhecer em Lijiang. É fixe, talvez mais fixe do que Dali, mas também cheio de turistas. Mas, também tal como em Dali, a grande maioria dos turistas são chineses. A parte velha ainda é bastante grande, e é super fácil perder-se por aquelas ruas de calçada ladeadas por lojas de esculturas de madeira, lojas de vinis com o staff a cantar e tocar djambé, ou os inúmeros restaurantes.
               
Voltámos para fazer uma cena qualquer ao hostel, e estávamos sentados cá fora à espera não sei de quê, quando ouço “Dud!e”>. Quem era? O Nick, australiano, que tinha conhecido em Bangkok mais de dois meses antes. Que cena. Encontro no Laos um casal que conheci no Paquistão, e encontro na China um méne que conheci na Tailândia. Após o nosso primeiro momento de estupefacção a malta apresentou-se. Ele estava a viajar com o Philippe, franco-canadiano, a Tanya, australiana de origem asiática, o Tim, holandês, e o Ian, americano. Um grupo muito porreiro. Eu e o Ilia íamos jantar ali ao lado, então combinámos encontrarmo-nos logo. Eles queriam jogar Power Play, um jogoinventado pelo Nick e o Tim e que envolve um bilhar mas que não se pode dizer que é um snooker convencional.  Fomos comer ao meu restaurante preferido, com umas Dan Dan Noodles que curti tanto que comi três ou quatro vezes, a malta apareceu, juntamo-nos a eles e demos uma volta pela cidade. Tanto quanto conseguimos, sendo que aquilo estava apinhado como o metro em hora de ponta em Kuala Lumpur quando fui roubado.
               
Posto isto, seguimos para o Stone The Crow. O Power Play envolve beber cerveja, e a cerveja lá era um bocado cara. Mas com um “contracto” para beberem um número razoável, conseguimos baixar o preço cinquanta por cento. Então qual é a cena do Power Play? Prometi que ia partilhar as regra do jogo, por isso aí segue.
               
Para já, é um jogo que só visto mesmo é que se percebe a intensidade da cena. Mas vou tentar explicar duma forma concisa. Duas equipas de dois elementos (digamos, numa equipa os elementos são A e B, e noutra X e Y), um taco por equipa. Uma mesa ao lado do bilhar com as cervejas dos elementos. Se não der para estar ao lado, então que estejam duas (de elementos da mesma equipa) numa mesa numa ponta, e outras duas (dos outros dois) noutra ponta. Ao abrir o jogo, as bolas nunca podem estar organizadas no triângulo convencional – que seja um quadrado, um triângulo de lado, ou outra cena qualquer. Basicamente seguem-se as regras normais do snooker, mas após as bolas pararem de rolar, a próxima pessoa só tem três segundos para jogar (toda a gente conta alto, mas não é obrigatório, claro). Geralmente quando a malta falha os três segundos falha p’rai por um segundo e acaba por jogar na mesma. Mas como demorou mais do que três segundos, vai a correr dar dois goles da sua cerveja, não sem antes passar o taco ao companheiro de equipa. Sempre a correr, porque o pessoal joga tão rápido que quando alguém tem de ir beber, muitas vezes quase já não chega a tempo para jogar sem violar a regra dos três segundos. Se o elemento A mete a branca fora, vai beber, e o elemento X põe a bola no sítio mais perto de onde saiu e continua a jogar, mas tendo duas tacadas por castigo para a outra equipa. Iá, não se saca. As penalidades são duas tacadas para a outra equipa. Outra cena é que mal se entra no bar, já se sabe quem vai buscar as cervejas e quem vai organizar o jogo, e quem vai abrir, de forma a que seja uma entrada de rompante. Bem, é mais ou menos isto. Eu não joguei por causa duns ferimentos nos dedos dos pés (é muito fácil ser calcado) mas é uma moca, muito fixe. Experimentem.
               
Essa noite foi fixe. Entretanto a malta bazou e eu fiquei até às quatro à conversa com uma norueguesa e um italiano. Tinha-me esquecido que o hostel fechava a porta à meia-noite, uma da manhã mais tardar. Por isso cheguei, ainda equacionei dormir à porta, mas bati um par de vezes e uma senhora com cara simpática deixou-me entrar. Cool.
               
