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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Até Madrid


Tinha seiscentos e trinta quilómetros até Madrid, era muito difícil lá chegar, mas ia tentar. Estava disposto a tudo. Quanto mais perto de casa, mais ansioso estava por voltar. E por isso, estava a ver-me a dormir essa noite numa estação de serviço – outra vez. Mas que se lixe, um gajo arrisca-se a chegar o mais longe possível e sabe o que isso acarreta.
               
Apanhei o metro para a Praça da Catalunha, e de lá um comboio para Castelbisball. Ainda demorei um pedaço a lá chegar. Uma vez aí, foi seguir as instruções que tinha visto na net, e caminhar p´rai três quartos de hora até chegar a uma estação de serviço já na autoestrada, que tanto ia para o oeste como para sul.
               
Quando cheguei estava lá um casal também a boleiar. Ele da Austrália, ela da Bélgica. Mas iam para o sul, por isso não estávamos em conflito. Se não eu esperava. Ficámos lá                 +rai meia hora, até que reparámos que muitos carros vinham lentamente, mas não paravam. Fomos dar uma espreitadela e pelos vistos havia uma zona de restauração com mais carros do que a gasolineira onde nós estávamos.
               
- Vocês estavam aqui primeiro, por isso podem escolher... Querem ir para lá ou ficar aqui?
- Ficamos aqui... – porreiro, era o que eu queria.
- Porque é que não levas a camisola de Portugal? Pode ser que alguém reconheça e simpatize – tinha dito o Albert, um par de horas antes. Assim o fiz.
- Você sabe, eu vi sua camisola, vi que era português, e cria-se logo um clima, você entende... – disse o Jairo, mais tarde, a olhar para mim, no banco de trás. É que mal cheguei à zona de restauração abordei logo o rapaz de um casal. Ele falou comigo em português brasileiro, disse que por ele não havia problema, tinha só de confirmar com a sua namorada. E não só não houve problema como também andaram uma distância espetacular! Deixaram-me fora de Saragoça, duzentos e tal quilómetros depois. Fomos sempre à conversa. Um casal muito simpático, ela francesa, ele brasuca. Ele passou meio ano em Portugal a viajar, vive agora em Barcelona, onde a conheceu. Sonham mudar-se para o Canadá. Despedimo-nos como um abraço, algo que vinha a acontecer com alguma frequência com o pessoal que me dava boleia, e eu lá fiquei.
               
O problema com aquela estação de serviço é que era a única, e dava para os dois lados. Não era bissexual nem nada, simplesmente era um sítio onde o pessoal que ia para Barcelona também usava. E pelos vistos, tirando os ocasionais couristas, toda a gente ia para Barcelona. Basta dizer que cheguei lá à tarde e saí de noite. Por isso estava certo de que usaria a minha mochila como almofada nessa noite.
               
Quando o sol já se tinha mudado para outras paragens, fui dar uma volta a investigar um bocado, ver se havia outros sítios mais propícios. Encontrei, ali num canto à saída do que parecia ser um parque de estacionamento para camiões, um cota com ar de peregrino, ou vagabundo, algo por aí. Tinha          

P´rai cinquenta anos, uma camisola de malha, um lenço ao pescoço e calças de fazenda. Nas mãos um cartão com algumas terras portuguesas e tinha um cajado também. Perguntou-me em espanhol, mas com sotaque português completo, de onde é que eu era, e comecei logo a falar em português.
               
