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sábado, 26 de novembro de 2011

A Caminho do Luxemburgo


Segunda-feira, dia dezassete de Outubro, acordei, mais uma vez tarde para a boleia. Já me tinha despedido do Sam, que tinha saído de manhã. Arranjei as cenas, e segui caminho. Meti-me no metro, sem pagar, e saí onde em Potsdam. Tinha de apanhar o 643 ou o 608 para Michendorf Abzweig Wildenbruch. Esperei, esperei, nada. Não aparecia nada naquele quadro. Perdi uma hora assim, até que resolvi ir dar uma volta pelas paragens, apenas para perceber que já tinham passado -N- autocarros que me interessavam. Mas por alguma razão não apareciam no quadro que eu estava a acompanhar. Assim, meti-me no autocarro, e saí passado p’rai três quartos de hora. Quando saí, uma senhora de alargado porte e um carrinho daqueles das compras com rodinhas chamou-me. Disse-me que se eu estava à boleia, estava a ir no sítio errado. Fui com ela, que andava à boleia entre Berlim e a terra da sua mãe à vinte anos. Caminhámos vinte minutos, entrámos por uma porta que devia ser uma saída de emergência ou algo do género da estação de serviço, e metemos mãos à obra. Ela ia para um sítio diferente do meu, por isso era na boa. E arranjou logo boleia com o primeiro carro.
               
- Toma, – disse-me, estendendo-me o seu marcador – vais precisar mais disto do que eu, porque eu já vou com este carro – porreiro. Se bem que não acredito muito em sinais. Toda a gente os usa, mas deve-se contar com os dedos das mãos as boleias que apanhei por causa de um sinal...
               
Interpelei algumas pessoas na estação de serviço, mas não me pareceu grande espingarda aquilo. Assim, fui para a saída que dava para a autoestrada. Estava lá um rapaz que ia para Munique, e um cota que ia para o norte. O rapaz safou-se em meia hora, e eu e o cota ficámos lá um bom pedaço. às tantas fui mijar, e quando voltei o cota já não lá estava. Já tinham passado mais de duas horas, e eu ainda sem sair daquele malfadado sítio, pelo que decidi voltar para a gasolineira, onde podia falar com as pessoas. E lá consegui.
               
A vantagem da boleia na Alemanha, é que um gajo até pode esperar muito, mas depois quando entra num carro vai a voar a duzentos à hora. Cago-me um bocado, para dizer a verdade. O rapaz que me levou era um porreiraço. Era cozinheiro em Bremen e tinha vindo a Berlim para encontrar uma amiga de infância com quem tinha reatado uma relação de amizade (“mas se desse algo mais, se calhar não me importava”, dizia) através da internet. Ia um bocado desiludido porque não tinha passado muito tempo com ela. Tinha ido ver uma peça de teatro onde ela participava, mas como ele, tinham ido também os pais da dama, que lhe roubaram o tempo de convivência ansiada. “Paciência, volto p’rá próxima”.
               
Andámos um bom pedaço, e cheguei a equacionar ir com ele até Bremen e depois arranjar boleia para Hamburgo, onde quem sabe poderia ficar com um amigo do meu pai. Mas ia ser um desvio, preferi seguir.
               
Quando ele me deixou não demorei muito a apanhar boleia de uns polacos. Estes deixaram-me numa estação de serviço perto de Dortmund. Mas já era tardíssimo. Eram p’rai dez e tal da noite. Se conseguisse chegar a Dortmund ia ser p’rai onze da noite ou mais tarde que isso, e não sabia se não seria chunga para o meu anfitrião. Assim, sem saber que seria de mim, decidi seguir, e acabei por apanhar uma boleia com um alemão, ciclista profissional que tinha ficado em centésimo não sei quanto na tour de france, e que me deixou fora de Liege, na Bélgica. Aí percebi logo que estava tramado. Ninguém ia para o Luxemburgo. Estudei a cena, havia ali um canto meio escondido, escrevi qualquer coisa, meti a mochila debaixo do meu sofá com a minha perna enfiada na alça, e dormir até à manhã seguinte.