No dia seguinte demos mais umas voltas pela cidade. Eram umas sete, e estávamos na descontra no quarto, quando conheci o oitavo português desta viagem. O Mário tinha acabado de chegar, estava a fazer o check-in quando o gajo do hostel, de acordo com o Mário visivelmente excitado, lhe disse que tinham outro português – o que era raro. Assim o Mário apareceu, e juntou-se a mim e ao Ilya nessa noite e nos quatro dias seguintes.
               
O Mário, gajo muito boa onda e conversador, calmo sem ser aborrecido, está a tirar um mestrado em Tóquio, e já lá vão dois ou três anos, o tempo suficiente para já dominar o japonês confortavelmente. Aos dezoito anos foi estudar escultura para a Itália, fez lá o curso todo, e depois disto apareceu uma bolsa do governo japoês, uma oportunidade que ele não deixou escapar. Já andou pelo sudeste asiáico também, noutras férias, e agora passava umas semanas na China. Era para ficar em Lijiang, mas acabou por decidir vir para Shangri-La connosco. Não literalmente, sendo que nós íamos boleiar e ele ia de autocarro, mas combinámos encontrarmo-nos lá p’rás seis no hostel.
               
Acordámos às sete e tal no dia segiunte e pusemo-nos a caminho. Não foi fácil, mas tambémnão foi difícil. A cena é que na China cada quilómetro parece que vale p’rai quatro ou cinco. E foi por isso que precisámos de oito boleias para fazer setenta quilómetros. Oito! E nem foi aquela cena de estar sempre a andar um bocadito e sair. Em alguns carros andámos um bom pedaço, mas por alguma razão, a nossa percepção não conseguiu discernir aquelas distâncias. Tínhamos chegado à vila do Tiger Leaping Gorge, um percurso de trekking que faríamos dois dias depois, quando começamos a equancionar apanhar um autocarro. Já eram quatro e tal e o caso estava mal parado. Até que apareceu uma família bué de fixe que nos levou direitinhos a Shangri La. E que cenários pessoal. Sempre montanha acima até estabilizarmos nos três mil e duzentos metros, parando de vez em quando para fotografias. Antes de vir para a China não sabia bem o que esperar. Ainda assim, o que tenho visto não tem nada a ver com qualquer ideia que tenha tido. Nessa viagem começei a apaixonar-me pela China. E foi interessante perceber a curta distância a que estávamos do Tibete. As pessoas vestiam-se de uma maneira completamente diferente dos outros sítios onde tínhamos estado e tinham trços diferentes também. Não tanto os traços, porque para mim às vezes é difícil perceber as diferenças entre etnias asiáticas, mas mais a tez da pele. Apesar de Shangri-La ser cada vez mais turístico, sentia que tinha ali um retrato da verdadeira China.
               
A família deixou-nos na parte velha, e estávamos a caminho do hostel onde combináramos encontramo-nos com o Mário, quando o vimos a acenar do Dragon Hostel. Fixe, ficámos lá. Um dormitório por três euros e meio. Mas era um hostel muito bacana, com uma sala para o relax muito fixe. O Mário tinha conhecido o Tom, e fomos jantar os quatro. O Tom é australiano, formou-se em ciências políticas mas está à espera agora da resposta de uma universidade de medicina para onde concorreu. É um gajo com mais de um metro e noventa, um vozeirão que mete medo, e um sentido de humor mordaz e inteligente. Gajo muito fixe, que curtia ver outra vez.
               
Depois de jantarmos e andarmos, em vão, à procura de um sítio com bilhar, voltámos para o hostel. Apostámos dez cêntimos cada um e jogámos Jenga durante quase duas horas. Foi um serão descontraído, ligeiro.
               
No dia seguinte andámos por Shangri-La. O Mário já tinha bazado (aparentemente esperou até às dez  e depois foi à sua VIDA – não tínhamos nada combinado). Despedimo-nos do Tom, que ia para Numseionde, e fomos dar uma volta, depois de almoçarmos num tasco muito porreiro e barato ali pertinho. Bem, porreiro p’ra mim, porque para o Ilya nem por isso. É que ele mostrou o seu papelinho onde está bem explicado, em chinês, que é vegetariano e que quer algo sem carne ou peixe, e ainda assim carne ele levou. Mas a senhora foi fixe e não o fez pagar. Ele não pagaria de qualquer maneira. E agora lembrei-me de um episódio em Lijiang que não foi muito fixe, e que acho que não contei. Certo dia fomos almoçar e eu, como de costume, apontei para uma comida com um preço porreiro à frente e pedi isso. Era algo que custava cinquenta cêntimos. Comi nas calmas, ia a pagar, e a mulher diz-me que era um euro. Eu aponto para o que pedi, e para o preço, e estendo-lhe os cinquenta. A mulher começa a fritar e começa aos gritos a apontar para a galinha. Eu, com uma calma que pelos vistos me é característica, tentei explicar que não pedi nada mais do que aquele prato por cinquenta, e que não ia pagar mais nada. Que faz ela? Faz-se à minha máquina fotográfica. Então estamos ali os dois, com as mãos na máquina, entrentato aparece também a filha e estão as duas entre a mesa e a parede a tapar-me a saída, e o Ilya atrás a tentar ajudar mas em saber bem o que fazer. Numa esticada consigo tirar a máquina, e tento sair, mas a mulher não me deixa sair. Agarra-me e só consigo passar mesmo à força com ela a agarrar-me a t-shirt. Um stresse dos mais estúpidos que tive. E nunca pagaria aquele preço, por mais irrisório que fosse, e por mais rico que eu fosse. Pois pagando ia estar a contribuir para aquela treta.
               