- Você sabe se os camionistas também andam à noite? – perguntei-lhe.
- Você não anda muito à boleia não é? – perguntou também. Senti-me meio incomodado com aquele comentário. O que é curioso, parece que atacou o meu ego e eu, infantilmente, senti a necessidade de dizer que sim, até andava, e tinha feito não sei quantos mil quilómetros à boleia. Ele depois explicou-me algo que eu já sabia, acerca do facto dos camionistas terem um número de horas que podem conduzir por dia e não sei quê. Ele já tinha arranjado uma boleia até Burgos mas ainda assim procurava algo que o pudesse levar mais longe. Pareceu-me que el já tinha interpelado toda a gente ali, por isso não vi grande propósito em ficar. Ele atravessou a estrada comigo.
- Eu? – disse, quando lhe perguntei qual era a cena dele – Eu sou vagabundo. Ando sempre por aí e às vezes, quando não tenho que comer, volto a Portugal. Às vezes peço dinheiro também, não tenho vergonha nenhuma, é assim – respondeu. E eu reparei como, talvez incoerentemente, não senti nenhum stresse com o gajo pedir dinheiro. Isto porque nunca dou dinheiro só por dar. Dou quando alguém está a tocar música ou a prestar um serviço qualquer, mas não concordo muito com a cena de incentivar à dependência de outros. Está certo que me deram algum dinheiro nesta viagem, mas nunca o pedi. Pedi uma vez, no Paquistão, que me dessem algo para comer, mas não pedi dinheiro. E por isso mesmo, por dar dinheiro não seja uma coisa na qual eu embarque, estranhei não estranhar a cena do gajo, e até pensei em dar-lhe dez euros. Talvez por termos algo em comum, o espírito de andarilho, tenha visto as cenas de uma luz diferente, o que só vem acrescentar à noção da relatividade de leis e correctos e errados. O absolutismo é algo em constante decadência, e assumir que há uma visão para tudo é a maior falácia que podemos cometer.
               
Estávamos os dois à porta do restaurante onde eu tinha passado a tarde toda, quando sai um homem dos seus trinta e tal anos. Pergunto-lhe se vai na direcção de Madrid, mas já sem grande entusiasmo. Ele diz que sim, eu pergunto se me pode levar, e ele diz que tem de esperar pela mulher para ver o que ela acha. Espero uma grávida a sair e vejo aí o meu bilhete para mais uma noite ao relento. Sei lá, as grávidas têm mais aquele instinto ali a bombar que as faz querer proteger a famiília como uma chita. Mas nada disso.
               
- Vocês são dois? – pergunta-me o homem, ainda meio desconfiado.
- Não, sou só eu – respondo. E segui. Fomos sempre à conversa. Sei que o pessoal fica sempre impressionado com o meu trajecto e vou contando as cenas para fazer com que lhes tenha valido a pena dar-me boleia. Não só para os deixar bem, mas para aumentas as probabilidades de levarem a próxima pessoa que lhes peça boleia.

Eles iam para Valladolid, mas iam ficar a caminho para dormir. Estavam com pena de me deixar assim à noite, à chuva, numa estação de serviço, mas eu disse-lhes que não havia problema nenhum, já estava preparado para isso. Um bocado admirados e confusos com a leveza com que enfrentava não saber nada acerca do meu destino, lá me deixaram, não sei antes tentarem, por mim, pedir a um ou outro que me levasse. Saí do carro, caminhei para a gasolineira.
               
- Você vai para Madrid? – perguntei, em espanhol.
- Vou – respondeu o camionista, meio mal encarado.
- Posso ir consigo, por favor?
- Mas que vais fazer para Madrid? – perguntou, com cara de gozo. Lá expliquei que estava a caminho de Portugal e tal, e que Madrid estava a caminho. O gajo estava no gozo comigo, só isso. Na boa. Disse que me levava, e para eu esperar à frente do restaurante. Todo contente, fui a correr para dizer aos qure me tinham acabado de deixar e que até estavam um bocado preocupados comigo. Mas já tinham ido. Eram dez da noite, lá         +rá meia noite ia conseguir chegar a Madrid, incrível. O cota lá apareceu outra vez, pagou-me um café e um moscatel, e seguimos caminho.