quarta, dezasseis e trinta e oito, dezasseis de novembro de dois mil e onze
Furadouro, Portugal

domingo, 25 de setembro de 2011

A Caminho de Chengdu



Dia vinte e seis começamos a nossa jornada de Lijiang até Chengdu, oitocentos e tal quilómetros. Foi uma viagem que nos levou três dias, canseira e paciência, mas curti bués. De autocarro demoraria “só” vinte e quatro horas, mas apesar disso, não sinto que nenhum segundo foi desperdiçado. Porque, para mim, viajar é isso. Ou é muito isso – andar sem saber como vai ser a próxima hora, em que meio de transporte, com quem; olhar à volta e sorrir por estarmos sozinhos no meio de uma montanha há mais de uma hora à epsera que passe um carro, só um, e que tenha a bondade de nos levar; de passar por estradas que ladeiam montanhas, vilas, ranchos e cenários que certamente nada mudaram desde há centenas de anos.
               
Tive um bocado de tudo isto, e isso mandou a China ali para o Top Três dos meus países preferidos. A Graciete diz que se “encanta” (cara de envergonhado) com a maneira como não acuso o número de países que já vi, nomeadamente em ser mais exigente e difícil de agradar. Pensei nisso um pedaço. É certo que tento abrir-me completamente para novos cenários e culturas, e isso faz com que o meu nível de curtição ande ali sempre a bombar. Mas por outro lado, acho que até os mais enjoados abririam a boca com as paisagens do sudoeste chinês. Ok, não tem tantas manicures onde servem champanhe e morangos, mas acho que é muito difícil não curtir.

O dia boleiante não começou muito bem. Acordámos cheios de sono e, tal como alguns dias antes, vimo-nos gregos para sair da cidade. É que o pessoal tem a bela da mania de, mesmo quando não sabe determinada direcção, apontar p’ráli e dizer “siga”. Infelizmente isso não é exclusivo da China. Então perguntámos lá a um méne onde era Numseionde e o gajo mandou-nos quase meia hora para trás. Apenas para depois voltarmos. Andámos meio sem saber onde estávamos um pedaço, e só passado duas horas chegámos à saída da cidade.
               
Fomos esperando mais ou menos quinze minutos entre cada carro. As estradas eram horríveis, e p’rai no quarto carro passámos por uma estrada onde tínhamos de andar p’rai a vinte à hora, ou até menos. Esse deixou-nos no meio do nada, arrisco-me a dizer – literalmente. Um pedaço de terra onde passava um carro a cada vinte minutos. Daquelas situações que fazem um gajo rir de tão peculiares. A dada altura passou um cota, bem devagarinho, mas limitou-se a sorrir e a apontar para a esquerda. Grande couro. Não nos queria era levar. E foi aqui que se passou algo interessante, uma espécie de carma dificil de ignorar. É que quando o cota passou e riu-se e tal mas ainda assim não nos levou, o meu primeiro (e único) instinto foi mandar-lhe um grande dum mangalho. Mas resisti. Resisti porque apesar de tudo era só um carro... Porque um gajo quando começa a boleiar não se sente logo frustrado, e é ignorado por um, dez, cem carros, e é tudo tranquilo. Mas a dada altura começa a flipar um bocado e apetece mandá-los todos para uma eventual mãe que os tenha dado à luz – mas é importante não esquecer que apesar daquele carro para mim ser o milésimo, eu para ele sou o primeiro. Assim, a custo, resisti. Enão é que passado dez minutos ele apareceu outra vez – tinha-se arrependido e veio para trás buscar-nos. Fiquei contente, porque se lhe tivesse feito o mangalho bem que podia esperar mais um bom pedaço.
               
Entrámos no Land Rover do cota, demos um par de curvas e PAM! Beleza. A estrada descia a montanha, aos S’s, com calma. O rio lá em baixo aguardava uma travessia nossa, o céu dava-nos o seu melhor e as montanhas tinham as vestes de gala. Adorei. Tinha de ter a cabeça de fora do carro, tinha de tirar fotografias, filmar, tinha de tudo. Tinha de fazer tudo que me permitisse embrulhar aquelas vistas e trazê-las na mochila para depois mostrar à malta.
               