 De volta a Shangri-La. Primeiro andámos pela parte mais nova duas ou três horas, aquele caminhar sem destino. Chocou-me um bocado o mercado. Quem estiver na dúvida entre ser vegetariano ou não e vir um mercado daqueles muda na hora. Dizer que metia nojo a maneira como tratavam a carne é algo que fica aquém...
               
Foi fixe andar pela cidade, ainda que por sítios nem por isso muito interessantes como é a parte nova, e não ver estranjeirada em todo o lado como no sudeste asiático. A dada altura começamos a ficar cansados, e fomos ao hostel fazer uma pausa. Lá encontrámos o Mário e passado um pedaço continuámos, desta feita pela parte velha. Acho que gosto mais de Shangri La do que Dali e Lijiang. É mais esotérico, ali nas montanhas, com aqueles chineses de outra etnia, as vestimentas rústicas... o Tibete tão perto.
               
Quando já estávamos cansados para andar mas ainda era cedo para ir jantar, fomos jogar bilhar. Fomos a um sítio que tínhamos encontrado na noite anterior, jogámos uma horita (ganhei vinte cêntimos) efomos jantar. Quando voltámos ao hostel, a malta estava a ver um filme na sala de estar. Juntámo-nos ao pessoal.

No dia segiunte, Tiger Leaping Gorge.

dez e cinquenta e três-d-vinte e oitro de agosto de dois mil e onze
algures entre Numseionde e Emeishan



domingo, 18 de setembro de 2011

Kunming II e Dali



O Neri é um personagem interessante. É de Florença, está na China há três anos, fala bem chinês e o seu domínio da escrita não é nada mau. E note-se que, apesar de já ter visto caracteres chineses no passado, nunca tinha realmente prestado atenção para o quão complicados são. É uma loucura mesmo.
               
-Já te sentiste perdido, Pedro – perguntou-me na segunda noite, os olhos fixos no computador. Felizmente acho que nunca me encontrei nessa situação, ainda que a perceba perfeitamente. Se bem que é preciso passar por algumas cenas para as perceber. Ao longo da minha curta VIDA, já me senti preso, ansioso devido às circunst;ancias que vivia, mas acho que nunca me senti perdido. Quando me comprometi a ficar dois anos na Inglaterra, por vezes sentia-me preso. Tinha-me comprometido apenas verbalmente, e podia bazar a qualquer altura, mas não faz o meu estilo acobardar-me e procurar o conforto imediato. É daqueles paradoxos. Acho que devemos manter a nossa palavra. Também acho que devemos fazer aquilo que nos faz felizes. E por vezes a minha felicidade se calhar passava por dar o meu período inglês como esgotado e partir para outra. Mas nunca estive infeliz de estar ali. Acho que era aquele lado mais mimado, que quer o conforto imediato, a falar. Fiquei, cumpri, e hoje estou feliz com isso.
               
E serve isto tudo para dizer que, apesar de tudo, e até ver, sempre soube mais ou menos o que queria, e como a alcançar. E por isso nunca me senti assim perdido. Aguarda-me agora uma grande indefinição em Portugal. Tenho ideias, planos, cenas para fazer e algum dinheiro para não ter de depender de outras pessoas por um par de anos. Mas ao mesmo tempo, não faço ideia o que vai ser de mim em termos profissionais. Mas estou pronto para isso. Seja o que for, que venha. Uma coisa é certa, não me vou entregar à depressão de estar em casa a comer batatas fritas à procura de um emprego. Vou dedicar-me às minhas ideias, escrever, planear, viver de uma forma que não me faça sentir como se estivesse a morrer por dentro. E depois vê-se. Até vejo com bons olhos um retorno, após quase quatro anos fora. Meio ano na Noruega, dois anos e um mês na Inglaterra, nove meses em viagem, três meses em Portugal aí pelo meio. Talvez me vá sentir um bocado asfixiado passado algum tempo, mas se assim for, farei algo para lidar com isso.
               