- Tu que fazes? – perguntou-me, já no camião. E quando eu disse que era psicólogo, senti que o gajo viu ali, como outros, uma oportunidade para falar das suas cenas. Perguntou-me primeiro com quem tinha trabalhado e disse-lhe que durante nove meses em Portugal e meio ano na Noruega, tinha trabalhado com toxicodependentes. Quando me perguntou qual achava ser o problema de toxicodependentes, dei-lhe a minha opinião pessoal e profissional. Que na grande parte das vezes uma dependência extrema não é necessariamente o  problema, mas o sintoma de outros problemas latentes. Isto é, não basta abordar o gosto que se tem por uma grande moca e tudo mais, mas o que é que levou àquilo.

- Então vou dizer-te uma coisa... eu... fui para a tropa aos dezoito anos de idade. Até lá, nunca tinha fumado um charro na VIDA. Nunca tinha tocado nisso. Mas aos dezoito anos, meti-me num barco para Ceuta, e experimentei. E desde então, fumo um ou dois charros todos os dias pá... que é que tu achas disso?
- Pá eu não acho que isso seja necessariamente um problema, porque não ponho a ganza na mesma qualidade das outras drogas. Acima de tudo é um problema de é algo que tem um efeito no teu dia-a-dia, na tua rotina, no teu estar, no que fazes ou deixas de fazer. Não há provas de que a marijuana faz mal à saúde, – e não há – pelo menos não faz pior do que um cigarro normal. As dependências que causa não são físicas mas psicológicas...
- Pois mas a mim faz-me uma diferença... no meu dia-a-dia, ou como quer que tu o chames... porque todos os dias tenho de dizer à minha mulher que vou visitar a minha mãe, ou que vou ao café, ou que vou ao caralho, só porque tenho de fumar um charro – disse-me.
- Isso talvez se prenda com o facto da tua mulher se deixar influenciar pelo facto de ser ilegal. Às vezes, e sem ofensa para a tua mulher, o pessoal é preguiçoso... não quer pensar nas cenas a fundo então deixa-se ir com a opinião geral, com a sociedade ou pela lei... É ilegal, então é mau e devo condenar isso, é o que o pessoal pensa logo... – e tenho isto como verdade. Porque se perguntarmos a alguém porque é que a ganza é ilegal, o pessoal vai dizer cenas como “porque é droga” ou algo assim. Iá, pois é. Mas o álcool é droga e mata milhões. O mesmo se passa com o tabaco. Ao passo que nunca houve uma morte registada devido ao uso de marijuana. E acho uma hipocrisia de topo o pessoal que vem com estes couros mas depois anda cheio de antidepressivos, medicamentos para dormir e drogas que tais...
- Pois, era mais fácil se eu pudesse fumar à frente dela. Mas o erro foi meu... desde o início que escondi, e depois era tarde demais...
- Já pensaste em abrir o jogo? Tu próprio já disseste bastantes vezes que a tua mulher é uma pessoa inteligente e formada, se calhar nem tem problema com nenhum. Se lhe disseres a verdade, se lhe mostrares que és a mesma pessoa antes e depois de fumares, – como eu sei que era, porque esta conversa foi tida enquanto ele fumava um charro – pode ser que ela perceba. E pode ser que prefere que passes mais tempo em casa, em vez de estares a inventar desculpas para sair de casa todos os dias... já pensaste nisso? – ele já tinha pensado nisso.
               
