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sábado, 8 de outubro de 2011

Erlian


Chegado a Erlian, saí do camião e a primeira coisa que fiz foi torcer o pé. Limpinho. Abri a porta, apoiei-me num degrau, saltei e PAU, no chão. Rastejei até ao passeio e fiquei lá um pedaço. Mas para quem já andou de muletas cinco vezes aquilo foi coisa pouca. Assim, cambaleando um bocado, vi um Dicco’s, que parece ser a cadeia de fast-food mais popular na China, pelo menos tirando as outras que são populares em qualquer lugar. Lá tinham internet, e passei umas horas no forum online da lonely planet, onde pesquisei acerca de sítios para dormir, como chegar a Ulan Bator, e acerca do visto. Parecia que só um gajo é que mencionava os quatro dias úteis, toda a outra informação dizia que demorava de dez a catorze dias, e que a embaixada russa na Mongólia era das piores do mundo. Espetacular. O meu coração caiu um bocado. Tão perto, e ia falhar outra vez. Mas... porque é que era assim tão importante? Porque é que me predispus a atravessar o continente de ponta a ponta? Foi um desafio, simplesmente. Queria partir numa viagem que fosse algo mais do que andar um pedaço, apanhar um avião, andar um pedaço. Queria que tivesse uma identidade pré-estabelecida, uma identidade que ainda assim não roubasse muita flexibilidade. Queria algo pleno, e Portugal a Singapura pareceu-me bem. Mas depois isso falhou, com as culpas para o governo chin;es. Isso falhou e tive de voar para a Tailândia. Novos planos, e ali estava eu, na fronteira da China com a Mongólia, perto de perceber que os tinha falhado.
               
Tentando não stressar muito, saí do restaurante e caminhei ao frio em direcção à estação de comboio. O comboio... ainda tinha esse problema. É que pelos vistos a maneira de chegar até Ulan Bator era ir até Zamyn-Uud (a primeira cidade mongol depois da fronteira), esperar um bom bocao na fila da estação de comboio e comprar um bilhete para Ulan Bator. Mas isto era caso eu conseguisse chegar de manhã. Ora o meu visto mongol só estaria pronto à tarde. Ou seja – não havia hipótese. Queria dizer que, à partida, conseguia o visto na segunda, mas só podia apanhar o comboio na terça à tarde, e chegava a Ulan Bator quarta! Estava tudo a ir por água abaixo...
               
Encontrei o hotel, vinte yuan por noite. Ok. Fui jantar. Era sexta-feira, curtia encontrar alguns estrangeiros para ir beber uns copos. Caminhei uma hora a ver se encontrava algum bar, mas a China não tem bem esse estilo, pelo menos em sítios menos turísticos. Ao que parece o pessoal junta-se nos restaurantes ou bares de karaoke. Mas é só pessoal chin;es, que geralmente não fala ingl;es. Não encontrando ninguém, voltei para o quarto e vi uns episódios até adormecer.

Passei o dia seguinte... bem, passei os dois dias seguintes da mesma maneira, sem grande diferença. Acordar lá p’rás onze, ir almoçar nas calmas, depois passar toda a tarde na internet no Dicco’s, ir jantar, dar uma caminhada e voltar para o hotel. Foi isto, assim de repente.
               
Mas a diferença foi que no sábado deixei a preocupação desaparecer, lá para o final da tarde. Não é que estivesse a morrer de aflição, mas estava um bocado desiludido. Mas já percebi o meu padrão. Acho que stresses pequenos não t;em importância p’ra mim. Stresses maiorzitos (mas que também não são nada se virmos as coisas em perspectiva) como perceber no Nepal que ia ter de voar ou perceber na China que se calhar também ia ter de voar de Pequim para a Europa, t;em um maior impacto, e eu tento ter aqueles diálogos internos para relativizar a cena, mas aquela nuvenzita fica por um bocado. Mas percebi que mesmo com esses stresses maiorzitos, a nuvem dissipa-se passado pouco tempo, tipo um dia. Foi o que aconteceu no sábado quando estava a dar a minha caminhada. Estava frio, estava a ouvir música,  “pá que se lixe, tenho é de pensar no que posso fazer... e se não der, não deu... perco algum dinheiro, perco este objectivo de atravessar tudo por terra, mas paci;encia, não é o fim do mundo...”.
               