Apesar de tudo isto, respondi de uma forma mais abrangente ao Neri. Da maneira como ele perguntou deu a entender que ele se sentia perdido. E por isso não quis dizer “não, pá, és só tu”. Não sei se foi o psicólogo em mim, mas não queria aprofundar qualquer sentimento que pudesse ter acerca de se sentir perdido, por fazê-lo sentir que isso era exclusivo a si. Porque não é. Quando lhe perguntei o porquê da questão, ele disse “that’s all that can be said”, enigmaticamente.
               
É um gajo calmo, muito porreiro e prestável, mas que me parece um bocado triste. Às vezes acho as pessoas como ele um bocado aborrecidas, mas com o Neri é uma cena diferente. Das pessoas que fala disto e daquilo, mas que não se abre muito – daí a minha surpresa com a sua questão acerca de se sentir perdido. Foi um anfitrião porreiro, que não tem problemas em albergar três ou quatro pessoas de uma vez. Cozinhou para nós e não nos deixou lavar a louça.
               
No segundo dia de Kunming andei com o Ilias pela cidade. Deixamo-nos ir, caminhámos p’rai quinze quilómetros. Curto o gajo. É muito expressivo, daquelas pessoas que se exprime mais por caretas e onomatopeias do que por frases. Tem trinta anos e já anda a viajar há mais de três anos. Ou semi-viajar, sendo que viveu na Índia três anos, e vai voltar para lá. Alugou uma casa com um amigo em Goa, depois arrendou dois quartos que pagam a renda da casa toda, e se alguém quiser dormir numa tenda no telhado não paga nada.
               
Já passámos alguns dias juntos, e tem sido fixe, tranquilo. Sem querer etiquetar, o Ilias deixou de beber há meio ano, porque nos últimos cinco anos bebia quase todos os dias. E por isso mesmo, porque é a cortiré que gasto mais dinheiro, estou na China há cinco dias e ainda me sobra dinheiro dos trinta euros que trouxe do Laos. Fixe. Tirou um curso relacionado com tecnologias de informação e economia, trabalhou alguns anos em Moscovo, a sua terra-natal, num escritório, até que se despediu, acabou com a namorada de dez anos, e bazou.
               
-Mas gostava de encontrar um sítio onde pudesse chamar “casa” - confessou. – Passado algum tempo começar a apetecer. Tem também um pequeno apartamento nos arredores de Moscovo que arrenda por seiscentos euros, e isso ajuda muito. Seiscentos euros por um pequeno apartamento nos arredores de uma cidade onde os salários auferidos, apesar de superiores aos do resto do país, são ainda assim baixos. Incrível. Mas já sabia que Moscovo é uma das cidades mais caras do mundo.

O Neri tinha-nos ajudado a desenhar umas letras num cartão a dizer “Por favor dê-nos boleia” e também escreveu no meu caderno a mensagem do costume: Sou da Europa e estou numa longa viagem pela Ásia, e por isso não tenho muito dinheiro para andar sempre de autocarro. Vou para XXX. Se for nesta direcção, pode levar-me e deixar-me a caminho? Obrigado”. Assim, no dia dezoito, acordámos às seis da manhã, e pusemo-nos a caminho para o que seria a minha primeira experiência boleiante chinesa.
               
Tinha visto no google maps onde apanhar o autocarro que nos deixaria perto da autoestrada. Caminhámos quase uma hora, apanhámos o autocarro, e percebi logo que algo ia mal, porque não estava a ir pelo percurso que o google maps mentiroso tinha dito. Deixou-nos numa vila qualquer, uma hora depois. Mas eu tinha visto um sinal a dizer o nome de uma cidade qualquer que ficava a caminho de Dali, o nosso destino. Pusemo-nos a caminho, e íamos mostrando o sinal, sem grande convicção. E duas raparigas apanharam-nos. Deixaram-nos num cruzamento, caminhámos mais um pedaço e chegámos a uma via rápida. Aí um senhor apanhou-nos e levou-nos dez minutos, mas já estávamos dentro da autoestrada. Uma cena diferente aqui é que a malta lê o sinal e depois diz que não vai para onde eu quero ir. Tenho sempre de insistir, e dizer “só um bocadinho”, com o polegar e o indicador juntos. Não sei se não se dão ao trabalho de ler a última linha onde digo que basta irem nessa direcção, se o sinal está mal escrito, ou o que é...
               