O Eduardo era um gajo muito porreiro, boa gente, mas daquelas com um temperamento difícil. Eu percebi isso pela maneira como ele amaldiçoava outros condutores só por existirem, e ele também fez questão de mo dizer. Levou-me direitinho a Madrid, na periferia onde os camionistas passam a noite. Estava mesmo preocupado em saber onde eu dormiria, acho que se não tivesse onde ficar podia ter ficado na cama de cima do camião. Na verdade não tinha sítio para ficar, só pensava que sim. É que quando passei a tarde toda na estação de serviço nesse mesmo dia tinha tido uns minutos de internet e tinha visto que tinha tido um pedido aceite no couchsurfing. Mas não abriu e não consegui ver mais nada além do “maybe”. Soube, mais tarde, que era para Saragoça, por isso nada feito.
- Ainda vais escrever umas páginas sobre mim no teu livro Pedro, não vais? – perguntou-me. Tinha-me já perguntado se eu fazia um diário da viagem, e eu tinha-lhe dito que sim e que gostava de partilhar as minhas experiências com o resto do pessoal.
- Vou Eduardo, vou... tu és um bom moço...
- Foi a melhor boleia que apanhaste ou quê? – perguntou, com um grande sorriso.
- Foi das melhores, sem dúvida – disse, com sinceridade. É que gostei da forma como aquele gajo com uma carapaça dura se abriu e fez questão de me ter bem. Quando chegámos à Merca-Madrid, ele apontou-me onde tinha de apanhar o autocarro para o centro de Madrid. Eu saltei para a estrada, ele chamou-me e deu-me uma casa. Na saca tinha pão, chouriço, presunto, sardinhas em lata e patê. Que cena, curti bués.
               
Despedimo-nos e apanhei o autocarro para o centro. Não tinha sofá, mas tinha internet no autocarro – cool! Fiz umas sandes, que comi enquanto procurava por um hostel na internet. “One Malasana”, pareceu-me bem. Barato e bem cotado no hostelworld. Siga...

segunda, dezasseis e treze, vinte e oito de novembro de dois mil e onze
Portalegre, Portugal

domingo, 11 de dezembro de 2011

Entre Langenargen e a França


Na segunda acordei cedo e fui outra vez com o Danny ao escritório do pai para ver o meu trajecto na net. Tinha 451 quilómetros até Turim, onde alguém tinha aceite albergar-me. A cena é que eu sabia o quão difícil era boleiar na Itália, por isso não estava assim muito positivo. Se eu soubesse o quão difícil é boleiar na Suiça também, aí estaria negativo de todo...

Apanhei uma boleia até àquele sítio onde se vendem as vinhetas de autoestrada para a Áustria e aí apanhei uma boleia com um senhor muito simpático. Ele ia falando alemão devagar e com palavras fáceis para eu perceber, e às vezes metia uma inglesa no meio. Falámos acerca de dinheiro. Ele dizia, e eu dizia, que não interessa, que não é importante. Mas apesar de ele ser um senhor muito simpático e com boa onda, não sei o que sinto ouvindo alguém que conduz um BMW X5, tem um iate, cavalos e não sei quantas casas, dizer isto. É uma posição um bocado privilegiada, no mínimo...
               
Tinha quase sessenta anos, e foi com um sorriso mental que confirmei namorar, ou estar casado, com uma miúda mais nova. É que tirei-lhe a pinta, e reparei, mal entrei, numa caixa de viagra ao lado do seu maço de marlboro lights. Na verdade, e ele fez questão de me mostrar a fotografia (tal como dos seus cavalos, filhos e ex-mulheres), ele estava casado com uma mulher de trinta e poucos. Que goze a VIDA.
               
O senhor ia para Zurique. Ora eu tendo esperado ainda um bom bocado até que aceitassem levar-me, achei que o melhor seria deixar-me ir até lá e depois ver. Ao sabor do improviso, que nem sempre é o nosso melhor amigo. Ele deixou-me numa estação de serviço fora de Zurique, e eu fiquei aí a tentar safar-me. Mas ninguém ia para onde eu queria, ninguém...
               
Segui com um rapaz que ia para Zurique, e que me disse haver uma zona de merendas antes da última saída, onde parava algum pessoal, e alguns que me interessavam. Assim fiz, sem nenhum resultado positivo. Sentia que na Suíça boleiar era mais difícil do que nos outros países todos – à excepção do ex-libris da anti-boleia, a Itália. O pessoal nem era muito arrogante, mas sentia que mandavam cada couro, que se fossem filhos do Gepeto matavam-me ali com um buraco no cérebro.
               