Andámos com o cota um bom pedaço, p’rai hora e meia, até que parámos para almoçar. E que almoço. Encheram a mesa, e quando já estávamos espantados com a quantidade de comida, aparecia outra cena qualquer. Arroz, sopa de legumes, dois tipos de cogumelos com especiarias e vegetais, carne, ovos mexidos com tomate, tofu e outras cenas. Mas ainda assim, foi quase tudo. É que aqui o menino não deixa nada.
               
O senhor deixou-nos na primeira “grande” cidade depois de Lijiang. Fui perguntando à malta as direcções para a segunda – Yanyuen. Dizer que estávamos com o pé atrás é um eufemismo. É que apesar de toda a gente nos mandar para o mesmo sítio, esse sítio era uma estrada onde mal cabiam dois carros e que entrava, mais uma vez, montanha adentro. Então que era feito daquela estrada toda jeitosa que o google maps mostrava? Era aquilo, infelizmente. Como tinha guardado o mapa no computador, tive de confirmar. Estávamos abrigados da chuva debaixo de um telheiro. Iá, era aquilo. A estrada parecia que era mais uma estradinha por uns vinte quilómetros. Muito me enganas... Vinte quilómetros em linha recta, ok... Mas demorámos mais de três horas a chegar à próxima estrada principal que tinha mais buracos que a cara de um adolescente...
               
Como não passava nada, que se lixe, ‘bora caminhar. Caminhámos p’rai meia hora, as casas desapareceram e a estrada transformou-se num caminho de brita. Seguimos com um cota que também ia a pé. Passou um camião que levava calhaus para uma construção qualquer, pedimos para entrar, disseram que não, o cota disse qualquer coisa, e eles pararam e entrámos os três na carroça. Andámos dez minutos, e de volta ao penante. Seguimos caminho, e passou uma carrinha. Fixe, levou-nos. Fomos dentro do contentor na parte de trás sentados numas caixas de cervejas p’rai meia hora, convencidos que nos ia deixar naquela estrada que parecia jeitosa e “já ali”. Como diria a minha avó – p’óch! Pararam, iam seguir para a direita. E nós queríamos a esquerda.
               
Lindo, pá. à nossa frente tínhamos uma estrada de alcatrão negro, a contrastar com a terra vermelha da montanha. Parecia que a estrada acabava já ali à frente e o mundo engolirnos-ia. Mas não desapareceríamos sem mergulharmos no arco-íris que avistávamos sem esforço ali ao fundo. Demais. Caminhámos sorridentes tanto com o cenário que nos abraçava desde milhares de metros de altitude, como com, mais uma vez, aquela situação, de estar nao sabíamos bem onde, à mercê não sabíamos de quem.

Caminhámos mas percebemos que aquilo não valia a pena. Um bloco de pedra dizía-nos que estávamos no quilómetro treze. Pá não devia ser muito mais. Mas era. E, como já disse, na China parece que os quilómetros se multiplicam. Caminhámos um bom pedaço e só depois apareceu a placa catorze. ‘Tás é tolo. Caminhámos mais cem metros e deitamo-nos, a mochila como almofada, o mundo como pano de fundo.

Mas passou um carro. Nem demorou muito, só p’rai quarenta minutos. “Vais para Yunyan? Boa cena”. E lá fomos. Uma carrinha tipo Hiace com dois homens simpáticos à frente e um puto atrás. Mais uma grande corrida. Passámos por riachos, vilas e, para mim o mais impressionante, grandes vales onde se viam casas de madeira lá ao fundo, onde certamente o pessoal vivia quase da mesma forma que há centenas de anos. Pá tinhas uma montanha enorme, sem estradas sem nada, e vias do outro lado uma casa assim, como que se lá tivesse nascido, umas plantaçõezitas e algo que parecia albergar um ou outro animal. Lindo. Cabeça de fora, o Ventona fuça, o calor no coração. Siga.