Depois deste senhor, apareceram dois rapazes passado p’rai dez minutos de espera. Não estavam muito p’raí virados, mas um gajo tem de aproveitar os momentos de indecisão e reflexão, sorrir, dizer obrigado, e suavemente pegar na mochila preparado para entrar. Estes deixaram-nos na maior espera. Estávamos numa das entradas para a autoestrada, mas passava muito pouco carro. De vez em quando paravam, mas liam o sinal e bazavam. Esperámos p’rai hora e meia, mas valeu a pena. Tamb+em tive de insistir um bocado, mas lá nos levaram, e ficámos a quarenta quilómetros do destino. Aqui, mal saímos do carro, entrámos logo noutro. Deixou-nos em Dali, apanhámos uma tuk-tuk que supostamente nos levaria para a parte velha, mas que andou um pedaço e nos deixou à beira do autocarro. ‘Tá-se bem, fomos meio enganados, mas como não partilhávamos nenhuma língua não dava para protestar muito bem. Apanhámos um autocarro e estávamos na parte velha em meia hora.
               
Dali já é daqueles sítios que um gajo curte. Não tem prédios. Mas tem turistas. E quantos! É uma cidade velha protegida a toda à volta por uma muralha com uma pomposa, bela e muito chinesa entrada em cada quadrante. Em algumas ruas tem um ribeirinho que em alguns sítios parece um mini-canal. É uma vila agradável onde não se vêem muitos estrangeiros, mas para onde, pelo menos nesta altura, parece que toda a China se desloca.
               
Quando chegámos estivemos um pedaço na descontra no quarto e depois fomos dar uma volta. Ficámos num quarto duplo por sete euros para os dois. Conseguimos baixar um bocadinho, de oito. Mas era porreiro, tinha água de graça e umas pinturas bacanas nas paredes. Andámos pela cidade, jantámos, andámos mais um pedaço até não fazermos ideia onde estávamos e voltámos p’ró quarto lá p’rás dez e tal.
               
No dia seguinte acordámos tarducho. Alugamos uma bicicleta para cada, pedalámos até ao lago, almoçámos num tasco, e fomos descobrir as redondezas do décimo sétimo maior lago de água doce da China. Curti muito. Fomos andando sempre o mais próximo possível do lago, por estraditas de terra, uma ou outra de alcatrão, pelo meio de campos, escada acima escada abaixo; passámos por um sem número de pequenas aldeias, onde notei nitidamente que os chineses eram mais simpáticos, respondendo quase sempre ao meu “niáo”.
               
“Puff, fíííííí”, ouvi. Pela primeira vez na minha VIDA rebentara-se-me um pneu. E estava bué de longe de Dali. Já me estava a ver a caminahar duas ou três horas. Mas felizmente havia ali uma oficina a trinta metros. Grande timing, sorte dentro do azar. O gajo mudou-me aquilo, perdeu ali p’rai meia hora e levou-me cerca de cinquenta cêntimos.
               
Pedalámos até encontrarmos a estrada principal e, já cansados, voltámos para trás. Estávamos a dez quilómetros de Dali. Mas tinha sido mais custoso do que parece, porque tínhamos feito essa dist;ancia por caminhos deveras turtuosos. Descansámos uma hora e tal no quarto, o suficiente para eu ler tudo acerca da vergonha do Mourinho. Incrível como é possível ser tão estúpido. Para quem gosta de se orgulhar dos feitos de outros tugas deve estar a começar a sentir-se um bocado embaraçado com estas atitudes. Disse o meu querido Artur Agostinho uma vez numa entrevista à RTP, poucos meses antes de morrer: “Irrita-me quem não sabe ganhar. Mais do que quem não sabe perder, irrita-me quem não sabe ganhar.”. Este gajo, cujo valor táctico reconheço, nunca soube nem ganhar nem perder. Nunca soube ganhar por manter aquela arrog;ancia à qual o pessoal (eu incluido(( às vezes até acha piada, não sabe ganhar pela maneira como (não(( festejou a Liga dos Campe:oes pelo Porto (e não me batam couros de Pintos da Costa e não sei quê((, pela maneira como após ganhar a Liga dos Campe:oes pelo Inter diz logo, ainda se bebia champanhe, que queria ser o primeiro a ganhar a Liga com três equipas diferentes. E perder. Nunca soube, mas aí não tem estilo nenhum, parece um puto. “A Supertaça de Espanha não é um troféu importante”. Peço desculpa, sei que isto é tudo menos um blog desportivo.
               