E assim, contra qualquer prognóstico, dei por mim em Zurique! O meu plano era entrar na cidade, arranjar net e pedir ao hitchwiki para me dizer como tinha de fazer para seguir para a Itália. Apanhei boleia com um senhor que me deixou no centro, caminhei avenida abaixo e estacionei à frente da loja da apple. Agora o pior é que o hitchwiki não estava a funcionar. Perfeito! Pedi a um amigo que estava em Birmingham para o ver por mim, mas pelos vistos o site não estava a funcionar em lado nenhum. Tentei então um método alternativo. Escrevi “hitchwiki zurich” no google, e apesar do site, em si, não funcionar, na lista que aparecia dada pelo motor de busca, ainda dava para ver uma linha que dizia “vai caminhando seguindo as placas que dizem Lucerne. Que terror... Caminhei, com aquele peso todo, mais de duas horas, e o tempo a passar. Estacionei ao lado de um semáforo e mais uma hora passou. Estava a abordar o pessoal que vinha da estrada onde eu estava, mas por sorte, reparei numa matrícula lituana na outra estrada, e comecei a esbracejar e a apontar para o meu sinalzinho que dizia Lucerne. Os gajos levaram-me. Eram georgianos.
               
Como eu não queria ir para Lucerne, só andámos um bocadito e eu fiquei numa estação de serviço. E acho que esta estação de serviço ficou no top dez de onde passei mais tempo. Pá devo ter abordado mais de cem pessoas, perguntando se iam para o sul. Estava atento às matrículas. “TI” seria perfeito, que era uma terra já na parte italiana da Suiça. Depois havia outras de que já não me lembro. De vez em quando aparecia um ou outro jovem que me queria ajudar, mas que não iam para sítios espetaculares. Estive ali p´rai duas horas e meia, até que tive mesmo de comer alguma coisa. Como me custou dar cinco euros por uma daquelas sanduíches de triângulo... Mas paciência, um gajo tem de comer.
               
Descobri que aquela estação de serviço tinha net, e fui mandar vinte pedidos de couchsurfing para Lucerne, caso não me conseguisse safar. Mas consegui! Já desanimado, vi uma matrícula “TI” e fui tentar a minha sorte. Esperei junto à carrinha que levava no reboque um mini dos antigos com aqueles números de quem anda no rally, e quando o gajo chegou, perguntei-lhe em italiano. E ele disse que sim!
               
O Frank era um alemão daqueles que me deixa com menos medo de envelhecer. Muito boa onda, vive a sua VIDA sem ser obcecado com dinheiro, não complica.
               
- Pá... a dada altura trabalhava em marketing... a convencer pessoas a comprarem cenas de que não precisam, – o que me faz detestar marketing e publicidade – a movimentar milhões de euros dos clientes... mas não estava nada bem. Ganhava muito mas era tudo para comprar coisas de marca, carros e essas merdas todas que no final do mês me deixavam teso como se não ganhasse quase nada... e por isso, pá, mudei... uma namorada minha tinha uns cavalos, comecei a trabalhar nisso. Durante uns anos a minha VIDA era tratar dos cavalos dela, olhar pelos filhos dela... depois as coisas correram mal e foi cada um para seu lado. Agora compro carros, arranjo-os, e vendo-os depois. Não me dá muito dinheiro, mas dá para o que preciso, e é uma coisa que gosto de fazer...
               
Foi uma das melhores boleias que tive, ponho o Frank e o Tomasz que me deixou em Berlim no mesmo saco.
               
O Frank deixou-me numa estação de serviço a p´´rai cem quilómetros de Milão, já de noite. Estava a chover e aquilo não era muito movimentado. Vi, na gasolineira, um Fiat de matrícula italiana e resolvi esperar pelos donos. Primeiro pedi em italiano, não perceberam. Pedi em inglês, vi a dúvida naquele olhar, que tentei aniquilar com um sorrisinho simpático. Era um casal russo e senti que a decisão era da rapariga. Ela disse “ok” mas sem estar muito convencida.
               