Mas aquela estrada. A pior de toda a viagem. N.ao sei como é que o gajo conseguia fazer aquilo. O meu Clio ficava no primeiro buraco. Passado a primeira hora um gajo já começava, ainda que ainda a sorrir, a pensar “Ok se calhar já parávamos de andar às cabeçadas no tecto...”. Mas é daquelas cenas.

Mas acontece que o gajo não ia para Yunyan. Deixou-nos p’rai a cinquenta quilómetros. Mas foi fixe, andámos bués. Deixou-nos numa aldeia minúscula. Abrigamo-nos no telheiro de uma loja, talvez a única da aldeia, onde algum pessoal jogava cartas e fumava cigarros cá fora, tão admirados de nos ver como eu de estar ali. Uma chavalinha arranhava inglês. Disse-nos tal como tantos locais em tantos países, que era impossível boleiar. Disse-nos também que a aldeia tinha duzentas pessoas. Isso na China é como em Portugal uma aldeia ter uma pessoa, ahah. A rapariguinha também nos arranjou uns banquinhos e lá estávamos sentados, levantando-se um, à vez à vez, quando passava um carro. Sacámos boleia do quarto – o pior condutor da história. Ia dizer “o tipo de condutor que blá blá blá” mas esquece. Não há tipo para este condutor. Este condutor andava p’rai a setenta à hora com buracos que eram meninos para destruir o eixo do seu jipe todo fino. De vez em quando ele soltava um “ui, ui...” mas isso não o impedia de continuar. PAU PAU PAU! Ah, eadorava conduzir sem usar o limpa pára-brisas, apesar de estar a chover constantemente. E quando usava, não o ligava, como toda a gente. Não, ele fazia como se não houvesse opção de automático. Tipo rodava a cena, rodava outra vez para parar. E assim sempre. Só quando estávamos a chegar é que se lembrou do automático. Enfim. O que é certo é que nos levou. Desculpa lá condutor, não queria parecer ingrato.

Pois o méne deixou-nos numa cidade a dez quilómetros de Yanuyan. O nosso destino final ainda estava muito longe, era Chengdu, que ainda era a seiscentos e tal quilómetros. Quer dizer que só tínhamos feito duzentos e tal nesse dia. O Ilya estava com a pica de seguir, mas eu não estava a adivinhar sucesso. Estava a chover, não passavam carros, e eram p’rai nove e tal da noite. Num compromisso, decidimos esperar mais meia hora. Se não desse nada, ficávamos no hotel ali ao lado. Como sempre, enquanto esperávamos fomos rodeados de pessoal, o que nem sempre ajuda e às vezes até irrita um bocado, mas tudo tranquilo. Um méne falava inglês e até era fixe. Não apareceu carro nenhum, por isso instalamo-nos no hotel. Depois de deixar as cenas, fomos comer qualquer coisa. O Ilya, apesar de ter mostrado a sua mensagem a dizer que era vegetariano recebeu comida, ok, sem carne, mas com sopa de galinha. Infelizmente isto aconteceu p’rai dez vezes.
               
Jantados, voltámos ao hotel. O Ilya tinha ficado p’ra trás, por alguma razão. “Pêdra, Pêdra”, ouço-o chamar-me. Estava entusiasmado. E que era? Bem, era a lojinha do méne que falava inglês. Era um chinês p’rai da nossa idade, com calças de fazenda e um blazer até porreirinho. Tinha uma loja mesmo ali perto de onde o mau condutor nos tinha deixado. O Ilya chamava-me todo excitado da loja onde tinha entrado por alguma razão.
               
- Olha o que o gajo vend!e – dizia, apontando para... apontando para comprimidos de viagra, vaginas de plástico, vibradores, bonecas insufláveis, lingerie daquela de comer, sei lá, tanta cena quanto um gajo pode pensar. E ali, naquela vilita, naquela lojita de um metro por três. Demais, partimo-nos a rir e fomos bem dispostos para o quarto.