Descansados, fomos dar uma volta, conhecer o resto da vila que nos escapara no dia seguinte. Iá, curti, mas não é daqueles sítios de tirar a respiração. Encotrámos um sítio fixe para comer, comemos, bebemos um chá à conversa, e voltámos para o quarto.

Hoje acordámos, caminhámos até à estrada, apanhámos uma mini-boleia em meia hora. Depois outra de meia hora, e finalmente a tercira, de onde agora escrevo, que acho que nos vai levar direitnhos até Lijiang. Fixe.

vinte de agosto de dois mil e onze, catorze e vinte e dois
algures entre Dali e Lijiang

as fotos ficaram tortas, mas agora nao posso corrigir isso. desculpem... inclinem a cabeca







sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Kunming


o meu teclado flipou um bocado. entretanto arranjei um sistema de o corrigir, mas este texto nao foi corrigido. mas nah ha crise.

Dia quinze acordei... ahaha, esquece, não acordei nada, porque não dormi. Com a cagufa de não conseguir acordar (sendo que não tinha despertador((, fiquei acordado toda a noite, a ver a minha série-metadona (sou um bocado viciado em séries, e quando não consigo as minhas mata-se o vício com outras que noutras circunst;ancias nunca veria((, a escrever, corrigir e ordenar fotografias e vídeos, pesquisar cenas na net. E essas cenas todas.
               
Quando me arranjei, saí lá p’ra fora, onde me sentei à espera. Via os monges budistas ao fundo da rua na sua rotina matinal de ir buscar a comida a quem a oferece. Não é o mesmo que esmola, e o que eles fazem não é pedir. A primeira vez que vi foi na Tail;andia. E o que mais me interessou foi, não só a prontidão, mas também a preparação da malta em dar. Isto é, os monges não aparecem e o pessoal vai tipo “hei, ok, já que queres comida, toma lá” - ao invés, o pessoal muitas vezes já os espera e tem uma banquinha com a comida.
               
Tive uma conversa interessante com a Sofia em Bangkok, que não sei se cheguei a partilhar aqui. Vendo a chavalada vestida de laranja, a Sofia questionou a eventual escolha, ou a falta da mesma, daquele estilo de VIDA. Eles vão para o mosteiro quando são jovens, não escolhem ir, não escolhem ter aquele estilo de VIDA. É justo? É, acho que sim. É que, em primeiro ligar, ser budista não é algo horrível e que cabe aos desafortunados, malucos ou inadaptados à procura de uma escapatória fácil. Um budista é alguém que, à partida, se foca em existir, primordialmente. Tem como prioridades a consciência da existência de uma forma que não haja como muitos de nós, roboticamente; e levar uma VIDA que não implique o sofrimento de outros seres para que a felicidade seja alcançada. É um milhão de vezes mais profundo que isto, mas só quero elucidar o que está por detrás de algo que em Portugal não entendemos. Lembro-me de ser puto e um filho de um amigo do meu pai tornou-se Hare Krishna. Apesar de nunca ter conhecido o méne, lembro-me de, na minha inocente ignor;ancia, pensar quase como se o gajo tivesse morrido. Tipo “hei coitado, porque é que será que enveredou por um caminho assim?”>. Concerteza na altura não sabia usar palavras como enveredar, mas de todo o modo, acho que reflecti um bocado a mentalidade que temos para alguém que segue por caminhos diferentes. Eu era um puto, e apesar de me gabar de sempre ter tido uma mente própria, nessa altura era tão novo que acho que reflectia apenas algumas características da nossa sociedade e cultura que nos são impostas.
               
Agora se é justo que os putos não possam escolher ir, ou não, quando novos, para uma escola budista... Pensemos assim... É justo que não tenhamos tido escolha nenhuma em levar um estilo de VIDA muitas vezes marcado pelo consumismo, pela inevetável associação a dinheiro e felicidade, por uma dieta que implica a morte ou abuso de milh:oes de animais e do esgotamento dos recursos naturais da terra, que vivamos numa constante competição uns com os outros pelo melhor carro, casa ou hábitos? Não, não é lá muito justo.