Assim, voltei para o quarto cheio de qualquer cena. Estava satisfeito, digamos, com o que quer que se estivesse a passar, dentro e fora de mim. Tinha curtido muito a minha caminhada a ouvir vezes sem conta “Time of My LIFE” e sentia-me presente em mim como tantas vezes antes, e escrevi um texto sobre isso mesmo...

No domingo descobri que havia algo que eu podia fazer. Continuava a ser arriscado, mas sempre era mais confortável. E não sei como não pensara nisso antes. Podia mudar o bilhete de comboio. Se mudasse para dia vinte e sete, tinha nove dias úteis na Mongólia para esperar pelo visto, caso o pedisse na terça. Se mudasse para dia trinta tinha doze. Tendo em conta que a informação que eu tinha apontava para dez a catorze dias úteis, continuava a não ser nada garantido, mas sempre era melhor... Ok, fiquei esperançoso. Tinha de chegar à Mongólia na terça. Mas como? Ia ser complicado...
               
Segunda levantei-me cedo para ir pedir o visto. Cheguei lá por volta das sete e meia, e apesar de dizer na embaixada que abrem às oito, só às nove é que as portas se abriram. Claro queo facto de eu ter sido o segundo a chegar não importou nada, o pessoal enfiou-se por quanto espaço dava. A boa cena deste dia foi que conheci o Steve, um canadiano, e a sua irmã mongol adoptada. Ambos viviam na Mongólia e o Steve estava ali para renovar o seu visto. A família dele tinha uma ONG cujo objectivo era produzir fruta, algo muito difícil com o clima mongol, e tinham adoptado a rapariga há alguns anos. O fixe de os ter conhecido foi que eles disseram-me, com toda a certeza, que maneira mais simples de chegar a Ulan Bator era apanhar um comboio em Erlian para Zamyn-Uud e depois, quando dentro do comboio, comprar o bilhete para Ulan Bator. Era perfeito!
               
Tinha de me despachar a tirar o visto. Mas não deu. Tal como já tinha acontecido em alguns outros países, a senhora estranhou o meu passaporte tuga.
               
- Não tem problema, é da União Europeia, eu li as regras, não preciso de carta de convite – eu ia dizendo. Ainda assim, ela mandou-me esperar e tentou ligar para a embaixada em Pequim, enquanto atendia um italiano. Talvez por eu ter dito o mesmo mais um par de vezes, talvez não, ela desistiu de ligar para Pequim, já que estavam numa reunião, e atendeu-me, dizendo-me para aparecer à uma e meia para ir buscar o passaporte. Saí da embaixada e voei para a estação de comboio. É que os canadianos tinham comprado os bilhetes através de uma ag;encia porque muitas vezes esgotam-se. Tive sorte e ainda havia. Comprei os bilhetes, almoçei e fui fazer uma última pesquisa na internet. Tinha recebido um mail da Ruth, uma mulher que já respondera a mais de vinte mil questões sobre vistos e essas cenas no forum da lonely planet. Também ela dizia que, tanto quanto sabia, demorava de dez a catorze dias. Mandei um mail a pedir à ag;encia através de quem tinha comprado o meu bilhete para Moscovo, para o mudar para dia vinte e sete, e bazei.
               
Paguei o hotel e meti-me no comboio, com a esperança de chegar de manhã cedo para ir pedir o visto. Próximo destino: Mongólia!

treze e nove-quinta-vinte e nove de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

De Pequim a Erlian



 Apesar de não estar muito positivo, a minha droga favorita mudou-me completamente. Liguei o leitor de mp3 e o Patrick Wold a falar-me sobre o “Time of you LIFE”  provocou em mim uma revolta imediata, voltando eu a pensar mais à Pedro. Pá que se lixe. Afinal de contas, que é que eu podia fazer? O meu melhor, tentar chegar lá. Se não conseguisse, não era estar a stressar que ia mudar alguma coisa. Assim, com uma sensação curiosa de estar a “ir para casa”, pus-me a caminho daquele cruzamento que ia dar à entrada da estrada. Estava a dezenas de milhares de quilómetros de casa, e ainda assim sentia que estava a caminho, e cada vez mais perto. Literalmente estava, é óbvio, mas a distância era tão gigante que faz com que ache, digamos, carinhoso, que tenha tido aquele sentimento dentro de mim.
               