Demo-nos muito bem, fomos o caminho todo a conversar, e senti que eles curtiram conhecer-me. Senti que iam recordar-se da boleia que deram àquele gajo que estava a vir por terra desde Singapura – e do mesmo modo que eu me vou recordar do casal de russos que em sete dias queria conhecer sete cidades europeias; e que tinham conduzido um dia quase todo para ir e vir a Zurique, tendo lá estado um par de horas e fugido de medo com os preços.

Podia ter ido com eles até Milão, mas não havia grande sentido nisso, sendo que não tinha onde ficar. Iá, podia mandar assim uma catrefada de pedidos, mas já era tarde. Decidi ficar na estação de serviço, sem saber que ia ter de fazer, no dia seguinte, o que tinha feito nesse mesmo dia – entrar dentro de uma cidade grande só para me orientar bem.
               
Fui perguntado ao pessoal, mas nada. Além desse “nada”, ia aparecendo aquelas trombas de vez em quando, que não são raras na itália. Pouquíssima gente ia para Turim, p´rai um ou dois, e esses “não levavam estranhos”. Assim, meti-me na área de restauração da estação de serviço, e ia perguntado ao pessoal que entrava.
               
Tudo o que tinha comido nesse dia tinha sido aquela sanduíche tri,angulo de cinco euros na Suíça. Comprei uma baguete de meio metro por um euro, meti-lhe azeite que havia ali ao lado, e comi aquilo em menos de três minutos. Eventualmente desisti de perguntar à malta para onde ia, e comecei a estudar hipótese de soneca. E que hipótese! Na sala onde tinha a televisão e as mesas para o pessoal jantar, havia uma secretária enorme, com um computador enfiado na mesma, daquelas com um ecrã embutido, e estava a um canto, na diagonal, fazendo um triângulo com as paredes. A ideia era o pessoal consultar o trânsito naquilo. “Ora cá está daquelas coisas que parece muito lindo e tal mas que ninguém usa...”, pensei. “E como ninguém usa e isto está nesta posição bestial, vai servir perfeitamente para me esconder”. E que posso dizer? Dormi até às nove e pico... Quando acordei, desisti de pedir boleia para Turim e fui até Milão. E que terror me esperava...
               
O gajo que me levou deixou-me perto de uma saída para a autoestrada, que dava para muitos sítios, Turim, ou Génova (também a caminho de França) incluído. Mas não passava ali ninguém! Por sorte, aquilo era mesmo ao lado de um McDonalds, onde eu podia usar a internet. E por ainda mais sorte, a miúda que lá trabalhava era fixe e deixou-me usar o telemóvel dela para receber a password. é que o governo italiano tem altas paranóias de terroristas usarem a net não sei para quê e sempre que alguém usa um wireless tem que ser assim registadinho. Vi onde era um sítio mais propício para ir para Génova e meti-me a caminho. Cheguei passado uma hora e tal. E era um sítio de merda. Ali num semáforo, antes da entrada da autoestrada. Ora se quando abordo os italianos nas estações de serviço eles não são muito de levar um gajo, ali especado com um sinal a dizer Génova, muito menos. Estive ali duas horas, até que decidi mudar para um sítio melhor, desse por onde desse.
               
Fui caminhando mais ou menos paralelamente a essa estrada, avancei umas cercas, caminhei ao longo da autoestrada rapidamente para a polícia não me ver, avancei mais umas cercas, e fui parar a uma estação de serviço. Melhor sítio não havia.
               
Passado uma hora estava no quarto do Marco, que acabaria por salvar o meu dia. Era um farmacêutico muito bacano que tinha trabalhado um ano e meio em Barcelona, já tinha estado uma catrefada de vezes na América do Sul e era couchsurfer. Demo-nos bem, e ele deixou-me numa estação de serviço onde poderia haver pessoal que seguisse para a França. A cena é que essa não era a melhor estrada para terras gaulesas, mas eu já estava por tudo.
               