Enquanto observava a chavalada apareceu uma senhora a vender arroz. Só isso, arroz. Se calhar por causa do sono, só negociei um bocadito e comprei p’rai um quilo por quase um euro. Comi quase tudo. É que o arroz no Laos é fixe. Chama-se sticky rice, que em português seria algo como “arroz pegajoso”. Eu sei, é um termo que não agrada muito. Mas basicamente são nacos de arroz que um gajo come sem problemas com a mão. Pode amassar e fazer uma bola e morfar aquilo. Curto.
               
Chegou o tuk-tuk e levou-me p’rá estação, onde esperei quase uma hora pelo autocarro. Ui como me deitei confortavelzinho naquilo. Não era tão pax-pix como os que apanhei no Vietname, mas tinha mais uns centímetrozinhos para as pernas que faziam toda a diferença. Ah, e em vez de um cobertor tinha um edredão. Excelente. Deitei-me embrulhei-me e dormi com qualidade de sono de cama, p’rai seis horas.
               
A fronteira do Laos para a China foi a mais sofisticada por onde passei. Qual preencher aqueles papéis com a nossa informação? Um gajo mete o passaporte na máquina e o papel sai já preenchido. Além disso um gajo pode avaliar o desempenho da pessoa que controla o nosso passaporte, carregando num botãozinho com uma escala em smiles. Fixe.
               
Entrámos na China, e passado um pedaço parámos uma hora numa vila qualquer. Nada a ver com o sudeste asiático, muito menos com o Laos. Parecia uma vila portuguesa, só que na China. Não curti. Jantei por cinquenta cêntimos e seguimos caminho.
               
Cheguei a Kunming, a minha primeira paragem chinesa, às cinco e tal da manhã. Viajar aqui não é tão fácil como noutros sítios. É que está tudo em chinês e é, para já, o pior país que visitei em termos da malta falar inglês. Perguntei a uns miudos para onde ia aquele autocarro, eles não me percebiam, mas apareceu outro méne que até falava inglês. Disse para entrar, e esse autocarro, que ele pagou, deixou-nos perto da estação de comboio. Eu sabia que autocarros tinha de apanhar até o meu destino, mas não sabia onde. O meu “amigo” perguntou a um homem que queria que eu pagasse para me levar à paragem. Ódio pelo oportunismo – check. Eu disse que não, mas o meu “amigo”, passado um bocado, deu-lhe uma nota qualquer, e lá fui com o cota. Comi qualquer coisa e apanhei o autocarro. Não estava, e não estou ainda, impressionado com a simpatia chinesa – não tenho visto muitos sorrisos, e muitas vezes o pessoal nem me ouve. Não falam inglês, ok, mas há outras maneiras de comunicar.
               
Pedi a um rapaz para me dizer quando era a minha parada, e quando ele assim o fez, saí. Estava onde o Neri, o meu anfitrião italiano, me tinha dito para o esperar. Tentei ligar-lhe mas o gajo não atendia. Quando mostrava o papel com o número, uma senhora reparou na morada, uma linha abaixo, e apontou p’ráli. Fui caminhando e perguntando, até que fui ter à porta. Bati e vi o Neri a abrir, surpreso. Achei piada àquilo, porque geralmente eu não sou nada bom em orientação, e tanto ele quanto a malta que lá estava ficaram bastante impressionados com eu ir ter direitinho ao apartamento. E fiquei a pensar nisso. É que sei que nós agimos de acordo com a estória que nos escrevemos. Algures ao longo do caminho, muitas vezes devido a acontecimentos aleatórios, decidimos que é assim que somos e não só nos entregamos às (aparentes(( evidências, como até temos algum orgulho em ser assim – tipo aquelas falhazinhas que achamos que precisamos de ter para ter mais personalidade e ser alguém mais singular. E desse dia até hoje, tenho prestado atenção, e tirando hoje que me enganei numa direcção por quarenta e cinco graus, tenho estado bastante bem. Vou mudar.
               
E quem é qiue estava no apartamento, quem? A Lena, outra vez. Acaba por ser curioso... Comunicámos primeiro no Camboja, mas não nos encontrámos porque ela andava dois dias À minha frente.. Encontrámo-nos depois no Vietname, em Hánoi. Depois outra vez em Vientiane, no Laos. Depois em Vang, Vieng, ainda no Laos. E na China, por acaso, estávamos a ser albergados pelo mesmo gajo!. O Neri estava a albergá-la e também ao Ilias, seu amigo e a Amy, uma canadiana de vinte e dois anos muito bacana. A Amy ia apanhar um avião na madrugada seguinte para Hong Kong, e a Lena e o Ilias iam apanhar o autocarro para Nanning. Deixei as cenas, e saí com eles, para ir comprar uns sapatos e dar uma volta pela cidade.
               