Caminhei p’rai hora e meia até que escolhi um sítio para esticar o dedo. Os primeiros três carros levaram-me menos de cinco minutos cada um. Mas depois apareceu um camião que me levou um bom pedaço. Andámos cerca de uma hora, àquele ritmo alucinante que os camiões têm, e parámos num engarrafamento. De vez em quando andávamos um bocado, mas apenas para parar cinco minutos depois. Esperei pouco mais de uma hora, e depois de comer p’rai vinte pequenas maçãs que o camionista me tinha comprado, decidi que tinha me mexer. Agradeci, saí do camião e pus-me a caminho. Não sabia bem p’ra quê... talvez houvesse uma saída ali à frente ou algo assim. O dia estava porreiro.
               
Caminhei p’rai uma hora e meia. Ou seja, tinha já perdido quaxse três horas a caminhar e outra hora num engarrafamento. Eventualmente aquilo começou a desenvolver e uns camionistas convidaram-me a ir com eles. Porreiro. Deram-me para comer uma cena parecida com rissóis crus.
               
Deixaram-me na beira da estrada, apanhei outro carro e este deixou-me numa estação de serviço. Já era tarde e eu estava bué de longe ainda. Caminhei um pedaço até à saída, onde poderia fazer sinais tanto aos carros que saiam para a autoestrada como para os que nela já se encontravam, e fui mais uma vez a estrela principal daquele dia para as pessoas que lá trabalhavam. Mas um puto em particular, p’rai de dezoito anos era chato com’á putaça. O gajo estava em delírio. Veio a correr atrás de mim, sempre a gritar na minha cara, a agarrar-me, a oferecer-me cenas. Ok até podia ter boas intenções, mas o gajo estava aos berros p’rai a um centímetro da minha cara. Eu afastava-me um bocadinho, com calma, mas o gajo estava sempre a dar em cima. Apareceram os seus colegas, levaram-me para a gasolineira, trouxeram-me uma cadeira e, com o auxílio do tradutor no telemóvel, disseram que me iam arranjar uma boleia. Só que a cena é que eles não percebiam que para mim qualquer carro dava. Não tinha de ir exactamente para Erlian, tinha só de ir em frente. Que eram todos. Mas explicar isto já não é tão fácil...
               
Por isso a dada altura levantei-me e voltei p’rá saída. O gajo lá veio atrás de mim e estava todos excitado a agarrar-me pelo braço e a puxar-me de volta para a gasolineira. O resto do pessoal veio atrás. Foi uma situação caricata. Quando parecia que estavam finalmente a compreender aquilo que eu queria dizer, apareceu outra a dizer que aquele camião me podia levar. Fixe. Meti-me no camião e andei um bom pedaço. Estava sempre naquela, porque ainda não estava na G6, a estrada que eu precisava, mas estávamos sempre a passar por sinais para a mesma. Mas à quinta ou sexta vez desisti de explicar que queria ir para Erlian. É que certamente já tinham percebido isso.
               
Andámos um bom pedaço, e deixaram-me à entrada de uma estrada que circundava uma vila qualquer e ia dar à estrada que eu queria. Méne que diferença! Saí do camião e gelei. Um frio que não tinha nada a ver com Pequim. Mas estava bem, sentia-me fixe. Acho que já deu para perceber que eu tenho uma relação pecaminosa com o Frio. Vesti a camisola passado um bocado, depois o casaco, depois as luvas. Estava um grizo terrível. E os carros não paravam.
               