- Tens aqui o meu número, se tiveres algum problema ou não arranjares nada, podes dormir em minha casa logo, sem problema – disse-me ele, após me pagar uma sanduíche e uma garrafa de água. E foi precisamente o que aconteceu... Não encontrei nada para lados franceses, fui até Génova com um senhor que até arranhava o português. Chegando lá, passei uma horita na internet, e liguei-lhe. Estava a beber um copo com dois amigos, juntei-me a eles, depois fomos jantar, e fomos para casa não muito depois. Estivemos à conversa até à uma e tal fomos dormir.

terça, catorze e quarenta e dois, vinte e dois de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Portugal

sábado, 3 de dezembro de 2011

A Caminho de Langenargen


O David chegou do trabalho às seis e tal da manhã. Acordei, pronto para bazar, mas ele perguntou se eu não preferia dormir mais um bocado, e que depois ia depois do almoço. Eu fui fraco, e cedo perante o João Pestana.
               
Assim, acordei, cozinhei qualquer cena, comi, e o David, como bacano que é, acordou para me ir levar a uma estação de serviço que seguia para sul. Lá, ainda tentei abordar o pessoal, mas achei que era melhor ir para a saída com o cartaz. Escrevi “Stuttgart” e esperei. Apanhou-me um rapaz, levou-me p’rai uma hora e deixou-me numa estação de serviço. Comecei a topar que aquilo não ia ser assim facílimo. Tinha quinhentos e sessenta quilómetros pela frente até Langenargen, e pelo que parecia uma boa parte dos mesmos era por estradas secundárias. Saí na estação de serviço, perguntei a um francês se me podia levar, e o gajo disse logo que sim. Esperei um bocado enquanto comia as suas bolachas e bebia o seu leite achocolatado, e andámos uma horita, até que ele me deixou noutra estação de serviço. Aí apanhei um gajo que ia para Karlesruhe. Senti que se eu ficasse por lá podíamos sair juntos mais logo, mas eu preferi seguir viagem. Ele deixou-me na cidade, mas numa saída para a autoestrada que parecia porreira. Ora não sei que se passou, ou ele se confundiu ou confundiu-me, mas eu fui para onde eu achava que ele me tinha mandado e estive ali à boleia p’rai meia hora até perceber que quando os condutores apontavam, com cara de confusos, para o lado oposto, tinham alguma razão. Porque eu estava a boleiar para o lado errado. Lá me meti no sítio certo, e apanhei boleia de um bombeiro voluntário a tirar um doutoramento em biologia muito porreiro que me perdeu mais de uma hora só por minha causa.
               
- Não tens de me levar até à saída pá... – disse eu, ao ver os quilómetros que o esperava do outro lado, quando voltasse para trás...
- É na boa, eu disse que te levava, levo... – e lá fomos. Quando lhe perguntei as cenas mais difíceis de ser bombeiro, ele falou-me dos suicídios nas linhas de comboio. Falou-me do Efeito Werther e comparou-o com o Enke, o guarda-redes que já jogou no Benfica e que se suicidou, precisamente desta forma, em dois mil e nove. O Werther é um livro do Goethe que eu estava a ler mesmo antes de partir para esta viagem. Acho que não estrago nada dizendo que o personagem se suicida no fim. Não estrago nada porque acho que a beleza do livro não se prende com surpresas ou cenas do género.
- Quando saiu o Werther, houve um aumento de suicídios... e eu reparei que quando o Enke se meteu à frente de um comboio, houve um aumento do número de pessoas, na Alemanha, que se suicida desta forma.