O Neri deixou-nos e fomos primeiro ao hostel onde a Amy tinha dormido na noite anterior. É que a miuda anda a viajar com o Tom, um chinês que estuda consigo no Canadá, mas tiveram uma tripe e ela bazou. A Amy está há dois meses na China e vai viajar dois anos. E o Tom veio com ela e volta ao Canadá brevemente. Aparentemente o rapaz é um bocado demasiado protector, e quando ao longo da sua viagem, eles econtraram outros viajantes com quem beberam uns copos e curtiram, ele ficou um bocado ciumento. “Eu nem te conheço!”, disse ele, a dada altura, chocado por ela gostar de passar um bom bocado. São daquelas diferenças...
               
Uma vez, em Birmingham, alberguei uma rapariga adorável, de Shanghai. A pessoa mais pura que já conheci. Demo-nos bem, ela curtiu os meus amigos, e acabou por se juntar à nossa trupe no Algarve, quando fomos todos passar dez dias no meu apartamento em Quarteira. Aos vinte e um anos a miuda era virgem, não sabia quem eram os Nirvana, uma banda que, goste-se ou desgoste-se, qualquer jovem conhece, não sabia o que era Martini e não sabia como funcionava um isqueiro. Incrível! Mas segundo ela, é normal na China. Acho que ela viu no nosso grupo uma lufada de ar fresco, e sem ser encorajada, permitiu-se experimentar isto e aquilo, num seio onde se sentia à vontade e protegida. E disse-nos que os amigos chineses ficariam fora de si se vissem o nosso estilo de VIDA. O meu pai já se deve estar a passar ao ler isto. Mas como disse, a rapariga queria experimentar, por exemplo, ficar alegre – eu não sou pai dela, tudo o que eu podia fazer era adverti-la para ter cuidado se era a primeira vez, para não tombar p’ró lado.
               
Talvez para se redimir, o Tom apareceu na esplanada do hostel com uma garrafa de vinho e amêndoas. Ficámos lá um bocado na descontra e depois fomos ver a cidade. Nada a apontar. Mesmo. Ora aí está um sítio onde nunca mais voltarei – Kunming. É uma cidade com prédios. Demos umas voltas, eu comprei umas sapatilhas por quatro euros, mais umas voltas, comemos, fomos ter com o Neri.
               
-Que fazer, que fazer? – disse o Ilias. O gajo tinha bom feeling. Batalha um bocado com o inglês, mas não o suficiente para impedir uma conversa.
-Pá vamos andando e vendo a cidade – respondi, ainda que a sua questão tivesse sido mais retórica.
-Não, não é isso... não sei se vou para Nanning ou fico mais um dia... – respondeu. Quando referi o facto de já ter comprado o bilhete, disse que não era assim tanto dinheiro que perdia.
-Além do mais... acho que ela [a Lena[[ já não está muito a fim de andar comigo...
-Porque é que dizes isso?
-É uma sensação.... não disse nada, mas é o que sinto... – eu disse-lhe que, se ele ficasse, eu ia daí a dois dias para Dali, e ele podia vir, se quisesse. Adverti-o que ia boleiar, e ele disse ok. E acabou por ficar. De certa forma, é como se lhe tivesse roubado o amigo.
               
Costumo dizer que sou uma puta emocional. Se não vou com a cara de alguém, essa pessoa pode falar comigo um minuto e chega para eu passar a gostar dela. Não posso dizer que morra de amores pela Lena, mas nesse dia aligeirou um bocado o que sentia. Mas continuo a achar que tem cenas que não curto, tipo uma pequena arrog;ancia e alguma estranheza. No dia seguinte, quando ia para o parque com o Ilias, perguntei-lhe que é que tinha sido aquela cena em Vang Vieng, quando passou por mim e não disse nada. Ele disse que quando passaram, ela disse que achava que era eu. Quando ele disse para irem confirmar, ela disse que não, para seguirem. Voltaram para trás após a insistência dele.
               
-Ela é meio estranha... – disse. Enfim, cenas. Sem import;ancia.

vinte de agosto de dois mil e onze-sábado-catorze e trinta e quatro
algures entre Dali e Lijiang