Lá parou um senhor com um camião todo podre. Teve de sair do mesmo para me abrir a porta por fora. Entrei e poucos minutos depois, apesar de eu lhe ter mostrado o meu sinal, percebi que ele me queria levar à estação de comboio. Mais tarde viria a arrepender-me de não ter aceite a proposta. Mas mais mais tarde, desarrependi-me, porque não fez diferença. Saí do autocarro um bocado embaraçado porque o senhor era muito fixe e pensava que estava a ajudar, e voltei à estrada. Mais uma hora, até que parou um camião. Bem, a China tem daquelas cenas que nunca vou entender... uma delas é o trânsito. Mais cedo nesse dia tinha passado por filas de p’rai quarenta quilómetros de camiões do outro lado da estrada, quando não havia nenhuma razão para aquilo. Da mesma forma, nunca cheguei a perceber a causa do engarrafamento em que tinha estado logo no início do mesmo dia. Mas agora tinha-me saído o jackpot do engarrafamento. O camião andou um pedaço, e depois parou. Mas os gajos agiam como se aquilo fosse normalíssimo. Havia uma faixa livre à esquerda, mas os gajos desligaram o motor, e ficaram ali quase duas horas a fumar cigarros. Não havia chance de chegar a Erlian.
               
Quando finalmente arrancaram, deixaram-me à saída da autoestrada. Também não percebi isso. Apontaram para o camião de outro méne que já tinha estado no camião deles e disseram que ele me ia ajudar. Esse mesmo méne já me tinha convidado para dormir no seu camião ou para me levar a um hotel, não sei... algo relacionado com dormir. Pois eu saí, meti-me no frio, fiz sinal a esse camião da frente, e nada. Bazou tudo e eu estava ali, às dez e tal da noite, cheio de frio, no meio não sabia de onde. Só tinha comido aquelas maçazitas e os rissóis crus o dia todo, por isso fui trincar qualquer coisa a uma estação de serviço ali ao lado. Comi qualquer coisa, e estudei a possibilidade de lá dormir. Estive quase a pedi-lo, mas decidi ir tentara minha sorte.
               
Espequei-me mesmo ao lado de onde o pessoal paga e ia mostrando o meu sinalzinho. O méne da portagem tinha-o lido e disse que me ajudava. Mas parecia que ele não estava a perguntar nada a ninguém e eu não estava nem com todo o tempo do mundo, nem com toda a paciência, por isso pus-me a caminho para a autoestrada. Não demorou muito até que apareceu um carro que parou. Mas o gajo parou bastante decidido, de forma que estranhei. Era a polícia. Um bacano que perguntou para onde eu ia, e quando eu respondi disse “ok”. Alguém o tinha chamado. Eu ainda sonhei que ele me ia levar trezentos quilómetros até Erlian... nada disso. Passados vinte minutos de frustrações de comunicação e de eu ter de agarrar no voltante para não batermos enquanto ele olhava para o telemóvel, ele recebeu uma mensagem que me mostrou e dizia, em português “Sou a polícia. Erlian é a trezentos quilómetros e posso levar até à bandeira”. Tinha sido uma tradução automática, claramente, mas dava para perceber.
               
Assim, o méne deixou-me em mais uma portagem, e encarregou os funcionários de me ajudaram a arranjar um carro. Que dia! Eventualmente dei por mim estendido quase a dormir numa daquelas cabines onde está o pessoal com os bilhetes, com uma rapariga muito fofinha que se desenrascava com o inglês. Tentaram arranjar-me carros, nada. Tentaram que eu dormisse no prédio ao lado no seu dormitório mas o chefe não deixava. Depois tentaram que eu dormisse lá na cabine enquanto o pessoal trabalhava, mas também não deu. A miuda saiu de turno e apareceu a polícia, que eles tinham chamado, para me “ajudar”. Metemo-nos no carro e foi com espanto que vi que, tanto a rapariga que falava inglês como outra que dava uns toques, entraram também para o banco de trás. Talvez para traduzir. Pobres miudas, trabalhavam no dia seguinte às oito e já eram quase três da manhã! Quando eu estava estendido na cabine a miuda perguntou-me se eu tinha dinheiro. Eu disse-lhe que tinha, mas que não queria gastar muito porque estava numa viagem grande. Pois no carro da polícia ela passou-me cinquenta yuan para a mão. Aquilo comoveu-me um bocado, porque era dinheiro dela e da outra chavala. Já me tinham dado dinheiro antes, mas não sei porquê, aquela miuda tocou-me. Talvez por isso, eu disse-lhe que não precisava realmente, porque tinha dinheiro, mas ela recusou a minha recusa.
               