Ele deixou-me numa estação de serviço e entrei logo no primeiro carro que apareceu, que me levou ao sítio onde penaria um bocado. Já era de noite, e estava perto de Augsburg, onde tinha a Mimi, uma amiga alemã que conheci em Birmingham. Plantei-me à porta do McDonald’s e perguntava, em alemão, a toda a gente onde ia. Nada feito. De vez em quando aparecia pessoal que ia para Munique, que era na direcção contrária, e pensei em ir com eles e depois ver o que fazia. Mas acabour por não acontecer.
               
Quando o movimento no McDonald’s abrandou, fui para a gasolineira. Esperei um pedaço e encontrei um rapaz que estava em erasmus na Holanda e tinha vindo passar uma semana a casa. Uns amigos iam ali buscá-lo e ele ia para Kempten, que já era perto de Langenargen, a oitenta quilómetros.
               
- Pá se eles forem só dois podes vir connosco, é na boa. Caso contrário talvez não haja lugar... – disse. E eu esperei, eram só dois, e segui com eles. Ora a grande asneira é que o gajo estava tão excitado a contar todas as estórias que um gajo em erasmus em Amsterdão tem para contar, que se esqueçeu de parar na estação de serviço antes do corte que me interessava. Pediu desculpa, eu disse que era na boa, para não se preocupar. Desde que as pessoas não façam algo propositadamente e que não seja recorrente, acho que perdemos o nosso tempo com tripes.
               
Mas... lá fiquei numa estação de serviço, às não sei quantas da noite, onde os poucos carros que apareciam iam para um lado que não me interessava. Ia esperando na loja onde se paga, para me abrigar do frio, até que apareceu o méne que lá trabalhava e me disse, em alemão e que compreendi surpreendentemente bem, que precisava de trabalhar e não podia estar sempre de olho em mim. E que eu tinha de bazar para a outra parte, a da restauração. Mas foi simpático, ofereceu-me um café e tudo.
               
Lá fui, sentei-me num canto onde as luzes estavam apagadas, escrevi um bocado e comecei a pensar em dormir. A gaja que lá trabalhava tinha cara de antipática, por isso queria ter cuidado. Assim, com muita cautela para não fazer barulho, deitei-me debaixo da mesa, dentro do meu saquinho-cama, e “dormi” umas horas, até às cinco ou seis.

Acordei com o rapaz da loja, que a rapariga tinha ido chamar. Boa onda. Deixou-me dormir mas quando chegou àquela hora em que o pessoal ia começar a chegar para o pequeno-almoço, disse para acordar. É justo. E ainda me deu um café.
               
Fui fazendo tempo, vi um filme foleiro, e depois arregaçei as mangas. Percebi logo que ninguém ia para onde eu queria, por isso fui com o primeiro que disse que ia para Kempten. Não era a melhor maneira, mas que se lixe. Dei uma olhada no mapa na estação de serviço e percebi que se atravessasse Kempten a pé podia ser que desse.
               
O gajo lá me deixou nesta vila, caminhei um par de horas, e estava na saída. Tive sorte. Apanhei boleia de duas senhoras daquelas de meia idade que gostam dos prazeres da VIDA. Iam para a Áustria a uma mostra gastronomica. Uma delas tinha vivido no Egipto, organizando tours ao deserto no seu jipe. Foi uma boa boleia, longuita, e passando por paisagens da Baviera excelentes. Deixaram-me em Lindau, depois apanhei uma boleia p’rai de cinco minutos e fiquei, bem, a cinco minutos de distância. Fui a um shopping e tentei ligar ao Danny, com quem tinha estado no deserto de Gobi. O gajo não atendia... e eu ali, num sítio onde talvez nunca viesse a estar. “Que se lixe, ‘bora até lá na mesma e já se vê”, pensei.
               
Apanhei boleia de um senhor simpático que me levou de propósito (mais cinco quilómetros) a Langenargen. Fui a outra cabine, tentei, com os dedos cruzados, ligar ao Danny. Ele atendeu.

quinta, dezassete e quarenta e um, dezassete de novembro de dois mil e onze
Vale de Cambra, Furadouro