                No dia seguinte acordámos, tratámos das cenas do costume e pusemo-nos a caminho. Primeiro um carro, depois outro e estávamos em Yunyan. Mas estávamos dentro da cidade, má onda. Fomos caminhando um bom pedaço e lá apareceu alguém que nos tirou daquele martírio. Andámos o dia todo, sempre de vila em vila. De vez em quando aparecia um trecho bacana que dava a entender que se ia estender por um bom bocado, mas rapidamente acabava e eram mais estradas, que nem eram más, mas só de uma faixa, e passando por vilinhas. A dada altura estávamos numa vila e quando chegávamos estavam três ou quatro putos a brincar p’rai a cinquenta metros, e um homem a fumar cachimbo perto de nós. Esperámos meia hora por uma boleia, e quando bazámos estavam lá, sim, eu contei, vinte e cinco pessoas. Tudo abismado, sorridente e curioso com aquelas almas que por ali apareceram.
               
Quando o sol já se punha apanhámos o camião mais lento da China. De sempre. Íamos quase sempre a trinta ou menos, e parávamos a cada vinte minutos. É melhor que nada, eu sei. E ao longo de todo o caminho uma autoestrada imensa, quase uma ponte gigante – acho que daqui a uns anos boleiar na China vai ser ainda mais fácil. Este camionista deixou-nos no que parecia ser apenas uma ruazita onde os camionistas paravam para dormir. Havia ali um putedo tremendo. Mas versátil, porque também cozinhavam. Comemos noodles. Uns com os outros. O Ilya mostrou o seu papel a dizer que era vegetariano, e a mulher deu-nos noodles, mais nada. E foi na mesma.
               
Demos uma vista de olhos num hotel que tinha toda a pinta de ser para o pessoal cortiré com as miudas. Tinha preço para alugar só uma hora. Na altura para mim isso foi a confirmação. Hoje sei que o que não falta na China são hóteis com essa opção, desde o mais rasco ao mais sofisticado. O Ilya queria seguir viagem. Mais uma vez, combinámos tentar um pedaço, e se não desse, arranjávamos um quarto. Arranjámos uma boleia e até ficámos contentes, mas percebemos de imediato que o sítio onde estávamos era a entrada de uma cidade. Ok, não há crise. Demos uma volta na cidade, ainda tentámos seguir viagem mas passado um quarto de hora arranjámos um quarto.
               
- Ora aí está a o verdadeiro hotel todo podre, mesmo ao nosso jeito – disse eu, sorrindo, sendo que até então todos os hóteis eram caríssimos. Nunca saberei que cidade era aquela. O gajo do hotel falava connosco como se lhe tivessemos cortado um dedo do pé no dia anterior. Mas lá nos deu o quarto. Que nem era mau pá. Fomos comer qualquer coisa, e voltámos.

No dia seguinte chegaríamos, finalmente, a Chengdu. Após três dias de boleia. E foi suave. Primeiro um camião duas horas. Depois um carro que nos levou lá direitinhos. Ainda parámos para almoçar. Mais uma vez um banquete. O pessoal parece que pensa num número à sorte, multiplica-o por seis e o que for o resultado é o número de pratos que pede.

E finalmente – Chengdu.

vinte e cinquenta e um-quinta-oito-nove-onze
algures entre Pequim e Erlian







sábado, 30 de julho de 2011

Boleias [1800km em Dois Dias, WTF?]


Dia 7 de Julho acordei para o que seria a minha maior esticada boleiante de sempre. Fizemos 790km! Incrível! No final desse dia a Malásia ficaria para mim como o melhor país para andar à boleia. Isto porque eu não sabia o que o próximo dia me reservara...

Acordámos lá p’rás sete em Singapura, curtíamos chegar à Tailândia, era demais atravessar a Malásia só de uma vez. Um desafio que não consegui concretizar, por 60km, e porque a Sofia já tinha dado o tilt.
               