A bófia levou-nos até um hotel. A noite eram cento e tal yuan, mas ficou por noventa. A miuda tinha dito antes que me ia tentar ajudar a arranjar um sítio para dormir sem pagar. Talvez por isso, foi com um coração despedaçado que vi a sua cara de bebé quase fazer beiçinho quando viu que eu tive de pagar. Ainda pensei que estivesse triste porque me tinha visto a tirar do meu próprio dinheiro, caso não tivesse percebido quando antes eu tinha dito que tinha, mas que não queria gastar muito, e daí pensar que eu tinha mentido.
               
- Que se passa, porque é que estás triste? – perguntei, sentando-me ao seu lado no sofá da recepção.
- Porque eu queria ajudar-te... e não consegui ajudar-te – respondeu com aquela carita de miuda.
- Ouve, isso não é verdade, tu ajudaste-me imenso, a sério, e eu agradeço-te imenso, nunca vou esquecer o teu esforço – e é verdade. Contar isto agora tira sempre o real valor à cena, ou pelo menos retrata-a sem o valor que tem. Conversámos um bocado quando eu estava a tentar dormir na cabine, e a miuda parecia mesmo ser alguém diferente e especial. Tinha vinte e cinco anos, e trabalhava ali há um par deles. Não estava feliz e queria mudar. E, felizmente como outros tantos dos seus compatriotas, predispos-se a ajudar um gajo que não conhecia de lado nenhum. Mas mais do que os seus compatriotas, p;os sentimento na cena, e foi isso que me comoveu.
               
Despedimo-nos, e eu fui dormir.

No dia seguinte acordei e meti-me a caminho. A outra rapariga que também tinha vindo no carro desenhara-me o trajecto, e segui o mesmo. Um senhor apanhou-me e quando eu lhe disse que queria ir para Erlian, mostrou-me umas caixas com o nome da mesma cidade. Fixe, percebi que estava à espera de alguém que ia para Erlian. Mas nada disso. Perdi meia hora à espera do autocarro. Bah. Lá bazei, e apanhou-me outro rapaz que me levou uma hora. As estradas era muito pouco movimentadas e isso, claro, atrasava-me. O frio era mais tolerável porque o sol raiava. Passo p’rai uma hora um carro parou e levou-me uma horita. Deixou-me numa vila, outro senhor apanhou-me, deu-me um saco de biscoitos e deixou-me passado um bocado. Eis que apareceu um camionista que me levou até Erlian. Finalment!e

quinze e trinta e cinco-quarta-vinte e oito de setembro de dois mil e onze
algures entre Ulan Bator e Moscovo








terça-feira, 4 de outubro de 2011

Pequim II



Já era bastante tarde quando encontrámos o Nicola, que nos esperava na estação do metro. Dissemos os olás e metemo-nos no autocarro, para sair menos de dez minutos depois. O Nicola vive com o Fabien e estão ambos a fazer um estágio profissional cheio de intempéries, desde chegarem lá e afinal não poderem trabalhar onde era suposto, insinuar que eles eram como os franceses imperialistas. Cenas. A experiência deles não estava  ser do melhor, tanto que tinham um calendário na parede, tipo contagem decrescente para a altura de bazar. Pá mas também é certo que, pelo que me apercebi, não socializavam de todo com outra malta... e isso não ajuda.
               
O Nicola é robusto, usa óculos e tem duas tatuagens, uma enorme de um ragão na canela e outra de uma fénix no ombro. Talvez tenha sido o destino, porque eu andava já há algum tempo com a ideia de desenhar o mapa mundo no meu antebraço. Palavra puxa palavra combinámos ir ao gajo que o tatuou. Parámos para almoçar  no sitio onde eles sempre iam e que ia fechar nesse mesmo dia, apanhámos o autocarro, metemo-nos por um mercadito adentro, e chegámos à loja, um espaço com menos de quatro metros quadrados. Quando finalmente conseguimos imprimir a imagem, o gajo disse que não ia dar no braço com o tamanho que eu queria, demasiado detalhe e não sei quê. Pensei então em fazê-la no tronco, de lado. Acordámos um preço (ele pediu oitocentos yuan, acabei por pagar setecentos – em Portugal seria pelo menos cento e cinquenta euros, sendo que tenho tatuado no antebraço apenas as letras LFDY e custou setenta euros há quatro anos). Quando o gajo parou para descansar o braço tive a ideia de tatuar também, por baixo do desenho, “made in china”, em chinês. O resultado final foi muito porreiro, apesar de alguns erros que poderiam muito bem ser evitados caso o gajo olhasse para o mapa de vez em quando. É que primeiro ele passa um marcador no papel, e cola depois o papel à minha pele, deixando as linhas por onde ele tem de seguir. Mas é uma zona delicada, por isso às vezes difícil. Mas paciência... o gajo, talvez numa mensagem subliminar a apoiar um mundo mais unido criou pequenas pontes terrestres entre o Japão e a China, a Noruega e os países bálticos e a Grã-Bretanha e a França. Mas não me importo.
               
Quando saímos esperámos um pedaço pelo Fabien e jantámos os quatro num restaurante ali na zona onde, por quarenta yuan podíamos comer e beber tudo o que quisessemos. Muito fora do nosso orçamento para refeições, mas que se lixe, era uma excepção. Estivémos lá um pedaço e voltámos para casa.
               
Seguindo a tendência quase estranha que já se tinha estabelecido, a Lena também estava em Pequim. Tínhamos comunicado pela primeira vez no Camboja, encontrámo-nos no Vietnam, no Laos e fomos albergados pela mesma pessoa em Kunming, na China, por coincidência. Nesse dia em que fiz a tatuagem éramos para ir à Muralha da China. Mas a Lena queria vir connosco, e para nós era indiferente ir nesse dia ou no próximo, por isso esperámos.
               
Assim, no dia seguinte, encontrámo-nos com ela, o Matty e a Agnes e seguimos, em dois táxis. O Matty era um franco-italiano muito porreiro que estava a ser albergado pelo mesmo anfitrião que ela. Estava numa viagem mundo fora e o seu interesse era as harpas de boca, e o seu objectivo gravar pessoal de diferentes países a tocá-la. Para quem não sabe (porque eu, pelo nome, também não sabia), uma harpa de boca é aquela cena que um gajo põe diante dos lábios, de boca aberta para dar eco, e toca agitando uma peça, de metal de madeira dependendo da harpa. A vibração da peça ecoa na boca e faz ruído. O gajo tocou um pedaço. É mais ou menos. Não me fascina, apesar de me fascinar o projecto do gajo – andar mundo fora a gravar pessoal a tocar aquilo, incrível. Eu tentei e nem um som saiu. A Agnes é uma polaca nascida na Noruega que me contactou no couchsurfing, vendo que eu era um “viajante próximo de ti”. É artista de maquilhagem (não sei como dizer isto em português) e estava na China porque, um mês depois, ia para um mosteiro de kung-fu, onde passaria três meses, com treinos todos os dias, três vezes por dia. Altamente, requer alguma coragem. Se bem que inicialmente a minha ideia foi assim uma cena tipo Kill Bill. Mas não, o sítio é confortável, não é uma cama feita de espinhos de rosas com sida ou vidros de garrafas raivosas – tem internet e tudo. Mas ainda assim, requer uma grande disciplina. E o mais interessante é que aquilo não tinha nada a ver com ela.
               
- Se calhar ouves isto a toda a hora... mas deixaste-me a pensar pá... – disse-me, alguns dias mais tarde, na internet.
- Fico contente...
- Pois, mas eu não sei se isso é bom... – respondeu.
- Claro que é bom... um gajo se pensar no que anda a fazer e no que quer fazer está numa posição priviligiada para ser feliz... – isto veio porque eu perguntei-lhe, como faço muitas vezes com pessoal com quem já desenvolvi alguma intimidade, por mais pequena que seja, qual era o sonho dela. Ela tinha respondido algo que muita gente responde, e que às vezes me parece uma resposta de quem não sabe realmente. Tipo “continuar a ser feliz” ou “estou a viver o sonho”, cenas assim. Mas eu não sou o juiz do sonho, convenhamos, por isso que é que eu sei?
               