Tomámos o pequeno-almoço, vi na net com teríamos de fazer, e seguimos. Para sair de Singapura não valia a pena boleiar, porque Singapura é uma cidade, e para sair das cidades geralmente é preciso um meio de transporte qualquer que seja organizado – metro, autocarro, etc. Caminhámos até à estação de autocarro e apanhámos um por cerca de um euro. Esperámos ainda um bom pedaço, e lá arrancámos. Chegar à fronteira, esperar na fila para dar os passaportes, e depois esperar por outro autocarro (com o mesmo bilhete) para sair da zona fronteiriça levou-nos mais de duas horas. O tempo estava a passar e ainda nem tínhamos começado a esticar o dedo. Afigurava-se difícil...
               
Chegámos à estação de autocarros e eu, que tinha de ir atento para ver o melhor sítio, percebi que havia umas placas com E2 – a autoestrada que queríamos. Porreiro. Caminhámos vinte ou trinta minutos e estávamos num semáforo. Aí, o segundo carro levou-nos logo. O casal foi fixe e deixou-nos mesmo na autoestrada, ainda que não fossem p’raí originalmente. Aí apanhou-nos um chavalo todo bacano que ia uns cem quilómetros. Ele parou numa estação de serviço e a Sofia decidiu abordar outra malta, e acabou por nos arranjar uma boleia que ia mais longe do que a desse méne. Corria tudo perfeitamente! Fomos com este carro, que connosco ia cheio, p’rai uma hora e tal. Quando nos deixaram fomos apanhados por dois homens numa carrinha que também nos levaram um bom pedaço e nos deixaram fora de Kuala Lumpur. Como quando um gajo boleia está sempre sujeito a azares (e o mais provável é acontecer sempre um ou outro), o nosso azar do dia foi a chuva. É que os gajos iam deixar-nos ali num sítio bacano para encontrar pessoal que fosse sair de Kuala Lumpur. Mas eis que começou a chover torrencialmente, e tivemos de ficar na estação de gasolina antes da capital. Lindo serviço, toda a gente ia para KL.
               
A Sofia foi comer qualquer coisa e eu fiquei nas bombas de gasolina. Estive lá p’rai duas horas, interpelei centenas de pessoas, até que avistei este gajo com uma camisola com o símbolo de Portugal. Foi sinal – ele levou-nos p’rai duas horas! O gajo tinha condutor, um símbolo especial ao redor do símbolo da BMW, e tinha um autocolante a dizer VIP no vidro. E quando passei pelo condutor, para entrar no carro, ele sussurou-me ao ouvido “ex-police”.
               
A dada altura disse à Sofia para falarmos mais baixo porque parecia que o gajo queria dormir.
               
- Engraçado... parece que ‘tás um bocado cheio de coisas só porque ele supostamente é um gajo importante... -  e estava! Que estupidez! Geralmente não sou nada assim. Então pus-me logo aos berros! Estou a brincar. Mas de todo o modo, como dizia, achei interessante aquele meu comportamento e é algo que não defendo por um segundo, apesar de eu próprio me ter apanhado assim
               
Estes deixaram-nos numa estação de serviço, e passado um pedaço apanhámos outros que nos deixaram numas portagens. Não estávamos a ter muita sorte quando um carro meio podre, lá ao fundo, parecia esperar por nós. Aproximei-me e quando perguntei ao indiano que conduzia para onde ia, ele perguntou-me a mim, sem responder. Eu disse Alor Satar, uma cidade perto da fronteira, e ele disse ok. Fiquei um bocado naquela, e a Sofia ainda mais naquela quando lhe disse que o gajo, na verdade, não tinha dito para onde ia. E aquele carro não ajudava – é um bocado estupidez também. Não que tenhamos julgado a cena pelo preço do carro, mas pela maneira como estava em geral. Aquela falta de asseio induzia uma desconfiançazita. Tanto que, pela primeira vez, sento que devia dizer que estávamos à boleia, e que não queríamos pagar.
               