O Nicola tínha-nos recomendado um sítio que era muito menos turístico do que Bataling, e foi para aí que nos dirigimos. Num taxi fui eu a Lena e o Ilya, e noutro o Matty e a Agnes. Eu e o Ilya tínhamos cortado um bocado na casaca da Lena, verdade seja dita, mais ele do que eu, porque a conhecia melhor. Mas nada do outro mundo. Mas o gajo no táxi estava a ser um bocado duro com ela. A pobre miuda estava a falar do que tinha feito na China e o gajo, ora se ria, ora dizia algo tipo “Pedro, a viagem dela é sempre melhor do que a dos outros...”. Eu tentava mudar um bocado o assunto e dizer na brincadeira “Ilya não sejas mau pá...”, mas foi um bocado desconfortável.
               
- Pá ‘tás a ser um grande palerma com a Lena, vê se aligeiras um bocado méne... – disse-lhe, depois do almoço.
- É difícil, passámos muito tempo juntos... mas ok, ok, eu vou tentar – respondeu. Isto foi minutos antes de nos dirigirmos para a muralha. Aquela parte era algo tipo Water Great Wall ou uma cena assim. Não demos com o sítio que ele nos disse, mas não interessa, porque curti bués. Não estava à espera de algo tão incrível. Caminhámos um pedaço ao redor de um lago, e apareceu um casal no meio do caminho a cobrar dois yuan para passarmos. Ok, siga. Seguimos caminho, subimos e a dada altura apareceu um escadote para a muralha. Meio sem saber que cena era aquela, subimos. Demais. Ainda hoje não sei se é assim barato, ou se aquilo é uma zona que não está aberta ao turismo mas os locais exploram na mesma... é que tinha um sinal a dizer “esta parte da muralha não está aberta ao turismo” - iá, parece bastante claro.
               
Foi demais muito devido ao facto de só termos encontrado três pessoas, e andámos ali p’rai cinco horas. Primeiro uns chineses, que fumavam um cigarro no topo de uma torrezita e depois voltaram para trás (não sei antes terem a oportunidade de me ver nu), e depois uma holandesa (cuja nacionalidade adivinhei só de olhar para ela) que também não seguiu muito mais. Caminhámos um pedaço e o Ilya fartou-se e voltou para trás. Não percebo muito bem a cena dele. Quando estámos com mais gente, ele desaparece. Não sei se é de não estar muito à vontade com o inglês, ou que caraças é... Mas paciência, ele bazou e nós ficámos.
               
O que eu mais curti foi o facto da muralha não estar toda retocada e impecável como me disseram que estava em Bataling. Em alguns sítios estava mauzita, e noutra parte tínhamos de nos agarrar à parede para não cair. Tinha havido um terramoto ou uma simples derrocada e aquilo... não se podia dizer que eram degraus. Também é certo que noutras partes, por mais nova que estivesse, um gajo tinha de se agarrar na mesma – tinha uma inclinação brutal. Se um gajo tropeçava só parava lá em baixo. Curti, claro, o facto de termos a muralha só para nós e curti acima de tudo as vistas que tínhamos dali. Estava nevoeiro, e se isso, por um lado, nos roubava distantes cenários, oferecia-nos um benvindo misticismo. Parámos de vez em quando para descansar, como numa torrezinha das que vão aparecendo periodicamente e onde tirámos umas fotos engraçadas – uma delas eu, nu, de costas, numa posição de yoga cujo nome não sei. Parámos também no ponto mais alto que visitámos e deliciamo-nos com tudo o que nos rodeava. Tirámos mais umas fotografias, o Matty tocou um bocado a harpa de boca. Havia uma ameaça de chuva constante, mas não se materializou em mais do que uns chuviscos.
               
Voltámos, encontrámos o Ilya e pedimos um chá, depois de alguma consideração devido ao preço. Aqui até eu achei que o pessoal estava a ser mão de vaca à força toda. Era mais a Lena, para ser sincero. O chá para cinco pessoas custava vinte yuan. Além disso o Ilya tinha lá passado p’rai três horas sem consumir nada. E ela queria pedir água quente de graça e copos, e fazíamos nós o nosso próprio chá. Não aconteceu.
               
Como voltar para casa? Não sabíamos. Não passavam ali táxis. Bem, não passava ali quase nada. Por isso foi com agrado que avistámos um autocarro ao fundo. Corri para a estrada, perguntei se iam para Pequim, disseram que sim (de uma forma não muito convincente), pedi para esperar um bocado, a malta pagou e seguimos caminho. Porreiro, não tínhamos de pagar tanto como tínhamos pago pelo táxi. O pior é que quando o autocarro nos deixou nós não fazíamos a mínima ideia de onde estávamos. E demorámos p’rai meia hora até perceber que tínhamos de apanhar um táxi que nos deixaria na estação do metro que estava a hora e meia da nossa casa. Ainda assim ficou mais barato do que apanhar um taxi da muralha até Pequim... só que demorou muito mais.
               
Chegámos à estação, despedimo-nos e eu e o Ilya seguimos por uma linha diferente dos demais. Já gostava mais da Lena. Iá é uma chavala um bocado esquisita às vezes e não gosta de indianos, mas não é má de todo. E acho que ela também me curte, pela maneira como nos despedimos – senti que o seu abraço não era daqueles de “iá méne a malta vê-se”.

Quando finalmente chegámos à nossa estação, encontrámos o Nicola, como na primeira noite, mas desta feita por acaso. Voltámos para casa e passámos o serão à conversa e a ver uns episódios de uma série nova que o Nicola me tinha apresentado. Eu também fiz alguma pesquisa sobre o visto russo. E pronto, caguei-me um bocado. É que eu tinha lido a estória de um gajo que tinha arranjado o seu visto de trânsito russo, na Mongólia, em quatro dias. Mas agora lia outras pessoas a dizer que demorava de dez a catorze dias úteis. Um gajo quanto mais procurava mais encontra cenas para se lixar. Ora era tarde demais para eu tomar a opção fácil de ir de comboio até Erlian, na fronteira da China com a Mongólia. Por isso o melhor cenário era: sair de Pequim no dia seguinte, quinta, e chegar a Erlian, à boleia, no mesmo dia, setecentos e tal quilómetros depois. Na sexta de manhã pedir o visto mongol, ir buscá-lo à tarde, meter-me à noite num comboio para Ulan Bator, onde chegaria sábado. Se pedisse o visto na segunda, dia dezanove, tinha três ou quatro dias úteis. Má onda. Pá e completamente evitável. É que não precisava de ter passado quase um mês na China. Que cena. Será que me estava a tentar sabotar? Será que, algures dentro de mim, queria fracassar? Não sei. Claro que não queria, mas parece uma cena tão simples, que tem de haver uma razão pela qual eu tinha deixado escapar tal pormenor. Claro, muita informação diferente, muito do não-saber característico de uma viagem assim. Mas de todo o modo, foda-se...

Acordei no dia seguinte, e ainda tratei de algumas cenas antes de bazar. Tinha dormido no chão e não precisei de despertador para madrugar. Não me sentia muito positivo. Mal sabia eu que essa sensação se confirmaria... É que era uma grande esticada, e pelo que tinha visto no mapa, as estradas pareciam meio merdosas. Além disso, dessa vez estava a boleiar porque realmente precisava, não porque queria poupar guito e ter uma experiência porreira. E finalmente, dessa vez, eu também precisava de chegar no mesmo dia a um sítio, ao contrário das outras vezes, quando era mais “ah que se lixe, se não chego hoje, chego amanhã”. Que aconteceu? Em vez de chegar a Ulan Bator no sábado, que era o melhor cenário, cheguei terça...

catorze e vinte e um-quarta-vinte e oito de setembro de dois mil e doze
algures entre Ulan Bator e Moscovo