O gajo acabou por ser muito porreiro. Sempre a falar de amor e família como muitos indianos que já conheceramos, até nos convidou para ficarmos em casa dele. Levou-nos até à portagem, onde meia hora depois apanhámos a nossa boleia final. Um camionista que só falava tailandês e que o fazia de uma forma que parecia estar a ter um ataque epiléptico. Engraçado. Foi um cabo dos trabalhos entendermo-nos com o gajo, porque ele também não parecia ser muito esperto. Mas pronto, levou-nos até a Alor Satar.
               
Quando chegámos ainda pensei em seguir, estávamos pertinho da fronteira (60km mais ou menos), mas a Sofia já estava rebentada. Saímos, caminhámos em direcção à cidade, estacionámos lá num cantito de dedo esticado, mas já era noite, a cena não parecia muito famosa. Mas há malta fixe em qualquer lado! Apareceu um casal numa scooter a perguntar que se passava. Quando lhes dissemos, disseram para esperar que iam buscar o carro. O gajo apareceu dez minutos depois, levou-nos a um hotel (se não gostássemos levava-nos a outro sítio) e foi-se embora, depois de um abraço agradecido.

No dia seguinte acordámos nas calmas, bebemos qualquer coisa, e começamos a boleiar bastante tarde. Onze e tal. Fomos andando sem problema até à fronteira, passámo-la, e a Sofia decidiu que ia apanhar um táxi até Hat Yai e daí um autocarro para Bangkok. Fiquei eu então sozinho. Ia acabar por bater o recorde do dia anterior e fazer 1030km de boleia num dia. Foi perfeito, sem erro nenhum!
               
Apanhei uma boleia de uma senhora p’rai de vinte minutos. Depois, num semáforo, outro senhor. E depois apanhei logo uma que me levou bué de tempo. Iam para depois de Pattalung. Perfeito. Quando saí desta, dei uma mija e apanhei logo um camionista. Andámos um pedaço, ele deixou-me e entrei logo na parte de trás de uma pick-up que me levou p’rai três horas. Quando saí desta entrei logo num camionista que me levou p’rai cinco ou seis horas. Perfeito! O gajo não falava inglês, mas era o maior! Ofereceu-me água logo no início. Depois parou e foi comprar-me duas pizas pequeninas, uma pepsi e um café e mais tarde parou de novo para ir buscar um saco de mangostins, um fruto que agora é dos meus preferidos. Algures no meio disto tudo ainda me deu um colar muito bacana que tinha lá pendurado no espelho restrovisor com um budista cuja estátua se vai vendo aqui e ali na Tailândia. Gajo mesmo bacana!
               
Deixou-me p’rai às duas da manhã num sítio onde podia apanhar um autocarro para Bangkok, estava p’rai a 300km. Pensei nisso, pensei em dormir na rua, e pensei em continuar. Continuei. Estava um bocado receoso, boleiar na Tailândia às duas da manhã era algo de novo. Mas ok, siga.
               
Nos primeiros dez minutos estava a ver como ia ser a cena... ninguém abria o vidro sequer. Iá, vêem um estrangeiro barbudo a querer falar com eles num semáforo às duas da manhã... Ok. Mas siga! Apareceu um méne que me levou a cem à hora (algo muito raro naquelas estradas) mais duzentos quilómetros e ainda me deu jantar – massa com vegetais que tinha lá numa tupperware. Este deixou-me numa estação de serviço e aí levei uma horita a encontrar um transportador de fruta que me levou até fora de Bangkok. Aí entrei logo no carro de um casal simpático que... me deixou em Bangkok. Missão cumprida! Eram cinco e meia, tinha boleiado desde as onze do dia anterior, mas tinha conseguido. 1030km sem pagar um cêntimo, entregue à simpatia de estranhos!

Uma vez em Bangkok, dei umas voltas à procura de um hotel, apanhei um táxi para Khaosan Road, fui interpelado por um méne e acabei por ficar no hotel dele por 6€. Não era barato mas não estava numa de procurar muito mais. Era fixe porque ia ter dois noites pelo preço de uma – das sete da manhã até à hora a que acordasse, e a noite seguinte (em que por acaso acabei por dormir em casa de um couchsurfer).
               
13h36-s-16-7-11
algures entre Siem Reap e Battabang